Gustavo Korte


Metodologia e Transdisciplinaridade Gustavo Korte



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Metodologia e Transdisciplinaridade Gustavo Korte

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Quando falamos de cristais, sabemos que ao longo de milhões de anos as moléculas de

carbono se adaptam a um contexto, formando carvões, cristais, diamantes e brilhantes, cumprindo

projetos e sistemas de cristalização. Fica evidente que há diferentes durações para cada processo.

Os carvões são formados em duração mais curta que os cristais, brilhantes e diamantes. Mas o

processo, ainda que obedecendo as características de diferentes durações, é contínuo e atua sob a

ação de uma força que designamos amorosa na medida em que pretende eternizar cartões,

cristais, brilhantes e diamantes. Os cristais também crescem!

Designamos por amorosidade essa força de atração e repulsão que atua sobre as

moléculas, de tal forma que elas cumprem o ritual da cristalização e perpetuam-se sobre o

planeta. Da mesma forma, os sistemas vivos de qualquer natureza, tanto como animais e vegetais,

usam das mais diversas formas de sistemas reprodutivos. E, nesse processo, consomem energia e

despendem esforço imensurável para que suas espécies se perpetuem. Mesmo assim, diante de

todo esse trabalho, percebe-se que há sempre uma renovação de fauna e flora, quer seja por

adaptações quer por mutações do seu código genético.

Nos estudos de Física quântica porém, surgem aspectos surpreendentes. O físico Basarab

NICOLESCU (1999) em seu Manifesto da Transdisciplinaridade, informa:



No começo do século XX, Max Plank confrontou-se com um problema de física, de aparência inocente,

como todos os problemas de física. Mas, para resolvê-lo, ele foi conduzido a uma descoberta que provocou

nele, segundo o seu próprio testemunho, um verdadeiro drama interior. Pois ele se tinha tornado a

testemunha da entrada da descontinuidade no campo da física (...) Deve-se entender por nível de Realidade

um conjunto de sistemas invariantes sob a ação de leis gerais: por exemplo, as entidades quânticas

submetidas às leis quânticas, as quais estão radicalmente separadas das leis do mundo macrofísico. Isto quer

dizer que dois níveis de Realidade são diferentes se, passando de um ao outro, houver ruptura de leis e

ruptura de conceitos fundamentais (como, p.ex. a causalidade). Ninguém conseguiu encontrar um formalismo

matemático que permita a passagem rigorosa de um mundo ao outro.213(..) O Espaço-Tempo Cibernético

não é determinista nem indeterminista. Ele é o espaço da escolha humana. Na medida em que o ETC

permite que a noção de níveis de realidade e de lógica do terceiro incluído seja colocada em jogo, ele é

potencialmente um espaço transcultural, transnacional e transpolítico214(...) O desenvolvimento explosivo das

redes informáticas não equivale, sozinho, a uma revolução da inteligência. Sem a afetividade, a efetividade

dos computadores se transforma num caminho seco, morto, perigoso mesmo, um outro desafio da

modernidade. A inteligência é a capacidade de ler ao mesmo tempo entre as linhas do Livro da Natureza e

entre as linhas do livro do ser interior. Sem as pontes entre os seres e as coisas, os avanços científicos só

servem para aumentar uma complexidade cada vez mais incompreensível.215

Isto significa dizer que, nas relações inter e intramoleculares, o que nós designamos por



amorosidade atua ou pode atuar segundo parâmetros diversos daqueles que observamos no

macrocosmo. Mas, nem por isso, deixam de revelar o signo de uma força de perpetuação de



sistemas, sejam os considerados vivos ou inanimados216, que está presente em todos os campos

pelos quais o homem peregrina em busca do conhecimento.

