Gustavo Korte


Necessidade e contingência



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29. Necessidade e contingência

Necessidade e contingência expressam duas naturezas de fenômenos. Necessários são os

fenômenos indesviáveis, que não deixam de ocorrer, e que, enquanto procedimentos éticos, estão

expressos no significado de deve, dever ser ou dever fazer.

O verbete necessário traz também uma conotação de destino, de fatalidade,



imperatividade do que é imposto pela natureza, pela força com que esta atua sobre os elementos

do conjunto-universo em que somos reconhecidos e identificados como elementos.



Necessária é a qualidade ou atributo que identifica, integra ou inclui o elemento do

conjunto-universo em que é reconhecido. Necessário é também o significado pelo qual o

elemento é excluído de um co njunto. Ou seja, necessário é o atributo que diz respeito à natureza

do objeto para que este exista, co-exista ou seja classificado como elemento dentro ou fora de um

ou mais conjuntos.

O ser humano é necessariamente gregário? O ser humano pode deixar de viver em sociedade? Caso a

expressão ser gregário revele apenas uma possibilidade, seu significado inclui-se em uma contingência, mas

não de uma necessidade. Necessariamente o ser humano é mamífero e vertebrado. Contingencialmente o

138 David Hume (1711 -1776), filósofo e historiador, nascido em Edimburgo, na Escócia, um dos baluartes do empirismo filosófico, é

autor do Ensaio sobre o entendimento humano.



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homem pode ser honesto ou vigarista, padre ou pedreiro, homo ou heterossexual, médico ou enfermeiro.



Necessariamente, como seres humanos, somos todos mortais, pois a natureza humana é a dos seres vivos que

morrem. Contingencialmente podemos ser ou tornar-nos dominantemente racionais ou emotivos.



Necessidade vem do latim necessitas, tis, como substantivo feminino, aportando os

significados de inevitabilidade. Assim, é inevitável que o mamífero seja filho de pai e mãe, o que

implica dizer que para o nascimento de um ser humano a filiação é uma necessidade. O grau de

parentesco também é indesviável e, portanto, o parentesco é uma condição necessária que não

pode ser removida.

Amigos a gente escolhe, os parentes a gente nasce com eles. Este adágio popular ensina

que os amigos são contingentes, os parentes necessários. As raízes etimológicas do verbete



contingência nos fazem entender a necessidade deste conceito quando tratamos de empirismo e

racionalismo como métodos de conhecimento. As regras do empirismo sugerem contingência.

As do racionalismo, por sua vez, induzem à necessidade.

Em contingência percebemos pelo menos três significados: o primeiro diz respeito ao que

é incerto, que pode ou não suceder;. o segundo aporta uma idéia de competência, daquilo que

cabe a cada um fazer, mas que pode ou não ser realizado em função do que vier a ocorrer; e o

terceiro refere-se a coisas e fenômenos sob qualquer aspecto de existência, como podendo ser ou

não ser. Quando nos referimos ao que é contingente, usamos a proposição cuja verdade ou

falsidade só pode ser conhecida pela experiência futura e não, previamente, pelos artifícios da

razão.

O verbete contingência carreia outros significados tais como cota, quinhão. e também se reporta, na

linguagem militar, à quantidade de homens incumb idos de executar determinada missão. Na linguagem dos

economistas, refere-se às reservas de contingência em relação a produtos importáveis ou exportáveis.

Etimologicamente, tais significados nos chegam ou pelo verbo conter ou pelo verbo

contingenciar, ambos de origem no latim, mas trazendo o prefixo grego koinh (?l ê-se koine) com

o significado daquilo que existe em comum.

O verbo latino contineo, es, ui, entum, inere é traduzido para o vernáculo com

significados referentes a uma relação de potencialidade: continência, posse, vizinhança e

aproximação: a uma relação de ação de omissão: dissimular, calar; a uma relação de oposição:

reter, reprimir, repelir; a uma relação de dependência: consistir em, depender de; a ma relação de

tempo: perpetuar, parar, interromper, obstar. Recebemos assim, por estas raízes, a idéia de que o

verbo conter expressa sobretudo uma relação de tempo presente, situada entre poder e

possibilidade de realizar esse potencial, por isso que se relaciona à idéia contida em contingência.

