Águas Perigosas Treasure Of The Heart



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Águas Perigosas
Treasure Of The Heart
Pat Louis



Mergulhar à procura do tesouro de um navio naufragado era um trabalho difícil naquele mar perigoso, povoado por enormes e vorazes tubarões, polvos e peixes-elétricos. Mas o maior desafio para a jovem mergulhadora Lidia Cameron era esconder sua paixão por Burt Adburee, seu patrão, homem rico e aventureiro.

O milionário, além de maltratá-la, obrigava-a a trabalhar duro, enfrentando os monstros marinhos que guardavam o tesouro afundado. E foi naquelas águas perigosas que Lídia se encontrou frente a frente com um tubarão assassino! Morreria no fundo do mar? Ou o belo e insensível Burt viria salvá-la?
Digitalização: Nina|Vicky

Revisão: Cynthia



CAPÍTULO I

Lídia Cameron teve vontade de não atender quando bateram à porta de seu quarto, no hotel. Só podia ser Raul. Todos os outros, tios, tias e primas distantes, haviam viajado logo após o enterro, pretendendo percorrer a longa distância entre Miami e Atlanta, onde moravam, antes que escurecesse. Não tinha mais nada para dizer a Raul. Lídia passou a mão pelos cabelos curtos e loiros, num tique nervoso que era sua mania.

Seu irmão, aos vinte e um anos, era um boa-vida que só fazia o que queria, e ela vivia atrás dele, tentando consertar os erros. Contudo, não se importava com isso, pois era muito dedicada à família, que até há pouco tempo se resumia apenas em Raul e sua mãe.

O pai já havia morrido há alguns anos e agora, com a recente morte da mãe, Lídia se tornara o cabeça da família, apesar de ser apenas quatro anos mais velha do que Raul. É que sua mãe, antes de morrer, a fizera prometer que tomaria conta do irmão até que ele criasse juízo. Gostava muito da mãe e de Raul, por isso dera sua palavra, e essa promessa lhe transmitiu uma nova sensação de importância, de ser necessária, ao mesmo tempo em que servia para preencher sua solidão. Desde que Ben a desiludira, há três anos, Lídia criara uma barreira entre ela e os homens, temendo ser magoada de novo. A doença da mãe tinha sido mais um pretexto para que se afastasse dos homens.

— Ei, maninha, você está aí? Abra a porta!

Raul tinha uma voz bonita e agradável; jamais gritava ou fazia cenas. Tinha o sorriso fácil e um jeito todo especial, afável e lisonjeiro, de ser convincente. Era um belo rapaz de um metro e oitenta, bem mais alto do que a irmã, com um porte majestoso e um ar indomável de liberdade. Lídia temia não ser capaz de orientá-lo e tomar conta dele, conforme prometera à mãe.

Abriu a porta, afinal, e ficou parada, olhando o irmão descalço e sem camisa.


  • Não vai me convidar para entrar? — perguntou ele.

  • É claro! — respondeu ela, afastando-se para dar passagem. — Entre.

Raul foi direto para a cadeira e deixou-se cair, com displicência. Apoiou a cabeça no encosto da cadeira, deixando bem à mostra os olhos negros, o bigode e a barba bem aparados, emoldurados pelo cabelo de corte moderno:

  • Não parece muito contente de me ver. Você estava de saída? — perguntou ele, notando que ela estava de saia e blusa, com sandálias de salto alto. Olhou-a com aprovação e deu um assobio elogioso. — Você vai deixar os caras malucos, maninha! Nunca nenhum deles lhe disse que esse seu cabelo loiro queimado de sol é muito sexy? É claro que seria mais sexy ainda se você deixasse crescer. Mas não se aflija, você ainda vai encontrar quem goste.

  • Não estou procurando ninguém — interrompeu ela, com um suspiro.

Lídia tinha o corpo curvilíneo e bem-feito, que atraía muitos olhares e assobios masculinos. Ela sabia que agradava aos homens, como sabia também que, naquele momento, o irmão estava dizendo aquilo só para bajulá-la. Esse era o jeito de ele cair nas boas graças de qualquer mulher, para impor sua vontade.

