Águas Perigosas Treasure Of The Heart



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CAPÍTULO XIX

Lídia passou numa lanchonete, pediu frango frito para viagem e levou para comer em casa. O aparelho de ar-condicionado havia encrencado e estava muito quente em seu apartamento, mas ela sentia necessidade de ficar sozinha para pensar. Tinha acontecido tanta coisa, desde que voltara de Sevilha, que não tivera nem tempo de refletir sobre os acontecimentos. Será que Raul ia mesmo se casar com Margô? Quem diria! Ela implicara tanto com aquela loira platinada, sentira tanta antipatia e agora estava prestes a ser sua cunhada! Como as coisas mudam! Não queria ser crítica nem julgar a atitude de Margô naquela história do roubo da corrente. Na verdade, podia entender que por amor as pessoas cometessem loucuras às vezes.

Pensou em Júlio e imaginou se ele ainda estaria preparando sua tese lá no arquivo. Será que ele, afinal, tinha levado Cláudia para jantar fora no dia do aniversário? Lembrou-se com ternura das horas que passara em companhia de Júlio. Tinha sido bom conhecê-lo, sair com ele. Júlio era um homem agradável e gentil, que qualquer mulher gostaria de ter como marido. E ela jogara fora uma oportunidade dessas!

Na manhã seguinte, a lancha chegou ao Sea Deuced antes do helicóptero. A tripulação já estava pronta para levantar âncora e mudar de posição. Só aguardavam a chegada de Burt para comandar a operação.

Lídia ultimamente vinha se preocupando bastante com sua aparência. Escolhia as roupas com cuidado especial e maquilava-se de acordo com cada traje. Tudo por causa de Burt. Mas ele não parecia estar notando. Mudara o modo de pintar os olhos e estava com um conjunto novo de short e blusa, mas ele não fez nenhum comentário, ao chegar.

Depois de ancorarem na nova posição escolhida, Burt distribuiu pincéis e tintas de secagem rápida e todos se puseram a pintar os blocos de concreto. Enquanto isso, Burt conversava com Lídia.



  • Chegou ontem o microfilme da metade do manifesto. Já estava em casa quando voltei, à noite. Mandei um portador levá-lo ao professor Hoskin.

  • Metade? Mas, por quê? E o resto?

  • Eu pedi que enviassem assim, para ir adiantando nosso trabalho. Vai dar um trabalhão para o professor Hoskin ler aqueles garranchos. puxa vida!

  • Realmente é um trabalho árduo, Burt. Cria uma tensão terrível! Mas tenho certeza de que o professor Hoskin vai trabalhar com muito mais rapidez do que eu!

Pouco depois o serviço de pintura dos blocos havia terminado e Burt preparava-se para mergulhar com os rapazes e demarcar os limites da área de exploração.

Lídia e Burt mergulharam juntos. Apesar de na superfície não ter mudado nada, a paisagem submarina era bem diferente ali. Assim que ele tocou em seu braço para chamar sua atenção para algo que vira, ela sentiu um calafrio. Pensou que isso não fosse mais acontecer e, no entanto, tudo se repetia. Era só tocá-la e as mesmas emoções se desencadeavam! Talvez nunca fosse se libertar disso. Nadou ao lado dele, mas fora do alcance de suas mãos.

O peixe-voador que ele havia mostrado passou por eles com incrível rapidez, em direção à superfície, saiu fora d'água e mergulhou de novo. Era fantástico! Ela e Burt, entretanto, continuaram sua tarefa, nadando mais para o fundo, onde estavam os blocos sobre a areia e onde lagostas passavam por entre a vegetação esparsa.

Estavam com o equipamento fotográfico e puseram-se a trabalhar. Burt agora precisava ficar mais perto dela e seus corpos de vez em quando se esbarravam. Ele ia fazendo anotações num bloco especial para se escrever embaixo d'água. Os dois tiravam medidas, faziam cálculos e anotavam dados. Ficaram no fundo do mar até quase acabar o oxigênio de seus tanques, e, quando voltaram à superfície, a demarcação estava pronta.

Lídia gostava de mergulhar com Burt, talvez porque ele precisasse tocá-la, toda vez que queria falar. Eram contatos breves e delicados, que ela nem deveria levar em consideração, mas dos quais gostava de ficar lembrando, depois.

Quando já estavam a bordo, Burt parou à porta do escritório de Lídia para comentar sobre um cardume que haviam visto enquanto voltavam à superfície.

Lídia entusiasmou-se toda e pôs-se a falar daquela espécie de peixes, dizendo que gostaria de estudá-los melhor algum dia.


