Helmara giccelli formiga wanderley



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NEM SANTO, NEM PECADOR: AS MUITAS FORMAS DE PRATICAR A FESTA DOS NEGROS EM POMBAL-PB (1920-1950)
HELMARA GICCELLI FORMIGA WANDERLEY

Universidade Federal de Campina Grande

helmaragiccelli@hotmail.com

A virgem disse

A lrmã nunca rezou

Nunca acreditou em ti

Toda vida blasfemou

Porém nunca de um rosário

Na vida se separou...
Manoel Pereira Sobrinho

Sábado, 1940, véspera da Festa dos Negros. A cidade nesses dias ficava agitada, “eu diria pe-ri-go-sa! Ficava muito movimentada! E sendo sábado da Festa do Rosário então!?!” (SOUSA, 2008).

Naquele dia os negros dos Pontões1 e os Congos2 circulavam pela cidade. Juntamente com os mesários da Irmandade do Rosário, dançavam, cantavam e bebiam por toda a cidade, coletando dinheiro para a festa3.

Realizada desde o final do século XIX, nas primeiras décadas do século XX, a “Festa dos Negros de Pombal” já era considerada por homens e mulheres dos diversos segmentos sociais um evento de grande importância. Na realidade,


Essa festa se tornou o maior acontecimento da cidade. Era a festa do ano! A mais chique de Pombal! Logo, era naquela ocasião que as pessoas, fossem ricas ou pobres, podiam mostrar suas roupas, a moda, sabe? A festa acontecia na frente da Igreja e dos lados, sabe? Havia barracas. As barracas da Igreja e as outras barracas. Nesse tempo, havia também os parques de diversões... e muita gente bonita e elegante. O povo daqui toda vida gostou de andar arrumado, na moda sabe? Até quem não podia, quem não tinha condições econômicas gostava de andar na moda. (...) Sim, e tinha também aqueles grupos folclóricos de negros. Os Pontões e os Congos que se apresentavam durante a procissão e na hora da missa. Até hoje eles se apresentam. (...) toda a vida foi muito freqüentada essa festa, aliás, ainda é (SOUSA, 2008).
Observe que o Sr. Raimundo faz referência às apresentações culturais dos grupos negros, como uma prática secundária naquela que era por excelência a “Festa dos Negros”, o que acontece talvez por desconhecimento das origens daquele festejo, o que é ainda muito comum na cidade de Pombal.

De fato, “toda vida foi muito freqüentada aquela festa”. Mesmo se tratando de uma festa de negros, é importante percebermos que tal prática era vivenciada por todos os pombalenses, o que ocorria por motivos diversos. Mas para além das sociabilidades, o depoimento do Sr. Raimundo Formiga de Sousa, alude para a inserção da Festa dos Negros no contexto da modernização que ocorria em Pombal.

