Guerra do paraguai



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belsimonato.wordpress.com HISTÓRIA

Profª Isabel Cristina Simonato






GUERRA DO PARAGUAI
Cartas do front, por Alice Melo1

Desconhecidos por especialistas, documentos do Museu Imperial revelam detalhes

sobre o cotidiano da guerra

Cartas de Solano Lopez no acervo do Museu Imperial


O clima era tenso aos pés da cordilheira paraguaia em agosto de 1869. A guerra estava praticamente ganha, mas por desejo de D. Pedro II, o exército brasileiro seguia em busca da cabeça – de preferência viva – do “tirano” Francisco Solano López. Às vésperas da última grande batalha do conflito, a de Campo Grande, um impaciente Gastão de Orléans, o conde d’Eu, administrava seus homens e se mostrava insatisfeito por não ter surpreendido o inimigo em Ascurra, quartel-general dos perseguidos. A caça continuava. No dia 14 daquele mês, o conde d’Eu escreveu ao general brasileiro José Auto: “Nada sei das forças do comando de V.S. depois que V.S. foi acampar do outro lado do arroio Pirayú com o general Mitre. Queira pois V.S. me remeter com a máxima brevidade um mappa das mesmas forças com a especificação das pontes em que se achão.

Desenhado à mão, um mapa sem datação e autoria, arquivado no Museu Imperial, em Petrópolis, esboçou uma suposta rota de fuga que seria tomada por López após a invasão de Ascurra, além de indicar o posicionamento de trincheiras inimigas e acampamentos aliados ao redor. A carta é um dos 30 documentos cartográficos que ficaram esquecidos por estudiosos por pelo menos três décadas. Neste ano, passaram por restauro e, em setembro passado, tornaram-se parte de um dossiê iconográfico e cartográfico sobre a Guerra do Paraguai, apresentado como candidato ao título da Unesco de Memória do Mundo de América Latina e Caribe (Mowlac), junto a outras 372 peças de oito instituições brasileiras, como os museus da Marinha, do Exército e do Itamaraty. Além disso, por trás da pesquisa de imagens realizada no museu de Petrópolis, foi feito um levantamento e uma leitura minuciosa de fontes textuais relacionadas ao tema: a equipe chegou a um número aproximado de 3 mil documentos, produzidos entre 1864 e 1871, armazenados no arquivo da Casa Imperial do Brasil. Entre o material há fontes inéditas aos olhos de muitos especialistas no assunto, como duas pastas com dez cartas escritas por Solano López e um diário redigido pelo conde d’Eu sobre o cotidiano no campo de batalha.

As raridades estão disponíveis ao público desde a década de 1940, segundo inventário realizado à época, tanto no Museu Imperial quanto na Biblioteca Nacional, e integram um acervo de cerca de 80 mil documentos que pertenciam à família imperial, doados pelos descendentes após a morte dos herdeiros diretos de D. Pedro II. A única diferença é que, até recentemente, os arquivistas não tinham sistematizado o conteúdo por grupo temático. Durante 70 anos, o museu não parece ter chamado a atenção dos pesquisadores interessados na Guerra da Tríplice Aliança: ele é preterido diante dos acervos monumentais das Forças Armadas, do Arquivo Nacional e da Biblioteca Nacional.

O museu fica fora de rota de pesquisa porque a maioria dos arquivos se concentra no Rio e a documentação é enorme”, pondera Francisco Doratioto, professor da Universidade de Brasília e autor de Maldita Guerra (2002), supondo que o fato de a instituição se localizar na região serrana fluminense possa reduzir o público que o frequenta. Braz Batista, da Universidade Federal do Tocantins, que baseou sua tese de doutorado na atuação do conde d’Eu no conflito, explica que o genro de D. Pedro II era um homem “muito curioso” e que escreveu muitas cartas e relatórios durante o ano em que permaneceu no Paraguai. Talvez por isso, o diário tenha passado despercebido. Victor Izecksohn, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, também especialista no tema, anima-se: “O documento pode ajudar a conhecer a opinião do conde d’Eu sobre outros comandantes que estavam no Paraguai. Sabe-se que ele era muito ligado a Osório, tinha uma rivalidade com Paranhos [visconde do Rio Branco], e que, no final da guerra, estava meio enlouquecido. Mas o que ele pensava não sabemos muito bem”.

