Águas Perigosas Treasure Of The Heart



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CAPÍTULO VII

Lídia terminou o trabalho na parte da tarde e saiu da sala de segurança do banco. Para seu alívio, Burt já havia ido embora e seu carro estava no estacionamento, como num passe de mágica. Realmente, preferia não vê-lo naquele momento. Havia passado o dia todo se recriminando por ter caído nos braços dele. Burt devia estar pensando que ela estava atrás dele, como todas as mulheres. Será que ele ia mesmo tratar de negócios em Miami? Para que passar a noite lá? Estaria achando que ela era mulher de ir para a cama com um homem que mal conhecia, só porque era bonito e rico?

Onde eu estava com a cabeça quando me agarrei a ele daquele jeito?, perguntou-se. Preciso tomar cuidado para que nunca mais aconteça algo assim!

Lídia parou num restaurante simples para um jantar leve, depois rumou para Marvista. Ao chegar em casa, trocou de roupa e vestiu um short azul, depois telefonou para um hotel de Miami, perto da biblioteca, e fez as reservas. Ficou algum tempo lendo, antes de sair para tomar um pouco de ar. Foi andando em direção à praia, até que ouviu um ruído entre as plantas e viu a mãe de Burt regando o jardim.



  • Boa noite — cumprimentou Lídia. — Vejo que está atarefada. Catherine sorriu e parou o que estava fazendo.

  • É, eu gosto muito de cuidar do meu jardim.

Ficaram alguns minutos conversando sobre flores e outras coisas banais. Quando voltou para a suíte, Lídia espantou-se de ver Margô parada diante de sua porta. Ela estava de roupão, cabelo enrolado e chinelos.

  • Como foi seu dia hoje? — Margô perguntou e, sem esperar resposta, foi entrando e instalando-se numa poltrona, sem ter sido convidada.

  • Muito interessante. Gostei de trabalhar com as moedas de prata.

Lídia estava alerta. Sabia que Margô tinha ido lá para especular.

— Quer dizer que vocês vão para Miami, amanhã! — disse Margô, fitando Lídia de olhos semicerrados.

— É. Eu necessito de um equipamento especial e preciso ir à biblioteca. Eu queria ir de carro, mas. . .

— Burt me disse que você vai de avião com ele.

Margô queria dar a impressão de que a viagem era um fato corriqueiro, sem nada de especial, mas o brilho em seu olhar denunciava o que sentia.

— Talvez você vá com a gente, Margô. Burt disse que ia tratar de negócios.



  • Ele vai levantar um dinheiro.

  • Ah, é? Pensei que o dinheiro para a pesquisa viesse dos negócios da família, ou da venda de algumas peças.

  • Imagine se Hastings vai dar dinheiro dele para as pesquisas de Burt! Esse trabalho custa caro! A Dive Boys às vezes fica com pouco capital e, quando isso acontece, Burt arranja empréstimos em bancos, hipotecando as peças que encontra nas explorações submarinas.

— Então Burt vai a Miami, para ver se consegue um empréstimo? Lídia ficou pensando em que peças ele iria levar como garantia dessa vez.

  • Mas dessa vez não é em bancos. Ele vai falar com pessoas interessadas em investir nesse tipo de coisa. Ele sempre volta cheio de cheques e promessas.

  • E as pessoas costumam arriscar dinheiro, assim, numa aventura tão incerta?

Margô acendeu um cigarro e soltou uma baforada de fumaça, inclinando a cabeça para trás.

— Burt sabe como convencê-las. Ele vende a elas ações da Dive Boys. Você precisa vê-lo em ação!

Lídia desviou o olhar.


  • Realmente, ele é bastante persuasivo!

  • Por que está dizendo isso? — perguntou Margô, olhando-a de novo de olhos semicerrados.

  • Ora, porque quem consegue levantar grandes quantias em dinheiro tem que ser mesmo persuasivo. Já trabalhei para uma universidade e sei como é difícil conseguir-se verbas!

Margô apagou o cigarro.

— Eu escrevo em nome de Burt, combinando encontros com as pessoas endinheiradas de Miami e outras cidades, depois ele vai falar com elas. É isso o que vai fazer amanhã. Ele vai levar algumas das peças de ouro que você viu no cofre.



  • Mas não é muito arriscado? Essas peças não têm nem preço, de tão valiosas, mesmo só enquanto ouro! Não posso acreditar que ele as transporte assim de lá para cá.

