Gustavo Korte


Metodologia e Transdisciplinaridade Gustavo Korte



Baixar 1.47 Mb.
Página4/32
Encontro29.07.2016
Tamanho1.47 Mb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   32

Metodologia e Transdisciplinaridade Gustavo Korte

23

dos quais deverão ser captados os contornos da nossa vontade e, a partir daí, definir o caminho a



ser percorrido. Ao iniciar uma peregrinação intelectual, por mais difusos ou abstratos que possam

parecer os objetivos, impõe-se explicitar, pelo menos, a natureza e algumas das propriedades do

alvo em cuja direção partimos. Nada acrescenta ao patrimônio intelectual o singelo

desdobramento de avanços por desordenadas aventuras intelectivas, assumindo desbravamento e

riscos inconseqüentes em relação ao que o conhecimento desordenado pode acarretar. Não é de

bom alvitre caminhar sem metas de segurança, fora de uma ordenação seqüencial e sem um alvo



definido.

A vida é marcada por um impulso direcionado, com sentido e aceleração. A experiência

indica que a desordem não leva ao que chamamos sistematização do conhecimento. Só a

ordenação nos deixa seguros de que estamos caminhando com direção e sentido próprios e

compatíveis com nossos objetivos. Há um sentido pragmático na motivação final de nossos

movimentos. Buscar a utilidade do conhecimento, sua aplicabilidade para fins genéricos ou

específicos, querendo definir, no final do percurso, a utilidade contida na vivência, ainda que seja

utópica, é uma das componentes naturais que forma a vontade, e que a experiência sugere

inerente à natureza do ser humano.

Quando falamos de utilidade ou função do conhecimento, questionamos se estamos

apenas clareando alguma determinação genética que integra o nosso sistema nervoso ou

respondendo a motivações externas, cuja origem desconhecemos.

Em termos subjetivos, indagamos se, quando pensamos em utilidade do conhecimento,

estamos apenas respondendo a um requisito biológico interior a nossas funções pensantes ou se

tal requisito é resposta criativa, própria da espécie humana, que responde às necessidades

contextuais por visar a sobrevivência e preservação da espécie.



Método significa objetivamente caminho e por isso o aspecto subjetivo do caminheiro

reduz-se à necessidade de compatibilizar sua vontade pessoal em percorrê- lo à utilidade,

conveniência, oportunidade e propriedade da ação. Esse processo de compatibilização entre o

sujeito e a ação pode incluir-nos ou excluir-nos nos sistemas.

A partir dessas possibilidades de compatibilização parece-nos que temos a possibilidade

de exercer nossa vontade, integrando-nos ou não aos sistemas de pensamento. Esta possibilidade

voluntária implica em assumir que, independentemente da origem, sejam suas causas exteriores

ou interiores, o processo de conhecimento resulta de nosso livre arbítrio.



4 - Como proceder para abordar o conhecimento.

Há vários significados que emergem da palavra conhecimento. O conhecimento resulta,

em geral, da aprendizagem. Em sentido restrito, diz respeito às idéias, linhas e formas de pensar

percebidas conscientemente pelo intelecto e gravadas na memória. Diz- se que tem conhecimento

de algum fato quem teve informações, notícias ou referências a suas causas ou efeitos. No

empirismo, conhecimento reporta-se às experiências individuais ou coletivas. No intuicionismo,

revela-se sem depender da razão ou da experiência. No autoritarismo, diz respeito ao que é

afirmado pelas autoridades intelectuais. No racionalismo, ao que é produto da razão. No

pragmatismo, ao que é útil ao ser humano. No ceticismo, ao que responde às dúvidas. No

misticismo, ao que é objeto da fé. Na amorosidade, refere-se ao que responde ao amor. Em

Filosofia estudam-se muitas teorias do conhecimento, seguindo diferentes métodos de

abordagem. Designa-se conhecimento de um fenômeno a relação entre causa e efeito, que

expressa as condições necessárias e suficientes para que ele ocorra. Se verificadas tais condições

então o fenômeno é conhecido. Conhecimento científico, atualmente, designa a crença tida por

verdadeira e suficientemente justificada.

Metodologia e Transdisciplinaridade Gustavo Korte

24

Conhecimento a priori é o designativo usado por Kant para o conhecimento

absolutamente independente da experiência e de todas as impressões dos sentidos. Conhecimento

empírico13 é o que adquirimos pela intermediação dos órgãos sensoriais e das experiências no

mundo sensível.

