Águas Perigosas Treasure Of The Heart



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CAPÍTULO XV

Por um instante os três ficaram se entreolhando, mudos. Lídia falou primeiro e sua voz tremia de raiva pela chegada de Burt em hora tão inoportuna.



  • O que você está fazendo aqui, a esta hora da noite?!

  • Eu é que devia perguntar isso — respondeu Burt, olhando para Júlio.

  • Ora, ela mora aqui — retrucou Júlio. — Como não haveria de estar aqui?

  • E você, quem é?

  • Burt, este é Júlio Hunter. — Lídia esforçou-se para aparentai calma. — Ele é o responsável em grande parte pelo meu êxito n« arquivo. Quando você souber...

  • Meu Deus! Meu Deus do céu! Parem com esse barulho! — A Sra. Pedraza vinha subindo a escada esbaforida, o penhoar esvoaçando. — Que bagunça é essa em meu corredor? Parece uma feira! Silêncio, por favor!

  • Desculpe, Sra. Pedraza — retrucou Lídia. — Não faremos mais barulho. — Depois virou-se para Burt. — Entre, Burt, Júlio já estava de saída. Não é mesmo, Júlio?

  • Acho bom mesmo! — disse a Sra. Pedraza.

  • Eu não saio até que uma coisa fique bem clara, Lídia. Olhou para Burt como se fossem inimigos mortais. — Ou você vai ao concerto comigo amanhã à noite, ou não vai me ver nunca mais!

A Sra. Pedraza, entretanto, interferiu mais uma vez, apressando Júlio a voltar para seu apartamento, e Lídia aproveitou a oportunidade para despedir-se e fechar a porta depressa. Depois respirou fundo, tentando se controlar e coordenar os pensamentos. . — Que bela cena, hein?! — disse Burt. — Quem é aquele sujeito?!

— Eu já disse. É um cientista também e está preparando a tese dele...

Um cientista, e muito cavalheiro! — disse Burt, com sarcasmo.

Olhou-a de tal modo que Lídia instintivamente levou a mão ao fecho do vestido. Será que estava em ordem? Será que havia algum sinal indicativo do seu combate com Júlio? Mas, afinal, por que deveria se importar tanto com o que Burt pudesse pensar? O pior de tudo é que estava sentindo um desejo louco e quase irresistível de se atirar nos braços dele!

— Acho que mereço uma explicação — disse Lídia, por fim. — O que você está fazendo aqui, a esta hora da noite? O que houve?

— Esta hora da madrugada, você quer dizer, não é mesmo? — Burt olhou ostensivamente para seu relógio de pulso. — Três horas da madrugada, para sermos exatos! Será que você pode me dizer o que o seu cientista doutorando estava pesquisando, a essa hora?

Lídia empertigou-se toda e afastou-se da porta onde estivera encostada.

— Minha vida particular não é absolutamente da sua conta, Burt. O que você está fazendo aqui? A Sra. Pedraza vai ficar furiosa se você não sair logo!

— Estou aqui para cumprimentá-la pela descoberta do manifesto.

Ela pareceu não entender logo de início, mas depois olhou para ele, incrédula.



  • Mas, como é que soube? Eu só ia telefonar para você amanhã cedo! Fiz a descoberta pouco antes da hora do arquivo fechar.

  • Bem, devo confessar que em parte soube por coincidência, mas o dinheiro ajuda bastante, Lídia! Podemos nos sentar enquanto eu lhe conto, ou você prefere continuar agarrada na porta?

Lídia olhou de relance para o sofá, mas Burt balançou a cabeça negativamente.

— Prefiro me sentar na sacada. Tive um dia bastante agitado e cansativo e o ar fresco da madrugada me fará bem. Vamos! — Pegou-a pela mão e puxou-a até lá, como se ela fosse uma criança.

Imediatamente o contato da mão dele despertou nela todas as antigas emoções e Lídia se pôs em guarda. Era preciso ficar alerta para não fraquejar!

Sentaram-se ao luar e Lídia tentou ignorar a luz da lua iluminando o rosto de Burt, dando tal sensualidade aos lábios dele, que ela precisava se controlar muito para não beijá-lo. Ainda bem que não podia ver nitidamente a expressão do olhar, porque então seria muito mais difícil resistir. Ela sabia muito bem como um certo olhar dele podia fazê-la derreter!



