Gustavo Korte


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Metodologia e Transdisciplinaridade Gustavo Korte

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sistemas e estruturas de pensamento, que integram abstrata, fictícia, ou concretamente, o micro e



o macrocosmo em que nós vivemos. Fenômeno ético pode ou não se constituir um fenômeno

moral. Há fenômenos éticos que não ocorrem pelas tradições, usos e costumes e são decorrentes

de outras relações tais como acidentes, incidentes, novas conveniências, oportunidades ou

eventualidades. Quando acendo a luz eu ajo e integro um fenômeno ético. Quando mando emails

estou me dirigindo a pessoas; por esse meio eletrônico eu me comunico e passo a integrar

um fenômeno ético cuja vivência é nova para os seres humanos e ainda não faz parte das

tradições, usos e costumes. Essas ações individuais não têm nada a ver com os usos, costumes,

tradições e conhecimentos do meu povo, do meu contexto; mas estou sendo integrado a um

fenômeno ético de comunicação, moderno, atual e eficiente, em que deverei subordinar-me a

regras éticas de relacionamento, ainda que as regras morais do meu povo não valham para os

meus interlocutores e nem as que lhes são peculiares valham para mim.

Os princípios éticos regulam as ações humanas, em todos os contextos em que forem

vivenciadas, ou seja, servem e justificam a experiência humana de todas as nacionalidades,

origens e culturas. Os princípios morais modelam as ações humanas de forma compatível com os

usos, costumes e tradições no âmbito das comunidades em que ocorrem, o que, em outras

palavras significa dizer que os princípios morais são distintos e diferenciados para as diferentes

nacionalidades, culturas e etnias.

De fato, impõe-se entender que o respeito sugerido pelo sucesso dos usos, costumes e

tradições constitui um núcleo de autoridade moral determinante do comportamento do ser

humano no núcleo social em que existe e vivencia a sua existência. Da mesma forma, podemos

reconhecer nos princípios que norteiam os fenômenos éticos um núcleo de conhecimentos que

identificam, e explicam a existência de padrões e valores humanos, cuja eficácia é reconhecida

como necessária útil para a vivência e sobrevivência da espécie humana.

Assim, somos levados a procurar padrões de autoridade que nos sirvam de marcos

norteadores nos caminhos do conhecimento, e que nos propiciem formas de pensar, quer de

natureza ética quer moral, via das quais nossa vida torne-se mais ajustada e compatível com a

natureza humana e o contexto social em que existimos.

Impulsionados pela intuição, somos levados a admitir que há uma Autoridade Anterior

que enuncia, dita e ordena os elementos e os procedimentos. Tais manifestações ocorrem através

das palavras de ordem ou por outras formas de induzimento e resultam em que sejam respeitados

os princípios ordenatórios.

Muitos, de fato, a imensa maioria da humanidade, deificam essa Autoridade Anterior

desde os mais remotos tempos e desde os mais elementares sinais de vida do homem sobre a

Terra. Jahveh, Alah, Ormuzd, Brahma, Grande Arquiteto do Universo são alguns dos

designativos com que se procura identificar essa Autoridade Anterior. No linguajar mais usual, a

Divindade Suprema é, para a imensa maioria dos povos da atualidade, a expressão de Deus,

entendido como sendo o Único, o Senhor do Universo, o Onisciente, o Onipresente e o Eterno.

Procurando captar e conscientizar o que parece esta r contido nessa designação, podemos

observar que o princípio da ordem que rege a natureza antecede a existência de todo ser vivo. O

conteúdo dos cromossomos e genes que compõem as nossas células segue esse ordenamento.

Somos levados a aceitar como verdade que há uma seqüência: idéia - vontade - ordenamento -

criação - nascimento.

Também acolhemos, por intuição, que há uma ordem natural e universal regente de

coisas, pessoas, ações, processos e idéias, e que, como princípio ordenatório, não atua somente

no planeta Terra ou no Sistema Solar. Porém, a experiência sugere que há uma ordem natural que

só se aplica ao planeta Terra e aos seres e coisas que o integram.

