Águas Perigosas Treasure Of The Heart



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CAPÍTULO IX

Na manhã seguinte, Lídia acordou com alguém batendo de leve na porta do quarto. Sentou-se na cama, ainda sonolenta, e olhou o relógio. Dez horas. Perdera a hora!



  • Quem é? — perguntou.

  • Burt, é claro. Quem mais poderia ser?

Como poderia encará-lo, depois do que tinha acontecido na noite anterior? Como conseguira ser tão fraca justamente quando pretendia ser mais forte?

— Espere um minuto só.

Vestiu-se depressa, não querendo que Burt a visse de camisola ou penhoar. Quando, afinal, abriu a porta de comunicação do banheiro, ficou surpresa ao vê-lo sorrindo e muito contente de encontrar o equipamento que havia encomendado já no quarto dele.


  • Você foi buscar minhas coisas! Muito obrigada, Burt.

  • Isso é tudo que você tem a dizer? — Ele sorriu, com ironia.

  • O que você queria que eu dissesse?

  • Que você me ama. Que você não pode viver sem mim. Que nós pertencemos um ao outro, para sempre.

  • E por que eu haveria de dizer essas coisas?

  • Gostaria que você dissesse e fosse verdade.

  • Mas não é verdade coisa nenhuma!

Ela, entretanto, sabia que estava mentindo. Estava se apaixonando por ele. Contra a sua vontade, suas emoções a estavam traindo. Só que Burt jamais deveria saber disso.

  • Olhe para mim, Lídia. — Ele esperou até que ela, relutante, o olhasse nos olhos. — Nenhuma mulher deixa um homem fazer o que eu fiz, se não o ama! Nenhuma beija como você beijou, se não estiver amando! Por que negar?

  • Eu não deixei coisa nenhuma! Você planejou tudo! Você me deu bebida demais, champanhe, licor... e depois aproveitou-se de mim. Eu não estava em meu estado normal. Foi muita sujeira de sua parte!

— Não era o que você estava pensando ontem à noite. Você disse que estava gostando das minhas carícias, lembra?

A voz de Burt era sedutora e por instantes Lídia chegou a esquecer sua indignação. Teve vontade de correr para ele, abraçá-lo, beijar aqueles lábios sensuais, sentir as mãos dele em seu corpo. Mas então lembrou-se do telefonema de Margô, do modo como Burt fora atender e ficara falando, completamente esquecido dela. Era Margô que ele amava. Ou talvez ele nem amasse ninguém e gostasse apenas de se divertir com qualquer garota que estivesse disponível. Ela se recusava a se deixar iludir e cair na conversa dele! Ainda se lembrava muito bem de quanto Ben a fizera sofrer. Dessa vez não ia revelar seus sentimentos, por mais fortes que eles fossem.

— Vamos esquecer o que houve ontem à noite, Burt. Quero que você esqueça... Faça de conta que não aconteceu nada.

Burt ficou tenso, o sorriso murchou em seus lábios e os músculos da face se contraíram. Lídia já o vira com essa cara antes e teve medo. Ah, se ao menos ela pudesse apagar o que tinha acontecido na noite anterior! Ele se virou e falou com secura, pôr sobre o ombro:

— Arrume suas coisas e vamos embora. Esteja na recepção daqui a dez minutos.

Viajaram o tempo todo em silêncio. Em Key West, passaram do Cessna para o helicóptero e foram até o Sea Deuced num silêncio mais carregado ainda. Margô e os mergulhadores estavam à espera deles no convés principal, querendo saber se as novidades eram boas.



  • Fizemos algumas descobertas, ontem, Burt — disse um dos mergulhadores. — Pedras de lastro. Como é, vamos continuar a busca?

  • Vamos, sim — respondeu Burt, tirando vários cheques do bolso e mostrando-os.

Lídia não tinha visto os cheques antes e interessou-se como os outros, até que algo chamou sua atenção. Margô e Raul estavam trocando olhares de flerte. O que teria acontecido por ali, enquanto estiveram fora? Aproximou-se de Margô casualmente e comentou:

  • Compramos os equipamentos todos, agora sim vou poder trabalhar direito.

