Gustavo Korte



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13 - Pluridisciplinar

O prefixo pluri vem do latim, trazendo significado semelhante ao de multi. Ambos estão

ligados ao significado do prefixo grego poli, ou seja, referem-se a muitos, vários, sinalizando o

plural de coisas e pessoas. Na leitura do grego, o sentido etimológico do prefixo latino pluri

sugere raízes no verbete (leia-se plürës), que se reporta ao que é pleno, cheio, farto,



abundante, inteiro.

Para G. MICHAUD51, pluridisciplinaridade é

... Justaposição de disciplinas diversas, mais ou menos “vizinhas” no domínio do conhecimento.

49 TORRINHA, Francisco. Dicionário latino -português. Porto: Maranus, 1945. 3.ª ed.

50 Ap u d WEIL, Pierre e outros. Rumo à nova transdisciplinaridade. São Paulo: Summus, 1993. p. 33.

51 a p u d WEIL, Pierre e outros. Rumo à Nova Transdisciplinaridade. São Paulo: Summus, 1993, p. 34



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Em Bassarab NICOLESCU52



... A pluridisciplinaridade diz respeito ao estudo de um objeto de uma mesma e única disciplina por

várias disciplinas ao mesmo tempo (...).Em outras palavras, a abordagem pluridisciplinar ultrapassa as

disciplinas, mas sua finalidade continua inscrita na estrutura da pesquisa disciplinar...

De fato, não restam suficientemente nítidas as diferenças substanciais entre multi e

pluridisciplinaridade Mas, atribuindo seriedade e objetividade aos mencionados esforços

conceituais, quando recorremos às projeções matemáticas envolvidas na teoria dos conjuntos, é

cabível afirmar que pluridisciplinar é o conjunto que inclui elementos identificados em

subconjuntos de várias disciplinas, sempre considerando que as disciplinas existem a partir do

momento em que tenham linguagem própria, metodologia e objeto específico. Na realidade, as

disciplinas são definidas por métodos, linguagem e objeto entre si compatíveis e convergentes.

A física newtoniana tem por objeto os fenômenos do mundo sensível, recorre ao

empirismo como fundamento metodológico nas experimentações e ao racionalismo para

encadear as relações causa-efeito. Por linguagem adota, de um lado, a formulação matemática das

relações numéricas identificadas nos fenômenos e, de outro, para expressá-la, a verbalização

discursiva.

O fenômeno que designamos pluridisciplinaridade ocorre quando se verifica a

convergência de várias disciplinas no estudo de um fenômeno, com recursos de várias fontes do

conhecimento para o estudo específico de determinado fenômeno.

Exemplificando: não podemos entender o que ocorre nas vibrações sonoras que afetam nossa audição

sem, necessariamente, recorrer aos conhecimentos que nos chegam por várias disciplinas. Assim, servimo-nos

necessariamente dos conhecimentos de acústica, objeto da física; necessitamos dos conhecimentos ditados

pela anatomia, disciplina objeto das ciências biológicas; da neurologia e da fisiologia, enquanto disciplinas

das ciências médicas; da matemática, aplicada à medida de intensidade, altura, timbre e outras características

dos fenômenos acústicos. Da mesma forma, nos trabalhos de ecologia, especificamente para o estudo da

biocenose, concorrem necessariamente várias disciplinas. É essencial recorrer a várias disciplinas, tais como

fitogeografia, sociologia vegetal e zoológica, biologia, química, física, estatística e outras disciplinas

Também assim no campo da oceanografia, no estudo das migrações; no da fitogeografia, no estudo do

caminhar das florestas.



14 - Transdisciplinar

Quando tratamos de um método transdisciplinar referimo- nos ao que se serve e recorre a

tantas disciplinas quantas conhecidas, visando captar entre elas o que há de semelhança,

interdependência, convergência e conexão, tanto de informações como leis, métodos e

conhecimentos.

