Águas Perigosas Treasure Of The Heart



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CAPÍTULO XXI

Quando se aproximaram do ancoradouro, Lídia viu Raul no pontão, andando de um lado para outro, e isso a fez quebrar o silêncio.



  • Deve ter acontecido alguma coisa — disse ela. — Por que será que Raul está aqui, nos esperando?

  • Ele está com um jornal na mão — comentou Burt, enquanto ancorava a lancha.

  • Vocês precisam ver o que está aqui! — foi dizendo Raul, apontando para o jornal. — Um monte de mentiras...

  • Dê uma ajuda aqui! — pediu Lídia, para evitar o contato com Burt.

Raul estendeu a mão para ajudá-la a sair da lancha e Lídia pulou para o pontão. Quando Burt entregou ao rapaz os sanduíches fechados, ele se espantou.

  • Ué, vocês não comeram? Não deu tempo ou estava estragado?

  • Não está estragado, pode comer se estiver com fome — disse Burt. — Lídia perdeu o apetite. O que há aí no jornal, Raul?

  • A Galleons Unlimited! Eles estão dizendo que acharam uma barra de prata que corresponde às descrições do manifesto do Santa Isabella.

  • Burt agarrou o jornal e leu depressa o artigo.

  • Não dizem nada sobre o número de série, não é?

  • Não, mas isso é só uma questão de tempo. Se aquele pessoal descobrir alguma peça cuja autenticidade fique provada, nossa exposição vai por água abaixo.

  • Isso não, Raul — disse Lídia. — As pessoas estarão interessadas nas peças antigas. Para elas, não importa qual expedição as encontrou.

  • Mas para os interesses práticos de Burt será uma ruína — insistiu Raul. — Ninguém vai investir dinheiro na Dive Boys, se a Galleons Unlimited provar que descobriu o Santa Isabella.

— Eles estão blefando! — disse Burt. — É só o que podem fazer para atrapalhar nossa exposição. Eles não devem ter resgatado tantos objetos para fazerem uma exposição, por isso querem estragar a nossa.

Lídia estava tão compenetrada lendo o artigo, ali em pé no pontão, que Raul precisou sacudir-lhe o braço para que ela lhe desse atenção.



  • Quase ia esquecendo de lhe dizer uma coisa, maninha! Há um rapaz lá em Marvista esperando por você!

  • Maninha?! — disse Burt, com espanto.

Raul ficou tão constrangido com seu deslize que Lídia teve pena dele. Acabou até se sentindo aliviada de acabar com aquele segredo.

  • É, Burt, Raul é meu irmão. Essa ê uma longa história e...

  • E eu tenho tempo de sobra para ouvir. Pode começar a contar, Lídia, desde o princípio.

  • A idéia de esconder nosso parentesco foi minha, Burt — disse Raul. — Antes de mamãe morrer, Lídia prometeu a ela que tomaria conta de mim. Sabe como é... uma promessa maluca! Eu já sou bem grandinho e não preciso que tomem conta de mim, mas Lídia estava decidida a cumprir o prometido.

Lídia apoiou-se na balaustrada do cais enquanto Raul terminava a" história. No fim pediu desculpas, mas Burt respondeu apenas com um olhar enigmático para os dois e não fez comentário algum.

  • Isso não vai fazer nenhuma diferença em meu trabalho, vai, Burt? O que quero dizer é que mergulho bem tanto como Raul Cameron quanto como Raul Johnson!

  • É, isso é verdade. — A voz de Burt parecia alegre, mas ele não sorria e o olhar era severo.

  • Vou levar Lídia a Marvista para falar com o rapaz que a está esperando lá — disse Raul. — Assim você pode voltar direto para o banco. Margô e Whitney já começaram a arrumar as peças nos mostruários.

  • Não tenho pressa de ir ao banco, Raul. — Entregou-lhe a sacola com o cálice e o rosário de ouro. — Leve isto ao banco você, eu levo Lídia a Marvista. Você se encarrega de colocar essas peças num lugar de destaque.

