Águas Perigosas Treasure Of The Heart



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CAPÍTULO XI

Na manhã seguinte, enquanto iam de lancha até o Sea Deuced, Margô puxou conversa com Lídia.



  • Eu preciso lhe pedir desculpas, Lídia.

  • Ué, por quê?

  • O que há entre você e Raul é sério, não é?

  • O que faz você pensar que é sério?

  • O jeito de vocês se olharem e se preocuparem um com o outro...

Lídia ficou em silêncio, sem saber o que responder. O que será que Margô estava pretendendo?

— Bem, o que eu quero é lhe dizer que estou saindo com ele, Lídia. E é por isso que estou lhe pedindo desculpas. Em todo caso, jogo é jogo. Ontem à noite nós saímos juntos e depois... você sabe como são essas coisas. Sinto muito ter invadido seu território, mas também agora estamos empatadas: uma noite em Key West por uma noite em Miami!

Lídia sentiu a cabeça girar. Raul! Então era ele que estava com Margô! A sombra era dele, e não de Burt! Uma súbita alegria a invadiu.


  • Como é, Lídia, você não vai dizer nada?

  • O que você quer que eu diga?

  • Que eu saia do caminho, como eu disse para você.

  • E você iria obedecer?

  • Talvez sim, talvez não. Não estou morrendo de amores por Raul, sabe? É que eu acho que Burt está precisando sentir um pouco de concorrência. Ele está acostumado demais a receber atenções das mulheres. Há várias noites que ele não me convida para sair e não há melhor estímulo para um homem do que saber que existem outros interessados na mulher dele. Estou pretendendo usar Raul para isso, mas não quero que se preocupe, ele é todo seu!

Por instantes Lídia ficou tão furiosa que nem conseguia falar. Como aquela loira platinada se atrevia a usar Raul daquela maneira? Ele podia acabar se magoando muito! Margô estava se aproveitando do interesse que ele demonstrara!

  • Só acho que não é justo para com Raul — disse Lídia afinal, untando manter a voz calma e achando uma resposta que não a comprometesse. — Porque, quando Burt descobrir, você sabe que ele ai despedir Raul.

  • Ah, eu não vou deixar que isso aconteça! Sei como manejar !Burt, pode deixar! Se Burt ameaçar despedir Raul, eu vou dizer que ele está com medo da competição e aí, para não dar o braço a torcer, ele não o despede.

Margô riu como se estivesse muito satisfeita consigo. Lídia não disse mais nada e a conversa morreu aí. Terminaram a viagem em silêncio.

Durante dois dias seguidos, Lídia ficou em seu escritório, trabalhando com livros e relatórios, longe de Burt. Só mergulhava quando era necessário fotografar peças. Entretanto, não foi encontrado mais nada de interessante: alguns cacos de cerâmica, uma colher incrustada e mais pedras de lastro. Mas, nada do casco do navio!

Sexta-feira à noite, Burt bateu à porta de Lídia, em Marvista.


  • Esteja pronta daqui a vinte minutos. Nós vamos jantar fora.

  • De jeito nenhum!

  • É um jantar de negócios.

  • Mesmo assim, não vou. Eu me lembro muito bem de nosso último "jantar de negócios"!

Lídia pensou que Burt fosse brigar e insistir e ficou decepcionada quando isso não aconteceu. Ele se afastou sem dizer nada, deixando porta aberta. Antes que ela tivesse tido tempo de fechá-la, entretanto, voltou seguido de Margô.

— Não precisa trocar de roupa — foi dizendo logo. — Nós vamos jantar aqui mesmo, porque achei que assim teremos mais privacidade do que num restaurante. Comeremos no pátio.

Burt fez sinal para que as duas o acompanhassem. Lídia olhou para Margô interrogativamente, mas ela encolheu os ombros, insinuando ele a decisão dele tinha sido mesmo repentina.

Já estava quase escurecendo e a brisa do mar era agradável e perfumada, trazendo o grito das gaivotas. O pôr-do-sol proporcionava um espetáculo de rara beleza, incendiando o céu e o mar, deixando Lídia melancólica e pensativa. Assim que os três se instalaram à mesa, Margô foi a primeira a falar:



  • O que houve Burt? Estou esperando um telefonema para daqui a pouco. Espero que isso seja rápido.