Quando falamos de amorosidade como força presente em fenômenos biológicos

pressupomos a existência de sistemas vivos, que integram o que reconhecemos por seres



animados, em que os metafísicos identificam a alma.. Mas há sistemas inanimados, que

caracterizam os minerais, nos quais o senso comum não reconhece a existência do que

213 NICOLESCU, Bassarab. Manifesto da Transdisciplinaridade. S. Paulo: Triom, 1999, p.25.

214 NICOLESCU, Bassarab. Manifesto da Transdisciplinaridade. S. Paulo: Triom, 1999, p.84.

215 NICOLESCU, Bassarab. Manifesto da Transdisciplinaridade. S. Paulo: Triom, 1999, p.92.

216 Diante das relações modernamente indicadas entre energia-matéria, o antigo conceito de vida sofre alterações de tal ordem, que é mais preciso

designar por sistema vivo, o que outrora dizia-se ser vivo. E, nas revelações científicas que emergiram dos estudos do organismo e cérebro

humanos, do micro e do macro cosmos, tanto pela biologia e neurofisiologia, como pelas informações advindas da física quântica e da

astronomia, asa dificuldades para identificação de sistemas animados e inanimados tornam-se quase insuperáveis. Pergunta-se, sem respostas

convincentes, pois hão de ser dadas em função dos conhecimentos emergentes das várias disciplinas, que nem sempre convergem, se todos os

fenômenos da vida estão compreendidos entre os limites da matéria e da energia, ou se, há algo mais, que transcende essas fronteiras.

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designamos por alma mas que, através de um trabalho de milhões de anos também se perpetuam

nas suas combinações moleculares. Modernamente, para caracterizar a presença do que é

designado biologicamente como vida, a referência já não é restrita a seres vivos, mas é ampliada

para sistemas vivos

Não seria difícil a qualquer de nós identificar a amorosidade entre os seres vivos sexuados

definindo-a, no senso comum, como a força que atua entre os indivíduos de sexos opostos,

fazendo com que se unam sexualmente e proc riem, impelindo-os assim à conservação da espécie.

Por este enfoque o amor seria tão somente uma força natural que atua entre os seres vivos

sexuados. Mas, as experiências científicas, tanto como as humanas, mostram que assim não é.

O amor atua também entre seres vivos assexuados, hermafroditas, unissexuais, homo e

heterossexuais, homo e heterogâmicos. O sentido de proteção e fortalecimento dos seres recémnascidos

pelos que, da mesma espécie, os antecederam no tempo, assim como a busca das

condições ideais para que a espécie ( ou as combinações atômicas e moleculares persistam sejam

preservadas, não depende de sexualidade ou sexo. É imperativa a heterossexualidade nas

condições do equilíbrio reprodutivo, verificadas pela biocenose. Mas ninguém pode contestar a

existência de emoções fortíssimas, de natureza hétero ou homossexual, com as mesmas

características da força designada por amorosidade. Tais emoções atuam entre todos seres,

independentemente do sexo, e não apenas entre humanos como também entre animais.

Os sistemas vivos são tolerantes com essas manifestações que tanto podem decorrer, entre

os seres humanos, de costumes e tradições de grupos humanos específicos, como e também de

condições psico, bio ou neurofisiológicas, resultantes de funções ou disfunções psíquicas e/ou

hormonais.

A amorosidade revela-se como um dos caminhos do conhecimento que possibilita a

integração das práticas e conhecimentos, de múltiplas naturezas, que integram o mundo das

realidades. Supomos que o processo integracionista que acena com a visão holística, sempre

poderá ocorrer na medida e nos limites em que tais relações não abalem a perpetuidade das

espécies. Aqui reside o paradoxo do processo metodológico transdisciplinar, pois queremos

caminhar para a universalidade mas vendo respeitados os fragmentos dessa totalidade, ou seja, as

individualidades.

Acreditamos e queremos caminhar visando alcançar o Todo Universalizado, mas lutamos

e desejamos ver eternizada a sobrevivência da partes. Daí porque impõe-se-nos prosseguir,

enquanto identificamos as possibilidades oferecidas durante o percurso. Sobram perguntas e

dúvidas a partir do ceticismo intrínseco à transdisciplinaridade, tais como: O que significa estar

vivo? Estamos vivos porque pensamos? Porque sentimos? Ou porque queremos avançar na

direção do que é infinito? Somos auto-suficientes para responder as esta questões?