  • Que bom! — retrucou Margô com frieza, depois fitou Raul com olhar sedutor. — Raul acha que hoje vai encontrar algo importante do tesouro. Ele acredita em pressentimentos, não é, Raul? E está pressentindo que hoje vai ser seu dia de sorte.

  • Espero que ele esteja certo.

Subitamente, Lídia sentiu-se como se todos estivessem contra ela. Burt estava bravo por causa da noite anterior, Margô estava fuzilando de raiva e ciúmes porque ela tinha ido com Burt para Miami e Raul estava magoado e ofendido porque ela se recusara a emprestar o dinheiro. Mas o que realmente a estava incomodando era o fato de Margô estar flertando com Raul. Era evidente que estava fazendo isso para se vingar. Era como se dissesse: "Você flertou com meu homem em Miami, então eu flertei com o seu, aqui". Margô estava usando Raul. Isso não era justo!

Lídia estremeceu quando viu que Burt percebera o flerte dos dois. O que será que ele ia fazer?



  • Raul, venha até aqui, por favor — chamou Burt, carrancudo, e ela teve medo do que poderia acontecer ao irmão. — Tenho um servicinho para você e enquanto não terminar não quero que mergulhe de novo. Estamos entendidos?

  • Sim, senhor.

Raul ficou à espera, em silêncio, com cara de espanto. Era óbvio que se sentia punido sem saber por que motivo. Lídia mordeu o lábio, apreensiva. Será que o irmão tinha entendido que não podia flertar com Margô abertamente?

  • Quero que transfira o combustível do tanque de estibordo para o tanque de bombordo. Estamos adernando ligeiramente a estibordo e uma mudança na distribuição do peso pode resolver o caso.

  • Sim, senhor.

Lídia achou que era invenção de Burt e admirou-se de Raul não protestar.

— O que está esperando, rapaz? Já lhe dei as ordens, agora é só cumpri-las!

Raul pigarreou e deu um passo em direção a Burt. Lídia ficou gelada. Será que ia sair uma briga? Os outros, entretanto, pareciam não ter percebido nada. Começaram a dispersar-se e foi então que ela notou que havia mais alguém a bordo. Olhou-o bem e reconheceu-o. Era Spike, o mesmo que se aproximara de Raul para pegar o dinheiro, depois daquele número de mágica no Cais Mallory.

— Burt, antes de cumprir sua ordem queria que conhecesse Spike — disse Raul. — Ele é um amigo meu e é mergulhador também. Ele gostaria de trabalhar para a Dive Boys, por isso eu o trouxe aqui para conhecer você. Acho que vamos precisar dele.

Burt analisou Spike detalhadamente antes de perguntar:


  • Você tem diploma de mergulhador?

  • Tenho, sim. — Spike deu um passo à frente e, colocando a mão no bolso do jeans desbotado, retirou um papel dobrado e meio amassado, que entregou a Burt. — Está aqui o diploma.

  • Ótimo, porque sem certificado não contrato ninguém. Tem alguma experiência em resgate de navios naufragados?

  • Trabalhei um mês na Galleons Unlimited.

  • Quando pode começar a trabalhar?— Agora mesmo, se quiser.

  • Então vamos fazer uma experiência. Pode começar.

Eles trocaram um aperto de mão e Lídia ficou incrédula. Como tinha sido fácil! Nada de credenciais, referências ou coisas assim! Então era desse modo que Burt dirigia sua empresa?

Sem saber por que, ela teve a impressão de que Spike estava com segundas intenções em relação ao emprego, embora ele não tivesse feito nada para demonstrar isso.



  • Você não aprova a contratação de Spike? — perguntou Burt, e só então ela percebeu que estivera olhando fixo para o rapaz.

  • Quem sou eu para aprovar ou desaprovar? O patrão é você.

  • Ainda bem que você pensa assim.

  • Por que você o contratou, Burt? Não sei por que a cara dele não me agrada.

  • Ele me pode ser muito útil! Posso conseguir informações da Galleons Unlimited e posso usá-lo como armadilha para Raul.

  • Armadilha para Raul?

  • Você gosta mesmo desse rapaz, hein?!

