Águas Perigosas Treasure Of The Heart



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CAPÍTULO III

Burton fechou o cofre e Lídia sem querer admirou sua mão bronzeada. Como era bonita, com aqueles dedos longos e finos! Desviou o olhar depressa. Estava meio sem saber o que fazer. Achava que devia ir embora, mas não dependia dela. Afinal, estava num barco, no meio do mar. Depois de alguns instantes, ele conduziu-a até o convés. Estava um dia bonito e os raios do sol douravam as águas. A brisa trazia um cheiro de mar que se misturava ao perfume de sândalo que ele usava e era um convite à fantasia. Lídia imaginou-se sozinha com Burt num barco, perdidos no meio do oceano, até que a voz dele quebrou o encanto.

— Suponho que deseja voltar a Key West agora, não é?

Ele estava novamente com aquele sorriso irônico. Será que tinha lido os pensamentos dela?



  • Se for conveniente...

  • É claro que sim. Acho que uma moça corajosa como você não vai ter medo de voar de helicóptero, vai? Eu tenho um encontro para o almoço na cidade. — Consultou o relógio de pulso. — Se está pronta, podemos entrar no Silver Ingot e voar para Key West imediatamente.

Burton foi indo na frente, sem esperar resposta e subiu a escada.

No convés superior, o Silver Ingot estava pousado como um gigantesco inseto. Burton soltou os cabos que o prendiam no lugar, depois abriu a porta e ajudou Lídia a subir. O contato da mão dele segurando a sua com firmeza, provocou-lhe um arrepio e ela ficou tão concentrada em não demonstrar o que estava sentindo que nem percebeu o vento levantar sua saia. Só quando notou o olhar dele é que se deu conta, e, então, num gesto rápido, segurou a saia. Burt sorriu, provocante.

Ora, não seja desmancha-prazeres! Para que tapar uma visão tão encantadora? Sente-se aqui, por favor, e com licença.

Lídia enrubesceu de raiva, encolheu-se e colocou as pernas para o lado, para dar passagem a ele. Mesmo assim os quadris dele esbarraram de leve em seus seios, provocando-lhe um frio na boca do estômago. Burt instalou-se no lugar do piloto e ligou o motor. O barulho tornava impossível conversar e ela deu graças a Deus, pois não sabia o que falar.

O Silver Ingot levantou vôo com suavidade, mas Lídia ficou imóvel no lugar, com medo de cair pelo vidro.

Estava assim ainda, quando, poucos minutos depois, sentiu a mão dele sobre seu joelho. Ergueu o rosto, assustada, e deparou com um sorriso irônico. Tentou empurrar a mão dele, mas ele aproveitou-se disso para segurar a sua.

— Acalme-se, Lídia, relaxe — disse, quase gritando para se fazer ouvir. — Eu estava só querendo chamar sua atenção. Olhe para baixo. Olhe que arraia enorme, ali à direita.

Lídia desvencilhou-se da mão dele e esforçou-se para olhar. Ornar estava límpido e a arraia nadava bem à superfície. Burt fez o helicóptero descer mais, para verem de perto, mas a arraia mergulhou e desapareceu no fundo do mar.

— Que pena, eu a assustei.

Mas, na verdade, quem se assustara fora Lídia, com o contato quente daquela mão. Continuou olhando para baixo, tentando esquecer a sensação forte que ele lhe causara. A vista era mesmo muito bonita, dava até para se distinguir os bancos de areia nas partes mais rasas.

Depois de mais alguns instantes de vôo, Burton apontou ao longe e disse, com voz bem alta:

— Lá está Key West!

Lídia olhou para o horizonte e viu aos poucos surgir a enseada. O trajeto que levara uma hora de lancha estava sendo feito em questão de minutos pelo Silver Ingot.

Estava tão distraída e enlevada observando as gaivotas e pelicanos que demorou para perceber a pequena embarcação logo abaixo deles, com três tripulantes.

Burton também percebeu o barquinho nesse momento e, com um sorriso cruel, fez o helicóptero dar um vôo rasante sobre eles. Repetiu isso várias vezes, até que os rapazes se apavoraram e começaram a se deitar no chão do barco.

Lídia ficou branca de pavor. O que Burton estava querendo fazer? Que maluco! E ele ria sem parar. Será que perdera o juízo?

— Burton! Você está assustando os rapazes! Pare com isso!

— Eu pretendia mesmo assustá-los. Eles precisam...

Pouco depois estavam sobrevoando o aeroporto. Receberam permissão para pousar e Burt fez o pouso com perícia e suavidade. Em seguida, abriu a porta e passou por Lídia sem esbarrar, o que a fez pensar que da outra vez ele havia esbarrado de propósito. Desceu com um salto elegante e virou-se para ajudá-la.

— Obrigada. Vou ficar esperando sua resposta, então. — Ela tentava disfarçar o tremor das mãos.



  • Deixe-me levá-la para sua casa, Lídia.

  • Obrigada, mas eu posso muito bem tomar um táxi.

  • Não estou duvidando da sua capacidade, só que não é meu costume abandonar mulheres no aeroporto, para que tomem táxis sozinhas. Por favor, permita que eu a leve... Onde está hospedada?

  • Na Eaton Street, perto de Simonton, mas não precisa se incomodar.

  • Não é incômodo nenhum; para mim será um prazer e vamos deixar de tanta formalidade.

  • Prefiro manter a formalidade. Não gosto de misturar trabalho com amizade.