Ao abordar a questão relativa às redes autopoiéticas, Fritzjof Capra explica:



Desde o início do século tem sido reconhecido que o padrão de organização de um sistema vivo é

sempre um padrão de rede. No entanto sabemos que nem todas as redes são sistemas vivos(...). A auto-poiese,

ou "auto criação", é um padrão de rede no qual a função de cada componente consiste em participar da

produção ou da transformação dos outros componentes da rede. Dessa maneira, a rede, continuamente, cria

a si mesma. Ela é produzida pelos seus componentes e, por sua vez, produz esses componentes. O mais

simples sistema vivo que conhecemos é uma célula, e Maturana217 e Varela têm utilizado extensamente a

biologia da célula para explorar os detalhes das redes auto-poiéticas(...) Uma vez que todos os componentes

de uma rede autopoiética são produzidos por outros componentes da rede, todo o sistema é

217 MATURANA, Humberto e VARELA, Francisco. Dois pesquisadores e autores científicos, que trabalham em conjunto, e que escreveram em

co-autoria "Autopoiesis: The organization of the Living"; publicado inicialmente sob o título "De máquinas y seres vivos". Santiago do Chile:

Ed. Universal, 1972; "Autopoiesis and Cognition". Dordrecht, Holanda:D. Reidel, 1980 e "The tree of knowledge". Boston: Shambhala, 1987.



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organizacionalmente fechado, mesmo sendo aberto em relação ao fluxo de energia e matéria. Esse

fechamento organizacional implica em que um sistema vivo é auto-organizador no sentido de que sua ordem

e seu comportamento não são impostos pelo meio ambiente, mas são estabelecidos pelo próprio sistema. Em

outras palavras, os sistemas vivos são autônomos. Isto não significa que são isolados do seu meio ambiente.

Pelo contrário, interagem com o meio ambiente por intermédio de um intercâmbio contínuo de energia e

matéria218.

Assim, somos induzidos a concluir que a amorosidade é uma força natural que age, em

todos os níveis do Universo, no macro e no microcosmos, procurando a preservação da Natureza

em todas as suas manifestações. E, dentre os demais métodos que integram a metodologia



transdisciplinar, a amorosidade é um dos caminhos mais satisfativos, que possibilita chegar ao

cerne do que designamos crença verdadeira.

A intuição nos leva à crença de que o amor tem potencial para levar-nos ao conhecimento

de tudo que possa ser aceito como verdade, pois nos aproxima da Verdade. O amor nos

aproxima da Verdade. Por isso que, inspirados no misticismo cristão, repetimos as palavras do

evangelista João: Deus é Amor, e quem está em Amor está em Deus, e Deus nele219.

Pelo misticismo de que somos possuídos, há indesviável crença e aceitamos como

verdade intuitiva, que o Amor é a Força Suprema que nos induz ao encontro do Conhecimento.

No Velho Testamento, no livro de Provérbios, capítulo 8, versículos 22 a 33, pode-se ler o

magnífico poema em que a Sabedoria auto-identifica suas origens:

22. O Senhor me possuía no início de sua obra, antes de suas obras mais antigas.

23. Desde a eternidade fui estabelecida, desde o princípio, antes do começo da terra.

24. Antes de haver abismos eu nasci, e antes ainda de haver fontes carregadas de águas.

25. Antes que os montes fossem firmados, antes de haver outeiros, eu nasci.

26. Ainda Ele não tinha feito a terra, nem as amplidões, nem sequer o princípio do pó do mundo.

27. Quando Ele preparava os céus, aí estava eu; quando traçava o horizonte sobre a face do abismo;/

28. quando firmava as nuvens de cima, quando estabelecia as fontes do abismo;

29. quando fixava ao mar o seu termo, p[ara que as águas não traspassassem os seus limites; quando

compunha os fundamentos da terra;

30. então eu estava com Ele e era seu arquiteto, dia após dia era as suas delícias, folgando perante ele

em todo o tempo;

31. regozijando-me no seu mundo habitável, e achando as minhas delícias com os filhos dos homens.

