Gustavo Korte


Metodologia e Transdisciplinaridade Gustavo Korte



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Metodologia e Transdisciplinaridade Gustavo Korte

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Abordemos, para tanto, os significados que nos são trazidos pelo misticismo,



autoritarismo, racionalismo, empirismo, pragmatismo, ceticismo, amorosidade e intuição,

singularmente ou por meio das combinações possíveis.

O que se entende por significado, é o que pode, na forma de reconhecimento, identificar o objeto da

observação. Aporta, muitas vezes, uma experiência eminentemente pessoal e subjetiva. Outras tantas vezes

resulta de ações imaginárias, embora adjetivadas por supostas características empíricas e racionais.

Há estudiosos para quem o significado de uma palavra traz um conteúdo intrínseco.Há os

que identificam uma relação subjetiva entre o intérprete e a palavra (designatum ). Essa relação é

revelada ao interpretante. É o efeito causado pelo designatum, reconhecido no entendimento do



intérprete por suas formas subjetivas de percepção. Assim, os métodos têm efeitos diversos sobre

cada um de nós, ainda que nos esforcemos por objetivar nossas formas de entendimento tanto

como reduzir as diferenças conceituais subjetivas.

O senso comum reconhece no verbete misticismo diferentes significados. Para identificálos,

relacionemos o vocábulo quanto à categoria gramatical a que pertence. Como substantivo, o

verbete misticismo aporta a idéia de tendências a adotar crenças ou doutrinas religiosas,

desvinculadas da lógica e da razão. Refere-se, de forma substantiva, ao caminho místico sugerido

por qualquer doutrina. Revela, como adjetivo, na postura mística, a qualidade própria de crença

dirigida ao sobrenatural. Entende-se por misticismo um dos caminhos que podem levar ao

conhecimento. Traduz-se por uma postura religiosa (ou filosófica), que considera a existência

do Sagrado, bem como a possibilidade efetiva de comunicação entre os devotos e as divindades.

Na transdisciplinaridade o misticismo liga-se ao conceito do que é sagrado, do que



transcende o que é material e racional. A postura transdisciplinar sugere que o Sagrado merece

respeito e veneração, pois é o que propicia a transcendência de limites nas formulações racionais

e empíricas, e que se comportam como geradoras do que supomos conhecer.

Os monoteístas revelam sua crença mística em um Deus Supremo e Único. Os politeístas

consideram e projetam suas crenças em uma pluralidade de deuses e deusas. O exemplo clássico

de politeísmo é revelado pela História Antiga, tanto na Grécia Clássica como entre os romanos.

O misticismo gnóstico admite a possibilidade real da comunicação e revelação de Deus

para o ser humano ainda vivo, lúcido e consciente. Para os agnósticos essa crença é infundada.

Alguns destes, mesmo sendo crentes, devotos ou religiosos, acreditam que a revelação direta de

Deus para o ser humano só ocorrerá após a morte. Para os gnósticos Deus é revelado como o

Senhor do Conhecimento, Deus da Sabedoria e do Entendimento. Há agnósticos místicos que

acreditam em deuses, mas não na possibilidade de sua revelação aos seres humanos enquanto

ainda viventes no planeta, e há agnósticos ateus, que não crêem em divindades de qualquer

natureza.

Sabemos que toda doutrina é sempre respaldada em crenças. Designamos doutrinas

religiosas as que têm alicerces no misticismo religioso. Doutrinas políticas são as que têm

fundamento em crenças políticas, filosóficas ou sociológicas e são movidas e alimentadas pelo

interesse público ou coletivo. As doutrinas de fundamento místico se revelam por tendências que

se apoiam nos sentimentos e, mais notadamente, sobre os caminhos desvinculados dos

imperativos racionais.

André LALANDE78 ensina que misticismo refere-se à crença na possibilidade de uma

união íntima do espírito humano ao principio fundamental do ser, união constituindo por sua vez

um modo de existência e um modo de conhecimentos estrangeiros e superiores à existência e ao

78 LALANDE, André. Vocabulaire technique et critique de la Philosophie. Paris: Quadrige-Presses Universitaires, 1997.

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conhecimento normais e ao conjunto de disposições afetivas, intelectuais e morais que se



prendem a essa crença. Faz menção ao êxtase como sendo o fenômeno essencial do misticismo.