  • Sim, senhor!

Raul ficou satisfeito de se sentir importante. Burt sabia mesmo como levar as pessoas!

— Eu posso ir de táxi para casa — disse Lídia, afinal. — Deve ser o advogado do inventário de mamãe que está me esperando.



  • Ou pode ser um outro cara que você arranjou para me fazer ciúmes — disse Burt, com um sorriso sarcástico. — Não vai me dizer que não usou Raul para isso, também!

  • Ah, como é que você pode...

  • Por favor, Lídia, chega de discussão. Você protesta demais! Vamos logo ver quem é a tal visita. Pode ser algum assistente do professor Hoskin. Ah, tomara que seja, e com uma boa notícia! — Burt parecia ter esquecido toda a raiva de poucos minutos atrás.

Quando chegaram a Marvista, viram um carro estacionado em frente à casa. Maggie foi recebê-los na porta.

— Há um moço esperando por você, Lídia. Eu disse a ele que você estava muito ocupada, mas ele insistiu em esperar. Está lá fora no pátio, tomando uma limonada.

Lídia entrou e atravessou a casa, sempre seguida por Burt. Saíram no pátio afinal e, antes que o homem virasse de frente, ela reconheceu de imediato o cabelo vermelho.


  • Júlio! Você aqui — exclamou, estremecendo.

  • Olá, Lídia! — Ele a devorou com um olhar, ignorando a presença de Burt. Depois segurou-lhe as mãos e continuou a contemplá-la.

Burt pigarreou e Lídia saiu do encanto.

— Júlio! Que bom ver você de novo! Lembra-se de Burt Adburee?

Para alívio de Lídia, Burt apertou a mão que Júlio estendia.


  • Prazer em vê-lo, Burt. — Júlio virou-se e pegou um pacote em cima da mesa. — Eles iam lhe mandar esse microfilme pelo correio, mas, já que eu vinha para cá, encarreguei-me de trazer pessoalmente.

  • Eu lhe agradeço muito, Júlio. Muito mesmo.

  • Como vai Cláudia? — perguntou Lídia. — Onde está ela? Ela veio com você?

  • Ela está em Sevilha — respondeu Júlio, com frieza, e virou-se para Burt. — Se você me dá licença, gostaria de conversar com Lídia em particular. Temos um assunto para resolver.

Ela achou que Burt ia recusar ou dizer a Júlio que conversassem em outro lugar, mas ele disse apenas:

  • É claro, fiquem à vontade. Eu preciso voltar para o banco. Espero você lá, daqui a uma hora, Lídia. Precisaremos de sua ajuda.

  • Está bem.

Ela não disse mais nada. Ficou apenas olhando Burt afastar-se e depois sentou-se à mesa com Júlio.

— O que trouxe você à Flórida, Júlio?



  • Você. — Lídia não disse nada e, depois de uma pequena pausa, ele continuou: — Eu amo você, Lídia, e fiquei muito chateado por ter me descontrolado na nossa última noite em Sevilha. Arrependi-me de não ter ido ao aeroporto naquela tarde, impedir você de vir embora e me deixar sozinho. Mas eu não queria impor nada a você, isso não faz o meu gênero, você sabe.

  • Pelo menos podia ter ido para despedir-se de mim. Eu esperei que fosse. Achei que você ia entender que eu queria isso, quando Cláudia lhe dissesse a hora do meu vôo.

A noite já havia caído e a lua brilhava, iluminando os dois.

  • Vim aqui pedir que volte comigo para Sevilha.

  • Para quê?

  • Para casar comigo, é claro. Eu amo você, Lídia, você está cansada de saber! Foi amor à primeira vista.

Era a segunda oportunidade que se apresentava a ela de casar-se com um homem bom e gentil, que a amava. Mas Lídia não podia aceitar.

— A Flórida é o meu lar, Júlio. Eu nasci para viver nos Estados Unidos, não na Espanha. Já lhe disse isso uma vez. Eu não iria me adaptar...