Ela suspirou de novo, sentindo-se maternal em relação a Raul.



  • Não vou sair, não — respondeu. — Só que não esperava vê-lo tão cedo. Não temos mais nada a dizer, Raul. Já discutimos tudo o que devia ser discutido.

  • Eu queria fazer só mais um pedido, maninha. — Raul deu um sorriso de derreter corações. — Não vá para Key West amanhã, atrás de mim. Já está tudo acertado com Burton Adburee II., É trabalho limpo. Não estrague as coisas para mim, por favor!

  • Não pretendo estragar nada para você — disse ela, sentando-se na beirada da cama —, mas é que fiz uma promessa a mamãe. Não posso deixar você se meter numa aventura dessas, sozinho. Burton Adburee II! Mergulhar à caça de um tesouro! Sabe-se lá! Ele não passa de um playboy, que gosta de aparecer fazendo extravagâncias! Além disso, você não tem muita experiência em mergulhos. Isso não é nada seguro!

Raul semicerrou os olhos, insistindo de um jeito carinhoso.

  • Eu tenho um certificado do curso de mergulhador, Lídia...

  • Curso que você terminou na semana passada.

  • Burt achou que era suficiente.

— Hum, que intimidade! Agora já é Burt? — Lídia cruzou os braços. — Ele quer que você arrisque sua pele só por três dólares por hora. Não vê que esse sujeito está explorando você? Fica só falando de galeão afundado, tesouro espanhol, ouro! Ele está jogando a isca e você caiu direitinho!

  • Você prefere então que eu continue fazendo meu show de mágicas? Posso arranjar um contrato para o Tropicana ou talvez o Copário. Eu estava me saindo muito bem, sabe? Mas você e mamãe não gostavam disso. O que você espera de mim, afinal?

  • Já deixei bem claro, Raul! Eu ficaria muito contente se você concluísse seu curso de administração de empresas, na faculdade. Gostaria de vê-lo num emprego bom e seguro, onde tivesse algum futuro, e não pulando de galho em galho, nesses empregos malucos, como fazer mágicas ou mergulhar à caça de um tesouro para uma pessoa com Burton Adburee! Você não pode ficar para sempre nessa vida de irresponsável!

  • Se você acha que Burt é um playboy, então como é que está querendo trabalhar para ele? Aposto como ele não vai lhe dar emprego. Você é uma sonhadora, Lídia!

  • Tenho certeza de que vou conseguir esse emprego!

  • Burt não vai contratar você. Para que perder tempo pedindo o emprego? Por que não arranja um cara e não se casa? Você é do tipo que gosta de vida familiar. Desde que Ben deu o fora, você fica fugindo dos homens. Como é que vai se casar assim?

  • Minha vida particular não é da sua conta!

  • E você também não tem o direito de se meter na minha! Papai já morreu há cinco anos! Você não pode querer viver o sonho dele. Eu acho que a morte do nosso pai naquele acidente de mergulho foi o motivo de você ter ido estudar arqueologia submarina!

  • Talvez você tenha razão, num certo sentido, mas concordo com a posição dele de preservar o meio, no fundo do mar. Foi por isso que estudei: eu acho, como ele, que toda pesquisa submarina e recuperação de destroços tem que ser feita cientificamente. Foi o que "aprendi no meu curso, e pretendo pôr em prática!

  • Ótimo! Mas por que não faz só isso e me deixa em paz?

  • Vou falar com o Sr. Adburee porque quero conseguir um trabalho qualquer, primeiro para ficar perto de você e depois para empregar tudo o que aprendi. Já estava mais do que na hora de eu largar a comodidade de um trabalho na universidade e exercer de fato minha profissão! Sabe, descobri que é difícil encontrar um emprego como arqueóloga marinha! O mercado de trabalho é muito restrito.

  • Ah, mas que nobres propósitos! — ironizou ele, fingindo enlevo. Depois ficou sério. — Fique aqui, maninha. Sei que deve ser chato ficar só datilografando dados para um professor, sem ter a emoção de mergulhar, mas...

