Gustavo Korte


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Metodologia e Transdisciplinaridade Gustavo Korte

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A experiência indica que, na maioria dos casos, métodos específicos cumprem o ritual



pragmático de atender à utilização do conhecimento em face do interesse pessoal das pessoas

envolvidas. O ser humano, muitas vezes, deixa -se guiar dominantemente pelo pragmatismo,

traduzindo-o como o método que justifica a busca do conhecimento em razão dos serviços que

possa prestar aos seres humanos, o que, em outras palavras, traduz a utilidade que dele decorre.



Entenda -se por utilidade, do latim utilitas,tis, o substantivo que indica como pode usada ou

aproveitada a ação, a coisa, o objeto ou a pessoa tendo em vista o interesse humano sujeito que define a

direção e o sentido da observação. O vocábulo aporta o significado de serventia, ou seja, o de coisa ou

pessoa que se presta a algum benefício em favor próprio ou de outrem. Pode ser considerada a utilidade

subjetiva ou a objetiva. O verbete sinaliza o resultado de um fenômeno cujo objeto, coisa, ação, uso ou

função atenda o interesse de algum agente ou paciente de uma relação ética. Traduz a natureza ou o que é

próprio de um ser, objeto ou pessoa, em relação a alguém ou à coletividade a que esteja relacionado.

De fato, o pragmatismo é um dos métodos que pretende justificar a busca do

conhecimento pelos proveitos que dele possam resultar ao ser humano. Por essa razão, os

questionamentos pragmáticos são freqüentes nos processos intelectivos.

Grande parte dos métodos que são reconhecidos como específicos pela literatura científica

apresentam características que respondem ao empirismo. Isso porque correspondem ao

aproveitamento da experiência própria e da vivência dos outros. A experiência dos outros serve

de fundamento para o conhecimento na medida que é aceito o autoritarismo resultante dos

acréscimos, traduzidos como verdades na palavra dos historiadores a que damos crédito. Estes

são métodos a que dedicaremos muita atenção, pois são marcos sinalizadores de nossa

experiência pessoal e da dos outros aos quais atribuímos autoridade moral ou científica.

Há pensadores que procuram conter-se nos limites do racionalismo. A tradição intelectual

do ocidente dá grande valor à ação de pensar quando o procedimento resulta de ordenação e

sistematização de idéias. Nessa mesma tradição, são designados filósofos os que trabalham com

as formas de pensar ordenadas segundo um mínimo de racionalidade, sujeitando-se a princípios

da lógica ou da epistemologia. Assim, tais pensadores expressam as idéias ordenadamente em

face das relações necessárias que definem a relação causa-efeito, o diferencial antecedenteconseqüente

e o ordenatório cronológico anterior -posterior, coletando observações cuja

veracidade é subjugada à necessidade de comprovações temporais, sejam empíricas ou lógicas.

Citando Gianbatista Vico, Pena-Vega enfatiza que

... atualmente assistimos a uma verdadeira crise de confiança em relação à ciência moderna, e

dessa crise brota a consciência de uma necessária transição para um outro contrato com uma “scienza

nuova”, baseada na un ião cooperativa entre previsibilidade / imprevisibilidade, certo / incerto, determinado

/ indeterminado, complicado / complexo e ordem / desordem.5

O racionalismo diz respeito ao conjunto de abstrações via das quais procura-se identificar

a relação causal que rege o fenômeno. Permeia a seqüência de fatos projetados no eixo dos

tempos buscando a relação atemporal em que podem ser caracterizados. De outro lado, visa

expressar o alcance da lei de causa-efeito, na medida em que busca identificar necessidade e

suficiência nos elementos que integram o fenômeno.

Outro método indispensável para alcançar o conhecimento é o ceticismo. No fluir da vida

somos freqüentemente espicaçados pelo ceticismo, pelo duvidar seqüencial que nos leva à

alternância entre crença e descrença, propiciando dúvidas e sugerindo certezas. A vida ensina

que em nossos movimentos somos tangidos por sentimentos e emoções. Dentre as forças naturais

que atuam sobre os seres vivos destaca-se a amorosidade. Atraídos pelas delícias a que ela nos

5 PENA-VEGA, Alfredo. O despertar ecológico:Edgar Morine a ecologia complexa. Tradução de Renato Carvalheira do Nascimento e

Elimar Pinheiro do Nascim ento. Rio de Janeiro:Garamond, 2003.