Lídia ia responder, mas se conteve. Estava pouco se importando com o que Burt pensasse!

— Eu já lhe disse que despediria Raul se tivesse uma justa causa e Spike pode me proporcionar isso.

— De que maneira? Eu acho que você está sendo muito injusto. Burt baixou o tom de voz.


  • Acredito que eles dois estejam envolvidos com drogas. Já lhe disse o que penso sobre isso, e acho que se eu der corda a eles, eles próprios vão acabar se enforcando. Quero os dois fora desse barco, mas não quero ser injusto. Preciso ter certeza, primeiro.

  • Não suporto pessoas que mentem para si próprias! — disse ela, num ímpeto de raiva.

  • Olhe quem diz isso! Você é que mente!

  • O verdadeiro motivo pelo qual está querendo mandar Raul embora é o fato de achar que ele e Margô estão flertando. Com ele fora do barco, seu caminho está livre e você pode ficar com ela, sossegado, não é?

Ele não respondeu nada, mas a cara severa que fez foi de quem não gostou.

  • Prepare-se para mergulhar, Lídia. Quero vê-la em ação com a máquina fotográfica embaixo d'água. — Burt consultou o relógio. — Dá para você se aprontar em cinco minutos?

  • Sim, senhor.

Lídia afastou-se de Burt, sentindo emoções tão conflitantes que sua cabeça começou a doer. Detestava a desconfiança dele para com Raul; Detestava o fato de Margô estar flertando com Raul só para deixá-la com ciúmes. Ao mesmo tempo, estava feliz com a possibilidade de ficar a sós com ele, de mergulharem juntos... Lembrou-se da outra vez em que mergulharam, dos beijos que trocaram depois daquele jantar em Miami. Tentou se convencer de que não estava apaixonada por ele. Não podia ser amor! Talvez estivesse ansiosa por outros motivos.

Correu para sua minúscula cabine e vestiu o biquíni vermelho, quando estava colocando a parte de cima do traje de mergulho, Burt chamou-a de cima. — Está pronta, Lídia?

Ela deixou a parte de baixo do traje de borracha pendurada no cabide e correu para o convés. Burt já estava esperando por ela para ajudá-la a colocar o tubo de oxigênio.

Depois de tudo pronto, os dois entraram na água e Lídia deliciou-se com a sensação que lhe causava. Como ele era lindo e elegante, deslizando no fundo do mar! Como ela se sentia privilegiada de poder apreciar aquele belo e secreto mundo submarino!

O Sea Deuced estava agora ancorado mais longe dos recifes e um novo território seria explorado. Nadaram acima dos corais. O sol da manhã, penetrando fundo nas águas, iluminava a exótica paisagem. Nadaram sobre as crateras cavadas pelo jato dos defletores. Ali o fundo do mar parecia a superfície da lua: crateras e mais crateras. Um cardume passou por eles. Eram peixes pretos com pintas amarelas, que costumavam nadar perto de navios naufragados. Lídia teve vontade de comentar isso com Burt. Talvez aquele cardume pudesse levá-los ao local onde estava o casco do lsabella. Mas, qual o quê! Os peixes se assustaram com eles e desapareceram de vista antes que ela tivesse tido tempo de chamar a atenção de Burt.

Continuaram nadando ao longo do recife de coral e Lídia viu pela primeira vez o canhão. Lá estava ele, coberto de limo escuro e incrustado de mariscos e corais. Só ao se aproximar e tocar nele é que ela emocionou. Que mãos teriam polido aquele canhão? Quantas batalhas teria enfrentado? Contra que inimigo fora apontado? Teriam sido os holandeses?

Depois Lídia tornou-se objetiva, tomando decisões. O canhão seria o marco principal em seu trabalho. Iria demarcar tudo com bóias, Burt teria que sobrevoar a região para que se pudesse traçar coordenadas. De agora em diante, todas as crateras abertas pelos defletores seriam numeradas.

Seu coração pulsou mais rápido ao ver três bóias presas a objetos, etiquetados. Sabia que eram coisas achadas na véspera e que tinham sido deixadas onde estavam por ordem de Burt, seguindo sua sugestão. Estavam se aproximando quando uma correnteza mais forte jogou-a de encontro a ele.