Em 1944, a Sra. Francisca Dantas de Farias fez sua primeira visita a Pombal, o que ocorreu na semana da Festa do Rosário. Ela tinha 18 anos. Deixemos que ela nos conte sua experiência:
A primeira vez que eu vim a Pombal, quando eu cheguei fiquei assim deslumbrada! Era tanta coisa bonita que eu nunca tinha visto. A Igreja enorme, muito bonita. Vim logo numa Festa do Rosário, gostei muito. Nunca tinha visto uma festa... Agora ouvir falar? Ah, ouvi muito. O povo falava demais nessa festa. Falava que era muita gente, muito luxo, que o povo era muito arrumado. Eu tinha uma vontade de vir... mas não podia, papai não deixava. O povo era muito bem vestido. Quando eu vim para a festa fiz roupa nova, claro né? A festa era do lado de fora da Igreja. Tinha duas barracas, a azul e a encarnada, eu fiquei na encarnada, eu fiquei muito encantada, a barraca tinha o formato de navio e a azul era de avião, eu sei que por (sic) fora a gente via que era o navio e o avião (...) E tinha umas moças muito bonitas trabalhando. Só ficava nas barracas o povo mais ou menos. Parece que tinha uns leilões, mas eu não prestei atenção porque eu fiquei só passeando na praça, aquela comprida. Dali (sic) da Coluna do Relógio até perto da outra igreja [A Matriz de Nossa Senhora do Bom Sucesso], o povo passava a noite todinha subindo e descendo, só passeando. Sentindo o cheiro dos perfumes. Sentia! Ah, eu fiquei encantada. Nunca tinha visto coisa melhor! (FARIAS, 2008).
Nas palavras da nossa colaboradora é possível percebermos o caráter modernizante dessa festa, expresso na moda, no luxo, na multidão, enfim, nas práticas de consumos que aconteciam ali. Observe também que em nenhum momento nossa colaboradora fez referência aos festejos religiosos. Sobre a missa, a procissão, a resposta foi surpreendente:
Eu não lembro. Sei que passei a noite do sábado passeando, as meninas tudo namorando... e eu ali encolhida, não tinha namorado! Não ganhei nenhuma maçã do amor, nem rosa, nem nada. Não tinha quem desse. Eu só fui para a procissão no domingo à tarde. Mas o interesse do povo era a festa. Era um fanatismo medonho por festa. Ai tinha os Pontões, eu sei que eles entravam nas casas para pedir dinheiro ao povo, agora eu não vi não. Sim, e nas barracas tinha cerveja. Eu nunca havia tomado cerveja na vida. Ai tomei naquele dia, gelada! Deu uma dor de dente, parecia que o dente nunca tinha visto cerveja! (FARIAS, 2008)
Note nos relatos da Sra. Farias que o desejo e o encanto da Festa do Rosário dos Pretos estava especialmente nas práticas não-religiosas. Foi o tamanho da cidade e sua arquitetura que chamou a sua atenção. Depois a multidão, as roupas, os passeios, o cheiro, os namoros... as brincadeiras. Quanto à cerimônia religiosa, ela deixa claro, não era do seu interesse, como parecia não ser do interesse da maioria dos visitantes e dos pombalenses, fossem eles, dos grupos nomeados como populares, ou daqueles pertencentes aos grupos nomeados como elites.

Mas os relatos de memória dessa senhora nos informa que aquela festa era um momento não só de interações entre ricos e pobres, mas também de segregações4. A Festa da elite passava-se especialmente nas barracas da igreja, a azul e a encarnada. Barracas que eram como bem assinalou essa senhora, servidas e freqüentadas só por pessoas “mais ou menos”. Contudo, uma informação muito pertinente vem mostrar que essa divisão não era tão rígida e que outros conflitos perpassavam àquela festa. As barracas eram também motivos de discórdia entre os cidadãos pombalenses.


As barracas eram só da elite inicialmente. Com o tempo foi ficando mais fraca aí os pobres começaram a poder entrar, mas antes era só a nata da sociedade. Era um luxo. Nós passávamos o mês todinho preparando as coisas para enfeitar as barracas. Tinha a azul e a encarnada. Era uma divisão, a sociedade ficava dividida. Era uma rivalidade medonha, dava até briga. Titio [Otacílio] era da azul e nós [filhas de Sr. Mizinho] éramos da vermelha. Titio só faltava matar a gente. Aí nos dias de festa era aquela disputa pra ver quem arrecadava mais dinheiro. Aí as garçonetes éramos nós. Só tinha gente da sociedade! (CASTRO, 2009).
Mesmo que nossas colaboradoras afirmem que nos pavilhões da Igreja só os ricos podiam entrar, havia exceções, algumas moças de famílias humildes adentravam àqueles territórios que nem sempre as recebiam de bom grado. Também alguns homens pobres freqüentavam as barracas, claro, sempre que estivessem acompanhados de algum homem influente, como é o caso do jovem Raimundo de Sousa, que ainda que suas condições sócio-econômicas não permitisse seu acesso aqueles espaços, sua amizade com os filhos do Sr. Mizinho, o conduzia aos leilões das Barracas da Igreja, conforme afirmou o Sr. R. Sousa (2009). No entanto, o fato de estarem acompanhados tornava a pessoa mais ou menos desejada naqueles territórios, pois, mesmo que no dia-a-dia, ricos e pobres mantivessem um relacionamento saudável, aquela festa era um momento de afirmação social. De forma que as relações sociais da urbe não podem ser definidas a partir daquela festa, isso porque, a Festa dos Pretos era uma das poucas ocasiões em que os moradores de Pombal podiam exibir-se para os visitantes das cidades circunvizinhas, ou para outros pombalenses, mostrando que “a cidade estava no nível da moda”.

Segundo a Senhora Raimunda Evaristo, “Viche! Quando uma pessoa pobre ia pras barracas. Aí aquelas moças mais ricas olhava (sic) a pessoa dos pés à cabeça que era pra ver se a pessoa estava adequada pra estar ali. Se não estivesse... era melhor nem ir” (2008).

Ainda que existissem distinções sociais marcadas pelas vestes e mais precisamente pela condição econômica, sem dúvida o ato de praticar ou consumir aqueles espaços indica também a não aceitação da exclusão dos quais eram vítimas os pombalenses dos estratos sociais mais baixos.

É importante não esquecer que outros problemas sociais, de cunho moral, ligados ao aumento do fluxo de pessoas na cidade, encontravam naquela festa um terreno propício para se desenvolver. De fato, podemos dizer que a festa em devoção à Nossa Senhora do Rosário juntavam-se práticas profanas5. E não ao acaso, afinal, eram poucas as oportunidades de diversões oferecidas na cidade. Assim, aqueles momentos podiam até escandalizar alguns, mas certamente, tornavam mais felizes as noites de muitos pombalenses.

A Sra. Rita Dantas nos contou sua impressão sobre as práticas “mundanas” ocorridas durante a festa religiosa:
Deus me livre! Desse mal eu não vou morrer. Quando eu ia pra festa, eu ficava só na Igreja e nas coisas de Deus. Eu sei que era uma perdição, as moças com coisa feia com os rapazes, era um fogo! Eu não, Deus me livre, nunca quis saber dessas coisas não, eu não passava nem perto da praça, que lá só tinha namoro e agarramento (DANTAS, 2008). grifos nossos.

Ainda que afirme que não passava nem perto da praça, a nossa depoente aponta os comportamentos que ela julga ser uma “coisa feia”. Mas, como ela ficava sabendo daquelas coisas? Suponho que a Sra. Rita Dantas tenha ouvido falar, ou mesmo passado na praça, ocasião em que teria visto os namoros que considerava “escandalosos”6. Claro que não era novidade esse tipo de comportamento naquela cidade. Na realidade, a chegada da energia elétrica e depois do trem contribuiu sobremaneira para o aumento daqueles comportamentos. Contudo, mesmo que tenham surgido novas sensibilidades em Pombal naqueles anos, muitos assuntos ainda eram considerados verdadeiros tabus, ou “coisa do Diabo”.

Mas nem todos concordavam com tais idéias. Influenciados pelos jovens que vinham de outras cidades, especialmente os que viviam na capital do Estado, a juventude pombalense vivia novas sensibilidades. A Sra. Valdete Dantas da Silva lembra que,
Ah, tinha umas moças de família que estudavam em João Pessoa, essas moças pintavam e bordavam! Eram todas pra frente, bebiam, fumavam, se agarravam, iam pra o rio sozinhas com os rapazes. Era desmantelo! Agora elas era(sic) a chiqueza (sic) da festa. Ai as moças daqui era tudo imitando elas (...) Agora tinha as pessoas religiosas né? Quem mais participava da parte religiosa era (sic) as pessoas mais velhas. Os jovens não, iam para a festa namorar, beber, se divertir. A gente subia e descia a praça Getúlio Vargas, aí quando arranjava um namorado se aquietava, sentava num banco e ia namorar, ou então... ficava numa barraca com o pai e a mãe olhando com os olhos deste tamanho que era para não fazer nada de errado. Mas basta! Quando os pais não estavam olhando era tudo se agarrando (SILVA, 2008).
E continua,
Agora tinha as moças que iam na conversa bonita dos cabras [homens], ai quando terminava a festa era os pais tudo doido. E sê tá (sic) pensando o quê? Eles casavam, nem que fosse na marra! Quando não casava, o que era muito difícil, o pai mandava a filha ir estudar fora, pra abafar, sabe? Mandava para João Pessoa ou para Recife, quando tinha condição, quando não tinha o jeito era casar, nem que fosse para sair um por uma porta e o outro pela outra (SILVA, 2008).
Fica evidente nas falas das nossas depoentes o caráter mundano da festa. Farras, bebedeiras, jogos de azar, namoros, sexo... Tudo isso era muito comum naquela celebração que parecia manter o culto à santa apenas como pano de fundo para os festejos profanos. Nessa festa, tudo, ou quase tudo, era permitido. Pombal vivia uma nova temporalidade. As ruas da cidade e seus habitantes se transformavam. E não por acaso, à medida que eram introduzidos novos equipamentos modernos, surgiam novas formas de se relacionar com o espaço e com as pessoas, novas maneiras de sentir. A sensibilidade, traduz-se, de acordo com Gruzinski, “em sensações e emoções, na reação quase imediata dos sentidos afetados por fenômenos físicos ou psíquicos, uma vez em contato com a realidade” (2007, p.10).