  • Você vai ficar livre logo. Agora eu quero que vocês dêem uma olhada nisso daqui. — Furioso, Burt jogou o jornal sobre a mesa e apontou a manchete, lendo em voz alta: — "A Galleons Unlimited encontra o manifesto de carga do Santa Isabella".

  • Nossa, Burt! — Lídia olhou-o bem nos olhos.

  • Onde o encontraram? — perguntou Margô. — A área de busca da Galleons fica a quilômetros da nossa!

  • O manifesto fica em arquivos — explicou Lídia, deixando transparecer uma certa superioridade. — Provavelmente devem ter achado em Sevilha. Um manifesto é um registro, um documento, Margô, não uma peça de tesouro.

  • Ah, é?

Lídia continuou a ler a notícia junto com Margô.

— Encontraram um registro completo do que o Santa Isabella transportava em sua última viagem. Imagine só! Tem mais de novecentas páginas, o manifesto! Deve ter levado meses para ser traduzido!

Burt apontou para o jornal de novo.

— O galeão transportava centenas de barras de prata, e cada uma delas é minuciosamente descrita com o peso referente e um número de série.

— E transportava também dobrões e moedas de ouro. Mas que importância tem isso para a Dive Boys, Burt? É só um papel escrito. A Galleons Unlimited ainda não achou nada do tesouro!

Burt olhou para Margô, fazendo-a entender que havia dito uma grande bobagem.

— Agora que eles têm o manifesto, podem conferir qualquer peça que encontrarem e provar que descobriram o tesouro autêntico do Santa Isabella. Se isso acontecer, a Dive Boys estará fora do negócio. São poderia continuar a expedição de busca do galeão afundado, se ele estiver sendo resgatado por outra companhia.

— Mesmo porque, ninguém mais iria investir nessa expedição — completou Lídia.



  • Eu não vou deixar de jeito nenhum que a Galleons Unlimited me derrote e descubra o primeiro tesouro autêntico!

  • Eles ainda não encontraram nada.

  • Ainda não, Margô, mas podem encontrar. Nós já encontramos o canhão e ele tem um número de série... E nessa âncora também deve haver um número!

  • Esses números não adiantam nada se não tivermos uma cópia do manifesto — disse Lídia. — Será que eles nos forneceriam essa informação?

  • Não seja maluca! — Burt deu um murro tão forte na mesa que is fez estremecer.

  • E se você comprar a informação? — sugeriu Margô. — Ofereça dinheiro. Todo mundo tem um preço, você sabe.

  • Eles não vão vender isso por dinheiro nenhum! Eles estão nos passando para trás!

Ficaram os três em silêncio, enquanto Maggie servia a comida. Depois Margô falou:

  • Você sabe ler espanhol arcaico, Lídia? Você é uma cientista, isso deve fazer parte de sua função.

  • Eu sei, mas não tenho muita experiência.

  • Então, só há uma coisa a fazer Burt: você tem que mandar Lídia para Sevilha? — disse Margô. — Se alguém da Galleons Unlimited achou esse manifesto, Lídia também pode achá-lo. Esse arquivo não é que nem uma biblioteca? Pois então, mande-a até lá, procurar o que estamos precisando. Desse modo ainda teremos uma chance de reivindicar a descoberta do primeiro tesouro autêntico.

  • Não vai ser fácil descobrir esse manifesto, Margô. O arquivo contém milhares de documentos manuscritos, separados em pacotes, e não há catálogos que facilitem a localização do que se procura. Não é como nas bibliotecas. Existem pilhas de papéis que vão do chão até o teto, nas salas e nos corredores do enorme prédio que antigamente era o Centro do Comércio da Espanha.

  • E como se faz então para procurar alguma coisa? A pessoa tem que ficar remexendo nessa papelada toda?

  • Não, Burt, ninguém pode fazer isso. O cientista tem que indicar o pacote que quer consultar e pedir ao funcionário encarregado que o traga para ele na sala de consultas. Depois pode ler à vontade.

Lídia parou de falar de repente, lembrando o que Burt havia dito sobre profissionais que gostam de aumentar a importância do trabalho que fazem. E não era essa a sua intenção. O que não queria era ser mandada a Sevilha apenas por um capricho de Margô, para afastá-la de Burt.

  • Eu acho que Lídia deve ir dar uma olhada nesse arquivo, Burt. Mal não vai fazer, e pode ser que ela descubra algo, mesmo. O pessoal da Galleons Unlimited não descobriu?

