Gustavo Korte


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Metodologia e Transdisciplinaridade Gustavo Korte

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ligar, atar, prender.

O significado etimológico traduz o fato material da ligação que submete, legal ou

moralmente, aquele que se obriga a cumprir determinada prestação.Alguns juristas208 vêm na

obrigação o ponto central do direito privado. O verbete obrigação reflete várias acepções. Em

sentido amplo e genérico, a obrigação se manifesta como a imperatividade que sujeita coisas e



pessoas, para que estas façam ou deixem de fazer alguma coisa. Ainda que o termo

imperatividade tenha uma conotação de necessidade moral, de fato, a obrigação revela-se com o

pressuposto de ser contingente, ou seja, pode ou não ser cumprida. Daí se infere que, pela

ocorrência de obrigação não cumprida, no campo jurídico impõem-se penalidades ao

descumprimento.

O verbete obrigação traduz um dever, uma necessidade moral de praticar ou não uma

determinada ação. No campo das Ciências Jurídicas e Sociais o verbete emerge no Direito

Natural e nas Ordenações Jurídicas com o significado de uma necessidade moral de fazer ou

omitir o que os ordenamentos reconhecem como imperativo próprio da natureza do ser humano

ou da lei.

Assim o ser humano tem, perante a sociedade e como elemento submisso às suas regras,

a obrigação de cumprir as leis; de situar-se como sujeito ativo ou passivo de direitos, sejam

legais ou naturais, nas relações com coisas e pessoas; sujeitar-se às normas jurídicas que

definem o Direito Penal, reconhecendo o direito do Estado que, em nome da sociedade, deve agir

em favor da paz e harmonia social, mesmo se tiver que intervir em relação às pessoas que

descumprem as leis.

Fácil observar que o significado de obrigação é conexo com o da responsabilidade que

deve prevalecer nas relações entre coisas e pessoas. Ou seja, traduz o dever moral de que o titular

da obrigação responda às pessoas e à sociedade pelas ações e omissões, bem como está

assegurada a reciprocidade de direitos.

Quando se fala em obrigação surgem dois pólos, projetados nas figuras do credor e do devedor. O

devedor é quem dá cumprimento à obrigação. O credor tem o direito e o dever de recebê-la. Dever e pagar,

cobrar e quitar obrigações são ações que definem a direção e o sentido das linhas de pensar (ligações) que

definem as relações obrigacionais. Obrigações descumpridas geram responsabilidades, ou seja, direitos de

ação do credor. Estes direitos incluem o de agir em juízo, reclamar lucros cessantes, perdas e danos, sejam

materiais ou morais.

As obrigações também podem ser classificadas em relação à natureza e propriedade dos

fatos geradores que podem ou não resultar da vontade dos envolvidos. As obrigações de que os

filhos menores são credores, não resultam da vontade individual mas da vontade social que impõe

aos ascendentes a obrigação de alimentá-los e educá-los. As obrigações geradas pela morte são

estudadas no Direito das Sucessões, e resultam da natureza mortal dos seres humanos.

Atos jurídicos, tanto lícitos como ilícitos, podem gerar direitos e obrigações. O contrato

nupcial é ato lícito e legal, que gera direitos e obrigações. O homicídio é ato definido como ilícito

penal e civil, mas também gera direitos e obrigações, pois o homicida responde civil e

penalmente. perante o Estado e diante dos herdeiros e sucessores.

O senso comum designa por obrigação também a expressão verbal em que se constitui o

contrato escrito ou oral. O que leva ao entendimento que as palavras obrigam e geram direitos.

Os documentos contratuais escritos geram direitos e obrigações como resultado da eficácia das

palavras. Para que possamos apreender o significado global contido no verbete obrigação,

devemos entender quatro momentos seqüenciais: nascimento, duração, eficácia e prova de

208 Dentre eles: Josserand, P.Cuche, Tarde, Marning, Diguit, Gierke, Thur e outros.



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existência.