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Quando falamos em autoridade, pressupomos a existência de princípios ordenatórios que



organizaram hierarquicamente as relações planetárias. Em geral é aceita como válida a ação de

reconhecer a autoridade decorrente da situação hierárquica ou da posição social de quem dá

ordens ou dita regras. Essa é a razão pela qual são acatadas decisões oriundas do exercício da

autoridade legal ou moral.

Buscando o significado hierarquia, admitimos várias possibilidades: a) hierarquia cronológica, que

diz respeito à hierarquização ou quantificação das relações antecedente-conseqüente, ou ordenatória segundo

o momento da ocorrência, tal como primeiro -segundo; anterior-posterior, o mais antigo, o mais moderno;

também se reconhece hierarquia cronológica entre mais velhos e mais novos, mais antigos e mais modernos;

b) hierarquizando e quantificando espaços: o maior, o menor; o superior o inferior; o lateral e o central; c)

hierarquizando em relação ao grau de autoridade: oficial superior-subalterno; primeiro-segundo, comandantesubcomandante,

chefe-subordinado; d) ordenando a hierarquia em função das responsabilidades: o juiz e os

oficiais de cartório; o professor e o aluno; e) hierarquizando segundo o poder econômico: o que tem mais e o

que tem menos; f) segundo potencial de consumo: o que pode mais e o que pode menos; g) segundo o nível

cultural: doutor-mestre -licenciado etc. diante. diante. diante.

Koestler 100 afirma que se analisarmos qualquer forma de organização social estável, a

começar da família de insetos até o Pentágono, descobriremos que ela é hierarquicamente

estruturada. O mesmo se aplica ao organismo individual e, com menor evidência, a suas

habilidades inatas e adquiridas (...) O aspecto mais realista da ordem hierárquica está contido

no que se pode chamar de ¨paradigma de Swift¨:

Assim, observam os naturalistas , que uma pulga

Carrega pulgas menores, que dela se alimentam,

E estas têm menores pulgas a sugá-las,

E assim continua ad infinitum...

Por sua natureza essencialmente ética, o exercício da autoridade, quando é efetivado

concreta, abstrata ou ficticiamente, corresponde à idéia de manifestação sensível do poder. Pelas

mesmas razões, os efeitos do autoritarismo são decorrentes da vontade de quem acolhe a

autoridade como estando em nível superior na suposta escala hierárquica de conhecimentos.

Quando nos referimos à autoridade oficial, queremos significar a autoridade que resulta



do ofício ou da função social reconhecida por lei. Daí aceitarmos a presunção fática de que o

detentor do poder esteja investido de autoridade legal em função de sua capacidade, de

competência e, sobretudo, da vontade social expressa através do ordenamento jurídico. Não se

pode negar que há autoridade cujo poder resulta da ação revolucionária, conseqüente a um

processo revolucionário, e que se refere àqueles que se lançam contra a ordem vigente sustentada

pelos detentores do poder supostamente legitimado. Há um poder revolucionário em toda força

intelectual. Pode ser apoiado por manifestações físicas, militares, morais ou psicossociais. Estas,

sempre presentes, ora atuam numa direção e sentido, ora em outra. Tais forças tem poder para

atuar nos diferentes agrupamentos sociais que compõem os meios coletivos de intervenção.

Atualmente, dentre as forças sociais de aparência pacífica, os meios de comunicação revelam-se

como os mais poderosos instrumentos de enfrentamento da ordem constituída, tanto por sua agressividade

como por sua abrangência. Sujeitos aos interesses de toda ordem, especialmente aos interesses econômicos,

os meios de comunicação constroem e destroem a fé na autoridade, seja ela legal ou ilegal, moral ou física,

jurídica ou injurídica101.

É fora de dúvida que os meios de comunicação, quando manipulados por interesses de

grupos, oligarquias ou governos, dispõem de uma autoridade moral cuja quantificação pode ser

medida pelos resultados de sua ação: destroem e constróem imagens, ficções e abstrações,

100 KOESTLER, Arthur. Jano. São Paulo:Melhoramentos.1981, pp. 47 e 80.

101KORTE, Gustavo. Excerto de texto publicado pelo Centro de Estudos da Fundação Konrad Adenauer, Série Debates, ano 1999, n.º20, p.