  • Pode ser que tenham contratado algum pesquisador lá na Espanha para fazer o serviço para eles. Você podia fazer isso também, Burt! — sugeriu Lídia.

  • E eu vou mesmo — ela falou em voz baixa, mas não encontrou forças para sair do lugar.

  • Pode ir, então. — Ela, entretanto, não conseguia se mover. — Você não consegue ir, não é? Está vendo? Você me quer tanto quanto eu quero você...

  • Consigo, sim! Eu vou embora.

Com grande esforço, Lídia ergueu-se, apoiando-se nos cotovelos, e sentou-se. Foi então que ele a beijou, fazendo-a deitar-se de novo. O beijo, infinitamente meigo o terno no início, foi ficando ardente e profundo, à medida que se prolongava.

Lídia entreabriu os lábios e correspondeu com muita paixão. Não podia negar o desejo que a invadia e tomava conta de todo o seu ser, fazendo-a vibrar e sentir-se mais viva do que nunca.

Sem saber como, ela o abraçou e apertou contra si, depois começou a acariciar-lhe as costas e foi deslizando as mãos pelas pernas. Os beijos se tornaram cada vez mais intensos e exigentes. As línguas e os lábios percorriam novos territórios, explorando devagar, desfrutando o prazer da descoberta. O desejo foi crescendo, como que consumindo-os, até que não havia mais nada, a não ser a necessidade urgente de se entregarem.

— Não, Burt... não... — murmurou ela, entre uma carícia e outra, meio atordoada.

Burt beijou de leve os olhos dela.

— Você me quer, Lídia... para que negar? Posso fazê-la muito feliz...

Ele a beijou no pescoço, enquanto desabotoava-lhe a blusa, insinuando os dedos por entre os seios, numa carícia lenta e delicada.

Lídia sentiu uma quentura que a deixou sem forças para impedir qualquer gesto dele. Queria cada vez mais carícias, desejava sentir o corpo dele, queria que ele a possuísse.

— Tire minha roupa, Lídia... tire minha camisa, primeiro...

— Não.


— Não me faça suplicar. Não é justo; eu estou tirando sua roupa, Lídia...

Ela começou a despi-lo devagarzinho, experimentando um prazer imenso. Os corpos se uniram num abraço, procurando-se mutuamente.

Lídia sentiu a carícia dos pelos macios roçando seus seios e tinha cada vez mais vontade de despertar nele o mesmo que ele estava despertando nela. Quando os lábios tocaram o bico de seu seio, ela sentiu uma emoção tão forte que quase perdeu o fôlego de prazer.

Estavam assim entrelaçados, tão envolvidos no ardor da paixão, que nem perceberam a maré subindo. Quando uma onda os atingiu em cheio, foi um choque. Eles haviam até esquecido que estavam na praia. A água estava fria e Lídia gritou sem querer. Poucos instantes depois, ouviram passos de alguém correndo na praia. Num gesto rápido, Lídia abotoou a blusa e se recompôs.

— Quem está aí? — gritou Margô. Burt resmungou e virou-se para Lídia.


  • Você se esconde. Eu vou falar com ela. Fique ali atrás daquela árvore que eu vou despistá-la.

  • Lídia, é você? — Margô viu-a antes que ela tivesse tempo de e esconder. — Não sabe que é perigoso nadar à noite? Principalmente sozinha! Só um maluco... — Interrompeu-se bruscamente ao chegar mais perto e perceber que Lídia estava vestida e toda molhada.

Lídia ficou em suspense, esperando que Burt tivesse se escondido e Margô não o tivesse visto.

— Lídia! Mas o que é isso? Você não estava pretendendo se suici... quer dizer, você não está assim tão desesperada de ter que ir a Sevilha, está? — Margô pegou-a pelo braço e foi conduzindo-a de volta para casa. — Se você está assim tão chateada de ir a Sevilha, eu posso pedir a Burt para mudar de idéia! Nunca pensei que você fosse fazer uma loucura dessas por causa disso! Foi exatamente neste lugar que Zack...

O constrangimento foi superado pela curiosidade.

— Margô! Por acaso Zack se suicidou?

— Não, não, é claro que não! A morte dele foi um acidente! Lídia, entretanto, sentiu que Margô estava mentindo. Por que ela não queria contar?


  • Você estava tentando me assustar, me deixar com remorso, Lídia? Ou estava tentando chamar a atenção de Burt?

  • Eu estava só dando um passeio, Margô. Acontece que a maré me pegou de surpresa, foi só isso! Não precisa ficar assim tão nervosa!