Bassarab NICOLESCU53 afirma que foi Jean PIAGET54 o primeiro a usar a palavra



transdisciplinar como expressão de uma nova abordagem do conhecimento:

...A transdisciplinaridade, como o prefixo "trans" indica, diz respeito àquilo que está ao mesmo



tempo entre as disciplinas, através das diferentes disciplinas e além de qualquer disciplina. Seu objetivo é a

compreensão do mundo presente, para o qual um dos imperativos é a unidade do conhecimento. ... Por outro

lado, a transdisciplinaridade se interessa pela dinâmica gerada pela ação de vários níveis de Realidade ao

mesmo tempo...

52NICOLESCU, Bassarab. Um novo tipo de conhecimento - transdisciplinaridade. In Educação e Transdisciplinaridade. Brasília: Ed.

UNESCO,1999, p.14.

53 NICOLESCU, B. Sciences et Tradition. Paris:Troisième Millénaire, n.º 23, 1992, p.83.

54 PIAGET, J. Psicólogo suíço, iniciou sua carreira por volta de 1920. Desenvolveu uma visão da cognição humana pela qual todo o estudo do

pensamento humano deve reconhecer a força que move o indivíduo para que possa entender o mundo. Ou seja, o indivíduo vive um processo de

sucessiva aprendizagem, construindo hipóteses e, por esse meio, buscando aprendizagem e solução para as suas dificuldades. Há um potencial de

interiorização e simbolização que atinge intensidade acentuada por volta dos sete ou oito anos de idade. O estágio final de desenvolvimento

humano, para Piaget, inicia-se na adolescência. Em face das medidas de QI, Piaget mostrou-se cético, não escondendo a incredibilidade pessoal.

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Jean PIAGET55, num lance de futurologia, em idos de 1970, na Organização da



Comunidade Européia, anunciava:

...Enfim, na etapa das relações interdisciplinares, pode-se esperar que se suceda uma fase superior

que seria " transdisciplinar", a qual não se contentaria em atingir interações ou reciprocidades entre

pesquisas especializadas, mas situaria tais ligações no interior de um sistema total, sem fronteiras estáveis

entre as disciplinas.

E é o mesmo PIAGET, quem escreve, em outro de seus trabalhos relevantes:

... O equilíbrio cognitivo não é um estado de inatividade senão de constantes mudanças e, se há

equilíbrio, é porque estas preservam a conservação do sistema, enquanto um ciclo de ações ou de operações

interdependentes, ainda que cada uma delas possa entrar em relação com o exterior...56

G. MICHAUD57 esclarece que ... transdisciplinar é a efetivação de uma axiomática comum a um



conjunto de disciplinas.

Pierre WEIL58 reconhece duas possibilidades transdisciplinares, a saber:



... Assim sendo, a transdisciplinaridade é uma forma de abordagem holística intelectual, porém

holística não é só transdisciplinar(...) A transdisciplinaridade especial é a axiomática comum a várias

disciplinas dentro das ciências, das filosofias, das artes ou das tradições espirituais. Por exemplo, podemos

considerar como transdisciplinaridade específica a axiomática comum entre a biologia e a física dentro da

ciência, ou as Mônadas de Leibnitz e o Ser de Heidegger, em filosofia, ou entre o abstracionismo e a arte

sagrada, ou ainda entre cristianismo e hinduísmo, nas tradições espirituais (....) A transdisciplinaridade

comum é a axiomática comum entre ciência, filosofia, arte e tradição. Como ela inclui as tradições

espirituais, leva fatalmente à visão holística através da abordagem holística, desde que praticada. Como

axiomática, ela é o resultado de um esforço de conceitualização que leva à compreensão e à definição do

novo paradigma holístico59.

