Águas Perigosas Treasure Of The Heart



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CAPÍTULO II

A decoração do escritório de Burton deixou Lídia surpresa. Em vez de ser utilitária e prática como o resto do Sea Deuced, era elegante, com a marca forte de quem o usava. Escrivaninha de nogueira, poltronas de couro e carpete verde, além do conforto do ar condicionado. Uma das paredes estava coberta de fotos emolduradas de um homem que se parecia muito com Burton. Lídia achou que talvez fosse um irmão.

Quando olhou para Burton de novo, percebeu que ele havia notado seu interesse pelas fotos e teve a impressão de que o olhar dele ficou por instantes sombrio e triste.

— Sente-se, por favor, e diga-me exatamente o que pode fazer por nossa empresa como arqueóloga marinha.

Ele havia falado de olhar baixo, sem fitá-la, e Lídia sentou-se. Quando a encarou de novo, seu olhar já estava outra vez impessoal e sem emoções e ela sentiu-se mais à vontade assim.


  • Eu posso dar um caráter científico de pesquisa a essa sua busca dos destroços do navio. Posso provar que os objetos encontrados têm um valor histórico e educacional...

  • De que maneira?

Ele apoiou os cotovelos na escrivaninha e cruzou os dedos, encarando-a. Lídia sentiu-se desconcertada com aquele olhar, mas controlou-se.

— Arqueologia abrange muito mais do que uma simples operação de resgate, Sr. Burton. Se os mergulhadores escavam indiscriminadamente um determinado lugar, em busca de destroços de naufrágios, esse lugar perde o valor histórico, do ponto de vista dos historiadores. Mas se um arqueólogo dirigir a escavação cientificamente, a descoberta passa a ter valor histórico e o relatório e as monografias feitas podem auxiliar várias outras pesquisas, em diferentes áreas. Só dessa maneira os resultados de sua operação de resgate podem ter um caráter de contribuição científica e até passar a fazer parte da história.

Burton a fitava com um olhar sério e compenetrado, mas Lídia não pôde deixar de notar um meio sorriso sarcástico em seus lábios. Será que ele iria rir dela? Ficou indignada só de pensar que ele pudesse caçoar dos ideais e princípios que ela tanto prezava e que aprendera com o pai a respeitar.

— Estou realmente impressionado com suas idéias, Lídia. Fale-me mais a respeito, isso me interessa muito. Eu me envolvi nessa operação de busca do Santxi Isabella porque fiquei fascinado com a experiência e gostaria mesmo de poder partilhá-la com outras pessoas interessadas.

Lídia respirou fundo, sentindo um certo alívio e uma ponta de esperança. Tivera receio de que ele fosse zombar dela.


  • Eu posso fazer anotações precisas e registrar da maneira correta cada peça que seus mergulhadores encontrarem. Há diagramas e formas específicas de se registrar informações desse tipo. Posso me comunicar com outros arqueólogos a respeito desse navio naufragado.

  • Isso está me parecendo muito interessante mesmo! Sem dúvida esse tipo de divulgação atrairia investidores, o que significaria mais dinheiro para a operação de resgate do Isabella.

Lídia sentiu uma certa decepção, mas refreou as palavras de censura das quais poderia se arrepender depois. Na verdade, ele estava mesmo interessado só no dinheiro e não no aspecto científico. A primeira impressão que tivera dele é que estava correta, afinal.

  • Como é que o senhor ficou sabendo a respeito desse navio naufragado? — perguntou Lídia, quando conseguiu controlar a hostilidade que sentia.

  • Em primeiro lugar, pode me chamar de você. Um velho colega de escola achou um diário da bisavó dele que continha anotações sobre isso. O diário pertenceu a ancestrais da família dela e foi escrito em 1640, em espanhol arcaico. Meu colega só conseguiu entender pouco mais do que o nome do navio, o ano em que naufragou e o local aproximado do naufrágio.

  • Três dados bastante importantes, na minha opinião — disse Lídia, com certo sarcasmo.

  • Ele me enviou essas informações há dois anos, mais a título de brincadeira, embora deixasse perceber que estava interessado em qualquer possível descoberta que eu fizesse.

  • E por que você esperou dois anos para começar a expedição de busca?

Burton olhou para ela com certa rispidez e de cenho franzido. Eu tive meus motivos, Lídia. Aliás, motivos particulares.

Lídia ficou sem jeito, sentindo que sem querer esbarrara numa questão delicada, e tratou de mudar logo de assunto.