Por instantes, Lídia ficou completamente atordoada, ao sentir o contato das pernas dele contra as suas. Nadou depressa para longe, até sentir que havia recuperado seu autocontrole, depois voltou para examinar os objetos etiquetados.

Eram pedras de lastro, apenas isso. Percebeu que Burt ficara decepcionado pelo modo como ele encolhia os ombros. Ela, entretanto, achava isso um bom sinal. Todos os galeões levavam lastros em seus porões, pedras do tamanho de bolas de futebol, como essas, e isso talvez os conduzisse ao casco do navio. Era preciso fotografar o local.

Lídia preparou o material fotográfico e em seguida bateu várias fotos, incluindo também o canhão. Agora sim, sentia realmente que estava trabalhando!

Depois de subirem à superfície, Burt mandou os mergulhadores irem buscar as pedras de lastro. Ninguém, entretanto, se entusiasmou com o achado. Já haviam encontrado lastros anteriormente e não dera em nada.

Pouco tempo depois, Lídia estava trabalhando em seu escritório. quando ouviu uma grande algazarra.


  • Tesouro! — gritou alguém na popa do barco.

  • Ouro!

Imediatamente houve uma correria louca. Lídia largou o livro que estava consultando e foi também até onde ficavam os defletores e de onde viera o grito. Raul estava nadando com um jarro de ouro na mão, que jogou para dentro do barco antes de subir.

Burt pegou o jarro no ar, colocou-o no chão e ajudou Raul e Spike a subirem a bordo. Cumprimentou-os com apertos de mãos e tapinhas nas costas e depois começou a fazer perguntas, sem dar tempo para as respostas.

— Onde vocês encontraram isso? Havia mais alguma coisa por perto? Olharam bem?

Margô examinava o jarro, erguendo-o no ar. Tinha tirado os tamancos de salto alto e pulava de entusiasmo feito uma menina.

— Ouro! Ouro! Ouro! Deve valer uma fortuna, Burt!

Nos olhos de Burt havia lágrimas que ele não tentava dissimular.

— É isso aí, cara! — disse Spike, embasbacado. — Pode crer!

Burt bateu de novo nas costas dele.

O sol fazia brilhar o jarro, que parecia ter acabado de sair da loja. Lídia se pôs a refletir sobre as qualidades do ouro. Será que ele carregava mesmo uma maldição? Homens e mulheres se matavam por causa dele, desde o começo dos tempos. Quantos escravos não perderam a vida para que seus amos ficassem mais cheios de ouro? Os outros metais eram destruídos pelo mar, até a prata se escurecia e ficava incrustada. Mas ao ouro nada acontecia! Permanecia inalterado através dos séculos, reinava soberano muito mais estável que o próprio homem!

— Agora chega! — Ela própria se surpreendeu com a força e o volume de sua voz. Todos se calaram e olharam para ela em expectativa. — O que significa isso, afinal? — Encarou Burt, furiosa. — Você me prometeu uma operação disciplinada e logo a primeira peça mais importante encontrada é trazida assim para o barco, desrespeitando totalmente a sua ordem e o meu pedido! As peças têm que ser biografadas no local, antes de serem retiradas!

Todos ficaram olhando para ela, boquiabertos, como se achassem que perdera o juízo.


  • Raul ficou empolgado, Lídia — disse Margô, defendendo-o. — Você há de entender isso. Afinal, é ouro! Só ele, hoje, achou mais ouro do que durante toda a operação de busca! Foi a sua primeira descoberta! E você queria que ele nadasse de volta, friamente, e deixasse essa preciosidade lá no fundo?

  • É exatamente isso que eu quero. Assinalar o local de cada achá-lo é importantíssimo para mim; é prioritário. As comemorações vêm depois.

  • Bem, agora é tarde — disse Margô, triunfante. — O jarro está a bordo e eu pretendo continuar a comemoração.

  • O jarro deve ser posto novamente no local em que foi encontrado. Depois que eu o fotografar, pode comemorar à vontade.