  • Mas ele transporta! Soltas no bolso, como se fossem pentes ou qualquer coisa assim. Quando vai visitar um investidor em potencial, no meio da conversa, tira do bolso, com a maior displicência, umas moedas de ouro e aquela corrente que você viu e põe em cima da mesa do sujeito. Às vezes ainda dá um jeito de derrubar uma moeda no chão, para que a pessoa pegue. E, depois de sentir o peso e ver o brilho do ouro, o indivíduo está fisgado!

  • Isso é incrível!

  • Mas é a pura verdade. E é compreensível.

  • Quanto essas pessoas investem em geral?

  • Está vendo? Até você já foi fisgada, não foi? — Margô riu.

  • Meu interesse pelo tesouro não é por causa do valor monetário. Só fiquei curiosa para saber quanto as pessoas investem...

  • Depende. Uma participação ilimitada vale dez mil dólares; já uma participação limitada vale muito menos.

  • Não entendi nada.

  • A limitada tem datas definidas. O investidor compra cotas de qualquer tesouro encontrado no período especificado. Se nada for encontrado, ele não ganha nada. É por isso que essas ações custam menos.

  • E a ilimitada dá o direito de o investidor receber uma parte de qualquer coisa que seja encontrada em qualquer época, é isso?

  • É. — Margô riu. — Está querendo comprar umas cotas? Quem sabe assim Burt nem vai precisar ir até Miami.

  • Quem sou eu! Apenas uma pobre trabalhadora!

  • Eu também.

  • Você conheceu o irmão de Burt?

  • Zack? Conheci... muito bem, até. Por que pergunta?

  • Curiosidade. Essas fotos são dele, não são?

  • São.

Margô não pareceu muito interessada em falar de Zack, mas, apesar disso, Lídia fez outra pergunta.

— Como foi que ele morreu? Foi um acidente?

Nesse momento, o telefone tocou e a moça atendeu, satisfeita por interromper a conversa. Lídia ficou furiosa, mas se conteve. Todos os telefones daquela ala tinham o mesmo número, portanto o chamado podia ser para Margô. Se assim fosse, Lídia só queria que ela fosse atender em outro quarto. Não estava com a menor vontade de presenciar uma conversa íntima entre ela e Burt.

— É para você. — Margô estendeu o fone para Lídia. — Um homem de voz macia. Hum...

Lídia pegou o fone, virando-se de costas, imaginando quem poderia ser e desejando que a outra aproveitasse a deixa para dar o fora. Mas ela não saiu do lugar.


Tentava escolher palavras que não revelassem nada de importante a Margô.

  • Você está sozinha?

  • Não.

  • Quem está aí com você?

  • A essa hora não dá para dizer.

  • É Burt?

  • Claro que não! Então você acha... — Lídia interrompeu-se, antes de dizer o nome de Burt.

  • É Margô?

  • É.

  • Livre-se dela.

  • Não dá para fazei isso.

  • Então encontre-se comigo onde possamos conversar em particular.

  • Está bem.

  • No The Deck?

  • De jeito nenhum.

  • Então no Cais Mallory.

  • Está bem. Não dá para ser mais exato?

  • Não é tão grande assim, lá. Não se preocupe, eu acho você. Dentro de quinze minutos, então.

  • Ótimo.

Lídia desligou o telefone e olhou para Margô. Não disse nada, esperando que ela entendesse que devia ir embora. Mas ela não entendeu, ou pelo menos não foi.

  • Como é, não vai revelar quem é esse cara de voz macia?

  • Não vou, não, Margô. Afinal, vida particular é vida particular...

  • Puxa, não quis sei intrometida. Fico até muito contente de você ter arranjado um namorado tão depressa!

Margô afinal ergueu-se.

— Por causa de Burt? Já disse que não precisa se preocupar, Margô! Ele é todo seu.

— Dizer é fácil, mas Burt é um homem e tanto! E, com a convivência diária, muitas coisas podem acontecer... sabe como é.

Lídia enrubesceu, lembrando-se do beijo daquela manhã.

— Não vai acontecer coisa nenhuma entre nós — declarou, admirada ver como uma mulher com aquela aparência podia se sentir tão insegura e incapaz de prender um homem. — Margô, você não respondeu à minha pergunta a respeito de Zack. Como foi que ele morreu. Catherine deu a entender que foi um acidente.

Margô hesitou, encolheu os ombros, depois encarou Lídia, com um brilho hostil no olhar.

— Se está tão interessada, por que não pergunta a Burt?