  • Ora, Raul, pare com isso! Você parece não levar a sério o meu trabalho!

  • O que eu estou dizendo é que Burton Adburee não vai querer saber dessa conversa de arqueologia submarina e pesquisa científica das peças encontradas! Agora uma coisa eu garanto: ele gosta de mulher bonita e você é bem atraente! Esse seu corpo de violão, esse seu rosto perfeito, com esses olhos esverdeados... Uau! E ainda esse perfume delicioso que você usa, é de virar a cabeça de qualquer um! Burt vai querer você, sim, mas não para o que você está pretendendo. Ele vai convidá-la para jantar e outras coisinhas mais... mas aposto como não vai deixar você se meter na operação de mergulho!

Lídia abriu a porta e ficou parada ao lado, batendo o pé no chão, em atitude de impaciência.

  • Dê o fora, Raul. Vou sair daqui amanhã às dez horas em ponto. Se quiser ir comigo, tudo bem, é só aparecer na hora, por favor.

  • Pode esperar sentada que eu não venho. Prefiro pedir carona na estrada. E se você aparecer lá para meter o bedelho nas operações de Burt, vou fingir que nem a conheço! Puxa vida, Lídia! Veja se me dá um descanso! Me deixe em paz um pouco!

  • Você tem dinheiro para pagar sua conta do hotel? Eu acho que foi uma sujeira muito grande esse agente imobiliário fazer a gente sair da casa logo depois do enterro!

  • A casa ficou à venda durante seis meses, até que foi sorte ter sido vendida agora. Só espero que, tirando os honorários do advogado, dê para sobrar algum dinheiro para a gente.

  • Não vai ser para logo, isso. Dessa vez eu ainda pago sua conta do hotel, Raul, mas é a última. Depois você se vira.

  • Não vai ter conta nenhuma. Eu não estou hospedado aqui.

  • Olhe que é proibido dormir nas praias, você sabe disso.

  • Sei, sim, mas não se preocupe, maninha. Eu já estou crescidinho e agora tenho várias camas à minha disposição...

Raul ergueu-se, passou por Lídia vagarosamente, com um olhar altivo, saiu do quarto e fechou a porta sem fazer ruído.

Lídia dormiu muito mal esta noite, um sono agitado, virando de um lado para o outro, sonhando e acordando sobressaltada.

Há duas semanas havia pedido demissão ao professor Hoskin. Ela tinha tomado essa decisão quando a doença da mãe se agravara e Raul aparecera com a notícia de que ia trabalhar como mergulhador. O professor Hoskin foi bastante compreensivo e disse que, se as coisas não saíssem conforme ela esperava, podia voltar a trabalhar com ele. Tinha ficado muito bem impressionado com o trabalho dela, e com o interesse que demonstrara pelas ruínas do galeão naufragado em 1739, que estavam resgatando do fundo do mar.

Sozinha, ali no escuro, Lídia sentia-se desolada e totalmente desamparada. Apesar de estar preparada para a morte da mãe, ficou bastante abalada. Depois foi a decisão de abandonar o emprego com o professor. Relutou um pouco, mas era preciso. Afinal fizera uma promessa à mãe. Será que seria mesmo capaz de cuidar de Raul? Será que não estava transferindo para ele a necessidade que sentia de cuidar de um marido e filhos?

Mas, na verdade, Raul deixava-a bastante preocupada. Ele havia entrado na Faculdade de Administração de Empresas, só para agradar a mãe. Mas, apesar disso, estava indo bem, até que um dia avisou que ia abandonar o curso. Lídia sentiu que o irmão estava jogando fora o futuro. Ele precisava de orientação e ela queria ajudá-lo, ainda mais que havia prometido.

