Gustavo Korte


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Metodologia e Transdisciplinaridade Gustavo Korte

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suas relações com o conhecimento, o filósofo alemão repete, com outras paliavas, o mesmo que

Mynikka Vyçagar224 (leia-se também Manikkar Vassagar), pensador místico hinduísta, fala da

alma e sua relação com o conhecimento: A alma nada conhece por si mesma. O conhecimento repousa

sobre uma relação entre dois termos: ele, de um lado, e seu deus, de outro.

Por essa convergência de idéias percebe-se a relação intuição -divindade tanto em Kant

como em Vyçagar e Tomás de Aquino.

Henri Bergson, quando discorreu sobre a alma e o corpo, abordou também matéria e



espírito, tomando a palavra corpo com o significado de matéria e a alma com o significado de

espírito. Embutia nessa polaridade a idéia de um conjunto universo, abrangente de tudo que

existe. Na introdução dessa apresentação afirmou que:



...Tanto para o corpo como para a alma: definir a essência de um e de outro é uma empreitada que

nos levaria muito longe; mas é mais oportuno procurar saber o que une e o que separa tais conceitos, pois

esta união e esta separação são fatos da experiência (...) Inicialmente, o que nos sugere, sobre este assunto a

experiência imediata e natural do senso comum? Cada um de nós é um corpo submetido às mesmas leis que

todas as outras porções de matéria. Se a gente o empurra, ele avança; se a gente o atrai, ele se recolhe, se a

gente o levanta e o abandona, ele tomba.Mas,ao lado destes movimentos que são provocados mecanicamente,

por uma causa exterior, existem outros que parecem vir de dentro e que se entrelaçam sobre os precedentes

por suas características de imprevisibilidade; a gente os denomina voluntários. Qual é a causa destes? É o

que cada um de nós designa por eu e mim (...) O que é o eu (mim)? Algo que parece, seja certo ou errado,

desbordar de todas as partes do corpo que estão ai ajuntadas, ultrapassando-as tanto no espaço quanto no

tempo (...) No espaço, primeiro, porque o corpo de cada um de nós contém-se nos precisos limites de si

mesmo, enquanto que, por nossa faculdade de perceber, e mais particularmente, de ver, nós irradiamos

muito além do corpo: nós vamos até as estrelas225.

Bergson, quando aborda a possibilidade do conhecimento da verdade, sob o título

Crescimento da verdade e o movimento retrógrado do verdadeiro226 faz a seguinte observação:

... O que mais tem faltado à filosofia é a precisão. Os sistemas filosóficos não são moldados à



medida da realidade que nós vivemos Eles são muito amplos para ela.... É que um verdadeiro sistema é um

conjunto de concepções tão abstratas, e por conseguinte tão vastas, que far-se-ia todo o possível e também o

impossível para mantê-lo ao lado da realidade... A explicação que devemos julgar satisfatória é aquela que

adere ao seu objeto: nenhum vazio entre ambos, nenhum espaço onde uma outra explicação pudesse ficar

alojada; ela apenas convém a essa relação, não se presta senão a ela. Assim pode ser a explicação científica

Ela comporta a precisão absoluta e uma evidência completa e crescente. Poder-se-ia falar o mesmo das

teorias filosóficas?

Mais adiante, ilustrando sua experiência pessoal, Bergson explicita:

... Nós sabemos bem, desde os anos da escola, que a duração é medida pela trajetória de um móvel

e que o tempo matemático é uma linha; mas nós não havíamos ainda sublinhado que esta operação incide

radical e contrastantemente em todas as outras operações de medida , pois ela não se completa sobre um

aspecto ou sobre um efeito representativo do que se quer medir, porém sobre algo que lhe é excludente. A

linha que se mede é imóvel Enquanto o tempo é a mobilidade. A linha está feita, o tempo é o que se faz, e

mesmo é o que faz com que tudo seja feito. Jamais a medida do tempo se aplica sobre a duração (do

fenômeno); conta-se somente um certo número de extremidades de intervalos ou momentos, isto é, paradas

(ou interrupções) virtuais do tempo ... Em curtas palavras, o tempo assim enfocado não é senão um espaço

ideal onde se supõem alinhados todos os eventos passados, presentes e futuros, e, pelo contrário, com a

dificuldade de nos aparecerem sempre em bloco: o desenrolar em duração seria este mesmo inacabar

contínuo, ou seja, a adição de uma quantidade (temporal) negativa. Tal é, consciente e/ou inconscientemente,

o pensamento da maioria dos filósofos, em conformidade primeiramente com as exigências do entendimento,

com as necessidades da linguagem, com o simbolismo da ciência. Nenhum deles procurou no tempo os