  • Então, por que você gritou?

  • Porque uma onda me pegou desprevenida, a água estava fria, foi isso! Saí um pouco para refletir sobre a viagem e acho que essa experiência em Sevilha vai ser um passo à frente na minha carreira! Vai ser muito bom para mim!

  • É melhor voltar para o seu quarto agora, Lídia. Não vai querer ficar molhada assim, não é?

Lídia afastou-se depressa, sentindo a roupa ensopada colada ao

corpo, envergonhada do comportamento que tivera com Burt. Agora, mais do que nunca, estava decidida a ir para a Espanha e ficar o mais longe possível dele! Não podia continuar procedendo daquela maneira! Iria afundar-se na frieza dos arquivos em Sevilha e esquecer-se completamente dele.



CAPÍTULO XII

Lídia passou a noite praticamente sem dormir. Sabia que estava apaixonada por Burt e achava isso uma loucura, pois ele era arrogante e mulherengo. Provavelmente só iria querer se divertir com ela. Ou será que ele não era assim? Lembrou-se dos beijos e das carícias dele. Nesses momentos ele parecia meigo e carinhoso... mas não era por amor! Burt era um enigma, porém de uma coisa Lídia tinha certeza: não queria ser mais uma das tantas mulheres que se arrastavam aos pés dele. Por mais apaixonada que estivesse, jamais iria confessar esse amor, para não dar a ele o prazer de magoá-la e espezinhá-la!

Quando chegou a bordo do Sea Deuced na manha seguinte, Burt já estava em seu escritório.

— Olá! — cumprimentou ele, com voz acariciante. — Lídia não respondeu. — Ei, o gato comeu sua língua?

Ela se esforçou para não demonstrar o quanto as lembranças do encontro na praia estavam presentes em sua mente e quanto ainda a perturbavam.


  • Quero lhe dizer que estou pronta para embarcar para Sevilha quando você quiser, o mais rápido possível.

  • Nossa! Que pressa de ir embora!

  • Não era o que você queria?

  • Queria, mas agora as circunstâncias mudaram, não acha? O que aconteceu ontem à noite não significa nada para você?

  • Quero ir para Sevilha o quanto antes e lhe agradeço muito se conseguir que meu passaporte saia mais depressa.

  • Vamos fazer um acordo: diga que aceita o meu amor e não se fala mais em viagem para a Espanha. Ontem você me queria, Lídia, tanto quanto eu queria você!

A voz dele era suave e sedutora, mas ela encontrou forças para se manter firme.

— Não quero falar sobre isso, você não pode me obrigar! O olhar dele ficou sombrio e a voz mudou de tom.

— É claro que não posso obrigá-la! Ninguém pode obrigar alguém a amar. O amor só pode ser livre e espontâneo. Pode ficar tranqüila que não vou pressioná-la. Vou levá-la de helicóptero até a cidade, para você começar os preparativos da viagem.

Lídia sentiu-se decepcionada. Se ao menos Burt dissesse que a amava! Mas, se não a amava, era melhor mesmo que se separassem e ficassem bem longe um do outro, do contrário ela não ia mais resistir à atração que sentia por ele e acabaria se entregando. Afastar-se dele era a única salvação.

Burt realmente conseguiu apressar a emissão do passaporte e em pouco tempo tudo ficou pronto. No dia da viagem, levou-a de carro até o aeroporto, embora ela tivesse dito que não precisava. Lídia temia a despedida. Será que conseguiria esconder a emoção, se ele a beijasse?


  • Você promete que me escreve pelo menos uma vez por semana? — perguntou Burt, com certo tom de preocupação.

  • É claro!

  • E telefona assim que descobrir qualquer coisa importante?

  • O que você considera importante?

  • O manifesto do Santa Isabella, é claro. A lista completa de todos os itens. Você está levando o número do canhão?

  • Estou, sim.

Subitamente, Lídia sentiu um aperto no coração. Como poderia agüentar a separação? Olhou o perfil de Burt contra o céu azul, como se quisesse gravar a imagem em sua mente. Como iria suportar viver longe dele? A vontade que tinha era de atirar-se nos braços dele e ficar aninhada ali para sempre!

Burt levou as malas de Lídia até o balcão da companhia de aviação, depois sentou-se com ela na sala de espera apinhada de gente. Pouco depois, o vôo foi anunciado e eles se levantaram. Lídia respirou fundo, procurando controlar as emoções. Dali a poucos minutos estaria irremediavelmente longe da tentação daquela voz, daquelas mãos, daqueles lábios...