Vale nesta oportunidade observar as conotações quanto à origem que estabelecem

diferenças entre sabedoria e conhecimento. Embora ambos vocábulos tenham significados

convergentes, a distinção entre eles torna-se de mais fácil compreensão nos textos de Tomás de

Aquino. Para o filósofo escolástico cujas formas de pensar prendem-se aos modelos sugeridos

pelo aristotelismo, a sabedoria é um dom de que o ser humano é dotado, recebido como graça

divina. E, nesse sentido, aproxima-se das categorias a priori descritas por Aristóteles. Tomás de

Aquino designa por sabedoria (sapientia) a virtude que nasce com o homem, que nos é deferida

por conaturalidade, cujo conteúdo se aproxima dos juízos a priori citados por Kant, e do

significado contido nos verbetes intuição e clarividência (contida em clairity, em inglês). O



conhecimento identifica-se como resultante do labor intelectual, via dos estudos de ciências e

doutrinas.

Hesíodo afirma, nos versos de sua Teogonia: No princípio era Caos,... depois Gaia,... Nyx

,... Tártaros... e Eros...

Caos (Chaos) designava o Todo infinitamente desorganizado; Gaia era o nome que se

atribuía à Terra; Nyx era o designativo da Escuridão; Tártaros, correspondente ao que

218 CAPRA, F. A teia da vida. S.Paulo:Cultrix, 1997, p. 140.

219 Primeira Carta de João, cap.IV,16.

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modernamente os místicos chamam por Inferno, na antiguidade referia-se ao submundo em que

habitavam os demônios e Eros significava o Amor deificado.

Importa observar que, na hierarquia do universo descrito por Hesíodo e outros poetas

gregos, os demônios não eram necessariamente malignos, mas correspondiam a seres que

serviam aos deuses, e eram inferiores aos humanos.

Para a mitologia grega Eros é o deus do Amor, tão virtuoso e original que não teve pai

nem mãe. Eros, o Amor, desde a mais remota antiguidade clássica, está e sempre esteve contido

em todas as manifestações do Pai Criador. Na mitologia romana Cupido, filho de Vênus, é o

deus antropomórfico que expressa o amor entre pessoas. Nas religiões ocidentais, bem como nas

do oriente médio que têm raízes na Suméria, traduzidas pelo judaísmo, cristianismo e islamismo

com seus derivativos, a amorosidade é implícita nos atributos divinos. Deus é pai e fonte de

amor. Da mesma forma, ocorre com a sabedoria: Deus é a fonte geradora de toda sabedoria,

identificando-se muitas vezes com ela mesma.

Para a mitologia grega Eros é o deus do Amor, tão virtuoso e original que não teve pai

nem mãe. Eros, o Amor, desde a mais remota antiguidade clássica, está e sempre esteve contido

em todas as manifestações do Pai Criador. Na mitologia romana Cupido, filho de Vênus, é o

deus antropomórfico do amor entre pessoas.

Nas religiões ocidentais e do oriente médio, que tem raízes judaicas, tais como judaísmo,

cristianismo e islamismo, a amorosidade é implícita nos atributos divinos. Deus é amor. Da

mesma forma, ocorre com a sabedoria: Deus é sabedoria.

Pode-se observar que nas manifestações místicas monoteístas o amor e a sabedoria são

conteúdo essencial e inato do Grande Arquiteto do Universo. Daí inferimos, inequivocamente,

que a amorosidade é caminho próprio para abordagem do conhecimento.

Se combinamos a metodologias designadas por amorosidade e intuicionismo com os

outros seis métodos assinalados por Montague, visando a abordagem do conhecimento, teremos

verificada a hipótese da trajetória transdisciplinar bem sucedida.

Pode-se observar que nas manifestações místicas monoteístas o amor e a sabedoria são

conteúdo essencial e inato do Grande Arquiteto do Universo. Daí infere-se, inequivocamente, que

a amorosidade é um dos caminhos mais apropriados para as abordagens do conhecimento.

Quando combinamos as metodologias designadas por amorosidade e intuicionismo com

os outros seis métodos assinalados por Montague e que visam atingir o conhecimento, temos por

verificada a hipótese de trajetória transdisciplinar bem sucedida..



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Capítulo VIII

Intuicionismo

59. Intuição, intuicionismo e instinto.

A religião Bon Po é praticada no Tibet há mais de cinco mil anos. O atual Dalai Lama

afirmou-me, em nosso encontro de 1970, que o bonismo é a religião que os budistas encontraram

quando chegaram àquela região. Talvez seja a mais antiga dentre as práticas religiosas tibetanas.