  • Que pena! Talvez eu consiga fazê-la mudar de idéia...

Burton olhou-a de modo insinuante e encaminhou-se para o Mercedes branco. Abriu a porta, fez Lídia entrar e depois deu a volta, para sentar-se ao volante.

Pouco depois estavam parando diante da casa dos Gomez.



  • Então você preferiu se hospedar num lar típico! Meu tataravô tinha uma casa igual a essa, nas Bahamas. — Burt fitou-a bem dentro dos olhos. — Eu achei que o Hotel Casa Marina fazia mais seu gênero... elegante, sofisticado e moderno.

  • Não sei por quê. Os arqueólogos não costumam ter grandes cantas bancárias. Por favor, espero que me dê logo uma resposta sobre meu pedido de emprego na Dive Boys.

Burt saiu do carro para abrir-lhe a porta e acompanhou-a até o terraço da casa, segurando-lhe o braço.

— Não tenha receio, Lídia, você vai ter notícias minhas!

A voz dele parecia insinuar uma promessa, mas Lídia não estava bem certa de que era uma promessa de emprego. Ao despedir-se, ele apertou de leve a sua mão.

Lídia entrou depressa, sem olhar para trás, embora tivesse vontade de o fazer. Assim que entrou, Maria foi ao seu encontro.

Bom dia, Lídia. Não quer entrar aqui na cozinha e tomar uma limonada para refrescar?

Lídia sorriu, achando que Maria devia tê-la visto chegar acompanhada e estava querendo especular sobre Burton... Por instantes hesitou, mas logo concluiu que ela também poderia tirar proveito da conversa. Gostaria de saber mais sobre aquele homem provocante, para quem estava querendo trabalhar.

— Obrigada, Maria, adoro limonada!

A cozinha cheirava a orégano e temperos apetitosos.

Sente-se, por favor.

Maria indicou a mesa redonda de carvalho, depois pegou copos, cubos de gelo e a jarra de limonada na geladeira.



  • Você conseguiu seu emprego, Lídia.

  • Ainda não sei. O senhor Burton vai me telefonar amanhã para dar a resposta, mas eu gostaria muito de trabalhar para ele.

  • Muitas garotas gostariam disso também. Burton é requisitadíssimo pelas mulheres. As vizinhas já devem ter visto o carro dele parar aqui e eu agora vou ser assunto de muito conversa. — Ela sorriu, deixando entender que ficaria satisfeita com isso. — Agora me conte, como é Burton assim de perto, numa conversa?

Lídia riu e olhou com simpatia para Maria, enquanto dava um gole na limonada.

  • Era justamente o que eu ia perguntar a você. Tudo o que sei sobre ele é o que li nas colunas sociais. — Lídia escolhia as palavras com cuidado, querendo esconder o quanto ele a havia impressionado, e quanto a proximidade dele a deixara perturbada. — Para mim ele não passa de um playboy que descobriu por acaso um galeão afundado e está brincando de caça ao tesouro.

  • E você o censura por isso? Puxa, um navio espanhol antigo! Ouro!

  • Eu não o censuraria se ele fizesse a busca de modo científico e metódico. — Maria admirou-se e Lídia continuou: — Sou arqueóloga marinha e por isso me interesso por esse aspecto.

  • Ah, sei. Diga uma coisa: ele é tão bonito quanto nas fotos? Só o vi de longe. Ele é gentil e cavalheiro, mesmo, como dizem?

  • Ele é bonito, sim, não se pode negar. E é muito gentil também. Pelo menos não quis me deixar tomar um táxi no aeroporto e insistiu em me trazer de carro.

  • Eu vi o helicóptero dele vindo para cá.

Lídia ficou quieta e bebeu a limonada. Não queria mais falar sobre ele, temendo revelar suas reações. Não era do tipo que contasse a uma estranha que um homem que mal conhecia fizera seu coração pulsar mais rápido, que sentira arrepios e calafrios só de ouvir a voz dele e esbarrar nele. Nem queria admitir que o olhar dele a perturbara tanto, apesar de tê-lo achado egoísta, arrogante e ganancioso.

  • E você, Maria, o que sabe sobre Burton?

  • O que eu posso saber? Sou apenas uma dona-de-casa que aluga quartos! Não sei de nada sobre os figurões da sociedade de Key West. Só sei que a família Adburee possui uma empresa de navegação na costa do Golfo. Foi assim que ficaram ricos. Essa expedição de resgate do navio afundado deve ser só um hobby. Dizem que o velho Adburee está dirigindo os negócios sozinho, agora que Burt está metido nessa aventura de mergulhar... e depois que Zack morreu.

  • Zack? Quem é?

  • O irmão caçula de Burt, que morreu há pouco tempo. Dizem que os pais dele ficaram abaladíssimos e Burt também. Nunca mais foram os mesmos. Eles eram uma família muito unida! Dizem também que Burt fica muito deprimido às vezes e depois tem explosões de raiva. Mas... são só mexericos, eu nem devia estar lhe contando.

Lídia lembrou-se das fotografias no escritório. Sem dúvida eram de Zack, por isso Burt ficara com o olhar tão sombrio e triste! Compreendeu o sentimento dele e sentiu-se solidária.

  • De que morreu o irmão dele, Maria?

  • Ninguém sabe. Foi tudo abafado. — Nesse momento, ouviram passos no terraço e barulho no trinco da porta. — Meu Juan chegou para almoçar, quer nos fazer companhia, Lídia?

