Gustavo Korte



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O pragmatismo.

Pragmatismo e praticabilidade não são a mesma coisa. O pragmatismo, também

designado praticalismo, vê a utilidade nas coisas. O praticismo, uma das manifestações do

pragmatismo, tem em vista, sobretudo, a facilidade e a rapidez de que podem revestir-se as

ações.

Montague assinala que:



... O princípio pragmático está implícito na declaração de que a verdade de uma teoria depende da

validade prática de suas conseqüências. Assim, se nessa declaração se destaca a palavra conseqüência, o

pragmatismo vem a ser uma tendência ou atitude geral e tão amplamente difundida que acabamos de estudála

como futurismo; mas se colocamos ênfase na palavra prática, toma cor e caráter diferentes por ser

designada como praticalismo. E, deste modo, aplica-se mais especificamente aos problemas do método

lógico1.

Uma abordagem mais acurada nos leva a entender que o pragmatismo moderno é

norteado pelo mesmo sentido antropocêntrico que dirigiu o pensamento humanístico já a partir do

século XII. De fato, na medida em que buscamos atribuir validade prática para o conhecimento,

nós procuramos nos adaptar melhor para responder às situações futuras, somos movidos pela

idéia de que o futuro é feito por nós e para nós. Daí porque muitos entendem o pragmatismo

como futurismo.

O Ceticismo.

O conteúdo filosófico fundamental do ceticismo é a possibilidade do conhecimento que

advém assentado nas limitações da mente humana e resulta da inacessibilidade do sujeito ao

objeto do conhecimento. A certeza e o ceticismo se opõem em razão: a)das confusões da

linguagem; b)dos diferentes significados para as mesmas palavras; c) dos diferentes níveis de

realidade em que são enfocados os fenômenos e processados os pensamentos e d) das

ambigüidades no campo conceitual.

A crítica ao ceticismo é que, ao adotar como certeza o princípio da dúvida sistemática, o

cético age como se a verdade contida na dúvida em si mesma fosse um dogma indiscutível e, por

essa razão, incide no mesmo erro dos dogmáticos.

O ceticismo moral sustenta: a) que os princípios morais não podem ser provados;b) que

não existem verdades morais; c) que a moralidade não tem base racional e d) certo ou errado é

questão de gosto ou convenção.

1 MONTAGUE, William Pepperell. Los caminos del conocimiento . Buenos Aires: Sudamericana, 1944,p.113.



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Como se pode observar, o ceticismo é um nível de realidade em que os choques de idéias



tornam-se evidentes quando se pretende adequá- los a formas de pensar processadas em outros

níveis de existência.

Ao abordar a transdisciplinaridade é de levar-se em conta que as ciências empíricas

dependem de duas abordagens essenciais, a saber: a) quanto à natureza empírica, ditada pelo

senso comum, objetivamente, quando é adotada a experiência alheia, singular ou coletiva que se

torna reconhecível pelas formas de comunicação usuais, e b) quanto à natureza perceptiva,

quando o que resulta das observações torna -se própr io do pesquisador, incorporando-se a sua

experiência pessoal, subjetiva, fazendo materializar nas tentativas de comunicar e transformar tais

resultados em conhecimento objetivo assimilado por outros. .

O ceticismo serve às abordagens de natureza experimental que tanto ocorrem por

intermediação da capacidade intelectiva da coletividade (senso comum) como das percepções

subjetivas neurofisiológicas do observador (senso pessoal).



A amorosidade

Quando tratamos das relações de amor, que se revestem do significado contido na palavra



amorosidade, não excluímos o que o senso comum indica por sexo, como também não nos

restringimos ao entendimento de que a sexualidade seja a essência do amor ou do gesto amoroso.

Os cristãos afirmam que Deus é Amor. Em latim a palavra tem conexão com o significado

de cupido que, como substantivo, traduz desejo, vontade, apetite, paixão. Com significado

místico e mitológico Amor designa, inicialmente, uma Divindade.

Nas relações sociais revela-se o amor místico como vocação ou resposta ao chamamento



divino, que se expressa na devoção do ser humano à divindade de sua eleição. É a força geradora

do culto que exterioriza o sentimento de adoração.

