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38 - Projeção

151 MARINO Jr., Raul. Fisiologia das Emoções. S. Paulo: Servier,1975. P.17.

152 Raul Marino Jr. É professor de Clínica Neurológica na Fac. Medicina de S. Paulo -USP

153 idem, pp.17 e 18.

154 A noção de território diz respeito a uma relação espaço-indivíduo, e emerge como um juízo a priori, que indicas o espaço supostamente

necessário e essencial , indispensável tanto à sobrevivência do indivíduo como à preservação da espécie. (N. do A.)

155 O significado de sexo diz respeito à atividade natural reprodutiva, resultante da ação da força inata, potencializada em seres sexuados, pare a

que se opere a preservação da espécie. Muitos identificam a atividade sexual reprodutiva como senso instintiva. (N. do A.).



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O racionalismo trabalha, fundamentalmente, com idéias projetadas, submetidas



objetivamente ao consenso. A partir da experiência sensível, ou seja, do empirismo que lhe chega

pela própria natureza de ser vivente, o homem racional enumera razões e procura expressá- las

em relações verbais com que pretende dar os contornos e limites da experiência vivenciada. As

formas são reduzidas a padrões reconhecíveis e projetadas como símbolos, palavras, números,

figuras, desenhos ou rabiscos.

O homem racional sinaliza com sua arte aquilo que quer expressar, gravar ou reconhecer.

Tudo é projetado, com mais ou menos sinais. Essas reduções sinalizadas ocorrem nas relações

espaciais, temporais ou mesmo apenas imaginativas.

A geometria trabalha com projeções de figuras e formas. A geografia recorre às projeções

obtidas nos mapas, nas fotografias obtidas por satélites e nas projeções estatísticas, quando se

refere à geografia social. A teoria dos conjuntos é toda visualizada em projeções de supostos

conjuntos- universos, adotados convencionalmente. Em geral os processos de análise e síntese em

que se reconhecem os entrelaçamentos de linhas e formas de pensar usam da simbologia e dos

significados, que nada mais são do que projeções.

Por projeção o ser humano cria e mata. Constrói e destrói. Elabora, constitui, reforma,

altera e modifica. E até conclui o fluxo das idéias num ajustamento de formas e linhas de pensar a

idéias que ficam nelas contidas. Segundo a mitologia grega clássica, quando esta se apropria da

projeção de outras crenças tais como destino e subserviência dos humanos aos deuses, as

Parcas156 tecem, incansavelmente, os destinos dos homens.



Análises e sínteses, rupturas e restaurações propiciam aos seres humanos, na seqüência

dos tempos, a idéia de que são seres racionais e, por isso, diferem dos demais seres animados.

Todavia, pode-se constatar que só recorremos à interpretação que nos isola e separa da unidade

anímica contida nos seres vivos quando temos crenças que nos parecem suficientemente

justificadas. E nem sempre isso ocorre. Convém, pois, atentar às informações de Raul Marino

Jr.157, na obra já citada:

(...) Baseado em suas pesquisas, MacLean postulou que, além da unidade anatômica do sistema



límbico demonstrado por Papez, havia também uma unidade fisiológica, ou seja, uma dicotomia de funções

entre córtex, filogeneticamente mais antigo, e o neocórtex, que poderiam ser responsáveis pela diferença

entre comportamento intelectual e emocional.

Afinal, a afirmação científica, de natureza empírica, sinaliza uma visão que se insere no



racionalismo abstracionista, identificando o pensamento como resultado de um processo

neurofisiológico, materializado e concretizado nas funções cerebrais.

156 Parcas. Segundo a mitologia grega, eram as divindades dos infernos, senhoras das vidas dos homens., das quais elas fiavam as tramas. Eram

três: Clotho, com a roca, presidia o nascimento; Láchesis, girava o fuso e Áthropos, cortava o fio. O papel das Parcas na poesia clássica é de

muita importância. São designadas, na arte poética, como as Filhas da Noite, as Filhas do Destino, Filhas do Érebo, Filhas de Acheron . La

Fontaine designava as Parcas como irmãs fiandeiras.