Numa visão simplificada, quanto à origem que dá causa ao nascimento, as obrigações são

legítimas quando suas causas são definidas ou decorrem da lei. São causas deontológicas as que

pré-existem ao nascimento da obrigação. São causas teleológicas as que visam o resultado final

da ação ou omissão contratadas. O enriquecimento é uma causa final (teleológica) lícita. Mas

quando viola direitos de outrem pode tornar-se um resultado ilícito, porque decorre de uma ação

ilícita ou ilegal. As causas das obrigações, sejam originais ou finais, são lícitas quando obedecem

as regras morais, sugeridas por tradições, usos e costumes. As regras originadas de tradições,

usos e costumes nem sempre coincidem com os dispositivos legais.

Duração diz respeito ao período em que a obrigação é eficaz, em que ela obriga e é

exigível, enquanto condiciona fenômenos éticos jurídicos.

56. Arte e amorosidade

A idéia contida no verbete poeta liga-se à poesia e à poética.

Poesia diz respeito à arte. Deriva do substantivo grego poiésis, com o significado de ação

geradora, criação, ou seja, à revelação de algo a ser feito. No latim, assumiu o significado de arte

de escrever em versos, gerada pelo entusiasmo criador que é semeador de inspiração. Com

significado genérico designa o processo verbal gerador do encanto, da graça e da beleza.

Poética é o adjetivo qualificativo usado por Aristóteles em referência à arte (areté)

discursiva, significando a habilidade e a técnica próprias para a escritura de versos. Como

substantivo o verbete poética manifesta a criatividade verbal, geradora de expressões discursivas.

Poética e retórica são artes da mesma natureza, mas reveladas por processos distintos. A

poética é essencialmente criativa, construída sobre formas verbais combinadas com expressões

metafóricas de que resultam mensagens harmônicas e surpreendentes. Não deve ser confundida

com a retórica, que, também criativa e metafórica, diz respeito mais estritamente às técnicas de

comunicação relacionadas à oratória e ao discurso genérico.

As palavras poeta, poética e poesia têm o significado que lhes é deferido pela mesma raiz grega. O

verbete, no original grego poietes (?= poeta), tem origem no radical poién, que em grego significa

criar, ser gerador. Em latim o significado tornou-se mais abrangente, sinalizando criação, o que cria, o que

concebe. Poeta em latim significa poeta aquele que cria e faz alguma cois a .No original grego poietés,

trazia, no período clássico, o significado d'aquele que faz, no sentido de fazer, criar, gerar, efetivar. No latim

clássico poeta,ae designa. aquele que tem faculdades poéticas e se consagra à poesia fazendo (gerando)

versos. No sentido figurado, designa a pessoa imaginativa. Também, figuradamente, como adjetivo, indica

posturas vagas e aleatórias.

O senso comum refere-se ao que é poético quando quer significar a abstração de

caráter idealista. O adjetivo poético presta-se, por vezes, a uma assertiva pejorativa,

significando o que é alheio à realidade, preso aos ideais utópicos. Conhecemos a poesia

como uma das artes dependentes da linguagem discursiva. Ou seja, a criação poética ligase

essencialmente à verbalização segundo conteúdos e significados transmitidos ou

fixados por formas verbais, ritmo, idioma, métrica e rima.



Poeta e poetisa querem significar os que constroem expressões poéticas por meio da

linguagem discursiva. Não devemos confundir poetas com oradores, decla madores, recitadores

ou narradores. Existiam, na Grécia Clássica e no conjunto do pensamento romano, duas artes

distintas: arte poética (ars poetica) e arte retórica (ars rethorica). Aristóteles discorreu sobre

ambas, em dois livros que são publicados, geralmente, em um único volume: Retórica e Poética.

A arte poética serve ao estudo das formas de comunicação pelas quais o artista que

domina o discurso cria e transmite idéias, linhas e formas de pensar agindo diretamente sobre a

inteligência emocional. Está sujeita às formas pelas quais a mensagem pode ser transmitida e



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recebida.

