Gustavo Korte


Metodologia e Transdisciplinaridade Gustavo Korte



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Metodologia e Transdisciplinaridade Gustavo Korte

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Sabemos que o conhecimento está sempre envolto em mistérios e que jamais podem ser adotadas



como absolutas quaisquer informações.

Todas as informações são relativas e sujeitas à temporalidade. O próprio conhecimento

científico, definido como crença verdadeira e justificada, adjetiva o substantivo crença,

reduzindo- lhe o significado a, pelo menos, quatro possibilidades, a saber: 1) crença verdadeira;

2) crença falsa, 3) crença justificada e 4) crença não justificada.

O misticismo lida com crenças que supõe verdadeiras, mas que não são justificadas à luz

da lógica formal ou do métodos em que estão fundamentadas as ciências empíricas. Nos campos

do conhecimento onde existem mistérios a serem clareados, nuvens a serem desfeitas, ocorrem

dúvidas decorrentes da nossa deficiência sensitiva, e suspeitas acerca da nossa capacidade em

obter mais resultados a partir das formas de percepção. Suscita-se, entretanto, a possibilidade de

que o conhecimento assimilado pelo misticismo, quando se reporta ao Sagrado, tenha a mesma

validade que o alcançado pelos demais métodos. A humildade, que caracteriza a ação

transdisciplinar, nos leva acreditar, com Sócrates, que somos sábios porque sabemos que nada

sabemos. A partir desta crença, podemos aceitar que o misticismo faz parte e é indispensável à

cadeia do conhecimento.

21 - Teoria

O vocábulo teoria tem origem no grego theoría (Qewríae traz vários significados. O

radical grego the ( ) reporta-se à idéia de divindade. De fato, os sinais do Sagrado são trazidos

tanto em substantivos como em verbos. O prefixo grego the, quando integra a categoria

gramatical dos verbos, traz para theoría o que é revelado na ação de contemplar, examinar.

Como substantivo, expressa estudo e sugere conhecimento.

Quer-nos parecer que há, etimologicamente, uma idéia latente relacionando o significado

de teoria ao de conhecimento, e conseqüentemente à idéia de Deus. Neste sentido, Deus é

onisciente, sabe tudo. Daí que theoría é um caminho intelectual que se reporta ao conhecimento

divino.Ainda como substantivo, theoría designa uma comissão, melhor dizendo, a deputação



solene que as cidades gregas mandavam às festas dos deuses, também designa a festa solene,

pompa, procissão, de que deu origem ao vocábulo latino theoria.

Teoria refere-se, em geral, a uma certa proposta de conhecimento, de ordem especulativa

e racional. É integrada por ele mentos convergentes e coerentes, ajustados a um conjunto de

princípios. Serve tanto às artes como às ciências. Há teorias que constituem acervos doutrinários.

Outras compõem sistemas fundados em princípios comuns. Designa-se também teoria a

sistematização de opiniões convergentes e entre si compatíveis e coerentes. Em geral as teorias se

baseiam em hipóteses, adotadas como princípios ou verdades.

As teorias servem para explicar, elucidar, interpretar ou unificar dados em determinados

campos de conhecimento. Na Grécia Antiga, teoria significava a embaixada sagrada que um

Estado enviava para o representar nos grandes jogos esportivos, consultar um oráculo, levar

oferendas; conjunto de pessoas que marcham em procissão.

Embora não nos seja vedado falar em teorias religiosas, temos por hábito reconhecer

como tais as doutrinas sustentadas pelas várias correntes do pensamento místico que são

especificamente voltadas às religiões. Centenas de denominações rotulam as mais diversas

concepções em que se identifica esse desejo do ser humano religar-se aos seres que supõe sejamlhe

hierarquicamente superiores. Muitas dessas correntes de pensamento vertem ao monoteísmo e

outras tantas ao politeísmo.



Doutrina é um conjunto de regras e princípios convergentes, coerentes, compatíveis e

entre si complementares, a partir dos quais são formuladas regras, procedimentos e normas.



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Estas objetivam regular a compreensão e a prática de determinadas formas de pensar, traduzindo



sistemas ou correntes de pensamentos, sejam religiosos, políticos, filosóficos, científicos, etc.

