Gustavo Korte


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Metodologia e Transdisciplinaridade Gustavo Korte

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Atentos a tais diferentes abordagens somos levados a supor que a denominada visão



holística, conseqüente ao significado de holismo, tem muito a ver com a estruturação das formas

de pensar e das idéias bem como com os vários métodos que levam ao conhecimento.

O misticismo, o empirismo, o pragmatismo, o racionalismo, o autoritarismo, o ceticismo,

a amorosidade e o intuicionismo mostram-se compatíveis em todos os processos cognitivos,

tendo por horizontes os espectros sinalizadores da visão holística transcendental, por meio de sua

aplicação combinada.

Chegamos mesmo a vislumbrar a ação convergente de forças mentais que estruturam

formas de pensar em pensamentos conducentes à visão de conjunto holístico. Tal ação

convergente torna-se perceptível por um processo de integração gestáltico, totalizado e

globalizado.



25 - Humanismo e entendimento holístico

Diante dessas considerações e leituras, somos levados a supor, com aparente razão, que o

conhecimento holístico pode também ser-nos propiciado pelos métodos do racionalismo e do

empirismo, sem desprezo pelos demais caminhos sugeridos pelos já anteriormente mencionados

autoritarismo e misticismo.

De uma forma mais simples, somos levados a pensar que a partir do estudo de alguns

elementos integrantes de um conjunto poderemos, quiçá, enunciar o que supomos serem as leis

que regem e submetem todos os elementos desse conjunto.

Usando a linguagem matemática, somos levados a crer que a integral suprema de todas as

funções, variando desde o menos infinito ao mais infinito, sugere a idéia do Todo. Por essa

mesma linha de pensar, obedecendo à relação razão-sensação, talvez possamos futuramente

anunciar que, a partir de um sistemático processo de integração de nossa s sensações

contingenciais, geradoras dos conhecimentos empíricos, poderemos ter acesso ao conceito de

conjuntura holística, por si mesmo subordinado tão somente à idéia de tempo não fragmentado,

único, comum ao Universo, designado pelos gregos como ayon.

Assim, torna -se mais fácil captar o significado da afirmação de Bassarab Nicolescu, acima

citada, ou seja, que a coexistência entre o mundo quântico e o mundo macrofísico, levaram, no

plano da teoria e da experiência científica, ao aparecimento de pares de contraditórios

mutuamente exclusivos, o que não é nada mais nada menos que o cerne dualístico do pensar

humano fragmentado, que tem suas origens marcadas no primórdio da sistematização dos

pensamentos míticos religiosos dos magos persas (entre 5000 a.C. e 600 a.C.)

HUSSERL122, quando aborda o idealismo transcendental, observa:

... Prossegue-se, portanto, muito razoavelmente: tudo o que existe e vale para mim “para o homem”



- existe e vale no interior da minha própria consciência; e esta última, na sua co nsciência do mundo, assim

como na sua atividade científica, não sai de si própria. Todas as distinções que estabeleço entre a

experiência autêntica e a experiência enganadora, entre o ser e a aparência, completam-se na própria esfera

da minha consciência, da mesma maneira quando, num grau superior, distingo entre o pensamento evidente e

o pensamento não-evidente, entre o necessário a priori e o absurdo, entre o que é empiricamente verdadeiro

ou falso. Ser real de uma maneira evidente, ser necessário para o pensamento, ser absurdo, ser possível para

o pensamento, ser provável, etc. são apenas características que aparecem no domínio da minha consciência

do objeto intencional em questão. Qualquer prova e qualquer justificação da verdade e do ser realizam-se

inteiramente em mim, e o seu resultado constitui uma característica do cogitatum do meu cogito.E aí é que

reside o grande problema. É compreensível que, no domínio da minha consciência, no encadeamento dos

motivos que me determinam, eu chegue a certezas, até a evidências constrangedoras. Mas como é que todo

este jogo, desenrolando-se na imanência da minha consciência, poderá adquirir uma significação objetiva?

122 HUSSERL, Edmund. Meditações cartesianas. Porto: Rés. s/d. p. 108.



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Como é que a evidência (a clara et distinta perceptio ) poderá pretender ser algo mais do que uma



característica da minha consciência em mim? É aí (excetuando a exclusão da existência do mundo que talvez

não tenha tão pouca importância) que reside o problema cartesiano que devia resolver a veracidade divina.

