Hamartiologia clgt



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ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ENSINO, CULTURA, ASSISTÊNCIA E RELIGIÃO

HAMARTIOLOGIA - CLGT


Leandro Tarrataca
INTRODUÇÃO

Vivemos numa época em que apenas o que é positivo e agradável deve ser publicamente tratado. Parece que o único sentimento possível na comunidade cristã é o da alegria, como se a tristeza não fosse sentimento legitimo. Talvez por esta razão, a doutrina do pecado seja negligenciada, falar do pecado e suas conseqüências, como por exemplo a maior delas, a morte, é de certa forma silenciar o ambiente com a penumbra da triste realidade: Somos pecadores. Inegável no entanto, a realidade do ensino claro das escrituras a respeito do pecado. De fato, esta informação torna a revelação bíblica ainda mais especial, visto que esta nos leva até mesmo ao "tempo" em que o tempo não existia para nos revelar por exemplo o pecado de Lúcifer. Assim como nos leva nos primórdios quando o primeiro casal pecou, Adão e Eva. Não podemos perder o foco, de que a razão porque o texto sagrado nos apresenta a realidade do pecado, tem por objetivo nos levar a viver de maneira piedosa e não simplesmente saciar nossa fome de conhecimento.

1Co 10:8-10.
A NATUREZA DO PECADO

Não se pode numa definição esgotar todas as possibilidades sobre qualquer assunto, especialmente um tão vasto quanto o pecado. Por outro lado, definições nos ajudam em nossa compreensão. É praticamente consenso que Amartia é termo derivado de uma raiz que indica “errar o alvo”, “fracassar”. Trata-se do fracasso em não atingir um padrão conhecido, mas antes, desviando-se do mesmo. Essa palavra, porém, veio a ter também um significado geral, indicando o principio e as manifestações de pecado, sem necessariamente dar qualquer atenção ao seu significado original.


O que não é o pecado

  1. Não é um acidente. Romanos 5:12, o pecado foi um ato de desobediência responsável por parte de Adão.

  2. Não é mera debilidade humana, e por isso o homem não deve ser responsabilizado. Jr 17.9 diz que não somos apenas vítimas indefesas e tristes, o homem é responsável por seus atos.

  3. Não é ausência do bem. Rom 7:14 - A religião falsamente denominada de ciência cristã, afirma que o pecado não existe é apenas a ausência da retidão. Na verdade o pecado existe e é uma ofensa a pessoa e o caráter de Deus.

  4. Não é imaturidade. 1 Jo 3:4 O pecado não pode ser desculpado como sendo apenas imaturidade.

O que é o pecado

    1. Estar destituído da glória de Deus. Rom 3:23. À natureza carnal do homem é atribuída fraqueza (Rom 8.3,4), o que significa simplesmente sua incapacidade para atingir o padrão divino.

    2. Omissão do dever. Tg 4.17. Ainda que hipoteticamente não pratiquemos todo o mal que poderíamos, quando não praticamos todo o bem que deveríamos também pecamos.

    3. Declínio espiritual. Jr 14.7.

O declínio espiritual ocorre quando nossa alma se distancia de Deus, distância esta que nas Escrituras é identificada como pecado e a iniqüidade. (Is 59.1,2).


Consideremos algumas posições dedutivas e não bíblicas no que tange a definição do pecado.

1. Definições não Bíblicas.



    1. Soren Kierkegard: O pecado é a tentativa fútil de se resolver a tensão humana através de meios inapropriados, ao invés de aceitá-la de modo pessimista ou, no modo cristão de pensar, voltar-se a Deus. 1

    2. Paul Tillich: a existência humana é um estado pecaminoso porque as pessoas estão alienadas da base da realidade (“deus”) e uma das outras, mutuamente.

    3. Ciência Cristã, Induísmo, budismo, etc...O pecado e o mal não são reais, apenas ilusões que podem ser vencidas pela percepção correta.

    4. Evolutivo: O pecado é “resíduo” não evoluído de características animais primitivas como por exemplo, a agressão.

    5. Teologia da Libertação, ou esperança: O pecado é a opressão de um grupo da sociedade por outro.

    6. Dualísmo: Forças opostas, porém iguais se digladiam, isto é deuses do bem e do mal.

    7. Teologia processual: “deus” está em evolução, inclusive moral, e o mundo sofrerá males até que o lado “bom” da natureza divina controle o lado “escuro”.

    8. Ateísmo: O mal é meramente uma probabilidade de um cosmos sem Deus. O pecado não existe, a ética é apenas uma questão de preferência.


Definições Bíblico-teológicas:

O pecado é um ato e um estado da vontade pessoal contra Deus e a vontade de Deus. O pecado origina-se da totalidade da pessoa arraigada em e relacionada com aquilo que transcende a pessoa, expressa se na complexidade da força e da fraqueza da pessoa, e resulta na distorção de todas as relações pessoais.