O conjunto de 529 páginas escritas em língua francesa conta a versão de Gastão de Orléans sobre o dia a dia do front. O genro de D. Pedro II inicia os relatos em março de 1869, a bordo do vapor Alice, rumo ao Paraguai. Durante a viagem, de maneira reservada, ele descreve a paisagem e lembra a terra que deixou para trás. O tempo passa e as condições de vida pioram, principalmente quando se embrenha com suas tropas pelo interior do Paraguai no encalço de López. Ele relata a estrutura dos acampamentos, as picuinhas entre soldados, o estado catastrófico da população local, maltratada pela falta de comida e pela violência do conflito. Além disso, anota conselhos dados por altos oficiais, como indicações do marquês de Herval (1808-1869), homem que considerava de péssimo humor, apesar de competente. Em 15 de agosto, o conde diz ter recebido o pedido de demissão do general. “À tarde, eu recebi um ofício do Herval, em que ele me pediu outra dispensa de serviço, baseado em seu estado de saúde, agravado pelas marchas que não lhe permitiam mais ser útil à causa pública”. Durante a batalha de Avaí, no ano anterior, Herval, mais conhecido como general Osório, havia levado um tiro no rosto e, mesmo assim, seguiu em combate. Ele morreu dois meses depois do seu afastamento.

Um pouco antes de tomar conhecimento da condição do marquês de Herval, o conde d’Eu confidencia que vive momentos de tristeza, e que prefere se manter isolado. “O vilarejo [de Caraguatay] era o mais nojento em que eu havia acampado, apesar de estar no meio de esplêndidas laranjas e muitas flores, e eu passei o período de forma muito melancólica. No entanto, eu não perdi a cabeça, mas me propus a não tomar mais conhecimento de ninguém”.

O historiador canadense Roderick Barman, professor emérito da Universidade de Toronto e profundo conhecedor do Arquivo Grão Pará, também do Museu Imperial, comenta que o Arquivo da Casa Imperial “não tem sido usado de maneira adequada, muito em decorrência da natureza monarquista”. Segundo ele, os historiadores simpáticos ao republicanismo veem com reservas o fundo, o que faz com que não seja tão explorado quando o assunto escapa do âmbito da vida privada no Império. Por isso, talvez, não seja comum a ideia de procurar no catálogo da coleção por cartas de Solano López. Uma verdadeira surpresa para os especialistas e um capítulo à parte nesta história. Por não terem sido estudadas, não se sabe, por exemplo, como elas foram parar ali; provavelmente, as cartas do tirano estavam guardadas entre a documentação privada do conde d’Eu, relacionada aos anos em que esteve no teatro da guerra.

O conjunto de correspondências redigidas em 1869 por López contém dois envelopes timbrados, com cera vermelha e a insígnia do governo paraguaio. Já na papelada referente ao ano de 1865, lê-se, em letra do conde d’Eu: “Cartas de Lopes relativas a Lanus, entregues pelo [Nicolas-Antoine] Taunay em 5 de maio de 1869”. Neste conjunto encontra-se a minuta de uma carta dirigida ao então presidente do Uruguai, Venáncio Flores.

Em julho daquele ano, López escreveu ao comandante paraguaio Bernal que via a força do inimigo reduzida, mas pediu que o oficial o avisasse com rapidez caso os aliados invadissem a cidade próxima de Chauria, para que pudesse fugir. E lamenta: “Tenho muitas más notícias da marcha do tenente Nemecio Nuñez com seus canhões, porque seguiu muito lentamente e não creio que a esta hora tenha alcançado Piribebuy”. A espera ansiosa por notícias, enquanto se distanciava do confronto direto, acompanha outras correspondências. Em agosto, no dia seguinte à batalha de Campo Grande, na qual centenas de velhos e crianças paraguaios foram massacrados sem piedade pelos aliados, López se mostrava desinformado. Ao coronel Hermoza escreveu: “Diga ao mordomo que venha ver-me. Suponho que não haja novidade no Campo inimigo, já que são 11 horas e, mesmo assim, não recebi qualquer aviso”.

Preso pelas forças brasileiras em 1870, o general paraguaio Francisco Isidoro Resquín, que acompanhou López por toda a fuga, foi levado à região de Humaitá, onde prestou depoimento – transcrito e armazenado no Arquivo da Casa Imperial. No relato, ele relembra o rumo tomado, na ocasião, pela cúpula do exército paraguaio: “A tropa estava cansadíssima; não tendo comido e nem dormido. O segundo corpo, porém, que vinha muito pesado, foi alcançado pelo exército brasileiro no dia 16 e completamente derrotado. Perdeu não somente a sua artilharia, como também o parque geral do exército, víveres, arquivos”.