  • Obrigada, mas eu preciso subir. Agradeço pela limonada também.

Maria acompanhou Lídia até a porta.

  • Boa sorte para você. Espero que consiga o emprego.

  • Obrigada, Maria. Vou precisar de sorte mesmo.

Lídia subiu a escada pensando em Burton. Ele, afinal, parecera ter ficado bem impressionado com sua experiência, suas credenciais e o conhecimento sobre antigos galeões e a Espanha. Será que também se sentira atraído fisicamente? Gostaria tanto de poder saber! Tinha quase certeza de que ele a contrataria. Ela iria precisar de muito tato e sabedoria para lidar com ele...

Ao chegar no quarto, Lídia percebeu que estava com fome, por isso refrescou-se um pouco e saiu de novo, à procura de um restaurante. Foi andando pela rua arborizada até que, no meio do quarteirão seguinte, encontrou uma lanchonete chamada Pink Turtle, onde resolveu entrar para almoçar. Comeu depois voltou para o quarto, tirou a roupa e estendeu-se na cama, contente por ali ser bem ventilado.

Acabou cochilando e sonhando com Burton. Por volta das cinco horas, tomou um banho frio e vestiu a calça e blusa sem mangas, cor de tangerina. A roupa lhe assentava perfeitamente, revelando as curvas bem-feitas. Maquilou-se com cuidado, acentuando a cor dos olhos com sombra verde-azulada. Secou os cabelos curtos, afofando-os em mechas para trás, e quando afinal ficou satisfeita com sua aparência saiu para dar um passeio. Tinha resolvido ir ver o pôr-do-sol. Muita gente ia ao Cais Mallory para observar esse espetáculo e principalmente os hippies se encontravam ali.

Chegavam pessoas de todos os lados, de carro, a pé, de bicicleta e de skate. Risos e vozes alegres enchiam o ar. Lídia respirou fundo, sentindo uma miscelânea de odores; a brisa do mar, o pão de banana de um vendedor ambulante, fumo e bebida. Diante dela surgiu um rapaz cabeludo, segurando um trombone, com um cigarro escuro nos lábios. Lídia automaticamente leu a inscrição na camiseta dele: "Trombonistas fazem em sete posições". Ela corou e o rapaz sorriu para ela, antes de se juntar ao pequeno grupo de músicos amadores que tocava nas ruas.

O ancoradouro mais parecia um circo. Em cada canto havia um músico ou um grupo tocando à sua maneira. Um jovem de túnica e calça feita de saco dançava descalço sobre um pilar do pontão que não tinha mais do que trinta centímetros de diâmetro. De vez em quando ele parava de dançar, fazia uma reverência para o sol, depois recitava, com voz melodiosa e agradável.

Ao se aproximar de uma rodinha de espectadores, Lídia viu, perplexa, que quem estava no centro era Raul, descalço, com uma roupa verde de Ali Babá e de turbante. Fazia mágicas para o grupo que o observava atentamente. Ele viu Lídia, mas desviou o olhar e confinou seu desempenho.

— Senhoras e senhores! — dizia Raul. — Aproximem-se! Venham conhecer Manfred, o mágico. Venham ver moedas, bolas e lenços surgirem do nada! — O grupo de espectadores aumentou e Raul, abrindo uma mala velha, retirou uns aros de metal. — Agora vou fazer um trato com vocês!

Até Lídia aproximou-se mais, embora já soubesse o que ia acontecer.



  • Qual é o trato? — gritou um homem que estava mais atrás.

  • Quero que vocês gritem, batam palmas e façam o máximo de barulho para atrair as pessoas. Quando houver bastante gente, daí eu faço um espetáculo realmente bom. Feito o trato?

Lídia afastou-se, mas o grupo fez uma verdadeira algazarra, batendo palmas, gritando e batendo os pés. O truque de Raul realmente deu certo. O grupo aumentou bastante e todos queriam saber o que ia acontecer.

— Agora vejam esses aros — disse Raul, erguendo os aros de aço e entregando três deles para os espectadores examinarem. — Estão vendo? Um separado do outro. Nada de furos!

Lídia afastou-se mais. Então Raul pegou os aros, manipulou-os por alguns instantes e depois ergueu-os, já ligados como uma corrente. A multidão aplaudiu e o entusiasmo era autêntico. Lídia teve vontade de virar as costas e ir embora, mas Raul era cativante até para ela, que era sua irmã. Ele continuou o espetáculo, fazendo aparecer e desaparecer coisas com truques que deixavam a platéia maravilhada, sorrindo. Quando terminou, antes que a platéia se dispersasse, Raul jogou um chapéu no chão.

— Se gostaram do meu show, mostrem-me. Colaborem com um artista pobre!

Lídia ficou observando as pessoas se aproximarem e colocarem moedas e notas no chapéu. Estava admirada com o espetáculo tão profissional que o irmão arquitetara. Quando ele terminou de guardar na mala os aros e lenços, a platéia já havia se dispersado. Lídia tinha se sentado em um banco ali perto, de frente para a enseada e viu quando um jovem descalço aproximou-se de Raul. Tentou ouvir a conversa, mas o ruído do mar e o barulho das pessoas impediam. De repente, ela viu Burt em pé no meio da pequena multidão e percebeu que ele estava atento, observando Raul de olhos semicerrados.

— ...comida... fiança... amigos... — foram as palavras que chegaram aos ouvidos de Lídia e que tinham sido ditas pelo rapaz que conversava com seu irmão.