— Quando a Galleons Unlimited começou a anunciar que iria conferir o número do lingote que resgatara com o do manifesto, resolvi vir ate aqui para ver em que pé estava sua pesquisa no arquivo. Cheguei esta tarde e fui direto para lá. Perguntei por você.

  • Eu não estava lá.

  • Eu sei, é claro! — Burt fez uma pausa e como ela não dissesse nada, continuou: — Mostrei minha identificação ao funcionário e ele me disse que você havia pedido a microfilmagem do manifesto para a Dive Boys. Fiquei mais algum tempo lá, tomando algumas providências para que o trabalho fosse feito o mais rápido possível. Vai ser difícil porque as páginas do documento são muito antigas e estão muito frágeis.

  • Quando vão aprontar?

  • Não disseram, mas prometeram se apressar. Eles vão mandar pelo correio para mim em Key West.

  • Ah, Burt, que bom que você conseguiu apressá-los! As coisas andaram tão devagar até agora!

  • Não me diga! Sabe, Lídia, eu lhe devo muito por ter sido tão brilhante e ter encontrado o manifesto.

  • Você deve muito a Júlio também, Burt. Se não fosse por ele, não sei se eu teria conseguido ler aqueles manifestos em espanhol arcaico. Ele elaborou um vocabulário para mim das palavras antigas, uma lista de abreviações que eu não conhecia e...

  • Já estou cheio de ouvir falar desse Júlio. Por que ele não me apresenta uma conta por serviços prestados?

  • Duvido muito que ele faça isso. Dinheiro não é a coisa mais importante para ele.

  • Você deve saber bem.

Burt deu um sorriso sarcástico e Lídia fingiu ignorar, mudando de assunto.

  • Bem, agora que você já tem o manifesto, acha que pode reclamar os destroços do Santa Isabella antes da Galleons Unlimited?

  • Isso me dá uma grande vantagem, mas ainda preciso de sua ajuda.

— De que maneira?

  • Preciso que você me ponha em contato com o professor Hoskin. Quero que telefone para o professor e pergunte se ele se dispõe a conferir o número do canhão, quando o encontrarmos no manifesto.

  • Você tem certeza absoluta de que vai encontrar esse número, não é?

  • A gente precisa ter pensamento positivo, ora! Sem dúvida o professor Hoskin vai querer ir a Key West, para inspecionar o canhão primeiro e depois estudar o microfilme.

  • Você pode conseguir isso muito bem sozinho! Lembre-se de que o dinheiro ajuda bastante, como você já disse!

  • Enquanto estiver trabalhando para mim, você terá que acatar minhas ordens. Sei que o professor Hoskin não vai trabalhar para a Galleons Unlimited. Não vai querer pactuar com a posição deles de destruir o mundo submarino. Mas acho que para a Dive Boys ele vai trabalhar, ao menos em consideração a você, que está trabalhando para nós. O principal agora é não perdermos tempo. Amanhã cedo você telefona para ele.

— Está bem.

Ficaram em silêncio por vários minutos. Lídia sentia-se dividida entre o desejo de que ele fosse embora e o de que ficasse para sempre, que a tomasse nos braços e a beijasse.

— O que vai acontecer com o tesouro, Burt? Você sabe que eu acho que ele pertence à humanidade, a todos os homens...

Burt suspirou.

— Mas uma parte dele precisa ser vendida, para sustentar o projeto. Outra parte tem que ir para os investidores. Depois, se quiserem vender ou doar para museus, a escolha é deles.


  • E se eles quiserem vender, só para aproveitarem o ouro? E o valor dos objetos, como é que fica?

  • Isso é um risco que tenho de correr. Mas só mesmo uma empresa privada pode se aventurar a fazer uma caça ao tesouro. Já imaginou o governo gastando dinheiro do povo para fazer esse tipo de coisa?

Lídia não pôde deixar de sorrir ante esse julgamento.

  • Acho que você tem razão nisso. — Pela primeira vez ela considerava o tesouro do ponto de vista de Burt.

  • Esse tesouro significa para mim muito mais do que você pensa, Lídia! — disse ele, e depois mudou depressa de assunto. — Posso tomar um drinque?