O objeto do pecado

O pecado tem a ver com Deus; ele é contra Deus. Se não houvesse uma relação com Deus, não poderia existir pecado. Os escritos bíblicos apresentam unanimidade nesse ponto. A criação em termos morais aponta para O Deus que se encontra por trás do 1 mandamento. Ainda é lícito falar em lei, mas não mais num sentido puramente formal ou jurídico. Em uma compreensão meramente objetiva, a ênfase é colocada num fracasso efetivo no desempenho e, por isso, numa reparação. A compreensão moral fundamenta o apelo à lei na autoridade incondicional Deus do pacto, do qual, em princípio, não se pode isolar nenhuma esfera vida. Por isto o conceito de Aliança, ou Velho testamento e Novo testamento, são tão importantes.

A percepção da presença de Deus com sua vontade pessoal, estava por trás da constante luta dos profetas para resistir à erosão do povo de Israel por meio do pecado. De forma semelhante, no Novo Testamento o pecado é compreendido como se opondo a Deus e a Cristo (Mt 10.33; 11.20,24; 12.28-32; Jo 15.18,23-25) e ao Espírito Santo – 3.28-29). No sentido mais fundamental, o pecador age deseja como se não existisse Deus; O pecado como pecado “contra Deus”- é uma unidade simples: ele abrange uma grande diversidade da dinâmica humana. O pecado pode ser descrito como recusar a Deus o temor e a confiança que Deus merece. Paulo descreve da seguinte maneira o problema “Tudo que não procede de fé é pecado”.

Se o pecador se volta contra a Deus, então ele se volta a favor de que? Esse algo pode se encontrar fora da pessoa, gerando o fenômeno da idolatria, condenado em amos os testamentos. A realidade do pecado não pode ser desvinculada do resto da humanidade. O decálogo invoca Deus ao proibir pecados contra o próximo, é o desprezo, o descaso para com Deus que leva o homem ao pecado. (2 Sm 12:10).2

O pecado é deixar de se conformar à lei moral de Deus seja em ato, seja em atitude, seja em natureza. O pecado é definido em relação a Deus e sua lei moral. Inclui não só atos individuais como roubar, mentir ou cometer homicídio, mas também atitudes contrárias àquilo que Deus exige de nós. Percebemos isso já no Decálogo, neste, ações pecaminosas são proibidas, mas também atitudes errôneas: Ex 20: 17. “Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo.”

Deus deixa claro que o desejo de roubar ou cometer adultério é também pecado aos olhos dele. O sermão do monte também proíbe de forma incisiva atitudes pecaminosas, Mt 5:22; 28.

Da mesma maneira Paulo inclui atitudes como ciúme, raiva e egoísmo (Gal 5:20). Portanto, a vida agradável a Deus é aquela que exibe pureza moral não só em atos, mas também em desejos íntimos. De fato, o maior de todos os mandamentos exige que nosso coração se encha de uma atitude de amor a Deus: (Mc 12.30).

“Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento, e de todas as tuas forças; este é o primeiro mandamento.”

Assim podemos dizer que o pecado é não se conformar à lei moral de Deus não só ema to e em atitude, mas também em natureza moral. Nossa própria natureza, o caráter íntimo que é a essência daquilo que somos, pode também ser pecaminosa. Antes que fossemos remidos por Cristo, não só cometíamos atos pecaminosos e tínhamos atitudes pecaminosas, mas também éramos pecadores por natureza. Observe:

Rom 5:8 “Sendo nós ainda pecadores”

Ef 2:3 “éramos, por natureza, filhos da ira”

“Assim o descrente, mesmo dormindo, mesmo que não cometa atos pecaminosos, mesmo que não nutra atitudes pecaminosas, é ainda “pecador” aos olhos de Deus; visto que sua natureza não se conforma com a lei moral de Deus.” 3

Digno de nota que as definições bíblicas quanto ao pecado estão relacionadas diretamente a inconformidade com a lei moral de Deus.
1Jo 3.4; Rom 2:17-29; (lei escrita ou gravada no coração)

O pecado, portanto, em essência contradiz tudo o que é de excelente no caráter moral de Deus, Sua santidade, por esta razão Deus tem de detestar o pecado. Hab 1: 13.

