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passado como sendo apenas probabilidades de existência, projetadas num eixo cujas dimensões

materiais fogem à acuidade das formas humanas de percepção e só são possíveis nas abstrações

intelectivas.

O ser pragmático, por mais que procure fazer-se humilde, é extremamente arrogante

diante das propostas que a vida lhe faz. O sentido de utilidade que o ser humano impõe e exige de

suas ações e objetivos na vida material só é superado, quando em referência às formas de pensar

que enriquecem o agir intelectivo, pelas convicções do que se revela ou parece útil nas abstrações que

projetadas para o futuro. Tais formas de pensar exigem conteúdo tão extremadamente prático que

contamina todas as posturas e expectativas de vida concorrendo, de alguma forma, para que os seres

pragmáticos, mística ou racionalmente, deixem-se atrair pelas previsões dos resultados futuros.

Historicamente temos exemplos de pragmatismo religioso, especialmente quando a igreja

propôs, durante certo período, a negociação das indulgências, pelas quais eram vendidas e

adquiridas vagas no Paraíso, para serem fruídas depois da morte,.

Por vezes os pragmáticos combinam suas ações em contextos compreendidos por dois

parâmetros: a) o primeiro, é o parâmetro de extensão subjetiva, de natureza emocional e

sentimental, consistente em matrizes e padrões concretos e empíricos, que dão contornos a

ocorrências satisfativas de desejos e voluptuosidades; este parâmetro anuncia os prazeres que o

homem percebe no mundo empírico e b) o segundo, é o parâmetro de extensão objetiva, que

serve às ações de natureza abstrata, em que são reconhecidas as virtudes intelectuais: este

parâmetro acena com a possibilidade de realização de projetos e propostas, satisfatórios em si

mesmos e submissos aos princípios ditados pela ética filosófica.

Constituem tais parâmetros o que muitos entendem por contornos do hedonismo do bom

(Epicuro e outros) e do hedonismo do bem (Aristóteles e Kant).



41. Pragmatismo como praticalismo

Pragmatismo179 e praticabilidade180 não são a mesma coisa. O pragmatismo, também

designado praticalismo, vê a utilidade nas coisas. O praticismo, uma das manifestações do

pragmatismo, tem em vista sobretudo a facilidade e a rapidez de que podem revestir-se as ações.

Como se vê, o pragmatismo insere-se nos estudos do utilitarismo e é incluído na

abordagem da ética relativista.

O verbete prático, do grego praktikós, 'capaz de agir', é incluído na categoria gramatical dos

adjetivos. É o radical que, como neologismo, suporta o verbete praticalismo. Diz respeito à prática, ou seja, à

experiência anterior. Os conhecimentos que anuncia são emergentes do empirismo e do autoritarismo. Do

empirismo porque os conhecimentos vêm pela intermediação dos sentidos e suas formas de percepção. Do

autoritarismo porque decorrem do respeito e da autoridade que atribuímos às narrativas e descrições de

experiências anteriores, de sucessos e insucessos, tanto as que nos chegam pelo trabalho intelectual de

filósofos como de historiadores.

Montagüe assinala:... O princípio pragmático está implícito na declaração de que a verdade de



uma teoria depende da validade prática de suas conseqüências. Assim, se nessa declaração se destaca a

palavra conseqüência, o pragmatismo vem a ser uma tendência ou atitude geral e tão amplamente difundida

que acabamos de estudá-la como futurismo; mas, se colocamos ênfase na palavra prática, toma cor e caráter

diferentes e pode ser designada como praticalismo. E, deste modo, aplica-se mais especificamente aos

problemas do método lógico181.