Na manhã seguinte, Lídia vestiu o conjunto branco de calça comprida, que realçava seu tom bronzeado, calçou as sandálias marrons, depois esperou até as dez e quinze, antes de levar a pouca bagagem para o seu Chevette azul. Tinha esperanças de que Raul aparecesse no último instante, embora soubesse que ele não iria aparecer, pois isso seria aprovar a presença dela em Key West. E ele detestava saber que a irmã estava atrás dele, tomando conta.

Lídia já estivera em Key West passando uns feriados. Entrou no carro e partiu, afinal. A manhã estava bonita e agradável. A estrada marginava o mar e dava para se ver as gaivotas em seus vôos e mergulhos. O trânsito estava tranqüilo e ela podia apreciar a paisagem, enquanto se afastava calmamente de Miami.

Ao longo da costa, viam-se os pescadores de lagostas, em suas pequenas embarcações, indo de uma armadilha a outra, langorosamente, com o sol a queimar suas peles morenas. De longe em longe, barcos a vela cortavam as águas; dos pontilhões, pescadores jogavam suas linhas e esperavam pacientemente.

Parou em Islamorada para um café e em Marathon para um refrigerante, meio esperançosa de encontrar Raul em algum lugar, pedindo carona. Mas não o encontrou. Continuou viagem mais devagar, enchendo os pulmões com a brisa do mar e apreciando o brilho do sol na crista das ondas.

Sugarloaf Key. Stock Island. Key West, ou Cayo Hueso, como ela havia aprendido que os antigos navegadores espanhóis a chamavam. Tentava imaginar essas ilhas quando só eram habitadas pelos índios calusa, mas era difícil, com tantos estabelecimentos tipo Holiday Inn e McDonald's atrapalhando a imagem.

Onde iria ficar? Teria que se hospedar em algum lugar, enquanto esperava conseguir uma entrevista com Burton Adburee. Entrou na avenida Roosevelt e seguiu o caminho que circundava a ilha como se fosse um colar. Ia olhando para a baía, onde os bancos de coral afloravam à superfície, atraindo as gaivotas que ali pousavam para secarem as penas. Ao longe, um amontoado de ilhazinhas. No céu, as nuvens e o sol teciam desenhos com tonalidades que variavam de um instante para outro.

A medida que se aproximava do centro da cidade o trânsito ficava mais difícil e Lídia concentrou a atenção nos carros e pedestres. Só de olhar sabia que não poderia se dar ao luxo de ficar hospedada no Píer House ou na Casa Marina.

Na segunda volta que deu na ilha, resolveu virar na Eaton Street. Foi dirigindo devagar, até que viu uma tabuleta na janela do primeiro andar de uma casa: "Quartos para alugar". E por que não? Por que não variar um pouco, e afastar-se da mesmice e frieza dos hotéis?

Lídia estacionou o carro na frente da casa, na sombra de uma amendoeira, e foi até a porta. Era uma construção antiga e Lídia distraiu-se tanto a examiná-la que tropeçou numa corda grossa no jardim e quase caiu.

— Cuidado! — disse uma mulher magra e morena, que surgiu no terraço. — Essa corda aí é um perigo, mas é a única coisa que segura a casa, quando começam os ventos fortes.

— É mesmo? — retrucou Lídia, meio sem saber o que dizer.

Olhou então e viu mais uma corda do outro lado da casa, presa a uma estaca fincada no jardim.

— É sim. Esta casa foi construída no século passado, mas ainda está firme.

Lídia sorriu para a mulher, que não era muito mais velha do que ela, e, notando o avental sujo de farinha, disse:


  • Desculpe se estou interrompendo seu trabalho.

  • Não tem importância. Em que posso lhe ser útil?

  • Estou precisando de um quarto — disse Lídia, indicando com a cabeça a tabuleta na janela. — Acho que só por uma noite ou duas. Estou procurando emprego e por isso meus planos não estão ainda definidos. Você aluga por dia?

  • Durante a temporada eu só alugo por mês. Mas agora os turistas já se foram e alugo conforme o inquilino deseja. Entre, por favor. Vou lhe mostrar um quarto lá em cima. Tem vista para o mar e é bem arejado.