  • Até logo, Burt, eu me comunico com você.

  • Vou ficar esperando notícias.

Burt ficou em silêncio, olhando para ela, e quando fez menção de beijá-la, Lídia se afastou. Ele ainda deu um sorrisinho meio irônico e ela foi, apressada, para o portão de embarque. Entrou no avião sem nem olhar para os lados e instalou-se num lugar ao lado da janela. Pouco depois, o avião levantou vôo.

Por que havia evitado o beijo, se queria tanto beijá-lo? Talvez porque não quisesse se iludir. Se ele não a amava, era melhor que não houvesse nenhum contato físico entre eles.

Em Miami fizeram escala e trocaram de avião. Durante o vôo até a Espanha, Lídia dormiu quase o tempo todo e só acordou pouco antes da aterrissagem. Desembarcou, pegou a bagagem, passou pela alfândega e tomou um táxi, tudo ainda meio atordoada. Só quando já estava a caminho da pensão que Burt havia reservado para ela é que sentiu realmente que estava num país estrangeiro. Havia um perfume diferente de flores no ar e no rádio do carro estavam falando em espanhol. Ao passarem ao longo da margem do rio Guadalquivir, Lídia ia tentando identificar os pontos marcantes de Sevilha, sobre os quais lera num guia turístico.

A Torre Giralda, o Alcazar, a Torre do Ouro... ia dizendo a si mesma, querendo com isso afastar as recordações de Burt e de Mar-vista, mas não conseguia. A imagem de Burt persistia em sua mente.

O táxi afinal parou. Lídia pagou e desceu. Ficou alguns instantes parada, contemplando a pensão onde iria morar. Arcos mouros... paredes de estuque cor de creme... três andares... sacadas de ferro batido, com vasos de gerânios e cravos... Em uma das sacadas havia uma gaiola com passarinho.

Lídia subiu os três degraus de mármore da entrada da pensão. A porta estava aberta e ela foi entrando, depois de ter ficado na dúvida se devia ou não tocar a campainha. Entrou devagarzinho, olhou ao redor e não viu ninguém. A sala de mobília entalhada, impecavelmente arrumada, estava deserta.

— Srta. Cameron?

Lídia virou-se para ver quem a chamava e viu uma mulher sentada à escrivaninha. Aproximou-se e respondeu:



  • Sou eu, sim. Sou Lídia Cameron e a senhora deve ser a Sra. Pedraza. O Sr. Burt Adburee reservou um lugar para mim aqui, não reservou?

  • Reservou, sim. Seja bem-vinda. Estávamos esperando sua chegada; seu quarto já está preparado. Venha comigo.

A Sra. Pedraza era uma mulher de meia-idade, baixa e gorda, de pele morena pálida e cabelos negros. Os olhos castanhos, enormes, fascinaram Lídia.

Ela seguiu a mulher até uma escada de onde se avistava o quintal. Ficou encantada. Havia laranjeiras, palmeiras e canteiros de rosas e azaléias. Uma beleza! Assim que estivesse instalada, ia querer explorar aquele quintal tão pitoresco!



  • Vai ficar bastante tempo aqui? — perguntou a Sra. Pedraza.

  • Talvez. Depende de meu trabalho.

  • Seu trabalho?

Lídia percebeu que a mulher estava morrendo de curiosidade para saber coisas da sua hóspede americana, cujas contas eram pagas pela Dive Boys.

  • É. Vim fazer umas pesquisas no arquivo.

  • Ah, sei. Está fazendo tese de doutorado?

  • Não. Embora possa aproveitar a pesquisa para isso.

  • Sobre o que é a pesquisa?

Já haviam chegado ao segundo andar e a mulher suava em bicas, embora fosse Lídia quem estivesse carregando as malas.

  • É sobre a Espanha antiga.

  • Ah, sei.

A Sra. Pedraza abriu a porta em arco que dava para a pequena suíte e Lídia gostou de imediato da decoração acolhedora. Sala de visitas, quarto, banheiro e kitchenette. E ainda uma sacada que dava para o quintal, bem onde havia um canteiro de rosas ao lado de uma fonte. Lídia ficou admirada com a jovem que estava lá alimentando os peixinhos. Achou que tinha um certo ar triste e solitário.