Os vedas repeliam as amarras do pensar dualístico, enquanto os persas, com Zoroastro,

consolidam e justificam o pensamento dualístico nos prolegômenos de suas crenças mitológicas.

No zoroastrismo, os persas partiam da afirmação da existência em oposição belicosa entre luz e



trevas, como o primeiro par de contraditórios mutuamente exclusivos. Daí o dualismo entre

Ahura Mazda (Ormuzd), o deus da Luz, e seu irmão, Ahriman, deus das Trevas, forjado no

conceito empírico dos fenômenos luminosos e, posteriormente ampliado, nos campos da ética,

para forças do bem e forças do mal.

Somos levados a concluir, diante dessas considerações, que a visão holística, muito mais

que um caminho metodológico, é o horizonte aberto aos olhares da integração de diferentes

enunciados, sejam doutrinários ou conjunturais. Tais produtos são obtidos a partir das variadas

leituras pessoais, subjetivas ou que reúnem alguns aspectos de objetividade. As informações não

são necessariamente sistematizadas, mas tão somente propiciadas e abastecidas por dados

conjunturais, ora genéricos ora específicos.

O que designamos e supomos constituir o avanço holístico pelos campos do conhecimento

será tanto mais digno de crédito quanto mais alta for a hierarquia intelectual em que esteja

situado o nível da autoridade pensante atribuído aos compiladores das informações.

Essas leituras, às quais é atribuída autoridade intelectual suficiente para fundamentar

nossas crenças, são eleitas como pontos de referência, definidos e conceituados a partir da

experiência cognitiva, peculiar à espécie humana. Sob este enfoque antropocêntrico, o holismo e

a transdisciplinaridade provocam não apenas uma abordagem ampla, genérica e incontida nos

limites do conhecimento racional, mas sugerem uma ressurreição do Humanismo, vivenciado na

Grécia Clássica, nos Orientes Médio e Extremo, pelas culturas avançadas do norte da África,

pelos europeus no Renascimento e nas manifestações culturais nas Américas, tanto pré como pós

Colombo.


Para apenas citar um dos pensadores modernos, em Husserl123 o fluir do pensamento,

como fenômeno referente ao conhecimento, sugere um humanismo moderno.

Cabe também observar que a proposta holística para a abordagem do conhecimento está

revestida do mesmo humanismo sustentado por Protágoras124 na Grécia Antiga. Para o sofista

grego, era justo afirmar que o homem é a medida de todas as coisas. Esse entendimento foi

revivido, na fase renascentista, por Pico de la Mirandola 125 (1463-1494 ) e fez-se historicamente

reiterado por Erasmo de Roterdã126 e tantos outros.

Cumpre assinalar que o pensamento holístico tem muito a ver tanto com autoritarismo,

como com misticismo, racionalismo, empirismo, pragmatismo, ceticismo, amorosidade e

intuicionismo, tangenciando, nos momentos seqüenciais, a teoria da Gestalt, sustentada por

correntes da Psicologia.

26 - O racionalismo como método de abordagem do conhecimento

123 HUSSERL, idem,ibidem, p. 108 e seguintes.

124 Protágoras. (485-411 a.C.) , pensador helênico, sofista, objeto de severas críticas formuladas por Sócrates. A refutação dessa afirmação de

Protágoras, encontra-se em Platão, Cratylo (v. KORTE, G. A viagem em busca da linguagem perdida, p. 411.



125 Giovanni Pico de La Mirandola. Filósofo italiano de extrema precocidade, nascido em Módena, no castelo da la Mirandola, autor De Omni Re

Scibili.

126 Erasmo, de Roterdam (1437-1536). Filósofo humanista nascido na Holanda, autor de O elogio da loucura. Manteve-se contra a Reforma

Luterana. Viveu em Basiléia, Suíça, onde veio a morrer. Era muito relacionado com Thomas Moore, político e filósofo inglês (Utopia). Sua

biografia, associada à de seus contemporâneos, faz crer que, durante sua estadia em Oxford, na Inglaterra, integrou o grupo de intelectuais

precursores da Reforma Anglicana promovida por Henrique VIII (1491-1547).