179 Pragmatismo (Do grego pragma] Subst. masc. Doutrina de Charles Sanders Peirce, filósofo americano (1839-1914). Tem por tese a afirmação

de que a idéia que fazemos de um objeto qualquer nada mais é senão a soma das idéias de todos os efeitos úteis e imagináveis que atribuímos a

esse objeto. É é também reconhecido como doutrina, segundo a qual a verdade de uma relação verbal situa-se totalmente interior à experiência



humana, em que o conhecimento é instrumento a serviço de todas as ações decorrentes da vontade. Segundo esta doutrina o pensamento tem

caráter puramente utilitarista e a proposição só é verdadeira quando consiste em ter utilidade. (N. do A.)

180 Praticabilidade. Qualidade do que é praticável, do que é possível de ser usado, manipulado.(N. do A )

181 MONTAGUE, William Pepperell. Los caminos del conocimiento . Buenos Aires: Sudamericana, 1944. p. 113.



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Ainda que pragmatismo e praticalismo não sejam expressões de um mesmo caminho, têm



entre si muitos pontos em comum mas, por outros, seguem em paralelo.

Uma abordagem mais acurada nos leva a entender que o pragmatismo moderno é dirigido

pelo mesmo sentido antropocêntrico que dirigiu o pensamento humanístico já a partir do século

XII. De fato, á medida em que procuramos uma validade prática para o conhecimento, nós nos

adaptamos melhor para os fenômenos futuros, movidos pela idéia de que o futuro é feito por nós

e para nós, ou seja, alimentados por um restrito antropocentrismo.Daí entender-se o pragmatismo

como futurismo essencialmente antropocêntrico.

De outro lado, estudando o pragmatismo no sentido em que o entendemos por



praticalismo, pode-se considerá- lo em relação à extensão do termo em que é aplicado. E, assim,

observamos pelo menos quatro abordagens nas quais o pragmatismo revela suas possibilidades, a

saber:

1ª) a primeira, dirige-se aos fenômenos materializados particularmente, no sentido de específico,



concreto, particular, destinado à apreensão da aplicabilidade humana dos resultados de

determinado fenômeno; e ocorre no contexto empírico, das experiências sensíveis, que

designamos por mundo das concreções;

2ª) a segunda, abrange o sentido prático temporal, futurista, de que se beneficiam ou prejudicam

as individualidades, enquanto satisfaz as ambições, sejam materiais, individuais, pessoais e como

aspirações humanas;

3ª) a terceira, busca compreender e satisfazer o sentido prático identificado como necessidades

decorrentes da nossa natureza, como significativo do domínio biológico e contextual a que nos

estamos submetidos, e

4ª) a quarta, é abordagem que diz respeito à prática generalizante das idéias, linhas e formas de

pensar quando procuram ajustar-se a determinados objetivos humanos, tomados como ideais de

verdade ou de futuro positivo, que respondem aos desejos e vontades intelectuais, resultantes de

aspirações místicas, autoritárias, racionais, empíricas, pragmáticas, céticas, amorosas ou



intuitivas.

Por seu lado, parece-nos apropriada a sugestão de Montague quando resume a extensão do

termo prático a três hipóteses: praticalismo empírico, praticalismo humanístico e praticalismo

biológico; e quanto à natureza, a duas hipóteses: praticalismo abstrato e concreto.

O praticalismo abstrato diz respeito ao contexto teórico das idéias, linhas e formas de pensar em sua

relação ideológica de utilidade para o ser humano, o indivíduo e a natureza, e do qual o praticalismo



humanista, estudado pela Ética utilitarista, é uma espécie, e o praticalismo filosófico, é outra. No praticalismo

abstrato, que cuida das idéias, linhas e formas de pensar adotadas como verdades em face de se mostrarem

úteis ao ser humano, a Semiótica tem-se destacado como campo de conhecimento aberto a novas e produtivas

investigações. Também a Estatística tem-se revelado, nas ciências sociais, como instrumento de verificação e

projeção do pragmatismo praticalista.

O praticalismo concreto diz respeito ao estudo das experiências humanas, devidamente presentes no

contexto materializado em que elas ocorrem, ou seja, onde o praticalismo empírico, e o praticalismo

biológico estão incluídos. Física, Química e Biologia, na medida em que são campos do conhecimento

empírico, cujas observações e conclusões são utilizadas pelos meios de produção, indústria e agropecuária,

tomados como campo de experiências para o encontro de melhores relações custo-benefício nas atividades

produtivas, têm inequívoco caráter pragmático praticalista.