A aprendizagem da arte poética é ditada pelos mesmos parâmetros que os das demais

artes. Na produção da beleza e da sabedoria que transmite, a arte poética se sujeita a regras de

linguagem, vocabulário, harmonia, ritmo, duração, amplitude e cadência, sem que dessas

relações seja excluído outro elemento substantivo, implícito no significado principal, ou seja, a

poesia.


Observamos que as pessoas podem ser dotadas de atributos artísticos tais como potencial

poético e potencial retórico. Mas a cada um deles corresponde um significado diferente. Podemos

reconhecer no potencial poético a criatividade e a sensibilidade como forças interiores essenciais

e determinantes da atividade artística. Tais virtudes não dependem das possibilidades

fonoauditivas do poeta. A pessoa pode ser muda e fazer poesia. Pode ser surda e compor versos

de conteúdo eminentemente artístico.

A retórica, todavia, exige, além do poder fonoauditivo de quem por ela envereda, também

poder de redação de quem se comunica pela escrita. Enquanto dicção, timbre, sonoridade,

intensidade, clareza constituem-se em requisitos essenciais para o sucesso da retórica oral,

todavia não são suficientes sem o rigor lógico ou emocional na articulação dos argumentos e das

formas de pensar. A soma de tais características faz da retórica a arte fundamental nas

comunicações discursivas, tanto teóricas como na vida prática.

A arte discursiva revela-se na arte poética, enquanto criação e composição, e na arte

retórica, enquanto transmissão e execução. Enquanto a poética responde ao idealismo, como

expressão de espírito, alma e coração a retórica responde ao pragmatismo imanente nas

experiências e nas vivências humanas.

Comparando-se as artes discursivas, aqui incluídas a retórica e a poética, com as artes

musicais, nos gêneros melodia e canto, podemos enunciar a relação sugerindo que a poesia está

para a melodia assim como a retórica está para o canto.

As expressões verbais que traduzem o significado de Amor, comumente exibem o

trabalho dos artistas da linguagem. E, assim, nos deixamos impressionar e sensibilizar pelas

palavras de poetas, pelos símbolos poéticos, pelas relações geradas no seio da arte poética. Tais

manifestações são recebidas como manifestações amorosas, criadas, geradas e ligadas aos

sentimentos, às emoções, às frustrações, às alegrias, às tristezas, às esperanças, aos sonhos e

devaneios que nos trazem o colorido dos dias, das noites e da própria vida. As manifestações

poéticas implicam em comunicação amorosa que une idéias, pessoas e coisas por sentimentos

profundos .

Paz, harmonia, amor, alegria, tristezas e tantas outras paixões podem ser contingenciadas

nas expressões poéticas. Importa enfatizar o significado de contingenciadas pois as mensagens

difundidas nas artes discursivas, aqui incluídas a retórica e a poética, podem ou não ser eficazes,

materializadas, realizadas ou captadas.

Na linguagem musical, afora as mais diferentes constatações quanto a sons e ruídos, seja

no que diz respeito à altura, à tonalidade, à escala, à intensidade, à harmonia etc., podemos

distinguir na percepção sensorial entre linguagem instrumental e a vocal, e quanto à percepção

intelectiva, reconhecemos diferenças entre melodia e harmonia.

Essa capacidade de distinguir os sons e suas combinações é devida ao aprendizado que, ao

longo da vida, cada qual assimila a seu modo, embora passe despercebido a nossa consciência. A

maioria de nós não se dá conta de que esse processo de aprendizagem e fruição do conhecimento

musical ocorre simultânea e, quiçá, independentemente de outros fenômenos semelhantes.

Quando fazemos parte de multidão, ou de um público extremamente diversificado quanto

a interesses e gostos auditivos, é possível observar um pré-condicionamento que nos leva a

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gostar ou não de determinadas apresentações musicais.

Os que conhecem e trabalham costumeiramente com a arte musical aprendem tanto a

execução material por meio dos instrumentos e da voz, como são ensinados a ler, nas pautas, a

representação dos sons. Pelos recursos da memória auditiva os referidos músicos procedem à

reconstrução imaginária dos sons enquanto, pela visão, fazem a leitura e tomam conhecimento

dos sinais gráficos.