  • Lídia tem razão — interferiu Burt, surpreendendo-a. — O jarro vai voltar para o lugar onde foi achado. Como foi Raul quem desobedeceu às ordens e o trouxe para cá, é ele quem vai etiquetar e colocá-lo de volta no lugar. Depois disso, estará dispensado das atividades do Sea Deuced.

  • Quer dizer que... ele está despedido? — disse Margô, aproximando-se de Raul como se quisesse protegê-lo da fúria de Burt.

  • Acho que fui bem claro. Um mergulhador que desobedece às minhas ordens não é útil. Raul deve ir embora imediatamente!

  • Se Raul for embora, eu também vou — disse Spike, em tom de ameaça, dando um passo à frente.

  • Aceito sua demissão.

Lídia sentiu-se encurralada e furiosa. Tinha que se fazer respeitar profissionalmente, mas não tivera a menor intenção de prejudicar o irmão. Justamente ela fornecera a Burt o motivo que ele tanto queria para despedi-lo! Que ironia! Agora sim é que Raul iria pensar que ela o traíra, que planejara prejudicá-lo deliberadamente. Só havia uma coisa a fazer. Olhou bem de frente para Burt e disse:

— Raul é um ótimo mergulhador, Burt. Ele apenas cometeu um erro, justificável aliás, e se ele for embora também peço minha demissão como arqueóloga.

Lídia se deu conta da importância do que falara e ficou quase sem fôlego, em suspensa, esperando a decisão de Burt.

CAPÍTULO X

Burt ficou calado por alguns instantes, o olhar faiscando, depois empertigou-se e disse:



  • Está certo, eu falei sem refletir. Raul e Spike, levem o jarro de volta ao fundo do mar para ser fotografado e continuem o trabalho normalmente.

  • Sim, senhor — disse Raul.

  • Falou, cara — disse Spike, pegando o jarro.

Os dois ajustaram de novo a aparelhagem de mergulho e pularam na água. Lídia sentiu os olhos inundados de lágrimas. Sabia que não eram só de alívio por ter salvado o emprego de Raul, mas também de alegria por ter conservado seu próprio emprego. Além disso, ficou admirada com a reação de Burt. Ele cedera diante dela! Será que sentia algo por ela? Era até possível que sim. Ele não ia voltar atrás numa ordem dada, assim a troco de nada. Talvez não quisesse perdê-la. Será que era isso mesmo? Estava perdida nessas divagações quando Burt aproximou-se dela, carrancudo e com um olhar inescrutável.

— Espero que esteja satisfeita, Lídia. Não sei o que você vê nesse Raul. Só sei o que eu vejo em você! — Não falou com a voz sensual e macia que Lídia ouvira em outras ocasiões, mas num tom frio e impessoal. Logo em seguida, começou a falar de serviço. — Preciso de sua assistência científica nessa operação, Lídia. Sei que é muito importante essa exposição que estamos planejando, e sem a sua colaboração não temos possibilidade de atrair interesses e financiamentos de qualquer organização nacional do tipo da Sociedade Geográfica Nacional ou da Smithsonian. Mas se Raul cometer mais um erro que seja, ele vai ser despedido, e não adianta você interferir!

Lídia sentiu como se estivesse numa montanha-russa, subindo e descendo. Às vezes ficava lá em cima, no auge, depois ia parar lá embaixo, como naquele momento. Era sempre assim: uma ilusão e uma decepção! Devia ter pensado nisso! É claro que o único interesse de Burt em mantê-la a seu lado era a existência do tesouro e o que ela poderia fazer para valorizá-lo ainda mais! Para ele, ela não passava de uma assistente valiosa. A relação deles era estritamente de patrão — empregado!

Os dois se prepararam para mergulhar de novo e fotografar o jarro. Quando voltaram ao barco, depois de terminado o trabalho, já não havia mais comemorações. A cena da demissão e readmissão tinha jogado um balde de água fria no entusiasmo de todos.



  • Você vai levar o jarro para a cidade? — perguntou Lídia. — Os jornais adorariam publicar um artigo com fotos sobre a descoberta.

  • Não vai haver artigo nenhum, nem fotos. O jarro vai direto para meu cofre, junto com a corrente e outras peças. Não quero saber de publicidade que possa dar informações úteis ao pessoal da Galleons Unlimited.