Ubiratan D´AMBRÓSIO60, ao tratar das questões referentes ao processo de conhecimento

afirma:

...A abordagem dessas questões dificilmente poderá ser feita fora do âmbito da



transdisciplinaridade. Está claro que transdisciplinaridade não constitui uma nova filosofia, uma nova

ciência metafísica nem uma ciência da ciência. Muito menos uma nova postura religiosa. Nem é, como

alguns insistem em mostrá -la, um modismo. O essencial na transdisciplinaridade reside na postura de

reconhecimento de que não há espaço nem tempo culturais privilegiados que permitam julgar e hierarquizar

como mais corretos - ou mais certos ou mais verdadeiros - os diversos complexos de explicações e de

convivência com a realidade. A transdisciplinaridade repousa sobre uma atitude aberta, de respeito mútuo e

mesmo de humildade com relação a mitos, religiões e sistemas de explicações de conhecimentos, rejeitando

qualquer tipo de arrogância ou prepotência.

As variadas leituras e a oportunidade ímpar de debates aprofundados nas sessões de

leitura de que resultou este trabalho introdutório, nos levam a conceituar a transdisciplinaridade

tendo em vista sua natureza, sua amplitude, suas relações com os outros métodos, suas causas e

seus efeitos.

William Pepperell-Montague sinalizou somente as seis trilhas que lhe pareceram

fundamentais. Porém, o rico conteúdo filosófico de sua formulação ressente-se da falta de outros

dois marcos com que poderia ter mapeado de forma mais completa o acesso do conhecimento.

Enquanto Montagüe, numa postura filosófica, enumerou misticismo, autoritarismo, racionalismo,

empirismo, pragmatismo e ceticismo pretendendo assim esgotar o rol dos caminhos para o

conhecimento, nós nos sentimos justificados, em face de uma postura transdisciplinar, a acrescer

55 PIAGET, J. Colloque sur l'interdisciplinarité. Nice: OCDE, 1970.

56 PIAGET, Jean. Investigacionmes sobre la abstracción reflexionante. Buenos Aires: Huemul, 1980. p. 257.

57 WEIL, Pierre e outros. Rumo à Nova Transdisciplinaridade. São Paulo: Summus, 1993, p. 34

58 WEIL, idem, ibidem, p. 36 - 40.

59 WEIL entende que definir o novo paradigma holístico consiste, então, em encontrar axiomas comuns entre a ciência e a tradição,

principalmente nos seus aspectos experiencial e transpessoal. E, ao mesmo tempo, é a procura de uma axiomática transdisciplinar (idem,

ibidem).

60 D´AMBRÓSIO, Ubiratan. Transdisciplinaridade. São Paulo: Palas Athena, 1997. p. 79.

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a esse conjunto, tanto a amorosidade como o intuicionismo, eis que nos parecem essenciais para



o sucesso dos processos cognitivos.

15 - Transdisciplinaridade não é novidade

Não assimilamos uma relação histórica pela qual possamos situar, no eixo cronológico

dos acontecimentos, o surgimento da palavra disciplina com os significados que atualmente lhe

atribuímos. O sentido abrangente dos campos de conhecimentos em que os sábios do passado

percorriam no exercício de suas abordagens retira do discurso a possibilidade de identificar o

momento inicial das especificações disciplinares.

Nota-se um grande esforço do intelecto humano em reunir e compor os avanços das

formas de pensar. Entre as tribos dos Magos, na antiga Pérsia, assim como na estrutura social

dos Vedas e nos primórdios do Hinduísmo, essa realização intelectual ocorre pela assimilação

dos processos iniciais de sistematização do conhecimento, levado adiante por egípcios e gregos.

Reportando-nos a algumas das antigas civilizações, parece-nos válido afirmar que à falta de uma

atividade uni ou interdisciplinar, os seres humanos trabalharam, geralmente, assimilando

condutas místicas, racionais e intuitivas, integrando-as ao autoritarismo, ao pragmatismo, ao

empirismo, ao ceticismo e à amorosidade.Assim, recorreram desde remo tas eras, à via

transdisciplinar que lhes pareceu, primitivamente, a mais natural e acessível.