Não se pode negar que o ser humano tem memória auditiva ou, melhor dizendo, memória

sonora. Howard Gardner escreve sobre a existência de uma inteligência musical integrando o

conjunto das potencialidades humanas. Em algumas espécies de animais constata-se a existência

de memória auditiva e sonora - possivelmente ligada a uma respectiva inteligência musical: cães,

gatos, cavalos, vacas e bois, ovelhas e cabras, elefantes, macacos e ursos amestrados, respondem

a ordens discursivas, sons de assobio e outros sinais sonoros que lhes são dirigidos. Comunicar,

do verbo latino communico,as,avi,tum,are, aporta o significado de partilhar com outros alguma

idéia, coisa, sensação ou emoção. Traz também o significado de trocar, dar e receber.

Atentemos para o que os cantores visam com seus cânticos e sons. Quando nos referimos

à comunicação artística está implícito o significado de partilhar o que é bom, belo e harmônico.

Ao cantar nos idiomas que lhes são próprios, enquanto recorrem ao simbolismo verbal, além do

significado da palavra, os intérpretes acrescentam melodia, entonação de voz, profundidade,

dicção, harmonia, timbre, altura, intensidade, etc., meios pelos quais tornam-se mais ou menos

comunicativos, satisfazem ou desagradam os diferentes ouvintes. Há cantores que exercitam

formas peculiares de expressão, quer no canto lírico, como no religioso. Outros se distinguem

por seu desempenho no estilo gregoriano, clássico, popular, sertanejo, místico, pop, reggae, rock

etc., verificamos que são inúmeras as variações de estilo e apresentação, que oscilam com a

moda, o tempo e a audiência. O artista, quando canta, procura ligar-se com seu público, e recorre

aos artifícios mais imponderáveis para fazê-lo. Desde a potência e o timbre de voz, até os rituais

da apresentação cênica, com os mais desenvolvidos recursos da produção sonora e visual.

Para o observador atento é visível a raiz mística nas comunicações musicais por cânticos

e melodias. Desde os mais antigos rituais místicos e religiosos, o espírito do homem reluta em

ficar em silêncio. Pe lo contrário, procura associar a aproximação com seus deuses por meio de

sons harmônicos e ruídos e, mais especialmente, da música cantada. Nos rituais místicos e

religiosos há uma tenaz e constante preocupação da associação da música com a invocação

divina. Esta observação remonta desde os rituais dos primitivos magos. Repete-se na história de

caldeus, medas, persas, gregos, egípcios, chineses e nipônicos, da mesma forma que ainda está

presente nas tribos indígenas remanescentes.

Os praticantes dos cultos modernos do cristianismo e do islamismo, assim como os que

revivem as tradições religiosas orientais e africanas, em seus diferentes ritos e rituais recorrem às

artes musicais.

Durante os sacrifícios, nos rituais medas e persas, o mago sacerdote entoava cânticos.

Para os vedas, era essencial que esses cânticos também constassem do cerimonial. As igrejas e

comunidades religiosas mais freqüentadas no Brasil moderno, nos mostram como a música faz

parte dos rituais, excita o espírito e alimenta o esforço de comunhão com Deus. São nuvens de

mistério, como a neblina do amanhecer que encobre uma realidade luminosa a ser desvendada, no

mais das vezes rica em beleza, em harmonia e calor.

Há cadências que agradam em um certo momento e desagradam em outro. Há cânticos

que, em algumas situações, emocionam e levam às lágrimas e, em outras, irritam e levam à

agressão. Há poder mágico nos ritmos, nos timbres, nas tonalidades, nas entoações, nas cadências

e nos cânticos e melodias. Música e magia são dois campos da atividade humana em que tudo

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parece decorrer da intuição sonora e auditiva, obediente a regras matemáticas de freqüência,

ritmo, altura e intensidade, que não ascendem ao nível de consciência empírico-racional.

Pode ser verificado que o artista, quando canta, procura ligar-se com seu público, e

recorre aos artifícios mais imponderáveis para fazê- lo. Desde a potência e o timbre de voz, até os



rituais da apresentação cênica, com os mais desenvolvidos recursos da produção sonora e visual.