O substantivo feminino Mística designa o conjunto de práticas que conduzem ao estado

de êxtase.

Por muitos o misticismo é aceito, juntamente com o racionalismo, o empirismo e o pragmatismo,

como um de quatro métodos filosóficos. Segundo o ecletismo79, tais métodos têm-se sucedido em ciclos na

história do pensamento humano. Muitos acreditam que o progresso da reflexão filosófica tem por objetivo

conciliar e compatibilizar cada vez mais tais métodos. Outros designam esses métodos fundamentais como

sistemas de pensar. Há ainda os que os entendem como caminhos em que coexistem níveis de realidade pelos

quais estimuladas as formas de percepção. Por método, convém repetir, entenda-se o caminho ou a trilha que

possibilita os avanços do procedimento intelectual. A classificação dos métodos parte de parâmetros que

marcam as formas de pensar participando, assim, dos demais processos de ordenação do conhecimento. Da

mesma maneira que, seguindo por uma trilha, podemos andar, correr, perambular lenta ou pausadamente,

também pelos métodos podemos seguir analítica ou sinteticamente, indutiva ou dedutivamente, deitando

olhares pelo horizonte que se amplia sinalizando o macrocosmo, ou podemos atentar para as pequenas coisas,

enfocando os pormenores que induzem à idéia de microcosmo. Podemos caminhar mirando nuvens ou

beijando flores. Podemos processar pensamentos de natureza mística por indução ou dedução, por

implicações ou contingenciamentos.

Importa entender o misticismo, enquanto método, como expressão de um nível de

realidade, não como sistema de pensar. De fato,o misticismo corresponde a um conjunto de

parâmetros indutores de formas de pensar e abordagens, que não estão sujeitos ao que supomos

ser racionalmente demonstrável ou empiricamente verificável.

O que nos chega pelo misticismo pode ou não ser verdadeiro. O que supomos ser

conhecimento decorrente do misticismo não é nem falso nem verdadeiro por implicações

racionais, mas tão somente merece nossa credibilidade quando resultante de intuições místicas.

Assim, não se pode dizer que o misticismo é um sistema, mas, identificando-o como nível de

realidade em que ocorrem formas de pensar de natureza mística, podemos reconhecer que se

trata de um método cognitivo.

Sistema de pensar é locução verbal que designa o conjunto ordenado de enunciados referentes a

relações causa-efeito ou de expressões antecedente-conseqüente. Em tais expressões podem ser reconhecidos

conjuntos de elementos identificados em atividades teóricas ou práticas, de qualquer amplitude ou dimensão.

Há grande número de sistemas utilizados e estudados em várias disciplinas e nos mais diversos campos do

conhecimento.

Misticismo, enquanto nível de realidade, insinua-se como um método, não podendo ser

considerado sistema, pois não é um conjunto de regras ou de atividades, mas tão somente revelase

por sinais e marcos que auxiliam nos percursos do conhecimento.

O termo misticismo é também usado no sentido pejorativo, quando se refere: a) a crenças e

doutrinas que se apoiam mais no sentimento e na intuição do que em observação e raciocínio e b) a

crenças e doutrinas que depreciam ou rejeitam a realidade sensível em proveito de uma realidade

inacessível aos sentidos.

O prefixo grego leia-se mis), traz o significado de algo desprezível, odiado, detestado.

? (em grego pronuncia-se estégaso), significa cobrir, proteger, abrigar. ? (leia-se

?estéganos?) traz a idéia de hermético, fechado, coberto, denso. Contida no prefixo mis, que integra também os

verbetes misólogo e misologia, está a idéia pejorativa do que é inferior, repulsivo ou desprezível. Incluindo os

efeitos do prefixo designam-se misólogos os que odeiam a força do raciocínio e misântropos os

humanos que odeiam os homens. Há no vocábulo místico, quando traduzido por raiz etimológica oriunda do

prefixo mis ( em grego mis ), um significado de ódio à razão e ao entendimento claro sustentado pela razão,

que se traduz em misólogo. Todavia, ainda no grego, há outro prefixo, mys (em grego ), usado em

79 Ecletismo. Conjunto de formas de pensar integrado por elementos doutrinários emprestados a diferentes escolas filosóficas, que permite a

inclusão, de forma compreensiva, de novos elementos ideológicos, doutrinários ou crenças. (N. do A.).