Júlio ergueu-se, deu a volta na mesa e chegou bem perto de Lídia. Segurou o rosto dela entre as mãos e curvou-se para beijá-la de leve nos lábios. Ela não se esquivou, mas não sentiu emoção nenhuma com o beijo. Ficou totalmente indiferente.

— Nós poderíamos ser muito felizes, não acha? — perguntou ele, olhando-a nos olhos.

Júlio sentou-se de novo e Lídia ficou procurando inutilmente as palavras certas para se expressar sem magoá-lo.

— Nós teríamos uma pequena casa no campo, perto de Sevilha. Eu poderia trabalhar na minha profissão...

Era como se ele não tivesse ouvido o que ela havia dito sobre não se adaptar à Espanha, não querer sair dos Estados Unidos. Subitamente, a personalidade dele ficou bem clara para Lídia. Júlio era gentil e meigo com uma mulher, desde que ela quisesse a mesma coisa que ele, pois estava disposto a dar e fazer só o que ele queria. E alegaria sempre ter agido por amor, porque tinha grande necessidade de ser amado.

Talvez esse fosse o problema do mundo todo. Todos queriam ser amados, muito mais do que queriam amar! Mas Lídia respeitava Júlio por uma coisa: ao menos ele queria ser amado só por ela. Não era como Burt, que queria ser amado por ela, por Margô, por Whitney e sabe lá por quantas outras mulheres.

— Não é possível, Júlio — disse Lídia, com suavidade. — Você sempre será um grande amigo para mim, uma das pessoas de quem mais gosto. Mas não seria justo para nenhum de nós dois eu me casar com você sem amá-lo... não daria certo. Eu não estou apaixonada por você.

Fez-se silêncio e por alguns instantes só se ouviu o ruído das ondas do mar quebrando-se na praia.



  • É verdade, acho que tem razão. Você realmente não me ama, Lídia, senão nada seria empecilho. Você iria para onde eu a levasse, só para ficar comigo!

  • Talvez... quem sabe?

Júlio ergueu-se e foi embora sem beijá-la.

Lídia viu-o partir, sem remorso, com a sensação de ter agido certo. Mas as palavras dele ficaram martelando em sua cabeça. Se Burt a pedisse em casamento e dissesse que a levaria para Sevilha, será que ela iria? Não precisou pensar muito para concluir que iria, sem pestanejar.

Lídia entrou em seu quarto decidida a começar a fazer as malas. Quando Margô apareceu já era quase meia-noite e ela ainda estava acabando de reunir suas coisas.


  • Ficamos esperando por você no banco, Lídia.

  • Desculpe, mas não deu para eu ir.

  • Está fazendo as malas?

— Estou.

  • Não vai abandonar Burt às vésperas da exposição, vai?

  • Não vou deixá-lo na mão, Margô. Farei toda a minha parte, antes de ir embora.

  • Raul me disse que vocês são irmãos, Lídia. Isso muda muito as coisas entre nós duas! Se você quiser, nós podemos...

A meiguice de Margô irritou Lídia.

— Ah, Margô, amanhã a gente conversa. Deixe-me sozinha agora, por favor. Preciso descansar um pouco.

Lídia deitou-se, mas ficou muito tempo ainda de olhos abertos, insone. Sabia que tinha agido corretamente com Júlio, recusando seu pedido de casamento. Mas será que com isso estaria condenada a passar o resto da vida sofrendo de amor por Burt? Detestava ter que abandonar o emprego de que gostava tanto, mas aquela era a única solução. Não suportaria continuar trabalhando para Burt, sentindo o que sentia por ele, sabendo que ele não a amava e que seria apenas uma a mais para ele. Não podia entregar-se a um homem que não lhe seria fiel, por mais que o amasse e o desejasse! Queria ser amada e respeitada. Escondeu a cabeça debaixo do travesseiro, procurando afastar os pensamentos, e acabou adormecendo, afinal, de puro cansaço, sem deixar de pensar nele.