  • É claro. Desculpe não ter oferecido antes, mas fiquei atrapalhada ...

  • Eu notei.

Lídia foi buscar um cálice de vinho e voltou para a sacada. Ficaram de novo em silêncio, enquanto ele bebia. Pensamentos confusos passavam pela cabeça dela. Júlio a pedira em casamento. Estaria falando sério ou seria apenas efeito da bebida? E ela, será que o amava? Por que não aceitara o pedido? Gostava da companhia de Júlio, gostava de Cláudia; ambos eram pessoas de convívio agradável. Entretanto, ficara assustada com o pedido de casamento. Seria pelo medo de ter que viver longe de sua terra natal, longe de Raul? Ou seria por medo de ficar para sempre longe de Burt? Como desejaria não ter conhecido Burt! Se pelo menos ele não tivesse vindo, agora, se não o tivesse visto mais...

— Em que está pensando?

Lídia sentiu um calafrio porque a pergunta a fez lembrar-se de outra noite, em outro terraço, em que ele fizera a mesma pergunta. Dessa vez resolveu responder.


  • Estou pensando em Key West e na Dive Boys.

  • Em Raul?

  • É, em Raul.

  • E em Margô?

— Por que você falou em Margô?

  • Porque quando você pensa em Raul deve pensar em Margô também. Eles se tornaram um parzinho inseparável, depois que você veio embora.

  • Ora, Burt! Como você pode ser tolo de pensar que Margô esteja interessada em Raul! Ela está só querendo deixá-lo enciumado. Ela está usando Raul e isso me deixa furiosa!

  • O relacionamento deles pode ter começado nesses termos, mas mudou. E Margô também mudou muito! Ela está muito mais meiga... É como se tivesse descoberto que o amor é mais importante do que dinheiro. Ela está amando Raul, Lídia! Se pensa que Raul estará esperando você de braços abertos, é melhor se preparar para não ter uma decepção.

  • Você é que deve estar de coração partido por me dar essa notícia — disse ela, irônica.

  • Nem tanto. Não acho que você seja do tipo de ficar sofrendo sozinha.

O sangue de Lídia ferveu nas veias e ela se sentiu incapaz de dizer qualquer outra coisa sem revelar seu verdadeiro parentesco com Raul. Ficaram em silêncio de novo e nesse momento bateram à porta outra vez.

— Outra visita? — Burt consultou o relógio. — Como você é procurada! Até às quatro da madrugada!

Lídia correu para a porta com a certeza de que só poderia ser a Sra. Pedraza.

— Srta. Lídia, sabe muito bem que é contra o regulamento desta pensão receber visita de um homem a esta hora da madrugada!



  • Peço desculpas por ter quebrado o regulamento, mas o Sr. Burt é uma pessoa muito especial, a senhora sabe...

  • Eu sei muito bem! — As narinas da Sra. Pedraza se dilataram e os olhos se arregalaram. — Chega! Eu já tolerei demais! Já passou da conta. Tenho que pedir para que desocupe o apartamento.

  • Desocupar o apartamento?

  • É, Lídia — disse Burt, aproximando-se dela. — Ir embora, você sabe.

— Isso mesmo — disse a Sra. Pedraza. — Quero que vá embora daqui. Eu fui muito paciente com você e você se aproveitou disso!

Lídia percebeu que Burt disfarçava o riso e virou-se para ele, furiosa.



  • Como se atreve a rir enquanto eu estou sendo posta na rua sem o menor motivo?

  • Sem motivo, não — disse a Sra. Pedraza, sem se preocupar em ser delicada. — Por receber muitas visitas de homens! Quero que saia amanhã até a hora do almoço!

  • Pode ficar tranqüila que eu vou até antes! — disse Lídia, fervendo de ódio. — Não fico mais um minuto aqui. É só o tempo de fazer as malas e arrumar as coisas. A senhora é muito injusta, tem uma mente suja e...

  • Pode ficar até amanhã à tarde, mas esse aí deve ir imediatamente!

A Sra. Pedraza falava com raiva, apontando para Burt.

  • Acontece que não recebo ordens de ninguém, eu dou ordens! — disse Burt. — E ainda não acabei o que tinha para dizer à Srta. Lídia.