Millard Erickson apresenta a seguinte definição: “Pecado é qualquer falta de conformidade, ativa ou passiva, com a lei moral de Deus. Isso pode ser uma questão de ato, de pensamento ou de disposição.” 4

Assim podemos considerar o pecado como sendo:



  1. Inclinação interior. (Mt 5:21,22, 27,28)

  2. Desobediência. (Rom 2:14,15)

  3. Cumprimento parcial. (1 Sm 15:23) (Ver ainda, boas ações externas com motivação errada, Mt 6:2,5,16).

  4. Idolatria. Colocar outra coisa, qualquer no lugar que pertence a Deus (Ex 20.3; Mc 12:30). A essência do pecado pode ser vista como a idolatria.

Ryrie conclui nos seguintes termos:

Certamente a principal característica do pecado é que ele é direcionado contra Deus. (Isso também ser expresso em relação a lei de Deus.) Qualquer definição que deixe de refletir isso não é bíblica. O lugar-comum que considera os pecados divididos em categorias, como pecados contra a pessoa, contra os outros e contra Deus, acaba não enfatizando que, no final, todo pecado é contra Deus (Sl51 :4; Rom 8:7).”

V.A. Lucas 15:18.

Classificação:

É importante considerarmos as diferentes “linguagens” sobre o pecado e também as diferentes classificações. Como Chafer apresenta:

O “pecado” é um termo religioso, inteligível somente na esfera da experiência do pensamento religioso. O “mal” é um termo filosófico, e denota toda condição, circunstância, ou ato que, em qualquer maneira ou grau, interfere com a perfeição completa ou com a alegria do ser, seja físico, metafísico ou moral. O “mau habito” é um termo ético; é o mal moral interpretado como uma ofensa contra o ideal ou contra uma lei dada na natureza do homem: é uma mancha ou nódoa deixada pelo abandono da natureza. 'Crime' é um termo legal, e denota uma violação aberta ou pública da lei que uma sociedade ou estado estruturou para a sua própria preservação e para a proteção de seus membros. Mas o pecado difere destes neste aspecto: eles podem estar bem num sistema que não reconhece a Deus, mas sem Deus não pode haver pecado.”
O pecado é, em última análise, uma ofensa a Deus.
Classificação:


  1. Transgressão, que é o desvio para um lado, ou ultrapassagem daqueles limites que Deus assinalou.

  2. Iniqüidade, refere-se àquilo que é totalmente errado.

  3. Erro, refere-se àquilo que desconsidera o certo ou quando erra o caminho.

  4. Pecado, o que falta com a verdade, que erra o alvo.

  5. Perversidade, a produção ou a expressão da natureza maligna, depravação.

  6. Mal, com referencia àquilo que é realmente errado, ao opor-se a Deus.

  7. Crueldade, ausência de qualquer temor de Deus.

  8. Desobediência, uma indisposição de ser conduzido ou guiado nos caminhos da verdade.

  9. Incredulidade, falta de confiança em Deus. “Sem fé é impossível agradar a Deus”. A incredulidade aparece como o único “pecado envolvido” que é um pecado universal. Os homens não têm pecados individuais, constantes e variados. Cada pessoa é caracterizada por sua falta de confiança em Deus (observe Hebreus 12.1,2), onde a única referência ao “pecado que tão de perto nos rodeia”, que é a ausência de fé da qual Jesus é o autor e o consumador.

  10. Rebeldia, que consiste no desprezo persistente da lei divina e na violação de todas as restrições até que o eu fique recompensado a despeito da admoestação divina. A passagem mais iluminadora é a de 1 Jo 3:4-10. Enquanto o descrente peca sem qualquer dor, o crente sofre tal qual Davi se referiu: Sl 32,3,4.


A ORIGEM DO PECADO

De onde veio o pecado? Embora imediatamente nossa mente se abra para especulações é importante filtrarmos os pensamentos, Deus não pecou e jamais poderia ser responsabilizado pelo pecado. Nosso Deus é santo, puro e justo.


Dt 32.4; Gen 18:25; Jô 34.10, Tg 1.13, Hab 1 :13

O texto sagrado claramente aponta a um evento distante e num certo sentido envolto em mistério, visto que as informações disponíveis são apenas suficientes e não exaustivas. Sabemos que uma criatura fora do comum, já estava envolvida com a iniqüidade a antiga serpente, o diabo (Ez 28:15, Ap 12:9; 20,2). O diabo tem andado pecando e assassinando desde o principio (Jô 8:44; 1Jo 3:8) O orgulho (1Tim 3.6) e a queda de anjos (Jd 6; Ap 12.7- 9) também se associam a essa catástrofe cósmica.

Assim, Satanás passou a ser o governador deste mundo (Jô 12.31); o líder do reino rebelde (Mt 12:26), o pai do povo rebelde (Jô 8:44), pai da mentira (idem), o maligno que se opõe a aceitação do evangelho (Mt 13.19), o inimigo que semeia Joio em meio a boa semente (V.39) e, portanto, aquele que usa as pessoas para que façam o que ele deseja.