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Capítulo V



A utilidade e o conhecimento

39 - O pragmatismo

O substantivo pragmatismo traz vários significados. Os mais comuns dizem respeito à

abordagem dos campos do conhecimento, referindo-se à utilidade dos resultados e, mais

especificamente à possibilidade de seu aproveitamento.

O verbete pragmatismo contém o radical grego pragma (Pragmaaportando os

significados de coisa, fato, objeto, ação, conduta, acontecimento, obra, plano, circunstância. A

palavra pragmatismo apareceu em artigo do Popular Science Monthly, em janeiro de 1878,

assinado por Charles Peirce,158 considerado o pai da semiótica. Peirce referiu-se ao pragmatismo

como um novo método que visa determinar o significado dos conceitos e juízos, distinguindo-o

das demais formas de filosofia pragmática, tanto de causalidade deontológica159 como

teleológica 160.

Pragmática e pragmatismo, embora tenham raízes etimológicas comuns, não traduzem o

mesmo significado. Pragmática é um campo de conhecimento em que se estudam os fenômenos

que dizem respeito aos signos e aos se us intérpretes. Pragmatismo é o método de abordagem

utilizado na busca do conhecimento.

Segundo Charles Morris, é uma caracterização suficiente da pragmática dizer que ela

trata dos fenômenos bióticos da semiose161, isto é, de todos os fenômenos psicológicos,

biológicos e sociológicos que ocorrem no funcionamento dos signos162.

O fenômeno semiose é materializado quando ocorrem quatro fatores, a saber: a) o veículo



do signo; b) aquilo a que o signo se refere (designatum); c) o interpretante e d) o intérprete.

Pepperell Montagüe163 ensina que o significado real de uma idéia tem que ser encontrado

em seus resultados concretos e especialmente em suas conseqüências práticas e efeitos para a

atividade humana. Montagüe acompanha a opinião de Peirce, quando afirma que, ao considerar de

157 MARINO, R. Jr. Idem, p. 21.

158 O artigo foi intitulado Como clarear nossas idéias.

159 Deontológicas são as causas primeiras, que se referem ao ser original. Deontologia tem origem no grego déontos, 'necessidade' + logia , razões,

leis. Refere-se, em Ética, ao estudo dos princípios, fundamentos e sistemas. Significa também o estudo dos deveres ou necessidades decorrentes

das causas originais. O princípio agostiniano-platônico e justifica o Ser em função da causa original, ou seja, da vontade de Deus.

160 Teleológicas são as causas finais, últimas ou futuras , que explicam os fenômenos, reconhecendo neles um sentidos final em relação ao Todo.



Teleológico diz respeito à teleologia, e em filosofia, diz-se do argumento, conhecimento ou explicação que relaciona um fato com sua causa final.

161 Semiose é o designativo genérico do fenômeno pelo qual atuam os signos.

162 MORRIS, C. Fundamento da teoria dos signos. S. Paulo: Ed. USP,1976,pp.13 e 14.

163 MONTAGUE, obra citada, p. 133.



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que modo concebível aqueles efeitos podem ter fundamentos práticos, concebemos o objeto de nossa concepção para



assimilar tais efeitos. E que, a partir daí, a concepção de tais efeitos torna-se o todo de nossa

concepção do objeto.

O que mais importa, na concepção de Peirce, é que o pragmatismo serve como critério ou

sistema de critérios para determinar, não a verdade das idéias ou das proposições, do

conhecimento ou das teorias em que repousa, mas tão-somente o significado que traduz uma

utilidade para o intelecto. Na sinalização ou expressão do conteúdo, este é, então, útil e serve ao

processo de abordagem do conhecimento. É o pragmatismo que explica e justifica a semiótica164.

Para entender o significado de um pensamento o pragmatismo afirma que não é suficiente

separá- lo das demais idéias, nem é necessário analisar sua essência lógica, porém impõe-se como

necessário e suficiente descobrir suas conseqüências reais e possíveis165. Mais diretamente, os

seguidores de Peirce designam como nível pragmático aquele em que se vêm implicadas as

relações significantes com o intérprete, ou seja, as relações com aquele que utiliza os signos166.