Questionando como abordá- lo, vemos que a resposta requer indicação de métodos ou

caminhos possíveis. Algumas vezes, imbuídos de um ceticismo crônico, somos levados a

acreditar que a alma nada conhece por si mesma. Por isso, inicialmente, usamos do misticismo e

do autoritarismo para formar uma base de supostos conhecimentos. O misticismo nos chega pela

nossa crença, enraizada em formulações míticas e místicas. O autoritarismo funda-se na

autoridade de quem nos informa. Mais adiante, recorreremos ao racionalismo, empirismo,

pragmatismo, ceticismo, a amorosidade e ao intuicionismo.

Mynikka Vyçagar (séc. VIII), escritor hindu, em Tirouvyçagam , sugere:

... A alma nada conhece por si mesma. O conhecimento repousa sobre uma relação entre dois termos:

ele, de uma parte, e seu deus, de outra. Ora, esse produto está longe de ser estável, é submisso às flutuações que

podem existir nas relações entre pessoas humanas14.

O racionalismo, fundado na suposta racionalidade, esclarece e satisfaz sobretudo as

formas de pensar ditadas pela lógica discursiva. A experiência que a vida nos propiciou, como

também a nossos ancestrais e a outros humanos, reunida pelos historiadores, aponta o caminho

ditado pelo empirismo.

O pragmatismo, exigindo resultados práticos ligados à utilidade do conhecimento, é

proposto como método porque sinaliza com a utilidade do conhecimento. Usando o ceticismo

deveremos suscitar dúvidas e questionar tudo que não nos parecer claro, utilizando outros marcos

no caminho do conhecimento.

Os sinais da amorosidade como método de co nhecimento nos chegam desde a tradição

hebraica mais remota, confirmada por Moisés (séc. XIII a. C.). São reafirmados pelos clássicos

na sistematização do conhecimento, como Pitágoras (séc. VII a. C.), Zoroastro (séc. VII a. C.),

Confúcio (séc. VII a. C.), Budha (séc. VII a. C.), Platão (séc. V a. C.)15; Aristóteles (séc. IV a.

C.), Cristo, Paulo de Tarso (séc. I ), Maomé (séc. VI), Tomás de Aquino (1226-1274)16 e tantos

outros.

Na realidade, os rituais do amor que se sucedem no curso da vida mapeiam os caminhos



mais apropriados para assimilação e compilação de informações, idéias, linhas e formas de

pensar; constituem trilha indispensável e são fios essenciais do tecido em que nos são revelados a

alegria e o prazer no processo do conhecimento. Por isso que, a par dos demais sinalizadores,

seguimos também os indicativos oriundos da amorosidade, adotando-os como imperativos

decorrentes de lei natural, reconhecemos nessa ritualística os traços da conaturalidade17

cognitiva. E, finalmente, deixar-nos-emos guiar pelo intuicionismo, que mal sabemos definir e

nem sabemos até onde nos levará?

13 Em Direito Comercial, conhecimento é o documento escrito que faz prova de que alguém tem em seu poder mercadorias objeto de comércio,

visando o embarque ou o recebimento; conhecimento de bagagem é o documento de bagagem, fornecido pela empresa de transporte;

conhecimento de carga, recibo de mercadoria entregue à empresa transport adora; conhecimento de depósito; documento que faz prova de depósito

de mercadorias; pode corresponder ao recibo emitido juntamente com o warrant, dado pelos armazéns gerais, trapiches ou estabelecimentos

similares

14Apud Histoire des Litteratures. Paris:Ed. Gallimard, 1955, p.1062.

15 Platão, em O banquete, traduz o que Fedro anuncia: O amor é entre os homens tanto como entre os deuses uma grande e maravilhosa

divindade.

16 Tomás de Aquino sugere que há duas formas fundamentais pelas quais adquirimos o conhecimento: por conaturalidade (sapientia ) como dom

de Deus; e por estudos das ciências e da doutrina( ciência), como resultado do trabalho intelectual do ser humano.

17 Entenda-se por conaturalidade a qualidade que é própria e intrínseca da natureza do ser a que se refere.



Metodologia e Transdisciplinaridade Gustavo Korte

25

A escolha metodológica implica em que aceitemos percorrer, na sua forma mais



elementar, caminhos que não respondem positivamente à razão nem à experiência anterior.