  • Então vou chamar a polícia. Vocês estão quebrando o regulamento. As normas estão claramente escritas, lá embaixo, num quadro perto da entrada!

  • Não precisa chamar a polícia, eu vou embora. Posso terminar a conversa com a Srta. Lídia lá no quintal. Isso não é proibido, é? Há alguma norma escrita contra isso?

  • Não, no quintal não é proibido. Podem conversar lá, se precisam tanto!

Burt pegou Lídia pelo pulso e puxou-a para fora. Ela o seguiu sem protestar. Estava arrasada e desolada. Que dia! Não bastava tudo o que lhe acontecera, agora mais essa! Ser posta na rua por comportamento imoral! Que vergonha! Sentiu o olhar de reprovação da Sra. Pedraza, enquanto descia a escada com Burt.

Quando chegaram ao quintal, ele a conduziu para um canto mais reservado e sentaram-se num banco de pedra, sob uma palmeira. A brisa estava fresca e o perfume de rosas que pairava no ar era embriagador. O luar passava por entre as folhas tremulantes da palmeira, ora iluminando-os, ora deixando-os na sombra. Burt passou o braço pela cintura de Lídia e puxou-a para perto de si. Ela tentou se libertar, dele antes que fosse tarde demais, antes que ele percebesse o quanto estava emocionada.

— Burt, por favor, hoje o dia foi terrível para mim... não faça isso...

Mas ele puxou-a para mais perto.

— Se você está fazendo concessões, assim como a Sra. Pedraza insinuou, também quero a minha parte.


  • Ela é uma xereta mentirosa! Subitamente Burt caiu na risada.

  • Xereta! Não ouço essa palavra desde que era criança! Envolveu-a nos braços e beijou-a com ternura, no início, depois sedento e com ardor crescente. Segurou o rosto de Lídia entre as mãos e beijou-a repetidas vezes, fazendo derreter o coração dela e incendiando-a de desejo. Entre um beijo e outro, ela conseguiu esboçar um fraco protesto.

— Burt... aqui não; é um local público...

— Mas é um lugar público bastante reservado e são quatro horas da madrugada. Eu amo você, Lídia...

Burt abraçou-a de novo e começou a percorrer-lhe o corpo com as mãos, daquele modo lento e alucinante que ela já conhecia tão bem. Ah, se pudesse acreditar que ele a amava mesmo! Mas sabia que eram só palavras para ele conseguir o que queria. Sua mente recusava-se a entregar-se, mas seu corpo só queria pertencer a ele.

— Você usa essas roupas provocantes de propósito, não é, Lídia? — disse ele, com voz sôfrega. — Você me deixa maluco...

Ela o olhou bem nos olhos, enquanto a mão dele percorria o fecho do vestido, afastando o tecido sedoso e libertando os seios para receberem suas carícias. Então beijou-a de novo, entreabrindo-lhe os lábios com a leve pressão da língua.

— Está demorando muito hoje para desabotoar minha camisa, meu amor...

Seguindo a sugestão dele, Lídia procurou os botões e foi abrindo um por um devagarzinho, depois empurrou a camisa para os lados, expondo o peito à luz do luar. Então, com a ponta dos dedos, começou a traçar caminhos naquela pele macia e quente, enroscando os dedos de leve nos pêlos másculos, deixando Burt cada vez mais louco de desejo.

— Eu amo você, Lídia... — murmurou ele baixinho no ouvido dela e ficou, assim, até que sua respiração quente e ofegante deixou-a trêmula de desejo.

Lídia fechou os olhos e escondeu o rosto na curva do pescoço dele, não podendo mais suportar a excitação. Ele, entretanto, continuava a provocá-la, passando a ponta da língua na orelha dela, enquanto as mãos continuavam fazendo carícias que eram promessas do prazer que ainda viria. Ela sentiu que era impossível esperar mais. Então, com um movimento sutil dos ombros, fez cair o vestido, que estava completamente solto, depois tirou o sutiã e a calcinha e entregou seu corpo totalmente nu nas mãos sábias daquele homem.

Burt a recebeu com carinho e paixão, acariciando-a por inteiro, depois carregou Lídia nos braços, levou-a para um canto mais escondido do quintal e deitou-a na grama. Quando sentiu o corpo dele sobre o seu, um desejo lancinante e urgente tomou conta dela.