224 Apud KORTE,G. A viagem em busca da linguagem perdida. S.Paulo:Peirópolis,1997, p.398.

225 BERGSON, Henri. Oeuvres. L'âme et le corps. Paris: Ed. Pléiade, 1963, p. 836 e seguintes.

226 BERGSON, Henri. Oeuvres. La pensée et le mouvent.Paris: Ed. Pléiade, 1963, p. 1253 e seguintes..



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atributos positivos. Eles tratam a sucessão como uma coexistência claudicante e a duração como uma

privação de eternidade.

A abordagem de Bergson, no texto acima, segue pelo livre arbítrio e pelo determinismo

resultante do pensamento racional. Observa que nós somos levados a distinguir entre a sucessão

na duração verdadeira e a justaposição no tempo espacial; entre uma evolução e um desenrolar

do pensamento; entre a novidade radical e o rearranjo do pré-existente; enfim entre a criação e

a simples escolha. Sugere que este processo de conhecimento não nos permite esclarecer essas

diferenças por excesso de fenômenos simultâneos. Anota que na duração, enfocada como uma

evolução criadora, existe a perpétua criação de possibilidade e não somente de realidade.

Bergson afirma, na seqüência:

... Muitos repugnarão admiti-lo, porque julgarão sempre que um acontecimento não estaria

completado se não pudesse sê-lo; de sorte que, antes de ser real, é necessário que seja possível. Observando

de mais perto: vocês verão que "possibilidade" significa duas coisas totalmente diferentes e que, a maior

parte do tempo, oscilamos entre elas, jogando involuntariamente no sentido da palavra. Quando um músico

compõe uma sinfonia, sua obra era possível antes de ser criada? Sim, e por aqui entendemos que não havia

obstáculo intransponível para essa realização.

Bergson anuncia o significado contido na intuição:



... Mas, deste sentido totalmente negativo da palavra, passamos, sem nos darmos conta, a um

sentido positivo: afigura-se que toda coisa que se produz teria sido possível se percebida anteriormente por

qualquer espírito suficientemente informado, e que, assim, ela preexistia à sua materialização sob a forma

de idéia; (esta é) concepção absurda no caso de uma obra de arte, pois desde que o músico tenha a idéia

precisa e completa da sinfonia que irá compor, ela já está composta... Sempre, portanto, a convicção persiste

pois, mesmo se ela (a sinfonia) não foi concebida antes de se produzir, ela poderia ter sido, e neste sentido,

ela figura ser eternamente, no estado do possível, em qualquer inteligência virtual ou real. Aprofundando

esta ilusão, ver-se-ia que ela diz respeito à essência mesmo de nosso entendimento. As coisas e os

acontecimentos se produzem em momentos determinados; o julgamento que constata a aparição da coisa ou

do acontecimento não pode chegar antes deles; ele(o julgamento) tem então a sua data. Mas esta data se

esfacela, imediatamente, em virtude do princípio, ancorado em nossa inteligência, que toda verdade é

eterna. Se o juízo é verdadeiro no presente, ele deve, parece-nos, tê-lo sido sempre (verdadeiro). Ele poderia

ainda não ter sido formulado: ele se mostrava como sendo de direito (de se ver realizado) antes de ser posto

como um fato (concretizado). A toda afirmação verdadeira nós atribuímos um efeito retroativo, ou melhor,

nós lhe imprimimos um movimento retrógrado, como se o juízo (conclusão) pudesse preexistir aos termos

(premissas) que o compõem! Como se a coisa e a idéia da coisa, sua realidade e sua possibilidade, não

fossem criadas de um mesmo golpe quando se trata de uma forma verdadeiramente nova, inventada pela arte

ou pela natureza. As conseqüências desta ilusão são inumeráveis.