  • Você também acha fascinantes as criaturas do mar, não é, Lídia?

  • Acho sim, Burt.

  • Hoje você vai ter que trabalhar até mais tarde. Precisamos conversar.

  • Eu prefiro que nossas conversas se limitem ao horário de trabalho, Burt.

  • Hoje não é possível. Mas não vai haver jantar, nem champanhe. — Ele sorriu para ela com malícia. — Só conversa sobre trabalho. Eu pego você em casa às oito horas. Esteja pronta, está bem?

  • Sim, senhor — disse ela, com um suspiro.

Quando Burt se afastou, Lídia ainda sentia o coração bater descompassado. Sabia que não o convencera, ao protestar contra o encontro, assim como ela não se convencera quando ele dissera que o motivo do encontro era trabalho. E não podia deixar de admitir, em seu íntimo, que estava contente de sair com ele. Só que dessa vez iria se controlar. Não deixaria que se repetissem as cenas dos outros encontros, não deixaria que as emoções a subjugassem. Prometeu a si mesma que dessa vez não perderia a cabeça.

Jantou qualquer coisa leve numa dessas lanchonetes com mesinhas na calçada, de frente para o mar, contemplando o pôr-do-sol e o vôo das gaivotas. Ao terminar de comer, foi calmamente para Marvista e preparou-se para o encontro com Burt.

Tomou banho, perfumou-se, e resolveu colocar o vestido que usara na última noite em Sevilha. Burt gostara dele. Quem sabe agora que Margô estava fora de cena ela pudesse conquistá-lo da maneira como queria. Quem sabe conseguisse fazer com que ele a amasse de verdade! Talvez a ruiva ainda não fosse um caso sério...

Quando Burt bateu à sua porta, Lídia já estava pronta. Assim que : a viu, ele fechou a cara; seus olhos fuzilaram e as narinas se dilataram.



  • Com esse vestido, não, Lídia! Vá trocar de roupa!

  • Mas por quê? Eu gosto do vestido e acho que está muito bom! Quem escolhe minha roupa sou eu!

  • Eu disse para ir trocar de roupa.

Lídia fez pé firme e olhou-o com um ar de quem desafia.

  • Olhe aqui, você não tem o direito de...

  • Você vai se trocar logo ou quer que eu a ajude?

  • É, você deve ter muita experiência nisso!

  • Não é preciso experiência para se tirar esse vestido. — Burt estendeu a mão na direção do fecho. — Como é, você tira ou eu tiro?

Furiosa, Lídia correu para o quarto, tirou o vestido, jogou-o na cama e começou a procurar outro no armário. Então Burt estava com medo do vestido? Não queria que se repetisse a cena ocorrida no quintal da pensão, em Sevilha! Pois ele ia ver só! Escolheu um vestido chemisier, de mangas compridas, todo abotoado na frente até o pescoço. Quando apareceu de novo na sala, entretanto, ele não se espantou, como ela esperava. Não sorriu nem demonstrou reprovação.

— Assim está melhor, Lídia. Vamos embora.

Lídia seguiu-o até o carro. Quando viu que não iriam sozinhos, ficou sem fala. Raul e Margô estavam sentados no banco de trás e no banco da frente estava a ruiva.

Burt abriu a porta de trás para Lídia e ela acomodou-se ao lado de Raul. Por que ele não lhe dissera que haveria outras pessoas? Como tinha sido tola! Quem mandara tirar a conclusão apressada de que o encontro não era para tratar de serviço e que era só entre os dois? Ainda bem que ele a fizera trocar de roupa! Estava mortificada e constrangida.

— Lídia, quero que conheça Whitney Deleveau. Whitney, esta é Lídia Cameron.

Lídia inclinou-se para a frente e murmurou um cumprimento formal. Whitney virou-se para trás, sorrindo.

— Nunca conheci uma arqueóloga marinha — disse ela, com voz sussurrante.

Lídia detestou aquela mulher, que a fez sentir-se um bicho raro ou uma aberração da natureza. Nem soube o que responder a tal comentário.

— Estamos indo nos encontrar com Roscoe Murdock no banco — disse Burt. — Vamos tratar dos detalhes finais para a nossa exposição.

Lídia ficou imaginando por que Raul e Whitney precisavam estar presentes a essa reunião, mas não perguntou nada. Estava furiosa com Burt por ele não ter dito que haveria outras pessoas e que o encontro seria no banco.

Quando chegaram ao First National de Kay West, Roscoe conduziu-os à sala de segurança da Dive Boys, no subsolo.