Para o observador atento é visível a raiz mística nas comunicações musicais por cânticos e

melodias. Uma das revelações da atividade artística é que, não só o cantor mas assim também

poetas, escultores, pintores e escritores de toda a natureza, quando exercem suas artes, esforçamse

por transmitir conhecimentos.

Johannes Hessen, pensador alemão da atualidade, faz as seguintes considerações:



Conhecimento expressa uma relação entre sujeito e objeto. O verdadeiro problema do conhecimento

racional coincide com a questão sobre as condições e regras que são causa dessa relação. Vimos que, para

a consciência natural, o conhecimento aparece como uma determinação do sujeito pelo objeto. Mas será

correta essa concepção? Não deveríamos , pelo contrário, falar do conhecimento como uma determinação

do objeto em relação ao sujeito? Qual o fator determinante do conhecimento humano? Seu centro de

gravidade está no sujeito ou no objeto?209

Em três diferentes capítulos designados Modal, Tonal e Serial, de substancioso trabalho

que reúne ciência, arte e beleza, o maestro José Miguel Wisnik (1948- ... ) afirma:.

... Assistimos hoje, ao que tudo indica, ao fim do grande arco evolutivo da música ocidental, que vem

do cantochão à polifonia, passando através do tonalismo e indo se dispersar no atonalismo, no serialismo e

na música eletrônica.(...) O som periódico opõe-se ao ruído, formado de feixes de defasagens "arrítmicas" e

instáveis. Como já se disse, no entanto, o grau de ruído que se ouve num som varia conforme o contexto.(...)

O jogo entre som e ruído constitui a música. O som do mundo é ruído, o mundo se apresenta para nós a

todo momento através de freqüências irregulares e caóticas com as quais a música trabalha para extrair-lhes

uma ordenação que contém também margens de instabilidade, com certos padrões sonoros interferindo sobre

outros(...) Um único som afinado, cantado em uníssono por um grupo humano, tem o poder mágico de evocar

uma fundação cósmica: insemina-se coletivamente, no meio dos ruídos do mundo, um princípio

ordenador(...) As sociedades existem na medida em que possam fazer música, ou seja, travar um acordo

mínimo sobre a constituição de uma ordem entre as violências que possam atingi-las do exterior e as

violências que as dividem a partir do seu interior210.

Toda relação é sempre uma expressão. Entre sujeito e objeto estabelece-se uma relação,

ou seja, uma expressão de ação ativa ou passiva, de ligação, de complementação, adição ou

exclusão. Ora, quem motiva a ação não é necessariamente quem pratica a ação. A ação do

homem é gerada na vontade, que pode ou não ser sua. A vontade pode ou não ter origem no

sujeito, sendo certo que o objeto pode ter sido ou ser o estímulo que excita e provoca. Quando

falamos de uma linha, que tem duas extremidades, se faltar uma delas não há linha. Se faltar

objeto não há ação, se faltar sujeito, também não.

Ao referir-nos ao conhecimento, seja este de qualquer natureza, necessariamente perfaz-se

uma ligação entre o sujeito e o objeto do conhecimento. Quando falamos de artistas, há uma

pressuposição de que haja apreciadores de arte. Está implícita na idéia de arte a ligação sujeito

ativo-objeto-sujeito passivo da produção artística, onde sujeito ativo é o artista, objeto é a obra de

arte e o sujeito passivo é quem recebe a comunicação artística. Essa ligação é da mesma natureza

daquela que existe nas expressões e relações do conhecimento.

Diz-se que arte é cultura. Temos para nós que cultura está envolvida na própria conquista

e construção do que designamos conhecimento humano. Portanto, não há como negar que arte é

conhecimento. Já este significado vinha contido na palavra grega areté, que em latim gerou

209 HESSEN, Johannes. Teoria do conhecimento. São Paulo: Martins Fontes,1999. Hessen coloca o método fenomenológico (fundado no

empirismo) a serviço da teoria do conhecimento.

