Gustavo Korte



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44 - O argumento histórico

O argumento histórico leva ao reconhecimento de uma diversidade de crenças a partir das

quais ocorre a possibilidade de diferentes leituras. O sentido histórico do ceticismo aponta para o

processo dualístico de limitação das idéias e formas de pensar, partindo da oposição entre o



idealismo (atribuído a Platão) e o materialismo (referenciado a Demócrito). Tal postura dualística

traduz, como opostos, o ideal e o material, sugerindo divergências e incoerências entre o que é

aceito pela fé e o que é assimilado pela razão, quer esta seja empírica quer decorrente de

abstrações.

Demócrito (séc.V a.C.) é apontado como o primeiro dos céticos. Servindo de apoio a suas

dúvidas, ele se reporta aos exemplos práticos manifestados por intermediação dos sentidos. Essa

mediação sensitiva sugere a possibilidade do encontro de uma realidade objetiva, mesmo quando

esta enfrenta a idéia de uma realidade imaterial que, por si e em si mesma, não é acessível aos

sentidos.

Platão desenvolveu o ceticismo em seus diálogos, tornando-o instrumento das mais

variadas formulações.

Como é possível verificar, as formas de pensar cultivadas pelo ceticismo são, em si e por

si mesmas, decorrentes de um dogma. Este dogma dá suporte à afirmação de que o homem não

193 DEWEY, John. La busca de la certeza. México: Fondo de Cultura Econômica.,1962, p. 197-198.



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pode chegar a qualquer conhecimento indubitável, quer seja por sua estrutura pensante, quer por que a

concepção subjetiva de certeza varia de acordo com os critérios em que está fundamentada.

Max Weber revela-se, por vezes, um autêntico cético. Observa que uma disciplina

empírica apenas pode fornecer, por seus meios, a) de acordo com o contexto e circunstâncias

temporais, quais são os meios necessários e inevitáveis; b) quais as inevitáveis conseqüências e

efeitos subsidiários; c) quais as conseqüências práticas, ou seja, quais os efeitos úteis, tendo-se

em vista os desígnios humanos. Afirma ainda que as disciplinas filosóficas (com o significado de

disciplinas teóricas), podem descobrir o sentido das avaliações, identificando a última estrutura

significativa e suas conseqüências significativas.



... No entanto, (as disciplinas filosóficas) dependem por completo de uma escolha e de um

compromisso de questões tão simples como: em que medida deve o fim justificar os meios? em que medida se

devem aceitar as conseqüências subsidiárias não desejadas? como se deve esclarecer o conflito entre

vários fins, desejados ou impostos, que se enfrentam in concreto? Não existe procedimento científico algum

(racional ou empírico,) que seja capaz de tomar qualquer decisão a este respeito194.

45 - O argumento dialético em favor do ceticismo

A partir do ceticismo chega -se à idéia de que é irreconciliável o conflito entre a razão e os

sentidos. Por conseqüência, nesse momento entender-se-á a realidade como sendo, por natureza,

incognoscível.

Vários historiadores indicam Carneades de Cirene, (séc.II a.C.). como tendo sido o mais

veemente defensor do ceticismo na Antiguidade Clássica. Carnéades desenvolveu a dialética

demonstrando a impossibilidade de critérios de verdade dentro da percepção sensível.

Aprofundou-se, em particular, na abordagem e verificação das imensas dificuldades da doutrina



da representação compreensiva (Xatalhptixh fantazia, leia-se kataléptika fantasia ). Carnéades

também se dirigiu contra as garantias de verdade, argumentando que não há um processo

absoluto e rigoroso de avanço lógico nos campos do conhecimento. Criticou a possibilidade de

demonstração (apodeixiz leia-se apodeixis), fazendo ver que toda prova em favor da validade



das premissas requeria outra nova prov a, resultando assim num progressus ad infinitum.