Lídia seguiu a mulher para o lado da casa onde uma escada externa conduzia a um terraço, que rodeava todo aquele andar. Do terraço, passaram para um corredor estreito e, depois, entraram no quarto, claro e arejado, com janelas dos dois lados. Lídia sentiu o cheiro bom de limpeza. Um tapete de palha enfeitava o chão claro. Ao lado das duas camas, havia poltronas de junco com almofadas de algodão, e, da parede, pendia uma aquarela retratando uma cena marinha.

  • Ah, mas que amor de quarto, senhora...

  • Gomez. Maria Gomez, mas pode me chamar só de Maria.

  • Eu sou Lídia Cameron, Maria, e adorei este quarto. Já posso trazer minhas coisas?

  • São cinco dólares por dia.

  • Você quer o dinheiro adiantado?

  • Não... não. Só achei que você deveria saber o preço.

Maria pegou uma chave que estava dependurada num prego atrás da porta e entregou-a a Lídia.

— Esta é sua chave. — Lídia guardou no bolso a chave preta e sorriu. — Precisa de ajuda para trazer suas coisas?

— Não, obrigada, eu me ajeito sozinha.

Desceram a escada juntas e Maria voltou para a cozinha. Lídia passou a mão pelos cabelos, sentindo-se um pouco inquieta por ter alugado quarto em uma casa de família, embora tivesse gostado de Maria. Levou as duas malas para cima e guardou as roupas no armário.

Não havia telefone. Devia ter pensado nisso. Um quarto de hotel teria. Sem dúvida devia haver um telefone na casa, lá embaixo, mas Lídia necessitava de uma certa privacidade. Se Burton Adburee recusasse recebê-la para uma entrevista, ela ficaria constrangida de estar diante de outras pessoas.

No fim do corredor ficava o banheiro. Lídia foi até lá tomar banho e voltou para o quarto, para se arrumar. Escolheu com cuidado a roupa que iria vestir, embora isso não fosse nada lógico. Afinal, Burton não poderia vê-la pelo telefone. Contudo, era importante sentir-se segura e confiante. Depois pegou a bolsa e a chave do quarto e saiu em direção a Front Street.

A rua estava cheia de turistas que entravam e saíam das incontáveis lojinhas de souvenirs. Havia também um bar com mesinhas na calçada, onde se agrupavam garotas de biquíni e rapazes de maio tomando sorvetes e refrescos.

Lídia foi abrindo caminho por entre essa gente toda. A cabine de telefone perto do Ancoradouro Mallory estava um verdadeiro forno, aquela hora do dia. A mão de Lídia estava suada, ao discar o número do escritório de Burton Adburee II, que encontrara na lista telefônica. Imaginou-o ouvindo o telefone tocar, erguendo a cabeça e estendendo a mão para atender.

— Empresa de Mergulhadores Dive Boys, bom dia — atendeu uma voz de timbre fino. — Aqui é Margô King. O que deseja?

Lídia engoliu em seco. Mas é claro que Burton ia ter uma secretária! Onde estava com a cabeça?



  • Aqui quem fala é Lídia Cameron. Gostaria de falar com o Sr. Burton Adburee, por favor.

  • Qual é a natureza do assunto?

  • Sou uma arqueóloga marinha de Miami e gostaria de tratar de negócios com ele.

  • Espere um instante que vou transferir a ligação.

Seria impressão, ou Lídia percebera mesmo um certo alívio no tom de voz dela? Sem dúvida a secretária de Burton devia ser apaixonada por ele, talvez até tivessem um caso e, com toda a certeza, devia dificultar ao máximo a aproximação de qualquer outra mulher. Lídia enxugou o suor da testa e riu de sua imaginação tão fértil. Vai ver que essa secretária era até uma respeitável sexagenária, escolhida pela namorada atual de Burton. E, afinal de contas, para que se preocupar tanto com isso? Ela não estava procurando nenhum envolvimento particular com aquele ricaço famoso!

— Aqui fala Burt. O que a senhorita deseja?

A voz dele era sensualmente gutural, e Lídia não pôde deixar de se sentir perturbada.