Na Biologia, o amor revela-se como força. Age sobre os seres vivos, determinando a

atração especial de um ser por outro. Quando, entre seres de sexos diferentes, geralmente,

manifesta-se com componente da força reprodutora, designada por instinto de conservação da

espécie. Diz-se amoroso o comportamento que revela respeito, zelo, cuidado, atenção e carinho.

Não nos parece possível chegar ao conteúdo conceitual e às práticas do conhecimento sem

incluir, na abordagem, a idéia de amorosidade, e quando menos, de amor ao próximo. O amor é,

de fato, uma grandeza vetorial, definida por intensidade, direção, sentido, ponto de aplicação e

temporalidade, sem que fique excluída a possibilidade de serem-lhe acrescidas outras

características.

A amorosidade, dentre os métodos que podem propiciar o conhecimento, é o mais

prazeroso, eficiente e produtivo: resolve problemas, dissipa dúvidas, é criativa e habilidosa,

procura induzir processos, sistemas e soluções que a capacidade humana de assimilação logo

torna eficientes e produtivos, harmônicos e agradáveis, quer ao espírito como à alma e ao corpo.

A amorosidade, entendida como método que identifica um nível de realidade em que se

manifestam certos estados de consciência, sinaliza com o poder de transcendência que a mente

humana conquista sobre os significados restritos e o que supomos conhecimento estruturado, seja

uni, inter, multi ou pluridisciplinar.

Sem amor não há crença que ligue o sujeito a elementos integrantes de uma suposta

verdade objetiva. Sem crença não há justificação possível. Daí porque a experiência intelectual

indica que sem amorosidade não há a menor possibilidade de praticar a transdisciplinaridade. E,

sem transdisciplinaridade, o conhecimento científico definido como crença verdadeira e

justificada torna-se apenas uma ficção hipotética.

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Induzidos pelo misticismo de que somos possuídos, ass umimos a crença e aceitamos



como verdade intuitiva, que há um nível de realidade em que o Amor é a Força Suprema que

induz ao encontro do Conhecimento. E por aí conscientizamos o significado da expressão Deus é



Amor.

A intuição.

Há cinco mil anos, os monges Bonistas, seguidores da religião Bon Po, a mais antiga do

Tibet, estudam o fenômeno que designam Dzogchen, e nós entendemos por intuição. Eles

reconhecem no intuicionismo um método eficaz para revelar o conhecimento. No senso comum,

o verbete traz a idéia de que intuímos o que é conscientizado por intermediação de formas de

percepção interiores, independentes dos conhecimentos anteriores, da atividade racional e da

experiência pessoal.

Em face da intuição, as razões lógicas ou empíricas restam ao largo, pois é próprio do



intuicionismo surgir distanciado das amarras que nos prendem aos pensamentos verbalizados. O

que designamos intuição não está preso nem à linguagem discursiva nem a outras formas

específicas de comunicação, tais como palavras, idéias, linhas ou formas de pensar, formas

geométricas ou plásticas, sensações causadas por sons, ruídos, luminosidades, gosto, tato ou

olfato. Em verdade, quer-nos parecer, a intuição traduz a existência do nível de realidade em que

ocorrem os pensamentos intuitivos.



Terceiro postulado - Existência do outro, como terceiro incluído ou excluído.

A abordagem transdisciplinar sugere um estado de consciência em que existe um outro,

podendo estar incluído ou excluído da relação observada. Sabemos que outro é um pronome

indefinido. Pode referir-se a algo que é pessoal ou impessoal, humano ou inumano, grande ou

pequeno, colorido ou incolor, opaco ou transparente, muito ou pouco, duradouro ou transitório,

leve ou pesado, presente ou ausente, atual, passado ou futuro.

Nas observações transdisciplinares, a presença ou ausência desse outro - porque é

ilimitado e indefinido, e pode estar sendo incluído ou excluído indevidamente - é sempre um

sinal de que a humildade deve presidir o processo de conhecimento. Daí porque a ação

transdisciplinar cuida de mostrar-se resolutamente sensível às aberturas propiciadas por novos

conhecimentos na medida em que ultrapassa o domínio das ciências exatas. Impõe-se, por seu

diálogo e tendência à reconciliação, não somente com as ciências humanas, mas também com a

arte, a literatura, a poesia e a experiência espiritual2.