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conduz, avançamos alegremente pelos campos do conhecimento. A consciência do que é o amor



nos leva a tratar a amorosidade como um dos métodos de conhecer mais eficazes e agradáveis.

A amorosidade a que nos referimos faz parte do sistema de forças universais que atuam

no sentido de manter e preservar as formas e combinações existentes no universo, materializadas

em seres animados ou inanimados. Como vetor, identifica-se por intensidade, direção, sentido, e



ponto de aplicação. A intensidade, a direção e o sentido do amor universal impelem a Natureza ,

assim como tudo que a ela está integrado, na disposição de preservar as características genéricas

ou específicas determinantes de suas condições de existência e perpetuidade.

Finalmente, a experiência humana sinaliza que está presente em cada ser humano um

esforço cognitivo marcado pelo intuicionismo, que possibilita a compreensão e o entendimento

sob a ação de formas de pensar que ocorrem fora das exigências da razão lógica e da razão

empírica. O intuicionismo revela-se, então, um caminho criativo e inspirador, em verdade um

método, que leva ao conhecimento independentemente de outras exigências.

2 - Informações que emergem da Filosofia

Os entendimentos filosóficos sugerem algumas convergências e tantas outras divergências

conceituais. Walter BRÜGGER6 afirma que:

... Método e sistema perfazem a essência do saber científico no qual o sistema representa o aspecto



de conteúdo e o método o aspecto formal. Com maior precisão designamos sistema o conjunto ordenado de

conhecimentos ou de conteúdo de uma ciência. Pelo contrário, caracterizamos como método, em

conformidade com o sentido etimológico da palavra, (em grego me odoz, atalho, vocábulo composto de

odoz , caminho, emeta ( junto de, ao lado de; donde “atalho, rodeio”), o caminho seguido para construir e

alcançar dito conjunto. Falando de um modo geral, ocupamo-nos metodicamente com um domínio do saber

quando o pesquisamos segundo um plano, pomos em destaque suas peculiares articulações, ordenamos os

conhecimentos parciais de acordo com a realidade, os ligamos com rigor lógico e tornamos inteligíveis,

consoante os casos, valendo -nos de demonstrações; no final, devemos saber, de todas e de cada uma das

coisas, não só o “que são”, mas também “por que são” deste ou daquele modo, por conseguinte, não apenas

o fato, mas também a razão do mesmo... A transferência do método próprio de uma ciência para outra pode

falsear e até inutilizar todo o trabalho; é o que sucede, quando, p. ex., se pretende elaborar a metafísica só

com o método da ciência natural. S. Tomás de Aquino prepara já a nítida separação dos métodos , pela

distinção que faz entre os três graus de abstração, distinção essa que ele desenvolve seguindo o trilho

aberto por Aristóteles. Por sobre a abstração física (científico-natural) e a matemática, eleva -se à abstração

metafísica que considera o ente enquanto tal.

André LALANDE7 explica que a palavra método carreia três significados fundamentais, a

saber:

a) o primeiro, traduz etimologicamente, “perseguição”(cf. Metercomai);? e, por conseqüência,

esforço para atender um fim, pesquisa, estudo; donde se encontram, entre os modernos, duas concepções

muito vizinhas, possíveis de distinguir: 1 - Caminho pelo qual chegou-se a um certo resultado, mesmo

quando este caminho não estava adredemente fixado de maneira desejada e refletida. Chamamos aqui

ordenar, a ação do espírito pela qual, tendo sobre um mesmo sujeito diversas idéias, diversos julgamentos e

diversos raciocínios, ele os dispõe da maneira mais própria para tornar conhecido esse sujeito. É isto que se

chama ainda método. Tudo isso, por vezes, ocorre naturalmente e algumas vezes melhor quando executado

por aqueles que não aprenderam nenhuma regra da lógica em relação aos que as aprenderam. (Lógica de

Port-Royal, Introdução, 6-7) . 2- Programa regulador para avançar em uma seqüência de operações a

serem cumpridas e que assinala certos erros a serem evitados, visando atingir um resultado determinado; b)

o segundo traz o significado de procedimento técnico de cálculo ou de experimentação. “O método dos



menores quadrados”. “O método de Poggendorf” (emprego do espelho móvel para medida de ângulos); c) o

terceiro significado aporta a idéia de um sistema de classificação (sobretudo em Botânica: John Ray,



Methodus plantarum nova, 1682).

6 BRÜGGER, Walter. Dicionário de Filosofia . S. Paulo: Herder, 1969

7 LALANDE, André. Vocabulaire Téchnique et Critique de la Philosophie. Paris: Quadrige-Presses Universitaires, 1997.

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É ainda Lalande quem afirma que a idéia de método é sempre de uma direção definível e que pode



ser regularmente perseguida em uma operação do espírito.

Descartes, no Discurso do Método, I, 3, recomenda:



...prosseguir... levando em conta as considerações e as máximas a partir das quais formei um

método, pelo qual me parece que eu tenho um meio de aumentar por degraus o meu conhecimento e de elevar

pouco a pouco a um ponto mais alto que a mediocridade de meu espírito e a curta duração da minha vida me

permitam atingir...

Rudolf Bölting8 em seu Dicionário Grego - Português, esclarece: S. f. Caminho, via,



regra. confinante. embuste, cilada, fraude, engano, ?, ?f., método,

sistema, regra, ordem pedagógica, modo de proceder, costume, via. Bölting ensina que o advérbio grego

escrito com a letra grega tau (T) e não com teta (Q), antes mencionado por Brügger, traz

vários significados tais como no meio, entre, além; como preposição e genitivo, quer significar entre,

no meio, no lado de ,junto com, sob, em, conforme; como preposição e acusativo significa depois de, para dentro,

segundo, conforme, entre.

Resta observar que na referência etimológica, leia-se métadosignifica

perseguir, o que é diferente de? leia-se métodooncaminho, trilha, roteiro, cujo

radical é escrito com teta () e não tau ), onde o prefixo meta traz o significado de objetivo a

ser atingido. Neste trabalho entendemos, pois, que método para o conhecimento é o caminho que

o pensamento pode percorrer, de forma voluntária ou condicionada, orientando-se por marcos

que sinalizam para o avanço do processo intelectual.

Importa, portanto, aqui e agora, indicar algumas diferenças entre os conceitos de método e

sistema. Quando falamos método recebemos logo a idéia de um caminho, que está pelo menos

entre um ponto de saída e um de chegada, todavia, sistema envolve muito mais do que o

mapeamento de um caminho. Sistema é verbete que designa a interação de elementos, partes e

partículas, movimentos, fluxos e refluxos, quando executam uma ação comum.Quando

focalizamos os interesses do ser humano, o sistema deve expressar uma utilidade, ou seja, a



possibilidade de alcançar e realizar um determinado objetivo.

O filósofo brasileiro Euryalo Canabrava já ensinava, em idos de 1948, que:



Os sistemas físicos se definem através das funções estado, cujos argumentos são representados por

variáveis clássicas como espaço e tempo ou por determinadas quantidades como peso, volume e densidade.

Objetos físicos podem ser representados por certas propriedades, selecionadas entre inúmeras outras e que se

modificam com o tempo, como extensão, cor e configuração. A combinação dessas propriedades, segundo

Margenau, caracteriza e define o estado: elas são mensuráveis e, portanto, redutíveis a números. A expressão

sistema físico abrange toda e qualquer estrutura que se caracterize por propriedades observáveis como campo

eletro-magnético, elétron, partícula e onda. Mas, sistema é palavra ambígua, suscetível de inúmeras aplicações e

metamorfoses: porque não empregá-la para designar riqueza, valor, funções do capital no processo econômico

ou ciclos de negócio? Admitindo -se, portanto, a existência de sistemas econômicos quais seriam as variáveis de

estado que os integrariam? Como determinar os seus valores respectivos por instrumentos de previsão que

seriam, no caso, as leis naturais da economia?9

Quando verificamos o sentido atribuído ao verbete sistema pelo pragmatismo,

reconhecendo em certos órgãos determinadas funções específicas ou processos exercidos no

conjunto a que estão integrados, procuramos identificar a significação de um conjunto



heterogêneo onde as partes funcionam, agem, interagem, existem e operam juntas. Nesse caso,

então, não falamos de um método, mas de um sistema.

O verbete sistema contém vários significados, dentre os quais atentamos para os mais

comuns. Traz implícito o significado de idéias convergentes (sys+thema), ou seja, de temas que

8 BÖLTING, Rudolf. Dicionário Grego-Português, R.Janeiro: Ed. Ministério de Educação e Cultura, 1953.

9 CANNABRAVA, Euryalo, apud Revista Brasileira de Filosofia, vol. I, p.39, S. Paulo.



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têm relações em comum. O conceito de sistema interliga conjuntos e subconjuntos, identificados



por razões comuns a vários elementos de um determinado conjunto-universo.

Sistema traz ainda o significado resultante de uma abstração conceitual, produto da

inteligência humana, obtido a partir da observação e decorrente do esforço para compreender a

natureza, tanto mais próximo quanto possível do que supomos ser o enunciado de uma realidade.

Os enunciados, como ensina Morris10, em Semiótica, são os interpretantes de um sistema.

Referem-se às relações causa-efeito ou a expressões antecedente-conseqüente pelas quais podem

ser reconhecidos os conjuntos dos elementos que integram o sistema. Os sistemas são

distinguidos a partir de experiências, constatações ou de hipóteses geradoras de crenças

justificadas.

Atendendo ao sentido pragmático que identifica o funcionamento dos conjuntos a que se

referem, os sistemas podem ser simples ou complexos, primitivos ou derivados, abstratos ou

concretos, vivos ou inanimados, auto -suficientes ou dependentes. Podem ser considerados

sistemas fictícios na medida em que se referem a conhecimentos hipotéticos. Acreditamos que há

um sistema solar em que o Sol é o centro e os planetas giram a seu redor. Acreditamos que

vivemos nesse sistema. Ainda que os céticos ponham em dúvida essas crenças, a maioria dos

estudiosos as toma por verdadeiras.

Todavia, podemos convir que há possibilidade de, como partícipes do Universo, estarmos

sujeitos a regras mais prevalecentes que as reguladoras do sistema solar. Se aceitarmos como

verdadeira a afirmação de que as leis que regem os espaços macro e micro físico são outras que

não as anunciadas por Newton e Galileu, essa possibilidade deverá ser projetada em um nível de

probabilidades em que deverá ser avaliada para aportar algum significado cognitivo.

Com base em estudos avançados de eletromagnetismo, podemos verificar que há muita

ligação entre os fenômenos psíquicos e os princípios de abordagem do conhecimento. Parece

óbvio que o saber decorre por sistematização de pensamentos. Sabemos que os fenômenos

psíquicos ocorrem em dimensões eletromagnéticos. Por esta razão são estudados em

neurofisiologia. Também é lícito supor que as vibrações eletromagnéticas do Universo são de

natureza igual ou semelhante às que ocorrem em nosso sistema nervoso, e mais especialmente,

em nossos estados de consciência. E, a partir de tais premissas, podemos cogitar que o sistema

solar apenas aparentemente é um sistema, mas de fato, na ordem de grandeza dos fenômenos

galácticos, é somente um minúsculo órgão, assistemático, referido como sistema apenas diante

dos parâmetros necessários para contextualizar os pensamentos humanos.

A idéia de sistema expressa um conjunto de relações em um determinado conjuntouniverso.

O significado contido na expressão conjunto -universo é sempre uma ficção elaborada

pela mente humana. Na medida em que esse universo hipotético se reduz ou se amplia, o

processo de sua identificação pode tornar-se inválido, incoerente ou incongruente. E,

conseqüentemente, os supostos fundamentos de verdade em que está estruturada a compreensão

do sistema referido podem ser convalidados, invalidados ou excluídos.

Daí porque, quando falamos em métodos de abordagem do conhecimento podemos

entender a possibilidade de expressar um determinado sistema, mas, de fato, em relação à

metodologia, os sistemas devem ser considerados contingenciais, isto quer dizer, podem ou não

ocorrer na forma pela qual são revelados, reconhecidos, descritos ou identificados. Os métodos

10 MORRIS, C. Fundamento da teoria dos signos. S. Paulo: Ed. USP,1976,pp.13 e 14.



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podem ou não levar à compreensão dos sistemas, isto é, podem ou não levar a obtenção de



sínteses verdadeiras.

Se a crença científica em relação ao sol, planetas e luas for constatada como falsa e for

verificado que o que designamos por sistema solar é, na realidade, um conjunto de elementos

assistemáticos, poder-se-á concluir que a idéia de um sistema solar não passa de uma ficção. Da

mesma forma que ocorre com os métodos, há grande número de sistemas de pensar utilizados e

estudados na abordagem das várias disciplinas e nos mais diversos campos do conhecimento.

Fritzjof Capra reconhece duas correntes fundamentais que fluem pelos limites do

pensamento científico, em que se procura explicar o que são os sistemas vivos. Afirma, citando

os estudos de Haraway:

...Antes que o organicismo tivesse nascido, muitos biólogos proeminentes passaram por uma fase de



vitalismo, e durante muitos anos a disputa entre mecanicismo e holismo estava enquadrada como uma disputa

entre mecanicismo e vitalismo.(...) Tanto vitalismo como organicismo se opõem à redução da biologia à física.

Ambas as escolas afirmam que, embora as leis da física e da química sejam aplicáveis aos organismos, elas são

insuficientes para uma plena compreensão do fenômeno da vida. O comportamento de um organismo vivo como

um todo integrado não pode ser entendido somente a partir do estudo de suas partes. Como os teóricos

sistêmicos enunciariam várias décadas mais tarde, o todo é mais do que a soma das partes11...

Vejamos a relação entre método e sistema nesta busca do conhecimento. Capra recorre ao

empirismo científico traduzido nos conhecimentos biológicos, à autoridade de cientistas como

Haraway e ao pragmatismo próprio dos sistemas que procuram traduzir o serviço das formas de

pensar que, sistematizadas, mas não necessariamente sistêmicas, servem a determinados métodos.

E, finalmente, via do ceticismo, no caso antimecanicista, apóia-se no racionalismo para induzir à

conclusão de que o todo é mais do que a soma das partes. Capra esclarece ainda que:

... Os vitalistas e os biólogos organísmicos diferem nitidamente em suas respostas à pergunta: "Em que

sentido exatamente o todo é mais que a soma das partes?" Os vitalistas afirmam que alguma entidade, força ou

campo não-físico deve ser acrescentada às leis da física e da química para se entender a vida. Os biólogos

organísmicos afirmam que o ingrediente adicional é o entendimento da "organização", ou das "relações

organizadora s."

O mesmo Capra afirma que desde o início do século tem sido reconhecido que o padrão de



organização de um sistema vivo é sempre um padrão de rede. No entanto, também sabemos que

nem todos os sistemas de rede são sistemas vivos.

Para clarear mais a diferença entre método e sistema, pode-se observar que não seria

próprio falar em métodos vivos ou métodos inanimados, mas em métodos eficientes ou

ineficientes, que são ou não são utilizados, que levam ou não ao conhecimento.

3 - Metodologia e livre arbítrio.

O mapeamento dos métodos nos leva a pensar que não há conhecimento fora de uma

sistematização metodológica nem que possa estar distanciado de marcos reconhecíveis. Importa

acentuar a crença inicial em que todo conhecimento é relativo. Verifica-se que essa relatividade

existe na ordem temporal, partir de algo que é, anterior. Ou seja, não se caminha metodicamente

sem que antes haja uma trilha. Nunca seremos os primeiros a caminhar pelas trilhas do

conhecimento. Poderemos desbravá- las, expandi- las, ampliá- las e prolongá - las, mas não seremos

jamais os primeiros a trilhá-las, ainda que, aparentemente, esta idéia conflite com a experiência

humana: afinal, parece óbvio que a revelação do conhecimento ocorre tanto em novos campos do

saber como durante ou no final do percurso cognitivo.

11 CAPRA, Fritzjof. A Teia da Vida. S. Paulo: Cultrix,1997, p.38..

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Conhecer sugere um processo em que, pelo trabalho das formas de percepção, a mente



humana se propõe chegar a um objetivo que, supostamente, vai satisfazer a vontade que a anima.

Tendo origem no verbete grego méthodos, metodologia traduz a idéia de ordenação,

seqüência, arte, estudo, técnica, processo. Os estudos metodológicos, muitas vezes, conduzem à

Lógica e à Epistemologia.

Torna-se oportuno questionar se, para chegar ao conhecimento, é possível utilizar vários

métodos ou nos bastará apenas um. As formas de pensar exigem resposta à questão fundamental

para se deixarem prender a um ou vários caminhos, ou seja, importa esclarecer se um ou vários

métodos podem conduzir à veracidade ou falsidade do que supomos serem juízos de



conhecimento. Os estudos desenvolvidos anunciam, de um lado, a complexidade e a teia em que

se entrelaçam os procedimentos metodológicos e, de outro, que há muitos caminhos que devem

ou podem ser percorridos na direção do conhecimento, sem que entre si sejam necessariamente

convergentes, colidentes ou exclusivos.

Vale neste momento questionar se todos os caminhos nos levam aonde queremos chegar,

pois há outros significados contidos no processo dinâmico em que se revela a ação de percorrer

trilhas de conhecimento.

Supomos que a busca do conhecimento, como prática humana, resulta de nossa vontade. E

essa busca se inicia quando, da mesma indagação, emerge a dúvida quanto à existência de

caminhos objetivos, que estão à nossa frente e não dependem de nós, que existem em si e por si

mesmos. Recorrendo ao livre arbítrio de que nos sentimos detentores, acreditamos que a

competência de decidir sobre a possibilidade do conhecimento integra a natureza humana. Mas,

objetivamente, não podemos excluir a possibilidade de que essa vontade do conhecimento tenha

origem externa e nos seja imposta por outrem que nos induz a percorrer as trilhas metodológicas.

A identificação do processo em que ocorrem os pensamentos tem suscitado, desde

sempre, a busca das causas que dão origem às formulações intelectuais, tanto científicas, como

filosóficas ou poéticas. Procura-se saber se a formulação dos pensamentos tem origem externa

ao individuo ou é resultante de forças que lhe são interiores.

Jamil Almansur Haddad12 em relação às motivações do poeta, cita as duas possibilidades

como expressão de duas correntes de interpretação, uma de ordem psicológica e outra

sociológica:

Não iremos recapitular todas as teorias possíveis de concepção de vida. Basta ao nosso objetivo,

encarando a situação fatal da criatura como homem no mundo, considerar o processo hermenêutico

realizado preponderantemente de dentro para fora (do homem em direção ao mundo) ou, então, o sentido da

flecha assumindo direção contrária. As duas teorias seriam, como se vê, de base preponderantemente

psicológica ou sociológica, respectivamente. A primeira tendência observa-se nas duas provavelmente

melhores biografias de Goethe, a de Simmel e a de Gundolf.

No primeiro, vemos que o poeta “é considerado“ homem cuja vida é um desenvolvimento a partir

de um centro interior, determinada apenas pelas forças e necessidades dela própria e em que a obra

terminada é apenas produto resultante de si mesmo, porém não a finalidade da qual se faça depender o

obrar”. Direção de vida em todo contrária ao que se depara nos homens objetivos, pois que nestes, o

processo de vida “é um ser atraído pela meta em vez de (como seria o caso de Goethe) crescer desde a raiz”.

Em Gundolf, o método é dos tais que levam o biógrafo a asseverar que “Goethe não escreveu os

cantos de Frederica por haver encontrado Frederica, mas antes viu Frederica porque os cantos de Frederica

já palpitavam nele.” Como a dar-nos a entender que as vicissitudes da vida em realidade vivida são em tudo

prefiguradas pela essência psíquica mais recôndita do poeta.

São muitos os métodos sugeridos pelas diferentes disciplinas a possibilitarem a

abordagem dos fenômenos. Impõe-se uma prévia avaliação de perspectivas e propósitos em torno

12HADDAD, Jamil Almansur. Pressupostos metodológicos da crítica literária, apud. Revista Brasileira de Filosofia, Vol.1, p. 148.



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