— Diga como você quer que eu faça, meu amor... Eu amo você... e quero que você sinta prazer... faço o que você quiser...

Um arrepio percorreu o corpo dela ao ouvir essas palavras ditas com voz arquejante, mas, ao mesmo tempo, isso serviu para fazê-la cair em si. Não podia dizer a ele o que estava querendo, não podia confessar o quanto o desejava! Não, não podia entregar-se assim! A razão tomou conta de novo e ela se reprimiu.

— O que houve, meu amor? Você parecia tão louca de desejo quanto eu... mas agora...

Lídia sentou-se abruptamente, empurrando-o.



  • Meu corpo está maluco de desejo, mas minha mente ainda não está pronta para aceitar... Não posso...

  • Diga o que você quer que eu faça, Lídia, diga, meu amor...

  • Deixe-me em paz, Burt, por favor. Não posso me entregar a você enquanto não tiver certeza de que o amo de todas as maneiras... de corpo e alma. Não seria bom para nenhum de nós dois.

Lídia afastou-se de Burt, sem olhar mais para ele, pegou o vestido e colocou-o de novo, cobrindo sua nudez.

CAPÍTULO XVI

Burt ficou contemplando, atônito, quando Lídia pegou sua roupa de baixo, que estava no chão, e foi saindo do quintal. Antes que ela chegasse ao portão, alcançou-a e segurou-a pelo braço, obrigando-a a ficar de frente para ele. Seus olhos, escuros como breu, faiscavam, e ele falou, por entre os dentes:



  • Pensa que vai fugir de mim assim tão facilmente?

  • É exatamente o que eu vou fazer, Burt. Aliás, era o que eu já devia ter feito muito antes!

  • Conheço um ditado bastante vulgar sobre mulheres que gostam de provocar e se fazer de difíceis!

Lídia puxou o braço, num gesto brusco, para se libertar da mão que a segurava com força. Provavelmente ia até ficar com uma mancha roxa.

  • Eu não estou me fazendo de difícil.

  • Ah, é? Então, o que significa isso?

Ela não conseguia explicar o que estava sentindo, qual era seu conflito, por isso disse apenas:

— Deixe-me ir embora, Burt...

Ele largou o braço dela como se tivesse repulsa em tocá-la.


  • Vá embora, então, se é isso que você quer. Não vou impedi-la, mas ouça uma coisa: nós vamos voltar para Key West no primeiro vôo que houver à tarde.

  • Você vai para Key West, porque eu não vou. Ainda tenho que terminar um trabalho aqui.

  • Não sei que trabalho é esse, mas uma coisa eu sei: você não vai receber mais nem um centavo da Dive Boys por ele. Agora, fica a seu critério: se você dá valor ao seu emprego em Key West, esteja no aeroporto à tarde, pronta para embarcar. Você terá tempo de sobra para fazer as malas e resolver... qualquer questão pendente.

  • E se eu não embarcar nesse vôo?

— Então estará despedida da Dive Boys. A escolha é sua.

— Você é mestre em dar ultimatos, não? — Lídia nunca se sentiu tão irritada e revoltada em toda a sua vida. Por que obrigá-la a uma decisão dessas? Por que essa pressa de viajar? Ela estava cansada, não tinha dormido... Olhou para o horizonte e viu que o sol começava a nascer. — Quer que eu faça tudo isso e esteja pronta para sair de Sevilha em menos de dez horas?



  • É claro. É tempo mais do que suficiente! A Sra. Pedraza lhe deu muito menos tempo! E, se não me engano, Júlio também lhe deu um ultimato! Aliás, até parece que você está atraindo esse tipo de atitude ultimamente, não é? Como é? Vai estar no aeroporto ou não?

  • O que você acha?

Burt contemplou-a por instantes, depois sorriu com desdém e arrogância.

— Eu tenho certeza de que você vai estar lá. E com essas palavras, virou-se e afastou-se.