CAPÍTULO XXII

Na manhã seguinte, Lídia arrumou-se com esmero para cumprir seu dever na exposição.

Ao chegar na esquina do banco, viu o cartaz: "Conheça o tesouro espanhol antigo". Letras em dourado sobre um fundo verde-mar. Devia ser trabalho de Whitney!

Lídia chegou ao banco bem antes da hora marcada para a inauguração da exposição, mas já havia bastante gente agrupada à porta de entrada, onde os guardas de segurança estavam a postos.



  • Bom dia, Lídia — disse Burt, em tom distante, quando a viu entrar na sala.

  • Bom dia — respondeu ela, desviando o olhar.

Tarde demais; aquele não era o momento de pedir demissão a ele. Ficaria até o fim da exposição e depois comunicaria a ele sua decisão.

Às nove horas, Roscoe Murdock foi até a entrada, pediu que as pessoas formassem uma fila indiana e abriu as portas. Não houve tumulto nem algazarra. Todos analisavam as peças em silêncio e só depois de algum tempo começaram a fazer perguntas. Com um sorriso forçado, Lídia ia respondendo.

E assim foi durante a manhã toda. Quando Raul a convidou para almoçar, ela aceitou com prazer, pois já estava com a voz fraca, de tanto falar.


  • Onde vamos comer? — perguntou ele.

  • Do outro lado da ilha, num lugar bem sossegado.

Raul levou-a a um pequeno restaurante grego, cuja especialidade era camarão. Depois de terem feito o pedido à garçonete, ele tirou do bolso uma caixinha, abriu-a e mostrou a Lídia.

  • É para Margô — disse, apenas.

  • Um anel de noivado! Raul! Tem certeza de que é isso que você quer?

  • Certeza absoluta, Lídia. Nós vamos nos casar daqui a alguns meses. A família dela é gente fina, da alta sociedade, e a mãe quer fazer uma festona! Margô ainda não viu o anel; vou dar a ela hoje à noite.

  • Fico contente por você, Raul, e desejo felicidade a vocês... — Entretanto, ela não havia ficado muito contente com a notícia. Não tinha certeza de que Margô seria boa esposa para ele.

  • A exposição parece que vai indo bem, não é, maninha?

  • É, sim. As pessoas estão realmente entusiasmadas.

Tinha pensado em contar para Raul que havia decidido ir embora de Key West, mas não achava que aquele fosse o momento certo. Ele estava tão empolgado e feliz com o casamento que ela não tinha coragem de dizer nada que pudesse preocupá-lo.

Pouco depois voltaram ao banco. Assim que chegaram, Lídia percebeu que alguma coisa havia acontecido. Teria sido um roubo? Sentiu um nó na garganta.



  • O que será que está havendo por aqui? — perguntou Raul.

  • Talvez tenham tentado roubar algo.

— Se fosse isso, os policiais não estariam aí parados, assim!

Achando que ele tinha razão, Lídia relaxou um pouco. Quando chegaram ao salão da exposição, viu que Burt puxara uma mesinha para o centro da sala, sobre a qual preparava-se para subir. Os guardas de segurança tentavam conter as pessoas, que se espremiam e empurravam para chegar perto.

Burt subiu na mesinha e pediu silêncio.

— Tenho um comunicado importante a fazer.

Levou uns instantes até que a multidão se acalmasse e Burt pudesse ser ouvido. Então ele pigarreou, sorriu vitorioso e começou a falar:

— Tenho ótimas notícias, notícias importantíssimas. A Dive Boys já tem a prova científica de que o tesouro que vêem aqui é o que estava no antigo galeão espanhol, chamado Santa Isabella. — Burt acenou com o telegrama que tinha na mão, como se todos pudessem lê-lo.

Mal terminou de falar, Whitney surgiu com outro cartaz na porta do banco, onde se lia: "Conheça o autêntico tesouro do Santa Isabella". Realmente, ela trabalhava depressa!