  • Já teve alguma experiência anterior de expedições de resgate?

  • Meu bisavô foi capitão de um navio de salvamento nas Bahamas e em Key West, nos anos dei 800, portanto a idéia de recuperar navios naufragados não é nova na família Adburee.

  • Tem certeza de que o navio que encontrou é o Santa Isabella?

  • Como se pode. ter certeza de algo que aconteceu há tantos séculos?

  • Se você tivesse uma cópia do registro da carga e dos pertences do navio, seria mais fácil.

  • Está falando sério? — Ele sorriu com sarcasmo de novo. — E onde é que eu arranjaria um documento desses? Está esquecendo que o galeão afundou há mais de três séculos?

  • Talvez você é que esteja esquecendo que a coisa mais importante da época, na Espanha, eram os navios que transportavam tesouros. — Lídia não pôde resistir à tentação de expor àquele diletante um pouco do seu conhecimento, adquirido a duras penas. — A Câmara do Comércio da Espanha mantinha um registro de todos os galeões e um relato exato da carga de cada um deles. Naquela época, tal como agora, o dinheiro imperava. Em Cartagena, na atual Colômbia, os navios eram carregados com ouro e outras riquezas que transportavam para a Espanha.

  • É impressionante seu grau de conhecimento, Lídia, mas... onde é que estão esses registros dos navios? Eles existem até hoje?

Lídia enrubesceu, ao perceber que Burton sabia que ela estava querendo impressioná-lo.

  • Eu acredito, e isso é uma suposição minha, que o registro do Santa Isabella esteja no Arquivo das índias, em Sevilha. Na época em que o Santa Isabella navegava pelos mares, era costume da Câmara de Comércio exigir um registro com quatro cópias. Uma das cópias ia no próprio navio, a segunda e a terceira iam na nau capitânia e vice-capitânia. A quarta cópia ia no ano seguinte, com a próxima frota. Os oficiais espanhóis sabiam que dez por cento de seus navios se perdiam no mar e por isso tentavam garantir que ao menos uma cópia se salvasse.

  • Você parece entender bem do assunto, mesmo, Lídia, mas eu estou mais interessado nas barras de ouro e nas moedas do que em documentos empoeirados apodrecendo em Sevilha.

Lídia não pôde deixar de perceber o desprezo que ele sentia por quem se interessasse por "documentos empoeirados".

— Não entendo como é que você pôde localizar o Santa Isabella, se é que esse navio é o Santa Isabella. Você não tem provas...



  • Se eu a contratasse, você se encarregaria de encontrar a prova, certo?

  • Possivelmente. Mas já que você tem apenas informações escritas num diário, a prova científica teria que ser procurada em Sevilha. Eu falo espanhol e tendo uma certa prática de ler documentos antigos escritos em espanhol arcaico. Quando trabalhei com o professor Hoskin, estudei com ele uma cópia do registro de um navio de 1739 que estávamos resgatando e catalogando. Claro que, independente de se ter ou não o registro do lsabella, qualquer objeto encontrado pode e deve ser catalogado. Mas, diga-me, como você localizou os destroços desse navio?

  • Margô e eu usamos um magnetômetro portátil puxado pelo Buccaneer e viajamos de lá para cá, persistentemente.

  • Sei. E o magnetômetro detectou objetos de metal no fundo do mar e registrou, não é isso?

  • É. Margô dirigia o barco a toda velocidade, para impedir que o aparelho batesse no fundo. A profundidade das águas varia muito nesta época. Você já trabalhou com um magnetômetro?

  • Não, nunca. Mas já mergulhei para pesquisar um galeão afundado, quando trabalhava para o professor Hoskin na Universidade. Ele ainda está catalogando dados sobre esse navio, o Santa Catalina. Só que aquele galeão afundou em águas rasas e foi encontrado por pescadores de lagostas, enquanto arrumavam as armadilhas. Uma boa parte dele já havia sido resgatada, talvez pelos próprios espanhóis. O professor Hoskin estava fazendo um estudo científico sobre esse navio e a carga que transportava.

  • Mas, como eu estava dizendo — continuou ele, demonstrando não estar interessado nas pesquisas do professor —, Margô me ajudava, pilotando o Buccaneer, enquanto eu lia o registro do magnetômetro. Cada vez que o aparelho registrava algo, eu jogava uma bóia para marcar o lugar. Depois Margô parava a lancha, eu tirava a roupa e mergulhava.