Não querendo chamar a atenção de Burt, Lídia ficou imóvel no lugar onde estava, observando Raul de canto de olho. Viu-o esvaziar o chapéu e entregar todo o dinheiro ao rapaz que falava com ele. Depois o garoto alto, de cabelos compridos e queimados pelo sol, bateu de leve no ombro dele e foi embora.

— Obrigado, cara... outra vez...

Raul, então, aproximou-se de Lídia, olhando em redor como se tivesse medo de estar sendo observado.


  • Quem era aquele sujeito para quem você deu seu dinheiro?

  • Um amigo.

  • Como é o nome dele?

  • Spike.

  • Só assim, parece apelido. Ele não tem sobrenome?

  • Isso é tão importante assim? O dinheiro também não é importante. O que vale para mim é ver as pessoas assistindo às minhas mágicas e gostando. Eles gostam de mim de verdade, Lídia. O que importa é agradar as pessoas.

Lídia sentiu-se irritada com essa atitude do irmão, com o modo de ele encarar a vida. No fundo, admirava a bondade dele, mas sabia que, se continuasse assim, jamais seria alguém nem construiria nada para si próprio. Com um rápido olhar ao redor, percebeu, aliviada, que Burt tinha ido embora. Não queria que ele a visse com Raul, o qual também não queria ser visto com a irmã.

  • Para onde você vai agora? — perguntou Lídia.

  • Arranjar alguma coisa para comer.

  • E onde você pretende... arranjar?

  • Não se preocupe, maninha. Vou filar bóia com alguém.

  • Será que você não tem orgulho? Como é que pode andar por ai esmolando? Por que não guardou pelo menos o dinheiro suficiente para comer alguma coisa?

  • Lídia, um companheiro nosso está no xadrez. Um "tira" prendeu o cara sem motivo nenhum! Aquele dinheiro que eu arrecadei é para soltá-lo. O que é pior: passar fome ou ficar na cadeia? Sei que ele faria o mesmo por mim.

  • Se você tivesse bons amigos mesmo, não estaria aqui, sozinho e com fome! — explodiu Lídia, furiosa.

Raul fez de conta que não ouviu e ficou olhando para o mar.

— Venha comigo, eu pago um jantar para você. Também ainda não comi. Não dá para você tirar essa fantasia?

Raul pegou a maleta e entrou num banheiro público. Quando voltou, estava de jeans, camiseta e tênis.


  • Que tal uma cervejinha com batatas fritas?

  • Quero que você faça uma refeição decente, Raul, e pretendo ir a um restaurante mesmo. Vamos logo, eu vi anúncio de um lugar chamado The Deck. Vamos experimentar.

Raul foi caminhando ao lado dela. Ao chegarem no restaurante, ele abriu a porta para a irmã entrar primeiro. Atravessaram um correi dor estreito e chegaram a uma área ao ar livre, com mesas redondas Havia um perfume de jasmim no ar. Quando o garçom os atendeu. Lídia pediu frutos do mar para dois e Raul não contestou.

  • Conte-me como foi seu dia de trabalho, Raul "Johnson" --- disse Lídia, quando ficaram a sós.

  • Você não iria querer que eu usasse meu nome verdadeiro, iria Quer dizer, eu sabia que você usaria o seu e daí...

  • Tudo bem, Raul, eu entendo.

  • Burton contratou você?

  • Só amanhã vou saber. Você deve estar desejando que ele não me contrate, eu sei.

  • É verdade. Mas vi o jeito como ele olhava para você. E Burt é tão rico que poderia contratá-la só para decorar o escritório quisesse.

  • Se é assim tão rico assim, por que não paga um salário decente para os mergulhadores? Ele é muito arrogante e pão-duro! Ele é mesquinho Raul!

Lídia começou a contar o episodio do helicóptero com os rapazes do barco, mas Raul pegou de repente o cardápio e escondeu-se atrás.

Lídia olhou para a porta e ficou gelada, ao ver Burton e Margô entrando e sentando-se em uma mesa meio escondida por um biombo de plantas. Virou, então, a cadeira, para ficar bem de costas para eles.

— Vamos cair fora daqui — disse Raul. — Não quero que nos vejam juntos.


  • Se sairmos agora, vamos chamar a atenção. Sossegue, Raul, e coma. Eles estão de costas para nós.

Enquanto comiam, Lídia fez mais perguntas ao irmão, querendo esquecer a presença de Burt.

— Qual é o seu horário de trabalho?

— Do nascer ao pôr-do-sol, quando o tempo está bom. Quase

todas as noites os mergulhadores dormem a bordo do Sea Deuced. Hoje eu vim para cá, comprar mantimentos. Volto amanhã com Harry e fico lá dez dias seguidos, depois teremos uns dias de folga.



  • E onde vai passar esses dias?

  • Burt aluga um lugar para quem quiser.

  • Mas ele está usando você! Além de pagar um salário de fome, ainda...

Isso foi demais para Raul. Ele já havia terminado de comer. Colocou dois pães nos bolsos e saiu de fininho, deixando Lídia sozinha.

Ela sentiu-se abandonada e solitária enquanto bebia lentamente seu café. Como iria sair dali sem que Burt a visse? Não queria fazer como Raul, esgueirando-se por trás dos biombos de plantas. Só havia um jeito: sair com naturalidade. A sala já estava cheia de gente, com quase todas as mesas ocupadas. O coração de Lídia bateu mais forte só de pensar em encontrar-se com Burt. Se ao menos estivesse acompanhada! Pôs-se a imaginar um plano. Passaria direto pela mesa dele, acenaria cortesmente com a cabeça, e sairia. Mas, antes que ela chegasse lá, Burt ergueu-se, estendeu a mão para Margô e conduziu-a para a pista de dança, tão pequena que Lídia nem havia notado.