A euforia foi geral. Raul correu para Lídia, abraçou-a e beijou-a, tirando-a do chão; depois foi até Margô e fez o mesmo. Burt falou com os guardas de segurança e depois acalmou o pessoal que estava na exposição. Só então foi até Lídia.

— Preciso agradecer a você por este telegrama do professor Hoskin, Lídia. Mas não aqui, nem agora. Quero sair com você depois que a exposição fechar.

Lídia assentiu sem dizer nada. Estava mesmo querendo falar com Burt no fim do dia.

A tarde continuou como a manhã. Havia perguntas de todos os tipos para serem respondidas, desde informações sobre a Espanha até indagações sobre se os mergulhadores tinham tido problemas com tubarões.

Finalmente o dia terminou e chegou a hora de encerrarem a exposição. Quando os visitantes foram embora, Burt e a equipe levaram cuidadosamente as peças de volta para a sala de segurança, no subsolo. Conferiram tudo e saíram do banco. Sucesso total. A exposição não podia ter tido melhor resultado.

Raul e Margô saíram de braços dados, Whitney saiu no carro de Roscoe.

— Lídia! — chamou Burt, que vinha se aproximando dela. — Ah, Lídia, nem sei como agradecer a você! Se não fosse por sua pesquisa, seu contato com o professor Hoskin... Venha! — Ele a pegou pelo braço. — Vamos comemorar!

Burt estava completamente diferente. Alegre e sorridente, parecia ter esquecido todas as brigas passadas. Mas Lídia não podia deixar que isso influenciasse sua decisão, não podia ir com ele a lugar nenhum. Parou no meio da calçada e disse o que planejara desde a véspera.

—Vou sair da Dive Boys, Burt. Esta noite vou embora para Miami.

—Mas que conversa é essa? — Agarrou o braço dela e obrigou-a a encará-lo.


  • È isso que eu disse. Vou embora hoje à noite.

  • Você não pode fazer isso!

  • É o que veremos! — retrucou ela, desvencilhando-se dele.

  • E o que me diz das duas semanas de aviso prévio obrigatório; Você não pode sair assim de repente!

—Para que ficar sofrendo mais duas semanas? Eu vou agora mesmo, Burt.

— Você vai embora com Júlio

— Não.

— Lídia! Dê-me uma oportunidade de conversar com você! Eu acho que mereço essa consideração!



Ela se surpreendeu com a alegação dele, nada autoritária por sinal. De fato, ele tinha razão.

— Está bem, Burt. Podemos conversar, mas não vai adiantar, nada que você disser vai mudar minha decisão de ir embora. Aonde vamos?

— A um lugar sossegado, onde possamos ficar a sós sem sermos perturbados.

Lídia concordou e espantou-se quando percebeu que Burt estava indo para Marvista.



  • Essa é a praia mais sossegada que podemos encontrar — disse ele. — Quer ir trocar de roupa primeiro? Pôr algo mais confortável?

  • Todas as minhas coisas estão no porta-malas do meu carro, no estacionamento do banco.

Burt pareceu abalado com a resposta, mas se conteve. Parou o carro diante da casa e ajudou-a a descer. Atravessaram o pátio e saíram na praia. Lídia sentia-se desconfortável, andando na areia com as sandálias de salto alto. Burt segurou-a pelo braço e ela se sentiu derreter, mas continuou com a mesma atitude. Ele a conduziu para baixo de uma árvore e sentaram-se na areia lado a lado.

  • Eu amo você, Lídia.

  • É... parece que todo o mundo está apaixonado por aqui! — disse ela, em tom sarcástico, achando que Burt estava querendo iludi-la. — Você sabe que Raul pediu Margô em casamento?

  • Sei, sim.

  • Sabe? E não se importa com isso?!