42. O relativismo

Apoiado no estudo de idéias, linhas e formas de pensar enunciadas pela ética relativista182,



o pragmatismo praticalista abstrato leva- nos a concluir que:

182 KORTE, idem, ibidem, p. 295.



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1) não há uma única padronização ética;



2) não há apenas um código moral que possa servir a todos os povos,

3) os padrões éticos e morais têm uma certa duração, o que significa dizer que, mesmo para uma

mesma nação, os referenciais éticos e morais variam conforme a época, e

4) cada grupo social tem suas idéias morais relativas e referenciadas a seus desejos e valores

coletivos, ou seja, todas as idéias morais são necessariamente relacionadas a uma determinada

cultura, em determinada época e dentro de contexto social específico.

De acordo com tais conclusões os canibais ficam justificados por comer a carne humana, pois se

comportam de acordo com os padrões de sua própria cultura, mesmo que em desacordo com os referenciais

de outras cultura s, tais como os da cultura cristã ocidental. Verifica-se pois, que, de forma objetiva, não há

base moral para ter-se por verdadeira, definitiva e universal, a afirmação de que os padrões da cultura

ocidental são melhores ou superiores aos da cultura dos canibais.

Assim, impõe-se-nos compreender que os referenciais de nossa cultura e da civilização

cristã nos parecem mais próprios, oportunos, compatíveis e coerentes com a natureza e as

carências humanas. Porém, se dimensionados por padrões de outras crenças, tais referenciais

podem não ser reconhecidos, necessariamente, como os melhores.

O relativismo se constitui num problema ético, filosófico e sociológico, pois, se adotado,

há de aceitar-se como verdadeiro que não existe certo ou errado fora de determinada cultura ou

contexto, mas, que os juízos morais resultam tão somente da utilidade individual ou coletiva do

que se faz ou prende fazer.

Pragmatismo e hedonismo, estudados tanto em semiótica, como na ética e na filosofia,

são objetivados mais especificamente nos campos do conhecimento abordados pela ética

relativista. São convergentes, entre si, no sentido de que ambos buscam ser úteis ao homem.

Hedonismo, do grego hedone ()que significa prazer, é o nome que se dá a duas

maneiras de encarar o prazer como o bem maior da vida humana.

O hedonismo do prazer, com o significado do bom resultante das sensações, adjetiva a

compreensão da natureza empírica do ser humano , sustentando que o hedonismo é a forma pela

qual as opções da pessoa são ditadas por uma constante busca do prazer. O ser humano escolhe o

que lhe dá mais prazer e suas ações são ditadas por esta motivação.

A ação do pragmático hedonista tem como causa a utilidade subjetiva contida nos

prazeres que agradam, confortam e alimentam a vontade de viver. O hedonismo do bom sustentase

na afirmação de que o bom é o único valor intrínseco das coisas. Por isso atrai o homem. Esta

teoria ética foi defendida por Aristipo, Epicuro e, mais tarde, pelos utilitaristas modernos, tais

como Bentham183, J. Stuart Mill184 e Sidgwick185.

O hedonismo do conhecer traduz o pragmatismo filosófico hedonista e refere-se ao

conceito substancial contido no designativo bem. Induz à escolha racional entre valores éticos

ideais e valores éticos sensíveis e presentes. Busca encontrar a fórmula que leva à alegria de

viver, de tal maneira que sirva a todos (universal) de forma duradoura (eterna).

183 BENTHAM, Jeremy.(1748-1832). Filósofo e jurisconsulto inglês, divulgador de princípios inerentes à Ética utilitarista, e que repousam nas

avaliações das relações entre prazer e sofrimento.