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O verbete racionalismo127 prende-se à idéia de explicar os fenômenos fundamentados



razão. Refere-se também à atividade do espírito de caráter puramente especulativo. Na Filosofia o

verbete designa a doutrina segundo a qual tudo que existe tem origem num fato ou ação geradora,

ou seja, nada existe sem uma razão de ser. A partir deste entendimento, todo conhecimento

verdadeiro decorre necessariamente de princípios causais, a priori, por si mesmos necessários,

embora nem sempre muito evidentes. Razão, por sua vez, diz respeito sempre, e necessariamente,

a uma relação entre, pelo menos, dois elementos.

Platão informa que o sacerdote egípcio ensinara a Sólon:

De todos os seres, com efeito, o único ao qual convém possuir inteligência é a alma. Ora, este ser é

invisível, enquanto o fogo, a água, a terra e ar são corpos visíveis. Quem for possuidor de inteligência e de

ciência, colocará as causas que dizem respeito à natureza racional no primeiro nível de suas investigações,

pois essas são as causas dos fenômenos gerados por outros antecedentes, que por sua vez transmitem

(comunicam) necessariamente o movimento a outros efeitos128.

Cronologicamente, designa-se razão a expressão necessária e suficiente que anuncia a

relação entre o antecedente e o conseqüente. Nas ciências empíricas, designa -se razão a

expressão necessária e suficiente que identifica a relação causa - efeito que rege o fenômeno. Na

matemática, razão é expressão numérica, algébrica ou figurativa revestida de necessidade e

suficiência, que define a relação entre duas representações numéricas, geométricas ou meramente

simbólicas.

Usualmente, a idéia de razão parece estar está sempre contida numa relação verbal ou numérica,

cujas características essenciais são necessidade e suficiência. Assim, a linguagem definida na lógica

discursiva sujeita-se a expressões verbais que obedecem à razão verbal, o que significa dizer que há uma

relação necessária entre a estrutura do discurso e de suficiência nas relações que nele se contêm. Da mesma

forma, na linguagem codificada pela lógica em que se aceitam como válidos os conhecimentos físicos e

matemáticos, as relações numéricas estão sujeitas a regras de possibilidade, probabilidade, compatibilidade,

coerência, necessidade e essencialidade. Convém, nesta oportunidade, fixar o que entendemos por relação.

Designa-se relação a ligação que se expressa de uma idéia com outra idéia; de uma coisa com outra coisa; de

uma idéia com uma coisa; de uma pessoa com uma idéia, de uma pessoa com uma coisa. A razão empírica,

portanto de natureza sensível, revela a ocorrência de uma certa resposta a um determinado estímulo em que o

fenômeno é verificado pelos órgãos sensoriais. A razão abstrata, de natureza imaterial e não sensitiva, é

expressa por relações numéricas ou lógicas, resultantes de convenções lingüísticas, sejam matemáticas,

plásticas ou discursivas.

A característica fundamental aportada pelo verbete relação é sempre a expressão

numérica, fática, material, real, imaginária ou fictícia, por vezes tão-somente discursiva,

numérica ou projetada, de uma ligação entre duas ou mais entidades, sejam elas concretas, ou

abstratas, imaginárias ou fictícias.

Assim como quantidade e qualidade, relação é geralmente entendida como um termo

básico ou categoria. Mas seu significado, como outros, não pode ser definido. Relação é, talvez, o

protótipo de uma noção indefinível. Como apontou Bertrand Russell, parece impossível

estabelecer alguma assertiva acerca do que é relação sem usar a noção de relação ao fazê-lo. Cada

termo que é essencialmente relativo parece algo incapaz de ser definido. Seu significado não

pode ser estabelecido sem referência a seu correlativo; e desde que a menção deste último

reciprocamente envolve o primeiro como seu correlativo, cada membro de um par de termos

correlativos projeta-se sobre o outro para sua compreensão. Uma parte é uma parte de um todo;

127 No Le Petit Larousse, a palavra racionalismo sugere as idéias de: a) doutrina segundo a qual tudo que existe pode ser explicado por forma que

não seja alheia à razão humana; b) sistema de pensar segundo o qual os fenômenos do Universo decorrem de um conjunto de causas e de leis

acessíveis ao ser humano; c) disposição do espírito que só dá valor à razão e ao raciocínio; d) tendência arquitetônica francesa que dá primazia à

estrutura e à função sobre o tratamento formal e decorativo.

128 Platão, Timeu,46.



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um todo é um todo formado por partes . Semelhantemente, o significado de pai envolve a noção



de criança e a noção de criança envolve a de pai 129.