Montague, por sua vez, assinala que:



...Ainda que seja logicamente necessário que um dos membros de qualquer parelha de proposições

contraditórias seja verdadeiro, sem dúvida, em muitos, senão em todos os problemas que nos são propostos,

tais como o da natureza última da realidade, nos vemos limitados a escolher entre duas teorias que, ainda

que contraditórias entre si, ambas devem ser tratadas como falsas. No caso das antinomias, depois de haver

analisado as possibilidades, a mente parece forçada a admitir que é impossível resolver, logicamente, o

problema.

Max Weber constata:



Todavia há propostas positivas que procuram resolver essa divergência, quando não conciliá-la, e

que são: 1 - solução mística (Zenão de Eléa): a razão triunfa à custa dos sentidos; 2 - solução pragmática

(Bergson): os sentidos triunfam à custa da razão; 3 - a solução do senso comum: o conflito entre a lógica e a

experiência pode ser resolvido à custa de novas formulações (estudos).

Como se pode observar do exposto, o ceticismo é um método a partir do qual

podem ser obtidos resultados adequados ao equilíbrio das formas de pensar, ainda que tais

resultados não sejam, em si mesmos, totalmente confiáveis.

O ceticismo indica que as formas de pensar precisam ser adaptadas às dificuldades que

surgem por entre os demais métodos, procurando responder à sucessão de questionamentos.

Ainda que jamais se dê por totalmente satisfeito com as respostas, o cético se deixa motivar pela

dúvida constante que excita e traz vitalidade durante o caminhar para o conhecimento.

194 WEBER, Max. Sobre a teoria das ciências sociais. São Paulo: Moraes, 1991. p.96-97.

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As questões suscitadas pelo ceticismo levam a respostas e conclusões que parecem, por

vezes, mais ou menos convenientes, mais ou menos próprias ou impróprias, mais ou menos

convergentes ou divergentes. Todavia, parece óbvio que o peregrino intelectual, quando busca a

verdade pelos caminhos da dúvida e da incerteza, jamais se dará por satisfeito. De fato, aquele

que se inicia pelos campos do conhecimento chega a um estado de consciência em que, motivado

pela ânsia do saber, deve receber o que supõe tratar-se de conhecimento, como mais um marco

para um caminhar infinito.

Toda peregrinação mental corresponde, de alguma forma, a uma condenação à fome

intelectual. Os caminheiros, quando se propõem saciá- la, agem impulsionados por forças

transcendentais, que direcionam os movimentos para horizontes infinitos e eternos.



46 - O argumento fisiológico em favor do ceticismo

Coloca-se a questão: as coisas são ou não são aquilo que parecem ser?

O ceticismo fisiológico preocupa-se em desvendar as dificuldades para saber qual é a

natureza dos corpos espacialmente exteriores a nós.

Este argumento tem sua força no caráter irremediavelmente indireto do processo pelo qual as coisas

e acontecimentos espaciais, exteriores ao organismo de percepção chegam a figurar como objetos da

experiência. (Montague, 1944).

Há uma acerba crítica dos céticos aos demais métodos filosóficos. Ela se manifesta desde

os primórdios, quando se ensejaram as primeiras tentativas de sistematização das formas de

pensar. Essa oposição foi no mais das vezes direcionada às formas do pensamento especulativo,

mas e também aos esforços desenvolvidos por mediação dos métodos empíricos de abordagem e

sistematização do conhecimento.

O argumento fisiológico que dá suporte ao ceticismo consiste, fundamentalmente, na

subjetividade a que somos conduzidos pelas nossas formas de percepção empíricas.

Há observadores que dispõem de mais ou menos acuidade sensitiva, diferindo entre si

segundo a acuidade com que decodificam as sensações. Uns ouvem melhor, com mais nitidez,

outros com menos. Outros têm mais ou menos poder olfativo. Outros, ainda, revelam mais

possibilidades de percepção tátil ou visual.

De fato, a vida nos ensina que cada indivíduo percebe diferentes combinações de

acuidades sensoriais. Em outras palavras, podemos observar nas pessoas suas diferentes

potencialidades sensoriais, ainda que, estatisticamente, tais diferenças possam ser enquadradas

entre limites máximos e mínimos.