Enquanto as diferentes denominações religiosas entre si convergem ou divergem,

compartilhando, excluindo ou disputando tradições, costumes e territórios, observa-se que os fiéis

e devotos espalham-se sobre o planeta, pelas mais longínquas, inóspitas e diversas regiões. Podese

mesmo afirmar, sem medo de errar, que não há grupamento humano em que não persistam

raízes místicas ligadas a uma ou várias crenças. E mais, intuímos que todos os campos do

conhecimento têm suas raízes no misticismo e em crenças não suficientemente justificadas.

Nos mistérios do suposto big-bang encontram-se infinitas sugestões. Na misteriosa

viagem que nos é propiciada pelos sonhos e devaneios teóricos, racionais ou irracionais, quando

avançamos e regredimos velozmente no eixo dos tempos, o big-bang aparece como um

fenômeno pequeno, passado ou futuro, mas que apenas espelha um certo momento do Universo 90.

O que no campo do conhecimento científico é tido como teoria, em verdade, diante do

misticismo, não passa de mais uma crença a ser estudada e confrontada com informações

assimiladas por outros métodos cognitivos. Misticismo, mistério e teoria são palavras interrelacionadas

por conceitos comuns. Não se há de falar em misticismo metodológico sem que

esteja implícito o significado de sagrado, de mistério e, também esteja presente em nossas

considerações a procissão dos que se encaminham para prestar culto aos deuses. Torna-se óbvio

que, para muitos o Sagrado está contido em Deus; que Deus é Amor91, é Verdade, é Energia e,

conseqüentemente, Deus é Conhecimento 92.

22 - Autoritarismo

À primeira vista, na pesquisa etimológica, a palavra sugere uma composição de auto+



rito+ade (sufixo). O prefixo auto, originado do prefixo latino aucto, significa o que faz crescer,

que decide por si, contém em si, que é próprio de si.

O verbete autoridade vem do latim auctoritate, e quer expressar aquele que tem o poder de definir as

próprias ações, os próprios ritos, ou seja, a maneira pessoal de proceder e agir; aquele que dita as próprias

regras. No latim o substantivo é originalmente auctor,oris, com o significado daquele que comanda, o que

faz crescer, o instigador, o que tem poder para fazer. Ritus,us, em latim, traz o significado de rito,

cerimônia, uso, costume, maneira, forma, modo, processo. Aucto-ritus sugere, pois, o que faz e determina seu

procedimento por si mesmo ou em decorrência do seu poder. Existe outra possibilidade etimológica,

decorrente da justaposição dos verbetes aucto e rictus (aucto+rictus). Observe-se que aqui tratamos de rictus

e não ritus. No latim rictus,us, designa a ação de mostrar os dentes, abertura da boca; espaço entre os dois



beiços, goela aberta contendo, trazendo a conotação de que esses gestos faciais anunciam o poder de

ameaçar, poder de punir.

Quando falamos em autoritarismo como um dos caminhos do conhecimento, muitos se

arrepiam e reagem. É o que sugere D'AMBRÓSIO 93:

... Não há como falar da Terra e do Cosmos desligados da visão que o homem tem e,

essencialmente, criou dos mesmos. A ciência moderna, ao propor "teorias finais", isto é, explicações que

seriam definitivas quanto à origem e evolução das coisas naturais, esbarra numa postura arrogante.

Procuramos substituir a arrogância do saber absoluto que tem como conseqüências inevitáveis os

comportamentos indiscutíveis e as soluções finais, pela humildade da busca incessante, cujas conseqüências

são a tolerância e a solidariedade...

Todavia, o autoritarismo não traz só inconvenientes. Aporta algumas vantagens, pois

abrevia caminhos e encurta trajetos. Pepperell-Montague94 afirma:

90 Afirmação de Nelson Rebello Jr., em sessão de diálogos no NEST..

91 Vide I João, 4:16

92 Deus é Onisciente, portanto é O que conhece a Si mesmo. Daí porque Deus é o Conhecimento.

93 D'AMBRÓSIO, U. A evolução do conhecimento, in Rumo à nova transdisciplinaridade. São Paulo: Summus, 1993. p. 85)..

94 MONTAGUE, William Pepperell-. Los caminos del conocimiento . Buenos Aires: Sulamericana, 1944.



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...Temos recebido mais crenças do testemunho de nossos semelhantes que de qualquer outra fonte.