Todavia, o intuicionismo, como um deles, nem por isso perde a natureza de meio de acesso ao

saber.

Impõe-se responder, na privacidade íntima da ação de pensar, às questões que seguem: -



Queremos realmente saber, conhecer, entender os fenômenos ou, simplesmente, vivenciá- los? -

Aonde chegar? - Partindo de onde? - Quando chegaremos? - A causa deste querer saber é

resultante de uma ação exterior ou de um processo interior, que está em nós, como sendo próprio

e exclusivo de nossa natureza humana?

Não importa que as respostas sejam precisas ou imprecisas, exatas ou inexatas. É

importante o esforço individual que anima o intelecto a responder. O que interessa é que essas

perguntas estejam presentes em nossas formas de pensar e possibilitem exercer o arbítrio que nos

haverá de permitir avançar, recuar, pensar e escolher em cada momento o que pareça mais

próprio 18, oportuno19 e conveniente20.

5 - A linguagem discursiva e o idioma

Para que a um campo de conhecimento seja reconhecido valor científico impõe-se que

seja possível a abordagem racional das informações que dele são originadas. Constitui-se em

disciplina científica o campo de conhecimento que tem objeto, linguagem e metodologia

próprios.

Muitas são as linguagens e diversificadas são as formas de comunicação. Não há que

confundir linguagem com idioma. A linguagem é classe da qual a linguagem verbal é gênero e o

idioma é espécie ou subespécie. Em geral a linguagem é sempre de natureza simbólica. E nós nos

comunicamos, sobretudo, por sinais que não são necessariamente verbalizados.

Os estudiosos de neurolingüística informam que noventa e dois por cento das formas de

comunicação não são discursivas, ou seja, nem integram idiomas nem linguagem verbalizada.

Mas, por outro lado, apenas oito por cento das comunicações entre os seres humanos ocorrem

pela verbalização dos idiomas.. J.C. Mazzilli21 afirma:

... Em PNL22, usa-se o termo Prestidigitação Lingüística para designar uma série de padrões de

direção do pensamento para criar múltiplas posições perceptivas num determinado contexto. Destina-se a evitar

o raciocínio linear, ou pensamento unidirecional. Seu modelo é constituído por estratégias que permitem

estabelecer analogias, hierarquizar critérios, segmentar para baixo ou para cima, ver intenções e

conseqüências, etc. e nos permite desafiar crenças e raciocinar de um modo global.

A veracidade dessa afirmação emerge do empirismo em nossas observações de vida, na

medida em que não é difícil reconhecer o uso simultâneo de muitas outras linguagens tais como

visual, tátil, auditiva, gustativa, corporal, olfativa, etc. De fato, a linguagem é um instrumental

através de cuja utilização as idéias são transmitidas com significados que mais se aproximam do

que lhes é atribuído.

A leitura de Gardner23 nos sugere a crença de que a cada linguagem corresponde uma

inteligência: Cada inteligência possui seus próprios mecanismos de ordenação e a maneira como



uma inteligência desempenha sua ordenação reflete seus próprios princípios e meios preferidos.

18 Com o sentido do que responde às propriedades que definem nossa natureza como seres humanos e pensantes.

19 Significando o que é compatível e mais ajustado ao momento da decisão.

20 O que converge para os objetivos; que se ajusta e facilita o seguir adiante.

21 MAZZILLI, J. C. Repensando Sócrates. S. Paulo: Ed. Icone,1997, p.131.

22 PNL: abreviação de Programação Neuro Lingüística.

23 GARDNER, Howard. Estruturas da mente- A teoria das inteligências múltiplas. Porto Alegre: Ed. Artes Médicas, 1994, p.131.

Metodologia e Transdisciplinaridade Gustavo Korte

26

Visando possibilitar a memorização dos supostos progressos discursivos e formar o



patrimônio intelectual que pretendemos legar, contendo-os em documentos escritos, impõe-se,

de um lado, reunir os elementos que compõem as nossas aquisições intelectuais e, de outro, usar a

linguagem verbal discursiva. É a forma de propiciar que idéias e formas de pensar possam ser

reconhecidas por outros, independentemente do tempo e do lugar em que foram tecidas e aportem

alguma fidelidade ao que lhes dá significado.