Os fragmentos e as disciplinas no processo de conhecimento

Quando nos referimos ao objeto de uma disciplina queremos significar o conjunto de

fenômenos cujas características são ou podem ser contidas e delimitadas pela ação intelectiva

nesse campo específico do conhecimento. Sabemos, e a prática científica tem comprovado, que

só teoricamente, mediante artifícios do imaginário e da ficção científica, os fenômenos podem ser

totalmente isolados, contidos e perfeitamente delimitados. Tais procedimentos sempre se

apresentam, na prática, em determinados níveis de realidade e segundo a ordem de grandeza que

lhes é peculiar, contidos nos limites da acuidade das respectivas formas de percepção.Também é

fora de dúvida que os processos de redução dos campos de observação subordinam-se, quando

2(Cf. art. 5.º da Carta de Transdisciplinaridade)



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menos, a uma das regras do método cartesiano, qual seja, a análise. Esta é, por natureza



fragmentadora e, como herança da cultura grega, não estamos acostumados a nos alhearmos dela.

Quando ordenamos nossas idéias, o processo analítico leva a reduzir as dificuldades e as

incompreensões às menores dimensões possíveis, enfocando-as no nível de realidade mais

apropriado que permita possam ser classificadas, entendidas e resolvidas, uma a uma.

A partir das soluções menores, a síntese torna possível a formação de um conjunto de

questões resolvidas que possibilite com maior amplitude a compreensão e o entendimento. A

contar da fragmentação analítica, recorrendo à metodologia transdisciplinar e fundados nas

perspectivas holístiscas, procuramos capacitar nosso intelecto para a melhor compreensão do

nosso contexto.

Ao percorrer em caminhadas simultâneas os diversos níveis em que coexistem distintas

realidades, a transdisciplinaridade, por seus postulados e métodos, propicia uma ampla

perspectiva do saber humano, anunciando a amplitude da visão holística. Por essa visão sem

fronteiras, a postura transdisciplinar acena com a possibilidade de superação do espaço-tempo e

de abordagem do Sagrado. Destarte, satisfaz a ânsia de Verdade e excita-nos para o

conhecimento de nós mesmos.

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Agradecimentos

Este trabalho e os esforços nele desenvolvidos procuraram dar continuidade à

amorosidade vital que me impulsiona, enquanto ser humano que percorre alegremente os mais

diversos campos do conhecimento. Neste fluxo de idéias, linhas e formas de pensar, impõe-se

homenagear os que transmitiram atenção, informações, amor e, sobretudo, os princípios éticos

que dão sentido à vida.

Nossos estudos tiveram ponto de partida nos escritos de William Pepperell Montague,

quando fez a abordagem dos caminhos do conhecimento. Não nos animou, em qualquer tempo, a

idéia de fixar críticas ou contestações ao conteúdo metodológico de Montagüe nem de qualquer

outro pensador. Nem tínhamos idéia de fazer-lhe qualquer acréscimo. A metodologia do

conhecimento serviu- nos como guia na trilha pela qual buscamos a1cançar o transcendente e o

sagrado, ambos emergentes do esforço para a integração dos fragmentos. Nessa experiência

cognitiva com postura transdisciplinar, em nossa vivência, foi inicialmente suscitada por

Ubiratan D´Ambrósio e Dirceu Borges por seus trabalhos na Fundação Peirópolis. A ambos

direcionamos nossos agradecimentos pessoais.

Recordo com saudades e carinho meus pais e avós e os mais que, como verdadeiros

hierofantes, deixaram- me lições inesquecíveis. Hamilcar Turelli, Leila Cury, Aldo Perracini,

Walter Toledo Silva, Francisco Hoffmann e Benedito dos Santos, que ainda se mantêm nas

trincheiras da vida, fizeram parte de minha vida intelectual. Outros há, cuja memória associa-se

às idéias de competência e dedicação ao ensino e à educação, e que não mais podem esquivar-se

de minha gratidão pessoal: Lélio Canevari, Nicolau D’Ambrósio, Albrecht Tabor, Fritz

Ackerman, Fritz Pietschke, Alfredo Silva, Geraldo dos Santos e ainda inúmeros que delinearam,

em minha já remota infância, o traçado inicial das leituras percorridas.