Burt estava de roupa esporte clara, que acentuava seu bronzeado. Como sempre, estava elegante e charmoso. Margô usava um vestido de alças amarelo, que moldava as formas de seu corpo.

Quando Lídia passou por eles, dançavam abraçados, juntinhos, e Margô estava de olhos fechados, com a cabeça apoiada no peito dele. Sem querer, Lídia sentiu uma ponta de inveja, mas logo censurou-se por isso. Pouco antes de se virar para sair, Burt olhou para ela e deu uma piscada...



CAPÍTULO IV

Lídia estava esgotada devido às coisas que tinham acontecido, à viagem que fizera, à entrevista a bordo do Sea Deuced e ao jantar com Raul mas, apesar disso, não conseguia dormir. Não parava de pensar em Burt e ficou um longo tempo a rolar na cama, até que afinal conseguiu adormecer.

Acordou ainda meio zonza de sono, com alguém batendo à porta, e só percebeu que não era sonho quando ouviu a voz de Maria.

— Lídia! Lídia! Telefone para você! — Ela bateu de novo. — Você está acordada?

— Já vou indo, Maria.

Lídia pulou da cama, sonolenta, e demorou para achar os chinelos e o roupão. Quando afinal encontrou-os, correu para a porta, e nesse curto trajeto mil pensamentos a assaltaram. Devia ser Raul! Será que acontecera algo com ele? Quem mais poderia ser, àquela hora? Será que também tinha sido preso?



  • Quem é, Maria? Quem está me telefonando a esta hora?

  • É um homem, mas não deu o nome.

  • Desculpe por ter sido acordada por minha causa.

O telefone de Maria ficava na cozinha da casa e era preciso atravessar o pátio. Lá fora estava úmido de sereno.

— Alô, aqui fala Lídia Cameron — atendeu ela, ansiosa.

— Bom dia, Lídia. Aqui é Burt. Arrume suas malas que eu vou buscá-la daqui a meia hora.

Ela sentiu um misto de alívio e surpresa. Ficou tão confusa que não percebeu o que significava um telefonema de Burt.

— Meia hora?! Mas para quê? Quer dizer...

Você disse que queria começar a trabalhar na Dive Boys hoje, não disse?

E claro que disse! Mas são só cinco horas da manhã! - Eu sei. Trate de se aprontar logo. Quero instalar você em Marvista, para estarmos a bordo do Sea Deuced às nove horas. Quero que esteja pronta daqui a meia hora.

Que arrogância! Lídia precisou se controlar para não demonstrar agressividade.



  • Devo confessar que é um horário fora do comum!

  • Dive Boys é uma empresa fora do comum. Passo aí dentro de meia hora, Lídia. Esteja pronta.

Ela ficou mais irritada ainda com a calma e a firmeza da voz dele. Será que nunca ninguém dizia "não" àquele homem? Burt nem lhe dera tempo de protestar ou concordar. Simplesmente considerara como ponto pacífico o fato de que ela lhe obedeceria. Que ousadia a dele! Achava que era só estalar os dedos e ela faria o que ele quisesse! Mas o que mais poderia fazer? Não queria tanto trabalhar para ele?!

  • Aconteceu alguma coisa ruim? — perguntou Maria, da porta da cozinha.

  • Era Burton Adburee, dizendo que vem me buscar para eu trabalhar para ele. Estou contratada.

  • Ah, sei... — Maria bocejou e olhou para o relógio. — Trabalho! Mas são...

  • Eu sei, são cinco horas e eu peço desculpas mais uma vez por ter perturbado seu sono. Sinto muito, Maria, mas...

  • Tudo bem, Lídia. Vamos voltar para a cama, agora.

  • Você pode fazer isso, mas eu vou ter que sair daqui a pouco. Gostaria de pagar minha conta agora.

— Você vai mesmo começar a trabalhar a essa hora? Lídia assumiu uma atitude defensiva.

  • Uma operação de resgate no fundo do mar não obedece ao horário de oito às cinco horas de outros trabalhos, Maria. Depende do tempo, da maré e outras coisas assim. Bem, mas Burt vai passar para me pegar daqui a meia hora, por isso...

  • Então é melhor se apressar.

Lídia correu para o quarto, arrumou as coisas, fez um cheque para Maria e vestiu-se com cuidado especial. Queria estar melhor do que no outro dia. Vestiu calça comprida e camiseta que realçavam seu corpo, escolhendo uma cor que favorecia seus olhos. Escovou os cabelos e passou brilho nos lábios. Nada mal para aquela hora da manhã. Ficou contente com sua aparência, mas não pôde deixar de pensar na roupa que Margô estaria usando. Logo em seguida, recriminou-se por tamanha tolice.

Enquanto levava a bagagem para a porta da casa, ia pensando se iria ou não ficar no navio. Se não fosse, por que então teria que se mudar dali? Burt nem lhe perguntara se queria ou não mudar-se! Mas que homem!

De repente sentiu-se ridícula de estar ali na porta, com sua mala, àquela hora da madrugada, esperando por Burt. E o carro dela? O que faria com ele?