O verbo latino contingo, is, tigi, tactum, ere, aporta para o vernáculo significados tais como o

sentido de ação futura, contingente: tocar, apalpar, alcançar; o sentido de relação presente, revelando situação

de fato, anunciando possibilidade: estar contíguo. Impõe-se conferir o conteúdo da palavra contingência com

os significados dos verbetes acaso e acidente, que por vezes traduzem significado de contingência e, por

vezes, de necessidade. Acaso , significando contingência, diz respeito a um conjunto desconhecido de causas

geradoras; com significado de necessidade, relaciona-se ao que é indesviável, ao que alguns entendem por

destino. Acidente, etimologicamente, vem do latim accidens, tis.. A composição etimológica carreia também o

significado do que ocorre inesperadamente, acompanhando a ação e o movimento resultante da contingência.

Devemos observar que os designativos necessidade e contingência estão intimamente

vinculados às idéias de tempo, espaço, propriedade, natureza, oportunidade, duração,

conve niência e lugar.

Ao procurar esclarecer o significado contido em contingência e necessidade Kant

escreveu139:

139 KANT, I. Crítica da razão pura. São Paulo: Nova Cultural, 1999. p. 206.



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... que entendeis por contingente? E respondeis: aquilo cujo não-ser é possível. Assim eu gostaria de



saber em que quereis reconhecer esta possibilidade do não-ser, se não vos representais uma variação. Com

efeito, que o não -ser de uma coisa não se contradiga a si mesmo, é um apelo vinculado a uma condição

lógica que, na verdade, é necessária para o conceito, mas não é nem de longe suficiente para a possibilidade

real; do mesmo modo, posso eliminar em pensamento toda substância existente sem contradizer-me a mim

próprio, mas nem por isso, de modo algum, (posso) concluir a contingência objetiva de sua existência, isto

é, a possibilidade do seu não -ser em si mesmo. (,,,) Sempre que se quis extrair a definição da possibilidade de

existência e necessidade unicamente do entendimento puro, ninguém pôde explicá-las de outro modo a não

ser mediante uma evidente tautologia. Com efeito, a ilusão de tomar a possibilidade lógica do conceito ( já

que ele não se contradiz a si mesmo) pela possibilidade transcendental das coisas ( já que ao conceito

corresponde um objeto), pode enganar e contentar somente pessoas inexperientes.(,,,) A Analítica

Transcendental possui, pois, este importante resultado, a saber, que o entendimento a priori jamais pode

fazer mais do que antecipar a forma de uma experiência possível em geral e, visto que o que não é fenômeno

não pode ser objeto algum da experiência, que o entendimento não pode jamais ultrapassar os limites da

sensibilidade, dentro dos quais unicamente podem ser-nos dados objetos. As suas proposições fundamentais

são meramente princípios da exposição dos fenômenos, devendo o soberbo nome de ontologia - a qual se

arroga o direito de fornecer em uma doutrina sistemática conhecimentos sintéticos sobre coisas em geral

(por exemplo, o princípio da causalidade) - ceder lugar ao modesto nome de uma simples analítica do

entendimento puro.

Impõe-se-nos constatar que necessidade e contingência só podem ser comprovadas por

meios indicados pela experiência quando esta é ditada pela percepção das sensações.

Necessidade e contingência definem atributos a priori que devem ser tomados como

essenciais nas abordagens do conhecimento em que se distinguem sujeito e objeto. Importa saber

quanto ao sujeito e ao objeto se :

a) ambos são necessários;

b) são ambos contingentes;

c) se algum dos elementos pode ser dispensado para a apreensão do conhecimento.

As respostas corresponderão às opções na abordagem do conhecimento, possibilitada por

metodologia simples ou complexa, inter, pluri, multi ou transdisciplinar.



30- O empirismo e o racionalismo na abordagem do conhecimento

É fácil reconhecer o avanço tecnológico e científico nos últimos dois séculos. Os

resultados expressam, talvez, o mais alto momento das aptidões técnicas e da inteligência

humanas. De fato, a partir da racionalização e da sistematização de observações e informações, a

humanidade progrediu, em grande parte, devido à organicidade de seus sistemas no

aproveitamento das estruturas sociais e coletivas.

Foi nesse proceder que racionalismo e empirismo, por caminhos próprios, mas que se

cruzam e entrelaçam, vieram corroborando as supostas verdades sobre as quais nós temos por

fundamentadas e justificadas as nossas crenças científicas. Nem autoritarismo nem misticismo,

por si sós ou combinados, produziram um corpo de (supostas) verdades tão sólido, coerente e

extenso como o que resultou da conjunção metodológica entre empirismo e racionalismo.

A afirmação do atual Dalai Lama 140 evidencia a simbiose141 entre racionalismo e

empirismo:

... É sem dúvida verdadeiro que podemos apontar uma profusão de tendências fortemente negativas

na sociedade moderna. Não há como negar o aumento progressivo dos casos de assassinato, violência e

estupro ano após ano. (,,,) Quando os examinamos, verificamos que são todos problemas éticos...

140 DALAI LAMA. Uma ética para o novo milênio. Rio de Janeiro: Sextante, 2000. pp. 26 e 27.

141 Simbiose. No sentido figurado, em que a associação de dois métodos aproveita aos resultados de ambos. A palavra integra a linguagem das

ciências biológicas, e tem origem no grego symbíosis, que significa vida em comum com outro (s). O verbete é substantivo feminino que, em

Biologia designa o conjunto definido pela associação de duas plantas ou de uma planta e um animal, em que ambos os organismos recebem

benefícios, mesmo quando essa troca ocorre em proporções diversas.



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O trecho original do qual foi recortada a citação acima contém o relato do que seja o



conhecimento advindo da experiência social do escritor, parte dela informada pelos relatos de

jornais e órgãos de imprensa, ou seja, pelo empirismo de outrem. A seguir vem a proposta do



racionalismo em face desses fatos:

... Entretanto, por natureza, a satisfação que o ganho material nos oferece está limitada aos

sentidos. Isto seria ótimo se nós, seres humanos, fôssemos iguais aos animais. Porém, dada a complexidade

de nossa espécie - em especial o fato termos pensamentos e emoções, bem como a capacidade de imaginar e

de criticar -, é óbvio que nossas necessidades transcendem o que é meramente sensual...

O Dalai Lama entende os fenômenos éticos como sendo vinculados às relações entre

causa e efeito (racionalismo), ou seja, de acordo com o princípio da causalidade. Sugerida pelo

empirismo, essa compreensão exige, discursivamente, relações entre empirismo e pragmatismo,

identificando, na seqüência, as causas dos ganhos materiais como sendo geradas no descaso do

homem pela sua dimensão interior. No final, prosseguindo nessa linha sup ostamente racional, o

líder tibetano acena com o pragmatismo idealista, coroando a necessidade do racionalismo e do

empirismo na composição do conhecimento: (...) Também não existe uma idéia de pura sensação sem uma



experiência cognitiva correspondente142.

A título de sugestão, para melhor compreensão deste tópico, seria de grande valor a abordagem

comparativa dos pensamentos de Descartes, Spinoza, Leibnitz, Dalai Lama, Karl Marx, Emmanuel Kant,

Augusto Comte e Emil Dürkheim, procedimento esse que, de nossa parte, nesta fase, escapa aos limites desta

proposta metodológica.

31 - Antagonismo e simbiose entre empirismo e racionalismo

As ciências sociais, quando procuram as regras que ditam o ajustamento dos indivíduos às

condições sociais, não são frutos apenas do empirismo e do racionalismo. As linhas de pensar a

que recorrem indicam forte oposição entre a educação dominantemente racional e o aprendizado

por meio do empirismo. O racionalismo sujeita-se a regras que instrumentam a lógica verbal

discursiva tanto quanto as razões matemáticas. Todavia, as deficiências humanas na objetividade

das observações, bem como a duração dos fenômenos empíricos, reduzem o processo empírico às

apreensões sensoriais, sendo notório que estas são captadas por meio de formas de percepção de

incontestável subjetivismo.

Cabe transcrever, nesta oportunidade, o que o racionalismo gnóstico nos deixou por Ibn

Arabi, um dos maiores pensadores sufis143. Por este são abordados os efeitos do pensamento

racional em face da experiência sensíve l. O Tratado da Unidade144 (Risalatul Ahadiyah) é

testemunho significativo do pensamento sufi:

... a idéia de si mesmo, que cada homem forma em sua mente, ou a idéia de si mesmo a que cada



homem dá contornos em seus estados de consciência, em tempos distintos, é uma idéia equivocada em

relação ao que comunica e transmite em seu contexto.

Na seqüência dessa linha de pensar talvez seja mais próprio reconhecer que a imagem que

fazemos de nós mesmos é sempre uma idéia e, como idéia, corresponde a um equívoco na

medida em uma idéia nunca é nem corresponde a uma realidade, pois, enquanto idéia não passa

de reflexo, abstração, simplificação ou redução projetada, ou se já, a idéia é uma apreensão

reduzida do que supomos ser realidade.