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induzem em acerto e erro, condicionam atitudes, atuam como um sistema de forças que a



sociedade, como um todo, ainda não sabe controlar. Pode-se dizer que a autoridade dos meios de

comunicação decorre mais do poder de manipulação da linguagem visual e discursiva do que das

idéias que transmitem ou intentam transmitir.

O que entendemos por liberdade de imprensa não pode ser confundido com os abusos

caóticos, arbitrários e irresponsáveis praticados usualmente a partir do princípio de liberdade de

expressão. Liberdade não é licenciosidade. Os meios de comunicação têm o poder de agredir,

mas não têm esse direito. E têm deveres em relação à sociedade e suas projeções para o futuro. A

responsabilidade dos meios de comunicação atravessa o tempo, pois se insere no processo

educacional que conduz e dirige o ser humano.

Tudo e todos, em sociedade ou fora dela, estamos sujeitos a limites. Por isso entendemos

que é necessário, neste momento social, dar maior atenção ao conteúdo, às razões e às formas de

procedimento com que os meios de comunicação têm construído a autoridade moral e social de

que dispõem. Impõe-se, pois, que trabalhemos em sociedade, democraticamente, visando definir

os limites em que pode ocorrer a atividade dos meios de comunicação, pois observamos que o



poder ilimitado, que agora norteia a imprensa, é intolerável para todos.

Sobressai, dessas observações, que a idéia do método de conhecimento contido no

autoritarismo está intimamente vinculado à idéia do exercício de diferentes formas de poder e,

mais especialmente, daquele que é exercido pelos meios de comunicação. Tem autoridade quem

tem poder. É pela natureza do poder que se identifica o significado da autoridade, seja

econômica, moral, social, política, militar, intelectual, mística, religiosa. A expressão poder



arbitrário sugere o poder quando exercitado fora dos limites fixados nas convenções sociais ou

nas disposições legais.

Os informes e as informações que aceitamos como válidos são acolhidos em razão do

poder moral e intelectual que atribuímos às fontes de que emanam. Damos crédito às fontes

públicas em relação ao que publicam partindo de uma projeção ética que inclui o pressuposto que

elas devem ser honestas e reportar a verdade. Isso ocorre quando as informações nos chegam pelo

autoritarismo, quer seja dos meios de comunicação, quer das obras literárias, políticas ou

científicas. Informação102 e informe 103 são vocábulos que apresentam significados específicos e

distintos, como se pode ver na nota abaixo.

102 Informação, tal como o conhecimento e as suposições, é um dos resultados decorrentes da ação de informar. Corresponde aos dados que dizem

respeito a alugém,, a alguma coisa ou allgum fenômeno. Admite-se que grande parte dos nossos supostos conhecimentos decorram da veracidade

das informaçções de que dispomos. Mujitos identificam a informação como meio de instrução edireção. Com aplicação jurídica significa o

parecer de quem participa administrativamente de alguma fase do processo. Em termos militares, quando se diz informação tem-se como

pressuposto que se trata de conhecimento amplo e bem fundamentado, resultante de análise e comprovação de vários informes. Expressa também

a mensagem em que está dimensionado e caracterizado o fato ou fenômeno a que se refere. Na informática, diz respeito aos elementos cognitivos

fornecidos aos bancos de dados. Informação não pode ser confundida com informe, pois significado este tão somente sinaliza a fase inicial do

conhecimento, podendo ou não vir a tornar-se uma informação. Em genética designa-se informação a combinação contida no ácido

desoxirribonucléico, material e quimicamente revelada na seqüência de nucleotídios expressa pela síntese de proteínas.

103 Informe corresponde aos elementos iniciais de que pode ou não resultar a informação. Ex.: o informe sobre fumaça na mata pode

sinalizar que há um início de incêndio ou simplesmente alguém acendeu uma fogueira. Apurado e detalhado, pode ser traduzido em



informação quanto à dimensão do fogo, explicitando se se trata apenas de uma fogueira, ou se, de fato , é um início de incêndio.

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Capítulo IV

Racionalismo e empirismo

24 - Holismo

Para entendermos o significado contido no verbete holismo104 devemos ter presentes os

conceitos de parte e todo. O vocábulo parte sinaliza para aquilo que não é inteiro, que é

fragmento de algo maior, mais extenso, mais denso, que pode ser classificado como

hierarquicamente superior. O verbete todo traz o significado de completo, de inteiro, integral,

cujos limites correspondem ao designativo que lhe diz respeito. Refere-se a um todo a idéia

contida em um conjunto-universo, como aprendemos na teoria dos conjuntos. Os elementos são

partes desse todo conjuntural.