A Tábua de Esmeralda 61 é, supostamente, herdada dos egípcios. A autoria é atribuída a

Hermes Trimegisto e tornou-se uma das leituras básicas sugeridas nos rituais de diferentes

iniciações místicas. Esse documento, para muitos de contestável originalidade, incita-nos a uma



abordagem transdisciplinar do conhecimento, pois, induz ao reconhecimento de que há um

conjunto de verdades genéricas, a serem adotadas como princípios comuns a todos os campos de

aprendizagem. A Tábua de Esmeralda sinaliza a existência de um eixo comum nos campos do

conhecimento. Embora possa não ser expressão correta da axiomática procurada pelos que

trabalham a transdisciplinaridade nos dias de hoje, talvez sirva como indicador místico de que

esse eixo comum existe e pode ser encontrado.

Parece-nos evidente o conteúdo transdisciplinar expresso nos doze enunciados atribuídos

a Hermes Trimegisto e que, segundo as tradições místicas e mitológicas, comporiam a Tábua de



Esmeralda. A tradução que nos chegou do suposto texto original é:

1 - É verdade sem mentira, certo e muito verdadeiro,

2 - O que está embaixo é como o que está em cima; e o que está em cima é como o que está embaixo, para fazer

os milagres de uma só coisa.

3 - E como todas as coisas têm sido e são vindas de Um, pela meditação de Um: assim todas as coisas são

nascidas dessa coisa única, por adaptação.

4 - O sol é o pai, a lua é a mãe, o vento a trouxe em seu ventre; a terra é sua alimentadora. O pai de todo o

telesmo de todo o mundo está aqui.

5 - Sua força e seu poder é inteiro.

6 - Se ele for convertido em terra, tu separarás a terra do fogo, e, docemente, o sutil do espesso, com grande

indústria.

7 - Ele sobe da terra para céu, e de novo desce à terra, e ele recebe a força das coisas superiores e inferiores.

8 - Terás por este meio a glória de todo mundo; por isso, toda obscuridade será afugentada de ti.

61 A Tábua de Esmeralda é um texto curto, sob a forma de doze proposições e um anexo que teria sido redigido por Hermes Trimegisto, que teria

sido um sábio do Antigo Egito, divinizado pelos egípcios como o deus-mensageiro Thot, pelos gregos conmo Hermes e pelos romanos

Mercúrio. O texto foi originalmente traduzido por Hortolanus, transmitido pelos árabes da Espanha para o Ocidente, e teria sido descoberto por

Apolonio de Tyana perto de uma estátua de Hermes. O texto original, como tantos outros textos sagrados, teria sido inspirado por Deus através de

um sonho. Conforme os trabalhos de Marcelin Berthelot e de R.P. Festugière, a redação apresenta características de uma inspiração traduzida nos

moldes da escala alexandrina. O nome lembra o Egito, pelo sinal do verde, e Hermes (Mercúrio) é o legendário e misterioso Thot dos Egípcios,

que fora divinizado com a cabeça de Íbis, penteada com um crescente lunar e com o disco solar. O que pode ser conferido com os escritos de

Giamblico em Mystérios.

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9 - Essa é a força de toda força: pois ela vencerá toda a coisa sutil e penetrará em toda coisa sólida...



10 - Assim o imundo(in mundo) foi criado.

11- Daqui serão e sairão adaptações admiráveis, das quais o meio está aqui .

12 - Esta é a razão pela qual fui chamado Hermes Trimegisto, tendo as três partes da filosofia de todo o mundo;

o que falei sobre a operação do sol está cumprido e acabado.

A observação deixa-se impressionar pelas fontes metodológicas que sugerem a

transdisciplinaridade embutida nos enunciados da Tábua de Esmeralda, cujas prescrições

serviriam a todos os campos do conhecimento. Anuncia princípios geral axiomáticos (a) O que

está embaixo é como o que está em cima; e o que está em cima é como o que está embaixo, para

fazer os milagres de uma só coisa, e (b) como todas as coisas têm sido e são vindas de Um, pela

meditação de Um: assim todas as coisas são nascidas desse coisa única, por adaptação, devendo

as abordagens ser conduzidas por comparação e investigação. Este é um dos fundamentos que

servem também à metodologia transdisciplinar.