— É pode ser que eu pergunte — disse ela, sabendo que não perguntaria

Margô forçou um sorriso.

Boa noite, Lídia. Se precisar de qualquer coisa para a viagem para a viagem de amanhã, é só falar comigo. Telefonemas, reservas de hotéis...

— Obrigada, Margô. Eu me arranjo.

Lídia esperou alguns instantes depois que a moça foi embora e saiu sorrateiramente. Rumou para o Cais Mallory e, ao chegar, colocou o carro no estacionamento em frente e não desceu, esperando que Raul a visse. Bem que ele podia estar por perto, assim conversariam no carro mesmo! Onde estaria ele? Será que havia se metido em alguma encrenca.

Depois de alguns instantes, como Raul não aparecia, ela desceu do carro e foi até cais. Quase não havia ninguém por lá. Talvez ele estivesse atrasado. Lídia resolveu sentar-se num banco de concreto para esperar. Ficou de costas para a rua, ouvindo o barulho do tráfego Que chegava até ela, e de frente para o mar, ouvindo o barulho das ondas. Como o mar parecia misterioso à noite! Estava ali pensativa quando de repente, Raul surgiu a seu lado.

— Pensei que não fosse chegar nunca — disse ele.

— E eu pensei que você não tivesse vindo. Não é nada agradável ficar aqui sozinha, à noite, Raul!

— Vamos conversar no seu carro.

Lídia ergueu-se e eles se dirigiram para o estacionamento, de mãos dadas. Nesse momento, passou um carro bem perto, iluminando-os com os faróis. Antes que o carro entrasse no estacionamento, Lídia viu que era um Mercedes branco.

— É Burt! Mas o que ele está fazendo aqui? Você o chamou, Raul?

— Calma, maninha! Por que eu haveria de chamar Burt? E, além disso não é Burt. Olhe bem.

O carro apenas fizera a volta no estacionamento e estava saindo de novo. Então ela viu bem. Era Margô! Lídia ficou furiosa e, num ímpeto, abraçou Raul. Assim ela sossegava!



  • Qual é a jogada, maninha? Você não quer que ela saiba que somos irmãos, não é? Ela deve ter seguido você até aqui.

  • Acho que ficou curiosa. Ela adorou sua voz ao telefone e queria saber quem era o meu namorado. Já que eu não quis falar, ela resolveu descobrir. Margô é uma mulher decidida.

  • Ela deve ter algo com Burt, para estar assim guiando o carro dele. Eu também um dia vou ter um Mercedes como esse, maninha! Isso é que é classe!

  • Ganhando três dólares por hora você está planejando ter um Mercedes?! Seja realista, Raul! É impossível!

  • Qualquer coisa é possível para quem acredita.

  • Quem acredita em quê?

Já haviam chegado ao carro. Raul abriu a porta para a irmã e depois entrou também.

  • Quem acredita que os sonhos vão se realizar. Espero que não se apaixone por Burt, maninha. Eu vi o jeito como você olhou para ele, ontem.

  • Foi por isso que me chamou aqui?

  • Não. Queria saber o que você andou falando de mim para ele. Ele me tratou tão mal, ontem!

  • Foi por culpa sua, mesmo. Ele detesta drogas e está pensando que você está envolvido com isso. Disse que vai despedir você, se der a ele o menor motivo.

  • Isso não é justo!

  • Mas ele é assim. Por que não pede demissão e não volta para os estudos?

  • De jeito nenhum!

  • Por que me chamou aqui, Raul? Disse que precisava de dinheiro. Quanto?

  • Não é para mim, maninha. Eu não pediria se fosse isso. É para um amigo meu.

  • Que amigo?

  • Spike.

  • Spike de quê? Ele não tem nome de verdade?

  • É tão importante assim um nome? O que interessa é que ele é um ser humano em dificuldade, precisando de ajuda. Ele não tem amigos por aqui. Só conta comigo.

  • E desde quando são tão amigos, assim?

  • Isso também não importa. O fato é que somos amigos, maninha. Preciso de cem dólares.

  • Afinal, é para você ou para ele?

  • É para pagar a fiança dele.

  • Nada feito, Raul. Não vou pagar fiança para nenhum desses hippies que você acha na rua e chama de amigo. Como ele foi parar na cadeia? Drogas?

  • Vadiagem. Os "tiras" disseram isso só por que ele estava cochilando na praia. Ele tinha sessenta dólares e "os tiras" tomaram dele!