Lídia enrubesceu só de imaginar Burton mergulhando nu. E Margô? Não podia imaginá-la virando timidamente para outro lado, para não ver a cena.

  • Deve ter sido fascinante!

  • E foi! Mas muitas vezes os mergulhos eram decepcionantes. Eu só encontrava tambores vazios, latas e ferro velho afundado. Uma tarde, entretanto, nosso trabalho foi recompensado.

Lídia inclinou-se para a frente, atenta. Não sabia se era algo na voz de Burton ou se na história que ele estava contando, mas o fato era que estava tão empolgada ouvindo, quando ele contando. Os olhos negros dele brilhavam, deixando-a fascinada, e ele falava devagar, de propósito, sabendo que ela estava ansiosa para ouvir, como se quisesse provocá-la.

  • Havia bastante sol e a água estava clara na superfície, mas eu mergulhei tão fundo que tornou-se difícil enxergar. Estava prestes a voltar à tona, achando que o objeto detectado pelo aparelho devia estar enterrado na areia, quando eu o vi. — Burt fez uma pausa dramática, proposital. — No início, pareceu um tronco ou um pedaço de cano, mas, de repente, percebi que o que estava vendo era um canhão de ferro!

  • Onde está ele agora?

  • O canhão ainda está lá no fundo. Eu não sabia muito bem o que poderia acontecer, se o trouxesse para cima. Fiquei com medo de que se desintegrasse.

  • Isso não, mas às vezes é bom deixar-se o objeto mergulhado em água do mar por algum tempo.

  • Pois bem, ele ainda está lá. Serve de marco para os destroços. Assim que fizemos a descoberta, eu comprei este velho barco de pesca, adaptei-o para base de mergulho e ancorei-o perto do lugar.

  • Ainda bem que o canhão continua lá. Se você me contratar, vou usá-lo como referência para calcular as coordenadas e projeções.

  • Não quero ninguém que possa retardar o trabalho de meus homens.

  • Eu iria querer retardar as operações, mas é preciso algum tempo para se fazer um trabalho cuidadoso e bem-feito. Uma escavação arqueológica é uma tarefa árdua e difícil.

Burton reclinou-se para trás lentamente e encarou Lídia, de olhos semicerrados.

— A experiência ensinou-me que todos os profissionais tendem a supervalorizar as dificuldades do trabalho que desempenham. Talvez façam isso para justificar possíveis erros ou para desencorajar os concorrentes.

Mas que arrogância! Lídia sentiu uma onda de raiva invadi-la, diante desse insulto velado de Burton. Não iria permitir que ele a diminuísse ou diminuísse sua profissão!


  • Ninguém está isento de erros, e duvido que tenha aparecido algum outro arqueólogo marinho interessado nas suas operações de busca!

  • Gosto de mulher com coragem e brio, Lídia! — De novo o sorriso sarcástico instalou-se naqueles lábios. Burton olhou-a de cima a baixo, detalhadamente, admirando o corpo dela. — Diga-me uma coisa: por que se interessou por minha expedição de busca do Santa Isabella? Por que preferiu abandonar um trabalho científico e sério na Universidade, por uma oportunidade incerta de trabalhar com uma

pessoa que está mais interessada no valor monetário da carga do navio e na aventura dessa busca?

Lídia ficou olhando para ele, hesitando em responder. Logicamente, não podia contar a ele que queria fazer isso para cumprir a promessa que fizera à mãe. Teria que entrar em assuntos muitos íntimos e revelar seu parentesco com Raul. Preferia não expor o irmão.



  • Sou uma cientista e procuro uma oportunidade de me projetar profissionalmente, Burton. Além disso, sou contra a destruição de qualquer objeto que tenha importância para a informação histórica. E tem mais: tudo o que houver sob as águas da costa pertence ao povo da Flórida, e eu quero defender esse direito!

  • Acontece que meu tesouro está em águas internacionais, e aí a questão é outra. Quem achar fica dono.

  • Mas eu não vim aqui para tirar nada de você! Só quero me estabelecer profissionalmente e dar um caráter científico à sua expedição de busca. — Lídia respirou fundo, criando coragem para dizer a última frase. — Gostaria de começar a trabalhar pára a Dive Boys amanhã.

  • Isso é que é falar claro! — Burton sorriu. — Gosto de mulheres que sabem o que querem. Vou pensar na sua proposta e lhe dou uma resposta amanhã. Está bem assim?