Assim é que a acuidade sensitiva atua como potencialidade em que podem ser

identificadas diferentes intensidades nos processos onde as sensações são captadas pelos órgãos

sensoriais. Dirigida ao cérebro, a sensação nervosa é, posteriormente, decodificada pelos

processos nervosos seqüenciais. A partir desses processos dá causa ao que designamos formas de



pensar. Por meio destas, nossa mente se apropria do significado das sensações, e assume um

determinado estado de consciência perceptivo. Na seqüência, as sensações são decodificadas e

identificadas pelas formas de percepção, que direcionam à fonte dos estímulos respostas

sensitivas, emocionais, racionais ou mistas.

As características fisiológicas de cada organismo identificam o ser sensitivo, perceptivo e

pensante em que nos individualizamos. Elas induzem à crença de que nos deixamos excitar pelas

dúvidas na medida em que elas resultam das diferentes potencialidades sensoriais de cada

indivíduo.



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E, com tal suposição, por razões neurofisiológicas, encontramos justificativas para as

atitudes que assumimos. Assim, o ceticismo serve de combustível à dinâmica intelectual e dá

suporte à individualidade subjetiva.

Interessa, nesta oportunidade, anotar a leitura feita pelos fenomenalistas quando

procuram demolir o suporte do argumento fisiológico em favor do ceticismo. Respondendo à

abordagem da natureza das coisas, os fenomenalistas afirmam que não existem coisas em si



mesmas, mas tão somente coisas em relação à nossa experiência. De fato, negam os resultados

objetivos da metodologia guiada pelo autoritarismo, misticismo, pragmatismo, racionalismo,

empirismo, amorosidade e intuição. Assim, os fenomenalistas afirmam que não existe outra

realidade que não a sensorial e que, ao procurar negar a veracidade do que ocorre no campo das

percepções, os céticos estão negando a sua própria experiência.

De nosso ponto de vista, tomando a percepção como uma inferência decorrente dos



fenômenos sensitivos, podemos afirmar com Montague, em favor do ceticismo, que nunca houve

nem haverá percepção alguma que não leve consigo certas inferências que transcendem o

momento presente. O que significa também dizer que jamais conseguiremos definir ou elidir

inferências supostamente presentes nos fenômenos de percepção, especialmente quando

decodificados com ajuda dos demais métodos de conhecimento.

Há, também uma crítica dos homens de ciência ao ceticismo fisiológico, que deve ser

anotada em face de seus fundamentos. Observa-se que as ciências empíricas dependem de duas

abordagens essenciais, a) quanto à natureza empírica do que é ditado pelo senso comum, como

experiência alheia e de muitos, b) o que vem das observações próprias do pesquisador, pela

experiência pessoal que procura transformar em conhecimento objetivo. Em ambos casos as

abordagens experimentais decorrem das capacidades neurofisiológicas ou da coletividade, que

define o senso comum, ou do observador individual que vivencia a experimentação. E, assim,

por natureza, o sistema neurofisiológico é o meio próprio para que se possa abordar o

conhecimento, não merecendo o ceticismo fisiológico respaldo em suas restrições.

Sinaliza, por fim, a oposição de natureza filosófica formulada contra o ceticismo

fisiológico, que encontra suporte na lógica discursiva.

Argumentam alguns filósofos que o ceticismo fisiológico é viciado pelo fato de que a

conclusão dos céticos contraria as premissas em que se apóiam: enquanto o cético conclui que o

conhecimento é inválido porque depende da fisiologia humana, ele está aceitando como

verdadeiras as premissas reveladas pelas formas de percepção que dizem respeito a essa mesma

fisiologia. Ou seja, o que serve como elemento de verdade às premissas tomadas como

verdadeiras em razão da percepção é o mesmo fundamento que nega validade à conclusão porque

resultante das formas de percepção.

Se o único método para averiguar um juízo duvidoso é supor que suas premissas não

sejam duvidosas, todo propósito do cético que tem por fim provar a dúvida inerente a cada

proposição, consiste em ser autocontraditório, ou seja, quero provar o que não quero ver



provado.