  • Alô, Srta. Lídia? Está me ouvindo?

  • Estou, sim. Eu sou uma arqueóloga marinha com bastante experiência e gostaria de falar com o senhor pessoalmente sobre a possibilidade de trabalhar nessa operação de resgate do tesouro afundado.

Houve um instante de silêncio e Lídia ficou na expectativa, temendo que ele dissesse não. Bastaria essa única palavra e sua viagem teria sido inútil.

— Que tipo de trabalho tem em mente?

Lídia enrubesceu. Será que ele quis fazer alguma insinuação? Não, não devia ser. Ela estava imaginando coisas.


  • O que eu tinha em mente era catalogar cientificamente os dados referentes aos destroços do galeão que o senhor diz ter descoberto e talvez escrever uma monografia sobre o assunto.

  • Receio desapontá-la, mas ainda não descobrimos o casco do galeão e meus mergulhadores até agora só conseguiram encontrar algumas moedas de ouro.

  • Então estou chegando em tempo.

  • Em tempo? Como assim?

  • Em tempo para salvar da destruição total os destroços do navio. Sabe, é que...

  • Ouça bem, se veio aqui para deter minha busca...

  • Eu lhe garanto que não é essa a minha intenção. Se tiver a gentileza de conversar comigo pessoalmente, eu explicarei exatamente o que acho que posso fazer para o senhor.

  • Ah, é? — A voz dele voltou a ser macia e sensual. — Sua oferta me parece bastante interessante. Se puder estar no Ancoradouro de Whitehead em Front Street amanhã às oito da manhã, eu falarei com você. Está de acordo com o horário?

  • Para mim está ótimo. Ficarei à sua espera. Até amanhã, então.

  • Até amanhã, Srta. Lídia.

Depois de ter desligado o telefone, a voz sedutora de Burt ainda continuou algum tempo nos ouvidos de Lídia. Será que ela havia dito coisas com duplo sentido? Não era o que pretendia de modo algum! Saiu da cabine de cabeça erguida. Raul costumava dizer que sabia quando estava deixando a irmã furiosa ou irritada pelo jeito de ela erguer a cabeça. Mas Lídia não tinha a menor intenção de deixar Burt tirá-lo do sério ou perturbá-la de qualquer maneira.

Estava pouco se importando se Burt interpretara mal suas palavras! O fato é que conseguira uma entrevista com ele e, quando fosse falar-lhe, deixaria bem clara sua posição. Lídia teve vontade de passar naquele instante pelo escritório de Burt só para dar uma olhada de longe, mas, apesar de estar só a um quarteirão de distância, resistiu à tentação. Ele poderia vê-la passando por lá e depois reconhecê-la no dia seguinte, na hora da entrevista; poderia perceber que ela ficara curiosa. Era melhor esperar. Queria conhecer logo esse homem que deslumbrara Raul! Talvez trabalhar com ele fosse o ponto de partida para sua afirmação profissional.

Apesar de estar preocupada por não saber onde andava Raul, Lídia dormiu bem e teve um sono repousante. De manhã acordou disposta, mas, ao caminhar para o encontro no ancoradouro, ia sentindo um aperto no coração. Vestira um conjunto de saia e blusa verde-claro e calçara sandálias de salto alto. Com o calor que fazia, sua vontade era estar descalça e com short, mas ia pedir emprego e precisava estar apresentável e vestida de acordo. Estava tão nervosa que mal podia respirar. Como é que Burt podia deixá-la tão perturbada assim, antes mesmo que ela o conhecesse? Respirou fundo, tentando se acalmar.

O ancoradouro estava deserto àquela hora da manhã. Havia apenas alguns pelicanos pousados no pontão. Estranho, não havia nenhum escritório por ali! Lídia ficou ouvindo o som da água batendo contra o ancoradouro e os gritos das gaivotas. Começou a se preocupar. Será que esse Burt era assim tão cruel, que essa era a sua maneira de dizer que recusara a entrevista com ela? Será que estava escondido por ali, em algum lugar, rindo dela por ter acreditado no encontro que ele marcara?