Também deixo aqui os agradecimentos ao trabalho educacional de que fui beneficiado

pelos exemplos intelectuais de Zeferino Vaz, Antonio Sesso, João Cruz Costa, Lívio Teixeira,

Lineu de Camargo Schützer, Florestan Fernandes, Almeida Júnior, Theotônio Monteiro de Barros

Filho, Basileu Garcia, Jorge Americano, Alexandre Corrêa, Alfredo Buzaid, Gama e Silva,

Canuto Mendes de Almeida, Cândido Motta Filho, Sílvio Marcondes, Gofredo da Silva Telles Jr.

e Vicente Marotta Rangel.

Finalmente, um agradecimento especial aos amigos do NEST, Dalva Alves Silva, Wilma

Gili Marchetti, Valquiria Albuquerque, Claudino Pilleti, Pedro Scuro Neto, Antonio Agenor

Farias, Andreys Stareika, Helena Renner, Rodolfo Viana, Marcos Vanzolin, Célia Regina

Barollo, Cláudia Lessa, Rodolfo Reichert, Rachel Reichert, Olívio Guedes e Sérgio Grinberg que,

como interlocutores assíduos, trouxeram o estímulo indispensável para que este trabalho pudesse

ser concretizado.

Gustavo Korte

São Paulo, 2004.

Metodologia e Transdisciplinaridade Gustavo Korte

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Capítulo 1



Método e Metodologia

1 - O que é método

Qualquer ação, seja ela efetivada na vida teórica ou no mundo das realidades abrangentes

do que nos parece concreto, de fantasias e ficções, instala dentro de nós a busca de referenciais

pelos quais possamos nos guiar.

Designamos vida ou vivência teórica o processamento das idéias cujo conteúdo

conseguimos abordar pela abstração da realidade através do racionalismo, autoritarismo,

misticismo, ceticismo, intuicionismo e amorosidade. A expressão traz o sentido de lidar com o

abstrato e a idéia de vida contemplativa. Por vivência prática entendemos as experiências

colhidas no mundo das realidades sensoriais, especialmente pela intermediação do empirismo e

pragmatismo. O mundo das realidades diz respeito ao universo que contém tanto o imaginário

como o real, que inclui tudo e por isso diz-se mundo; abrange tanto o verdadeiro como o falso,

quer o concreto, o abstrato e o fictício, tanto sonhos como esperanças;compreende o passado, o

presente e o futuro, com todas as contingências e necessidades que deles façam parte.

De fato, de maneira quase instintiva, procuramos fixar marcos nos campos em que

experimentamos a vida, de tal forma que eles possam sinalizar elementos para nossa localização.

Enquanto caminhamos, tentamos identificar os referenciais do percurso.

Na prática, todavia, os caminheiros são dotados de muito mais ousadia. Avançam, muitas

vezes, sem referenciais. Aventuram-se pela realidade sem as prévias especulações recomendadas

pelo autoritarismo, racionalismo, empirismo e pragma tismo. Deixam de lado os imperativos da

ação que são ditados pelo racional e pelo empírico e avançam guiados por um processo que não é

só intuitivo, mas resulta de vontades desordenadas que, conscientemente, evitam racionalizar.

Alfredo Pena-Vega cita Edgar Morin ao afirmar que as ciências que têm por objeto o

conhecimento da natureza e suas relações com os seres humanos encontram graves dificuldades

para que sejam integradas nos postulados conceituais, principalmente no esforço interativo de

conceituar vida, natureza, ser humano e sociedade. Explicita, com clareza, que

... ... As ciências do homem e da natureza teriam uma dificuldade maior de se integrarem em seus



postulados conceituais, principalmente em termos de unidades de interação Vida/ Natureza/ Homem/

Sociedade, indispensável para explicar os procedimentos complexos de adaptação, sobrevivência e

desaparecimento que governam a evolução dos ecossistemas. Parece desde logo necessário proceder a uma

tentativa de “reforma do pensamento” teórica e conceitual, a fim de incorporar nas ciências do homem o

conceito de vida e/ou, inversamente, uma ciência da ecologia capaz de integrar, em seu desenvolvimento

reflexivo, uma nova abordagem da dimensão antropo -social3.