Observe-se que quando falamos de uma linha não imaginamos uma linha que tenha uma única

extremidade. Concebemos sempre, além do ponto de início, a primeira ponta, pois, se a linha for infinita,

quando menos, teremos de considerar os pontos sucessivos pelos quais ela é reconhecida. A imagem da idéia

contida na linha de pensar implica sempre na existência de quando menos dois pontos distintos. À idéia que

liga dois pontos imaginários de uma linha de pensar corresponde o mais elementar significado contido no

verbete relação.

Razão130 é uma expressão que indica uma linha de pensar, cujas extremidades ligam os

objetos relacionados. Nos mecanismos do pensamento a razão é considerada como um



instrumento intelect ivo que identifica e possibilita tornar objetivas as relações.

Entende-se por instrumento lógico o pensamento (idéia, linha ou forma de pensar)

traduzido em expressão matemática, seja numérica, geométrica ou simbólica ou fenomenológica,

expressão discursiva ou expressão comunicativa de qualquer outra natureza (plástica, pictórica,

corporal, auditiva, gustativa, tátil etc.).

Nós dispomos, em nossa memória, para uso na linguagem cotidiana, de um estoque de

expressões abreviadas. De fato, no geral, são locuções usadas na comunicação discursiva,

visando possibilitar a identificação e o reconhecimento do significado que se quer transmitir.



Animal racional, criança feliz, mortal irracional são expressões desse tipo. Em geral animal

racional dirige-se ao ser humano, pois muitos aceitam que só os seres humanos são dotados de

racionalidade. Criança feliz aporta o significado gravado em nossas memórias e diz respeito aos

momentos felizes de nossa infância. Mortal irracional projeta a idéia de que nos referimos a um

ser vivo, e portanto mortal, mas não humano, porque irracional.

A razão inclui- se como elemento necessário e suficiente no conjunto que expressa a

forma de pensar. O problema que nos leva a identificar o significado de razão como elemento

necessário e suficiente dos conjuntos formados pelas vias do intelecto, visa reconhecer e

identificar quais são os outros elementos que integram o conjunto- universo em que nós nos

situamos, seja teórica ou praticamente. De fato, a cada um desses conjuntos-universos que nos

são propiciados pelas formas do entendimento corresponde pelo menos um diferente nível de

realidade, e via de conseqüência, um método que lhe diga respeito.



Logos, no grego clássico, aporta a idéia da razão teórica, que tudo explica e contém em mesma. Com

este significado totalizador, de razão universal que se contém em si mesma, os primeiros tradutores da Bíblia

trouxeram do grego para o latim o verbete logos, traduzindo-o por verbum. Daí que, na expressão contida no

início do Evangelho segundo João: No princípio era o Verbo, e o Verbo era Deus, e o Verbo estava com



Deus, Deus era e é a Razão Primeira e Maior, que se contém e se explica em Si e por Si mesma. Nous,

também do grego clássico, traz-nos o significado de razão prática, ou seja, razão que é comprovável no

mundo empírico, das experiências sensíveis.

Procedemos mediante a memorização dos conjuntos obtidos, reconhecendo e escolhendo

os elementos, e assim compondo o campo cultural segundo o qual nos integramos ao Universo. O

uso da razão é, reconhecidamente, um desses métodos. Admitimos que podemos conhecer

quando recorremos a métodos e processos pelos quais organizamos os nossos pensamentos.

Nesse percurso encontramos um tecido de idéias em que passamos a acreditar porque o temos por

explicado e justificado. E, aos menos cautelosos, pode parecer fácil prosseguir simplesmente

trançando as linhas de pensar, formando os tecidos com que procuramos reunir o que designamos

por conhecimentos. Todavia a razão que nos é ensinada pela lógica, exige, além da

129 Vide The Great Ideas: a syntopicon. London:Britannica, 1952, Vol. II, cap. 78, p. 569.

130 É recomendável, a esta altura, consultar diferentes glossários sobre pos significados contidos nesse verbete. Há,pelo menos, trinta significados

transmitidos pelo verbete.



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compatibilidade e coerência, ainda requisitos de extensão, natureza, ordem de grandeza e



oportunidade que devem ser atendidos.