Agora ele está lá, jogado no xadrez. São só cem dólares, maninha! Eu pago você, depois. Seja boazinha... cem dólares e ele será um homem livre de novo!

— Não, Raul. Não gosto desse Spike.

Lídia pensou que o irmão fosse insistir e choramingar mais, mas, m vez disso, ele abriu a porta do carro, com muita raiva, e desceu depressa, como se quisesse se afastar dela o mais rápido possível. Depois bateu a porta com tanta força que o carro todo estremeceu, á estava quase saindo do estacionamento quando ela se recuperou da surpresa e ligou o motor.

Saiu e rumou para Marvista, com a cabeça fervilhando de pensamentos. Não podia deixar de ter pena do rapaz na cadeia, mas, ao mesmo tempo, achava que tinha tomado a atitude certa, recusando-se a emprestar o dinheiro. Raul nunca amadureceria se ela lhe desse dinheiro sempre que pedisse.

Depois pensou em Margô. Ficava chateada por ela ter aparecido lá no cais. mas agora achava que tinha sido até bom. Talvez fosse melhor mesmo Margô pensar que Raul era seu namorado. Talvez assim ela parasse de pensar que estava interessada em Burt e pudessem ficar amigas. Lídia precisava de uma amiga.

Quando chegou em casa, sentia-se só, inquieta e ansiosa, cheia de medos e pressentimentos ruins.



CAPÍTULO VIII

Na manhã seguinte embarcaram no Cessna bimotor, em direção a Miami. Burt usava um terno chique e camisa de seda. Lídia estava muito bem vestida e discretamente maquilada. Sabia que estava com ótima aparência, mas o olhar insistente de Burt já estava enervando-a.



  • Você devia usar sempre essa cor verde-mar. Seus olhos ficam maravilhosos!

  • Vou procurar me lembrar disso — respondeu ela, em tom de riso.

  • Fiz reservas para nós, no Hotel Moonraker, em Miami Beach, Lídia.

  • Mas eu já fiz reserva para mim no Hotel Seashore!

  • Pode deixar que eu cancelo.

  • Prefiro ficar no Seashore. É mais perto da biblioteca e posso ir a pé.

  • Eu levo você de carro para onde quiser ir — Burt falou num tom de quem determina algo e dá o assunto por encerrado.

  • Acho que é inútil discutir com você, mesmo.

  • Exatamente, Lídia, mas as eu admiro sua determinação e coragem. E não precisa ficar preocupada porque reservei quartos separados.

  • Eu não estava preocupada com isso; tinha certeza absoluta de que ficaríamos em quartos se separados. Essa hipótese nem me passou pela cabeça!

Lídia disse isso e enrubesceu, pois sabia que ele devia estar se lembrando dos beijos e carícias ardentes que haviam trocado há menos de vinte e quatro horas. Olhou pela janela, para disfarçar e evitar o olhar dele. O céu estava azul e límpido e o mar brilhava, refletindo a luz da manhã. Era realmente romântico e excitante estar com Burt em pleno céu! Estavam in a sós e ela sentia-se tão atraída por ele que estava até assustada. Por instantes se indagou se ele também não estaria sentindo a mesma coisa, mas logo concluiu que não.

Sobrevoaram o aeroporto de Miami durante quase quinze minutos, antes de receberem permissão para aterrissar. Burt fez uma aterrissagem perfeita e, ao abrir a porta do avião para descerem, esbarrou os ombros nos seios de Lídia. Ela, ficou achando que tinha sido proposital. Será que ele julgava que ela se sentiu lisonjeada com isso? Que presunçoso!



  • Eu aluguei um carro para usar aqui — disse Burt, enquanto atravessavam a pista em direção ao prédio do aeroporto. — Posso levar você direto para a biblioteca, a menos que prefira passar no hotel primeiro, para... hum... se refrescar um pouco.

  • Pode me deixar na biblioteca, está ótimo. Eu tenho tudo de que preciso aqui na minha maleta.

  • Você tem tudo de que precisa mesmo sem maleta. Não sei se já lhe disse isso, mas você é linda, Lídia.

  • Mas quanta lisonja!

Entraram no terminal, que estava cheia de gente. Pessoas falavam em espanhol, inglês e francês, entravam e saíam das lojinhas de souvenirs. Comissários e aeromoças uniformizados transitavam apressados pelos corredores.

Burt foi direto ao guichê da locadora de veículos, apresentou sua carteira de identidade e o cartão de crédito e ficou à espera.