Os monges bonistas estudam, há milênios, o fenômeno que designamos por intuição e

reconhecem no intuicionismo um método eficaz que pode, quando convenientemente utilizado,

revelar o conhecimento.

Muitos vertem intuição para o inglês como intuition. Outros sinalizam essa versão com o

vocábulo clairity que, embora em português expresse claridade, não tem o mesmo

interpretante220 que intuição. Etimologicamente encontramos a raiz da palavra intuição na

associação do prefixo in com o verbo latino da voz ativa tueo, es, erem que traz o significado ter



sob a vista, observar. Na voz passiva, conjugado em tueor, tuitus sum, traz, significa: a)ser

observado, ser protegido, ser mantido; e na voz ativa b) descobrir, perceber, guardar, proteger,

defender, ter debaixo da vista, manter, conservar, alimentar sustentar, honrar e servir alguém.

Segundo os dicionários221 há outros significados emergentes do verbete intuição e dos que lhe são

conexos e derivados. Pode-se, de forma empírica, buscar diversa origem etimológica, também latina, que não

é muito diferente da anterior. Senão, vejamos: in+tui+eo, traz a seguinte composição: a) - in : significa



dentro, por dentro; b) - tui : traduz-se de ti; c) - eo: é a primeira pessoa do singular do presente do indicativo

do verbo latino eo,is,ire, que contém, dentre outras, a idéia de caminhar, dirigir-se a algum lugar. Assim,

etimologicamente, intuir viria de in+tui+ire, ou seja caminhar por dentro de ti mesmo, observar-te a ti

próprio, respeitar-te no que te diz respeito.

Observamos que a palavra intuição traduz, no senso comum, uma significação de origem,

ou seja, que o que nós intuímos é o que recebemos pelas formas de percepção interiores, que são

independentes do que nos é trazido externamente pelos conhecimentos, razões lógicas ou

empíricas. De alguma forma, o processo intuitivo distancia-se das amarras que nos prendem aos

pensamentos verbalizados. Portanto, o que designamos intuição não está preso nem à linguagem

discursiva nem a outras formas específicas de comunicação, tais como palavras, idéias, linhas ou

formas de pensar, formas geométricas ou plásticas, sensações causadas por sons, ruídos,

luminosidades, gosto, tato ou olfato.

A intuição aflora e é exteriorizada sem ater-se às limitações das sensações ou das

percepções conscientes. Manifesta-se distanciada e independente do idioma e da linguagem

verbalizada. Daí porque, muitas vezes, o significado de intuição é confundido com o de instinto.

220 Interpretante. Elemento que integra a semiose, ou seja, o fenômeno em que os signos atuam. São quatro os elementos necessários e suficientes

para caracterizar a semiose: 1) o veículo do signo, 2) o designatum;3) o interpretante e 4) o intérprete.

221 O verbete intuição, é classificado na categoria gramatical dos substantivos de gênero feminino. No inglês como em português tem dois

significados: 1) a tomada de consciência imediata diante de algum fenômeno, que não tem explicação em experiência anterior ou forma racional

de elaboração mental; e 2) de clarividência, ou seja, percepção imediata de acontecimentos futuros ou presentes. O Dicionário Novo Aurélio CD

ROM informa: Intuir [Do lat. *intuere, por intueri.] V. t. d. e int. 1. Deduzir ou concluir por intuição; intuicionar. Intuicionar (u-i)[De intuição



+ -ar2.] V. t. d. e int. Intuir. Intuicionismo (u-i) S. m. Filos. Doutrina que faz da intuição o instrumento próprio do conhecimento da verdade.

Intuitivismo (u-i)[De intuitivo + -ismo.] S. m. Filos. Doutrina segundo a qual os conhecimentos humanos se fundam em intuições. Intuitivo (u-i)

Adj. 1. Respeitante à, ou próprio da, ou fundado na intuição. 2. Dotado de intuição. 3. Que se percebe por intuição; claro, manifesto, evidente.

Intuito (túi)[Do lat. intuitu-.] S. m.1.Objeto que se tem em vista; intento, plano.2. Fim, escopo. Intuitus personae [Lat.]Jur. Em consideração à

pessoa.

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60. Intuição, Tomás de Aquino, Kant e Bergson.