Pouco depois, o Mercedes estacionou. Burt abriu a porta, desceu e aproximou-se calmamente e sem pressa.

— Bom dia, Lídia. — Analisou-a de alto a baixo, com um olhar critico, e depois aprovou. — Gostei da sua roupa e gostei da sua pontualidade! Aliás, tem muita coisa que eu gosto em você, Lídia.

Ela sentiu o coração pulsar mais rápido com o elogio, mas não quis demonstrar.

— E eu gostaria que você me dissesse por que veio me buscar a essa hora! Por que me fez desalugar o quarto em que eu estava?

Ela falava olhando-o direto nos olhos, mas não deixou de notar que ele estava muito elegante, de jeans e camisa de seda. Tudo o que ele usava deixava-o ainda mais atraente. Como era charmoso!

— Não podemos ficar conversando aqui na rua, Lídia. Venha comigo e eu lhe explico tudo depois: quais os encargos que você vai ter no seu trabalho e todos os detalhes.


  • Devo ir no meu carro?

  • É claro que não! Quero você ao meu lado. Mando alguém para buscar seu carro mais tarde. Vamos embora.

Burt pegou a mala como se não pesasse nada, colocou-a no banco de trás do carro e depois abriu a porta da frente para ela. Lídia entrou, sentindo-se como um cãozinho treinado fazendo a vontade do dono. Se tivesse ido em seu próprio carro, teria se sentido um pouco mais independente.

Ele foi até o outro lado da ilha e parou perto de um antigo forte da época da Guerra Civil. O sol nascente iluminava as ondas, que brilhavam como labaredas, e gaivotas voavam em bandos, mergulhando à procura de alimento. Lídia contemplava o espetáculo, enlevada.



  • Em que está pensando, Lídia?

  • No ouro espanhol — mentiu ela.

  • Você também? Eu já estou pensando nele há um bom tempo! Deve haver uma fortuna incalculável no fundo do mar esperando ser descoberta!

  • Não estava calculando o valor em termos de riqueza. Estava pensando no que o ouro significa.

Se não é riqueza, então o que é que ele significa? - Para mim significa que alguém viveu aqui antes de nós, alguém que amou e sentiu emoções... e que depois de nós virão outros. Sempre gostamos de pensar que somos os mais importantes na ordem das coisas, quando na verdade somos insignificantes e frágeis em relação ao tempo, como bolhas de sabão que podem estourar a qualquer momento.

— Puxa vida! Como estamos filosóficos esta manhã!

Ele sorriu, mas o olhar ficou sombrio, tal como ela já vira na véspera.


  • Agora quero lhe dizer o que espero de você no seu novo trabalho, Lídia. O expediente é de oito horas e você vai receber de acordo com isso, mas terá que ficar de prontidão vinte e quatro horas por dia.

  • De prontidão? Como assim?

  • É simples. Preciso sempre saber onde você está, o tempo todo. Tenho equipes de mergulhadores trabalhando para mim durante o dia inteiro e, se fizerem alguma descoberta, vou precisar me comunicar com você, imediatamente. Certo?

  • Certo, parece razoável. Não sabia que você tinha equipes nesse ritmo de trabalho.

  • Você pode escolher onde morar: ou a bordo do Sea Deuced ou em Marvista. Como você já conhece as condições precárias dos alojamentos do barco, suponho que vá preferir uma pequena suíte em Marvista.

  • Mas onde e exatamente o que é essa tal de Marvista?

  • Marvista é o lar da família Adburee.

Com essa ela não contava! O que ele estaria pretendendo agora?

  • Sinto muito, mas não pretendo morar com você, se está querendo ...

  • Ouça uma coisa: eu estou lhe dando ordens e é melhor obedecer. Não acho conveniente você morar no barco e não precisa ter medo de comprometer sua reputação. Tem muita gente morando em Marvista: meus pais moram lá, meus mergulhadores se hospedam lá quando estão de folga, Margô mora lá.

  • Mas que aconchegante! — disse ela, com sarcasmo.

  • Agora vamos até lá, para você conhecer Marvista. E isso não é um convite, é uma ordem.

  • Prefiro convites, e não ordens, principalmente no que se refere à minha vida particular. É claro que terei prazer em conhecer sua casa, mas não posso me imaginar morando lá.

  • Por que não? Todos os meus outros empregados moram lá e gostam muito. É melhor encarar a situação. É aceitar ou desistir. Se quer trabalhar na Dive Boys, vai ter que se sujeitar às minhas condições.

Arrogante! Convencido! Ditatorial! Lídia mal podia controlar a raiva.

— Suas condições são bem difíceis de aceitar, e acho que você não está sendo totalmente honesto comigo.



  • Ah, é? E de que modo estou sendo desonesto?

  • Eu sei que você não paga bem seus mergulhadores.

Burt ficou meio sem jeito.

—Tenho meus motivos, Lídia. Em geral uma agência de mergulhadores atrai desocupados que não têm profissão e que muitas vezes são viciados em drogas. Eu pago pouco para que eles não possam sustentar esse vício.

— Não acha que isso é fazer inocentes pagarem pelos pecadores?

— Aposto como Raul Johnson andou enchendo sua cabeça! Eu vi você com ele no The Deck, ontem à noite. Você faz amizades rápido, Lídia!

Lídia ficou furiosa. Por acaso ele estaria insinuando que ela era uma mulher fácil?


Como Burt ousava classificar Raul assim? E ela nem podia contestar, porque afinal o irmão se vestia e se portava como tal.