Lídia admirou a perícia com que ele dirigia, naquele trânsito confuso e agitado. E, apesar do trânsito, do calor e da umidade, ela gostou da cidade.

Poucos minutos depois, Burt estacionou diante da biblioteca.



  • Encontro você aqui às cinco horas.

  • Não precisa se preocupar. Não vou ficar aqui o dia inteiro, bastam algumas horas. Depois pretendo ir comprar o equipamento.

  • Ponha na conta da firma. Como vai fazer para se locomover na cidade?

  • Ah, tem ônibus e bondes à vontade! Eu me arranjo bem sozinha, até prefiro. Conheço a cidade, mor;i aqui vários anos.

— Então encontro você no hotel, pouco depois das cinco horas.

  • Não sabia que teria hora para me recolher — disse Lídia, com ironia —, mas se você quer que eu bati o ponto...

  • Não se esqueça de que quem dá as ordens aqui sou eu! Quero vê-la no hotel pouco depois das cinco. Você pode conhecer a cidade na palma da mão, mas eu sou responsável por você enquanto estivermos juntos!

  • Está bem, Burt, não tive intenção de contrariá-lo. Estarei no hotel pouco depois das cinco horas.

Lídia, sem querer, ficou vendo o carro se afastar, até que desaparecesse no trânsito. Será que Burt realmente se preocupava com sua segurança? Ou era só por capricho que desejava que ela chegasse cedo?

A biblioteca era antiga e bem asseada. Lídia consultou o catálogo, depois tomou o elevador para ir à seção onde estavam os livros sobre a Espanha antiga.

Leu durante duas horas seguidas, tirou xerox dos dados necessários e tomou notas sobre o reinado de Felipe IV, que foi coroado rei da Espanha aos dezesseis anos. Segundo os textos históricos, ele teria sido o que hoje em dia se chama de criança excepcional, com incapacidade de aprendizagem. Não sabia nem assinar o próprio nome e foi preciso que se as guardiões providenciassem um timbre para uso oficial.

Lídia concentrou-se na pesquisa de dados do Santa Isabella. Consultou vários volumes, sem encontrar informações precisas sobre o galeão que Burt achava ter encontrado. Só umas moedas- e algumas peças de ouro não eram prova suficiente. Era preciso encontrar o casco do navio afundado. E se a Galleons Unlimeted encontrasse primeiro? Isso significaria o fim de seu emprego e de seu trabalho de pesquisa.

Mais tarde, Lídia tomou um ônibus e foi percorrer lojas de equipamento arqueológico. Pouco antes das cinco horas, tomou um bonde para ir ao hotel.

O Moonraker era o prédio mais alto da baía, todo de concreto, com janelões de vidro. Lídia foi até o balcão da recepção e pediu sua chave. Uma súbita apreensão a invadiu por instantes. E se Burt tivesse mentido a respeito dos quartos separados? Era bom ter chegado cedo, assim ela poderia verificar seu quarto. Se não gostasse, pediria para trocar, sem que ele interferisse.

Subiu de elevador até o 14.° andar, que era o último, e seguiu o empregado do hotel até o apartamento 1414. Ele abriu a porta e ficou esperando gorjeta.

O quarto era luxuosíssimo, como ela já devia ter imaginado. Os pés afundavam no carpete macio e a decoração era esplêndida, toda em verde-mar. Lídia lembrou-se do que Burt lhe dissera sobre essa cor. Será que ele havia escolhido de propósito?

Havia um terraço de frente para o mar, com uma vista maravilhosa. Ela foi explorando o quarto e, ao chegar ao banheiro, percebeu que havia outra porta dando para ele. Estava destrancada e se comunicava com o quarto de Burt, pois ela reconheceu a mala dele sobre a cama. Fechou a porta de novo, muito irritada, e trancou. Não, assim não dava! Não podia deixá-lo sem banheiro. Destrancou de novo a porta que dava para o quarto dele e trancou a que dava para seu quarto.

Só então percebeu que sua mala já havia sido desfeita. As roupas estavam cuidadosamente dependuradas no armário. Quem será que fizera isso? Burt? Como se atrevera a mexer nas coisas dela? Abriu depressa uma gaveta e lá estavam suas roupas íntimas, sutiãs, calcinhas ... meias... Mas que atrevimento! Resolveu que não iria ficar ali, conforme ele devia estar imaginando, esperando-o chegar. Colocou depressa o biquíni e foi dar um mergulho na piscina, para esfriar a raiva que estava sentindo.