142 DALAI LAMA. Uma ética para o novo milênio . Rio de Janeiro: Sextante, 2000. p. 42.

143 Sufi. Seita mística islâmica, que acredita na gnose como resultado do conhecimento. Teve grande expansão no século XIII, inclusive com

efeitos sensíveis no Islamismo, especialmente hispânico e no iinduísmo.

144 IBN EL-ARABI, Muhiyuddin. (1164 - 1240) Tratado de la Unidade. Málaga : Sírio,1987. p.7. Muhiyuddin Ibn El-Arabi, chamado entre os

árabes “o maior dos mestres espirituais”, nasceu em Múrcia, em 1164 e morreu em Damasco, em 1240, quando eram completados cerca de quatro

séculos de dominação árabe sobre a Península Ibérica. Entre os atributivos pelos quais Ibn Arábia é literariamente reconhecido figuram o de “o

Andaluz” “o vivificador da Religião”.

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Daí merecermos, em lembranças, as recomendações do poeta Rumi 145:



... dever-se-ia buscar a lua no céu e não no mar. Em troca, o si-mesmo real é a “gnose, ou seja o

conhecimento de Alá”, mas não o que nos é trazido pela mente como idéia, de que não temos imagem porque

é inimaginável. O conhecimento íntimo, de cada um por si mesmo, é claro que não deve ser extinto, mas deve

ser vivificado, despertado e reconhecido como igual a si mesmo146.

Nas linhas de pensar sugeridas pelo Mestre Sufi, é essa idéia de si mesmo que, por ser idéia e



por ser equivocada, deve ser extinta. Pelo mesmo motivo que provoca a faz buscar a realidade, a

mente rechaça a imagem que, em substituição, lhe é oferecida.

As classificações do que supomos conhecimentos têm irrefutável origem empírica. Ou

seja, decorrem de nossas experiências e de nossas relações com o mundo sensível, de nossas

tradições e dos costumes impostos à viabilização das nossas formas de pensar, sejam elas

individuais ou coletivas.

Carl Lange, fisiologista dinamarquês que, em 1895, acompanhou as idéias de William

James e deu nome à Teoria de James e Lange, por nós anteriormente mencionada, lastreado em

suas crenças empíricas, afirmava que a emoção não é senão a consciência das variações neurovasculares147.

32. Questões a responder

Procuremos, diante do que foi até agora discutido, situar e responder, cada um a seu

modo, questões como as que seguem:

I. No campo das ciências físicas, biológicas ou sociais como concorrem e interagem os

métodos decorrentes do misticismo, do autoritarismo, do pragmatismo, do ceticismo, da

amorosidade e do intuicionismo quando relacionados com o empirismo e o racionalismo? Em

que limites?

II. Para que possamos chegar ao conhecimento tais métodos são necessários ou

meramente contingentes? É contingencial ou in desviável o aproveitamento conjunto ou singular

do que por eles nos é acessível?

III. Como podem ser entendidas a transdisciplinaridade e a holística em face dos

processos pelos quais se desenvolvem os pensamentos? A postura transdisciplinar e a visão

holística são parâmetros necessários ou contingentes na abordagem do conhecimento?

33 - O todo e o reconhecimento das partes

Impõe-se então, num processo lento e diferenciado, reconhecer as artes, os elementos e os

componentes que participam do fenômeno cognitivo. Perde-se a visão gestáltica do todo

sinalizado esporadicamente, e penetra-se no universo dos fragmentos, mediante um processo

arbitrário de tentativa e erro, de abstração, exclusão ou inclusão, em que as partes são

fragmentadas até os limites em que ainda possam ser reconhecidas como tais pelas formas de

pensar.

Projetando este processo de ruptura, Demócrito anunciou o átomo como sendo a menor



parte possível da matéria que ainda conserva as propriedades da matéria. Ou seja, aproximandonos

do significado da Mônada pitagórica, viabilizamos o reconhecimento da Unidade

Fundamental, modernamente designada hólon, dotada de todas as propriedades do Universo. Há

uma imagem de coerência entre essa idéia e a contida no átomo de Demócrito, pela qual é

possível alcançar o conceito fundamental da holística, ou seja, as idéias do anti-espaço e do anti-

145 RUMI, Jalal-Ud-Din. (1207 - 1273), um dos maiores poetas místicos da Pérsia. Depois de acompanhar o pai à Síria, como professor de

teologia, sucedeu-o na profissão. Fixou-se em Konya (Iconia), então cidade conhecida por Rum, daí o seu cognome. Foi discípulo de um

misterioso mestre, no estilo socrático, Shamsudin Mohamed de Tabriz, que, por dois anos, min istrou lições em Konya e em seguida

desapareceu. Rumi entregou-se ao misticismo sufi, corrente de gnósticos em que se tornou o mestre supremo.