Naquela noite, Lídia voltou a Key West de lancha com Harry, enquanto Margô ia de helicóptero com Burt. Tentou se convencer de que não estava ligando, decidida a não deixar Burt ficar sabendo disso. Chegando em Marvista, preparou uma sopa instantânea, que tomou com bolachas, e foi direto para a cama. Estava exausta pelas atividades dos últimos dois dias, além de muito contrariada e triste por seu crescente envolvimento com Burt.

A manhã seguinte, no barco, transcorreu rotineira, sem acontecimentos extraordinários. As equipes de mergulho se revezavam sucessivamente e voltavam ao barco sem nenhuma novidade. Durante a tarde, Burt levantou âncora e levou o Sea Deuced para outro local, sempre mantendo como ponto de referência o canhão encontrado. Raul e Spike mergulharam para explorar o local, enquanto Scotty e Mac mergulharam para pescar.



  • Prepare-se para mergulhar, Lídia — disse Burt, entrando no escritório dela. — Quero ir inspecionar essa nova área.

  • Preciso fazer uns relatórios, Burt. Eu mergulho mais tarde, se os rapazes encontrarem algo interessante.

Ele arregalou os olhos.

  • Eu sou o comandante deste navio. Quero que se prepare para mergulhar agora!

  • Está bem, se é uma ordem.

  • E não precisa vestir a roupa de borracha dessa vez. Vamos só dar uma examinada rápida.

  • Está bem.

Lídia correu para a cabine e vestiu só o biquíni vermelho. Voltou meio constrangida, sentindo-se muito desnuda. Burt estava esperando por ela e ajudou-a apenas por cortesia.

Afinal mergulharam. O fundo do mar ali não era muito diferente. Uma cratera estava sendo cavada pelos defletores. Havia muitos peites naquela região, percas amarelas e várias outras espécies. Estava som para pescar. Se Scotty pegasse uma daquelas enormes percas, teriam comida por vários dias.

Lídia e Burt deslizavam lado a lado, na profundeza das águas. Ela a observando como os cabelos dele flutuavam, movimentando-se para trás, à medida que ele nadava e como os músculos se moviam com harmonia. De repente, percebeu que ele a estava observando da mesma maneira.

Quando ele queria chamar a atenção de Lídia para algo que achava interessante, pegava na mão dela. Às vezes a correnteza os empurrava, fazendo-os esbarrarem um no outro. Quando isso acontecia, ima forte sensação fazia o corpo dela vibrar. Percebia o sorriso dele por trás da máscara, toda vez que procurava aumentar a distância entre eles, enquanto ele procurava diminuir.

Em determinado momento, um tufo de alga enroscou-se nela, por trás, enrolando-se em seu pescoço, braços e pernas. Lídia sobressaltou-se, com medo de que fosse uma enguia ou qualquer outra criatura indesejável. Naquele momento desejou estar usando o traje de borracha. Começou a se debater, na tentativa de livrar-se daquele contato pegajoso, mas, quanto mais se debatia, mais a planta se emaranhava nela.

Vendo que Lídia estava em dificuldade, Burt aproximou-se e começou a desenrolar a alga de seu corpo. A sensação daquela mão percorrendo-lhe o corpo era de arrepiar, mesmo não sendo aquilo ma carícia. Assim que ela se viu livre, reuniu forças para nadar longe ele, mas, ao fazer isso, afoita, deu de encontro com algo. Olhou ara ver o que era e deparou com Raul.

Raul começou a puxar-lhe o braço e a fazer sinal para que Burt os visse. Será que tinha havido algum acidente? Lídia olhou para onde ele estava apontando. No início não viu nada de diferente. Foram então se aproximando da cratera cavada e só assim puderam ver o que era. Spike não estava lá e ela achou que ele havia subido, para mandar desligarem os defletores.

Era uma enorme âncora. Burt adiantou-se, nadando mais rápido o que ela. Todos os outros mergulhadores começaram a aparecer no local, provavelmente avisados por Spike. Até Margô apareceu, com um biquíni branco, os cabelos platinados flutuando, mais parecendo na sereia.