  • Achei melhor que a reunião fosse aqui, onde podemos ver o tesouro se for preciso — disse ele. Estava de roupa esporte, com uma camisa vermelha estampada, mas, mesmo assim, ainda parecia formal.

  • O senhor acha mesmo possível para o banco uma exposição como essa que pretendemos fazer? — perguntou Lídia, assim que todos se sentaram.

  • Isso tudo já foi decidido enquanto você estava em Sevilha, Lídia — disse Burt. — Agora só nos falta decidir qual o melhor modo de expor o tesouro. E é por isso que Whitney está conosco. Ela é uma artista profissional e eu achei que sua experiência seria importante para nós. É preciso organizar a exposição de modo artístico, para agradar aos olhos.

Lídia disfarçou um olhar de desdém. Uma artista! Pois sim! Ela estava era fazendo charme para Burt, louca para fisgá-lo!

— Pedi a Raul que ficasse na exposição para representar os mergulhadores — continuou a explicar Burt. — Ele vai falar sobre cada peça do tesouro, de modo a atrair visitantes. Ele tem experiência de lidar com o público.

Lídia achou que Burt talvez estivesse fazendo isso para se redimir de seu julgamento errôneo, mas Raul, sem dúvida, estava adorando aquela mudança de status.

— A exposição vai ser aqui no banco? — perguntou ela.

Roscoe fez que sim e estendeu-lhe uma folha com o projeto desenhado.

— Aqui está como Whitney projetou a exposição. Vai ser lá em cima, no salão principal. Não vai ser preciso interromper a atividade bancária normal. Haverá guardas de segurança aqui dentro, como sempre, e, além disso, a polícia dará proteção extra fora do banco.

Lídia examinou o desenho em escala.


  • Gostaria de poder trazer o canhão que encontramos — disse Raul. — Seria uma atração e tanto para a exposição.

  • Isso não vai ser possível por enquanto, Raul — disse Burt. — Mas podemos expor algumas fotos dele. Você pode tirar fotos dele, não pode, Lídia? Umas que mostrem o tamanho e outras que localizem as inscrições.

— É claro que posso providenciar isso. Podemos ampliar as fotos.

A reunião prosseguiu até quase as dez horas. Então Burt agradeceu a Roscoe, despediu-se dele e Saiu, seguido pelos outros. Na volta, foi direto a Marvista e deixou primeiro Raul, Margô e Lídia. Antes de se afastar com Whitney, ligou o rádio do carro.

Lídia foi para o quarto. Tirou a roupa, vestiu uma saída de praia e lavou umas peças de roupa. Ouviu Raul e Margô conversando lá fora e imaginou que eles estivessem sentados sob as árvores. Quando terminou o que tinha que fazer, resolveu ler um pouco, mas não conseguiu se concentrar. A imagem de Burt e Whitney juntos a impediu e ela acabou largando o livro. As vozes lá fora tinham silenciado. Deu uma olhada no relógio: onze horas, hora de ir para a cama! Já ia colocar a camisola quando mudou de idéia. Era melhor dar uma volta no pátio, para refrescar-se um pouco e relaxar.

À medida que caminhava, ia procurando se acalmar, embora fosse difícil esquecer que havia feito papel de boba escolhendo aquele vestido ousado para sair. Burt devia estar rindo dela! Talvez até estivesse comentando o fato com Whitney!

Lídia saiu do pátio em direção à praia, mas lembrou-se do que acontecera na outra vez em que fizera isso e resolveu ficar perto da casa. Começou a passear por entre as plantas, distraída, quando, de repente, sentiu algo passar sobre seus pés. Era apenas um camaleão, mas, assim no escuro e tomada de surpresa, ela levou um susto tão grande que nem mesmo a voz saiu quando quis gritar. Tentou se apoiar em uma árvore, para não perder o equilíbrio, mas tudo escureceu...

Quando voltou a si, a primeira coisa que sentiu foi perfume de sândalo. Seria Burt? Ela queria abrir os olhos, mas as pálpebras pareciam pesadíssimas. Não conseguia erguê-las.



  • Lídia! Lídia, meu amor.

  • A voz de Burt chamando-a parecia vir de muito longe. Ela não conseguia lembrar-se de onde estava.

  • Lídia, você pode mexer os dedos das mãos?

Ela, então, notou que estava sentindo dores e, mesmo sem entender por que Burt pedia-lhe para fazer aquilo, esforçou-se para movimentar os dedos. Depois sentiu o beijo em sua mão.

  • Agora os dedos dos pés, Lídia. Ela obedeceu, com esforço.

  • Graças a Deus!