Bergson acentua que os sinais precursores aparecem aos nossos olhos como sinais tão

somente porque conhecemos o presente, o curso das coisas, ou seja, supomos conhecer o

processo em que elas ocorrem; e, mais adiante, o filósofo dá reforço à idéia de que nossa lógica



habitual é uma lógica de retrospecção. Foi pelos estudos da duração que Bergson conduziu a

abordagem da intuição227. Relatou que, avançando seus estudos degrau por degrau, após

aprofundar-se na associação do tempo com a realidade cognitiva, erigiu o intuicionismo como

método de abordagem do conhecimento:



Intuição é, primeiramente, uma palavra diante da qual hesitamos desde muito tempo. De todos os

termos que designam um modo de conhecimento, este é, ainda, o mais apropriado; e, portanto, presta-se à

confusão. Porque um Schelling, um Schopenhauer e outros já fizeram apelo à intuição, porque opuseram

mais ou menos intuição à inteligência, poder-se-ia crer que nós aplicássemos o mesmo método. Como se sua

intuição não fosse uma busca imediata do eterno! Como se não se tratasse, ao contrário, segundo nós, de

reencontrar antes a duração verdadeira.

Numerosos são os filósofos que sentiram a impotência do pensamento conceitual em atingir o fundo

do espírito. Numerosos, por conseqüência, os que falaram de uma faculdade supra-intelectual da intuição.

227 BERGSON, Henri. Oeuvres. La pensée et le mouvant. Paris: Ed. Pléiade, 1963, p. 1271 e seguintes.



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Mas como eles acreditaram que a inteligência operava no tempo, eles concluíram que ultrapassar a

inteligência consistia sair do tempo. Eles não viram que o tempo intelectualizado é espaço, que a inteligência

trabalha sobre o fantasma da duração, mas não sobre a duração em si mesma, que a eliminação do tempo é

costumeira, normal, banal em nosso conhecimento; que a relatividade de nosso conhecimento do espírito vem

exatamente daí, e que desde então, para passar da intelecção à visão, do relativo ao absoluto, não se deve

sair do tempo (nós já saímos); é preciso, ao contrário, se recolocar na duração e rebuscar a realidade na

mobilidade que existe na essência. Uma intuição que pretende se transportar de um salto para o eterno se

sustenta no intelectual.

Bergson afirma ainda que expressões tais como a Substância, o Meio, a Idéia e a Vontade



resultam de conceitos fornecidos à inteligência, e substituem um conceito único que recebe essas

diferentes designações. Assegura entender a intuição fora das acepções que são matematicamente

dedutíveis:

.. Pensar intuitivamente é pensar em duração(...) A intuição, amarrada à uma duração que é

crescimento, aí percebe uma continuidade ininterrupta de imprevisível novidade; ela vê, ela sabe que o

espírito tira dela mesma mais do que ela tem, que a espiritualidade consiste nela mesma, e que a realidade,

impregnada de espírito, é criação(...) Intelecção ou intuição, como todo pensamento, acabam por alojar-se

nos conceitos: duração, multiplicidade qualitativa ou heterogênea, inconsciente - diferencial mesmo, se se

toma a noção tal como ela estava no início. O conceito, que é de origem intelectual, é imediatamente claro,

ao menos para um espírito que pudesse dar-se o esforço suficiente, enquanto que a idéia emergente de uma

intuição começa comumente por ser obscura, qualquer que seja a força do nosso pensamento Isto porque há

duas espécies de claridade228.

As duas espécies de claridade (com o significado de clarividência) correspondem: a) a

uma claridade (clarividência), que decorre de um novo arranjo de elementos de que já

dispúnhamos, mas segundo uma nova ordenação e b) a uma outra claridade (clarividência) que é

radicalmente nova e absolutamente simples, que revela mais ou menos intuição..

Quanto à clarividência, observamos dois elementos condicionadores de conhecimento,

ou seja, a intuição e a duração, sugerindo continuidade no imprevisível. Intuímos então que a

espiritualidade consiste nela mesma, e torna justificada, de alguma maneira, a nova ordem pela

qual o novo conhecimento surge. Neste caso, como nós não podemos reconstituir o estado

anterior porque não temos os elementos que lhe deram causa, a nossa primeira afirmação é de que

essa claridade existe porém transcende a razão, por ser incompreensível e inexplicável.

Observamos que tanto para Budistas como Bonistas ambas claridades (clarividências)

estão incluídas no significado de Dzogchen, usualmente traduzido para o inglês como clairity.

Na abordagem da Metafísica como campo do conhecimento,Bergson afirma textualmente:



Nós consignamos então à metafísica um objeto limitado, principalmente o espírito, e um método

especial, primordialmente a intuição. Por ai nós distinguimos a metafísica da ciência. Mas por ai também

nós lhes atribuímos valores iguais229.

Por ora, convém entender o que é designado por opinião intuitiva e expressão do instinto.