Sobre as formas de praticar a festa religiosa a Sra. Valdete Dantas da Silva nos contou que:


Não era todo dia que tinha uma festa como aquela aqui [em Pombal]. O povo esperava o ano inteiro. Todo mundo participava. Era rico, era pobre, era tudo. A festa começava de madrugada com os fogos. O povo ia trabalhar em clima de festa. E quem não trabalhava passava o dia todinho andando pelas barracas, brincando no parque, fofocando e namorando. As moças era tudo se arrumando, passeando na rua, flertando. E os pais não proibiam não! Também eu acho que eles pensavam que elas [as filhas] estavam era interessadas nas coisas de Deus. Basta! A maioria das moças ia pra Igreja só pra sair de casa. Nas reuniões do coral mesmo, o que dava de namoro, ah, se papai soubesse, eu não tinha nunca ido olhar a um ensaio do coral (SILVA, 2008).
O Sr. Raimundo também nos falou sobre as ocasiões em que os prazeres e/ ou lazeres suplantavam os momentos de devoção religiosa,
Todos os dias da festa eram de farras. Começava logo cedo e era o dia inteiro. Ninguém ficava cansado para farra não, né? Mal amanhecia e as barracas já estavam cheias de gente, a maioria era homem. As moças de família, só passavam na frente, tudo arrumada com uns perfumes bom (sic), ficava insinuando, quando a gente pensava que ia namorar, elas se escondiam (risos) era muito boa essa fofoca. E às vezes saia uns namoros. Era bom demais! (SOUSA, 2008).
Mas se namorar “era bom demais” para os homens, para os pais das moças, isso representava uma ameaça à honra de sua família. Assim sendo, seguramente, havia um grande esforço das mães e dos pais para convencer suas filhas de que flertar e/ ou namorar era algo ruim e pernicioso.
A gente não entendia nada! Também era assim: um dia papai disse que não era pra eu andar com uma mulher que morava perto da casa da gente [na Rua da Cruz, próximo ao centro da cidade], ai eu perguntei o porquê. Ele disse, _porque ela não é companhia, e eu de novo, _por quê? _Porque ela não presta. _Por quê?_Porque ela faz coisas erradas. _E o que é que ela faz de errado? _ coisas que eu não vou nem pronunciar o nome. Ai um dia eu fui para a festa do Rosário com uma conhecida e papai:_ você tenha cuidado com os rapazes, não vá se perder. Ai eu boba, ô pai eu desse tamanho, o Sr. Acha que eu vou me perder em Pombal? (risos) Basta era um medo tão grande de falar sobre namoro, sexo, que a pessoa ficava sem entender nada! E era até pior. Eu acho. (VIANA, 2008).
Se por um lado a festa ameaçava os “bons costumes” de Pombal, o inverso também acontecia. Naquela ocasião, prostitutas, bêbados, ex-presidiários e outros tipos destoantes eram vistos nas celebrações religiosas, aparentemente tomados pela fé na Santa do Rosário.
Ah! durante o dia as quengas do Rói era tudo virada (sic) nuns diabos, destruindo os lares, bebendo com os homens e você sabe fazendo o quê. Ai na hora da missa, tinha delas que usava até véu (riso) parecia umas santas... do “pau oco”. Também mal o padre dizia amém, ai elas já se depravavam de novo. Mas tinha umas que queria passar por moça, aproveitando que tinha muita gente de fora na cidade. (SOUSA, 2008).
O comportamento das meretrizes, longe de ser considerado um ato de devoção religiosa, era visto pela elite pombalense, como uma afronta à moral da sociedade, como um atentado ao pudor.

Claro que não nos cabe julgar ou questionar a fé desse grupo, aliás nem é nosso propósito. Contudo, diante da marginalização que sofriam cotidianamente, a festa dos pretos era a ocasião ideal para esconder-se ou perder-se na multidão de transeuntes e talvez, num golpe de sorte mudar de vida!