Entretanto, continuava atordoada, sem ter noção do que havia acontecido ou estava acontecendo naquele momento. Sentia que estava deitada na grama, mas por quê? Ouviu passos de alguém se aproximando e reconheceu a voz de Margô.

—Burt, o que foi que aconteceu?



  • Ela caiu dentro da piscina em construção — disse Burt. — Eu a tirei de lá, mas...

  • Vamos levá-la para o quarto e colocá-la na cama!

  • Não! É melhor não mexer nela de novo. É arriscado, ela pode estar com ferimentos internos. A coluna está bem, que eu já verifiquei, mas pode haver algum osso quebrado...

  • Ela está sangrando! Fique aqui com ela, Burt, vou buscar a caixa de curativos.

Lídia ouviu passos se afastando e em seguida sentiu os lábios de Burt sobre suas pálpebras, sua testa, seu cabelo.

— Lídia! Lídia! Você está me ouvindo?

Ela não conseguia emitir a voz, embora estivesse ouvindo.


  • Pronto, Burt — disse Margô, com voz ofegante por ter corrido. — Aqui tem desinfetante e algodão para limpar o machucado. Quer que eu ajude?

  • Não, é melhor chamar um médico. Vá depressa, Margô.

  • Que médico? Os médicos não atendem mais em casa. Nós precisamos levá-la ao pronto-socorro.

— Vá até o vizinho e chame o Dr. Haynes. Ele virá, se você disser que eu pedi e que é uma emergência.

Ela se afastou de novo e Lídia sentiu o cheiro de desinfetante, depois o contato do algodão embebido em sua testa.

— Não vai doer, Lídia. Preciso limpar um pouco esses machucados...

Lídia sentiu as mãos dele, inspecionando de leve e com delicadeza seus braços e depois limpando com algodão e desinfetante os machucados que encontrava. Afinal ele desamarrou o cinto da saída de praia e o tecido de jérsei escorregou para os lados.

— Ah, que judiação!

Começou, então, a limpar os seios dela com algodão embebido em desinfetante e continuou por todo o corpo. Apesar da dor, aquele contato suave, aquela carícia, despertavam desejo nela. Lídia teve vontade de abraçá-lo, embora não tivesse forças para se mexer.

— Eu amo você, Lídia. Está me ouvindo? Eu amo você...

Será que ela estava mesmo ouvindo aquilo, ou era apenas sua imaginação? Queria falar, tocar nele, mas não conseguia.

Ele a beijou de novo, depois ajeitou a saída de praia e amarrou o cinco outra vez. Já não a estava acariciando e ela voltou a sentir as dores. A cabeça latejava, os esfolados ardiam, o corpo todo doía. Os olhos ficaram cada vez mais pesados, até que tudo sumiu novamente.

CAPÍTULO XX

Quando Lídia abriu os olhos, estava em sua cama e Margô estava sentada na cadeira a seu lado, lendo uma revista. Por instantes, ela ficou pestanejando, tentando lembrar o que tinha acontecido. Por que sua cabeça doía tanto assim? Por que Margô estava ali?

— Margô! — conseguiu dizer, afinal.

Margô largou a revista e inclinou-se para a frente.



  • Lídia! Você está melhor?

  • Estou toda dolorida. — Lídia colocou a mão na testa e sentiu um galo enorme. — O que aconteceu comigo? Que horas são?

  • Acho que você resolveu tomar um pouco de ar fresco ontem à noite... Burt disse que você caiu dentro da piscina em construção. Ele ouviu-a gritar e foi procurá-la. Achou-a e tirou-a de lá. O Dr. Haynes veio examiná-la. Não quebrou nenhum osso, nem houve ferimentos internos. Só esfolados, arranhões e cortes. Isso dói mesmo, mas não é grave, graças a Deus.

Lídia tentou sentar-se na cama, mas a tontura foi tanta que deitou-se de novo.

— Vou buscar um chá com torradas para você, Lídia. Maggie deixou tudo preparado.

— Obrigada, Margô. Acho que um pouco de chá vai bem, mesmo.

Margô saiu e Lídia fechou os olhos, tentando lembrar-se do que havia acontecido na noite anterior. Burt a salvara... fizera curativos, dissera-lhe coisas, acariciara seu corpo... Será que isso acontecera mesmo ou tinha sido sua imaginação, um sonho? Quando Margô voltou com o chá, resolveu perguntar-lhe algumas coisas.

— Burt ficou bravo? Quero dizer, eu devo ter dado bastante trabalho e preocupação.

— Ah, não acho que ele tenha ficado muito preocupado. Você conhece Burt. Quem foi procurar o Dr. Haynes fui eu. O doutor tinha saído para atender um caso e eu fiquei batendo pernas atrás dele. Demorei para encontrá-lo.