47 - O argumento psicológico em favor do ceticismo

O argumento psicológico discute a crença de que, exteriormente aos seres, corpos ou

entidades espacialmente sensíveis, há algo mais distante, que transcende o momento em que

realizamos a percepção. Assim, passado, presente e futuro tornam-se conceitos correlatos aos de

memória, realidade e existência.

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O cético psicológico impugna a validade da memória e das previsibilidade de fatos e ações, ou seja,

opõe-se à validade das antecipações cronológicas, deixando-nos prisioneiros do instante presente e

desconectados de todo conhecimento do futuro (Montague, p. 210).

Para o ceticismo psicológico a falta de memória corresponde a uma alucinação, e os

equívocos nas previsões correspondem a erros de cálculo. Assinala que pode ser errôneo o que

afirmamos acerca de tempo diferente daquele em que estamos.

MONTAGUE sugere que a crítica dos céticos fisiológicos à possibilidade do

conhecimento deve ser refutada com rigor e, inicialmente, indaga se é possível observar uma

diferença essencial entre memória e antecipação.

A memória nos dá o que foi, aparentemente, a experiência direta de nosso próprio passado,

e o sentimento de certeza que acompanha esse fundamento pode ser tão grande como o A

antecipação do futuro nunca se apresenta tão determinada, nem mesmo diretamente, pois sempre

manifesta mais caráter ilativo 195 do que imediato 196.

A falta de memória sugere alucinação, enquanto a falta de poder de antecipação indica

deficiência ou erro de cálculo, previsão ou projeção. A experiência indica que a falta ou as

deficiências da memória são mais freqüentes que a falta ou as deficiências nas antecipações com

que supomos prevenir o futuro.

É fácil observar que se dá mais crédito aos relatos de vivências e experiências

memorizadas como passado do que aos projetos, planos e expectativas fundadas em esperanças e

projeções memorizadas como possibilidades futuras.

Ao mesmo tempo, podemos verificar que as fantasias, quer ocorram no mundo das ficções

ou do espaço-tempo imaginário, são muito mais presentes e motivadoras de formas de pensar do

que a própria realidade contextual.

Em verdade, vivemos mais no mundo imaginado do que no mundo real. No que

entendemos por mundo das realidades incluímos passado, presente e futuro e constatamos, então,

o domínio do princípio da uniformidade da Natureza. Nesse suposto contexto de realidades,

incluímos, de um lado, uma parcela de experiências herdadas dos nossos ancestrais, registradas

na memória permanente de nossa coletividade e, de outro, observações que têm por objeto

múltiplos fenômenos naturais, estes operando em desfavor do ceticismo fisiológico.

Na medida em que o fisiologismo se refere ao mundo da sensibilidade presente, projeções

e reduções de passado e futuro ocorrem como hipóteses e não fatos.

Daí por que, na busca de um mínimo conforto mental, inspirador de segurança psíquica em

relação ao dia seguinte, convém acreditar que o princípio da uniformidade da Natureza é

argumento psicológico eficaz contra a mordacidade das dúvidas geradas pelo ceticismo

fisiológico.

48 - Princípio da uniformidade da natureza

O princípio da uniformidade da natureza. diz respeito à crença fundamentada na

experiência coletiva dos seres humanos. Refere-se inicialmente a repetitividade dos fenômenos

que se sucedem, com as mesmas características, ao longo do tempo.

Também parece firmada a crença.na ação uniforme da natureza, pois deflui da

experiência, aferida nos demais registros da memória coletiva, tais como os que estão assentados

sobre usos, costumes e tradições.

195 Caráter ilativo significa caráter conclusivo, fundado em ilações decorrentes de premissas, proposições ou termos anteriores.(N. do A.)

196 Imediato corresponde a dizer sem necessidade de termos, proposições ou expressões intermediárias ou que indiquem as variações ou sirvam

de marcos para levar ao conhecimento.