Menina, tinha uma danada, a gente conhecia ela por pequena. Quando a gente viu, lá vinha um amigo da gente7 de mãos dadas, todo empolgado, como um casal de namorados. Apresentou ela pra gente, nem lembro o nome dela, e nós ficamos calados, só olhando. Ninguém teve coragem de dizer nada. Só no outro dia foi que a gente disse: _essa moça é uma das raparigas do Rói! E ele acreditou? Acreditou breu. Já estava era apaixonando. Também, ela era muito bonita. Ai depois ele descobriu e foi peleja pra ele largar dela (SOUSA, 2008).
Além das prostitutas, naqueles dias as pombalenses “desejáveis” deparavam-se ainda com muitos bêbados, em face do quê, vez por outra, durante o sermão da missa alguns desses homens dirigiam-se até o palco montado para a celebração da missa, proferindo palavras malsãs, outros chamavam a atenção por cantar desafinadamente os hinos católicos:
Com minha mãe estarei

Na santa glória um dia

Junto com a Virgem Maria

No céu triunfarei

No céu, no céu

Com minha mãe estarei...
E havia aqueles que escandalizavam a sociedade com seus excessos
...Com uma idéia sensata

Aumento mais a cantiga

Que importa que alguém diga

Que o poeta é au-co-lá-tra

Porém ela não me mata,

Me dá o mais, tanto abrigo,

Por isso que eu digo

que eu aprecio aguardente!
Vivo no mundo tomando uma cana pré-pa-ra-da

Porque ela me agrada e eu irei apreciando

Pois me deixa calibrado

E eu dou provas de consciente alegria

Assim é num instante

Quando chego em uma festa

E um bêbado conhecido

Já pediu pra mim aguardente...8
A Festa do Rosário9, assim como outros eventos de “tradição católica associou, às comemorações litúrgicas, festejos profanos” (BENJAMIN, S/D, p. 33). Fato é, que no decorrer dos anos, foi o caráter mundano da festa que adquiriu destaque e a culpabilidade dessa mudança de foco foi responsabilidade também dos párocos locais que faziam da festa um verdadeiro comércio, que enchia os cofres da igreja. Nas barracas da Igreja vendia-se de tudo: cerveja, flores, bilhetinhos de amor (sendo estes entregues pelas lindas moças da sociedade local), banana, rosas, suspiros, maça caramelada, galinha, carneiro, porco, sucos e, para os mais dispostos a gastar havia ainda os leilões. Nas barracas, aconteciam encontros e desencontros, alguns propositais, outros não.

Os clérigos, pareciam não se incomodar com aquelas práticas, “muito pelo contrário, eles participavam de tudo, sentavam nas barracas dos ricos e bebiam, comiam e... ganhavam dinheiro” (SOUSA, 2008). Proibir tais práticas seria para eles um mau negócio.

Mesmo depois da abolição, os negros que habitavam em Pombal e em outras partes do Brasil, continuaram a se submeter às jornadas extenuantes de trabalho braçal, o que poderia provocar conflitos sociais de grandes proporções. Assim, o culto a um santo era antes de tudo uma forma de minimizar as tensões e uma forma de lazer10. Por um lado, o lazer do dia dedicado ao Santo era um mecanismo de resistência dos pretos que tiveram seus ritos incorporados às liturgias cristãs. Também o inverso aconteceu, pois às celebrações cristãs foram incorporadas as expressões culturais dos negros. O culto aos santos constituía também um momento de evasão, uma fuga do trabalho, um momento de não-trabalho. Por outro lado, a criação da Irmandade, apresentava-se para as elites brancas como um instrumento de dominação dos brancos sobre os negros, que aos poucos, abandonariam suas práticas religiosas, consideradas, sob o ponto de vista da elite branca, como incivilizadas. Todavia, para os negros, a criação da Irmandade representava a força do grupo, a resistência negra à imposição de valores culturais que destoavam dos seus.

