Guia de leitura de reinaçÕes de narizinho de monteiro lobato



Baixar 23.06 Kb.
Encontro20.07.2016
Tamanho23.06 Kb.


GUIA DE LEITURA DE REINAÇÕES DE NARIZINHO DE MONTEIRO LOBATO

Maria Augusta H. W. Ribeiro1

Jamille Said Werneck Zanon2

Resumo


A difusão da literatura infantil lobatiana esbarra, hoje, no desconhecimento de obras da literatura universal com as quais ele dialoga, particularmente, em Reinações de Narizinho. Considerada a importância de Lobato, fundador da literatura infantil brasileira, e de Reinações de Narizinho marco inaugural dessa fundação, tem-se nítida a relevância desta obra e a urgência de seu resgate. Para tanto propõe – se a elaboração de um guia de leitura de Reinações de Narizinho como instrumento capaz de recuperar esta obra para as gerações presentes e futuras de crianças e adolescentes brasileiras, com base no diálogo a ser estabelecido entre leitor/obra/obras, uma experiência de leitura, tal como a concebe Larrosa, pensando-se na questão da formação.
A elaboração de um guia tem sempre por finalidade, como o nome diz, conduzir os leitores a informações necessárias ao conhecimento de um determinado assunto. É, portanto, considerada uma obra de referência.

O interesse pela montagem de um guia para a leitura de Reinações de Narizinho de Monteiro Lobato, originou-se quando assistia, como aluna, às aulas da disciplina optativa: Uma releitura de Narizinho Arrebitado de Monteiro Lobato, oferecida, no segundo semestre de 2002, no curso de Licenciatura em Pedagogia da Unesp – Campus de Rio Claro, pela Profª. Dra. Maria Augusta H. W. Ribeiro, hoje, minha orientadora na monografia do Trabalho de Conclusão de Curso e no Projeto de Iniciação Científica financiado pela FAPESP (Abril/2003 – Abril/2004), ambos com o mesmo tema, e o título: Desvendando um mundo encantado: Guia de Leitura de Reinações de Narizinho.

Na primeira aula, a professora organizou uma exposição de livros de Monteiro Lobato – obras infantis e para adultos – e de livros sobre o escritor, além de jornais de diferentes épocas com artigos sobre o autor e suas obras. Reinações de Narizinho foi lido em sala de aula pelos alunos, com pesquisas e comentários sobre as histórias nele referendadas por Monteiro Lobato.

A coletânea do material apresentado neste curso é a gênese deste guia. Tal riqueza de conteúdos requer uma pesquisa contínua e aprofundada não só sobre as obras constantes em Reinações, mas também quanto ao leitor, à leitura, à intertextualidade, à literatura infantil e ao próprio autor da obra, Monteiro Lobato.

Um primeiro levantamento dos títulos presentes na obra pareceu-nos mapear a extensão e a diversidade de histórias que a compõem. Lobato utiliza, como recurso intertextual, ao longo de todo o livro, o dialogismo e a interação dos personagens por ele criados: Lúcia, Pedrinho, Emília, Visconde de Sabugosa, Marquês de Rabicó, Tia Nastácia e Dona Benta com os protagonistas dos outros textos inseridos na obra. Assim seus personagens dialogam com os personagens dos contos de fada europeus que tem sua origem anônima (Dona Carochinha ou Dona Baratinha, Pequeno Polegar, Bela Adormecida, Gato de Botas e o Marquês de Carabás, Branca de Neve e os Sete Anões, Cinderela ou Gata Borralheira, Capinha Vermelha ou Chapeuzinho Vermelho e Rosa Branca e Rosa Vermelha, Hansel e Gretel ou João e Maria), e com as história já produzidas por escritores, como Peter Pan e o Capitão Gancho e Wendy de Berry, Barba Azul, Soldadinho de Chumbo, Alfaiate Valente, Patinho Feio de Andersen, Alice de Wonderland ou Alice no País das Maravilhas de Carroll ou com as figuras da mitologia greco-romana (Perseu, Teseu, Minotauro e Cavalo de Tróia), ou, ainda, com os personagens dos contos orientais d’As Mil e Uma Noites (Xerazade, Príncipe Codadad e Ahmed, Pescador e o Gênio, Cavalo Encantado, Sindbad, o Marujo, Pássaro Roca, Ali Babá e os Quarenta Ladrões e Morgiana, Aladim e a Lâmpada Maravilhosa). Tomam conhecimento das fábulas O Lobo e o Cordeiro, A Cigarra e a Formiga, O Leão e o Ratinho, A Raposa e o Corvo, Os Animais e a Peste e A Menina do Leite e contracenam com seus figurantes, em sua maioria animais. Das peças teatrais, cita duas O Fantasma da Ópera (Gaston Leroux – 1911) e O Pássaro Azul (Maurice Maeterlinck - 1911). Leva os seus personagens a um passeio pelo País das Maravilhas, local onde encontram dois fabulistas: Jean de La Fontaine e Esopo. Ao longo da narrativa são citados os coletores de histórias: Charles Perrault e os Irmãos Grimm e o escritor Hans Christian Andersen. Das obras clássicas cita: Aventuras de Sherlock Holmes (Arthur Conan Doyle - 1892) e Raggedy Ann (Johnny Gruelle). Dos personagens cinematográficos importantes à época, destaca Tom Mix e o Gato Félix, este último com audiência até os dias atuais de seus desenhos animados (Cartoon Network). Entrelaça com a história do Sítio, as Aventuras do Barão de Munchausen (G. A. Burguer - 1786).