A nossa intuição indica que a cada inteligência deve corresponder um método de

conhecimento e um nível de realidade. As inteligências progridem por múltiplas formas de

percepção. As formas de percepção emergem em dimensões pelas quais a compreensão, ou seja,

o entendimento do fenômeno é revelado.

O conhecimento, localizado nas dimensões em que as formas de percepção afloram e são

reveladas, torna -se a força motriz do estado de consciência e, assim, o alvo comum tanto do

método como da inteligência. Daí porque somos levados a crer que os métodos, as inteligências e

as formas de expressão são elementos convergentes que integram o conjunto em que se opera o

conhecimento.

Duas idéias fundamentais ligadas à verbalização da linguagem discursiva se abrem à

nossa abordagem. A primeira delas está em Platão, no Cratylo 24, quando Sócrates sustenta que a

cada designativo corresponde uma entidade, seja um objeto, uma pessoa, um qualificativo, uma

idéia, uma ação ou um período. E o substantivo, quando nomeia corretamente o ser, a idéia ou a

entidade a que se refere, traduz a razão pela qual é reconhecida a essência do que é por ele

nomeado. Para o filósofo grego, boa linguagem é aquela em que a essência das coisas ou

entidades é revelada no designativo por que estas são reconhecidas.

Nessa mesma trilha Heidegger25 questiona:

- Existe alguém entre nós que não sabe o que é formar uma idéia? Quando nós formamos uma idéia

de alguma coisa – de um texto, se somos filólogos, de um trabalho de arte, se somos historiadores da arte,

acerca de um processo de combustão, se somos químicos – nós temos uma idéia representacional desses

objetos. Onde nós temos essas idéias? Em nossas cabeças. Nós as temos em nossa consciência. Nós as temos

em nossa alma. Nós temos as idéias dentro de nós mesmos, estas idéias de objetos.

A segunda idéia é indicada pela trilha reaberta por Charles Sanders Peirce (1839-1914).

Peirce é considerado por muitos como o pai da Semiótica. Peirce acredita que o Homo sapiens

teria utilizado, nos seus primórdios intelectivos, o objeto-símbolo e a memória. Pelas formas de

percepção receberia as informações acerca do objeto-símbolo, e estas seriam, em seguida,

gravadas na memória. O registro do objeto-símbolo na memória passa por um processo gradativo

de abstração que ocorre como forma de pensar na percepção dos signos.

Referindo-se a imagens pictográficas de uma cabeça de boi desenhada na parede de uma caverna, e o

túmulo de um companheiro onde é colocada uma pedra desenhada, BROSSO e VALENTE26, visando

esclarecer a mensagem de Peirce, exemplificam o processo de abstração em diferentes formas: a) a pedra

desenhada é um ícone; b) a cabeça do boi é um índice do boi; c) pela escrita criptográfica o índice, na

seqüência e ao longo de séculos, pode evoluir para tornar-se o símbolo do boi. Em verdade, a pedra desenhada

e a cabeça do boi são ícones mas, como o desenho da cabeça tem uma proximidade física com o objeto

representado, ou seja, há uma relação de contigüidade, a cabeça do boi torna-se, naquele momento, um índice.

E esclarecem: ...Então teríamos: ícones (primeiridade - noções de possibilidade e qualidade); índices:

(secundidade - noções de choque e reação, incompletude); e símbolos (terceiridade - noções de

generalização, norma e lei).

24 PLATÃO. Cratylo. (V. trechos em KORTE, Gustavo. A viagem em busca da linguagem perdida, S.P. –Peirópolis,1997 p. 408-416).

25 HEIDEGGER, Martin. O que é designado pensamento? N. York: Harper&Row Pub. 1999, p.39.

26 BROSSO, Rubens e VALENTE, Nelson. Elementos de semiótica. S.Paulo:Panorama, 1999, pp.19 e 20. Rubens Brosso foi um dos fundadores

do NEST.

Metodologia e Transdisciplinaridade Gustavo Korte

27

PEIRCE explica que temos o ícone quando o signo possui analogia, semelhança ou



similaridade com o objeto nele representado; temos o índice quando se revela uma conexão de

proximidade (contigüidade) e o símbolo quando a conexão com o objeto da representação

corresponde a uma abstração intelectual, a uma linha de pensar memorizada, sem a qual a ligação

não teria meios de ser reconhecida.