Todos rodearam a cratera, observando. Era uma âncora imensa e não estava totalmente desenterrada. Uma boa parte dela ainda estava coberta de areia.

Lídia aproximou-se e passou a mão no metal escuro. Era ferro. Em algumas partes estava incrustado, em outras lisinho e em outras, esburacado. Lídia examinava a âncora sem saber bem o que estava procurando. Será que estava procurando o nome Santa Isabella, gravado? Talvez houvesse um número de série. O canhão possuía um, mas o que isso poderia provar? Não tinham nenhum documento de referência com que conferir.

Quando passou a primeira surpresa da descoberta, Lídia subiu à superfície e foi buscar a máquina fotográfica no Sea Deuced. Ao vê-la de volta com a máquina, Burt fez um sinal de aprovação e apontou vários ângulos interessantes, que desejava que ela fotografasse.

De repente, Lídia sentiu algo esbarrar em seu braço e ficou gelada ao ver a enorme barracuda olhando para ela. Será que tinha sido atraída pelo flash da máquina fotográfica? Seria melhor ficar parada no lugar ou nadar para longe? Não chegou a tomar nenhuma decisão. Burt nadou até ela, colocando-se na frente do peixe para livrá-la do perigo, depois enlaçou-a pela cintura, apertou-a contra si e nadou para um lugar seguro. Arriscou a vida para salvá-la! Apesar de estar com medo, o contato da pele dele despertou a sua sensualidade.

A barracuda não os seguiu, mas Lídia ainda estava com medo. Sabia que aquele peixe era rápido como um raio. Burt, entretanto, estava com o arpão de Scotty, esperando apenas que o animal se movimentasse para alvejá-lo.

Lídia virou a cabeça, encostando o rosto no peito de Burt. Percebendo que ela estava com medo, ele a abraçou para protegê-la. Ela nem viu quando o arpão foi disparado. Quando olhou, o peixe já havia sido atingido e debatia-se, espalhando sangue na água, enquanto Raul lutava tentando puxá-lo para a superfície. Lídia ficou apreensiva pelo irmão, mas não podia fazer nada para ajudar.

Ninguém esperava o que aconteceu a seguir. Um movimento mais forte e rápido na água e surgiu de repente um tubarão, que devorou metade do barracuda com uma abocanhada só, depois fez meia-volta, avançou de novo e devorou mais um pedaço. Margô e os outros mergulhadores, aproveitando esse momento, conseguiram nadar depressa para a superfície, mas Lídia, Raul e Burt ficaram encurralados atrás da âncora.

O tubarão fez uma outra investida, abocanhou o que sobrara do barracuda e virou-se a seguir para os mergulhadores. Era enorme e cinzento, com olhar feroz e mandíbulas aterradoras. Começou a nadar em círculos em torno dos três, depois avançou para eles. Burt se pôs à frente e acertou a cabeça do peixe assassino com o arpão descarregado que tinha nas mãos, mas o tubarão nem se perturbou; fez outra volta, preparando-se para outro ataque. Lídia estava apavorada. Iam todos morrer! Não tinham como sair dali!

O tubarão virou de frente para eles e investiu novamente. Mais uma vez Burt preparou-se para enfrentá-lo, com o arpão desarmado, e fez sinal para que Raul levasse Lídia para a superfície. Quando afinal chegaram à tona, ela nadou desesperada até o barco, subiu a bordo com uma velocidade incrível e ajudou o irmão. Estavam salvos!

— Burt! — gritou Lídia, assim que lhe tiraram a máscara. — alguém precisa ir ajudar Burt. Ele ainda está lá!



  • Spike já mergulhou com outro arpão — avisou Margô. Lídia quis falar alguma coisa, mas, de repente, tudo escureceu.

  • Lídia! Lídia! Fale comigo!

Ela abriu os olhos e fitou Raul por instantes, sem compreender o que havia acontecido. Quando lembrou o que houvera, gritou, aflita: — Onde está Burt?

— Ele está bem. Spike espantou o tubarão. Estão todos a bordo a salvo!

Lídia ficou aliviada, mas estava tão fraca que não conseguia ficar m pé. Raul amparava-a nos braços.