Ao estabelecer essas pontes entre as narrativas, Lobato faz uso de um recurso literário – a intertextualidade – de valor fundamental na nossa pesquisa para a compreensão da dinâmica da obra, uma vez que para Laurent Jenny, (1979,p.10) “As obras literárias nunca são simplesmente memórias – reescrevem as suas lembranças, influenciam os seus precursores, como diria Borges. O olhar intertextual é então um olhar crítico: é isso que o define.”

O olhar de Monteiro Lobato, é bem esse olhar crítico, e, portanto, intertextual, o qual- lhe possibilitou criar uma literatura infanto – juvenil para o público brasileiro, capaz de ensinar, interessar e divertir, fundindo-a com a nossa tradição folclórica e cultural, na invenção do Sítio do Picapau Amarelo – realidade ficcional com ambientação predominantemente rural. Essa literatura por ele iniciada era, portanto, muito diferente dos primeiros textos infantis que chegavam até nós, traduzidos por Figueiredo Pimentel, como as Histórias do Arco da Velha e as Histórias da Baratinha, entre outros, publicados no fim do século XIX e início do século XX, os quais se ambientavam, na maior parte das vezes, em cenários europeus que, embora também enfocassem o campo, não correspondiam à nossa realidade.

A constatação dessa intertextualidade leva-nos a uma preocupação com o leitor e com a leitura da obra. Assim, a primeira questão que nos ocorreu foi – O leitor do século XXI conhece todas as histórias com as quais Monteiro Lobato tece o tecido literário desta obra?

É ainda em Jenny (1979, p. 21) que nos apoiamos:
O que caracteriza a intertextualidade é introduzir a um novo modo de leitura que faz estalar a linearidade do texto. Cada referência intertextual é o lugar duma alternativa: ou prosseguir a leitura, vendo apenas no texto um fragmento como qualquer outro, que faz parte integrante da sintagmática do texto – ou então voltar ao texto-origem, procedendo a uma espécie de anamnese intelectual em que a referência intertextual aparece como um elemento paradigmático “deslocado” e originário de uma sintagmática esquecida.

A segunda caracterização de intertextualidade – a volta ao texto-origem – é que subsidiou a construção deste Guia. Propusemo-nos, então, a pesquisar os textos-origem, na medida do possível, para estudá-los quanto a sua gênese, o seu enredo e suas diferentes versões compondo com eles o Guia de Leitura, uma forma de exemplificar as palavras de Kristeva (1979,p.14) quando comenta que: A intertextualidade designa não uma soma confusa e misteriosa de influências, mas o trabalho de transformação e assimilação de vários textos, operado por um texto centralizador, que detém o comando do sentido.

O texto centralizador neste caso é Reinações, que transforma e assimila os textos resgatados por Lobato.