Bem pouco do nosso conhecimento do universo é testemunhado diretamente por intuição, razão, experiência

ou práticas próprias e pessoais, pois a verdade é que aceitamos em depósito (como se fossem nossos

conhecimentos) nove décimas partes do que tomamos como verdadeiro. O homem é um animal sugestionável

e tende a acreditar no que se fala, a menos que tenha alguma razão positiva para duvidar da lealdade ou

competência de seu informante.

Quando abordamos o autoritarismo como fonte de supostos conhecimentos, desde logo

percebemos que, em termos de compreensão das diversas formas de comunicação, alguns

estudiosos são menos envolvidos emocionalmente; enquanto outros se mostram menos

perspicazes alguns parecem mais sujeitos a sofrer influências por ação da inteligência emocional,

especialmente se esta é fundada em crenças e relatos místicos. Não se pode negar que existem

mesmo os que têm medo de assombrações.

É oportuno observar que o autoritarismo causa efeitos nas pessoas em razão direta de suas

crenças e de seus traços de personalidade95.Observa-se que os efeitos do autoritarismo dependem

da natureza do indivíduo e do testemunho dos seus circundantes. Também é de notar-se que a

força do conhecimento oriunda do autoritarismo emana da credulidade e da facilidade em deixarse

sugestionar de quem o aceita.

Há alguns pontos frágeis na estrutura do conhecimento decorrente da aceitação de

heranças intelectuais. O primeiro deles situa-se a partir do momento em que se estabelece o

conflito de autoridades entre os geradores da informação. Questiona -se, então, qual juízo deve

prevalecer: o que se ouve do avô, do pai, do professor, do amigo, do cientista, do médium, do

artista, do desconhecido ou do sacerdote?

A segunda debilidade do autoritarismo é que, diante de insucessos ou desmentidos, a

autoridade deixa de ser aceita como fonte última do conhecimento e passa a ser desconsiderada

diante da experiência. Isso ocorre especialmente quando os resultados são negativos na relação

entre a autoridade, o que dela esperam os subordinados e o que resulta da ação. As frustrações

coletivas desmerecem a autoridade. Não importa que sob outrem o resultado pudesse ser o

mesmo, mas o desgaste é dirigido à pessoa que, naquele momento exerce ou exercia o poder. O

autoritarismo perde força também pela ação da intuição coletiva, cujas razões e percepções atuam

como forças causadoras de dúvidas ou descrenças.

As dificuldades crescem proporcionalmente ao tempo de prática do autoritarismo. A

experiência histórica ensina que o autoritarismo, em todas suas manifestações, sejam intelectuais,

políticas ou militares, sofre desgastes progressivos ao longo do tempo. Assim como os

movimentos respiratórios do ser humano, mostra-se um processo repetido que, no curso da

história, exacerba-se e retrai-se sem nunca ser esgotado.

O autoritarismo sofre, em geral, dois tipos de abordagens demolidoras, quando enfrenta os

resultados intelectuais de um conflito de autoridades. Primeiro, porque põe em dúvida o

princípio pelo qual é regido. Segundo, por que o interessado tem, então, de recorrer a

informações hierarquizadas segundo a fonte, e, se for o caso, emergente de outros métodos.

O peregrino intelectual, quando supõe estar renunciando ao autoritarismo como método de

conhecimento, caminha por várias trilhas, sem estar consciente de que as mesmas lhe estejam sendo

anunciadas pelos que o antecederam.Vagando pelas múltiplas possibilidades intelectuais, procura definir

novos marcos. E estes podem consistir em:

1. novos testemunhos, cujas fontes mereçam mais credibilidade (autoritarismo por geração de nova

escala de autoridades);

2. na razão que rege os fenômenos abordados (racionalismo);

3. aquilo que é informado pela experiência sensível (empirismo);

95 Traços de personalidade: feição, caráter, impressão, marca, sinal que geram os aspectos da personalidade.

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4. confirmação ou negação do que é proposto ou sugerido pelo misticismo,



5. abandono do processo intelectivo, diante de eventual excesso de dúvidas (ceticismo);

6. falta de razões pragmáticas (pragmatismo);

7. deixar-se levar pela intuição (intuicionismo);

8. abandonar-se aos ditames da amorosidade, em correspondência às manifestações de amor ao

saber, traduzidas na tolerância, na solidariedade, no existir e no fluir desambicioso dos pensamentos;

9. ou, finalmente, recorrer a alternativas não necessariamente pré-moldadas.