Para entendermos o significado de pragmatismo impõe-se explicitar alguns dos campos

de conhecimento que dizem respeito à semiótica. Assim, segundo Morris, em semiótica, como

campo de conhecimento, podem ser distinguidos três segmentos de estudos específicos: 1) a

semântica, 2) a sintaxe e 3) a pragmática.

A semântica trata das relações dos signos com o que neles está contido, (ou seja,



designata) , bem como com os objetos que eles podem denotar ou realmente denotam. Dentro do

vocabulário que temos utilizado, a semântica trata das relações entre os signos e a idéia que



neles está contida, numa relação de natureza substantiva e, por isso, designa o que existe definido

entre o signo e o meio pelo qual é reconhecido, a saber, o veículo do signo.

A sintaxe cuida da função lógica evidenciada nas relações entre os signos, de uns em

relação aos outros. Daí se depreende que a compreensão sintática dos signos tem por objeto

desvendar o logos verbalizado, buscando-o pelo exercício da razão que expressa a relação.

A abordagem experimental da semiose foi aplicada pelos behavioristas, e deu como

resultado o desenvolvimento dos estudos focalizando os fenômenos semânticos, e que, por sua

vez, levaram à abordagem das estruturas lingüísticas formais, de Carnap a Reichenbach, via da

qual emergiu, com mais clareza, a doutrina que flui para o empirismo.

Incluir as relações entre duração, necessidade e contingência é indispensável quando

abordamos pragmatismo, racionalismo e empirismo. Pode-se observar que entre as idéias de



necessidade e contingência permeia a abordagem do significado de destino e seus limites.

Homens, pássaros, peixes e mamíferos, insetos e protozoários, vírus e bactérias, somos todos

portadores de pelo menos um código ético-genético. Justo é supor que esse código resulte de

alguma idéia-vontade que nos antecede e cujo processo de materialização é ordenado e

viabilizado antes de nossa criação.

A ordenação da natureza resulta em que cada um de nós recebe dos pais uma combinação

de genes e cromossomos, materializando um novo código genético. Se houvesse prédeterminação,

a natureza não exibiria, em desperdício, todo o esforço que perde em milhões de

sementes que não germinam. Ou será que a idéia universal de desperdício não corresponde ao

significado das perdas que tanto nos impressionam?

164 Semiótica tem origem no grego semeiotiké, designando a técnica dos sinais. É também a designaçãio do campo de conhecimento em que são

esrtudados os signos. Antigam ente semiologia designava o estudo das técnicas de comando em ações militares, mediante sinais, movimentos de

bandeiras, reflexos de espelhos, fogueiras e outros fenômenos visuais ou auditivos.

165 MONTAGUE, idem, p. 134.

166 BROSSO, Rubens e outro. Elementos de semiótica. São Paulo: Ed. Panorama,1999. p. 182.

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Questionamos se nos é imperativo apurar o que é necessário e o que é contingente no



processo evolutivo das espécies e nos processos naturais ou, de forma pragmática e empírica,

basta-nos aceitar o que nos é útil naquele momento e avançar com tais recursos.

Afinal, o que se constata é que a natureza avança numa sucessão de tentativas e erros cujos

números são fantásticos: bilhões de sementes produzidas para que umas poucas germinem. Das

milhares que germinam, poucas vicejam. Das poucas que brotam, menos ainda florescem e dão

frutos167. Por que não imitá-la?

A quantificação dos fenômenos referentes à continuação das espécies corresponde à

constatação de um número infinito de tentativas de reprodução, em que a absoluta maioria falha.

Em face de tantas tentativas, somos levados a crer que a natureza construiu e continua

desenvolvendo o Universo de forma empírica, obedecendo à regra expressa nas relações

definidas por tentativa, erro e acerto.

A realidade sensível sugere que a Natureza avança e se desenvolve sobre seus desacertos.