— Srta. Lídia! — chamou um homem, acenando de uma lancha ancorada no pontão e desembarcando.

Ele usava jeans e camiseta, tinha barba comprida, um corpo forte e andar gingado de marinheiro.

— Sou eu — respondeu ela.

Lídia analisou o homem e percebeu imediatamente que ele não era Burton, de quem já havia visto retratos nas colunas sociais dos jornais.

O homem agora se aproximava dela. Além de barbudo, ele tinha os cabelos negros bastante densos e muitos pêlos no corpo. No braço esquerdo, uma tatuagem.


  • Sou Harry Dahm — disse ele.

  • Mas o meu encontro é com Burton Adburee. Ele ficou de me encontrar aqui às oito horas.

  • Talvez você tenha entendido mal. Margô recebeu instruções para levá-la na lancha até o escritório do Sr. Burton.

  • Mas onde é o escritório dele? Pensei que fosse aqui no ancoradouro.

  • Ontem ele estava trabalhando no escritório daqui, mas hoje está no escritório a bordo do barco de mergulhadores. É pouco mais de uma hora de lancha até lá. O Buccaneer está ancorado ali, à espera.

Ele indicou a lancha onde estava uma loira esguia, de cabelos platinados, folheando uma revista Vogue. Quem seria ela?

  • Mas se eu for até lá, como faço para voltar depois?

  • Eu a trago de volta, ou talvez o próprio Sr. Burton a traga de helicóptero. Vamos, então?

  • Vamos, sim — disse ela, tentando parecer corajosa.

Por que Burton não a avisara sobre onde ficava seu escritório? Sentiu-se meio constrangida. Sua roupa era inadequada para andar de lancha, mas não havia tempo para trocar de roupa e ela não queria perder a entrevista por motivo algum.

Harry ajudou-a a subir na lancha e fez as apresentações.



  • Esta é Margô King, ela é a gerente da Empresa de Mergulhadores Dive Boys.

  • Prazer em conhecê-la, Lídia. — Margô analisava-a com o olhar, enquanto falava. — Sente-se, por favor. Nós nos falamos pelo telefone, ontem.

Margô aparentava uns vinte e poucos anos e era muito glamourosa. Usava sandálias de salto altíssimo, brincos e pulseira de ouro. Só a voz, de timbre muito agudo, não combinava com a aparência dela.

— Burton não costuma receber pessoas em seu escritório no barco, Lídia. Ele deve ter achado o seu assunto muito especial.

O olhar de Margô fez com que Lídia sentisse estar invadindo um território de propriedade particular. Ficou aliviada quando Harry ligou o motor e o barulho impediu-as de continuarem a conversa.

No primeiro instante, ela só sentiu o cheiro de diesel, depois, à medida que começaram a ganhar a baía, sentiu-se reanimada pela brisa perfumada do golfo.

Harry manejava com perícia o Buccaneer, fazendo-o deslizar suavemente sobre as águas. Margô havia colocado uma echarpe protegendo do vento seus belos cabelos. Lídia, entretanto, que não estava preparada para uma viagem de lancha, sentia o vento arrepiar para trás seus cabelos curtos.

Depois de uma hora, Harry anunciou, por sobre o ombro, fazendo Lídia sorrir:

— Estamos quase chegando. — Indicou com a cabeça para o lado direito. — Lá estão as Marquesas Keys.

Não havia mais nada à vista, a não ser essas pequenas ilhas, que pareciam almofadas verdes flutuando no mar. Só o céu azul sem nuvens e o brilho das águas. Lídia sentia-se hipnotizada pela natureza.

— Lá está ele! — gritou Harry de novo.

Lídia olhou para onde ele apontava. O barco de mergulhadores ao longe parecia de brinquedo, flutuando nas águas, mas, à medida que se aproximavam, o casco prateado ia ficando enorme, até que ela é que se sentiu como um brinquedinho. Ficou admirada de ver no topo do navio um helicóptero.