O sentido universalizante do método transdisciplinar, tal como na Tábua de Esmeralda,

anuncia que o Todo é muito mais que a soma das parcelas que o compõem. Há um sinal

reconhecível de que a tomada de consciência, que designamos conhecimento, implica no

reconhecimento de que o que está embaixo é como o que está em cima, numa relação de

reciprocidade espacial.

A Tábua de Esmeralda sugere ainda uma interpretação mais subjetiva e particularizada, na

formulação teórica discursiva, pela qual nota-se que o que eu penso é como o que existe, e o que



existe é como o que eu penso. Pode-se, inclusive, interpretar esse texto aportando- lhe o sentido de

que o que eu penso vem de cima e responde ao que eu vivo, que está embaixo.

A transdisciplinaridade entre caldeus, assírios e babilônios é sinalizada em escritos

compilados por volta de 165 a.C., cujos originais foram atribuídos ao Profeta Daniel (ca. 600

a.C.), quando relata, no Velho Testamento:

...E em toda matéria de sabedoria e de inteligência, sobre que o rei lhes fez perguntas, os achou



dez vezes mais doutos do que todos os magos ou astrólogos que havia em todo o seu reino. E Daniel esteve

até o primeiro ano do rei Ciro. (Daniel, 1:20-21).

De fato, a leitura de informes históricos não restritos à citação transcrita, dão conta de que

Daniel era o sábio maior entre os demais sábios da corte babilônica, onde viviam astrólogos,

astrônomos, médicos e físicos. Por isso, parece apropriado reconhecer a postura transdisciplinar

nas ancestrais abordagens do conhecimento. Está compreendida numa combinação de misticismo

judaico-babilônico tanto com o autoritarismo e o empirismo, preservados nas tradições cognitivas

herdadas de seus ancestrais, como com o pragmatismo que norteou a administração de Daniel

sobre a cidade de Babilônia na missão que lhe fora confiada por Nabucodonozor.

Também é de natureza transdisciplinar a amorosidade com que o profeta hebreu Daniel

tratou e governou o povo babilônico e estendeu para os povos escravizados. Chama ainda a

atenção o intuicionismo com que interpretou para o soberano os sonhos reais e que lhe valeram

crédito e autoridade, via do que se tornou primeiro entre seus pares62.

Tiahuanaco, situado no altiplano boliviano, próximo de Guaqui e cerca de uma centena

de quilômetros de La Paz, foi um centro de peregrinações místicas dos povos andinos sulamericanos,

especialmente para os pré-colombianos. Pode-se comparar, social e historicamente, o

significado místico de Tiahuanaco ao de Delfos, na Grécia. Supõe-se que em Tihauanaco teria

existido também um oráculo de muita sabedoria e entendimento que foi o gerador da fama

mística de que o centro de peregrinações desfrutou.

62 Vide KORTE, G. A viagem em busca da linguagem perdida. São Paulo: Peirópolis. 1997. p. 74 -79.

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O sentido transdisciplinar que caracteriza as peregrinações místicas é resultante dos vários



métodos de abordagem do conhecimento, começando pelo misticismo, passando pelo

autoritarismo, pragmatismo, empirismo, ceticismo, racionalismo, amorosidade e intuicionismo

como expressão final do sucesso.

Tais peregrinações eram tanto firmadas na crença de uma hierarquia divina, sob o

domínio de um Deus Superior como na expectativa do recebimento de suas mensagens via do

oráculo. A comunicação críptica, por intermediação da linguagem oracular, de inegável conteúdo

simbólico, para ser decodificada e entendida dependia de uma postura transdisciplinar. Isso

porque não estava sujeita aos limites de uma única forma de pensar, mas, por recorrer ao

simbolismo, ensejava a correta interpretação com apoio na amplitude de vários enfoques.