  • Gostou das acomodações?

  • Gostei muito.

  • Temos algumas normas, senhorita. E é preciso haver, já que aqui moram rapazes e moças.

  • É claro.

Lídia respondeu isso, mas sentiu-se de repente como uma colegial num internato.

  • Depois das sete da noite é proibido receber visitas de rapazes. Deve deixar as luzes sempre apagadas no aposento que não estiver usando. Estamos em época de se fazer economia. O colchão deve ser virado toda semana. Qualquer telefonema tem que ser feito pelo telefone público instalado lá no saguão.

  • Sim, senhora. Minha hospedagem foi paga adiantado, não foi?

  • Foi, sim.

A Sra. Pedraza ainda ficou algum tempo olhando desconfiada para a bagagem de Lídia; depois, sem ter mais o que dizer, saiu com certa relutância.

Assim que fechou a porta, Lídia deixou-se cair na cama. Depois de alguns instantes de relaxamento, levantou-se e começou a desfazer as malas.

Depois de ter guardado tudo no armário, tomou um banho, trocou de roupa e desceu para dar uma olhada no quintal. Andou por alguns instantes entre os canteiros perfumados, depois sentou-se em um banco de pedra ao lado da fonte e ficou observando os peixinhos. Que tranqüilidade! Que lugar bonito! Só desejou que Burt pudesse estar ali com ela, partilhando o encanto daquele momento.

— Vi quando você chegou e se estiver precisando de mim é só falar.

Lídia virou-se num sobressalto. Não tinha visto ninguém se aproximar e não estava precisando de ajuda nenhuma. Mas, ao deparar com o dono da voz, não pôde deixar de sorrir. Alegrou-se de ver um americano naquele país onde ela era estrangeira.


  • Sou Júlio Hunter e sei que você é Lídia Cameron.

  • Como soube isso?

  • Ah, a Sra. Pedraza vê tudo, ouve tudo e comenta tudo.

Lídia analisou melhor o inesperado companheiro. Gostou do sorriso simpático dele. Combinava com os cabelos ruivos e o jeito meio desengonçado. O terno de brim que usava era tipicamente americano. Devia ter uns trinta anos, era alto e magro. Entretanto, apesar de ter simpatizado com ele, não estava disposta a ficar conversando, por isso ergueu-se.

  • Muito prazer em conhecê-lo, Sr. Hunter, mas agora, se me dá licença...

  • Pode me chamar de Júlio, por favor. Eu moro no terceiro andar. Você já jantou?

Lídia arranjou uma desculpa qualquer e esquivou-se. Não estava mesmo com fome e não pretendia comer.

Voltou para o quarto e ficou um pouco na sacada, vendo o luar. Depois deitou-se e adormeceu, sentindo o perfume de flores que vinha do quintal, não sem antes pensar em Burt e imaginar se ele sabia como Sevilha era bonita na primavera.

Na manhã seguinte, Lídia acordou tarde, mas não se preocupou, pois lembrou-se de que o professor Hoskin lhe dissera que o arquivo só abria depois das nove horas. Vestiu uma saia marrom e uma blusa bege, pois sabia também que os documentos geralmente estavam cheios de pó e seria bobagem usar roupa clara. Quando saiu da pensão, a Sra. Pedraza estava na mesa de recepção e olhou-a como quem está sempre alerta, vigiando.

Lídia entrou num bar, sentou-se e pediu um suco de laranjas, torradas e café. Terminou a refeição depressa e foi diretamente para o arquivo. O prédio era realmente bonito de se ver. As paredes eram de pedra com arcos góticos e parecia um castelo. Ficava bem em frente à catedral, no meio de um jardim bem cuidado, onde havia uma fonte de mármore e uma escultura de pedra representando leões com as patas sobre um globo terrestre. Será que esses leões simbolizavam o poderio da Espanha de outras eras?

Ela foi atravessando o jardim, passou por um canhão de bronze maciço e subiu os degraus de mármore cor-de-rosa da entrada. Lá dentro era úmido e cheirava a mofo.

— Minhas credenciais — disse, ao apresentar os papéis da universidade à funcionária encarregada.

A mulher examinou-os por instantes, depois sorriu.


  • Tudo em ordem, fique à vontade.

  • A senhora faz o favor de me mostrar qual é a prateleira dos índices?

  • É aquela ali.