Enquanto Harry encostava a lancha ao lado do imenso barco, Lídia viu Burton no convés, esguio, alto e bronzeado. Devia ter uns trinta e cinco anos, usava calça jeans apertada, que salientava seu corpo de quadris estreitos e pernas compridas. Estava com uma camisa esporte branca, desabotoada, revelando um peito viril e peludo. Realmente, Burton era muito sexy. Não era à toa que havia tanto mexerico em torno do nome dele. Sem dúvida, muitas mulheres dariam a vida para serem vistas com ele. Lídia olhou para ele disfarçadamente, pois não queria parecer estar encarando-o.

Burton, no convés principal, conversava com um rapaz que, se tivesse cabelos mais curtos, se pareceria com Raul. Ele estava descalço e sem camisa, segurando máscara e pés de pato. Obviamente era um mergulhador, como também era óbvio que ele e Burton estavam discutindo. Lídia não pôde deixar de ouvir o que diziam.

— Se você não é capaz de obedecer ordens, então está despedido! — disse Burton, com rispidez, num tom bem diferente daquele tom sensual que Lídia tinha ouvido pelo telefone.


  • Se estou despedido, quero receber já, e em dinheiro! Não vou poder descontar esse cheque agora!

— É isso ou nada — disse Burton, entregando a ele o cheque. Depois entrou na cabine.

Lídia ficou indignada e enfurecida. Como é que Burton podia ser tão rude e tratar tão mal assim as pessoas?!

Pouco depois, Burton baixou a escada, falando só com Harry, sem tomar conhecimento nem de Lídia nem de Margô. Em seguida, voltou para a cabine, deixando que Harry ajudasse as mulheres a subirem a bordo do navio. Sea Deuced era o nome da embarcação, pintado com letras pretas no casco.

Assim que Margô subiu a escadinha, correu para a cabine, encontrando Burton, que voltava ao convés. Lídia sentiu-se enrubescer com o olhar dele. Estava subindo quando nesse momento o vento fez erguer sua saia rodada. Não podia largar a corda, senão cairia. O vento soprava forte, colando agora a blusa contra seus seios. O olhar de Burton era tão intenso e quente que Lídia sentiu como se as mãos dele estivessem tocando seu corpo.

— Bem-vinda a bordo, Srta. Lídia — saudou ele, com um sorriso sarcástico.

— Obrigada — respondeu ela, procurando não perder o equilíbrio. Percebeu que Burton não lhe estendeu a mão, embora isso a tivesse ajudado bastante. Tentava demonstrar que não estava impressionada com ele, mas era difícil. Burton Adburee era mesmo uma figura marcante, com os cabelos negros levemente ondulados, sobrancelhas espessas, olhos pretos, nariz reto e uma boca carnuda e sensual que dava até vontade de beijar.

Lídia envergonhou-se de ter pensado isso. Não queria saber de nada com aquele homem, a não ser trabalhar para ele.


  • Vamos para meu escritório.

  • Pois não. Não quero fazê-lo perder seu tempo.

— Eu lhe garanto que, na companhia de mulheres bonitas como você, meu tempo nunca é perdido. Mas como sei que é uma pessoa muito ocupada, vamos resolver logo o assunto que a trouxe aqui.

Burton olhou-a bem dentro dos olhos e Lídia sentiu como nunca o magnetismo que ele irradiava. Os olhos dele eram como dois lagos negros e profundos, que atraíam para dentro e pouco revelavam na superfície.

Ao entrar no escritório, Lídia sentiu um perfume de sândalo que não sabia bem se vinha de Burton ou da própria cabine.

— Então, vamos lá. Ê mesmo sobre trabalho que quer falar comigo? Ela se sentiu corar de novo. O olhar dele continuava a lhe dar a sensação de ser tocada. O coração começou a pulsar mais rápido. Estava até parecendo uma adolescente! Mas o que significava isso afinal? Respirou fundo e pigarreou, antes de falar.

— Eu vim aqui para oferecer meus serviços como arqueóloga marinha à Empresa de Mergulhadores Dive Boys.

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