Pode-se observar que entre os helênicos, Homero (ca. 850 a.C.), Hesíodo (séc. VIII a.C.),

Pitágoras (ca. 570-480 a.C.), Parmênides de Eléa (515-440 a.C.), Demócrito ( 460-370 a.C.),

Heráclito de Éfeso (550-480 a.C.), Anaximandro (610-547 a.C.), Xenófanes de Colofonte ( final

séc. VI a.C.), Platão ( 427-327 a.C.), Aristóteles (384-322 a.C.), Euclides ( séc. III a.C.), Epicuro

(341-270 a.C.) e outros de igual porte intelectual, o conhecimento foi sempre abordado de forma

transdisciplinar, não sendo limitado a qualquer campo específico, ou seja, não ficando restrito à

abordagem cognitiva de qualquer disciplina específica.

Dos nomes acima mencionados, Euclides destaca-se com visão mais dirigida à Geometria

e à Matemática figurativa, sem todavia perder o sentido transdisciplinar de suas observações, que

encontram no empirismo o método de comprovação cognitiva. Os filósofos clássicos se socorrem

dominantemente das observações empíricas memorizadas pela experiência individual ou coletiva.

Enveredam-se na busca de um sentido pragmático do conhecimento, que lhes é supostamente

revelado pelos mitos e pelo misticismo. E recorrem tanto ao ceticismo, ao racionalismo, à

amorosidade e à intuição como à autoridade cognitiva dos interlocutores e das respectivas fontes

de informação, quer fossem poetas, prosadores, escultores, músicos, filósofos ou sofistas. .

Na manifestação dos Vedas, inseridos no processo cognitivo anunciado pelo Hinduísmo, é

possível observar quatro fundamentos em torno dos quais é sugerida a transdisciplinaridade. Os

textos védicos nos chegaram pela tradição oral, originada aproximadamente entre os anos 2000 e

500 a.C.. Foram compilados a partir de 1850 a.C. Apenas uma parte foi salva da ação do tempo,

das guerras e das mudanças sociais. A atividade místico-religiosa era concentrada em certos

grupamentos de estudiosos (escolas), subdivididos desde o início. Tais informações, encontradas

nos textos antigos, foram historicamente incorporadas e podem, atualmente, ser objeto de estudos

sujeitos a um mínimo de rigor intelectual. Os escritos mais importantes são também os mais

antigos e foram cultivados e conservados pela tradição. A coleção de quatro deles é designada

Samhita: Rigveda63, Yajurveda64, Samaveda65 e Atharvaveda66.

Quando nos referimos aos escritos dos Vedas também estamos incluindo, genericamente,

a literatura posterior, que é acessória dos quatro livros principais. Os Samhitas, Brahamanas,

63 O Rigveda é composto de 1000 hinos endereçados às divindades. A maioria refere-se ao culto Soma. Segue a crença de que os deuses gostam de

ser venerados.

64 O Yajurveda reconhece que há um princípio natural de ordem, definido por leis que devem ser cumpridas por todos, sejam eles homens ou

deuses. Por isso o Yajurveda é também o Veda que contém as fórmulas mágicas aplicadas às diferentes situações. O Yajurveda diz respeito ao

cultivo da vida em suas manifestações genéricas, incluindo o que se pode designar medicina Ayurvédica, ou seja, o receituário para o cultivo da



vida com alegria, amor e satisfação no que se experimenta.

65 O Samaveda refere-se ao princípio que define a Unidade da Natureza. Todo o Universo teve sua origem em um Ser Supremo que o governa

através de leis que obrigam a todos, tanto a deuses, homens como as demais manifestações de existência. A idéia da lei fundamental, Rta , evoluiu

para a idéia da lei da ação, ou Carma.

66 O Atharvaveda está relacionado aos princípios encontrados no Pitagorismo (Versos de Ouro ) e deu origem ao esforço dos Rsis, sacerdotes

védicos para encontrar cânticos, ritos e rituais que pudessem agradar aos deuses; diz respeito às matérias mundanas e às formulações mágicas.



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