Errar muito parece ser a regra natural para acertar pouco. Mas, o que podemos entender por

acertos e erros na percepção do processo que resulta em fenômenos universais?

À medida que temos em vista os resultados, observamos e designamos desperdício essa

regra de muitos desvios regendo o processamento dos fenômenos naturais.

Eticamente, e, portanto de um ponto de vista estritamente humano, podemos acreditar que

acertos respondem às virtudes naturais e vícios indicam os prováveis insucessos. Mas, o que são

virtudes168 e o que são vícios? Os padrões de virtudes e víc ios constituem-se, a nosso ver, no objeto

de estudo mais significativo em processamento nos campos da ética filosófica, da mesma forma que

responde de forma direta às questões mais profundas da ética pragmática.

Para Santo Agostinho os antigos definiram virtude como a arte de viver bem e retamente.

Daí porque, em grego, virtude diz-se "areté”169, tendo os latinos bem traduzido o vocábulo como

"arte" 170.

Nessa via de entendimento, política é considerada uma arte. Daí por que se diz que aos políticos é

confiada a responsabilidade de bem governar e conduzir a sociedade, para que seus integrantes sejam bem

sucedidos na convivência possível, para que governantes e governados possam viver pelos padrões mais altos

e não apenas sobreviver nos padrões mais baixos. Esta proclamação consiste em uma esperança, sonho, ficção

ou missão? A realidade fática e histórica nos leva a questionar se essa crença explica a necessidade, a

contingência, a ficção hipotética ou a mera expectativa pragmática do homem em sociedade organizada.

Montagüe afirma que a partir... desses pressupostos em relação ao pragmatismo tem-se que as

conseqüências práticas são o meio para definir e descobrir as significações (significados possíveis?), que os

pragmáticos posteriores designam por satisfatoriedade das conseqüências práticas como meio para definir e

descobrir as verdades.

.A partir do pragmatismo de Peirce, John Dewey171 desenvolveu o instrumentalismo, que,

determinado por interesses lógicos de seu autor, muito mais do que pelos interesses bio lógicos e

empíricos apurados por meio das ciências aplicadas, trata a função do conhecimento desde um

ponto de vista genético e evolucionista, sugerindo uma utilidade para a preservação, conservação

e evolução da espécie humana.

O instrumentalismo é um método lógico-científico, portanto, racional-empírico,

desenvolvido por Dewey. Os instrumentalistas consideram as funções mentais tais como

167 KORTE, Gustavo. A Viagem em busca da linguagem perdida. São Paulo: Peirópolis, 1997. p. 285.

168 KORTE, Gustavo. Iniciação à Ética. São Paulo: Juarez de Oliveira, 1999, p. 164.

169 Areté: subst. fem. Grego ,(leia-se areté), traz o significado de virtude, aptidão, capacidade, habilidade. (Vale compararr com o

sentido da palavra adaptação anunciado na Tábua de Esmeraldas).

170 AGOSTINHO, Santo. Cidade de Deus. São Paulo: Américas, 1964, vol. I p. 226.

171 John Dewey (1859 -1952). Educador e filósofo norte-americano, destinou a maior parte de sua vida à filosofia e às práticas da educação. Deu

continuidade ao pensamento pragmático de Peirce que designou instrumentalismo.

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memória e imaginação, evoluídas e manifestadas a partir de adaptação ao meio ambiente. Fica



evidente o sentido pragmático de que, pelos resultados, supostamente, somos levados ao

conhecimento. Ou seja, uma vez reconhecida a utilidade em função das formas humanas de

pensar a mesma razão serve, extensivamente, para entender a evolução das espécies.

O homem, que vive em um mundo onde reina o acaso, vê-se obrigado a buscar segurança. Tratou

de obtê-la por duas formas. Com uma delas tentou ganhar o favor das potências que o rodeiam e determinam

seu destino. Manifestou-se nas súplicas, no sacrifício, no rito, e no culto mágico. Com o tempo estes métodos

rudimentares foram sendo relegados. Considerou-se que o sacrifício de um coração contrito era mais

agradável aos deuses que os de touros ou bois; e que a atitude íntima de reverência e devoção era mais

desejável que as cerimônias externas. Se o homem não podia dominar o destino podia, quando menos, aliarse

a ele: pondo sua vontade atribulada ao lado das potências determinantes do destino, poderia escapar ao

fracasso e triunfar em meio à destruição.