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? (mystagogia), que traz o significado de iniciação nos mistérios, o que nos leva ao prefixo grego



mus? (mys) com o sentido de o que está oculto, é escondido, vive ocultamente.

Torna-se facilitado o entendimento pela aferição das relações etimológicas entre verbetes que trazem

o mesmo prefixo mys: ? (mystérion?mysticismos), ? (mystes>místico), e

que se referem às iniciações rituais místicas, tais como as ministradas a quem é iniciado nos mistérios de

Elêusis ?; ?? (mysteriodes > misterioso). Por efeito do prefixo mys (mus) as palavras aportam um

significado de mistério, quando algo está oculto ou pretende ser mantido secreto. Somos levados a crer que



místico, por mystico, etimologicamente pode corresponder a mys+ stega, ou seja, aporta a idéia daquilo que

não se quer ver desvendado nem descoberto.

Platão ensina que o homem deve evitar converter-se em um misólogo (??, ou

seja, deve evitar tornar-se uma pessoa que odeia a razão80.

O misticismo (oriundo de mystico), recorre aos marcos deixados pelas raízes da

experiência, via da qual a mente humana cultiva parte de sua existência em um nível de realidade

peculiar, onde necessita buscar tipo específico de alimento. Podemos afirmar, sem medo de errar,

que todos somos místicos (mysticos), guiando-nos por determinados limites e segundo os

contornos de algumas relações.

A tradição procura revelar o misticismo como fonte de informações por narrativas,

documentos, ritos e rituais, recebendo e aceitando muitas delas como crenças formadoras de

conhecimento. A história dos povos e das nações revela a presença constante não só de práticas

religiosas como de rituais, secretos ou públicos, que anunciam e exacerbam o significado místico

de determinadas crenças, atos ou devoções.

O misticismo metodológico procura o significado dos mistérios alimentados há milênios

pela mente humana. Nas sociedades do Homo sapiens, os mistérios induzem- nos a ajustarmo-nos

a regras e acercarmo-nos de seitas religiosas, procurando adaptação ao mundo real fora dos

estreitos limites da razão e da experiência sensível. E, assim, os mistérios dão colorido indefinido

aos contornos dos fenômenos. O esforço para conceituar e reconhecer validade no misticismo,

recorre sobretudo à autoridade moral de natureza religiosa atribuída aos informantes e procura

delinear a influência das crenças místicas na sistematização do que supomos conhecimento.

Muitas vezes a ação intelectiva busca a possibilidade de identificar e dimensionar forças

misteriosas que integram os caminhos do saber, agindo de forma circunspeta e respeitosa por

mediação de atitudes místicas.

19 - O que significa mistério

Em sentido restrito, o verbete mistério visa significar o conjunto de elementos

doutrinários e religiosos, aberto tão somente aos que pretendem encaminhar suas vidas nas

práticas religiosas. Os mistérios mostram-se, nesse entendimento, conhecimentos acessíveis tão

somente para iniciados, referindo-se geralmente aos que aprenderam ou são levados a conhecer

determinados cultos e rituais. O mesmo verbete designa também, em outro nível de

entendimento, o conhecimento objeto de fé ou dogma religioso, não necessariamente subordinado

ao raciocínio ou à experiência.

Em outra extensão, mistério aporta o significado oculto daquilo que a inteligência humana

é incapaz de justificar pelas abstrações da razão ou pelas vias da experiência sensorial. Na

observação de conjuntos de coisas, seres ou pessoas, considera-se também mistério aquilo que

não está claro ou não é acessível ao senso comum. O significado retrata, nesse sentido, o

elemento oculto, não revelado, total ou parcialmente obscuro, que aparenta ser contraditório ou

contrário aos pressupostos do conhecimento. É a crença que nos desconcerta por que se opõe á

80 Platão. Fédon, 89D.

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razão. Refere-se por vezes a segredos ou enigmas, aportando ainda a idéia de sagrado. Mistério é



também o designativo para o que não tem nem encontra explicação em face dos parâmetros

normais, ou seja, o que se manifesta estranho e imponderável.