  • Já faz tempo que eu estou querendo lhe dizer que Raul e Margô foram feitos um para o outro, mas você não quer me ouvir, ou me entender! Eu quero que eles sejam muito felizes. Gosto muito de Margô, tivemos bons momentos juntos, mas eu nunca a amei! Foi bom ela e Raul terem se apaixonado, porque eu não queria magoá-la, dando-lhe o fora.

Lídia ficou indecisa. Sempre achara que Burt amava Margô, pois era o que ela queria fazer crer.

  • Mas eu não acho que Margô seja a mulher certa para Raul, Burt. Ela é autoritária e mandona, gosta sempre de ser o centro das atenções. Acho que ela vai fazer Raul infeliz.

  • Não acho isso, Lídia. Pense um pouco. Sei que Raul é seu irmão e que é difícil admitir certas coisas nas pessoas que a gente ama, mas ele é uma pessoa fraca, não tem muita iniciativa e prefere ser conduzido.

  • Ele tem bom caráter, é meigo, é trabalhador e...

  • Não estou negando nada disso. O que quero dizer é que Margô tem uma personalidade mais forte do que a dele, e talvez seja justamente isso que ele precisa e procura. Uma mulher que dê forças a ele e o estimule!

  • Talvez...

  • Mas eu não trouxe você aqui para discutir os problemas de Raul, Lídia. Vamos falar de nós. Eu disse que amo você. Não vai me dizer nada?

  • Vou dizer que não acredito em você. Está querendo me iludir! Sei que você sempre teve muitas mulheres a seus pés e não pretendo fazer parte de seu harém! Por que não fica com Whitney?

  • Whitney é uma investigadora, e isso é tudo o que ela representa para mim! Olhe aqui o cheque dela: vinte mil dólares em nome da Dive Boys! E você me ajudou a conseguir este cheque.

  • Como assim, eu?

  • Você possibilitou isso quando encontrou o manifesto do Santa Isabella. Tentei persuadir Whitney a investir em minha empresa, mostrando-lhe o tesouro, deixando-a participar da exposição, mas só quando ela soube que as peças eram autênticas, comprovadas pelo manifesto, é que fez seu cheque. Esqueça Whitney, esqueça Margô e as outras mulheres. Pense em nós, agora. Eu amo você, só você, e quero saber o que pretende fazer a respeito disso.

— Eu vou embora de Key West esta noite, Burt. Já decidi.

Burt puxou-a para si e beijou-a. Ela quase cedeu, mas reuniu forças para empurrá-lo.

— Não posso aprovar seu modo de vida, Burt. Você só pensa em dinheiro, só quer enriquecer, paga mal a seus funcionários... A expedição de resgate do galeão só significa mais dinheiro para você.
Você não considera o valor histórico, cultural... não se interessa...

Burt impediu o fim da frase com um beijo. Quando Lídia parou de se debater e entregou-se, foi ele quem interrompeu o beijo e a empurrou. Ela ficou furiosa por ter demonstrado sua fraqueza.



  • Assim é melhor, Lídia. — Ele sorriu com sarcasmo, depois ficou sério. — Há muitas coisas a meu respeito que você não sabe. Antes de mais nada, quero que fique sabendo que aumentei o salário dos mergulhadores desde que acusei injustamente Raul e depois que Margô me disse que ele tinha aberto uma caderneta de poupança e estava pensando no futuro. É uma longa e dolorosa história, Lídia. Você está disposta a ouvir?

  • É claro que estou!

Burt largou do braço dela e ficou imóvel.

  • Sei que você deve ter ficado curiosa para saber a respeito de Zack.

  • Realmente fiquei, desde que vi todos aqueles retratos dele no seu escritório. Margô não quis comentar o assunto e, pelo pouco que falou, imaginei que ele tivesse se suicidado...

  • Zack era um ótimo rapaz, Lídia, excelente pessoa! Apaixonou-se por uma moça que o desprezou e sofreu muito com isso. Nunca vi alguém tão arrasado por um amor não correspondido! Mas, em vez de lutar para sair da depressão e superar a crise, ele começou a andar em más companhias. Viciados, hippies... A Flórida é o paraíso dessa gente e Key West é o fim da linha de todos eles.