— Uma beleza, Lídia! Perfeito! — disse Burt, assim que ela emergiu do mergulho. — Você chegou cedo.

Lídia espantou-se de vê-lo ali, já de maio, àquela hora. Como ele pudera saber que ela iria à piscina? Ela saiu da água e foi até a cadeira onde ele estava instalado, tentando não se deixar impressionar pela beleza do corpo dele, viril, musculoso e bronzeado, que um minúsculo e justo maio de lycra valorizava ainda mais.



  • Como é que você se atreve, Burt!

  • Eu me atrevo a quê?

  • Você sabe muito bem de que estou falando! Como se atreve a abrir minha mala e mexer nas minhas coisas!

  • Você fica linda quando está brava, Lídia.

  • Não queira me enrolar com elogios. E faça o favor de não pôr as mãos nunca mais nas minhas coisas!

  • Lembre-se de que quem dá as ordens aqui sou eu, e eu ponho as mãos onde quiser — Burt falou em tom insinuante e percorreu o corpo dela com um olhar provocante.

Lídia pegou a saída de banho que havia deixado em outra cadeira e vestiu-a depressa. Depois parou diante dele e encarou-o.

  • Sente-se, Lídia, isto é uma ordem. Que pena que você estragou o prazer de todos, vestindo isso, mas sente-se aqui, ao meu lado.

  • Quem lhe deu permissão para mexer nas minhas coisas?

  • Não sabia que precisava de permissão, Lídia. Você não trancou a mala... O fato é que achei melhor verificar, para saber se você havia trazido as roupas apropriadas para a ocasião. Se não tivesse trazido um vestido de noite, eu iria sair e comprar um.

  • E para quê? Se é que posso perguntar...

  • Porque pretendo levá-la para jantar fora. Gostei da roupa que você trouxe. Vou ficar orgulhoso de tê-la ao meu lado.

  • Mas eu prefiro ficar aqui mesmo, Burt. Tive um dia de muito trabalho, quero descansar sozinha. É minha folga.

  • Seria, em circunstâncias normais, mas quando estamos juntos as circunstâncias não são nada normais, não acha? Por favor, aceite jantar comigo.

Lídia sorriu e abrandou um pouco.

— Está bem, Burt, você ganhou. Vamos jantar juntos.



  • Agora sim, está sendo sensata. Dá para você ficar pronta daqui a duas horas?

  • Dá, sim. Estarei pronta às sete horas.

  • Ótimo, Lídia.

Já em seu quarto, Lídia preparou um belo banho de imersão com sais perfumados. Deixou a banheira enchendo e trancou com cuidado a porta que dava para o outro quarto. Depois afundou preguiçosamente na água quente, apoiou a cabeça na borda da banheira, fechou os olhos e relaxou. Quase uma hora mais tarde ainda estava ali, quando ouviu Burt entrar no quarto dele. Ele foi até a porta e bateu de leve.

  • Você está aí, Lídia?

  • Estou.

  • Já está pronta?

  • Estou no banho.

  • Que pena que não tem buraco de fechadura!

Ela saiu do banho depressa, soltou a água e enrolou-se na toalha. Quase podia sentir o olhar de Burt atravessando a parede. Destrancou a porta dele e correu para seu quarto. Uns minutos depois, ouviu-o no chuveiro.

Lídia arrumou-se com rapidez e esmero. Secou os cabelos, escovando-os bem. Colocou o vestido de jérsei cor de cereja e as sandálias de salto alto, combinando. Maquilou-se realçando os olhos e pôs os brincos de pérola.

Quando Burt bateu à porta para chamá-la, ela já estava pronta.


  • Dizer que você está linda é pouco!

  • Obrigada, Burt. Onde vamos jantar?

Lídia tentava manter um tom de voz impessoal, como se estivesse tratando de negócios, entretanto não deixou de notar a elegância do traje esporte de Burt.

  • Reservei mesa no Blue Dolphin e, se você não se importa, iremos a pé. Fica a meio quarteirão daqui, na praia, e pode-se jantar ao ar livre, sob as estrelas.

  • Tudo bem.

Não reagiu quando ele a segurou pelo braço, mas quase perdeu a respiração. Jantar sob as estrelas! E ela pensando que fosse para tratar de negócios!

O maitre do Blue Dolphin conduziu-os até uma mesa para dois, de frente para o mar, iluminada por um candelabro, e Burt pediu logo uma garrafa de champanhe.

— Puxa! Seu dia foi assim tão bem-sucedido? — perguntou Lídia.