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O sol nascerá amanhã é uma afirmação retirada da experiência humana, que informa a ocorrência

desse fenômeno diante de suas repetições jamais interrompidas ao longo da história do ser humano sobre o

planeta. A afirmação de que os corpos continuarão a cair na direção do centro da terra constitui, também,

uma previsão decorrente da crença no princípio da ação da força da gravidade, coerente com o princípio da



uniformidade da natureza, ou seja, a terra atrai os corpos à sua volta. respondendo de maneira igual a relações

semelhantes.

Os céticos psicológicos não negam o princípio da uniformidade da natureza, pois não

contrariam a eficácia da crença em que as realizações que temos presenciado e que são



registradas como integrantes do passado serão igualmente repetidas no futuro. Pelo contrário,

tomam esta afirmação como objeto de uma crença verdadeira, que propicia e induz a conduta

inteligente.

Assim, pois, a crítica dos céticos psicológicos não se dirige contra a importância do

princípio da uniformidade da natureza mas à extensão de sua validade.

Stuart Mill, contestando os céticos psicológicos, aceita que o princípio da uniformidade



da natureza seja confirmado em face da experiência passada, afirmando que o que agora é

passado, era, nos tempos idos, o futuro.

A segunda oposição aos céticos consiste em afirmar que as leis da natureza continuarão

sempre iguais na medida em que a natureza, comportando-se repetidamente de maneira uniforme,

não tem por que se modificar. Fica evidenciada, nessa corrente de pensamento, a necessidade da

crença em uma certa regularidade natural que propicie o laborar intelectual.

Para a ação mental torna-se condição impõe-se a crença de que, a partir dessa ação virá o



resultado esperado, embora essa crença não seja, necessariamente, fundamentada em uma

verdade. A crença na regularidade da natureza traz a segurança da crítica aos céticos

psicológicos, embora não possa ser, de fato, um elemento totalmente eficaz para vencê- los.

Exemplificando: tem sido observado, em milhares de vezes, que a água apaga o fogo; reduzindo

esta expressão ao cálculo de probabilidades é de concluir -se que a probabilidade de não se repetir a relação

causal água-apaga-o-fogo é muito pequena e, então, a ocorrência água-não-apaga-o-fogo tende a ser casual,

com raras possibilidades de materializar-se. Isto porque, no cálculo das probabilidades, há uma resposta aos

céticos, em face das formulações matemáticas. Assim, por exemplo, pode-se dizer que se a probabilidade de

um certo sucesso é de 1/m a probabilidade de que não ocorra é de 1- (1/m). Como toda conjunção de

sucessos deve ser ou causal ou casual, a probabilidade de que seja causal será um menos a probabilidade de



que seja casual.

Todavia, diante do exemplo acima, podemos observar que a postura transdisciplinar em

relação à natureza e ao meio ambiente nos leva a um estado de consciência ecológica. E, então,

nesse estado, tomamos ciência que não é sempre eficaz o princípio da uniformidade da natureza,

pois salta aos olhos que, diante da ocorrência de fenômenos irreversíveis de degradação e

destruição ambientais, as ações humanas parecem sobrepor-se às resistências naturais de

preservação do equilíbrio planetário, mantido ao longo de milhões de anos. Nessa linha de pensar,

a previsibilidade torna-se, quando menos, uma antevisão do que é ou pode vir a ser verificável.

Alfredo Pena -Vega, ao estudar os textos de Edgar Marin sobre a ecologia complexa,

destacou que:



Por outro lado, a consciência ecológica subjacente à crise do meio ambiente, nos ensina que o

desenvolvimento da ciência e da técnica (tecnociência), associado a um urbanismo incontrolado, ameaça não

somente destruir toda a vida nos ecossistemas locais, mas e sobretudo, degradar a biosfera ameaçando a vida em

si mesma, inclusive a vida humana, que faz parte da biosfera. A consciência ecológica nos ensina, ao mesmo

tempo, que a ameaça mortífera é de natureza planetária197 .