146 IBN EL-ARABI, Muhiyuddin. (1164-1240) Tratado de la Unidad.. Málaga:Ed. Sírio,1987. P.50.

147 LANGE, Carl. Les émotions. Paris: Felix Alcan Ed. 1895, p.7.

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tempo contidas no hólon. A idéia de hólon emerge tanto do significado de átomo como da



Mônada pitagórica e, tal nos parece, também da Mônada sugerida por Leibnitz.

Utilizando a mesma linha de pensar que lhes propiciou anunciar, na mônada, a unidade do

Universo, os pitagóricos afirmavam que não há qualidades diferenciadas nos elementos que

integram o conjunto designado Universo. Para essa corrente filosófica, ocorrem somente distintas

combinações de diferentes quantidades de uma mesma coisa, de uma mesma unidade

fundamental. Coisas e entidades como objetos do conhecimento, aparentam diferenças

supostamente qualitativas por expressarem somatórios de quantidades diversas. O que entendem

por qualidade é revelado às formas de percepção tão-somente por diferenças quantitavas de uma

mesma e constante unidade fundamental, ou seja, a mônada.

A crença justificada, adotada como verdadeira pelos pitagóricos, consiste em que as

formas de percepção humanas só estão potencializadas e capacitadas para sentir e perceber

quantidades. Conseqüentemente, só é permitido compreender os fenômenos por meio de

processos sensoriais de quantificação, mediante atribuição de valores quantitativos e definição de

unidades de medida.

Seguindo os pressupostos pitagóricos, a relação de conhecimento entre sujeito e objeto só

pode ser estabelecida se obedecer a uma razão numérica, a regras de permutas, arranjos e ou

combinações de quantidades Assim, para esses iniciados na filosofia, o conhecimento ocorre

quando e enquanto objeto de uma quantificação apropriada, apreendida pelo sujeito da

observação no momento em que é assimilado.

34 - Racionalismo: ruptura ou quebra da unidade

O racionalismo, na medida em que procura fixar os enunciados de razões, sejam elas

causa-efeito, antecedente-conseqüente, anterior-posterior, admite, aprioristicamente, que o sentido

do movimento no eixo dos tempos é único e, portanto, não oferece alternativas. Esta crença ocorre

por falta de experiências comprovadas que indiquem o contrário. De fato, a falta de experiência

contrária não dá nenhuma segurança e nem justifica a crença de que o tempo só anda para frente.

Ibn El-Arabi sugere que:

... Todavia, quando se sabe que esse conhecimento sem dualidade não pode ser aportado pela ação

da mente, porque toda ação da mente é dualidade e, também, quando a ação da dualidade deixou de exercer

sobre a mente a fascinação que exerce, talvez seja dado a alguém desconfiar profundamente da ação da

mente para esse trabalho148.

Nosso espaço relativo corresponde ao conjunto -universo contextual em cuja duração nos

julgamos inseridos. Os ensinamentos do século passado, embora recentes, advindos pelos efeitos

conjugados do racionalismo e do empirismo, nos limites de nosso espaço relativo, entram em

conflito com o que nos vem mais recentemente sugerido pela Física Quântica, quando esta se

dedica ao enunciado das leis que regem os limites inferiores do microcosmo. Mais que isso, no

momento em que procura isolar determinado fenômeno de seu contexto, visando estabelecer as

condições ideais para seu estudo e para a descoberta das leis às quais está submetido, o



racionalismo provoca a ruptura da unidade do fenômeno com o Todo, e rompe a integridade do

contexto em que o mesmo ocorre.

A observação pessoal nos leva ao entendimento dos níveis de ruptura a que o indivíduo

está sujeito nas suas relações com o Universo. As rupturas ficam evidentes em três momentos da

atividade intelectiva, caracterizados pelo objeto das abordagens: o abstrato, o concreto e o

fictício. Ocorre uma ruptura quando o indivíduo abstrai-se do concreto sensível.

148IBN EL-ARABI, Muhiyuddin (1164-1240). Tratado de la Unidade. Málaga: Sírio,1987. p.50.


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