184 MILL, John Stuart.(1806-1873). Filósofo e economista inglês. Partidário do associacionismo, encontra fundamento na indução como sendo

decorrente do princípio da causalidade universal. Ajusta-se à moral utilitarista e anuncia-se como pensador e economista que acredita nos

princípios do pensamento liberal. Mill nega que haja verdades gerais e evidentes por si próprias. Acredita que a existência de verdades gerais

depende de provas. As verdades gerais surgem , geneticamente, no decurso da percepção sensível e, quando provadas, são-no apenas por verdades

particulares. Estas, na medida em que emergem como verdades finais, são imediatamente conhecidas e captadas pelas formas de percepção

empíricas.

185 SIDGWICK, Henry. (1838 -1900). Filósofo inglês conhecido por seus escritos em Ética, Methods in Ethics, London: Cambridge, 7th ed., 1930..

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O racionalismo e o pragmatismo hedonistas são carentes, todavia, de uma contabilidade

dos prazeres, ou seja, do dimensionamento das relações custo-benefício que identifiquem as

quantidades de prazer que resultam das emoções e sensações vivenciadas.

O hedonismo do bem sustenta que o supremo bem é:

a) ontológico, quando visa cumprir a vontade de Deus, concebido como Pai Criador, pensamento

nítido em Santo Agostinho 186 ou

b) teleológico187, quando visa atender a causa final da Criação, ou seja, o bem universal (Tomás

de Aquino e Kant);

c) ontológico e teleológico, porque a vontade de Deus é tanto a causa geradora como a causa



final que visam o bem universal.

Assim, pensando com Agostinho, o uso das coisas temporais relaciona-se, na terra, com a



obtenção da paz terrena, na Cidade de Deus, com a obtenção da paz celeste...188

Percebe-se, ao adentrar os campos do pragmatismo, que é preciso aprender a dimensionar

o que gera mais ou menos prazer. Torna-se conveniente quantificar também a duração e

extensão humana desse prazer, de tal forma a ficarem delineados os referenciais de quanto tempo

e para quantas pessoas hão de ser consideradas as variáveis que são definidas pelas relações

custo-benefício.

A ética utilitarista, sustentada por Jeremias Bentham, J. Stuart Mill, Karl Marx e Engels,

é manifestação de pragmatismo. Se os fins justificam os meios, se o conhecimento traz o bem e

se todos bem querem o bem, deve prevalecer a vontade pragmática de que todos devem ter



acesso ao conhecimento. Daí por que todos devem ter a possibilidade de acesso à escola e à

educação e, torna-se um princípio democrático, a adoção de que o ensino deve ser público,

acessível a todos os cidadãos, sem restrições aos economicamente desafortunados.

O ideal hedonista no utilitarismo sustenta que o indivíduo deve agir respondendo ao

contexto, de forma a encontrar o bom mais extensivo possível, servidor do maior número de

pessoas, possibilitando-lhes mais oportunidades de sucesso. Pode-se observar, sem margem de

dúvidas, que o pragmatismo, como método de abordagem do conhecimento, fundamenta-se na

ética utilitarista, também designada ética prática

Por outro lado, não podemos deixar de mencionar o sentido relativista intrínseco ao

campo de conhecimento designado por Semiótica. Daí o próprio significado traduzido no



pragmatismo, magistralmente estudado por Charles Peirce189, nos anos seguintes a 1912, e

posteriormente, por C harles Morris 190, a partir de 1935.

Sidgwick (1838-1900), sugere para os estudos do pragmatismo três diferentes métodos de

trabalho, a saber: egoísmo, utilitarismo e intuicionismo. Pelo egoísmo, a ação humana é

justificada por sua contribuição à maior felicidade pessoal do agente. Pelo utilitarismo a ação

justifica-se por sua contribuição à maior felicidade das pessoas que estão envolvidas no contexto

sócio-ambiental em que as pessoas estão localizadas.

186 Santo Agostinho sustentava que A moralidade de um ato não depende de suas conseqüências nem das suas causas, nem da sua natureza, mas

somente de que esteja de acordo com a vontade de Deus.