É oportuno questionar como avaliar a autoridade de que se originam os testemunhos.

Há várias modelos de avaliação que levam em conta o prestígio 96 pessoal do informante; o

número dos informantes, a duração, o tempo e a data da informação.

Pelo menos cinco razões parecem explicar a força do autoritarismo:

1) o recurso ao misticismo, às raízes místicas, que induz a crer que a autoridade de que são

geradas as informações deriva da inspiração, da intuição ou da revelação divina;

2) o recurso ao ceticismo, em que, com a perda de seus esforços por outros caminhos, os

interessados caem facilmente no dogmatismo oriundo do autoritarismo;

3) o pragmatismo, cuja abordagem reforça o sentido da autoridade que deu certo;

4) o empirismo, que traz a experiência vivida pela autoridade ou sob os seus efeitos;

5) o argumento da fé inabalável, em favor dos que não se propõem avançar nas reflexões que

possam diminuir a eficácia dos pressupostos da autoridade.

Por vezes. o número dos que recebem a informação como verdadeira torna-se elemento

de convicção ou eficácia. É a autoridade que justifica a decisão adotada pela maioria em

determinado contexto social. Assim, o número de jurados que condena ou absolve. Todavia, este

critério não é suficiente para inúmeros casos. Ou seja, não é porque uma religião tem mais ou

menos adeptos que estes são mais ou menos fervorosos ou estão mais próximos de Deus. O

número de testemunhas sobre um determinado acontecimento nos leva, muitas vezes, a adotar um

juízo prevalecente sobre o que decorre da leitura de outros. É o juízo ou opinião ditado pelo

número dos que formam a maioria. E a experiência histórica mostra que a maioria erra muito,

porém, historicamente, a maioria erra menos que os juízos singulares ou minoritários. Esta é a

justificação histórica dos procedimentos democráticos e que se opõe aos juízos aristocráticos ou

oligárquicos.

O fator tempo agrega, muitas vezes, idéia de maior autoridade do que o número de

testemunhos. O passado e as instituições pesam no conservadorismo dos autoritaristas. As

instituições que servem, durante muitos anos, à coletividade, têm peso muito grande nas formas

de aquisição do conhecimento. Há um suposto consenso em que os mais velhos são mais sábios

que os mais novos, crença que sugere grande valor ao conhecimento empírico acumulado.

Existem os que afirmam que, pelo acúmulo de conhecimentos, somos muito mais ricos que

nossos antepassados. Há crenças e teorias que afirmam que, ao longo do tempo, o ser humano

vem se distanciando do conhecimento da verdade original, daí porque, sugerem, quanto mais

próximo da origem tanto maior é a autoridade do informante.

Em Ética é muito usado o critério do autoritarismo 97 como forma de transmissão de

conhecimentos. Para PEPPERELL MONTAGUE98:

96 Prestígio aporta vários significados: ilusão atribuída a causas sobrenaturais ou a sortilégios; magia; artifício usado para seduzir, para encantar;

elementos que provocam admiração ou respeito, tais como atração, encantamento, magia; influência exercida por créditos atribuídos a pessoa,

coisa ou instituição; superioridade pessoal baseada no bom êxito individual em qualquer setor da atividade, admitida como positiva pela maioria

de um dado meio social..

97 O Dicionário Novo Aurélio reconhece por autoritarismo o regime político que postula o princípio da autoridade, aplicada com freqüência em

detrimento da liberdade individual; despotismo, ditatorialismo.

98 MONTAGUE, W illiam Pepperell- Los caminos del conocimiento. Buenos Aires: Sudamericana, 1944.



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... Recebemos mais crenças do testemunho de nossos semelhantes do que de qualquer outra fonte.