Lídia sentiu sua esperança dissipar-se. Estava contando com uma resposta afirmativa, imediata. Entretanto, sabia que não podia pressioná-lo.

  • Gostaria de conhecer o barco, Lídia?

  • Gostaria, sim, obrigada.

O convite fez seu coração bater mais rápido. Sem dúvida, Burton não iria perder tempo em lhe mostrar o barco, se não tivesse a menor intenção de contratá-la. Ou será que iria?

—Então, venha comigo.

Disse isso olhando-a bem dentro dos olhos, de um jeito todo especial. Depois virou-se para conduzi-ter, e Lídia não pôde deixar de admirar o andar elegante dele.

— Aqui é onde nós fazemos as refeições — explicou ele, mostrando o salão em que estavam. — Os mergulhadores se revezam na cozinha e às vezes eu também cozinho, principalmente quando eles trazem lagostas. Aqui também é a área de recreação dos rapazes. Às vezes eles ficam mais de uma semana no barco, até vir a outra equipe para substituí-los.

Lídia notou, sobre uma das mesas, cartas de baralho e fichas de pôquer e, em outra, revistas com fotos de garotas, tudo espalhado, como se fossem brinquedos. Depois desceram uma escada de alumínio que dava no porão. Ali o ar era meio abafado e cheirava a peixe.

— Cuidado, olhe bem onde pisa, Lídia; aqui é o dormitório dos mergulhadores.

Ele foi passando entre um aglomerado de camas de lona, desarrumadas e com lençóis encardidos, baús e mochilas. Atravessaram essa bagunça toda e pararam diante de uma porta pequena. Burton abriu-a e afastou-se para que Lídia pudesse olhar lá para dentro,


  • Aqui é o dormitório de Margô, quando ela passa a noite no barco.

  • Ah, é? — disse Lídia, sem esconder a surpresa.

Será que Burton estava querendo testar a reação dela? Será que Margô dormia com freqüência, ali? E, ela, também teria que dormir no barco? Ficou ligeiramente atordoada com tantas perguntas que lhe ocorriam. Nesse momento, uma onda mais forte fez o barco balançar e Lídia perdeu o equilíbrio. Burton segurou-a pelo braço, para que ela não caísse, e o contato da mão dele provocou-lhe um arrepio.

  • Nem sempre é possível voltar a Key West no fim do dia. Algumas vezes o trabalho ou as condições do tempo nos obrigam a ficar aqui mesmo. Eu tenho uma cama e um guarda-roupa no meu escritório.

  • Parece que você pensou em tudo.

Lídia afastou do pensamento a imagem de Burton na cama.

— Espero que sim. — Ele a conduziu de volta para escada. — No mar, qualquer erro pode ser fatal.



Playboy... esbanjador... manipulador... essa era a imagem que Lídia fazia de Burton. Mas, por quê? Afinal, nem o conhecia, ele não era nada seu!

Voltaram ao convés. Lídia sobressaltou-se, ao ver Raul tomando café no bar.

— Gostaria que conhecesse nosso mais recente contratado. Raul Johnson é mergulhador e está conosco desde ontem.

Lídia controlou-se e manteve-se firme, cumprimentando o irmão polidamente, como se fosse um completo estranho.



  • Prazer em conhecê-lo, Raul.

  • Igualmente.

Um nome falso! Então foi assim que Raul decidiu esconder o parentesco deles? Lídia sentiu-se magoada, mas forçou um sorriso. Engraçado é que ficou com raiva de Burton, e não do irmão. Então era assim que Burton avaliava o pessoal que trabalhava para ele? Nem sequer pedia documentos ou cartas de referência! Precisava proteger Raul desse patrão!

— Vamos até a popa, Lídia, quero lhe mostrar os defletores. — Foram até lá e ele apontou os enormes tubos de metal que saíam do barco e afundavam no mar. — Não são uma beleza?

Lídia não pôde deixar de sorrir ante aquele entusiasmo quase infantil de Burton.


  • São, sim, mas para que servem?

  • O professor Hoskin não deve ter precisado desses equipamentos, pois os destroços do navio que ele estava pesquisando estavam em águas rasas, mas eu preciso. Isso funciona com jatos d'água que cavam buracos na areia do fundo do mar e desenterram o que se está procurando. Essa invenção foi uma grande ajuda aos exploradores das profundidades. Talvez algum dia você queira vir a bordo como minha convidada, para observar nossas operações. Você mergulha em águas profundas, não é?