  • Obrigada pelo que fez, Margô, e desculpe por ter dado trabalho. Agora eu já estou bem melhor.

  • Burt deixou ordens para que você não fosse trabalhar hoje, mesmo que estivesse se sentindo bem.

  • E você? Também está de folga hoje?

  • Eu devo ir ao banco... assim que você estiver melhor e não precisar mais de mim. Vamos começar a preparar a exposição, hoje, e Whitney vai ajudar na disposição das peças.

  • Vou me sentir bem melhor depois desse chá, Margô. Pode ir para o banco e, se eu melhorar, de tarde vou até lá. Sei que há muito trabalho a ser feito.

  • Já é de tarde, Lídia, quase noite. O Dr. Haynes lhe deu um sedativo e disse que você precisa repousar. Se você acha que pode ficar sozinha, eu vou até o banco, então.

Lídia sentou-se e afastou as cobertas. Percebeu então que estava de camisola. Quem será que a vestira?

  • Eu troquei sua roupa — disse Margô, como se tivesse lido seu pensamento — e joguei sua saída de praia no lixo. ficou imprestável.

  • Ê mesmo?

  • Ficou um trapo, e toda manchada de sangue.

Margô, afinal, percebendo que Lídia estava bem, saiu. Duas horas mais tarde, Burt entrou com a bandeja do jantar.

  • Você nos deu um susto e tanto, Lídia! Como está se sentindo, agora?

  • Bem melhor. Desculpe ter dado trabalho. Margô me disse que foi você quem me tirou da piscina.

  • Fui eu, sim. Você levou um tombo feio. Lembra-se de como caiu lá? O que foi que aconteceu, afinal?

  • Eu estava passeando por entre os pés de jasmim. Um camaleão passou correndo e esbarrou em minha perna... Eu me assustei, perdi o equilíbrio... Depois disso não me lembro de mais nada...

Lídia lembrou-se de como ele havia cuidado dela, acariciando-a, e de como dissera "eu amo você", mas ficou sem jeito de dizer isso. Talvez até mesmo tivesse sido só sua imaginação.

  • Pensei que se lembrasse de mais alguma coisa... — disse Burt, olhando-a firme nos olhos.

  • O que mais?

  • Deixe para lá... Ainda bem que você não viu o estado em que ficou! Até sua saída de praia ficou irrecuperável.

  • Margô me disse que a jogou no lixo.

Burt esperou que ela comesse e depois saiu, levando a bandeja,

Por que ele a estava tratando com tanta atenção assim? Será que ele faria isso por qualquer pessoa ou só por ela?

No dia seguinte, Lídia ainda estava se sentindo dolorida, mas a dor de cabeça havia passado e ela estava ansiosa para voltar ao trabalho. Raul e os outros mergulhadores estavam a bordo do Sea Deuced, mas Burt e Margô trabalhavam no banco e foi para lá que Lídia se dirigiu.

Os mostruários já haviam sido colocados nos lugares e Burt recortara em papel réplicas das peças do tesouro, que mudava de um lugar para outro, para ver onde ficavam melhor. Só naquela noite colocariam as peças autênticas, por questões de segurança. Lídia preparou pequenos itens sobre a história de cada coisa, animada, sentindo que a exposição seria um sucesso.

Sentia-se bem mais disposta no meio da tarde do dia seguinte, quando Raul apareceu no banco, eufórico. Antes que ele dissesse qualquer coisa, Burt conduziu-o para uma sala isolada e Lídia e Margô foram atrás.


  • Precisamos de você e Lídia no barco — disse Raul, assim que Burt fechou a porta. — A segunda equipe de mergulho encontrou um colar e alguns jarros de ouro sem alças.

  • Eles não removeram do fundo, não é?

  • Não, pode ficar sossegada. Eles etiquetaram tudo e deixaram onde estavam. Acho que esses objetos são importantes para a exposição.

  • Vamos para lá, então — disse Lídia. — Vou fotografar as peças in loco. Depois as traremos para limpar e...

  • Você não vai mergulhar hoje, de jeito nenhum — disse Burt. — Ainda está fraca, não se recuperou do acidente e seria imprudência. Eu não vou permitir.

  • Mas você precisa incluir essas peças na exposição — insistiu Raul. — Ora, vamos, Lídia. Você não consegue dar um mergulho rápido?

  • Não, já disse que ela não vai e não tem discussão.

Lídia queria discordar, mas sabia que Burt estava com a razão. Não estava em condições de mergulhar, ainda que fosse por pouco tempo. Alegrava-se de ver Burt preocupar-se com ela.