Muito pouco do nosso conhecimento do universo é testemunhado diretamente pela intuição, razão,

experiência ou práticas próprias e pessoais, pois a verdade é que aceitamos em depósito nove décimas partes

do que temos por verdadeiro.

A palavra autoritarismo traz ainda outros significados tais como: a) moral, reportando-se à

autoridade da qual emana a fonte do conhecimento ou das crenças adotadas; b) legal, que decorre

da ordem jurídica vigente; c) resultante do poder do arbítrio imposto pela coação ou uso da

violência, tal como nas organizações criminosas ou d) pelo medo de escandalizar, sugerido na

divulgação de fatos pela mídia e demais meios de comunicação.

Em que pese uma suposta liberdade de pensar e opinar, assegurada pela Constituição

brasileira a experiência diária mostra que atribuímos muita autoridade moral aos meios de

comunicação tais como televisão, rádio, imprensa falada e escrita. Por esse autoritarismo

confiado aos meios de informação nós nos sujeitamos a supostas verdades anunciadas e passamos

a opinar e decidir, coletiva ou individualmente, com apoio nas imagens, idéias e linhas de pensar

com que fomos alvejados.



23 - Noções de autoridade e poder.

Auctoritas, tis, é a palavra latina com que veio, para o vernáculo, a idéia de autoridade.

Compreende-se neste termo o conjunto de qualidades éticas ou morais próprias de pessoas

físicas, grupos de pessoas, organismos ou instituições que têm reconhecido o seu poder de influir,

mandar, dirigir, conduzir ou negar atos e fatos.

O significado de autoridade distingue -se da idéia contida no poder da força, da constrição

e da coação física ou moral, pois há um consenso e um assentimento pessoal à injunção de quem

está revestido da autoridade. O reconhecimento da autoridade nos campos do conhecimento

aporta a idéia de fé. Por exemplo, ter na fé autoridade divina, ter fé na autoridade judiciária.

Ensina Walter Brügger em seu Dicionário de Filosofia :

... Ao assentimento por parte da vontade e do comportamento dá-se o nome de obediência. Quando o

assentimento estriba exclusivamente na superioridade pessoal do detentor da autoridade (mercê da

experiência, do saber, do poder, do caráter), temos a autoridade pessoal, que em si não obriga, mas

permanece no plano do conselho. Se estriba numa competência jurídica (autoridade oficial), em si

independente das qualidades pessoais do sujeito, nesse caso suas notificações categóricas (ordem, mandado,

proibição) obrigam a consciência, sob pecado ou castigo, dentro do âmbito dessa competência jurídica.

Autoridade do saber, da idade, da experiência, do desejo, da natureza, da arte, da técnica

são expressões que trazem a idéia de ordenação, hierarquia e prévia disposição de pessoas

segundo determinados parâmetros. Para que se possa progredir na busca do conhecimento, tornase

fundamental que nas relações haja manifestação de respeito à natureza, às idéias e aos

indivíduos. Respeitar99 corresponde à idéia de uma regra para o relacionamento com tudo que se

encontra no contexto.

Confúcio legou-nos sete idéias fundamentais para o procedimento do homem em

sociedade: fidelidade, altruísmo, humanidade, justiça, decência, sabedoria e sinceridade. Cada

uma destas contém a idéia que liga o indivíduo ao processo de vida que pretende desenvolver.

Respeitar aporta inclusive o significado de prestar atenção aos seres à nossa volta, que integram o

nosso contexto, captando neles o histórico que se reflete e refrata no presente. É reconhecer que

99 O verbo respeitar tem origem no latim re-specto,avi,tum,are , que trás a idéia de olhar para trás; olhar para alguém; fugir; voltar-se para

olhar; ter os olhos em; prestar atenção a ; ocupar-se de. O significado que mais sensibiliza é dar atenção ao mundo à nossa volta, com espírito de

observação, identificação e apreensão das idéias que estão contidas nos acontecimentos, especialmente ao histórico das coisas e pessoas que

devem ser objeto de respeito. E veremos que tudo merece ser respeitado, pois mesmo onde não houve concurso de ação ou trabalho humanos a

Natureza sempre despendeu esforços.