Lídia pensou que fosse explodir. Tinha vontade de sair gritando e socando as coisas. A pior coisa agora era ter que entrar de novo na pensão com a roupa de baixo na mão! Como faria? Escondeu-se num canto do quintal e vestiu depressa as peças íntimas que havia tirado num momento de arrebatamento. Burt sempre conseguia fazê-la perder a cabeça! Depois correu para dentro da casa, em direção ao seu apartamento. Ouviu a Sra. Pedraza esbravejando atrás dela, mas não se virou para olhá-la. Que mulher intrometida! Onde se viu ficar esperando por ela, vigiando-a como se fosse uma colegial!

— Suma daqui até a hora do almoço! — gritou a Sra. Pedraza.

Lídia ignorou-a. Entrou depressa em seu apartamento e fechou a porta. Atirou-se na cama e desatou a chorar. Estava se sentindo encurralada demais. Todo o mundo cobrando decisões suas! Era demais! Em poucas horas, três pessoas lhe haviam dado ultimatos. O da Sra. Pedraza não podia ignorar de jeito nenhum. Precisava se controlar, arrumar a bagagem e preparar-se para sair da pensão na hora que a mulher determinara.

Mas, o que fazer com Júlio? E com Burt? O que iria decidir? Um queria que ela ficasse, o outro queria que ela partisse. Júlio estava lhe oferecendo casamento, Burt apenas um emprego e muita arrogância e hostilidade. Colocada assim nesses termos, a escolha parecia bastante fácil. Deveria escolher estabilidade, amor... Júlio.

Contudo não era assim tão simples, se pensasse melhor. Será que Júlio a amava mesmo? Ou amava a Espanha e casar-se com ela seria apenas conveniente para ele? Pela primeira vez Lídia pensou nele como sendo basicamente egocêntrico. Tal constatação deixou-a chocada. Mas, de fato, era verdade. Tudo o que Júlio fazia, fazia para

si próprio. É certo que ele a havia ajudado bastante com o trabalho no arquivo, mas fizera isso apenas porque queria a companhia dela. A vontade dele vinha sempre em primeiro lugar. Tinham feito os passeios que ele queria, visitaram os lugares que ele escolhera, jantaram onde ele quisera. Nem mesmo com Cláudia tinha consideração, pois não hesitava em quebrar uma promessa, apesar de saber o quanto ela ficaria triste e decepcionada, só porque ele preferia outro programa. Júlio sempre conseguia o que queria manobrando as pessoas sem que elas percebessem, embora acabassem se magoando. Desejava que as pessoas gostassem dele e conseguia isso. Até Lídia gostava dele. Ele era calmo, não discutia, nem impunha as coisas com arrogância. Acabava envolvendo as pessoas sem que elas se dessem conta. Mas será que a vida com ele seria sempre suave e agradável? Será que esse tipo de pressão sutil que ele exercia não era pior? Será que isso não acabava desgastando o relacionamento?

E quanto a Burt? Ele tinha um forte magnetismo, que a fazia perder o controle sempre. E, apesar de ter dito que a amava, ela não conseguia acreditar. Devia ter dito isso só para possuí-la. Talvez dissesse a todas, para que caíssem na armadilha. Senão, por que não havia sequer insinuado o casamento? Ele provavelmente não queria se comprometer, é claro!

Lídia suspirou, enxugou as lágrimas e virou de bruços, escondendo a cabeça debaixo do travesseiro, para tapar a luz do dia que entrava quarto adentro. Queria escuro. Tinha a impressão de que assim apagaria tudo o que estava sentindo.

Afinal resolveu levantar-se e fechar as janelas e a porta da sacada. Era melhor dormir um pouco, nem que fosse só uma ou duas horas. Com o quarto na penumbra, voltou para a cama, deitou-se e adormeceu de imediato. Acordou num sobressalto e olhou para o relógio. Nove horas da manhã! A vontade era de dormir muito mais. Sentia os olhos ardendo e estava meio zonza, porém levantou-se e abriu as janelas, deixando entrar o sol.

Apesar de estar com sono e cansada, sentia-se mais calma. Ao menos já sabia o que iria fazer. Pegou o telefone e ligou para Cláudia. Felizmente foi ela mesma quem atendeu.



  • Aqui é Lídia. Você está ocupada, Cláudia?

  • Estou tendo aula.

  • Então vou ser rápida, não quero atrapalhar. Você pode ir se encontrar comigo no aeroporto, para almoçarmos juntos?

  • Claro, mas por quê?