Os pensadores habituam-se a sonhar de olhos abertos, projetando ações com direção e

sentido que, conscientemente, na prática jamais adotariam. Quando despertam para as exigências

da realidade material, tentam coletar da memória onírica o que ocorreu mas, geralmente, não

conseguem trazer ao estado de consciência a causa real de seus processos mentais. Só então

percebem que os marcos deixados pelas linhas de pensar em que ocorrem os sonhos são frágeis,

difusos quando não confusos.

3 PENA-VEGA, Alfredo. O despertar ecológico:Edgar Morine a ecologia complexa. Tradução de Renato Carvalheira do Nascimento e Elimar

Pinheiro do Nascimento. Rio de Janeiro:Garamond, 2003.

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A linguagem dos sonhos sejam noturnos ou diurnos é, muitas vezes, constituída por sinais



aparentemente desconexos, sem apoio em algo sensível que permita reconstruir a seqüência dos

pensamentos oníricos. Para alguns estudiosos, o inconsciente é atemporal.

Sobre a linguagem dos sonhos, Fromm 4 escreveu:

Os mitos dos babilônios, indianos, egípcios, hebreus e gregos são redigidos na mesma língua que os

dos achantis ou dos xavantes. Os sonhos de uma pessoa vivendo hoje em dia em Nova Iorque ou Paris são os

mesmos registrados por pessoas que viveram há mil anos em Atenas ou Jerusalém. Os sonhos do homem

antigo e do moderno estão escritos na mesma língua que os mitos cujos autores viveram na aurora da

história.

O passo que dá início à busca dos caminhos do conhecimento efetiva-se com a eleição do

método. É um processo que leva a situações semelhantes às que ocorrem ao acordar dos sonhos.

A volta ao estado de consciência ocorre por meio de imagens pouco nítidas. Estas

emergem, no despertamento, por ações intelectivas de comparação, definição e reconhecimento.

O estado consciente passa a exigir um mapeamento das representações, dos signos e dos sinais

observados. Os pensamentos são compilados mediante a síntese dos dados obtidos pela

observação pessoal. As informações resultantes das observações, sejam teóricas ou práticas,

indicam os mais diversificados modelos de relações tais como presenças, ausências, posições,

durações ou outras formas de manifestação dos fenômenos. A partir daí é induzida à construção

de formas de pensar supostamente pessoais, próprias, convenientes e oportunas.

Por uma série de observações e ordenação de argumentos, passamos a acreditar que o

misticismo, o autoritarismo, o racionalismo, o empirismo, o pragmatismo, o ceticismo, a

amorosidade e o intuicionismo são métodos fundamentais, a partir de cuja combinação podem ser

identificados diferentes níveis de realidade por onde serpenteiam as trilhas do conhecimento.

Eleger um método equivale a escolher um caminho que permita a abordagem no nível de

realidade em que nos situamos. Aos peregrinos do intelecto são permitidos vários roteiros,

inúmeras trilhas e os mais diversos caminhos. Os mais sábios preferem aproveitar-se também das

experiências alheias, prevenindo insucessos que, muitas vezes de forma irremediável, consomem

longos períodos de vida. Afinal, a experiência ensina que, despendido em erros, o tempo de vida

não é restituído.

Sabemos que, por vezes, é possível recuar diante de erros, equívocos e direcionamentos

que nos distanciam de nossos propósitos. Mas, por ora, só a imaginação e a ficção científicas nos

têm permitido recuar no eixo dos tempos. O tempo é algo que parece ser irrecuperável. Tempo

mal aproveitado é vida mal vivida. Tempo desperdiçado é vida consumida sem aproveitamento.

Somos intuitivamente levados a crer que compete aos que querem avançar em direção ao

conhecimento fazê- lo com segurança, firmeza e em velocidade cautelosa, compatível com suas

potencialidades. A razão e a vontade de viver visando a utilidade do conhecimento e das coisas

impõem-nos a escolha de caminhos apropriados para melhor aproveitamento do saber assimilado.

A experiência ensina que alcançamos os objetivos ou por acidente ou quando o fazemos

com diligência. Caso contrário, restamos às margens do processo intelectivo em que definimos

uma parte da nossa natureza humana. Em nossas abordagens intelectivas procuramos respaldar

nossos avanços com as informações trazidas pelo senso comum. Daí por que os avanços serão

grafados na linguagem discursiva, traduzida no idioma português falado no Brasil, e terão, como

base de informações, a autoridade do que nos é informado pelos dicionários, sejam eles

etimológicos, gramaticais, enciclopédicos ou de linguagens próprias de campos específicos do

conhecimento.