— Burt, eu não posso mergulhar, mas você pode. Por que não leva um mergulhador para ajudá-lo e tira as fotos você mesmo?



  • Você não vai ficar chateada?

  • É claro que não! Eu fico triste de não poder ir pessoalmente, mas não quero impedir você de fazer isso. Quanto mais peças houver para a exposição, melhor! Não perca tempo, Burt. Pegue o helicóptero, voe para lá e mergulhe!

  • O helicóptero está na revisão. Nós vamos ter que ir de lancha.

  • Nós? — disse Lídia.

  • Claro. Você vai também. Não pode mergulhar, mas quero que esteja lá para analisar as peças resgatadas.

  • E eu? — perguntou Margô. — Gostaria de ir também.

  • Não. Fiquem vocês aqui e continuem trabalhando. Raul vá até a sala de segurança e veja se consegue limpar melhor aquelas armas. E você, Margô, separe as moedas em ordem. Ei, Raul, Harry está por aqui?

  • Não, ele ficou no barco. Eu vim dirigindo a lancha. Ela está no ancoradouro.

Depois de dadas todas as ordens, Burt e Lídia saíram do banco. No caminho, ele parou para comprar dois sanduíches e sorvetes em embalagem térmica. Em seguida entrou com ela na lancha e pilotou em direção ao Sea Deuced.

A brisa do mar reanimou Lídia, que já estava bem mais disposta ao chegar ao barco. Enquanto Burt se preparava para mergulhar, ela fez um café e arrumou a máquina fotográfica.

Burt entrou na água junto com um dos mergulhadores. Lídia e os outros ficaram olhando até que eles sumissem no fundo. Depois começou a espera. De cinco em cinco minutos ela olhava para o relógio, com a impressão de que havia passado mais de uma hora. Por que estavam demorando tanto? Será que tinham aparecido tubarões? Barracudas? Os mergulhadores a bordo conversavam baixinho, mas Lídia não conseguia relaxar, por mais que tentasse. Andava de um lado para outro no convés, tentando conter o impulso de pegar seu equipamento e mergulhar, para ver o que estava acontecendo, contrariando assim as ordens de Burt. Finalmente ele surgiu na superfície, erguendo algo na mão esquerda.

— O que é aquilo que ele está segurando? Você consegue ver o que é, Lídia?

— Não, daqui não consigo, mas parece ouro...

Nesse momento, o outro mergulhador surgiu na superfície e ambos nadaram para o barco.

O cálice de ouro que Burt trouxe causou uma algazarra a bordo. Realmente era muita sorte. O objeto era lindíssimo, uma das melhores peças resgatadas. Era um cálice de missa, valiosíssimo. Lídia ajudou Burt a tirar o tambor de oxigênio e a máscara e percebeu que ele não estava participando da euforia geral. Era como se estivesse abalado com a descoberta. Ficou andando de um lado para o outro, observando de longe.

Depois que a euforia geral esfriou um pouco, o mergulhador que desceu com Burt adiantou-se e chamou todos, sorrindo.

— Ei, rapazes, vejam só isto aqui!

Assim que todos se aproximaram, o rapaz tirou a luva de borracha pegou a corrente de ouro que estava lá dentro e exibiu-a. Silêncio geral. Pasmo.

—O que é isso? — perguntou alguém. — Não é uma corrente como as outras que servem para comprar coisas! Olhem só!

Lídia deu um passo à frente, pegou a corrente e suspendeu-a no dedo indicador. Era um rosário! Ficou até emocionada ao examinar a peça lindíssima. Contas de ouro alternavam-se com contas de coral em uma corrente fina e do centro pendia um crucifixo, também de ouro.



  • É um rosário — murmurou Lídia —, um terço; o mais lindo que já vi. — Entregou-o a Burt, que examinou a peça, maravilhado.

  • Ah, só nos falta ter certeza de que essas peças vêm do Santa Isabella! Se pudéssemos provar!

  • Pois é, seria ótimo podermos afirmar isso categoricamente na exposição! — disse Lídia. — Por acaso o professor Hoskin deu notícias?

  • Não. Ainda não. Também ainda não recebemos o microfilme da outra metade do manifesto. Mas, vamos nos alegrar com o que temos! Essas duas peças vão fazer todo mundo por aqui falar na Dive Boys.

Depois que o entusiasmo geral arrefeceu um pouco mais, Burt dirigiu-se a Harry.

  • Você fica aqui a bordo esta noite, Harry. E nos próximos dias comanda a equipe de mergulho. Eu estarei em meu escritório na cidade. Se encontrarem algo importante, é só me chamar pelo rádio.