  • Porque estou indo embora de Sevilha no primeiro vôo da tarde e não queria ir sem me despedir de você.

  • Mas por que não passa por aqui, antes de sair? Não é mais fácil?

  • Por motivos particulares, Cláudia. Por favor, vá me encontrar.

— Júlio sabe que você está indo embora? Lídia hesitou e resolveu deixar isso sem resposta.

  • É um almoço para comemorarmos seu aniversário e sendo lá no aeroporto fica mais fácil para mim. Tome um táxi que eu pago quando você chegar lá. Está bem?

  • É claro, Lídia. Nunca almocei no aeroporto. A que horas devo chegar?

  • Uma hora está bem?

  • Está. Até mais tarde, então.

Lídia desligou, sentindo que se saíra bem. Júlio devia estar no arquivo, mas iria voltar para almoçar em casa. Cláudia sem dúvida contaria a ele que ela partiria no vôo da tarde. Se ele a amasse de verdade, se quisesse mesmo casar-se com ela, iria tentar impedir que embarcasse, não era assim? No fundo do coração, entretanto, Lídia sabia que ele não apareceria. Mas... e se ele aparecesse?

Ficou admirada do pouco tempo que levou para arrumar as malas. Não havia acumulado muitas coisas, porque não quisera perder tempo fazendo compras. Se soubesse que iria embora tão de repente, teria comprado algumas coisas. Ao menos algumas lembrancinhas, presentes para Raul! Mas agora era tarde demais para pensar nisso. Vestiu-se para viajar, escovou os cabelos e aplicou cuidadosamente um pouco de maquilagem para disfarçar o abatido. A aparência melhorou, mas nada podia esconder totalmente seu cansaço. Depois de tudo pronto, ela preparou um chá e tomou. Ao meio-dia em ponto, a Sra. Pedraza bateu.



  • Já está pronta para sair? — Os olhos de coruja percorreram o apartamento como se quisesse se certificar de que estava tudo em ordem.

  • Estou pronta, sim, já chamei até um táxi.

  • Ótimo. Lamento muito ter pedido para você ir embora.

  • E eu lamento estar indo embora assim.

Com essas palavras, Lídia pegou as malas e foi saindo. O que mais poderia dizer? Convidar a Sra. Pedraza para visitá-la em Key West? Mas nem sabia qual seria seu próximo endereço e, além disso, nunca mais queria ver aquela mulher!

  • Para onde vamos? — perguntou o motorista, colocando as malas no táxi.

  • Para o aeroporto, por favor.

Mal ela se acomodou no banco, o motorista saiu a toda velocidade.

  • Não tem pressa — disse ela. — Ainda tenho muito tempo até a hora de embarcar.

  • Sim, senhorita.

O motorista sorriu para ela pelo espelho retrovisor, mas não diminuiu a velocidade. Cada vez que ele fazia uma curva, Lídia se segurava bem para não tombar e suspirou aliviada quando afinal chegaram ao aeroporto.

Ela entrou e foi direto ao balcão para deixar a bagagem, mas só quando o funcionário pediu a passagem é que ela se lembrou de que não tinha.

— O senhor pode fazer o favor de ver se há reserva para dois em nome de Burton Adburee?

O funcionário consultou a lista de reservas e balançou a cabeça.



  • Esse nome não consta da lista.

  • Obrigada.

Lídia, então, levou as malas para um desses armários automáticos e trancou-as lá. Será que Burt se esquecera de fazer reserva. Isso não era próprio dele. O que teria acontecido? Pena que Cláudia não tivesse ido com ela; aproveitando o mesmo táxi. Mas também a Sra. Pedraza praticamente a havia chutado para fora da pensão e ela preferia não ter que explicar isso à mocinha. E depois, era preciso que Cláudia estivesse em casa quando Júlio fosse almoçar. Do contrário, como ele iria ficar sabendo que ela estava de partida?

Lídia foi até a lanchonete, sentindo-se mais só e desamparada do que nunca. Até mesmo o som da língua espanhola, que ela sempre achara melódico e suave, parecia-lhe naquele momento agressivo e desagradável. Já estava tomando a terceira xícara de café quando Cláudia chegou e, respondendo a seu aceno, passou por entre as mesas e sentou-se a seu lado.