Conhecer tem raiz etimológica no prefixo latino cum acoplado ao verbete de origem grega gnose,

por sua vez correlato a nous, que deu o verbo latino nosco,is,vi,tum,ere, traduzido com o significado de ação



para alcançar a razão prática, ou seja, ação para chegar à explicação empírica, comprovável pelos sentidos,

que serve objetivamente a mais pessoas. Cum+noscere resultou no verbo latino cognosco que, no vernáculo,

foi assimilado por conhecer, trazendo o significado de chegar acompanhado da razão explícita ou implícita

que define o fenômeno. Ou seja, não há conhecimento quando ele é totalmente subjetivo, originário e portado

por um único ser humano. Só há conhecimento se ele é comunicado, levado a outros ou partilhado com

alguém. Conhecimento , etimologicamente, pressupõe necessária e expressamente, a relação prática ou teórica

surgida entre dois seres humanos quando eles coincidem na identificação e reconhecimento de mesmo

fenômeno.

Diz-se conhecimento abstrato o que se refere a relações entre formas de pensar. Diz-se

concreto o conhecimento pelo qual são identificadas ou reconhecidas relações empíricas,

comprováveis pelo mundo sensível. Conhecimento fictício é aquele anunciado pelas hipóteses

intelectivas. O conhecimento fictício pode ou não vir a tornar-se real, sensível. Mas pode também

ser ou tornar-se, por natureza, total ou parcialmente abstrata.



Todos os homens são mortais, Sócrates é homem, logo, Sócrates é mortal - é o exemplo clássico do

silogismo mais elementar e, pela obviedade da conclusão, a ninguém é dado contestar a verdade nele contida.

Observemos o que ocorreu neste caso. Aceitamos como verdadeiro o enunciado da primeira razão, expressa

na relação todos os homens são mortais. A experiência, reunida no empirismo , ensina que, de fato, os homens,

sem exceção, são mortais . Adotamos como verdadeira a razão expressa na relação entre os designativos

Sócrates e homem, porque o nome Sócrates refere-se supostamente a um ser humano. De fato, o designativo

poderia referir-se a outro ser qualquer, animal ou vegetal, fictício, abstrato ou concreto, passado ou futuro.

Todavia, neste caso, a tradição, os usos, os costumes e os conhecimentos que herdamos e cultivamos, nos

levam a receber o significado do designativo como referindo ao filósofo grego Sócrates. Porque ambas as



razões correspondem a relações que não são questionadas, e que aceitamos como verdadeiras, sentimo -nos no

direito de expressar uma nova relação, agora entre Sócrates e a mortalidade, e concluímos: logo, Sócrates é



mortal. Assim, partindo de duas relações anteriores, tomadas como expressão de duas razões, supostamente

verdadeiras, designadas no estudo do silogismo por premissas, chegamos a uma terceira razão, como

expressão de uma outra relação que, em Lógica, é designada conclusão.

Até aqui, não tivemos problemas porque não foi preciso preocupar-nos com a extensão

dos termos. Vejamos, no exemplo clássico seguinte, o que ocorre. Todos os patos são bípedes,

todos os homens são bípedes, logo, todos os patos são homens. A primeira razão corresponde à

uma verdade. A segunda razão também é verdadeira pois é aplicável para o genérico da espécie

humana. Todavia há evidência sensível e intelectiva de que a terceira razão não corresponde a

uma relação verdadeira entre homens e patos, o que nos leva a questionar o quê está errado nesse

conjunto de razões. Neste caso, as três razões procuram identificar as relações verbais

discursivas que fazem referência a imagens trazidas pelas nossas experiências no mundo sensível

e cujo teor de verdade ou falsidade é fácil discernir.

Em formulação diversa, podemos usar relação (razão) de mais difícil constatação no mundo da

experiência sensível, tal como: "todos os homens são integrados por moléculas, todos os patos são integrados

por moléculas; logo, todos os homens são patos". De fato, em função das limitações de nossa acuidade

sensorial, ao ser humano não é dado ver, sentir ou identificar, pelos órgãos sensoriais, a existência de

moléculas. Todavia, a terceira razão, ou seja, a conclusão do raciocínio acima, nos leva a perceber

empiricamente, por constatações próprias das relações diárias, que podemos ser levados a conclusões

equivocadas. O que ocorreu? No enunciado das terceiras razões destes falsos raciocínios nós não seguimos as

regras do silogismo, ou seja, nós nos desviamos das regras verbais da lógica formal, referentes à natureza,

extensão e oportunidade que devem reger a construção de idéias e formas de pensar. Lógica é, pois, o campo

do conhecimento humano que cuida das regras da construção, coerência e compatibilização verbais e

numéricas, enunciando-as e estudando-as.


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