Lídia pegou o primeiro volume e abriu. Era um índice manuscrito e ela começou a virar as páginas sem ter uma idéia do que estava procurando. Sabia o nome do navio, sabia a data em que naufragara. Decidiu, então, procurar qualquer coisa referente a esses itens.

— Será que posso ajudá-la em alguma coisa?

A voz era conhecida. Lídia virou-se e deu com Júlio Hunter sorrindo para ela. Era impossível não sorrir também ou fugir daquele olhar simpático e amável, que parecia entrar em sua alma para ver só as coisas boas.


  • Estou falando sério, mesmo. Se precisar posso ajudá-la. Até os cientistas mais experientes ficam confusos, na primeira vez em que vêm aqui! Sabe que eu nunca vi um cientista com esses cabelos cor de mel e...

  • Muito obrigada, mas pode deixar que eu me arranjo sozinha.

  • Que pena! Em todo caso, se precisar de ajuda, não se acanhe; pode me procurar. Vou estar trabalhando na sala ao lado.

Ele começava a se afastar quando Lídia se arrependeu de tê-lo dispensado tão secamente.

  • Júlio... talvez você possa me ajudar, sim. Ele voltou imediatamente.

  • Sobre o que é sua pesquisa?

  • Sobre o Santa Isabella, um galeão que naufragou em 1639.

— Então não vai encontrar nada nesse volume que está lendo — Júlio examinou os livros na prateleira por alguns instantes e pegou outro. — Aqui está. Tente este. É um índice referente à Câmara de Comércio. Se não encontrar nada neste, pode me chamar.

— Obrigada, Júlio. Sua ajuda foi realmente valiosa.

Lídia levou alguns minutos para se adaptar à leitura. As palavras estavam escritas muito juntas umas das outras e não havia pontuação. Olhando-se de repente, parecia até um desenho infantil das ondas do mar. A primeira impressão que teve foi de que jamais conseguiria ler aquilo e detestou Burt por havê-la colocado numa situação em que estava fadada a fracassar.

Depois, aos poucos, seus olhos foram se acostumando e ela conseguiu captar alguns termos conhecidos. Documentos da Armada 1630-1640. Preencheu uma folha de requerimento para examinar os documentos e, enquanto o funcionário encarregado providenciava, foi até a sala de consultas e sentou-se a uma mesa perto da janela.

O chão era de mármore e as paredes de pedra, o que fazia com que a sala fosse fria. Viu Júlio sentado perto de outra janela, mas não foi até lá nem ficou olhando. Fingiu estar interessada no retrato de Colombo. Finalmente o funcionário trouxe um pesado pacote, que colocou sobre a mesa dela, e, em seguida, se afastou.

Lídia desatou a fita que prendia os papéis e começou a examinar os documentos. Quantos havia! Iria passar o resto da vida ali, lendo aquilo tudo.

Ficou horas estudando os documentos e, quando Júlio passou por ela, convidando-a para fazer uma pausa, aceitou de bom grado. Foram para fora e sentaram-se nos degraus de mármore cor-de-rosa.


  • Como é que está indo? — perguntou ele.

  • Mal. Não existe uma ordem de seqüência dos documentos, nem alfabética, nem por datas, a tinta está quase apagada e...

  • Ela era feita com raspa de carvalho. Nem sei como não se apagou completamente.

  • Além disso, o papel está todo comido de traças e...

  • Você tem um tempo limitado para sua pesquisa?

  • Não... e acho que vou passar o resto da vida aqui.

  • Vou lhe dar uma dica que pode ajudá-la. Não fique lendo página por página. Dê só uma olhada rápida, procurando apenas duas coisas: a palavra lsabella e o ano de 1639. Se deparar com uma dessas duas, então pare e leia melhor.

  • É realmente uma boa dica, obrigada. E você, sobre o que está pesquisando?

  • Eu sou meteorologista e estou trabalhando na minha tese de doutoramento. O assunto é meio complicado, mas refere-se a tempestades e furacões que prejudicaram o comércio da Espanha antiga com o Novo Mundo.

— Ah, que interessante!

— Que tal almoçar comigo, Lídia? O arquivo fecha mesmo no horário de almoço e nós poderíamos aproveitar para comermos na lanchonete, ou então fazermos um piquenique à margem do rio.

— Seu convite é tentador, mas realmente acho que prefiro voltar para casa e descansar um pouco. Meus olhos estão ardendo!

— Ora, não vai me dizer que pretende privar um pobre e cansado estudante do prazer da sua companhia!