Principalmente no fim da guerra, muito material oficial foi saqueado, destruído ou incorporado pelo governo brasileiro como troféus de guerra. Em 1870, por exemplo, foram confiscados 50 mil documentos do Arquivo Nacional de Assunção. O conjunto, chamado de Coleção Visconde de Rio Branco, foi doado à Biblioteca Nacional após a morte do visconde, mas devolvido, em 1980, pelo general João Figueiredo ao presidente vizinho Alfredo Stroessner, após terem sido microfilmados. A ação visava estreitar as relações diplomáticas com o Paraguai e incluiu o retorno da tão reclamada espada do mariscal, assim como os uniformes de batalha de López, conquistados após sua morte.

Profundo conhecedor da documentação devolvida pelo governo brasileiro, o advogado paraguaio Martín Almada, ex-funcionário da Unesco, tem certeza de que o Ministério das Relações Exteriores do Brasil ainda possui documentos de Solano López em seus arquivos. Atualmente, realiza uma campanha junto à Unesco pela devolução destes arquivos ao Paraguai. Segundo ele, que foi torturado durante a ditadura de Stroessner, a coleção que estava na BN - e que foi devolvida - não contém material paraguaio que trata dos preparativos do que ele chama de a “Guerra da Tríplice Infâmia”. “Considero que a Unesco pode fazer com que as autoridades brasileiras entendam a necessidade de devolver as peças documentais que não lhes pertencem, e também aquelas de que se apropriaram ilegitimamente e, dessa maneira, tentaremos restaurar a paz social e moral”.

O Itamaraty informa que só há em seu arquivo material produzido no Brasil, todos abertos ao público após promulgada a Lei de Acesso à Informação (2011). Ricardo Salles, especialista em História Militar e professor da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, observa: “Essa documentação que era tida como secreta, quando os arquivos foram abertos, não tinha nada demais. Claro que o material é muito interessante, mas não há um grande problema, principalmente em relação à demarcação de fronteiras, como se imaginava”.

Mas, destruída pela guerra, a população paraguaia ainda hoje tem dificuldades de escrever o seu passado. Nos últimos anos tem crescido um reclame pela devolução de material de cunho histórico. A historiadora Liliana Brezzo, membro da Academia Paraguaia de História, diz que o fenômeno “está ligado aos processos de redemocratização e integração nacional”, apontando para a “necessidade de se divulgarem materiais que contribuam para ampliar o conhecimento e desarticular um repertório de imagens com que a historiografia havia caracterizado monoliticamente a realidade sociopolítica paraguaia”. Este é o caso do canhão El Cristiano, exposto no Arquivo Histórico Nacional, no Rio de Janeiro, cuja devolução chegou a ser anunciada pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2010. A arma foi feita pelos paraguaios com o metal fundido dos sinos das igrejas de Assunção.


Capa do diário escrito em língua francesa pelo conde d'Eu entre março de 1869 e abril de 1870.


O artefato é um troféu de guerra, não um documento histórico. O pesquisador do Iphan Adler Homero explica que a devolução é uma questão diplomática, mas a exposição destes troféus é comum em ambos os países: “O Paraguai mesmo tem um navio brasileiro afundado antes do conflito, o Anhabahy. Foi recuperado posteriormente e está exposto [na cidade de Vapor Cué]”. Para ele, a documentação que há hoje no Brasil, produzida no Paraguai naquela época, é de origem particular. “Era muito comum durante a guerra soldados levarem souvenirs para casa”. As cartas de López armazenadas no Museu Imperial, por exemplo, não teriam chegado lá oficialmente pelas mãos do governo.

Arquivista da instituição, Neibe Machado reforça o caráter privado desse material: “Esses documentos foram para o exílio com a família imperial, portanto, passaram pelo crivo da República. Naquela época, o que era público foi passado a outras instituições, o que era particular foi com eles para a Europa”. Nos anos 1930, o material retornou e foi doado ao recém-criado Museu Imperial. Independente da origem do material do fundo, há muito o que ser estudado em relação aos últimos anos da guerra. Os arquivos estão abertos.



Publicado pela Revista de História da Biblioteca Nacional, Outubro 2013.

1 Alice Melo é pesquisadora da Revista de História da Biblioteca Nacional.





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