Tal concepção é demasiadamente simplista, usando as palavras de Soihet (1992), uma vez que ignora a complexidade das manifestações populares expressas nas atitudes, nos valores e nos comportamentos daquele grupo. A autora evidencia que é a “festa’ o cenário privilegiado, onde podemos encontrar características essenciais de culturas diversas. Na festa, afirma Soihet, “estão presentes aspectos expressivos do universo cultural dominante; por outro lado, aí se encontram imbricados elementos próprios da cultura popular, com suas tradições, seus símbolos, suas práticas” (SOIHET, 1992, p. 46). Assim, dizendo de outra forma, é dentro das festas que os valores culturais da elite se entrelaçam aos valores dos populares11 influenciando-se reciprocamente.

Sem dúvida, a criação da Irmandade do Rosário, foi fruto de negociações entre os brancos e os negros. Este último grupo, certamente, via na prática de incorporação dos valores cristãos uma condição essencial para serem aceitos numa sociedade prioritariamente branca.

Se havia tensões sociais em Pombal entre os negros da Irmandade do Rosário e os brancos, havia também ocasiões de boas sociabilidades. Tanto havia que nas festas dos negros, os brancos eram presença certa! Tal idéia nos leva ao seguinte questionamento: mesmo em face da abolição, as práticas discriminatórias eram muito comuns em todos os cantos do país. Em Pombal, a situação não era diferente12. O racismo era também uma marca da elite pombalense. Em face disso, o que teria motivado os brancos a participar das celebrações da Festa do Rosário? Quais teriam sido os motivos para que homens e mulheres brancos dos mais diferentes estratos sociais se deslocassem até aquela freguesia para participar de um rito católico?

A nossa hipótese é de que, os motivos de ordem material foram os maiores responsáveis pelo crescente deslocamento de pessoas até Pombal. Nesse sentido, O Sr. Pedro Junqueira Júnior afirma: “A festa atraia os filhos ausentes da terra [de Pombal], os moradores da zona rural, de outras cidades e até de outros Estados“(JUNQUEIRA JÚNIOR, 2008).

E continua,


A festa do Rosário atraia uma grande multidão. Era muito importante para a economia do município. O consumo de bebidas, de alimentos, era enorme... as lojas que vendiam tecidos, nessa época traziam muitas novidades, vendiam de tudo! Nas barracas, no Bar, o consumo era muito grande (JUNQUEIRA JÚNIOR, 2008).
O Sr. Raimundo de Sousa também aponta o consumo como um fator para o reconhecimento da festa pelos segmentos mais abastados:
Ah, o povo juntava dinheiro o ano todinho só para gastar na Festa do Rosário. A única roupa nova que comprava era para aquela festa. Logo o dinheiro era curto. Ai juntava e quando era na festa gastava tudo com roupas, parques, comidas, cachaça (risos) e com as namoradas! (SOUSA, 2008).
Sem dúvida, a economia motivou a participação e o apoio da elite local, que via na Festa do Rosário um meio de aumentar seu patrimônio material.
Quando era próximo da Festa do Rosário, o povo era logo comprando as fazendas [tecidos] para fazer as roupas. Os ricos iam comprar fora, em Campina Grande, João Pessoa, Recife e até no Rio de Janeiro. Dona Nena era uma que quando chegava, era as moças tudo lá pra ver as novidades da moda. Ela era muito moderna, ai quem podia copiava a roupa dela, né? As moças pobres, não ficam de fora da moda não. Elas não tinham os tecidos bons não, era fraquinho. Agora o modelo elas faziam igual, parecido,né? Você notava logo que era coisa fraca. Já os homens, os ricos, era de linho, sapatos Luis XV, os pobres coitados... a maioria era de camisa e calça, sapato? Era difícil, mas tinha. Quem é que não queria ser moderno. Eu mesmo só queria andar na moda. Não podia, mas queria (SOUSA, 2008).

A festa era também o momento de afirmação social. As roupas, os espaços freqüentados, os consumos, tudo indicava ou denunciava o status social.

A foto a seguir é bem elucidativa sobre este assunto. É possível identificarmos as pessoas pelas vestimentas e adereços que estão usando. Note no destaque que apesar de usar roupas parecidas, há grandes diferenças entre as duas moças que certamente pertencem a classes sócio-econômicas distintas.