Na Idade Média, mistério designava a composição teatral da Idade Média, que tinha por tema algum

episódio bíblico ou que era referente à vida dos santos. A narrativa ou apresentação fazia -se acompanhar de

musicalidades instrumentais ou vocalizadas, tais como intermédios, baladas ou canções entoadas por solos, ou

coros. Nas práticas litúrgicas da Igreja Católica Romana, mistérios referem-se a cada um dos 15 grupos de 10

ave-marias e um padre-nosso de que se compõe um rosário. Mistérios dolorosos comemoram a oração no

Horto e os sofrimentos de Cristo até o Calvário. Mistérios gloriosos referem-se à Ressurreição, a Ascensão do

Senhor, ao Pentecostes, à Assunção e à Coroação da Virgem. Mistérios gozosos dizem respeito à Encarnação,

à Visitação, à Purificação e ao encontro do Menino. Na Idade Média, mistério era a designação dada a peças

teatrais e obras literárias cujo tema era religioso e onde ocorria a intervenção de santos, divindades e

demônios. Também é designado mistério o conjunto de doutrinas secretas e de ritos iniciáticos que levam à

salvação81.

Na tradição religiosa dos que professam o cristianismo, mistério corresponde ao conteúdo

do que é: a) desígnio divino na história do mundo, especialmente sobre a salvação, manifestado

no tempo e b) a doutrina cristã sobre Deus, Suas ações e por isso, refere-se ao que é considerado

Sagrado.

Em antigas práticas culinárias da tradição luso-brasileira, mistério designava uma

sobremesa constituída de creme gelado com merengue e praliné. Na origem da palavra mistério

há uma conotação direta entre práticas ritualísticas e religiosas, reservadas aos iniciados ou a

alguns poucos privilegiados, designando o que nem é difundido nem tornado público dentro da

liturgia 82 ou nos ritos e rituais. No latim a palavra mysta ou mystes, indica aquele que é iniciado



nos mistérios.

Por força do radical grego mys (antigamente, no vernáculo, escrevia-se mystério. O vocábulo

tem origem no grego mystérion (musterion), pelo latino mysteriu. Mysterium: do latim traz o significado de

cerimônia secreta em honra das divindades; segredos; mistérios. A expressão latina mysteria facere

corresponde a celebrar os mistérios de Ceres83. Misteriosa é a observação inexplicada pela razão ou pela

experiência, que também é dita envolta em mistério. Diz-se que procede misteriosamente aquele que age em

sigilo, segredo ou obscuridade. Misteriosa é a prática de fazer segredo das coisas ou dos procedimentos. Os

romances policiais, como obras literárias de ficção, são misteriosos na medida em que tratam de

acontecimentos enigmáticos cuja solução decorra de situações a serem desvendadas . Misteriosa é a questão

difícil e obscura. Da mesma forma é considerada mistério a concepção de uma verdade religiosa trazida por

uma revelação divina.

O senso comum designa percurso misterioso como sendo a passagem por redutos ou

lugares de características não pré-especificadas, tidos como secretos ou conhecidos de poucos. O

atual Dalai Lama ao excluir o misticismo das necessidades do intelecto humano, põe em dúvida a

vinculação entre misticismo e sua subordinação à religião:



... Não importa muito se uma pessoa tem ou não uma crença religiosa. Muito mais importante é que

seja uma boa pessoa. Digo isso diante do fato de que, embora a maioria dos seis bilhões de seres humanos da

Terra afirme seguir uma ou outra tradição de fé, a influência da religião nas vidas das pessoas é geralmente,

marginal, principalmente no mundo desenvolvido. Cabe duvidar se, em todo o globo, ao menos um bilhão de

pessoas seja o que eu chamaria de dedicados praticantes religiosos, aqueles que, todos os dias, tentam seguir

fielmente os princípios e preceitos de sua fé84.

81 Mistério da Paixão é o título de obra literária de Arnoul Gréban, em 1450.

82 Liturgia. Culto público e oficial da denominação religiosa que se manifesta por ritos e rituais que lhe são peculiares.

83 Ceres - Deusa romana da fertilidade e das colheitas, que na tradição grega corresponde a Demétria (Demeter), personagem essencial nos

mistérios de Elêusis. (Vide pormenores às páginas 201 a 205 de O Roteiro Mágico de Pitágoras. KORTE, Gustavo. São Paulo: Ed.

Peirópolis,1999).

84 DALAI LAMA. Uma ética para novo milênio. Rio de Janeiro: Sextante, 2000. p. 29 e p. 30

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20 - Misticismo tem a ver com mistério.