  • Feliz aniversário, Cláudia. — Lídia entregou a ela o embrulho cor-de-rosa. — Este é o seu presente.

  • Ah, obrigada! Como você é genial! Tudo isso para mim! Almoço e ainda presente! — E começou a abrir o pacote sem rasgar o papel.

Enquanto isso, Lídia ficou vigiando a porta de entrada da lanchonete, pensando que talvez Júlio tivesse ido junto com a irmã e a tivesse deixado entrar sozinha, primeiro. Mas Júlio não aparecia e Lídia sentiu alguma coisa morrer em seu íntimo.

  • Ah, que maravilha! Um livro de fotografia! — Cláudia abriu a capa, eufórica. — E em inglês! Lídia, você é um anjo! Era exatamente o que eu queria!

  • Que bom que você gostou!

  • Eu simplesmente adorei!

Nesse momento, a garçonete se aproximou e entregou o cardápio a elas, para que escolhessem os pratos.

  • O que você gostaria de comer, Cláudia?

  • Eu quero uma salada completa e batatas fritas.

  • O mesmo para mim, por favor — pediu Lídia.

  • Estou com saudades da comida da minha terra — disse Cláudia, depois que a garçonete se afastou. — Ah, como eu gostaria de estar indo embora com você!

  • Cláudia, não fique assim! Procure aproveitar sua estada aqui. O tempo vai passar mais depressa e, algum dia você vai até sentir saudade.

  • Você deve estar brincando! — Cláudia suspirou fundo. — Sabe que Júlio não vai mais me levar para jantar hoje, como tinha prometido?

Lídia tentou fingir surpresa.

  • Quando você conversou com ele pela última vez? Quem sabe...

  • Falei com ele agora há pouco, antes de sair de casa. Disse que vinha aqui encontrar você e ele me deu a péssima notícia sobre o jantar. Disse que havia um cantor de ópera na cidade que desejava ver e isso naturalmente é muito mais importante para ele do que o meu aniversário!

Então Cláudia já havia contado a ele! Júlio estava sabendo que ela ia embora e nem se importara! Lídia precisou conter as lágrimas.

— Tenho certeza de que depois ele vai compensar você por isso, Cláudia... Não fique triste.

Enquanto almoçavam Lídia fazia esforço para manter uma conversa animada. Terminada a refeição, acompanhou Cláudia até a entrada do aeroporto, colocou-a num táxi e pagou a corrida antecipadamente.


  • Feliz aniversário e tudo de bom para você, Cláudia! Talvez a gente ainda se encontre algum dia.

  • Tenho certeza que sim, Lídia. Boa viagem.

O táxi se afastou com Cláudia... e nada de Júlio aparecer! Lídia estava decepcionada e ferida em seu orgulho. Ele dissera que a amava, que queria se casar com ela, mas no momento de agir havia falhado! Por que, então, tinha dito aquilo tudo?

Já estava quase na hora do vôo. Lídia tirou as malas do armário e caminhou para o portão de embarque, sem saber bem o que fazer. Felizmente Burt estava lá. Viu-o de longe. Estava como sempre elegante e bem vestido e não parecia ter passado a noite em claro. Ao chegar mais perto, percebeu apenas que o olhar dele estava sombrio. Sem se falarem, ele pegou as malas dela e entregou-as no balcão. Não demonstrou a menor surpresa ao vê-la. Ele realmente tinha certeza de

que ela iria, não duvidara um só minuto. Só então lembrou-se de que ele devia ter reservado as passagens em nome da Dive Boys. Sentia-se como um fantoche manejado por Burt. Queria ignorá-lo. Estava mesmo cansada demais para sentir qualquer outra coisa.

Pouco depois anunciaram o vôo. Entraram no avião e ela se acomodou no lugar perto da janelinha. Depois relaxou a tensão. A falta de sono durante a noite começou a deixar-lhe as pálpebras pesadas. Ajustou o assento inclinando o encosto para trás, pediu um travesseiro e uma manta para a aeromoça e preparou-se para dormir.

Num certo momento acordou com a cabeça no ombro de Burt e de mãos dadas com ele, mas ainda estava cansada e sonolenta demais para se importar com isso. Naquele momento nada importava, só o que queria era dormir. Dormir e esquecer tudo. .




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