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cada ser, cada objeto tem uma história cuja narrativa procura revelar uma contribuição para o



presente e o futuro.

Nos dois mandamentos fundamentais do Cristianismo, agregados à cultura ocidental,

insere-se a idéia de respeito na de amor: ama Deus sobre todas as coisas e ama o próximo como a

ti mesmo. Está evidente o sentido da recíproca: amar é respeitar e respeitar é amar. Tais

mandamentos induzem os cristãos a uma ligação de amor respeitoso, diretamente com Deus e os

seres humanos que lhe estão próximos. Os mandamentos que nos vêm, pelas linhas da mitologia,

aportados em suas raízes místicas como tendo origem na autoridade divina. Chegam pelas

tradições, usos, costumes e também pelo conhecimento. Em cada mandamento está contida pelo

menos uma idéia, uma vontade e uma ordenação.

Ora, se há mandamentos provenientes de uma autoridade, personificada em algum ser que

tem poder mandamental, eles são expressos ou fixados através de palavras de ordem ou por

indução, e por outras linguagens que não somente a discursiva. Se há palavras de ordem, há

evidentemente um Princípio Ordenatório do Universo.

Poder é um verbo transitivo. A etimolo gia leva ao vocábulo latino potere, que contém a

idéia de posse. Posse não é propriedade. A idéia de poder transmite, na ordem jurídica, a idéia de

uma prévia autorização, de possibilidade legítima, para fazer alguma coisa, realizar um trabalho,

cumprir uma tarefa ou missão específica. Contém a idéia da ação legal ou de sua possibilidade,

de um processo com regras pré- fixadas, de um fenômeno que envolve o ser humano. O exercício

de poder é, nitidamente, um fenômeno ético, já que, direta e juridicamente, a palavra poder diz

respeito às relações do ser humano com o seu contexto.

O substantivo poder traduz também a idéia de uma faculdade, de uma força, que pode ser

ou não materializada e transformada em trabalho. O sentido genérico de poder assimila-se muito

ao de potencialidade, ao sentido de força potencial, que nos vem da experiência oriunda das

forças efetivamente aplicadas e de poder exercido, quando usamos a expressão no sentido social e humano.

A idéia de poder identifica potencialidade subordinada à vo ntade. Quando participa de um

fenômeno, como sujeito ativo ou passivo, simples espectador, guardião da ordem ou juiz, o

indivíduo integra o fenômeno ético.

Não devemos confundir, todavia, e esta foi uma das primeiras dificuldades iniciais, a

Ética com a Moral. Ética é o gênero do qual a Moral é uma das espécies.

A Ética estuda todos os fenômenos de natureza ética, enquanto a Moral é o campo do

conhecimento que estuda os fenômenos morais, ou seja, os fenômenos que têm por fundamentos

os usos, costumes e tradições acumulados e transmitidos pelas gerações anteriores. São regidos

por regras morais, que nós aprendemos a partir do momento do nascimento, enunciadas a partir

desses mesmos usos, costumes, tradições e conhecimentos.

Existem causas deontológicas e causas teleológicas que definem e caracterizam os fenômenos

morais. As causas primeira e última são enunciadas como princípios da uniformidade da Natureza, o que

corresponde a dizer que, diante das mesmas causas a Natureza produz os mesmos efeitos. Deontológica é

uma causa anterior, que vem antes, é uma razão primeira que se liga à natureza da relação; teleológica é a

causa última, é o efeito procurado, é o resultado que se busca na ação.

O cultivo de usos, costumes e tradições sugere persistência de causas e previsibilidade de

efeitos. Usos, costumes e tradições mostram-se ajustados ao princípio de uniformidade natural,

que se reflete no social. Cada núcleo social tem regras morais próprias. Ou seja, a conduta moral

responde às tradições, usos e costume s referentes às comunidades ou contextos sociais. O que é

moral para um certo contexto social pode ser imoral para outro..

Os fenômenos éticos envolvem referem-se às relações do homem com outros seres

humanos, coisas, plantas, aves, peixes, animais, instituições, idéias, linhas e formas de pensar,



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