Uma força poderosa emerge das palavras. Em qualquer idioma, o poder das formas de

expressão mostra que o conteúdo da linguagem escrita ou falada, excede o tempo de vida dos

seres humanos. O conteúdo da mensagem idiomática projeta-se de maneira linear no gráfico da

vida, rompendo as barreiras e os limites de espaço, massa e tempo. Embora sem identificar com a

desejada acuidade mental, ajustam-se os pontos de aplicação dessa força de comunicação a

fenômenos eletromagnéticos e a dimensões não definidas dentro do que é designado Universo.

O misticismo, os mistérios e a palavra estão, pela natureza comum que os relaciona,

intimamente interligados. Os que se dedicam aos estudos da Lingüística e da Simbologia

reconhecem a interligação85 entre a força da palavra e os mistérios. Essa realidade é aceita

enquanto afeta os sentidos e as formas de percepção. Além do que recebemos, pela tradição

mística de nossos ancestrais, que a relação de força contida na palavra tem origem divina, na

medida em que tem origem no Verbo enquanto Logos (idéia), revelado pelo Evangelho segundo

João como sendo o próprio Deus.

Palavra vem do grego logos, e traz da Antigüidade Clássica o significado da idéia contida no

designativo que identifica o ser, a ação ou a entidade a que se relaciona. O logos, enquanto palavra e

designativo, tem a função de revelar o ser, seus movimentos ou estados, independentemente do idioma em

que é expressa.

Peirce distingue três elementos no processo de conscientização: sentimentos, com o

significado de elementos de compreensão; esforços, como elementos dinâmicos que

dimensionam a extensão; e noções, como elementos que informam as relações entre compreensão

e extensão. Pode-se verificar quanto a força de uma promessa ou de uma palavra empenhada nos

projeta no eixo dos tempos amarrados aos compromissos, obrigando- nos pelo passado, no

presente e para o futuro. Há palavras que prendem, subjugam ou libertam. Outras que humilham,

reduzem ou agridem. E também há as que enriquecem o espírito, agradam, exaltam, enobrecem e

universalizam.

Há milhares de anos o ser humano ensaia meios para desvendar o futuro. Nesses milênios procurou

manter-se em contato com forças supostamente misteriosas que, agindo nos campos do conhecimento, restam

envoltas no mys desconhecido, tentando identificar entre tribos e nações, vínculos de forças físicas, morais,

culturais e espirituais, cuja intensidade, direção e sentido não tem conseguido definir ou dimensionar. Recorre

a idiomas, sinais gráficos e a variadas formas de escritas. Codifica formas de pensar e de comunicação.

Estabelece padrões visando determinar o curso do tempo. Assinala períodos e durações em que situa as

verdades retrógradas referidas por Bergson86. Simboliza os movimentos dos astros mais próximos, figurandoos

nos Signos do Zodíaco87. Avança no infinitamente pequeno e projeta-se para o infinitamente grande. Nesse

processo de seleção intelectiva assimila crenças e esboça justificações. O ser humano propõe-se acreditar que,

via desse processo ininterrupto, tem progredido e desvelado mistérios.

O arcabouço sobre o qual o intelecto humano trabalha e produz, cria e destrói, está vivo e

em contínuo processar de movimentos, mediante o ajuste de informações.

Os mecanismos que movimentam e animam o pensar humano seguem normas e regras

próprias que, por algum meio não totalmente identificado, quiçá por sinais codificados em

campos de memória que transcendem os estados de consciência, excitam, evocam e transportam

nas palavras idéias e imagens. Guiados pela intuição e recorrendo ao misticismo que nos é

inerente, como seres humanos, queremos alcançar a Verdade. Procuramos localizá- la em algum

lugar do Universo ou encontrar algum ponto válido que nos sirva como referência. Recebemos o

impulso cuja origem nos é desconhecida, que nos faz sair audaciosamente, tanto pelo mundo

85 Charles Peirce, Sigmund Freud, Carl Jung, Heidegger, Wittgenstein e tantos mais.

86 BERGSON, Henri. Oeuvres. L’âme et le corps. Paris:Pléiade. 1963, p. 836 e seguintes.

87 A formulação dos Signos do Zodíaco tem origem nas culturas mesopotâmicas. É, por alguns, atribuída a Zoroastro (também chamado

Zaratustra). Zoroastro, segundo alguns historiadores, teria vivido cerca de 5.000 a.C. e, conforme outros, por volta de 600 a.C.