  • Sim, senhor.

  • Lídia, vá até meu escritório e traga aquela sacola de lona que está na minha escrivaninha, para guardarmos essas peças.

Lídia obedeceu correndo, enquanto Burt dava outras ordens à tripulação. Ao entrar no escritório dele, notou que havia algo diferente, que não conseguia saber o que era. Mas, de repente, deu-se conta de que eram os retratos de Zack que tinham sido retirados das paredes. Só ficara um no porta-retratos sobre a mesa...

  • Lídia! Por que está demorando? O que houve? — chamou Burt.

  • Nada. Já estou indo.

Harry ajudou Lídia a descer para a lancha. Burt ligou, então, o motor e rumou para Key West. Só quando já estavam bem afastados do Sea Deuced, ele reduziu a velocidade e começou a conversar.

  • Esta é a minha hora preferida do dia. Hora de relaxar, depois de um dia de trabalho. Descanso merecido!

  • Eu também gosto do entardecer. O mar fica lindo com os reflexos vermelhos do sol poente. Quando eu era pequena e ouvia falar no mar Vermelho, achava que era o mar de Miami, ao pôr-do-sol.

Burt sorriu para ela.

— Como está se sentindo?



  • Muito bem. Principalmente depois das descobertas de hoje!

  • Está com fome?

  • Um pouco. Quer que eu abra os sanduíches que você comprou?

  • Aqui não.

  • Por que não?

  • Porque não gosto de comer enquanto estou dirigindo.

Burt mudou o curso da lancha e dirigiu-se para a ilha. Ao se aproximarem, contornou-a devagar.

  • Estamos com sorte. Há uma praia boa ali. Podemos fazer um piquenique e nadar um pouco.

  • Mas eu não trouxe maio! Eu me contento com o piquenique.

  • Mas eu não.

Burt levou a lancha para o raso, desligou o motor e, descendo na água, puxou-a até a areia.

  • Se está pensando que eu vou nadar nua com você, Burt, pode esquecer a idéia!

  • Ah, mas eu não iria esperar que você fizesse uma coisa dessas! — Estendeu a mão para ajudá-la a descer. Depois abriu uma espécie de baú que servia de banco na lancha e pegou o biquíni vermelho.

  • Burt! Você tinha planejado isso tudo! Ah, você...

  • Ficou brava? Porque, se você não quiser nadar comigo, podemos voltar imediatamente para Key West.

Lídia enrubesceu. Era bem próprio de Burt, fazer parecer que a decisão era dela.

— Tudo bem, Burt. É uma boa idéia nadar um pouco com esse calor. Onde vamos nos trocar?

Ele deu aquele sorriso irônico que ela conhecia tão bem.


  • Eu fecho os olhos, Lídia, prometo.

  • Não precisa ser irônico.

  • E você não precisa ser tão puritana. Sabe muito bem que eu já vi tudo. Quer que eu seja mais.claro? Miami... Sevilha...

Lídia acabou rindo, por achar que era a única saída. Era inútil indignar-se e ficar brava.

  • Está bem, Burt, eu me rendo! Mas fique sabendo que não vou me esconder nesse mato cheio de aranhas e cobras para me trocar! Trate de virar-se de costas!

  • Ah, mas quanto pudor!

Burt sorriu, mas virou-se de costas e esperou Lídia se trocar. Quando ela terminou, virou-se e começou a desabotoar a camisa devagar.

— Está vendo? Eu não me importo que você olhe!

Ele tirou a cinta, jogou no chão e pôs a mão no zíper, para abri-lo.

— Burt!


Lídia virou-se depressa, mas ele, rindo, colocou-se diante dela, fazendo-a ver que já estava de maio por baixo. O maio, bem justo, revelava as formas do corpo dele de modo sensual e Lídia desviou o olhar, perturbada.

— Não precisa disfarçar, Lídia. Eu gosto que as mulheres apreciem meu corpo.

Burt sorriu, pegou-a pela mão e entraram devagar na água. De repente, para disfarçar a perturbação que a proximidade dele lhe causava, Lídia mergulhou e nadou por baixo d'água até acabar o fôlego.

Quando voltou à superfície, ficou boiando de costas, olhando as nuvens. Mas uma onda bateu em seu rosto fazendo-a sair da posição. Burt passou o braço por sua cintura e Lídia pensou que iria beijá-la, mas, em vez disso, ele encostou o corpo ao seu e foi nadando de lado, com um braço só. Ela abandonou-se, sentindo o contato do corpo dele contra o seu, ao mesmo tempo em que sentia a água passando por eles, numa carícia sensual. A sensação era deliciosa e estranha. Tinha vontade de ficar o resto da vida ali, aninhada contra ele, protegida.