O sorriso dele era cativante, não havia como recusar sem ser grosseira.


  • Mas que falta de gentileza a minha! — disse ela, em tom de brincadeira.

  • É isso mesmo. Vamos lá dentro devolver os papéis ao funcionário e depois daremos uma escapada desse túmulo por algumas horas.

  • Depois eles devolvem para a gente, à tarde?

  • É claro! Não há problema. Espere aqui que eu vou providenciar isso para nós dois.

Pouco depois atravessaram a avenida Queipo de Llamo e foram até a lanchonete. Júlio fez o pedido para a garçonete e depois voltou a atenção para Lídia.

  • Fale-me um pouco de você. De onde você é? Para quem trabalha?

  • Nossa, quantas perguntas! Está até parecendo a Sra. Pedraza.

  • Mas que comparação! Eu lhe garanto que meus interesses são bem diferentes dos dela! — respondeu ele, dando uma piscada maliciosa.

— Então não vou nem perguntar que interesses são esses. Como Júlio era diferente de Burt! Era tão mais fácil conversar com ele!

— Ora, vamos, Lídia, fale-me um pouco de você.



  • Pois bem, estou morando em Key West, para tomar conta de meu irmão caçula, Raul. Trabalho para a Dive Boys, uma companhia de resgate de tesouros de navios naufragados, que, no momento, está fazendo uma expedição de busca para encontrar o tesouro que supostamente estava a bordo do Santa Isabella.

  • E estão tendo sorte?

  • Um pouco. Já resgataram algumas peças, mas ainda não encontraram o casco do galeão. Há uma outra companhia que também está fazendo expedições de busca. Quem conseguir provar primeiro que o navio naufragado é realmente o Santa Isabella pode reclamar a posse do tesouro todo... se conseguir encontrá-lo.

  • Parece uma competição realmente emocionante! E você, o que está procurando? O local exato do naufrágio?

  • Não. Isso o pessoal da Dive Boys já descobriu. Pelo menos o local aproximado. Eu estou procurando o manifesto, o documento que especifica o que o navio transportava e registra o número de série de cada coisa. Já encontramos um canhão que possui um número, mas não temos com o que conferir esse número.

  • Espero que tenha sorte.

  • Agora é a sua vez. De onde você é? O que está fazendo aqui?

  • Sou de Miami. Temos muito em comum, Lídia. Nós dois somos da Flórida e estamos cuidando de irmãos menores. Meus pais morreram num acidente de carro, no ano passado, e eu fiquei responsável por Cláudia. Ela tem quinze anos e ainda é uma criança! Gosto muito da Europa e poderia muito bem ficar morando aqui. Você não acha que a vida aqui em Sevilha é tranqüila?

  • Não conheço muito da cidade, mas gosto daqui. Só que eu jamais sairia dos Estados Unidos para viver em qualquer país estrangeiro.

  • Vou lhe mostrar mais coisas desse país e talvez você mude de idéia.

Conversaram sobre assuntos genéricos enquanto comiam e, ao terminarem a refeição, pediram café. Lídia nem percebeu o tempo passar. Quando se deu conta, já era bem tarde.

  • Nossa, Júlio! Passamos a tarde toda conversando!

  • Ah, é bom sinal! Quer dizer que gostou da minha companhia!

  • Mas eu não posso fazer uma coisa dessas! Estou sendo paga para trabalhar e...

  • E quem vai saber? Acalme-se. Também precisa viver um pouco! O arquivo não vai fugir de lá. Quer jantar comigo?

  • Mas nós acabamos de almoçar!

  • Não vamos jantar já. Podemos comprar os ingredientes e mais tarde faremos comida na minha cozinha.

  • Mas, e a Sra. Pedraza? É contra as normas eu ir a seu apartamento.

  • Para os homens, as normas são diferentes. E, de qualquer maneira, não estaremos sozinhos. Cláudia estará lá e a velha coruja não vai poder piar!

  • Velha coruja! — Lídia caiu na risada. — Não é possível, você deve ter lido meu pensamento! Eu também achei a Sra. Pedraza com cara de coruja!

  • Então, combinado, não é? Vamos jantar juntos, assim posso continuar a ler seu pensamento.

Lídia acabou concordando sem protestar. Como ele era simpático e agradável! Não era pretensioso nem arrogante como Burt. Júlio tinha realmente surgido em boa hora! Ele poderia ajudá-la a esquecer Burt.



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