Há muitos pensadores 230 que entendem ocorrer, no ser humano, a possibilidade de

reconhecer imediatamente, nas relações que estabelece com o contexto em que ingressa, o bom e



o mau, o bem e o mal, o certo e o errado, o dever e a obrigação sem prévio recurso à experiência

pessoal (subjetiva) ou dos outros (objetiva).

Tais situações relacionais aparecem como manifestação das expressões intuitivas. E, dessa

forma, a intuição emerge como revelação imediata de um conhecimento que não depende nem



do racionalismo nem do empirismo. Em português, muitas vezes o senso comum identifica

intuição com clarividência, correspondendo, em inglês, a clairity.

228 BERGSON, Henri. Oeuvres. Paris: Ed. Pléiade, 1963, p. 1277 e seguintes.

229 BERGSON, Henri. Oeuvres. Paris: Ed. Pléiade, 1963, p. 1277 e seguintes.

230 Dentre os quais podemos assinalar os assim chamados intuicionistas H.A. Prichard in Does Moral Philosophy Rest upon a Mistake(1912); G.

H. Moore, David Ross e E. F. Carrit.



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Deixamos de tomar alguma atitude ou somos impelidos a agir, deixamos de fazer ou

fazemos alguma coisa em razão direta da intuição. O intuicionismo age sobre o ser humano como

força geradora de opções, provocando nossa manifestação, nossa opção e nossa decisão. Como

pontos de aplicação da força intuitiva participamos, como agentes ou pacientes, nos fenômenos

de relacionamento, sejam físicos ou mentais. E podemos observar que a intuição dispensa ou

sobrepõe-se à razão e à experiência.

A experiência mostra que muitas vezes ocorre a ausência de razões que expliquem ou

justifiquem o procedimento intuitivo, da mesma forma que constata, nesses caos, a falta de

experiência anterior que possa justificar essa atitude. Percebemos então que pela ação da

intuição formulamos juízos, proposições e agimos de maneira aparentemente destituída de

causalidade consciente, ou seja, de racionalidade. Muitas vezes essas ações dão certo e.são

julgadas boas, correspondendo ao que esperamos por melhor. Outras tantas, dão errado, ou seja,

os resultados sinalizam formas contrárias às nossas expectativas.

A vivência humana ensina que a intuição é um fenômeno presente, que ocorre com muita

freqüência, e que, de fato, pode levar ao conhecimento. Mas, mais que isso, a intuição é um

caminho para o conhecimento. Daí porque reconhecemos no intuicionismo um método para

chegar ao saber. De alguma forma, há uma conexão de significados entre a intuição e a opinião.

A opinião, como expressão subjetiva, tem como um dos elementos formadores a intuição. O que

é o mesmo que dizer que a intuição coopera e participa na formação da opinião.

Quando tratamos de opinião pública, identificada pela resultante de múltiplas opiniões, a

presença da intuição é mais difícil de ser identificada, sem que, diante desta dificuldade,

possamos afirmar que a opinião pública nada tenha a ver com uma possível intuição coletiva.

Tais leituras têm origem nas correlações entre alma individual e alma coletiva, entre alma social

e alma nacional.

Sócrates dizia que a opinião verdadeira vale tanto quanto o conhecimento verdadeiro. As



opiniões não dependem de premissas nem de serem racionais ou estarem fundadas no empirismo.

Na linguagem da Semiótica a opinião é o interpretante na relação subjetiva entre o intérprete e o



signo contido no objeto. De fato, a opinião corresponde, de alguma forma, ao que Morris, em

Semiótica, designa por interpretante. Nos estudos de Semiótica, a opinião é objeto da

pragmática, que estuda as relações entre o intérprete e o interpretante. Quando falamos em

intuição, opinião e instinto, o racionalismo impõe- nos a caracterização do que eles significam.

Vamos por partes.



Intuição corresponde a uma força, supostamente interna ao ser humano, que age sobre a

mente, determinando a revelação imediata de uma forma de pensar. Aporta um suposto

conhecimento, que não se mostra dependente nem da razão ( ou seja, do racionalismo) nem da

experiência (ou seja, do empirismo).

Resultante da materialização de uma grandeza vetorial231, a ação da força intuitiva pode

ou não produzir uma aceleração, uma deformação ou uma alteração nas formas de pensar. Mas,

parece-nos indiscutível a intuição é parte integrante do conjunto de forças mentais a partir das

quais emerge a opinião. Sob este ponto de vista a intuição assume as características operacionais

das forças mentais, e podemos mesmo acrescer à nossa racionalidade que a intuição revela-se

uma força da mental.