O outro caminho consistiu na invenção das artes para, por esse meio, colocar à sua disposição os

poderes da natureza. O homem constrói uma fortaleza, valendo-se das mesmas condições e forças que o

ameaçam; constrói albergues, tece vestidos, converte o fogo em seu amigo e vai desenvolvendo as artes

complicadas da vida em sociedade. É um método que consiste em mudar o mundo pela ação, enquanto o

outro é mudar-se a si mesmo nos seus sentimentos e idéias172.

Enquanto William James173 e Dewey se aprofundavam no instrumentalismo, em Oxford,

anunciava-se um novo humanismo, que pode ser considerado mais uma forma de pragmatismo.

Humanismo, no sentido filosófico, diz respeito a uma atitude intelectual que faz suas

observações e afirmações a partir de um ponto de vista antropocêntrico. Adotando essa postura

nos mais diferentes campos do conhecimento. Remonta a uma tradição inicialmente helenística, e

mais tarde, no renascimento, a obras tais como as de Pico della Mirandola, Dante Alighieri,

Erasmo de Roterdã, Thomas Moore e tantos outros. O humanismo estende-se pelos domínios da

ciência e da ética.. Nos primeiros, aplica-se às doutrinas que afirmam que a verdade ou a

falsidade do conhecimento se define em função da sua utilidade em relação ao ser humano. Nos

demais, atribui-se ao homem o poder de fixar e determinar os valores morais, definidos a partir

das necessidades e contingências supostamente concretas, psicológicas, históricas, econômicas e

sociais.


Com outro significado, o humanismo traduz as ações humanistas da Renascença, que

ressuscitaram o culto das línguas e literaturas clássicas, incluindo-se o direcionamento do espírito

humano para a literatura e as ciências como resultantes das ações de pensar e agir próprias dos

seres humanos.

Impõe-se assinalar a diferença entre o idealismo e o pragmatismo. O idealismo absoluto

sustenta que o mundo que vemos não é o mundo real mas apenas sua aparência. Devemos ainda

conferir uma dose de veracidade ao conteúdo humanista do pensamento de Schiller174 quando

assinala ser inegável que o que pensamos e acreditamos é determinado, mais extensamente do

que suspeitamos, por nossos interesses e desejos. Interesses, necessidades e contingências

determinam até mesmo os limites do que ouvimos, vemos, tateamos, degustamos ou cheiramos.

Somos levados a crer que nossas formas de percepção estão intimamente ligadas, mesmo

nos campos do conhecimento, a esse humanismo anunciado por Schiller175 pois, embora tenham

profundo apoio no pragmatismo, não se afastam nem do racionalismo, nem do autoritarismo,

nem do misticis mo e muito menos do empirismo.

172 DEWEY, John. La busca de la certeza. México: Fondo de Cultura Econômica, 1952,p.3.

173 William James. (1842-1910), psicólogo, escritor e filósofo norte-americano, defensor do pragmatismo e do experimentalismo.

174 SCHILLER, Friedrich . Werke. (Leipzig Bibliographisches Institut, 1895, vol. VIII, pp.55 a 118, compilado por L. Bellerman)

175 SCHILLER, Friedrich (1759-1805). Poeta, escritor, historiador e filósofo alemão. Nasceu em Marbach. O texto encontra-se no original

alemão, publicado sob o título original Über Anmut und Würde,e é citado por TUGENDHAT em Lições de Ética) Petrópolis :Vozes,1996. p.127.

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Ao contrário de Hume e de Aristóteles, acredita Schiller, com Kant, que existe uma razão prática



pura, a qual tanto decide sobre o que é o bom quanto é decisiva também como motivo para a boa vontade.