  • É claro! Sou mergulhadora diplomada e acho o fundo do mar fascinante.

Lídia ficou desolada. Não queria ir a bordo como "convidada". Queria voltar no dia seguinte, como contratada.

— Você não tem medo?

Ela se sentiu nua com o olhar dele e um arrepio percorreu-lhe a espinha só de se imaginar no fundo do mar, ao lado daquele homem. Realmente, disso teria medo.


  • Eu tenho um grande respeito pelo mar, mas não tenho medo.

  • Corajosa! Já lhe disse que gosto de que minhas mulheres sejam corajosas, não é?

  • Não sou mulher sua. — Ela percebeu que Raul os observava de longe e estava sorrindo. Lídia enrubesceu. — Só vim aqui lhe pedir emprego.

Burton olhou para ela significativamente.

— O que quer dizer é que veio aqui criar um emprego para você. Bastante inovador da sua parte, confesso, mas acontece que não estou precisando de ninguém.

Ela ficou furiosa e foi com dificuldade que se controlou.


  • Você marcou uma entrevista comigo, portanto devia estar achando que a assistência de uma arqueóloga era do seu interesse.

  • Quer ver o que já resgatamos do navio até agora? — disse ele, esquivando-se do assunto.

  • Se está se referindo aos artefatos do Isabella, quero, sim.

  • Artefatos... — Burt piscou para ela. — Vou tentar me lembrar desse termo futuramente. Por enquanto só achamos miudezas e fragmentos. Quando acharmos o tesouro todo, você vai até esquecer os termos científicos. Na verdade, é tudo a mesma coisa: ouro!

O coração de Lídia quase parou. Isso queria dizer que ele estaria presente quando descobrissem o tesouro! Ou será que ele tinha outra coisa em mente?

— Pode ser prata, sabia? As minas de Potosí, na Bolívia, produziam uma quantidade considerável de prata, na época em que os espanhóis se apoderaram delas.

— Achamos um pouco de cada coisa, até agora.

Burton entrou numa salinha ao lado do escritório dele, onde Margô estava curvada sobre livros de contabilidade. Assim que os dois entraram, ela se levantou e, quando se dirigiu a Burton, falou com voz macia, bem diferente da que Lídia tinha ouvido antes.



  • Precisa da minha ajuda, Burt?

  • Não quero atrapalhar seu trabalho, Margô. Só vou abrir o cofre para mostrar a Lidia as... peças.

  • Não acha isso arriscado? Quanto menos pessoas souberem...

  • Lídia é uma cientista, Margô. Tenho certeza de que ela só tem interesse científico nos... artefatos.

Lídia sentiu-se uma intrusa, ao perceber a possessividade de Margô em relação a Burton. Sem dúvida, ela era a atual namorada dele.

Burton entrou no escritório, puxou duas cadeiras para perto do cofre, indicando uma para que Lídia se sentasse. Por um instante ele a olhou de uma maneira que a fez esquecer o resto do mundo. Mas que loucura! Margô estava logo ali! Depois, abriu o cofre.

Lídia surpreendeu-se ao ver tantos artefatos sobre o feltro verde, e ficou querendo adivinhar por que ele estava lhe mostrando aquelas coisas. Será que estava tentando impressioná-la? Ele sabia que ela estava querendo trabalhar ali. Ou será que queria impressioná-la por outros motivos? Por instantes ela se sentiu lisonjeada, depois afastou tal pensamento. Burt podia ser fisicamente muito atraente, mas a mente dele era sórdida demais para seu gosto.


  • Você já teve nas mãos uma barra de ouro da velha Espanha? — Burt pegou um pequeno retângulo de ouro e colocou na palma da mão.

  • Não, nunca.

  • Então segure esta. — Entregou-lhe a peça, apontando para a gravação. — Aqui deste lado você pode ver a marca dos conquistadores e a marca do tributo, indicando que o rei da Espanha recebeu a quinta parte do valor total. — Virou a barra. — Deste outro lado está a cruz do cristianismo. Essas barras tinham duas caras, tal como a própria Espanha na época, já que proclamava uma religião de amor, ao mesmo tempo em que mandava frotas de conquistadores para o Novo Mundo, como é o caso do Santa Isabella, para saquear e matar.