  • Está tudo bem, Lídia. Tudo bem!

  • Raul, Burt salvou nossas vidas. Se não fosse por ele...

  • Ele fez o que qualquer um teria feito, Lídia.

  • Ele nos salvou! Como você pode desprezar a importância que disso?

  • Não estou desprezando. Só estou constatando fatos. Mas se quiser pode agradecer-lhe pessoalmente. Ele vem vindo aí.

Ela virou a cabeça, ainda apoiada nos braços de Raul.

— Burt! Graças a Deus você está bem! Nem sei como agradecer-lhe pelo que fez! Nós podíamos ter sido mortos!

Burt olhou-a com frieza, depois demorou o olhar no braço de Raul que contornava a cintura dela.

— Parece que você não tem problema de arranjar proteção! Tem sempre um homem pronto a ampará-la, não é?

Lídia tentou afastar-se de Raul.


  • Eu desmaiei agora há pouco...

  • Mas que desculpa conveniente! — Burt desviou o olhar e fitou Raul, severo. — Desça, Raul. Limpe o porão até que eu lhe dê outra tarefa.

— Sim, senhor.

Assim que ele se afastou, Lídia apoiou-se na balaustrada. Não sabia como agir. Achava injusta a atitude de Burt para com seu irmão e tinha vontade de falar isso, mas como ficar brava e brigar com o homem que acabara de salvar sua vida? Se Burt a salvara, devia ser por que gostava dela... Será que ele. estava com ciúmes de Raul?



  • Não sei como agradecer-lhe por salvar minha vida, Burt...

  • Eu sei como, Lídia, mas tenho certeza de que você não iria concordar.

Burt disse isso e se afastou, deixando-a ali na balaustrada, sozinha, com um certo sentimento de culpa. Ele devia estar achando que ela era uma libertina, uma mulher fácil, atirando-se nos braços de Raul, depois de tê-lo beijado e ter lhe dado tanta intimidade! Mas como desfazer aquele mal-entendido, se não podia revelar que Raul era seu irmão?

Depois do assustador ataque do tubarão, a descoberta da âncora ficou esquecida e ninguém demonstrou entusiasmo. Burt resolveu dar o dia por encerrado e todos concordaram, aliviados.

A viagem de volta para Key West, na lancha, pareceu interminável. Lídia estava exausta, mas, apesar disso, quando se deitou naquela noite, não conseguiu dormir. Acendeu a luz de novo e resolveu ler, mas também não conseguia se concentrar na leitura. Resolveu então ir para o pátio, distrair-se um pouco e tomar ar fresco. Sentou-se sob a amendoeira e estava lá quando ouviu passos. Quis fugir para não ser vista de camisola, mas já era tarde. Resolveu então ficar quieta e esperar que se afastassem. Foi quando ouviu a voz de Margô risonha.

— Foi uma noite maravilhosa; eu simplesmente adorei! Você é um amor... e hoje à tarde foi tão corajoso!

Lídia ouviu a voz de Burt murmurando algo que não deu para entender. De onde estava, ela só via as sombras dos dois na parede. Percebeu quando eles se abraçaram e as sombras se misturaram.

Apesar de não poder suportar tal visão, não conseguia desviar o olhar. Sentiu um aperto no coração. Não fazia muito tempo, quem estava nos braços de Burt era ela, sentindo aquele corpo viril contra o seu, aqueles beijos ardentes...

— Ah, como eu quero você... — disse Margô, com voz sensual e provocante.

Lídia ouviu-a abrir a porta do quarto e notou que as sombras desapareciam da parede. Sorrateiramente, voltou para seu quarto e deitou-se de novo. Estava arrasada. Ainda bem que pelo menos as paredes isolavam o som! Ela mal podia suportar a idéia de que no quarto vizinho Margô e Burt estavam fazendo amor, imagine então se tivesse que ouvir os ruídos! Teria preferido morrer!

Como tinha sido tola de pensar que Burt estava gostando dela! Ele a salvara, é verdade, mas, como Raul lhe dissera, tinha feito o que qualquer um faria. E era isso mesmo! Só agora estava enfrentando a realidade sem romantismos. Burt amava Margô.




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