Que, portanto, o princípio da boa vontade não opera, não pode ser afirmado pelas inclinações, o que é

evidente, mas que ele também não pode ser entendido como uma inclinação excepcional (disposição de

afeto), tal qual pretende o aristotélico; tudo isto Schiller concede a Kant. Ele apenas não entende por que a

razão não deva formar nossa afetividade de tal modo que, tanto quanto possível, "razão e sensibilidade -

dever e inclinação- se conjuguem", de maneira que então o homem "está em harmonia consigo mesmo" 176 .

Acentua MONTAGUE177 que



... O mundo que os seres humanos percebem e reconhecem é um mundo humanizado, ou seja, um

mundo que foi colorido e moldado pelas aspirações e vontades humanas. Schiller nos faz reconhecer esse

fato e nos torna mais alegres por isso. Se uma teoria se ajusta às necessidades humanas, é por isso mesmo

verdadeira. Se as leis estabilizadas da natureza foram aceitas e reconhecidas por terem resolvido

necessidades humanas, existe a probabilidade de que novas hipóteses que satisfaçam alguma necessidade ou

aspiração concordarão com tais leis.

40. Pragmatismo como futurismo

A experiência ensina que há um sentido utilitarista nas ações humanas. Por que não

reconhecer esse intento como tentativa de invasão na dimensão em que situamos a grandeza

tempo, assinalando os avanços que nos são sugeridos pela idéia de futuro?

Ao redigir o Prólogo para a La busca de la certeza178, quando traduziu o original de J.

Dewey para o espanhol, Eugenio Ímaz afirma:

... não se pode esquecer que o conhecimento intervém na realidade, transformando-a. Deste modo

os fins -- os valores - e os meios - as verdades científicas - formarão uma unidade congruente; já não

teremos ideais etéreos, impolutos e meios que não têm como tais mais que a referência negativa de seu

fracasso, que nós encobrimos, atribuindo culpa à precariedade do mundo ou do homem, à sua materialidade,

fugacidade e nulidade. Quem quer, de verdade, os fins, deve querer os meios e deve conhecê-los.

O homem pragmático sente-se senhor do futuro. E esse futuro é ditado pelas suas

ambições, pelos seus objetivos e propósitos, como se o tempo não afetasse. Seus desejos e suas

vontades devem ter respostas positivas na vida prática. Age e atua como senhor de si mesmo,

deslocado do contexto e sem respeito ao conjunto que integra. Esse conjunto só é reconhecido ou

revisto na medida em que se afina ou se opõe ao que pretende ou intenta fazer.



Senhor do futuro . Em gramática elementar entende-se presente, passado e futuro como tempos do

verbo, que expressam a ação verbal situada no eixo dos tempos. Etimologicamente, o verbete tem origem no

latim (futurum, i]. Traduz o mesmo significado em duas categorias gramaticais distintas, pois, tanto é substantivo

como adjetivo.

Não nos é difícil reconhecer :

a) o tempo cronológico que supostamente seguirá o atual, ou seja, que o tempo há de vir

em relação ao que já está contado em números;

b) o tempo como projeção de uma relação causal, ou seja, causa presente - efeito futuro,

e que aporta o significado místico de destino ;

c) o tempo como projeção de sentimentos de esperança e expectativa em relação ao que

ocorrerá, ou seja, de uma vida futura, de uma experiência futura, de existência futura.

Em ciências físicas, onde dominam princípios cognitivos tais como o da causalidade

(física newtoniana) e o da probabilidade (física quântica), a palavra futuro pode expressar de um

lado, o que haverá de ocorrer na relação espaço-tempo, ou seja, o fenômeno cujas dimensões

serão verificáveis numa região limitada pelo cone de luz em que a coordenada tempo é positiva.

Por outro lado, conforme o princípio da probabilidade, futuro expressa igualmente presente e

176 TUGENDHAT, Ernst. Lições sobre ética . Petrópolis: Ed.Vozes,1996. p. 127.

177MONTAGUE, W. P. Obra citada,p. 139.

178 DEWEY, John. La busca de la certeza . México: Fundo de Cultura Económica, 1952. p. XVI.


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