  • Raul é muito simpático e bonzinho.

  • É o que veremos. Nunca faço julgamentos precipitados, principalmente em relação a mergulhadores. Mas chega de falar nisso agora! Vamos que eu quero lhe mostrar Marvista.

  • Está bem. Será que tem alguém acordado a essa hora?

  • Espero que não. O amanhecer tem isso de bom: a gente pode ficar sozinho, sossegado. Mas hoje estou gostando de passar a manhã na sua companhia!

Lídia não respondeu nada, mas sentiu o coração acelerar. Para disfarçar, fingiu estar interessada num pelicano que mergulhava atrás de um peixe. Burt mudava a todo instante. Às vezes era autoritário e logo depois era charmoso e galante. Era preciso ficar em guarda.

  • Em que está pensando?

  • Por que sempre me pergunta isso?

  • Porque quero saber. Em geral eu consigo saber o que uma mulher está pensando, mas você é diferente. Você é calada, não fala muito. Eu quero conhecê-la melhor. De onde você é? Onde passou sua vida? Que coisas fez? Quem são seus amigos?

Ela percebeu que seu silêncio poderia ser uma arma secreta contra ele.

Tenho certeza de que não vai achar nada de interessante no meu passado.

— Você nem sabe o que eu considero interessante!

Burt deu um sorriso de derreter corações, ligou o motor do carro e saiu de novo, devagarzinho. Não havia quase trânsito e logo chegaram a um portão, que dava numa alameda marginada de palmeiras, onde havia uma placa com o nome "Marvista". Burt acenou para alguém antes de entrar.

— É o doutor Haynes. Ele é outro madrugador aqui da vizinhança. Mora na casa ao lado.

Lídia contemplou a entrada da propriedade de Burt e admitiu que era mesmo bonita e imponente. Foram pela alameda de cascalho até a porta da casa, que era térrea.

Havia um amplo terraço de cerâmica vermelha com vasos de flores e a porta era de folha dupla.


  • Vamos entrar?

  • Ainda é tão cedo! Vamos acordar os outros.

  • Não tem perigo. Todo mundo aqui tem sono pesado. Só Maggie e Elmer é que devem estar acordados.

  • Quem são eles?

  • São nossos empregados. Maggie é a melhor cozinheira da região, e Elmer é um excelente jardineiro! Estão com nossa família há anos.

  • Que bom para vocês.

Um camaleão passou pelo terraço e Burt esperou um pouco para abrir a porta e fazer Lídia entrar primeiro. A casa tinha ar-condicionado e era construída em forma de "U", com a parte aberta dando para um jardim tropical e uma praia particular.

  • Que lindo!

  • Sabia que você ia gostar. Vai achar muito mais confortável do que no barco e Maggie preparou uma suíte para você. Vou lhe mostrar a casa, agora.

Lídia admirava-se cada vez mais com a beleza do ambiente. A sala de visitas espaçosa, o chão encerado, a mobília de junco com almofadas coloridas, e, principalmente, a janela panorâmica com vista para o mar. A sala de jantar com mobília de ébano e mesa com tampo de cristal; a cozinha decorada em verde-mar e modernamente equipada, chegando a ser luxuosa.

Burt serviu duas xícaras do café que estava pronto na cafeteira e levou-as para fora, sentando-se com Lídia em uma mesinha com guarda-sol.

— Vamos esperar e depois vou lhe mostrar a ala dos hóspedes. Eu disse a Maggie para nos servir o café da manhã às seis e meia, aqui perto do mar. Os outros tomam café no quarto.

Lídia deu um gole no café, admirado com a beleza de Marvista, As palmeiras balançavam-se ao vento, que trazia um perfume de jardim, e por toda parte havia plantas muito bem cuidadas, nas quais muitos pássaros vinham pousar. O marulho das ondas chegava até eles, hipnotizando e transmitindo calma.

Lídia percebeu logo que adoraria morar ali e não podia entender por que Burt trazia estranhos para esse lar adorável. Será que ele não percebia que estava invadindo a privacidade dos pais? Ele era mesmo um egoísta, que só via seus próprios interesses!


  • Diga-me em que está pensando.

  • Outra vez? Acho que você não ia gostar nem um pouco dos meus pensamentos.

  • Posso adivinhar! Você está pensando que eu sou um bobo de trazer gente para morar em Marvista, não é?

Ela enrubesceu na hora.

  • Você é telepata, por acaso?

  • Não preciso ser; li em seu rosto.

  • Então, já que adivinhou, pode me explicar o .motivo? Por que traz estranhos para a casa de sua família? Eu, Margô, Harry, os outros mergulhadores.

  • Vou lhe explicar. Você viu a sala de visitas, a sala de jantar e a cozinha. Pois bem, essa ala à direita é de meus pais, meu quarto também fica aí. Essa outra ala da esquerda estava fechada e em desuso desde que minhas duas irmãs casaram e meu irmão... Pois é, meu pai e minha mãe gostam de ver isso aqui ocupado por jovens. Dizem que lhes dá mais vigor ter gente jovem por perto. Tudo funciona muito bem.

  • Eu sei, compreendo. Nunca vi uma casa tão linda, Burt!

  • É o que todos dizem, e os que moram aqui respeitam a casa.

  • Raul disse que os mergulhadores pagam para morarem aqui. Quanto vou ter de pagar, se resolver ficar?