210 WIZNIK, José Miguel. O som e o sentido. São paulo: Cia. das Letras, 1999.



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ars,tis, cujo significado traduz muito do que nós entendemos hoje por técnica e habilidade

profissional.

Sem dúvida, técnica e habilidade profissional são adquiridas e memorizadas nos processos

de conhecimento. Portanto, parece indubitável e verdadeiro afirmar que arte é conhecimento. Isto

resulta em que, sem arte, não se chega ao conhecimento e, sem conhecimento, não entendemos a

mensagem artística.

A arte, quando revelada na relação artista-objeto-observador traz, para a abordagem do

conhecimento, uma nova ligação, que dá seqüência à relação primitiva sujeito -objeto, exigindo

mais um elemento, ou seja, a arte só se perfaz enquanto meio de comunicação na medida em que

o outro participe: é o outro que recebe e comunga da comunicação artística.

Não se concebe a arte como monólogo mental dirigido a si mesmo. Ela exige pelo menos

o outro, por mais indefinido que seja a quem é destinada a mensagem artística.

Voltemos, todavia, às relações entre o ser humano e os sons.

Cantor é o designativo para os que praticam, de forma usual, a ação de cantar. Este

verbete tem sua etimologia presa a dois verbos latinos, a saber, cano,is, cecini, cantum, ere, da 3.ª

conjugação e canto, as, vi, tum, are, da 1.ª conjugação. Ambos verbos traduzem o significado de

cantar, no sentido de celebração processada em versos musicados, harmônicos, ritmados e

poéticos. Ou seja, há uma simbiose necessária entre o cantor e o poeta. Este tem, pela voz

daquele, seus versos entoados com musicalidade, que é adicionada ao conteúdo poético, visando

propiciar harmonia e prazer na comunicação. Como substantivo, cantor veio para o vernáculo

com o significado daquele que canta, ou seja, emite fo nemas e sons dentro dos requisitos

estéticos da arte musical, submisso à melodia e à harmonia.

Todo cantor é um músico, nem todo músico é cantor. Portanto, ser músico é estar

enquadrado no gênero do qual o cantor é uma espécie. Em sânscrito a palavra Nada significa

Som. E quando se lê, no estudo do hinduísmo, que no princípio era o Nada, isto quer significar,

que no princípio era o Som.

O que entendemos por som é explicitado nos dicionários. Do verbo latino sono, as, sonui,



sonatum (ou sonitum), sonare, o vernáculo recebeu soar com vários significados, a saber: soar,

produzir sons, emitir sons, ressoar, retumbar, repetir sons, ser ouvido, cantar, recitar,

declamar,dar som ao instrumento, significar; querer dizer, quere comunicar. Músico é verbete

originado do grego mousikós, ou seja, refere-se ao que é relativo às musas e às artes musicais. É,

enquanto substantivo, o gênero do qual os significados de compositor, cantor, instrumentistas e

maestro, são espécies. O senso comum designa por músico o que tem habilidades para a arte

musical.

Em sânscrito, a palavra nada significa som. E quando se lê, no estudo do hinduísmo, que

no princípio era o Nada, isto quer significar, que no princípio era o Som. Som designa o

fenômeno físico estudado pela acústica e que ocorre na propagação de ondas sonoras. É

reconhecido pela reprodução das vibrações de um corpo, que se propagam em meio físico de

natureza elástica tal como água e ar. Caracteriza-se por freqüência, intensidade, direção, sentido e

ponto de aplicação.

A percepção sonora decorre da capacidade auditiva. Esta é definida, dentre outras, pela

acuidade auditiva, ou seja, pelos limites físicos da pessoa que recebe a propagação sonora.

Distingue-se de ruído pelos efeitos que causa em quem ouve. O som provoca sensações

agradáveis, o ruído provoca distúrbios e sensações desagradáveis.

Com sentido genérico e abrangente, o senso comum, na atual sociedade de consumo,

refere-se a som como sendo um aparelho eletro-eletrônico que decodifica a imagem sonora

gravada reproduzindo as vibrações musicais. A referência se aplica também ao espetáculo



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