Como o mundo se tornou o império de satanás, passou a também ser uma fonte para o pecado. (Jo 15:18,19). Da mesma maneira nos é ensinado que o homem também pecou (Gen 3), este pecado foi a porta de entrada para que o pecado se estendesse por todo o mundo, e a humanidade. Rom 5:12.

Como escreve Chafer:

A revelação com respeito ao santo caráter de Deus evita o pensamento de que qualquer forma de pecado poderia ter sido uma realidade ativa antes dos seres finitos serem criados e quando a divindade somente existia. A criação dos anjos e a posterior dos seres humanos, imediatamente geraram uma possibilidade para o mal se tornar um fato real; e isso aconteceu através da queda do anjos e da do gênero humano. Em tal contingência, Deus não é surpreendido nem derrotado. A sua determinação determinação de produzir a existência deles, e de lhes dar uma eternidade futura inclusa, assim como o seu propósito de testar e julgar as grandes questões morais, cuja consumação demonstrará a sua santidade infinita assim como a sua gloria e graça.”


Deus em cada situação sempre demonstrou ser santo, justo, e bom, pode ser implicitamente alvo de nossa confiança nas esferas que estão além da compreensão humana. A revelação divina nos apresenta a questão da queda e do pecado quanto ao seu vinculo com a humanidade por meio de Adão e Eva conforme registrado no livro de Ge 3.1- 19. O ato de comer da arvore do conhecimento do bem e do mal é, em muitos aspectos, típicos do pecado em geral:

  1. O pecado atingiu a base moral do conhecimento. Uma resposta diferente da devida foi dada a questão “O que é verdadeiro”? Deus dissera que Adão e Eva morreriam se comessem da Árvore (Gn 2:17). Mas a serpente sugeriu que seria certo comer do fruto e que ao comê-lo Adão e Eva se tornariam “Como Deus” (Gen 3:5). Eva confiou na sua própria avaliação do que era certo e do que seria melhor para ela, negando às palavras de Deus a prerrogativa de definir o certo e o errado. Ela viu “que a árvore era boa para se comer, agradável aos olhos e árvore desejável para dar entendimento” e, portanto “tomou-lhe do fruto e comeu” (Gen 3.6).

  2. O pecado atingiu a base da identidade. Uma resposta diferente foi oferecida à questão: “quem sou eu”? A resposta correta era que Adão e Eva eram criaturas de Deus, dependentes dele e sempre subordinadas a ele, seu Criador e Senhor. Mas Eva, e depois Adão sucumbiram à tentação de ser “como Deus” (Gen 3:15), tentando assim colocar-se no lugar de Deus.

  3. O pecado não se calca na razão. Não faz o menor sentido que satanás pudesse se rebelar contra Deus na esperança de poder exaltar-se acima de Deus. Nem que Adão e Eva tenham pensado que poderia advir algum beneficio da desobediência às palavras do criador. Foram decisões insensatas. A persistência de Satanás na rebelião contra Deus, mesmo hoje, é ainda decisão insensata, como a decisão de qualquer ser humano de continuar num estado de rebeldia contra Deus. SI 14: 1; PV 10:23; 12.15; 14:7, 16; 15:5; 18:2) Embora algumas vezes as pessoas busquem apresentar razões pelas quais devem pecar, na verdade pecar é um ato que simplesmente não faz sentido. Seria como uma criança que abandona os pais para morar com uma pessoa perversa. Ou como o caso do camponês que encontrou uma cobra congelada de frio e colocou dentro da camisa próxima a seu peito para aquecê-la. Quando finalmente a cobra recobrou o animo picou mortalmente o camponês. Não faz sentido!


Como o pecado de Adão nos afeta?
A perspectiva Bíblica sobre o pecado:

O problema esta no fato de que os homens são pecadores por natureza e vivem num mundo em que as forças poderosas colaboram para sua vida pecaminosa. Como fato conhecido sabemos que todos temos certos desejos. Esses desejos não são necessariamente ilegítimos. De fato a satisfação de muitos desses desejos é indispensável para a sobrevivência do individuo ou da raça. Por exemplo, a fome é o desejo de comer. Sem a satisfação desse desejo, morreríamos. De modo semelhante, o impulso sexual busca satisfação. Caso ele permanecesse insatisfeito, não haveria reprodução humana e, portanto não haveria preservação da raça humana. Há situações em que a satisfação dos desejos não é apenas permitida é vital. Todo ser humano tem uma serie de desejos naturais que, embora bons em si, são áreas potenciais para a tentação e o pecado:



  1. O desejo de desfrutar de coisas. Quando este desejo extrapola as limitações próprias e naturais, passa a ser pecado. Qualquer satisfação indevida de um desejo natural é um caso de “concupiscência da carne” (1 Jo 2.16)

  2. O desejo de obter coisas. Há lugar de obtenção de posses na organização de Deus. Isto está implícito no mandamento de dominar o mundo (Ge 1.28) e em várias parábolas sobre mordomia. (Mt 25:14-30). Além disso, as posses materiais são consideradas incentivos legítimos para encorajar a diligencia. Quando no entanto, este desejo toma-se tão intenso que é satisfeito a qualquer custo, mesmo que seja explorando ou roubando os outros, degenera-se em “concupiscência” (1Jo 2.16).

  3. O desejo de fazer mais coisas. As parábolas sobre mordomia também retratam o desejo de realização como algo bom e próprio. Isso faz parte daquilo que Deus espera da humanidade. Quando, porém, essa ânsia transpõe as devidas limitações, sendo perseguida à custa dos outros, degenera-se na “soberba da vida” 1Jo 2:16.

Não aceitar esses desejos conforme constituídos por Deus é pecado.


O pecado Original

As Escrituras ensinam que o pecado de Adão afetou muito mais que a ele próprio (Rom 5.12-21); 1Co 15.21,22). Esta questão é chamada pecado original e postula três perguntas:



  1. Até que ponto,

  2. Quais meios,

  3. Em que base o pecado de Adão é transmitido ao restante da humanidade?

Qualquer teoria do pecado original precisa responder as três perguntas e satisfazer os

seguintes critérios bíblicos:

Solidariedade. Toda a humanidade, em algum sentido, está unida ou vinculada, como numa única entidade, a Adão (por causa dele, todas as pessoas estão fora da bem-aventurança do Éden; Rm 5.12-21; 1 Co 15:21,22).

Corrupção. Por estar a natureza humana tão deteriorada pela queda, pessoa alguma tem a capacidade de fazer o que é espiritual bom sem a ajuda graciosa de Deus. A esta condição chamamos corrupção total, ou depravação total. Isto não significa que as pessoas não possam fazer algum bem aparente, apenas que nada do que elas façam será suficiente para torná-las merecedoras da salvação. Rom 3:9-11.

A propósito vale destacar que tanto Calvino quanto Arminio concordavam neste ponto (embora nem todos seus seguidores tenham mantido o mesmo ensino). Outros textos que ensinam a corrupção humana são os seguintes:

(Romanos 7.7-24; Ef 2.3; Jó 14:4; Mt 7.17,18; Lc 6.43) Os humanos produzem filhos corruptos. A natureza corrupta produz filhos corruptos esta é a melhor explicação para a universalidade do pecado. Embora várias passagens nos apresente as crianças como humildes e com certa receptividade a coisas espirituais (Mt 10.42; 11.25,26; 18:1-7; 19:13- 15; Mc 9:33-37,41,42; 10:13-16; Lc 9:46-48; 10:21; 18:15-17), nenhuma passagem apresenta as crianças como não sendo corruptas. A triste realidade nos apresenta que até mesmo algumas crianças estavam endemoninhadas (Mt 15:22; 17:18; Mc 7:25; 9:17).

A pecaminosidade de todos é claramente demonstrada pela realidade da morte física (Rom 5:6-8, 10,14,17).


Assim podemos estabelecer:

  1. Culpa herdada: Somos considerados culpados por causa do pecado de Adão. (Rom 5: 12). V A Rom 5: 13, 14. Este texto indica que seus pecados não eram levados em conta como uma infração da lei, mas eles ainda assim morriam. O fato de que morriam é ótima prova de que Deus os considerava culpados com base em Adão, isto é afirmado novamente em Romanos 5:18,19. Aqui Paulo afirma explicitamente que pela transgressão de um só homem, “muitos se tomaram (grego katestathesan, também um indicativo aoristo que sugere ação concluída no passado) pecadores". Quando Adão pecou, Deus considerou todos os futuros descendentes de Adão como pecadores. Embora ainda não existíssemos, Deus, nos considerou culpados com, Adão. Essa idéia é compatível com a declaração de Paulo sobre Cristo (Rom 5.8) E claro que muitos sequer existiam quando Cristo morreu. Mas Deus assim mesmo nos considerou pecadores necessitados de salvação. Uma ilustração seria a seguinte: Imagine que todos fizéssemos parte de uma empresa, e que escolhesse-mos um advogado, Dr. Adão, para nos defender. Lamentavelmente, Dr. Adão perde a causa, quem perde com ele? Todos aqueles a quem Dr. Adão representava. Esta realidade pode ser expressa pelo termo técnico imputar, cujo sentido é: considerar pertencente a alguém, e assim fazer pertencer a esse alguém). Esta doutrina também é chamada de pecado original, isto quer dizer, que é original porque provem de Adão, é pecado porque a culpa e a tendência pecaminosa com que nascemos nos foi transmitida.

  2. Corrupção herdada: temos uma natureza pecaminosa por causa do pecado de Adão. É preciso que consideremos o fato de que temos uma culpa legal, ou judicial, que Deus nos imputa por causa de Adão nosso representante. Porém também herdamos a corrupção ou poluição de Adão. SI 51: 1-5. (Observação do contexto nos mostra que o problema não estava relacionado a qualquer desvio moral da mãe de Davi, mas a confissão de seu próprio pecado). Davi reconhece que nasceu na iniqüidade. VA Sl 58:3.

    1. Carecemos totalmente de bem espiritual. Toda parte de todo homem esta contaminada com o pecado. Rm 7.18; Tt 1.15; Jr. 17:9; Ef4:18. Note, que o não crente por conta de “freios” (sociedade em geral) e estímulos sociais (família etc...) produziram e produzem benefícios importantes em vários campos. No entanto, o homem não pode produzir nenhum bem espiritual que resolva seu relacionamento com Deus.

    2. Incapazes de fazer o bem. Por nossas próprias forças somos incapazes de nos aproximarmos de Deus (Rom 8:8). Não nos é possível produzir fruto que a agrade a Deus (Jô 15:5). A triste realidade do descrente é que ele não é agradável a Deus, posto que seus atos não vêm de fé (Hb 11:6). Paulo falou a respeito da morte espiritual dos descrentes (Ef 2:1,2); Jesus falou da escravidão do pecadores (Jo 8:34). Embora, do ponto de vista humano, as pessoas possam ser capazes de fazer o bem, Isaias faz uma dura afirmação (Isa 64:6; cf Rm 3:9-20). O incrédulo é incapaz de entender corretamente as coisas de Deus (1Co 2:14). Podemos entender que embora os homens sejam livres, dependem da ação de Deus para as coisas espirituais, por isso se alguém foi chamado ao arrependimento não deve endurecer o coração (Hb 3:7,8; 12:17). O arrependimento, o desejo de crer legitimamente, não é meramente humano, por isso não devemos endurecer o coração. Hb 3:15.

      1. Esperança para os que não creram.

Sabemos que bebes que morrem não têm nenhuma obra que tenha ofendido a Deus, isto é nenhuma obra consciente de rebelião ou iniqüidade. Deus conhece exatamente quando as pessoas se tomam responsáveis perante Ele. Bebes e crianças que morrem neste estado foram protegidas por Deus de cometerem tais atos. São pecadores, por natureza, mas o que os condenaria seriam suas ações. Deus julga os homens de acordo com suas obras (Ap 20:11,12), por esta razão em Jeremias 19:4; 7:31. Jó 3:16,17; Ecl 6:3,5; Dt 1:39; Jn 4:11, Is 7:16 (neste caso especifico cerca de 12 anos, no entanto não podemos afirmar que a bíblia ensine explicitamente uma faixa etária, a ênfase bíblica é sobre a capacidade de discernir, e este "amadurecimento" pode variar de uma criança para outra. Um exemplo que podemos utilizar foi a dolorosa experiência de Davi 2Sm 12.23. Embora não compreendamos plenamente todo este campo que sem dúvida carrega mistérios, podemos descansar no fato de que a justiça de Deus não exclui nem mesmo aqueles que sofram de um agravamento mental sério. Is 35:8 E ali haverá uma estrada, um caminho, que se chamará o caminho santo; o imundo não passará por ele, mas será para aqueles; os caminhantes, até mesmo os loucos, não errarão.
PECADOS QUE COMETEMOS

  1. Existem graus de pecados?

A questão é se existem pecados piores que outros, a resposta não pode, como em qualquer campo de estudo, ser simplista, assim a resposta será afirmativa ou negativa dependendo do sentido que se lhe dê, por exemplo:

a) No tocante a culpa. Mesmo aquilo que nos pareça um pecado leve, toma-nos legalmente culpados perante Deus, é uma ofensa a um Deus infinito e por esta razão, demanda uma punição infinita. Pense em Adão e Eva, Deus lhes havia dito que apenas um ato traria resultados terríveis como a morte (Ge 2:17). Paulo explica que daquela ofensa derivou o julgamento. Esta verdade “legal”, tocante a culpa permanece até hoje. GI 3:10; Tg 2:10,11. Assim, em termos legais todos os pecados são iguais, visto que nos tornam culpados diante de Deus.

b) No tocante a conseqüência. Deste ponto de vista existem pecados piores que outros, isto porque as conseqüências podem trazer mais danos individuais, sociais e espirituais. Isto é, há pecados que causam por assim dizer maior “desgosto” a Deus. Jo 19: 11; Ez 8:6; 8: 13; 8: 15. Jesus fez distinção entre expectativas maiores e menores Mt 5: 19; Mt 23:23. A lei Mosaica, revelada a Moisés por Deus, claramente distinguia entre pecados de “ignorância” e pecados intencionais Lv 4:2,13,22; o pecado não intencional era considerado pecado, mas sua conseqüência, isto é as penas impostas eram menores, porque o grau de desagrado a Deus era menor. Já as sanções para os pecados cometidos “atrevidamente” (Nm 15:30; vv27 -29), estes tinham penalidades pesadíssimas, até mesmo a pena capital. Grudem oferece o seguinte exemplo:

“Se eu cobiçasse o carro do vizinho, isso seria pecado perante Deus. Mas se essa cobiça me levasse de fato a roubar-lhe o carro, o pecado então seria mais grave. Se no ato do roubo eu lutasse contra o meu vizinho e o ferisse, (...) o pecado seria ainda mais grave.” O mesmo é verdadeiro se falamos de um líder cometendo um pecado e um novo convertido, pecado é pecado, mas as conseqüências e o grau de desprezar de Deus pode ser maior. (Tg 3:1; Lc 12:48).

É importante, considerar que embora a bíblia não faça distinção entre pecados “veniais” e pecados “mortais” como o faz a doutrina romana. Existem passagens que apontam na direção de punição física por causa de pecados cometidos. 1Jo 5:16,17. VA 1Co 11:30.
Conseqüências gerais do pecado


      1. Escravidão. Pecar não nos dá liberdade, nos escraviza, e nos prende num círculo de outros pecados. Caim, matou o irmão e em seguida mentiu para Deus. Paulo escreveu aos Romanos sobre os riscos do pecado Rom 6:17, o Cristão não deve se submeter ao pecado visto que o cristão é livre dele (Rm 8:2).

      2. Negação da realidade. O homem evita falar em morte, visto que esta é sua paga. Heb (:27, Rom 6:23. Querem “viver o momento”, porque negam a realidade, o cristão é consciente, tanto da morte quanto dos eventos escatológicos atrelados a volta de Cristo. Por isso, o Cristão não deve viver o momento, mas viver para a eternidade.

      3. Negação do pecado. Este foi o caso de Adão que ao invés de reconhecer seu caminho errado, preferiu mudar o foco da atenção para sua mulher (Gen 3:11,12). A tentativa comum de se eximir dos próprios erros é comum na vida daqueles que estão vivendo em pecado.

      4. Auto-engano. A pessoa busca enfatizar o erro do outro, para negar seu próprio problema, Jr 17:9; Os religiosos hipócritas dos tempos de Jesus colocavam sempre enfatizar o erro dos outros, Jesus lhes apresentou o que de fato deveriam fazer (Mt 7:3).

      5. Competição. Tg 4: 1,2.

      6. Indiferença. FI 2:3-5.

3. O que acontece quando um Cristão peca?

  1. No tocante a posição legal. Quando o cristão peca sua posição legal permanece a mesma. (Rom 8:1) A salvação se baseia exclusivamente na graça de Deus (Rom 6:23), e a morte de Cristo expiou todos os nossos pecados, passado, presente e futuros (1 Co 15:3), assim continuamos justificados (este assunto será discutido em maior profundidade em soterologia). Permanecemos filhos de Deus (1 Jo 3:2). O texto apostólico nos exorta a reconhecermos nossa realidade diante do pecado (1 Jo 1:8).

  2. Quanto a nossa comunhão. Esta é interrompida e nossa vida cristã é prejudicada bem como nossos relacionamentos. Deus continua nos amando, no entanto, devemos notar que nossos pecados:

    1. Entristecem o Espírito Deus (Ef 4:30)

    2. Trazem disciplina sobre nós (Heb 12:6; Ap 3:19)

    3. Incapacitam nos a frutificar (Jô 15:4)

    4. Desequilibram nos emocionalmente (1 Pe 2:11)

    5. Prejuízos eternos (1Co 3:12,15; 2Co 5:10).

4. O pecado e o falso cristão.

Embora o cristão não perca sua posição de justificação, adoção, filiação e continua sendo parte da família de Deus, é importante destacar que existem falsos cristãos.