187 As teorias sobre a ética teleológica variam na determinação das conseqüências relevantes que possam ser consideradas como causas finais do

procedimento e como tais possam ser avaliadas. Todas as teorias interpretam os julgamentos morais como dependentes do valor atribuído às

causas finais. Há, portanto nítida convergência entre os estudiosos quando sobrepõem as teorias de valor às teorias teleológicas.

188 AGOSTINHO, Santo. (354 -430). A cidade de Deus. S. Paulo; Ed. Américas.,1964, Vol.III, p. 171.

189 PEIRCE,Charles Sanders.(1839-1914). Filósofo norte-americano estudioso da Lógica, que deu início à sistematização dos conhecimentos em

Semiótica, e um dos ordenadores do pragmatismo como método de abordagem do conhecimento.

190 MORRIS, Charles. Publicou em 1938. Pela Editora da Universidade de Chicago, o Fundamento da teoria dos signos, que, traduzido por Paulo

Alcoforado e Milton José Pinto, foi publicado em 1976 pela Editora da Universidade de São Paulo.

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Intuicionismo é a designação abrangente que inclui todos os demais métodos que não

sejam egoísmo e utilitarismo.

Sidgwick reconhece que as pessoas comuns são motivadas por também por muitas outras

razões que não apenas o prazer, mesmo se este for individual, grupal ou contextual. Assim,

enuncia como outras causas da ação pragmática a beleza, a virtude e a sabedoria, tomando-as por

desejos intrínsecos e próprios da natureza humana. Acentua que as regras do senso comum são

vagas e indefinidas, conduzindo a conflitos e exceções, umas sem relações com as outras. Por tais

contrariedades, não podem ser admitidas como referenciais para avaliação de procedimentos,

quer racionais, quer empíricos.

Todavia, é notório que a maioria delas, embora da mesma forma vaga e sem suporte

racional, pode ser considerada como conducente a uma felicidade comum. Ao invocar o princípio

da utilidade social para resolver os conflitos entre as regras ditadas pelo senso comum, Sidgwick,

subordina o hedonismo ao racionalismo, quando entende que toda ação humana pode ser

racionalizada e justificada pela demonstração da felicidade que causa ao agente e ao seu contexto.

Algumas das correntes filosóficas que se opõem ao hedonismo, quando recorrem à

ironia 191, designam por eudaemonismo o que, na raiz etimológica (eu+daemon) corresponde à

identificação do procedimento do verdadeiro (eu) demônio (daemon), aqui significando o que é

terrestre, passageiro, material e empírico, mas não necessariamente pecaminoso, como

usualmente é entendido.

Pode-se observar que embora dê suporte e atue de acordo com os princípios da ética

utilitarista, o pragmatismo praticalista é, todo ele, um método de estudos incluído na ética

relativista.

191 Ironia : forma sarcástica, que consiste em expressar o contrário do que se quer efetivamente comunicar.



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Capítulo VI

O Ceticismo

43 - O que é ceticismo?

O conteúdo filosófico do ceticismo consiste no reconhecimento de que a possibilidade do

conhecimento depende ou das limitações da mente ou da impossibilidade do sujeito acessar o

objeto do conhecimento.

Entende-se por ceticismo o método de abordagem do conhecimento que tem por base as

dúvidas constantes e seqüenciais, buscando verificar e comprovar afirmações, informações e

juízos pela negação dos mesmos. O cético põe em dúvida a validade e eficácia de todas as

proposições. Resume o seu procedimento na convicção de que tudo é duvidoso e nada é certo.

Em filosofia, o ceticismo caracteriza o procedimento dos que afirmam que o homem não

pode chegar a qualquer conhecimento sem manter dúvidas sobre sua veracidade. Usa como

argumento a anti-razão ou antilogia.

O ceticismo correspondeu, na Antigüidade Clássica, ao conjunto de idéias e proposições

sustentadas, entre outros, por Pirro, Carnéades de Cirene (séc. II a.C.), Enesidemo (séc. I a.C.) e

Sexto Empírico (séc. III a.C.).