Depois Burt virou-se de costas e puxou-a para cima dele. Lídia só teve tempo de tomar fôlego, antes que afundassem, se beijando. Ao voltarem à superfície, ele a carregou no colo, levando-a para a praia.

Por instantes ficaram apenas abraçados, depois ele fez uma carícia no corpo de Lídia. E, quando a beijou, ela se entregou, sem a menor resistência, correspondendo com ardor. Pouco depois, afastando-se delicadamente, Burt murmurou, com voz embargada:

— Eu amo você, Lídia.

As palavras invadiram Lídia como uma onda do mar. Era o que ela mais queria ouvir! Talvez fosse mentira, talvez Burt estivesse dizendo aquilo só para que ela se entregasse, mas era maravilhoso ouvir. Num impulso, ela respondeu:



  • E eu amo você, Burt... eu já lhe disse uma vez, mas você não ouviu.

  • Quando? — Ele ergueu-se, apoiou-se no cotovelo, e olhou bem para ela. — Você nunca me disse essas palavras. Se tivesse dito, eu não iria esquecer!

  • Em Marvista, naquela noite. Você cuidou de mim e me disse coisas lindas. E foi aí que eu disse que amava você. Só que não consegui falar em voz alta. Eu estava semiconsciente, embora estivesse sentindo tudo.

  • Ah, sua bandida! Você sabia muito bem o que estava acontecendo! Fingiu que estava desmaiada! E eu pensando...

— Não fingi, não. Eu estava consciente, mas não conseguia reagir, minha voz não obedecia... Eu queria falar com você!

Lídia havia se sentado e inclinara-se para ele, na aflição de convencê-lo.

— Não acredito em você.

Lídia respirou fundo, sentindo que lhe escapava a poesia do momento em que ele dissera que a amava.



  • Como assim, não acredita em mim? Eu lembro de tudo o que você me fez, e lembro com carinho! Eu estava louca para falar com você. Você beijou meus olhos, meu pescoço, meus seios. Você me chamou de "meu amor", tirou minha roupa...

  • Aliás, você não estava com muita roupa...

Ela tentou restabelecer o clima romântico de poucos minutos antes.

  • Você desamarrou o cinto de minha saída de praia e deixou o tecido escorregar de meu corpo; depois me tocou devagarzinho... você sabe como. Você não pode ter esquecido isso!

  • Eu estava limpando seus machucados.

  • E o tempo todo me chamando de meu amor e dizendo que me amava?

  • Você se aproveitou de mim, de minha preocupação, fingindo estar inconsciente...

Subitamente, uma onda de raiva invadiu Lídia com uma intensidade espantosa.

  • Mas, afinal, o que você quer de mim, Burt? O que espera de mim? Eu disse que o amo e você já deve saber disso há muito tempo. Não entendo! Achei que ficaria contente de eu confessar meu amor. Foi uma prova de confiança!

  • Como posso acreditar? Você finge, usa truques comigo... Eu é que não sei o que você quer! Diz que me ama, mas estou sempre encontrando-a com outros homens. Primeiro Raul, depois Júlio, e sei lá eu quantos outros!

  • Mas Raul é...

  • Já sei, Raul é de Margô, agora. Não é o que você ia dizer? Isso não muda nada. Vocês mulheres são todas iguais!

  • Eu devia saber que não podia confiar em você! Vocês homens é que são todos iguais, uns machistas! Deve ter adorado ouvir-me dizer que amo você, não é? E agora fica aí, fingindo estar ofendido e bravo comigo, só para tirar o corpo fora e não se envolver mais comigo! Está com medo de se comprometer, não é? Como se diz, o ataque é a melhor defesa! Pode voltar para a sua ruivinha, essa tal de Whitney...

  • Ora, Lídia, você está com ciúmes! Então agora você entende como eu me senti!

Ela pensou que ele fosse erguer-se e voltar para a lancha, mas, em vez disso, abraçou-a com força e beijou-a com fúria, deixando-a quase sem fôlego. Depois largou-a bruscamente. Não foi um beijo de amor.

Lídia arrependeu-se amargamente de ter confessado seu amor. Estava se sentindo humilhada. Subiu na lancha sem a ajuda de Burt e sentou-se o mais longe possível dele. Olhou os sanduíches ainda embrulhados e não sentiu a menor vontade de comer. Burt deu partida e os dois fizeram o percurso todo até Key West em silêncio. O clima entre eles estava tenso.





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