Roman JAKOBSON afirma que

...a linguagem é um dos sistemas de signos e a lingüistica, enquanto ciência dos signos verbais, é

apenas parte da Semiótica, a ciência geral dos signos (...) ou a doutrina dos signos, dos quais os mais

comuns são as palavras27.

Peirce entende que

...o mais alto grau de realidade só é atingido pelos signos e que ele aprova a criação de novas

palavras para novas idéias28.

Com a palavra faneroscopia Peirce designava tudo que é presente ao espírito, sem cuidar

se corresponde a algo real ou não.

Seguem essa mesma linha de pensar as sugestões de Ludwig WITTGENSTEIN (1889-

1951), no Tratactus Logico-Philosophicus,29 que, em sua primeira fase, afirma:

... Que algo caia sob um conceito formal como seu objeto não pode ser expresso por uma

proposição. Isso se mostra, sim, no próprio sinal desse objeto. (O nome mostra que designa um objeto; o

numeral que designa um número, etc.). Com efeito, os conceitos formais não podem, como os conceitos

propriamente ditos, serem representados por uma função. Pois suas notas características, as propriedades

formais, não são expressas por funções. A expressão da propriedade formal é um traço de certos símbolos. O

sinal da nota característica de um conceito formal é, portanto, um traço característico de todos os símbolos

cujos significados caem sob o conceito. A expressão do conceito formal é, portanto, uma variável

proposicional em que apenas esse traço característico é constante.

Parece-nos evidente que há um sentido estritamente pragmático na linguagem escrita, pois

ela responde ao desejo de usarmos esse instrumento de comunicação para transcender a

dimensão tempo, para gravar informações, possibilitando que não nos escapem da memória.

Nossas formas de pensar são ordenadas e construídas no vernáculo, linguagem de nossa eleição

para este trabalho. Daí que deveremos empregar vocabulário específico e próprio para os avanços

metodológicos pretendidos.

Impõe-se-nos, neste instante, formular algumas avaliações quanto à oportunidade. Vamos

trabalhar com a transdisciplinaridade, tomando-a, simultaneamente como postura, processo,

caminho e método de conhecimento. Há marcos que nos levarão a campos imprevistos, muito

além dos que pretendemos alcançar. Mas há também trilhas enganosas que, não apenas podem

nos desviar dos nossos objetivos, como também afastar- nos definitiva e perigosamente da meta

final.

27 JAKOBSON, Roman. Lingüística, Poética, Cinema, S. Paulo:Cultrix. 10.ª ed; p.14).



28 BROSSO e VALENTE, idem, p.65

29 WITTGENSTEIN. Ludwig. Tratactus Logico Philosophicus. Trad. e introd. Luiz Henrique Lopes dos Santos. S.Paulo: Edusp. 1994. Suas

obras estão compreendidas em duas fases: a primeira, até 1921, em que reuniu suas idéias na obra acima citada; a segunda entre 1922 e 1951,

quando faleceu. Em estudo que fez sobre os dois períodos, David Pears, em As idéias de Wittgenstein , São Paulo: Edusp, p. 14, afirma: “Em



ambos os períodos o objetivo de Wittgenstein era o de compreender a estrutura e os limites do pensamento e o seu método era o de estudar a

estrutura e os limites da linguagem. Sua filosofia era uma crítica de linguagem, muito parecida – em alcance e propósito – com a crítica do

pensamento realizada por Kant. Assim como Kant, Wittgenstein admitia que os filósofos, freqüente e não deliberadamente, ultrapassam os

limites, caindo num tipo de disparate especioso que, parecendo expressar pensamentos genuínos, em verdade não o faz. Desejava ele descobrir a

posição exata da linha que divide o que faz sentido do que não faz sentido, de modo que fosse possível perceber quando se chega aquela fronteira

e parar”.

Metodologia e Transdisciplinaridade Gustavo Korte

28

Capítulo II



Disciplina

6 - O que entendemos por conceito, significado, constructo e definição

Para que se tornem efetivas a aprendizagem e a possibilidade de registrá- la nos bancos de

memória do conhecimento, dois procedimentos são essenciais: em primeiro, a escolha do método,

definindo a trajetória e o sentido do caminho intelectual a ser percorrido e, em segundo, ter

consciência de que, embora restritiva na extensão e compreensão, usaremos a linguagem verbal

escrita consubstanciada em nosso idioma. A linguagem verbal escrita é o instrumento usual pelo

qual registramos nossas experiências de tal forma que, com o passar dos tempos, continuem

disponíveis e acessíveis.