Lídia ficou aterrada. Sabia que grande parte da riqueza espanhola tinha sido adquirida à custa de muito sangue e escravidão. Os espanhóis tinham exterminado os nativos, fazendo-os trabalhar exaustivamente nas minas de prata, para enriquecer o rei da Espanha, mas não disse nada. Será que Burt se preocupava com o aspecto humano que implicava uma conquista estrangeira? Ou estava só interessado no ouro?

  • Aquelas moedas de prata — apontou Lídia — são dobrões?

  • São. Elas têm um formato meio estranho, mas eu já verifiquei. São dobrões mesmo.

  • O formato é irregular, porque antigamente a prata era pesada pelo sistema troy, como ainda o é hoje em dia, e a pessoa quando comprava algo cortava a moeda para obter o peso necessário para efetuar o pagamento. Por isso, várias dessas moedas, resgatadas do fundo do mar, não têm data, porque a data geralmente era impressa na beirada, que era a parte cortada.

Burton sorriu.

— Não precisa continuar tentando me impressionar com seu conhecimento, Lídia. Você já me mostrou o que sabe, agora quero que aprecie as peças simplesmente.

Lídia refreou um impulso de raiva. Ele sempre adivinhava suas intenções! De fato, ela estava querendo impressioná-lo, mas por quê? Para conseguir emprego? Talvez. Entretanto, era preciso reconhecer que Burton a atraía fisicamente. Naquele momento, ele mais parecia um menino, mostrando, entusiasmado, seus brinquedos.

— Está bem, Burton, vou apreciar suas peças. Aquilo ali no cantinho é mesmo uma corrente de ouro?

Burt não havia mencionado ter descoberto aquela peça. Será que não confiava nela? Ele pegou a corrente e colocou na mão dela. Lídia ficou boquiaberta com a beleza e o peso da peça.


  • É linda! É... — Ela refreou o que ia dizer. De novo ele deu um sorriso irônico.

  • Você ganhou.

  • Ganhei o quê? — Lídia arregalou os olhos, atônita.

  • Você sabe alguma coisa a respeito dessa corrente, não é? Algo que eu não sei e quero saber.

  • Como posso saber disso? — Lídia reteve a informação, gozando sua posição de superioridade naquele momento. — Não tenho a menor idéia do que você sabe sobre essa corrente.

  • Não sei quase nada, só sei que atualmente vale uma dinheirama!

  • Não acha arriscado mantê-la aqui no barco? Ela vale uma fortuna enquanto ouro, mas como peça original do século XVII não tem preço.

  • Eu a mantenho aqui para poder mostrá-la a mulheres bonitas como você, que nunca tiveram o prazer de ter nas mãos algo semelhante. Adoro dar às mulheres prazeres inigualáveis — disse ele, em tom insinuante, sorrindo. — Não quer me contar sobre essa corrente?

Lídia sorriu, ao ver o olhar de expectativa dele.

  • A corrente não era uma jóia em si, era chamada de corrente de dinheiro, porque cada elo tinha um valor. Quando um indivíduo queria comprar algo, ele retirava um elo para pagar.

  • Então ele levava a corrente no bolso?

  • Possivelmente, mas também pode ser que usasse no pescoço mesmo. Tudo o que os espanhóis estivessem usando ao subir a bordo de um galeão era isento de impostos.

  • E... a preocupação com impostos é bastante antiga.

Burt colocou a corrente de novo no cofre, mas Lídia pegou-a outra vez e arrumou-a sobre a mesa, decorativamente.

—Pode imaginá-la num museu, Burton?

Burt estendeu a mão para pegar a corrente e os dedos deles se tocaram. Por instantes os dois ficaram imóveis, cientes da sensação forte que esse contato provocava. Lídia afastou a mão primeiro.


  • Francamente, Lídia, não posso imaginar esse ouro todo em um museu! — Ele pegou a corrente e guardou-a no cofre. — Agora fale-me um pouco de você. O que faz uma cientista em suas horas de lazer? Quais são seus outros interesses?

  • Eu coleciono conchas, criava peixes num aquário antes de vendermos a casa, gosto de cozinhar... nada de extraordinário ou muito diferente.

  • Ah, então temos um interesse em comum! Eu também gosto de cozinhar. Talvez um dia eu faça um jantar especial para você, se quiser, é claro!

  • Talvez... — Ela desviou o olhar, não sabendo bem o que dizer. — Depois ergueu-se achando que a entrevista já havia terminado e que devia ir embora. — Muito obrigada por sua atenção, Burton. Gostaria muito de trabalhar com você.




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