— Quer dizer, Margô me contou que você veio aqui para levantar um dinheiro...

— É claro que meu dia foi bem-sucedido e espero que minha noite também seja!

Lídia olhou ao longe, contemplando o mar. A brisa fresca trazia um cheiro salgado e agradável. Burt não poderia ter escolhido um lugar mais romântico! O garçom trouxe o champanhe, serviu-os e colocou a garrafa no gelo.

— Ao Santa Isabella! — brindou Burt, erguendo a taça.

Lídia brindou e bebeu o champanhe, apreciando o sabor. Achou agradável o efeito da bebida suave, à qual, porém, não estava acostumada. Já estavam ambos na segunda taça quando o garçom trouxe a comida: frutos do mar, que Burt havia encomendado ao fazer a reserva. Estava realmente uma delícia! Quando terminaram a refeição, ele pediu licor e estava tudo tão íntimo e romântico que Lídia se admirou quando ele começou a falar de serviço.



  • Preciso de sua ajuda para organizar uma exposição das peças. É claro que vai ter que ser uma coisa de pequenas proporções, mas, se tivermos sorte, até lá já teremos mais coisas. Além disso, pode servir de prova para uma exposição maior aqui em Miami, depois que acharmos tudo.

  • Não acha perigoso expor um tesouro desses? Já pensou no esquema de segurança que vai ser preciso?

  • Conversei com Roscoe Murdock sobre isso. Ele disse que pode providenciar a segurança. Podemos fazer a exposição no banco. Isso atrairia clientes para ele e investidores para a Dive Boys.

  • E que tipo de ajuda quer de mim?

  • Quero que cada peça tenha uma etiqueta de identificação, uma breve descrição e alguns dados informativos sobre o seu uso na Espanha antiga. Coisas como aquelas que me disse no dia da nossa entrevista no barco. Seria possível?

  • É claro que sim! E acho que é uma grande idéia! Era esse o tipo de coisa que eu tinha em mente. Uma exposição dessas vai atrair muita gente, repórteres de todos os jornais e revistas!

Os olhos dela estavam cheios de entusiasmo. O céu já escurecera e as estrelas brilhavam. No horizonte, começava a surgir uma imensa lua cor de laranja.

  • Você não vai retardar o trabalho dos meus mergulhadores com sua máquina fotográfica e seus aparelhos, não é, Lídia?

  • Tentarei não retardar, mas lembre-se de que tudo precisa ser feito com exatidão científica. E será bom para conferir autenticidade às peças. Sua exposição poderá atrair até mesmo a Sociedade Geográfica Nacional ou o Instituto Smithsonian.

Conversaram durante mais ou menos uma hora, fazendo planos para a exposição, e, quando Burt sugeriu que fossem embora, Lídia ficou relutante. Tinha sido uma noite muito agradável! Bebeu o último gole de licor e depois voltaram para o hotel.

Não convidou Burt para entrar em seu quarto, mas, assim que abriu a porta, ele deslizou para dentro, antes que ela pudesse evitar. Foram até o terraço que dava para a baía e ficaram contemplando a vista. A lua brilhava forte agora, formando um caminho prateado no mar. O perfume de sândalo que ele usava pairava no ar, misturado à brisa.

Burt olhou para Lídia depois de alguns instantes e perguntou:


  • Em que está pensando?

  • Coisas particulares.

  • Você já havia planejado sair comigo para jantar, não é, Lídia? — A voz dele era suave e quente.

  • Por que está dizendo isso?

Ela sentia uma espécie de torpor agradável, provocado pelo champanhe, e tinha as pálpebras ligeiramente pesadas.

Burt deslizou lentamente o olhar pelo corpo dela, detendo-se na curva dos seios e descendo até os quadris. Depois olhou-a bem dentro dos olhos para responder.

— Nenhuma mulher leva na mala um vestido desses que você está usando se não estiver planejando jantar com um homem.

Lídia desviou o olhar e tentou disfarçar o nervosismo com uma frase de brincadeira.

— É que eu fui bandeirante, Burt, e aprendi que uma mulher prevenida vale por duas.

Ele riu e, segurando o queixo dela de leve, fez com que erguesse a cabeça. Seu olhar ardente incendiou-a por dentro, mas ela não fez nenhum movimento, nem de aproximação, nem para afastá-lo.

Burt pegou as mãos dela e colocou-as em sua cintura, depois abraçou-a. Os dedos percorriam de leve o tecido fino do vestido e foram subindo até chegarem aos ombros nus.