Impõe-se compreender o significado de conceito, significado e constructo. Quando

queremos identificar significados, recorremos a conceitos. Alojam-se, no depósito de nossas

memórias, formas de pensar e conjuntos de idéias verbalizadas, ora convergentes ora divergentes,

que designamos constructos. Importa, pois, capacitar-nos a distinguir entre conceito, significado

e constructo.

Conceito traz o sentido do que é ou foi concebido, isto é, resulta de alguma forma de

concepção. O verbete conceito traduz vários significados, com direção e sentidos diferentes.

Refere-se a pensamento, idéia, opinião, noção, concepção; também a juízos de valor ou

qualidade: apreciação, julgamento, avaliação, opinião. Traduz expressões subjetivas tais como:

ponto de vista, opinião, concepção ou juízos sobre situações sociais envolvendo reputação e

fama. Também é referente a formas de expressão idiomáticas, reduzidas a máximas, sentenças ou

provérbios. Conceito diz também respeito a formulações discursivas crípticas, na forma de uma

charada ou logogrifo, via do que é sinalizada a palavra ou frase como expressão indicando a

solução proposta. Em Filosofia entende-se por conceito a representação de um objeto pelo

pensamento, em que são identificadas algumas de suas características gerais. Em Lógica,

encontramos os significados de conceito absoluto , ou seja, o que define valor, qualidade ou

relação e não é submetido às condições limitativas do sujeito via do qual se materializa. Conceito

abstrato é o que expressa uma suposta essência, ainda que indeterminada.

O verbete concepção, feminino tanto em português como no idioma latino, é originado de

conceptio,onis significando a ação de conter, de incluir a partir da origem, encerrar, de conceber recebendo a

semente de um novo ser ou conceber pelo espírito, no significado de receber, absorver ou encerrar uma nova

idéia ou forma de pensar. Conceituar contém um processo de abstração, de projeção de uma ou mais idéias

em formas verbais pelas quais sejam reconhecíveis por outrem. Corresponde à ação de formular a idéia por

meio de palavras, definindo-a, dando-lhe os contornos formais, essenciais, plásticos, intrínsecos ou

extrínsecos, que delimitam a sua caracterização.Quando nos propomos conceituar, sujeitamo -nos às

restrições: a) da linguagem discursiva, verbalizada; b) do nosso potencial de projetar e representar, buscando

consenso, aludindo às qualidades incluídas no objeto, na idéia, pessoa ou coisa que pretendemos tornar

reconhecível; e c) da intensidade da força da intenção que nos direciona e impulsiona em busca do

reconhecimento da idéia. Nessa busca pretendemos que a idéia apresente nitidez e propicie sua comunicação a

outrem.


Remontando à natureza mítico-religiosa dos pressupostos que levam à conceituação,

Cassirer30 explica:

...O conceito constitui-se, costumava ensinar a lógica, quando certo número de objetos acordantes

em determinadas características e, por conseguinte, em uma parte de seu conteúdo, é reunido no pensar; este

30 CASSIRER, Ernst. Linguagem e mito . São Paulo: Ed. Perspectiva, 1992, p. 42.



Catálogo: ppgea -> conteudo -> T2-4SF -> Akiko
Akiko -> Reforma da educaçÃo e do pensamento: complexidade e transdisciplinaridade
conteudo -> Universidade federal rural do rio de janeiro
conteudo -> Era uma vez um grupo de animais que quis fazer alguma coisa para resolver os problemas do mundo
conteudo -> Universidade federal rural do rio de janeiro
conteudo -> As teorias pedagógicas modernas revisitadas pelo debate contemporâneo na educação
conteudo -> A docência como Profissão: Novos processos identitários na Licenciatura e a Educação Profissional e Tecnológica
Akiko -> Estudos Avançados
Akiko -> Conhecimento, transversalidade e currículo sílvio Gallo
Akiko -> Planeta terra um olhar transdisciplinar. Ciclo2005 Universo do Conhecimento. Universidade São Marcos Educação na era Planetária Conférence Edgar Morin Education dans l’ère planétaire


Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   32


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal