Hagiografias na 'História dos Francos' de Gregório de Tours



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BIBIANI, Daniela - UFF

hagiografias na 'História dos Francos' de Gregório de Tours

História dos Francos é uma obra literária composta por Gregório Tours (~538-594) no século VI na Gália sob a vigência dos reis merovíngios.

A obra é formada por Dez Livros que por sua vez se compõem em diversos capítulos. Ela combina a história dos reinos francos e de seus governantes com a história da Igreja e da cristianização da Gália.

Apesar de não ser propriamente uma obra hagiográfica ela espelha a intenção do bispo Gregório em reconstituir a vida dos santos e mártires na divulgação da fé e dos valores cristãos. Ao narrar a vida dos santos ele procura cultivar exemplos que pudessem favorecer e fundamentar o cristianismo frente a população que lhe estava em sua diocese. Sua pregação tentava alcançar aos heréticos, aos pagãos, aos maus e bons cristãos, enfim a comunidade em geral e muito particularmente os reis francos.

A respeito das histórias dos santos em "Historia" Gregório não faz um relato único e direto. Ele segue uma cronologia por certo, mas não necessariamente uma ordenação temática. À medida que os fatos vão se desenrolando na narrativa, ele os vai contando, sem que haja uma preocupação em esgotar os assuntos de uma só vez. Deste modo muitas vidas são contadas em um capítulo e seu seguimento se encontra em muitos capítulos adiante.

Muitas vezes essas histórias eram contadas durante a liturgia das missas. Os textos eram lidos ou apresentados em forma de sermões, já que a narração oral constituía em importante via de informação e esta circulava quase que exclusivamente graças ao contato pessoal e direto.

Na Alta Idade Média a tarefa principal do pregador consistia em converter os pagãos á fé cristã e erradicar o resto dos antigos cultos pagãos. Através da narração de histórias exemplos como eram a dos santos esse propósito muitas vezes era alcançado com êxito pelos padres e bispos.
A Igreja demandava uma tutela sobre essa nova sociedade que se formava em solo gaulês. Com as particularidades próprias de cada cultura aí fixada: dos germanos e dos romanos .

Ora, não ocorreu uma cristianização imediata com a conversão de Clóvis. É errôneo pretendermos que o particularismo étnico germânico desapareceu com a unificação do reino franco.

Encontramos vários níveis de cristianização na Gália merovíngia. A parte mais romanizada ao sul, e portanto mais cristã, contrapõe-se com o norte, onde o paganismo germânico ainda era muito enraizado.

A Igreja concentrou seus esforços em evangelizar essas comunidades que então se encontravam em um mesmo território. Muitas vezes ela atuou divulgando as práticas cristãs através de hagiografias.

Diversas vidas de santos são narradas em "Historia". Todas servindo ao propósito de divulgação da doutrina cristã.

Nesta comunicação, não sendo possível contemplar todas essas vidas, optei por ilustrar a respeito de são Martinho - uma figura de extrema importância no processo de evangelização da Gália. Além do que ele foi bispo de Tours e exerceu uma grande influência no episcopado e junto aos reis. Portanto, meu objetivo, é ater-me essencialmente ao relato de Gregório e mostrar como a imagem do santo influenciou as condutas e comportamentos da sociedade na Alta Idade Média principalmente após a sua morte no século IV (~316-397).

Particularmente encontramos na historia da vida dos santos alguns elementos importantes que configuram um "retrato do santo"; ou como ser santo. Existia uma certa constância em certos atributos hagiográficos. O milagre sem dúvida estava entre eles. O homem santo operava milagres; não apenas um, mas vários; não apenas durante a sua vida, mas depois de sua morte.

Os milagres ganham adesão da população. É um mecanismo regularmente repetido onde o sobrenatural, ou, pelo menos, o invulgar aparecem para comprovar, dar veracidade a santidade. A prova pelo milagre define em primeiro lugar, sem dúvida, os próprios seres extraordinários, que são os santos.


A importância de Martinho é fundamental para a compreensão da propagação cristã na Gália, principalmente nos campos. A cidade de Tours no século IV passou a ser um pólo de irradiação da fé cristã. Eleito bispo de Tours em 371, ele levou seu apostolado para o meio rural, visto o cristianismo estar ainda limitado à cidade episcopal.

São Martinho é mencionado no Livro Primeiro (XXXVI) de "Historia". Três capítulos depois Gregório escreveu "...novos raios luminosos clareiam a Gália, foi o tempo onde o muito bem-aventurado Martin começou a pregar nas Gálias..." antecipando as profundas transformações decorrentes da obra de Martinho.

No decorrer do século IV, o norte da Gália ainda estava em processo de cristianização, sobretudo nos campos onde o paganismo persistia. Existiam apenas comunidades isoladas e a autoridade dos bispos não ultrapassava muito a muralha da cidade. São Martinho optou por pregar fora da cidade e, assim, percorreu os campos com a intenção de tentar apagar os vestígios pagãos e batizar catecúmenos. 1

Martinho e seus milagres impulsionaram a vida cristã na Touraine.2 A região foi adquirindo um grande número de igrejas rurais. Estas primeiras Igrejas foram construídas ao longo das antigas estradas romanas. As populações que haviam se dispersado com as turbulências ocasionadas pelo desaparecimento do Império Romano, pouco a pouco se concentravam em torno das Igrejas recém-construídas. À medida que o cristianismo se difundia, as Igrejas multiplicavam-se e constituíam-se nos lugares mais freqüentados e seguros, nas proximidades das grandes vias de comunicação.

A cidade de Tours desenvolveu-se ainda mais após a morte de Martinho. No cemitério dos cristãos, próximo à margem do rio Loire, ele foi enterrado, juntamente com São Gaciano.

A morte de são Martinho gerou litígio entre os habitantes de Tours e Poitiers (cidade de outra circunscrição episcopal). Na ocasião São Martinho se encontrava em Candes (entre os rios Loire e Vienne) e veio adoecer. Com a sua morte os habitantes da Touraine e do Poitou passaram a reivindicar o corpo do santo. Não chegando a um consenso, ambas as partes resolvem velar o corpo na cidade em questão. Quando chega a meia-noite os habitantes de Tours percebendo que os outros dormiam pelo chão resolvem levar o corpo do santo. Sustentando-o por sobre os ombros, passam-no pela janela; seguem pelo rio em uma embarcação e chegam a Tours, onde então o corpo é acolhido em grande solenidade.

A tumba de Martinho, desde a primeira metade do século V foi honrada e cercada por multidões e tornou-se, em 472, numa basílica monumental acompanhada de um batistério. Desde então as acomodações destinadas a abrigar os peregrinos e a alojar os mercadores cresceram em volta das igrejas. Os estabelecimentos religiosos proliferaram nas proximidades do túmulo de Martinho. Poucas cidades na Gália do Norte possuíam tantas igrejas nos arredores e dentro de suas muralhas.

A partir do século VI, outros estabelecimentos religiosos também se desenvolveram em função do prestígio do santo. E assim fundaram-se mais Igrejas, oratórios, hospícios e hospitais. Em 578, foi construída uma abadia de uma certa importância em homenagem a São Julião de Brioude do qual Gregório era devoto. O próprio bispo encarregou-se de mandar trazer relíquias do santo para colocar no novo edifício - um indício do avanço do culto dos santos e de suas relíquias na Gália.

O corpo e a capa do “evangelizador das Gálias” atraíam os romeiros em verdadeiras peregrinações. Depois de sua morte, a conservação de sua capa passou a ter um valor simbólico e fez de Tours um dos santuários mais venerados de toda a Gália. O dia de sua morte - do seu natalício - tornou-se parte do calendário litúrgico cristão e uma multidão de devotos encaminhavam-se para o seu santuário com a intenção de realizar seus pedidos, vendo e tocando as relíquias do santo.

Os bispos serviam-se do crescimento do culto dos santos e de suas relíquias para combater o paganismo. O próprio Gregório corroborou com esta difusão e incentiva os seus fiéis a magnificar a figura de Martinho que era venerada tanto pela população quanto pelos reis. Gregório relata-nos sobre reis e rainhas que distribuíam esmolas em seu nome.

Clóvis foi a Tours rezar no seu túmulo antes da sua campanha contra os visigodos. O rei franco então publicou um édito que estabelecia que, por respeito a são Martinho, ninguém poderia pilhar a região de Tours. Um de seus soldados, contudo, agride um pobre. O rei ao saber manda mata-lo com um golpe de espada e se justifica dizendo: "como esperar a vitória se nós ofendemos a são Martinho?"

Quando enfim este rei vence os visigodos ele retorna a Tours e oferece numerosos presentes a Basílica de são Martinho.

A legislação canônica e “A História dos francos” refletem a preocupação com a difusão do culto dos santos e das relíquias. O projeto da Igreja esbarrava muitas vezes com o poder régio. Ora, a Igreja se valeu muitas vezes da proteção dos santos e de são Martinho para conter as investidas da aristocracia.

Esse mecanismo foi essencial para o episcopado. Assegurou muitas garantias como a isenção de impostos.

Clotário, filho de Clóvis, ordena que as Igrejas do reino pagassem a terceira parte de seus recursos ao fisco. Ao que parece todos os bispos teriam-no atendido com profundo receio, excetuando o bispo de Tours, Injuriosus. Este disse ao rei: " se tu quiseres tomar os bens de Deus, o Senhor te tirará rapidamente teu reino porque é injusto que ao deveres alimentar os pobres com teu celeiro, são os teus celeiros que se enchem dos cereais deles." Mas o rei "temendo a virtude milagrosa de são Martinho enche o bispo de presentes, pede-lhe perdão e desfaz sua ordem".

Percebemos daí um diálogo Igreja-aristocracia que permitiu muitas vezes certos benefícios. Mas estes não ocorriam sempre dada a prevalência dos costumes germânicos. A instabilidade gerada pelos pode político dos soberanos merovíngios gerava também na Igreja incertezas que ela conseguia enfrentar a duros percalços.

Gregório freqüentemente retrata as guerras que eclodem em território franco. Sua preocupação parece legítima já que o caos ocasionado com essas guerras interferiam diretamente na Igreja e nos seus domínios.

Gregório tenta evitar esse caos a todo custo. Os exércitos sequiosos de pilhagens e riquezas muitas vezes invadiram a região de Tours. Incendiavam os campos e matavam os camponeses e habitantes das cidades.

Nada mais natural do que divulgar entre as classes dirigentes as virtudes sobrenaturais do santo, inclusive através da iconografia retratando-se o santo a cavalo cedendo sua manta a um pobre.

Muitas vezes a paz também ocorria por intermédio do santo. Muitos milagres consubstanciados com acontecimentos sobrenaturais, tremores de terra e grandes tempestades anunciavam períodos de paz e fartura.

Além dos já mencionados percebemos também outros benefícios, como um aumento dos bens fundiários da Igreja. Muitos domínios aristocráticos eram transferidos para a Igreja por via testamentária ou mesmo por doação durante a vida.

Os reis fundavam ricos monastérios, cedendo aos monges vastos domínios. Isentando-os de muitos impostos. .A rainha Clotilde, o rei Clotário e muitos outros dotaram de riquezas a Igreja. Clotilde morreu em Tours, onde podia estar perto das relíquias e do corpo de são Martinho.3 Clotário mandou restaurar a Basílica de Tours por ocasião de um grande incêndio que acometeu a cidade. Ele mesmo, um pouco antes de sua morte, foi a Tours pedir perdão por seus erros do passado. No túmulo de são Martinho ele pediu a intercessão do santo junto a Deus por suas faltas.

Tamanha foi a repercussão de são Martinho que nos tempos posteriores ele continuou a ser invocado como grande representante da fé cristã. Não só da Gália, mas de outras regiões- como a Espanha- muitos vinham para glorificar e honrar Martinho.

Desta importância a Igreja soube cultivar e propagar o rito de santidade. Assim podemos perceber que o culto aos santos foi muito apreciado, não só pela comunidade próxima, mas pelos príncipes. Mais do que uma questão de fé tornou-se um importante mecanismo da Igreja para conter as ameaças que provinham do meio laico. Ela se utilizou fartamente desta ritualística e no que concerne também ao discurso escrito através dos exempla encontrados nos diferentes gêneros literários como "Historia dos francos".




1 Em Marmoutiers, um mosteiro foi erigido , em 372, sob sua orientação com este objetivo.



2


3 A rainha depois foi transferida a Paris em grande cortejo de cantos onde foi enterrada.

X Encontro Regional de História – ANPUH-RJ



História e Biografias - Universidade do Estado do Rio de Janeiro - 2002



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