Pena - Vega completa a linha de pensar com palavras textuais de Morin:... a



consciência ecológica é um componente de uma consciência planetária. 'E preciso dizer que a consciência

197 PENA-VEGA, Alfredo. O despertar ecológico: Edgar Morin e a ecologia. Rio de Janeiro: Garamond, 2003. p. 20.



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não é determinada pela propriedade de algumas realidades externas universais: ao contrário, é necessário

ultrapassar a aspiração a uma universalidade. O problema da consciência (ética de responsabilidade) supõe

uma reforma das estruturas da própria consciência (auto-ética).

A partir dessas considerações somos levados a afirmar que o princípio da uniformidade da

natureza prevalece desde que não seja abalado o ecossistema pelo efeito das ações humanas.

49 - O que é dúvida?

Ao cuidar do ceticismo, ou seja, ao tratá- lo como procedimento discursivo que sugere



duvidar de tudo, importa verificar qual o significado contido na palavra dúvida.

O radical latino a partir do qual surge a palavra dúvida está contido em dubium,

substantivo, com o significado de dúvida, falta de consistência, razões insuficientes, afirmação

incompleta, hesitação. Dúvida às vezes sinaliza possibilidade perigosa, dificuldade a ser

transposta. Como adjetivo, tem raiz em dúbio, do latim dubius,a,um, aportando significados que

traduzem indecisão, opção entre duas ou mais alternativas, ignorância, insuficiência d elementos

para decidir e, por isso, incerto, duvidoso, indeciso, ambíguo e hesitante. Também traduz uma

visão insuficiente de futuro, de imprevisibilidade de atitudes, de incerteza quanto aos momentos

seguintes. Há, na idéia de dúvida, uma implicação de decisão a ser tomada, de momento de crise

ou de necessidade de escolha. Com relação à saúde das pessoas, relaciona -se ao perigo de

decisões erradas cujos efeitos possam ser adversos.

Podemos observar que há um condicionamento herdado da tradição etimológica quando

esta assinala o pensamento dualístico como devendo situar-se entre duas alternativas, a saber,

situar-se na dúvida ou na certeza. Todavia, a experiência intelectual nos mostra que o ceticismo,

movido pela dúvida persistente, não leva, necessariamente ao dualismo mas à possibilidade,

sempre presente, de alternativas. Daí que se impõe entender a diferença entre juízos opostos,

contrários e contraditórios, o que implica em recorrer a estudos específicos da Lógica, os quais,

por ora, escapam dos limites desta abordagem.

A dúvida é, em si, um substantivo que indica um processo, significando a idéia dinâmica

contida na ação de conhecer. Utilizando- nos do pensamento dualístico, vemos que a dúvida

opõe-se à idéia de certeza. Duvidar, porém não é excludente do significado de crer. Duvidar

pressupõe a insatisfação do ser pensante em relação às informações de que dispõe. Duvidar

significa também o inconformismo quanto ao resultado dos métodos utilizados para a observação

e conscientização do fenômeno mental.

É oportuno perguntar se a dúvida corresponde a um processo concreto ou abstrato, ou

seja, material ou imaterial, se é de natureza física ou meramente intelectual. A simples

possibilidade de uma resposta nos lança às amarras contidas no dualismo do entendimento, tendo

por limites iniciais o pensamento de Platão (idealismo) e de Demócrito (materialismo). Há

milênios o espírito humano vaga entre as penumbras da dúvida e da certeza, do certo e do errado,

do falso e do verdadeiro. O saber tem sido o objeto maior dos esforços intelectivos do ser

humano.

A epistemologia, como campo específico de apuração do saber humano, oferece métodos



peculiares para interpretar os supostos conhecimentos, eis que nenhum ser humano tem como

demonstrar ou provar se sabe alguma coisa e se é ou não dono efetivo de algum conhecimento.

A dúvida é o argumento feroz que nos empurra para o campo ilimitado do que supomos ser

o conhecimento. E os que pretendem saber alguma coisa, têm consciência de que a única certeza



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