Por que ela o estava deixando fazer aquilo? Tentou protestar, mas não conseguiu. Continuou como que hipnotizada, com as mãos na cintura dele, sentindo a carícia embriagadora.

Ele movia as mãos propositalmente devagar, em direção às costas, insinuando os dedos sob o vestido. Lídia, em vez de protestar, desejava apenas que ele avançasse cada vez mais e até lamentava o fato de não usar sutiã, só para que ele demorasse mais e desfrutasse o prazer de abrir o fecho.

— Você é linda, Lídia... maravilhosa!

Ele a contemplou com olhar intenso e então ela sentiu o calor daquelas mãos sobre seus seios, numa carícia suave e ao mesmo tempo ardente, que a deixou quase maluca, toda arrepiada.

Burt não a estava forçando a nada, não a estava prendendo nos braços, impedindo que escapasse, entretanto ela não conseguia se afastar. Um desejo desconhecido brotava em seu íntimo, como se fosse uma fonte, apagando a razão e a vontade, afastando todos os pensamentos e deixando só a sensação daquelas mãos percorrendo seu corpo.

A voz sensual dele começou a murmurar em seu ouvido:


  • Você está gostando, não é, Lídia? Gosta que eu agrade você, assim...

  • Gosto... gosto, sim.

Ela sentiu uma moleza nas pernas e uma quentura estranha. Entendeu vagamente que ele a estava provocando para que caísse em seus braços, louca de paixão, pedindo que a possuísse. Ele já devia ter feito isso com muitas mulheres.

  • Gosto de seu jeito, Lídia. Um homem nunca sabe como você vai reagir... num dia você se atira nos braços dele e no outro... é isso. Você sabe como dar prazer a um homem!

  • E você sabe como dar prazer a uma mulher.

  • O segredo é desfrutar cada momento, cada carícia, aproveitando ao máximo... Lídia... você vai continuar assim parada... me deixando maluco?

Lídia ainda podia recuar, mas será que queria? Será que conseguiria? Não, ela já não conseguia mais! O desejo a arrebatara e ela não era mais dona de seus atos.

Burt curvou-se ligeiramente e beijou-lhe de leve o pescoço, a orelha, a nuca... Ela então não resistiu mais e entregou-se totalmente. Era demais sentir o calor daqueles lábios macios percorrendo sua pele. Atordoada de desejo, abraçou-o e começou a acariciá-lo também. Com dedos trêmulos, tentou abrir o botão da camisa dele.

— Calma, querida... sem pressa, lembre-se. Vamos desfrutar cada momento, cada carícia, devagar... até não agüentarmos mais...

Ela desabotoou a camisa dele e deslizou as mãos pelo peito musculoso, explorando cada pedacinho, sentindo os pêlos em seus dedos.

— Lídia... Lídia...

Burt procurou os lábios dela e apertou-a contra o corpo. No início o beijo foi terno, depois a língua dele começou a traçar carícias e o ardor foi aumentando, até que o desejo ficou insuportável.

Nesse momento, o telefone tocou. Ficou tocando algum tempo antes que os dois ouvissem. Com grande dificuldade, os agrados foram diminuindo de intensidade, e Lídia recobrou a razão, como se estivesse acordando de um sono pesado. Separaram-se afinal e ela recompôs-se depressa, puxando para cima o vestido e cobrindo a nudez dos seios.

Burt correu para seu quarto para atender o telefone, e Lídia percebeu pela conversa que era Margô. A conversa se prolongou. Parecia ser algo sobre Raul. Lídia ficou à escuta na porta de comunicação.

— Você me telefona a essa hora para dizer que Raul quer dinheiro emprestado? Para que ele quer? É claro que não vou emprestar! Deixe que ele aprenda a viver com o salário que ganha!

Sem fazer barulho, Lídia fechou a porta que dava para seu quarto e trancou-a. Despiu-se depressa e enfiou-se na cama. Quando Burt bateu, ela não respondeu. Era melhor que achasse que estava dormindo. Devia agradecer a Margô por aquele telefonema! O que poderia ter acontecido, se aquele telefone não tivesse tocado! Sentiu-se confusa e envergonhada, cansada demais para ordenar os pensamentos, mas, apesar disso, custou a adormecer. Cada vez que começava a cochilar, sonhava que Burt a estava beijando e acordava sobressaltada.

O primeiro beijo tinha sido por causa do medo do escuro, o último por causa do champanhe... Não poderia deixar que acontecesse de novo!

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