Pode identificar-se a intuição a partir de: a) formas de percepção sensoriais, originadas

das sensações; b) de fenômenos neurofisiológicos, manifestados no processo mental como

231 Enquanto grandeza vetorial a intuição deverá ser definida por direção, sentido, intensidade, ponto de aplicação e duração.



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herança genética; c) de fenômenos neurofisiológicos, arquivados na memória como resultantes da

experiência, ou seja, por adaptação, ou d) de processo pensante extra-sensorial e extraracional,

muitas vezes designado clarividência ou simplesmente intuição.

Opinião é o designativo pelo qual linhas e formas de pensar propiciam a enumeração dos

elementos de ligação entre o observador e o fenômeno observado. Quando a opinião é

suficientemente justificada, de forma que o seu significado possa ser reconhecido objetivamente,

ela assume características de conhecimento. Por isso que Sócrates afirmava que a opinião

verdadeira tem o mesmo valor que o conhecimento verdadeiro.

A opinião que decorre da manifestação intuitiva em relação ao objeto da observação pode

ou não ser verdadeira. Corresponde a uma intuição verdadeira quando seu significado pode ser

comprovado pelas mesmas formas racionais com que damos por justificado o conhecimento

científico (crença verdadeira e justificação).

A diferença fundamental entre opinião e juízo consiste em que: a) o juízo verdadeiro resulta de

formas de pensar ajustadas aos rigores da lógica, ou seja, de estruturas em que premissas e conclusão são

encadeadas de forma lógica e racional e b) a opinião pode ou não recorrer a tais estruturas do pensamento

lógico, não ficando todavia amarrada aos seus rigores. Ou seja, o juízo verdadeiro corresponde à conclusão

obtida por via de um processo racional inequívoco e obediente às formalidades lógicas.

A opinião corresponde ao resultado de uma integração de informações (não

necessariamente consideradas premissas), a que somos levados seguindo vários caminhos, a

saber, empirismo, racionalismo, autoritarismo, ceticismo, pragmatismo, misticismo, amorosidade

e intuicionismo. Destarte, as opiniões assinalam diferentes perspectivas, em geral de origem



subjetiva, e são decorrentes do modo pessoal de ver, pensar, sentir, interpretar etc.

A formação da opinião no cérebro humano é, em si mesma, um dos objetos de abordagem

em campos de conhecimento convergentes tais como a psicologia, a psiquiatria, a lógica formal.

O estudo dos fenômenos de que resultam as opiniões implica em ações intelectivas por

disciplinas que têm objetos convergentes, e que são de natureza física, psíquica, emocional,

fisiológica, química, biológica e neurofisiológica.

Quando se trata de opinião pública, numa projeção macroscópica do significado contido

na locução opinião coletiva, tais estudos recorrem à psicologia social, às ciências da comunicação

e à sociologia que são fontes indispensáveis de informações científicas, sem prejuízo de outras

tantas disciplinas.

De qualquer modo, pode-se constatar como é reduzido o nível de autonomia de vontade

coletiva quando ela é manipulada ou controlada pelos meios de comunicação. Por ela é

exteriorizada232 a influência condicionante de uns poucos sobre a opinião de muitos. A

abordagem cognitiva que não leva em consideração os marcos assinalados por essas observações

não tende a ser bem sucedida, pois há muita confusão entre opinião e conhecimento.

No mundo moderno, pela força inequívoca dos meios de comunicação de massa, todos

somos invadidos e empanturrados por informações meramente opinativas, que são ingenuamente

recebidas como se fossem crenças verdadeiras e justificadas. Se não tivermos ou não criarmos

em torno de nós uma redoma de proteção intelectual e sensível, estaremos permitindo a

deformação de nossa intuição. E, sem ela, dificilmente estaremos aptos a separar, no campo do

conhecimento, o que é verdadeiro do que é falso, o que é informe do que é informação, o que é

concreto do que é abstrato ou simplesmente fictício.

232 Vide, a este respeito o texto da conferência do autor no Tribunal de Justiça de Porto Alegre, sobre Poder Judiciário : meios de comunicação,



poder e democracia, publicado pelo Centro de Estudos da Fundação Konrad Adenauer. S. Paulo: Ed. Fund. Konrad Adenauer, Revista Debates,

n.º 20, ano 1999, p.180 a 184..



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