(2 Co 11:26) Em viagens muitas vezes, em perigos de rios, em perigos de salteadores, em perigos dos da minha nação, em perigos dos gentios, em perigos na cidade, em perigos no deserto, em perigos no mar, em perigos entre os falsos irmãos;

(Gl 2:4) E isto por causa dos falsos irmãos que se intrometeram, e secretamente entraram a espiar a nossa liberdade, que temos em Cristo Jesus, para nos porem em servidão;

A mera associação com cristãos autênticos torna alguém tão cristão como uma barata em biscoito por se unir a eles. Uma conduta persistente de desobediência, ausência constante do fruto do Espírito (GI 5:22,23). Jesus denunciou que muitas enfrentariam um dia realidade de uma vida cristã falsa (Mt 7:23). O apostolo João apresenta o mesmo conceito em outros termos (1Jo 2:4,3:9) (quanto a divina semente é uma figura da nova natureza Jô 1:13; 2Pe 1:4). Assim, uma conduta contumaz, deliberada e crescente desobediência é forte indicação de que a pessoa em questão não é um cristão.

5. Listas de pecados



  1. Ex 20:3-17, São 9 pecados.

  2. 1 Co 6:9,10, 5 pecados.

  3. Rom 1:29-31,19 pecados.

  4. 1 Tim 1:9-11, 6 pecados.

  5. Col 3:5-8, 7 pecados.

  6. Gal 5: 19-21, 9 pecados.

  7. Mc 7:20-23,3 pecados.

Temos um total de 50 pecados e suas variações. Obviamente estas listas não são exaustivas, mas ilustrativas, no entanto, seja qual for o pecado ele não pode ser escondido.

Num 32:23, Pv 28:13.

Na história bíblica várias pessoas tentaram esconder seus pecados, Adão, Caim, Acã Davi, Ananias e Safira, talvez seria dispensável dizermos que todos falharam.
O REMÉDIO PARA O PECADO

O único remédio para o pecado é próprio Cristo e sua obra na cruz. Jô 1:29; 1Jo 3:5, Jer 2:22, Ef 1:7. Esta é a razão por que o homem necessita de um Salvador, pois é completamente incapaz de salvar-se a si mesmo.


Controvérsias:

Aurélio Agostinho (354-430 d.C.), embora tenha nascido num lar cristão, viveu uma vida dissoluta antes da sua conversão. Durante nove anos foi maniqueísta, vindo a se converter à fé cristã em 386 d.C., sendo batizado em 387 d.C. por Ambrósio, em Milão. Em 391 d.C. foi ordenado ao sacerdócio, sendo quatro anos mais tarde consagrado bispo coadjutor de Hipona. Porém, em pouco tempo morreria o bispo Valério, e Agostinho assumiria o seu lugar, como bispo de Hipona. Mas somente em 412 d.C., é que começa a controvérsia que dividiu definitivamente as opiniões dentro da Igreja.

Quando Pelágio se fez notar dentro da Igreja Cristã, Agostinho já era uma figura influente. Pelágio era um monge britânico que apareceu em Roma, por volta do ano 400 d.C., para refutar as doutrinas de Agostinho. Pelágio escreveu um comentário sobre as epístolas paulinas em 409 d.C. A sua posição teológica pode ser denominada de “monergismo humano”, e esta foi expressa de forma mais desenvolvida pelo seu principal discípulo Celestius. Esse “monergismo humano” de Pelágio é assim chamado porque para ele o poder da vontade humana é decisivo e suficiente na experiência da salvação. Sua célebre frase expressa claramente essa mentalidade, quando ele afirma “se eu devo, eu posso”.

A controvérsia entre Agostinho e Pelágio, se resumia em dois pontos teológicos: a liberdade (capacidade) da vontade humana (livre arbítrio), e na maneira como Deus opera sua graça. Quanto ao livre arbítrio, a discussão era se o ser humano é absolutamente capaz de exercer a sua liberdade, ou não. Agostinho ensinava e defendia a doutrina “do pecado original”, e os seus inevitáveis efeitos mortais sobre a vida de todos os descendentes de Adão. Pelágio, contudo negava tal contaminação, e afirmava a inocência da alma, como também a absoluta capacidade de escolha tanto moral, quanto espiritual. O pelagianismo foi condenado no concílio de Éfeso em 431 A.D.


Visão Seminal ou Federal de Adão

Evangélicos teólogos estão divididos quanto ao fato de se a imputação do pecado e sua corrupção deve-se a vias seminais ou federais. Se estávamos seminalmente em Adão e pecamos com ele, e por isso sofremos as conseqüências e culpa daquele pecado. Ou se Adão era nosso representante e por seu pecado todos caímos. Normalmente as posições estão relacionadas a questão da origem da alma. Os traducianistas pendem em direção da visão seminal, enquanto os criacionistas pendem em direção a visão federal.



1 Stanley Horton, Teologia Sistemática, CPAD.

2 Carl E. Braanten & Robert W. Jenson, Dogmática Cristã.

3 Wayne Grudem, Teologia Sistemática, Vida Nova.

4 Millard Erickson, Introdução a Teologia Sistemática, Vida Nova.



Faculdade Teológica A.B.E.C.A.R.



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