Na escrita intertextual de Reinações, Lobato elenca contos, mitos e fábulas, já enumerados anteriormente, que perpetuam o encantamento por sua obra, nos exigindo um estudo aprofundado sobre a essência destas formas literárias para compreendermos seu estilo, semelhanças e diferenças.



Em meio a este estudo podemos afirmar que embora marcadas por fortes elementos de nacionalidade,como dito anteriormente , Reinações de Narizinho consegue dialogar de forma intensa com a literatura infantil universal. Este aspecto, em que pese enriquecer a amplitude da contribuição de Lobato para sucessivas gerações de crianças até por volta do terceiro quartel do século XX, hoje torna-se um elemento de entrave à compreensão da obra lobatiana, porque muitas das histórias nela referidas perderam-se ao longo da centúria passada.

Logo, resgatar essas histórias significa recobrar a importância de Lobato no concerto da literatura infantil brasileira, garantindo-lhe permanência na formação de novas gerações de leitores.

Pretendemos, então, proporcionar ao leitor de Reinações de Narizinho, o acesso as histórias citadas e ao seu contexto, tornando-o capaz de melhor entender a obra proporcionando-lhe uma amplitude de conhecimento sobre as narrativas que compõem a história da humanidade, enriquecedora em qualquer idade e para qualquer leitor.

Coletamos, então, dados sobre cada história referendada: origem, autor, data, contexto histórico, outras versões das obras, atuais, escritas ou em outro meio de comunicação, atestando a validade da indicação da mesma por Monteiro Lobato. Em seguida será elaborada a sinopse de cada história que comporá este guia de leitura.

A possibilidade de resgate de todos esses textos, converte-se em oportunidade rara para se garantir, efetivamente, o diálogo dos diferentes planos que constróem a intertextualidade da obra lobatiana.

Temos assim, como objetivo principal deste trabalho, elaborar um Guia de Leitura didático das histórias que compõem Reinações de Narizinho,assumindo uma função mais relevante pois propicia, aos leitores em geral e, em particular, aos professores de Língua Portuguesa, o acesso a informações sobre as narrativas e ao texto de cada uma delas, o que lhe permite trabalhar a obra tanto no sentido horizontal como no vertical, em plenitude, proporcionando um conhecimento acerca da questão da intertextualidade a partir de uma obra infantil tão importante como Reinações de Narizinho, sempre com o cuidado de não antecipar a apreciação do leitor.

Esse material compilado dará origem ao guia que, por sua vez, será um novo material de consulta bibliográfica.


Referências


BETTELHEIM, B. A Psicanálise dos Contos de Fada. 9 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra S/A,1992. (Coleção Literatura e Teoria Literária).

COELHO, N.N.. O Conto de Fadas. 2 ed. São Paulo: Ática,1991. (Série Princípios).

______. Panorama Histórico da Literatura Infantil – Juvenil. 4 ed. São Paulo: Ática, 1991.

LAJOLO, M. Monteiro Lobato: um brasileiro sob medida. São Paulo: Moderna, 2000.

LARROSA, J. La experiencia de la lectura: estudios sobre literatura y formación. Barcelona: Laertes, 1996.

LOBATO, J. B.M. As Reinações de Narizinho. 1 ed., São Paulo: Nacional, 1931.

______. Reinações de Narizinho. 18 ed., São Paulo: Brasiliense, 1959.

______. Reinações de Narizinho. In: ______. Obra Infantil Completa. São Paulo: Brasiliense. Distribuição exclusiva Angelotti, s/d. Volume 1.

______. Reinações de Narizinho. 48 ed. São Paulo: Brasiliense, 2002.

______. Narizinho Arrebitado. 1 ed. São Paulo: Monteiro Lobato, 1921.

JENNY, L. et al. Intertextualidades: Revista de Teoria e Análise Literária. Nº 27. Coimbra: Livraria Almedina, 1979.



MEIRELES, C. Problemas da Literatura Infantil. 4 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.



1 Coordenadora do Projeto: Desvendando um mundo encantado: Guia de Leitura de Reinações de Narizinho. Processo o2/13311-0 - FAPESP . E-mail : mahwr@rc.unesp.br

2 Bolsista do Projeto: Desvendando um mundo encantado: Guia de Leitura de Reinações de Narizinho. Processo o2/13311-0 - FAPESP. E-mail: jswz@zipmail.com.br



©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal