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Metodologia e Transdisciplinaridade Gustavo Korte

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Processando a tomada de consciência de sua individualidade, enfocando o significado



contido em idéias, tais como pensamento, memória, alma, mente, espírito, consciência, dando às

formas mentais o colorido de sentimentos e emoções, de situações e contextos personalizados, de

objetos delimitados, o sujeito assume a postura designada por egocentrismo. Ocorre a ruptura

quando, ao manifestar-se ou materializar-se, a parte se abstrai de sua integração no todo.

Com a presença e sem a abstração do corpo físico, a alma intelectiva destaca-se das

fronteiras amplas da totalidade e identifica-se como elemento de um conjunto. Ocorre, também

aí, nesse momento, um processo de ruptura dentro do Todo. O Uno torna-se Múltiplo.

No mundo do concreto sensível, a definição do campo das experiências em que ocorre o

fenômeno identificado na relação sujeito-objeto tem a mesma conotação: percebe-se a ruptura

consensual que implica, necessariamente, na negação da possibilidade de coexistirem apenas dois

elementos em um conjunto.

A ruptura do Uno, segmentado teoricamente em dois, resulta em um conjunto de pelo

menos três elementos: a) o primeiro, um elemento, como parte do todo; b) o segundo, a outra

parte, sinalizada como outro elemento e c) o terceiro, constituído pelo contexto em que o



primeiro e o segundo se encontram, deve ser definido ou como campo da experiência ou como

universo de manifestação dos elementos. A simples possibilidade de identificação do que é

abstrato, concreto e fictício anuncia a ruptura dos conceitos de Uno, Unidade e Universal.

Platão atribui ao sacerdote egípcio as palavras que traduzem a compreensão do Universo

em duas extensões: no nível da totalidade, ilimitada, identificada no Mesmo, que é sempre igual

a si mesmo, e no nível do que é fragmento, ou seja, do que é limitados e existem enquanto

destacados Mesmo a partir do momento em que adquirem contornos e limites, e passam a

integrar o Outro, sempre fragmento do Todo, e por isso, entende Outro como sendo algo limitado

e restrito 149.

Ubiratan D´Ambrósio refere-se à coexistência simultânea do Eu, a Natureza e o Outro.

Dessa relação inferimos que a simples possibilidade de raciocinar pelos meios abstratos do

procedimento intelectivo e, ao mesmo tempo, experimentar o concreto por meio das formas de

percepção sensoriais, é um anúncio de rupturas entre o que é particular e o que é universal.

A experiência sensível mostra-se estruturada em formulações sugeridas pela razão. Os

elementos de conferência, comparação e identificação são todos ditados pela memória de

vivências anteriores. E, no entanto, tais elementos assumem suas existências num universo

fragmentado por idéias e proposições que sempre apresentam natureza abstrata.

O condicionamento racional leva Kant a enunciar o que entende por razão prática e por

razão pura. Enquanto operários do intelecto ou trabalhadores braçais, trabalhamos com o corpo e

a cabeça. Os primeiros exploram mais as energias vindas dos sistemas neurofisiológicos,

resultantes dos processos mentais; os segundos utilizam pragmaticamente os músculos e as forças

físicas.


Embora isso, diante de tais rupturas, inegáveis em si e por si mesmas, estamos no mesmo

Universo, fruindo dele desfrutando tudo que nos é permitido, em estado consciente ou de

inconsciência.

Então surgem questões tais como: - Há realmente uma ruptura entre o teórico e o prático, entre o



racional e o empírico? Nossas observações são algo mais que uma ficção hipotética, projetada como ruptura,

mas que na realidade jamais existiu, nem como fato concreto nem como abstração?

Se há ruptura ou quebra do Uno, da Unidade e do Universo, poderemos aceitar um

princípio que a experiência da natureza nos anuncia: é o da divisão do trabalho, das energias e

149 Platão, Timeu.



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das individualidades. Esse princípio parece ser dominante no conjunto-universo em que nos



identificamos.

A natureza ensina que os animais gigantescos desapareceram há milhões de anos, e

aqueles que consideramos muito grandes estão em fase de extinção. Da mesma forma, a

densidade demográfica impõe a redução dos latifúndios e a socialização dos bens. Tudo está em

constante fragmentação. A ruptura é a regra dominante. O esfacelamento dos conjuntos, o

rompimento dos limites e a desarticulação das estruturas são reflexos do big -bang anunciado

pelos cientistas. O dinamismo do Universo sugere que os processos de expansão e retração

integram a regra dominante que rege a vida, os espaços e os tempos, especialmente quando

avaliados segundo a ordem de grandeza dos fenômenos vivenciados pelos seres humanos.

Questiono-me:- Que é tudo isso senão o processo empírico revelado na suposta seqüência nascermorrer-

nascer-morrer, que aceitamos como verdade? -Ocorrem, neste conjunto-universo em que recebemos

revelações, somos revelados e em que nos identificamos, as rupturas seqüenciais ou assistimos a simples

continuidade de um processo dinâmico, que nós identificamos como rupturas sucessivas apenas tendo em vista o

aspecto empírico-estático em que projetamos o passado?

35. Autoritarismo, racionalismo e pragmatismo nas ciências médicas.

O acesso aos conhecimentos que envolvem a prática da medicina, tem seus marcos mais

evidentes nas trilhas do autoritarismo, do pragmatismo, do racionalismo e do empirismo. As

informações especificamente científicas ou de natureza enciclopédica são orientadas por visões

multi, pluri, inter e por vezes, transdisciplinares. Se as adjetivamos como sendo verdadeiras é

porque as fontes de que emanam nos merecem crédito. De fato, atribuímos a tais fontes a

condição de competência, propriedade e seriedade, que as ser consideradas autoridades no

assunto.


O autoritarismo a que nos referimos decorre do reconhecimento de que é justo tomar-se

como conhecimento o conteúdo de livros especializados, de informações e de artigos publicados

em revistas, desde que reconhecidas pelas autoridades que trabalham na área como sendo

honestas, competentes e corretas. Tais informações são consideradas como verdadeiras na exata

medida em que resultam de elaborações intelectivas e de pesquisas específicas submetidas à

crítica dos que se dedicam à matéria.

Na medida em que damos crédito a tais informações dispensamos novas provas e

comprovações laboratoriais, passando a acreditar que o conhecimento recebido por essa via

corresponde a uma realidade. Aqui fica, então, revelado o sentido do autoritarismo como método

de conhecimento: é o caminho pelo qual nos damos por satisfeitos com o que recebemos de

fontes de informações às quais atribuímos autoridade sobre a matéria.

Pepperell Montague afirma que, em todos os campos do conhecimento, cerca de noventa

por cento do que julgamos saber ou conhecer chega-nos por autoritarismo.

Etimologicamente, o vocábulo medicina tem origem no verbete latino: medicus, que

corresponde ao que se relaciona ao físico, trazendo o sentido de quem estuda os corpos, isto é,

medicina identifica a ciência e a arte do diagnóstico e do tratamento, prevenindo doenças e

ferimentos. As ciências médicas trazem, intrinsicamente, o propósito, a intenção e o objetivo de

ajudar as pessoas a conseguirem viver mais tempo, se possível mais alegres e menos sofrimentos.

A medicina, enquanto ciência, vai além da cabeceira dos pacientes e transcende o estado

patológico pessoal do enfermo. Os médicos estão envolvidos em uma constante procura de novos

medicamentos, tratamentos e mais avançada tecnologia.

Todavia, o que identifica modernamente a medicina, já não mais diz respeito somente à

ciência e à profissão dos médicos, mas refere-se também a uma atividade negocial, de natureza

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empresarial, acrescendo, neste significado, o pragmatismo econômico aos objetivos científicos e



ao compromisso profissional contido no juramento de Hipócrates.

A medicina, como forma pragmática de ciência, tornou-se parte importante do que pode

ser compreendido economicamente como sendo a indústria dos cuidados com a saúde. Por sua

vez, este ramo de atividade evidencia-se como sendo uma das atividades econômicas mais

rentáveis da atualidade. Situa-se, também, entre os maiores empregadores na maioria das

comunidades.

De fato, as doenças sempre foram inimigas da humanidade. Observa-se que, enquanto

profissão ou atividade econômica, a medicina tem-se modernizado e atualizado. Daí que as

ciências médicas têm, enquanto campos de conhecimento de nível pragmático, propiciado o

desenvolvimento de meios eficazes para prevenir e combater doenças.

A associação dos conhecimentos médicos com informações e trabalhos laboratoriais de

outras ciências tais como biolo gia, zoologia, química, fisiologia, física e farmacologia, tem

resultado na descoberta e produção de vacinas, medicamentos, novas técnicas cirúrgicas e

invenções de novos instrumentos de trabalho. O objetivo utilitarista dessa conjugação de esforços

visa sempre a supressão de deficiências, tanto da saúde pessoal como coletiva, tanto dos

indivíduos como da sociedade. Dessa abertura pragmática de horizontes preventivos e

terapêuticos surgiu uma nova compreensão da utilidade social do saneamento básico e dos

projetos de nutrição escolar. Como acréscimo às conquistas teóricas, foram adotadas ações e

providências governamentais cujos resultados parecem positivos em face dos objetivos humanos

de bem estar.

Os médicos e outros profissionais da saúde usam sinais e pistas para identificar e

diagnosticar doenças, traumas ou lesões específicas. Eles estudam a história clínica dos pacientes,

visando detectar sintomas e doenças anteriores. Obtido o diagnóstico, escolhem o tratamento que,

em função de seus conhecimentos, lhes parece o mais apropriado.

Há tratamentos que resultam na cura do paciente, outros são meramente paliativos, ou

seja, aliviam sintomas sem reverterem o quadro clínico. Diagnosticar doenças e procurar a

melhor adequação terapêutica requerem conhecimentos científicos e capacitação técnica. Isto

leva os profissionais da saúde ao aprimoramento de suas capacidades, motivando utilizar as

habilidades com recurso a caminhos imaginativos.

A experiência ensina que, dentre esses muitos caminhos, a amorosidade, revelada por

afeto, atenção e carinho, constitui um método eficiente para o tratamento e a cura de muitos

males. Sabe-se que a mesma doença pode apresentar sintomas muito diferentes em dois

pacientes, e o tratamento que serve a um deles pode não ter efeito sobre o outro.

O verbete sintoma tem origem na palavra grega symptoma, que significa coincidência, acidente,



acontecimento, ou seja, qualquer fenômeno ou mudança provocada no organismo por uma doença. Os

sintomas descritos pelo paciente auxiliam, em grau maior ou menor, a estabelecer um diagnóstico.

A história dos norte-americanos informa que no início do século XX muitos homens e

mulheres estavam debilitados já na idade de 40 anos. O indivíduo médio, nascido em 1900, tinha

uma expectativa de vida de cerca de 47 anos. Os tratamentos efetivos eram tão escassos que os

médicos podiam carregar todos os medicamentos e instrumentos cirúrgicos em uma pequena

mala. No final do século vinte, os progressos médicos causaram um aumento na expectativa de

vida do mesmo cidadão médio para 77 anos. Os modernos cuidados médicos podem prevenir,

controlar e curar centenas de doenças. As pessoas, hoje em dia, permanecem independentes e

fisicamente ativas até 80 ou 90 anos de idade.

Um observador de nossos tempos anotará que as maletas de mão dos doutores do final do século XIX

deram lugar a modernos equipamentos que integram moderníssimas salas de cirurgia. Cavalgaduras, carroças

e charretes foram substituídas por ambulâncias e carros de resgate, altamente aparelhados.

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A metodologia transdisciplinar aproveita-se dessas informações e impõe que sejam



ordenadas. Pode-se constatar que a visão geral de origem gestáltica, conjuntural ou holística dos

fenômenos citados, é resultante de autoritarismo, empirismo, pragmatismo e amorosidade.