Burt fez uma pausa e Lídia contemplou o rosto dele, tão amado, à espera de que continuasse.

— Eram pessoas de maus costumes, mesmo, viciadas em todo tipo de drogas. Uma noite deram uma dose exagerada a Zack. Alguns deles disseram depois que Zack entrou mar adentro, como se quisesse alcançar o horizonte, e sumiu. Nunca mais apareceu.

Lídia colocou a mão sobre a de Burt.


  • Sinto muito, Burt, sinceramente.

  • Zack e eu éramos muito ligados, muito amigos. Fiquei maluco quando isso aconteceu. Por isso fico tão revoltado contra os viciados ... Não suporto ver um jovem destruindo sua vida... Mas, quando aconteceu o incidente com Raul, em que eu cheguei a acusá-lo injustamente, caí em mim e fiz um exame de consciência. Percebi que sentir ódio dos viciados e hippies não leva a nada; é um sentimento negativo, que leva a ações negativas. Por isso agora estou tentando canalizar o ódio para uma atitude positiva, como por exemplo dar apoio, incentivar e orientar jovens sempre que for possível...

Lídia percebeu subitamente que havia sido muito rigorosa e injusta no julgamento que fizera de Burt. Afinal, ela não o conhecia intimamente. Podia começar a conhecê-lo agora, e esse era um bom começo.

  • Eu admiro você por essa atitude, Burt e peço desculpas se fui sarcástica. Respeito seus sentimentos e o entendo melhor agora.

  • Gostaria que você continuasse na Dive Boys, Lídia, e escrevesse e publicasse uma monografia sobre o Santa lsabella. Você está muito enganada quando diz que meu único interesse pelo tesouro é o de ficar mais rico. Para mim, dirigir a expedição de busca é uma emoção inigualável! É poder estabelecer um contato com o passado histórico, revelar fatos ocorridos, colher elementos para que se estabeleçam novos dados! Eu hei de encontrar o casco do Santa lsabella! — Ele fez uma pausa e a fitou com olhar profundo. — E quero que partilhe essa vitória comigo, como minha esposa.

Lídia perdeu a fala. Enfim as palavras que ela tanto queria ouvir! A prova final e concreta de que ele a amava de verdade.

Burt segurou a mão dela e seus dedos se entrelaçaram carinhosamente.

— Eu amo você, Lídia... Diga-me o que você quer que eu faça... Eram as mesmas palavras que havia dito quando seus corpos estavam entrelaçados, no auge da paixão, naquela noite em que ela quase se entregara a ele. Mas agora o sentido era mais profundo e de repente tudo ficou claro. Lídia entendeu, então, uma diferença: Júlio queria ser amado por ela, mas Burt queria amar, queria que ela se deixasse amar.

— Eu quero que você me ame, Burt, e quero amar você... — Fitou-o com olhos brilhantes de emoção e todas as dúvidas e incertezas se dissiparam.

Burt abraçou-a e ela encostou a cabeça no peito dele, ouvindo o pulsar de seu coração, sentindo o seu perfume. Teve a certeza de que amava aquele homem com todas as suas forças e de que era amada por ele. Uma sensação de plenitude a invadiu.

— Ah, quando eu penso no tempo que perdemos brigando e nos agredindo... me dá até raiva! — murmurou ela, sentindo o prazer de estar nos braços dele.

— Pois é, o ciúme nos faz perder a cabeça. Acabamos nos agredindo sem querer. Mas, de agora em diante, temos a vida toda pela frente para conversarmos, nos compreendermos melhor, e nos amarmos.

O luar traçava desenhos rendados na areia, o mar murmurava segredos para o céu. Quando Burt beijou-a com ternura e paixão, quando as carícias se intensificaram até que seus corpos se uniram; Lídia teve certeza de que havia encontrado o maior de todos os tesouros.



FIM




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