  • Os mergulhadores pagam por que esse tipo de gente não dá valor ao que ganha de graça, mas você, Margô e Harry recebem a hospedagem aqui como parte do pagamento. Não vai ter que pagar nada extra. Eu sei que você vai concordar em morar aqui, Lídia.

A voz dele tornara-se macia e sensual.

— Gostaria de ver meu quarto, antes de decidir.

Lídia já havia decidido há muito que queria ficar ali, mas não queria dar a Burt o gosto da vitória.

— Ah, lá vem Maggie com o nosso café. Vamos comer primeiro, depois eu lhe mostro o resto.

Ele correu para pegar a pesada bandeja quê a empregada vinha trazendo e ralhou com ela carinhosamente.

— Quantas vezes preciso dizer para você usar o carrinho, Maggie? Não quero que faça esforço carregando esse peso.

— O carrinho está ocupado e eu ainda consigo carregar uma bandeja, Sr. Burt. Não precisa se preocupar.

Maggie era uma mulher alta, de meia-idade e com um sorriso sempre pronto. Lídia gostou dela assim que foram apresentadas.

Na bandeja do café havia fatias de melão, ovos mexidos e torrada. Tudo muito bem-arrumado e enfeitado com orquídeas.

— Que lindo, Maggie! Você é uma artista e tem muito bom gosto— elogiou Lídia.

A mulher ficou toda orgulhosa.


  • O Sr. Burt sempre gostou de orquídeas e eu acho que na mesa do café elas dão ânimo para se começar bem o dia.

  • Você tem toda a razão!

Maggie encheu as xícaras de café e deixou-os a sós.

Lídia sentiu-se de repente no paraíso, ali em Marvista. Orquídeas, melão, sol brilhante, mar, silêncio... tudo muito romântico! Só a arrogância de Burt não combinava com aquele cenário.



  • Eu concordo — disse Burt.

  • Concorda com o quê?

  • Concordo com você que este é o lugar mais romântico da região! E o dia está maravilhoso!

O coração de Lídia acelerou-se. Será que Burt podia mesmo ler os pensamentos? Não podia se revelar tanto, se se deixasse levar pelo charme dele, ele iria fazê-la sofrer, depois. E ela não queria ser magoada de novo.

  • Mas é um dia de trabalho — disse ela, para se proteger.

  • Você tem razão, é um dia de trabalho. Assim que acabarmos de comer, vou lhe mostrar seu quarto e depois iremos de helicóptero até o barco.

  • Você está certo de que eu vou aceitar morar aqui, não é?

  • É claro!

  • Pelo menos você é sincero, só que eu detesto que contem com minha aprovação antes de ser consultada.

  • Eu sempre sou sincero. Você me deixa curiosa, Lídia. Nunca conheci uma mulher como você... calada, calma, senhora de si.

  • Foi por isso que me contratou? — Ela não quis demonstrar quanto o elogio a afetara. — Não sei por que fica tão curioso. Eu vim apenas procurar um emprego que me fizesse progredir profissionalmente.

  • Contratei você para que me ajude, pois você me convenceu de que seus conhecimentos serão proveitosos para a Dive Boys. Vou precisar provar que o navio que descobri é mesmo o Santa Isabella.

  • Por quê? Por que a identidade do navio é tão importante para você, Burt?

Por instantes, Lídia achou que ele poderia ter mudado de opinião, devido à conversa que tiveram, que ele poderia ter outro interesse que não fosse o monetário.

— Achei que você ia adivinhar. Se eu provar a identidade do galeão, posso conseguir subvenção de algum museu ou organização.

A resposta foi como uma pancada. Não tinha jeito, aquele homem só pensava em dinheiro, mesmo!

— O que houve? — disse ele. —Por que essa carranca?

— Gostaria que me mostrasse logo meu quarto.

Ela empurrou a xícara com um resto de café que se derramou.

— É claro. Já está ficando tarde. Vamos lá!

Burt ergueu-se e, antes que ele pudesse esboçar qualquer gesto cavalheiresco, Lídia ergueu-se também.

Atravessaram o pátio e foram para a ala esquerda. Ele abriu uma porta e esperou que ela entrasse.

— É aqui, Lídia.

O ar-condicionado estava ligado e tudo estava na mais perfeita ordem. Havia uma pequena sala, um dormitório e um banheiro. Dos dois aposentos via-se o mar. A colcha da cama e as cortinas eram de algodão estampado com florzinhas. O banheiro era todo de ladrilhos de cerâmica e já havia toalhas aveludadas dependuradas.

— Vou pedir a Elmer para trazer sua mala.

Lídia sentiu um arrepio e procurou o botão do ar-condicionado para desligá-lo.

— Você está com frio!

Imediatamente Burton pegou a jaqueta que estava levando consigo e colocou-a nos ombros de Lídia. Mas o contato da mão dele foi que a aqueceu mais depressa e o perfume de sândalo que estava na jaqueta deu-lhe uma sensação estranha. A proximidade dele perturbou-a demais e ela nem teve forças para se afastar. De repente, ele pediu licença e foi até a porta.


  • Volto logo. Já está na hora de irmos para o barco.

  • Eu ainda não disse se vou ficar aqui ou não.

  • Mas você vai ficar! Se quer realmente trabalhar comigo, você não tem escolha. Vai ter que fazer o que eu digo.

As palavras que disse eram duras, mas a voz era suave como uma carícia. O olhar dele a hipnotizava e parecia penetrar em sua alma.

— Está bem, Burt, eu fico aqui.


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