4 FROMM, Erich. A linguagem esquecida. Rio de Janeiro: Zahar Ed. 1964, p.14.



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A palavra método tem origem no vocábulo grego ? (leia-se Méthodos). Este



verbete aporta vários significados, dentre os quais destacamos: caminho, programa, processo,

técnica, procedimento, forma ou modelo de ação, meio, tratado procedimental. No sentido

figurado significa também prudência, atenção, ritual, circunspecção; modo judicioso de proceder;



ordem.

Podem ser exercidas várias opções ao caminhar na direção do entendimento e

conscientizar os vários processos mentais na abordagem cognitiva. Torna-se fácil, então,

constatar que vários métodos são passíveis de utilização. De fato, muitos são os caminhos para o

conhecimento. Há métodos unidisciplinares específicos, aplicados a disciplinas específicas. Há

métodos interdisciplinares que propiciam o conhecimento via da abordagem por diferentes

disciplinas. Há métodos pluri e multidisciplinares, cujos trajetos são determinados por

informações oriundas de várias diferentes disciplinas. Isso ocorre quando as crenças são

diversificadas e relacionam-se em diferentes campos do conhecimento, quando não e também,

em diferentes níveis de realidade. Há, contudo, um método que nos parece mais próprio, objeto

fundamental desta abordagem, definido na postura transdisciplinar, por muitos entendida tal

como um mirante a partir do qual são abertos os horizontes do conhecimento holístico.

Os dicionários especificam alguns significados contidos no verbete método, que são

indicados pelas diferentes práticas e disciplinas. Eles conduzem a contextos intelectivos que se

abrem à abordagem dos fenômenos cognitivos possibilitando- lhes o estudo.

Podemos verificar em cada campo do conhecimento como os estudiosos percorrem várias

trilhas, caminhando por diferentes níveis de realidade, fazendo-nos presumir variadas

possibilidades de conquistas. Todavia, ao mesmo tempo em que procuramos agir racionalmente,

podemos observar que enquanto caminhamos por entre as névoas do desconhecido nós nos

deixamos guiar ora menos, ora mais, pelos mistérios que envolvem grande parte do que

pretensamente conhecemos. Emergente de um suposto conhecimento ancestral, originário de

arquétipos, o misticismo nos induz à aceitação de proposições que se tornam redutíveis a crenças



e justificações, assinalando as raízes e pré-requisitos do que designamos conhecimento científico.

Recebemos ainda sinais intuitivos de que o espaço e o tempo são indissociáveis, sendo

imaginariamente ocupados pelas variações do conhecimento, tal como o Universo. Ambos nos

levam a crer que sejam destituídos da linearidade geométrica revelada nas curvaturas

pluridimensionais sugeridas pela trigonometria. E, sob este ponto de vista, o conhecimento nos é

proposto tal qual a maneira pela qual o Universo é percebido, ou seja, em expansão fazendo

projetado e representado por curvaturas.

De outro lado, acreditamos que os métodos, por melhores que sejam, não podem ser

inflexíveis. Na medida em que os objetos do conhecimento mostram-se dinâmicos, temos de

aceitar que os caminhos para compreendê- los também se apresentam mutáveis.

Do método reconhecido por autoritarismo recebemos seqüências de informações,

traduzidas por afirmações sobre as quais não suscitamos dúvidas. São sinais que nos chegam

pelas mais variadas notícias de fatos e ações, via das quais a mesma natureza de crença e

justificação é atribuída a idéias e linhas de pensar.

Observamos que um sentido eminentemente utilitarista faz-se presente nos percursos

empreendidos pelo intelecto.Queremos conhecer o processo cognitivo visando reduzir custos

operacionais e melhorar os rendimentos. Queremos agir para aumentar ganhos pessoais ou

coletivos e reduzir eventuais prejuízos. Desse ritual pragmático emerge com nitidez a relação

trabalho-resultado, reduzida pelos economistas à expressão custo-benefício. O pragmatismo é, em

si mesmo um dos caminhos para o conhecimento, e, possivelmente, o mais próximo de nossa

maneira de avaliarmos o que nos convém.


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