Observa-se, também, que a abordagem mais profunda para avaliação dessas informações deve

ainda ser servida pelos marcos de outros métodos de conhecimento, tais como: misticismo,

racionalismo, ceticismo e intuicionismo.

36 - A reunião de segmentos e a solução racional

Estamos cientes de que a simples possibilidade de identificação do que é abstrato,

concreto e fictício anuncia a ruptura dos conceitos de Uno, Unidade e Universal. Embora esse

fato, seja por tradição, autoritarismo de nossa ancestralidade intelectual ou mera comodidade, é

por nós cultivada a crença de que a reunião de fragmentos pode proporcionar a visão global que

nos levará, com maior probabilidade de certeza, à visão do todo. Esta esperança, de natureza

holística, parece existir em cada um dos que procuram universalizar crenças, ações e

conhecimentos.

O racionalismo, enquanto atua no campo das experiências geradas pelo empirismo, busca

o conhecimento recorrendo, muitas vezes, a um processo de aglomeração de informações. Essas

informações traduzem possibilidades de natureza concreta (fáticas) e possibilidades de natureza

abstrata (compatibilização das idéias referentes a fenômenos e coisas).



Aglomeração é a manifestação de glomérulos. O designativo refere-se ao resultado da ação de

aglomerar, ou seja, juntar glomérulos, partes, unidades ou grupos de coisas, pessoas, entidades ou idéias. Nos

glomérulos cada qual conserva sua natureza e suas propriedades. Aglomeração é uma característica

procedimental tanto da multidisciplinaridade como da pluridisciplinaridade. Formam-se glomérulos de



conhecimento resultantes da aglomeração de disciplinas. Em anatomia designa-se glomérulo um tufo de

vasos sangüíneos ou fibras nervosas. Em botânica, glomérulo diz respeito à inflorescência curta e globosa. A

ação de aglomerar corresponde a um fenômeno em que se constata a existência de um feixe de filamentos,

sejam idéias, coisas ou pessoas, em que se tem um vetor definido por direção, sentido, intensidade e ponto de

aplicação, em que há simultaneidade de duração, mas em que os glomérulos não têm autonomia.

Aglomeração e justaposição traduzem idéias semelhantes, mas não se identificam.

Fidelino de Figueiredo adverte que pela simples justaposição da história das técnicas, das

ciências e da economia não se chega à integração do complexo da história.

Em sociologia, a expressão aglomeração urbana refere-se a qualquer agrupamento



urbano, seja no que diz respeito a casas como também a pessoas que se ajuntam,

independentemente de princípios ordenatórios suficientemente definidos que identifiquem a

comunhão de interesses.

O verbete glomérulo tem origem no latim glomus, eris, traduzindo o significado de novelo, bola, cujo

verbo glomero,as,avi,atum,are, originalmente expressava fazer novelos, formar bolas com fios, reunir,

concentrar, ajuntar, amontoar, acumular. Para os militares romanos aglomerar significava formar a tropa em

coluna e fileiras.



Justaposição não tem o mesmo significado de duração e direção, pois o que fica

justaposto não perde sua identidade nem sua autonomia. Sugere contingencialidade cronológica.

O racionalismo utiliza justaposição como processo de assimilação e combinação de

conhecimentos. Procura justapor conhecimentos.



Justaposição corresponde ao que é colocado nos limites físicos de alguma coisa, pessoa ou idéia,

correspondendo à ação de pôr ao lado; por junto; aproximar; pôr-se em contigüidade; juntar-se, sem que

qualquer dos elementos justapostos perca suas características individualizadas.

Ocorre no racionalismo a contínua busca de soluções para as questões que lhe são

apresentadas. O racionalismo se ajusta ao estudo que inclui busca, compreensão e entendimento

de soluções confiáveis para expressar os fenômenos, suas leis e as condições de sua verificação.



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O verbete solução traz, pois, vários significados que servem, cada um por si, a campos específicos do



conhecimento. Em química, expressa o resultado da ação de solver, aportando a idéia de possibilidade de

solvência. Na linguagem cotidiana solução significa o meio de superar ou resolver um problema. Também se

refere àquilo com que se dá por concluída uma pendência e encerrado um assunto. Solução é ainda a palavra, a

locução ou a frase que expressa representa a decifração de uma charada ou de um enigma. Na conceituação

científica, traduz a idéia de operação do intelecto que, por formas de pensamento dedutivo ou indutivo

consegue reduzir diversos elementos analisáveis a um resultado lógico. Solução aporta ainda o sentido de

separação das partes a partir de um todo, e via de conseqüência, indica a ocorrência de divisão, interrupção,



dissolução. O vocábulo sugere, de forma mais específica, muitos outros significados.

Por sua vez, em face do verbete solução, o significado de mistura induz à comunicação de

diversas idéias. Do latim mixtura refere-se à ação ou ao efeito de misturar, ou seja, ao produto

resultante de coisas misturadas, traduzindo a idéia de ligação por amálgama, mescla; misto.

Também diz respeito a. cruzamento de raças reconhecido na miscigenação. Mistura refere-se

também à. reunião íntima de coisas diversas, inclusive entre opostos.

Uma das etapas do procedimento racional inclui a formação de misturas de

conhecimentos e conceitos, de idéias e experiências, que não perdem suas características

fragmentárias nem suas individualidades. Dessas relações, a partir de semelhanças e diferenças

identificadas e reconhecidas pelo observador esses conjuntos cognitivos propiciam razões que

servem à formação de novos conhecimentos. Formação traduz a idéia de um processo.



Processos ocorrem durante a manifestação de fenômenos e têm, como característica comum, o

que é designado duração. Os fenômenos estão sujeitos a duração e são, conceitualmente,

subordinados à noção de tempo.

Quando abordamos a relação entre racionalismo e empirismo importa observar um campo

de atuação intelectiva, designado fisicalismo, que tem sua origem nos trabalhos dos pensadores

que se identificam com a Escola de Viena. Os pensadores franceses designam esse campo de

conhecimentos por Physicalisme e os de língua inglesa Physicalism. O fisicalismo procura a

interpretação do conhecimento numa associação surpreendente do racionalismo e do empirismo

com as experiências mentais. Seu objeto transcende os fenômenos da física newtoniana e alcança,

simultaneamente, os fenômenos estudados na física quântica, na psicologia e no objeto do que

Michel Bitbol designa a filosofia do espírito150. Para muitos é a expressão de um neopositivismo,

que difere das bases do pensamento positivista de Comte, em razão das novas informações e

descobertas científicas. Para outros o fisicalismo é a expressão de um campo de abordagens

incluído na fenomenologia.

Henri Bergson reporta-se à duração como sendo a sucessão das mudanças qualitativas

dos nossos estados de consciência, que se fundem sem contornos precisos e sem possibilidades

de medição. Entendemos por duração de um determinado fenômeno o tempo decorrido entre o

que supomos ser seu início e seu término.

Temos mistura de coisas quando estas não integram um determinado conjunto-universo que possa

ser definido por razões, relações ou qualidades comuns. A idéia de mistura, no vértice fenomenológico em

que se verifica, opõe-se à idéia de solução. São análogos os significados das expressões mistura de idéias e

mistura de substâncias. Ainda por analogia, pode-se estender à abordagem teórica do homem em sociedade o

que se aprende na química em relação às misturas, pois elas geram mudanças energéticas entre os elementos

que integram os conjuntos em que ocorrem. Seus resultados, ao longo do tempo, podem ser imprevisíveis.

Os resultados das misturas podem, às vezes, ser apurados imediatamente, mas, em muitos

casos, só depois de decorridos fragmentos de tempo (segundos, minutos, horas, dias, meses, anos,

séculos ou milênios). Por vezes, tais efeitos tornam-se evidentes em função da velocidade de ação

e reação entre os elementos que participam do fenômeno.