Há autores que definem ceticismo como sendo a doutrina filosófica adotada pelos que de

tudo duvidam e que acreditam que não existe a verdade, porém, se existisse, o ser humano seria

incapaz de reconhecê- la. Outros entendem que o ceticismo é uma postura de dúvida, genérica e

abrangente, que ocorre no ser humano quando está diante de indícios e sinais que podem levar ao

conhecimento.

A certeza e o ceticismo se opõem em razão: a) das confusões da linguagem, b) dos

diferentes significados para as mesmas palavras, c) dos critérios distintos e d) das ambigüidades

no campo conceitual.

Pirro de Elis, Timon de Atenas (320-230 a.C.) e, antes deles, Górgias, o Sofista,

defenderam o ceticismo, explorando os desencontros entre os filósofos e os cientistas de seu

tempo. Sexto Empírico (século II a.C.) afirmava que a concepção de certeza variava, nas

diferentes escolas filosóficas, de acordo com os critérios () por elas adotados. Esta

formulação sugere que há uma certeza ou uma verdade correspondente a cada diferente critério.

Pirro de Ellis192 fundamentou seus argumentos na relatividade das as percepções e da

opinião. Sustentava que os sentidos e a razão enganam a cada qual por si mesmas, e não cabe

esperar que a ação conjunta de ambas seja aquela nos proporcione a verdade.

192 WINDELBAND, W. História da filosofia antiga. Buenos Aires: Nova, s/d. p. 365,

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Montaigne, recorrendo ao ceticismo, suscitou dúvidas acerca das normas transculturais.

Descarte adota a dúvida sistemática como ferramenta principal de seu método. David Hume

pretende regular o procedimento do cético através de seus Diálogos sobre a Religião Natural.

Filosoficamente, a crítica que se faz ao ceticismo é que, ao adotar como certeza o

princípio da dúvida sistemática, ele atua e procede como se a dúvida em si mesma fosse um

dogma indiscutível e, por esta razão, incide no mesmo erro dos dogmáticos.

O ceticismo moral sustenta: a) que os princípios morais não podem ser provados; b) que

não existem verdades morais; c) que a moralidade não tem base racional e d) que os conceitos de

certo ou errado decorrem de gosto ou convenção.

John Dewey enfatiza que:

O aspecto volitivo da vida psíquica está notoriamente relacionado ao afetuoso. A única diferença é

que este último (o afetuoso) representa o aspecto imediato e transversal de resposta ao incerto e precário,

enquanto a fase volitiva é a tendência de reação a modificar as condições indeterminadas e ambíguas na

direção de um resultado preferido e formatado para atualizar umas de suas possibilidades mais que

outras(...) A emoção pode significar um impedimento ou uma ajuda para a vontade de conhecer, conforme

seu caráter de imediatismo ou de concentração de energia, para enfrentar a situação cujo resultado está

sendo questionado. Assim, o desejo, o propósito, o plano, a escolha só têm sentido quando algo está em jogo

e onde a ação subseqüente, dirigida em uma direção resultante, dominante sobre outra, pode levar a uma

situação nova, visando satisfazer uma necessidade ou definir uma contingência193.

Não restam dúvidas, pois, que o ceticismo é em si um método no qual a vontade de

aprender se manifesta de forma direta, objetiva e ligada predominantemente ao subjetivismo, à

imperatividade lógica-empírica, ao racionalismo e ao emocional.

Por vezes o cético recorre a expressões irônicas, sem que tal procedimento identifique ou

associe, necessariamente, a ironia ao ceticismo.

Max Weber, seguido por W. Pepperell Montagüe, encontram quatro argumentos básicos

em favor do ceticismo, visando utilizar o ceticismo na abordagem do conhecimento. São estes

argumentos de natureza histórica, dialética, fisiológica e psicológica que examinaremos a seguir.


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