Observamos que o filósofo aristotélico Tomás de Aquino entende o juízo por inclinação

(julgamento) como sendo resultado do conhecimento pela conaturalidade (conhecimento

afetivo.222).

Os padres Noble e Roland-Gosselin dedicaram anos de estudos ao tomismo e buscaram dar

contornos aos limites da afetividade, quer como emoção quer como sentimento. Todavia não lhes prendeu

atenção o conjunto de sinais que indica as potencialidades contidas no conhecimento afetivo. Desviaram-se,

assim, de marcos que lhes teriam ensejado avanços seguros nos caminhos do saber.

O conhecimento pela conaturalidade revela-se como a consonância gerada pelo amor



natural presente em um ser ou entidade e que age fazendo-a tender para outra. Essa tendência

natural corresponde a uma conveniência ditada pela sua própria natureza do ser, em que se

reconhece uma identidade da natureza que atua sobre tudo e sobre todos. A conaturalidade indica

a origem do que é próprio e se ajusta ao nosso poder originário de conhecimento.

Tomás de Aquino indica dois modos de julgar, o que significa, de abordagem o conhecimento : -

duplex modus iudicandi: per modum scientiae et per modum inclinationis oc per connaturalitatem. Ensina o

emérito pensador cristão que a sabedoria é o que entendemos por conhecimento racional e corresponde ao

conhecimento que recebemos ou adquirimos pelos estudos da ciência, por experiência e por aprendizagem da

sacra doutrina.

Tomás de Aquino classifica a sabedoria, segundo a origem, em duas categorias: a

primeira, a sapiência, como dom divino, que se manifesta por conaturalidade; e b) a ciência,

como um caráter adquirido, alcançado pelos estudos da ciência e da doutrina. Por esta linha de

pensar somos levados a acreditar que Tomás de Aquino reconhece na intuição um meio de

conhecimento de que o ser humano dispõe, e que lhe é transcendente, pois tem origem divina.

A sabedoria infusa , original do ser humano, reconhecida como intuitiva, surge como um dom

divino, designado por sapientia. Ou seja, é conhecimento que inato, adquirido e recebido pela natureza do ser

humano como dom de Deus, que nem depende da nossa experiência e menos ainda dos conhecimentos

advindos da aprendizagem científica. Observa-se uma semelhança muito grande entre o significado de

intuição no bonismo e de sapientia no pensamento Escolástico. Destarte, quem recebeu a sabedoria pelo

estudo e pela doutrina formula suas opiniões e juízos conforme determinado pela ciência, per studium et

doctrinae. Quem recebeu a sabedoria por intuição ou como dádiva da Natureza, julga segundo a intuição, a

inclinação, a sapientia ou conaturalidade.

Muitos entendem a sabedoria como sendo um acúmulo de conhecimentos e, outros,

aceitam-na como potencialidade resultante de produto de um sucessivo e ordenado processo de

memorização de informações.

Kant converge com as idéias de Tomás de Aquino, embora não use das mesmas

expressões discursivas e, ao referir-se aos conceitos puros do entendimento, reconhece223 que tais

conceitos :



... jamais poderão ter um uso transcendental, mas sempre e somente um uso empírico, e que os

princípios do entendimento puro somente na relação com as condições universais de uma experiência

possível podem referir-se a objetos dos sentidos, jamais a coisas em si mesmas (sem tomar em consideração

o modo como possamos intuí-las). A Analítica Transcendental possui, pois, este importante resultado, a

saber, que o entendimento a priori jamais pode fazer mais do que antecipar a forma de uma experiência

possível em geral e, visto que o que não é fenômeno não pode ser objeto algum da experiência, (daí decorre)

que o entendimento não pode jamais ultrapassar os limites da sensibilidade, dentro dos quais unicamente

podem ser (identificados ou reconhecidos) dados objetos.

Antes de explicar o que designa por phaenomena e noumena, Kant afirma que o



pensamento é a ação de referir uma intuição a um objeto. Para tanto, quando se refere à alma e

222 CALDERA, Rafael T. Le jugement par inclination chez Saint Thomas d' Aquin. Paris:J. Vrin, 1980 ,p. 129.

223 KANT, I. Idem, p. 206.


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