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físico quanto pelos espaços imaginários, lançando mão de concepções, referentes ao abstrato e ao



concreto, e formulando construções hipotéticas meramente intelectivas.

O objetivo mais próximo é indicado pelo conjunto de símbolos memorizados ao longo da

existência, no limitado contexto de idiomas, palavras e linguagens. Nesse repertório estão

contidos os pontos de luz que anunciam a possibilidade do conhecimento discursivo, e, inclusive,

a existência de uma suposta linguagem comum fundamental, perdida ao longo de evoluções e

involuções sugeridas pela história da civilização. A memória humana procura registrar seus

arquivos nos bancos da História. A memória das pessoas está registrada nos campos

eletromagnéticos cuja central de atuação está no cérebro.

A linguagem escrita, quer tenha sido gravada em papel ou pedra, integra o conjunto

memorizado e documentado em que a humanidade tem registrado o que lhe parece importante.

Buscar o significado dos sinais que encontramos, assim como grafar o que queremos comunicar

aos pósteros, faz parte da atividade humana.

Sinais imprecisos, tanto como a linguagem imperfeita ou incompleta, suscitam mistérios.

E o misticismo se incumbe de transmiti- los, revelá- los ou torná-los mais obscuros. Na realidade,

quando nos aproximamos das questões referentes à precisão da linguagem visando apurar o

significado contido nas expressões verbais, podemos adjetivar de misteriosa a interferência

teórica da inteligência emocional. Recentes teorias sugerem contribuições decisivas das relações

neurofisiológicas nas decisões, ações e reações humanas.

Nesta linha, Daniel GOLEMAN, ao tratar da escala evolutiva da inteligência, entende

que:


... Com o advento dos primeiros mamíferos vieram novas e decisivas camadas (de células) chave do

cérebro emocional. Estas, em torno do tronco cerebral, lembravam um pouco um pastel com um pedaço

mordido embaixo, no lugar em que se encaixa o tronco cerebral. Como essa parte do cérebro cerca o tronco

cerebral e limita-se com ele, era chamada de tronco "límbico", de limbus, palavra latina que significa

"orla". Esse novo território neural acrescentou emoções propriamente ditas ao repertório do cérebro.

Quando estamos sob o domínio de anseios ou fúria, perdidamente apaixonados ou transidos de pavor , é o

sistema límbico que nos tem em seu poder. À medida que evoluía, o sistema límbico foi aperfeiçoando duas

poderosas ferramentas: a aprendizagem e a memória. Esses avanços revolucionários possibilitavam que um

animal fosse muito mais esperto88 nas opções de sobrevivência e aprimorasse suas respostas para adaptarse

a exigências cambiantes, em vez de ter reações invariáveis e automáticas89...

W. PEPPEREL-MONTAGUE afirma que o ...misticismo é a teoria que sustenta que a



verdade pode ser alcançada por certa faculdade de intuição, superior a nossa razão e sentidos.

Destarte, parece- nos justo afirmar que misticismo contém o significado de doutrina,



teoria, procissão que encaminha as celebrações religiosas induzindo os crentes para o encontro

da Verdade. Conseqüentemente, deve ser entendido como método de abordagem ou aquisição de

informações ou conhecimentos. Mas, também, podemos entender o misticismo como um nível de

realidade intelectual em que se processam crenças e conhecimentos que não encontram

viabilidade nem coerência com pensamentos formulados em outros níveis tais como racional e

empírico.

Quando aceitamos o misticismo como um método que lida e trabalha com os mistérios da

vida podemos entender como é importante utilizá-lo. Sabemos que nada sabemos, portanto,

diante de nossas formas de pensar, tudo é passível de dúvida enquanto parece misterioso.

88 A expressão mais esperto suscita diferentes sinais quanto ao conteúdo. Expertus,a,um pertence à categoria gramatical dos adjetivos latinos, de

1.ª classe. Deu em português o adjetivo esperto, carreando vários significados: que tem experiência, que experim entou, que ensaiou. Traz o sinal

de atento, inteligente, fino, arguto, enérgico, ativo, vivo. Mas é usado também com significado pejorativo, como espertalhão, aquele que age

por fora ou acima das regras, aproveitando-se de vantagens além das usuais.

89 GOLEMAN, Daniel. Inteligência emocional. Rio de Janeiro: Objetiva Ltda,72.ª ed. s/d. p. 25.



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