Koestler identifica:

¨Parte¨ contém o significado de algo fragmentário e incompleto que, por si só, não pode exigir uma

existência autônoma. Por outro lado, um ¨todo¨ é considerado algo completo em si mesmo, que não necessita

de ulterior explicação105 .

O senso comum, quando trata de visão holística, revela o esforço do pensamento humano

em identificar o conjunto em que o indivíduo sente-se situado como um todo universal.

Recorrendo por analogia à teoria dos conjuntos ensinada na Matemática, quando abordamos o

significado de um conjunto-universo estamos nos aproximando da idéia de um hólon. Isto

porque, em todos os conjuntos- universos podemos verificar que o conjunto é sempre diferente do

que o somatório de seus elementos. Pode ser maior ou menor.

Importa observar que a experiência científica ensina que nenhum elemento jamais integra

um só conjunto -universo. Há sempre alguma diferença, seja qualidade, atributo ou duração, pela

qual todos os elementos escapam, em parte, das características que definem sua condição de

integrar o conjunto universo em que são classificados.

O raciocínio verbal discursivo nos leva a pensar que, a partir do momento em que o

elemento se identifica totalmente com o conjunto, somos levados a reconhecê- lo como o todo

representado no conjunto, e então ele não é mais um elemento mas é o próprio conjunto. Levando

a razão discursiva pelo mesmo caminho percebemos que, no momento em que a parte e o todo se

identificam, e quando uma está totalmente contida no outro, e todos vertem para a perda de suas

diferenciações e se confundem106.

A visão holística, para o entendimento comum, quer significar o contexto universal

abrangido pelos horizontes que se abrem às formas de percepção, quer sejam decorrentes das

sensações quer dos avanços revelados na textura 107 das linhas e formas de pensar, sendo este

resultado equiparado, por analogia à materialidade, à tessitura108 das formas musicais.

É ainda de Koestler a afirmação:

104 O vocábulo holismo tem origem no verbete grego holos (holoz) que significa todo. Em realidade, foi usado com o significado atual, pela

primeira vez em 1920, por Jan Stuts.

105 KOESTLER, Arthur. Jano. S. Paulo: Melhoramentos, 1981, p. 41.

106 Confusão aporta aqui o significado de extinção ou perda dos limites que passam a integrar o mesmo fundo,, a mesma propriedade.

107 Textura. S. f. Resultado da ação de tecer; tecido; trama; contextura.

108 O vervete tessitura traduz, quando usada nos estudos de música, o resultado da compatibilização dos elementos de um conjunto de sons que

incluem parte da escala musical adotada que melhor convêm a uma determinada voz ou a um determinado instrumento. Diz respeito ao

resultado expresso pelo conjunto das notas mais freqüentes numa composição.. No sentido figurado, por analogia com a idéia do tecido produto

da tecelagem, apresenta características de organização; contextura.



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... o holismo pode ser definido pela afirmação de que o todo é mais do que a soma de suas partes. O



termo foi criado por Jan Smuts, na década de 1920, num famoso livro109 que, por algum tempo, gozou de grande

popularidade. Mas o holismo jamais ganhou prestígio na ciência acadêmica - exceto, indiretamente, pela

psicologia do Gestalt - em parte porque se opunha ao Zeitgeist (espírito da época), em parte porque

representava, talvez, uma tendência mais filosófica do que empírica e não se prestava a testes laboratoriais 110.

O designativo holismo, como substantivo masculino, foi gerado a partir do radical

identificado no adjetivo grego oloz, h, on, que se lê holos, e, on, com significado de todo,

inteiro, perfeito, ajuntado, completo, universal, geral . Em filosofia, traduz tendência a uma visão

sintética e universalizada, que reconhece os hólons como unidades elementares contidas no

conjunto universal, na medida em que reproduzem e refletem a unicidade da organiza ção do

Todo e estão, em si mesmas, organizadas seguindo o mesmo modelo.

Para Vitrúvio 111, arquiteto e filósofo romano do século I anterior à era Cristã, a visão de

um conjunto arquitetônico deveria sinalizar e responder com três características: a) firmitas

(firmeza), b) utilitas (utilidade) e c) venustas (beleza física). Ou seja, a arquitetura do Universo

obedeceria a essas três exigências. Pode-se aventurar que essa visão vitruviana aporta, para a

idéia do conjunto, um sentido holístico, de integração necessariamente harmônica, estética,

funcional e de solidez estrutural.

O holismo112envolve e faz-se anunciar como um dos métodos de integração que podem

levar ao conhecimento, incluindo-se no empirismo metodológico e no próprio processo que

designamos por ação de pensar, na medida em que responde às formas de percepção sensitiva.

Tem como sinais geradores os conjuntos e seus elementos constituintes, via dos quais sugere a

presença tanto da intuição gestáltica como da amorosidade. A amorosidade é sinalizada pela

tendência ao Uno, à Totalidade de tudo que converge para a Unidade e que, no final, se identifica

com a Universalidade.

Pierre WEIL113 sugere que a transdisciplinaridade e o holismo são afins e têm muito em

comum. De fato, chega a insinuar que o holismo é o objetivo maior da transdisciplinaridade.

Bassarab NICOLESCU114 opina, louvado na experiência sensível, que um bastão sempre

tem duas extremidades. E, ao introduzir-se pelos meandros dessa afirmativa explica:

... O desenvolvimento da física quântica, assim como a coexistência entre o mundo quântico e o



mundo macrofísico, levaram, no plano da teoria e da experiência científica, ao aparecimento de pares de

contraditórios mutuamente exclusivos ( A e não-A): onda e corpúsculo, continuidade e descontinuidade,



separabilidade e não-separabilidade, causalidade local e causalidade global, simetria e quebra de simetria,

reversibilidade e irreversibilidade do tempo etc.

Nicolescu refere-se, metaforicamente, à flecha do tempo, com as seguintes palavras:

... Nosso nível macrofísico caracteriza -se pela irreversibilidade (a flecha) do tempo. Caminhamos do

nascimento para a morte, da juventude para a velhice. O inverso é impossível. A flecha do tempo está

associada à entropia115, ao crescimento da desordem. Por outro lado, o nível microfísico caracteriza -se pela

109 SMUTS, Jan C. Holism and Evolution. London, 1926.

110 KOESTLER, Arthur. Jano. S. Paulo: Melhoramentos, 1981, ,p. 40.

111 VITRUVIO, Marco Lucio. Los diez libros de Arquitetura. Barcelona: Ed. Iberia, 1955. Arquiteto romano, do primeiro século antes de Cristo.

Suas idéias influenciaram as escolas de arquitetura ocidental por cerca de dois mil anos.

112 O Petit Larousse informa que holismo é doutrina112 epistemológica segundo a qual, diante da experiência, cada enunciado científico é

tributário do inteiro domínio no qual ele aparece (existe).

113 WEIL, Pierre e outros. Rumo à nova transdisciplinaridade. São Paulo:Summus, 1993.

114 NICOLESCU, Bassarab. O manifesto da transdisciplinaridade. São Paulo: Trion, 1999.

115 Entropia: cf. o Dicionário Novo Aurélio, ( Do gr . entropé, 'volta' + -ia.] S. f. 1. Fís. Função termodinâmica de estado, associada à organização



espacial e energética das partículas de um sistema, e cuja variação, numa transformação deste sistema, é medida pela integral do quociente da

quantidade infinitesimal do calor trocado reversivelmente entre o sistema e o exterior pela temperatura absoluta do sistema. Significa também,

pela medida da quantidade de desordem dum sistema. Em estudos de Física, no campo da Termodinâmica, associado ao fenômeno entropia é

estudado o fenômeno da entalpia , que corresponde ao expresso na função termodinâmica de estado, igual à soma da energia interna com o

produto da pressão pelo volume do sistema.

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invariância temporal (a reversibilidade do tempo). Tudo se passa como se, na maioria dos casos, um filme



rodado no sentido inverso, produzisse exatamente as mesmas imagens que quando rodado no sentido correto.

Numa visão holística que se antecipa às considerações filosóficas dos pensadores dos

recentes séculos sobre o Tempo, Platão, na narrativa de Timeu, traduz os ensinamentos sagrados

dos egípcios, informando que o céu (o universo, numa concepção de tudo que tem existência

material), e o tempo são elementos indissociáveis de um mesmo conjunto, intimamente

vinculados um ao outro, de tal forma que serão sempre simultaneamente consumidos, e que, se

por alguma razão um desses elementos vier a desaparecer, o mesmo sucederá ao outro.

... O Tempo nasceu com o Céu, de tal forma que, engendrados conjuntamente, conjuntamente sejam

dissolvidos, se em algum tempo forem dissolvidos.116..

Heidegger117 questiona:



Quando nós atentamos para aprender o que é designado por estar pensando (pensar) e o que nos

atrai para esse pensar, será que não nos quedamos aprisionados pela reflexão que nos leva a pensar

(conscientizar) que estamos pensando? De fato, ao longo desta caminhada, uma luz firme é-nos lançada pelo

pensar. Esta luz, entretanto, não nos é introduzida pela lâmpada da reflexão. Ela emerge do pensar, (como

ação, sujeito e objeto118) em si mesmo, e só daí.

Kant119 afirma:



O uso transcendental de um conceito, em qualquer princípio, consiste no fato de ser referido a

coisas em geral e em si mesmas; o uso empírico, porém, consiste em ser referido inteiramente a fenômenos,

isto é, a objetos de uma experiência possível. Que, em todo caso, apenas o último possa ocorrer, vê-se do que

se segue. Para todo conceito requer-se, em primeiro lugar, a forma lógica, de um conceito (do pensamento)

em geral e, em segundo lugar, também a possibilidade de dar-lhe um objeto ao qual se refira. Sem esse

objeto, o conceito não possui nenhum sentido e é inteiramente vazio de conteúdo, se bem que possa sempre

conter a função lógica de fazer de eventuais dados um conceito.

Referindo-se aos conceitos puros do entendimento, é ainda Kant quem reconhece 120 que

tais conceitos :

... jamais poderão ter um uso transcendental, mas sempre e somente um uso empírico, e que os

princípios do entendimento puro somente em relação com as condições universais de uma experiência

possível podem referir-se a objetos dos sentidos, jamais a coisas em si mesmas ( sem tomar em consideração

o modo como possamos intuí-las). A Analítica Transcendental possui, pois, este importante resultado, a

saber, que o entendimento a priori jamais pode fazer mais do que antecipar a forma de uma experiência

possível em geral e, visto que o que não é fenômeno não pode ser objeto algum da experiência, (daí decorre)

que o entendimento não pode jamais ultrapassar os limites da sensibilidade, dentro dos quais unicamente

podem ser (identificados ou reconhecidos) dados objetos .

Kant reitera, antes de identificar o que lhe parecem ser phaenomena e noumena, que o



pensamento é a ação de referir uma intuição a um objeto.

Gardner121 ensina:



Em sua forma mais enérgica a teoria das inteligências múltiplas postula um pequeno conjunto de

potenciais intelectuais humanos, talvez tão poucos quanto( sejam) sete em número, dos quais todos os

indivíduos são capazes em virtude de sua filiação à espécie humana.(...) o que desejo transmitir é que o ser

humano é constituído de modo a ser sensível a determinados conteúdos informativos: quando uma forma

particular de informação é apresentada , vários mecanismos no sistema nervoso são disparados para

desempenhar operações específicas sobre ele. E, a partir do uso repetido, da elaboração e da interação

entre estes vários mecanismos computacionais, enfim fluem formas de conhecimento que prontamente

denominaríamos "inteligentes".

116 Platão, Timeu, 38.

117 HEIDEGGER, Martin (1889-1976). What is called thinking? New York: Harper and Row Lib.,1999.

118 O que está entre parêntesis foi inserido, como explicação, pelo autor.

119 KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura . São Paulo: Nova Cultural, 1999, p. 202.

120 KANT, idem, p. 206.

121 GARDNER, Howard. Estruturas da mente. A teoria das inteligências múltiplas. Porto Alegre: Artes Médicas, 1994. p 214 e seguintes.


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