150 BITBOL, Michel. Physique $ Philosofie de l'esprit. Paris: Flammarion, 2000.

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37 - Restauração

Adotando modelos ou padrões sugeridos pela base empírica ou pragmática da abordagem

cognitiva, o racionalismo procede à restaur ação lógica do que foi rompido e transformado em

partes. O processo restaurativo procura obedecer à lógica seqüencial inversa da apreensão

globalizada: parte do efeito para a causa, ou seja, procura restaurar o que parece possível e

suficiente. O procedimento restaurativo procura repetir a experiência de trás para diante.

Em Fisiologia das Emoções151, Raul Marino Jr.152 reporta-se aos trabalhos de P. D.

MacLean, dos quais resultou a Teoria de MacLean, onde é afirmado que:

(...) A evolução do cérebro humano se processou à semelhança de uma casa à qual novas alas e

superestruturas foram adicionadas no decorrer da filogênese. Esta, aparentemente, entregou ao homem uma

herança de três cérebros. A natureza nada desfaz durante a evolução. O homem foi assim provido de um

cérebro mais antigo, semelhante ao dos répteis. O segundo foi herdado dos mamíferos inferiores e o terceiro é

uma aquisição dos mamíferos superiores, o qual atinge seu máximo desenvolvimento no homem, dando-lhe o

poder ímpar da linguagem simbólica.(...) A parte "reptiliana" do cérebro corresponderia à maior porção do

tronco encefálico, contendo a substância reticular, o mesencéfalo e os gânglios da base. Sobre este cérebro a

natureza colocou o dos mamíferos inferiores, o qual desempenha papel preponderante no comportamento

emocional do indivíduo. Este cérebro agiria sobre as sensações emotivas de modo a dar ao animal maior

liberdade de decisões em relação ao que ele faz. Tem muito maior capacidade que o cérebro do réptil para

aprender novos meios e soluções de problemas com base na experiência imediata. Mas, como o cérebro dos

répteis não tem a capacidade de colocar os sentimentos em palavras. Estas estruturas irão mediar todas as

perturbações psicossomáticas e o comportamento emocional do animal. Trata-se do sistema límbico

propriamente dito, incluindo o páleo córtex e núcleos relacionados do tronco do encéfalo. A última aquisição

dos mamíferos superiores, o “terceiro cérebro” de MacLean, é o neocórtex, que vem adicionar o intelecto às

faculdades psíquicas dos mamíferos superiores.

Pela observação e experimentação, métodos fundamentais do conhecimento empírico, P.

D. MacLean, raciocinando atento às relações causa-efeito e antecedente-conseqüente, no campo

da Fisiologia, segundo Raul Marino Jr.153, conside ra ainda:

(...) as emoções como informativas de ameaças à autopreservação e à preservação da espécie, sendo

o processo de erradicação dessas ameaças considerado desagradável. As emoções agradáveis, ou que

causam prazer, são informativas da remoção dessas ameaças ou desejos satisfeitos. As emoções podem ainda

ser classificadas em primárias e secundárias. As emoções primárias seriam sentimentos ou afetos

relacionados a necessidades corporais básicas como alimento, ar, água, território154, sexo155, alguns deles

expressos como fome e sede. As emoções secundárias, tais como medo, raiva, ódio, amor, familiaridade e

estranheza e uma miríade de sentimentos ou combinações de sentimentos.

Uma expressão das mais usadas no racionalismo aplicado às ciências jurídicas sugere

que, mediante anulação dos atos jurídicos viciados, a restauração do direito se opera mediante

a volta das partes ao statu quo ante, ou seja, ao estado anterior à relação denunciada, ou seja,

à ruptura. Essa proposição, para muitos, não passa de uma ficção hipotética, diante da

impossibilidade fática de regresso no eixo dos tempos e da plena restauração das condições e

vivências prejudicadas. Diante dessa ficção jurídica, estabeleceu-se a possibilidade de

indenização e pagamento em dinheiro de prejuízos econômicos e morais.



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