Mas se a festa movimentava a economia de Pombal, é importante destacar que não só os comerciantes da cidade ficavam com os lucros. Durante as festividades uma série de “vendedores ambulantes chegavam de outros lugares, de forma que as somas gastas pelos devotos e não-devotos, eram também capitalizadas por forasteiros. Era vendedor de algodão doce, de pipoca, maçã caramelada (a maçã do amor!), vendedor de brinquedos, ciganos que vinham para ler o futuro, palhaços, dançarinas...e muito trambiqueiro (sic) também!” (SILVA, 2008).

Observando as palavras da Sra. Nira da Silva evidencia-se mais uma vez o aumento do fluxo de pessoas nas ruas da cidade. Pombal se tornava durante aquela festa, uma cidade difusa, populosa, desviante. A multidão nas ruas representava uma ameaça às boas sociabilidades dos habitantes daquela cidade. A elite, investida do espírito de modernidade, desejava, além de ficar com os lucros, conduzir os festejos de forma que se eliminasse das homenagens à Nossa Senhora do Rosário as práticas que ela considerava como arcaicas13 e até demoníacas. Contudo, o que percebemos a partir das rememorações dos nossos colaboradores é que mesmo diante dos esforços empreendidos por este grupo para higienizar a sociedade e a cidade, as mudanças não aconteciam no ritmo esperado.

Depois dos motivos de ordem material, o que atraia as pessoas a Pombal, era a busca de diversões.

O que pode ser percebido, com maior nitidez, nas lembranças dos nossos rememoradores:
Na festa do Rosário diversão não faltava! Tinha diversão para todo mundo! Tinha a missa, né? Para quem queria. Tinha os parques para as crianças, as barracas da igreja para as mulher(sic), porque as da Igreja era mais comportadas. E tinha as barracas que não eram da Igreja, nessas era uma maravilha! Mas nas duas, na da igreja e nas outras vendia bebida. Só que o pobre ficava às vezes acanhado de ir na da Igreja porque tinha muita gente fina, chique! (SOUSA, 2008).
O Sr. Pedro Junqueira também lembra que,
A festa era realizada no patamar da Igreja. Ao lado, entre a praça [Getúlio Vargas] e a Igreja eram montadas as barracas. Geralmente quem ficava nessas barracas eram as famílias. Tinha a barraca Azul e a barraca Vermelha. Todos os anos era uma disputa para ver quem ia coroar a Santa, Nossa Senhora do Rosário, a barraca que arrecadava mais dinheiro era a que escolhia a rainha. Havia também as outras barracas, assim na frente [próximo à praça do Bar Centenário, e já tinha os parques, a canoa e a onda. Na época, a banda aqui de Pombal e a fanfarra de Catolé [Catolé do Rocha] tocavam para animar. Não tinha o som tocando não (JUNQUEIRA JÚNIOR, 2008).
Embora seja mais recorrente nas memórias dos nossos colaboradores a existência das barracas da igreja - o que indica também que os populares, ainda que não benquistos naquele espaço, tinham também vontade de consumir os mesmos. E consumiam, à sua maneira. Existiam também outros espaços de diversão. Para o pobre que desejasse beber e/ou comer alguma coisa havia os barracões, feitos de palha, nos quais todos podiam entrar. Outra opção de diversão eram os parques, as canoas e a onda, sendo que este último era o mais procurado talvez por congregar populares e abastados num mesmo espaço, momento em que partilhavam sorrisos e gritos em função dos movimentos daquele brinquedo.

Mas o parque trazia também a possibilidade de outras diversões. A Sra. Edianete Farias Bandeira nos contou que a difusora do parque, além de tocar algumas músicas muito bonitas, oferecia também a possibilidade aos casais enamorados, ou aos jovens que estavam em busca de um par romântico, mandar recadinhos apaixonados, em face do que, tornou-se famoso o Sr. “Ontõe Xofé”, que por dois tostões não cansava de oferecer músicas às moças da cidade na intenção de conquista-las. Assim, na voz, nem sempre afinada do locutor do parque, escutava-se: “‘OX’ oferece a música tal... aí dizia o nome da música, como prova de muito amor para fulana. Aí todo mundo já sabia que era ele” (BANDEIRA, 2008).

Embora a cidade já contasse com sistema de energia em suas principais ruas, a energia destinava-se exclusivamente à iluminação, e ainda assim
a luz era bem fraquinha. Claro que era melhor do que nada, mas iluminava bem pouquinho. Os parques era tudo à mão. Tinha (...) o carrossel, as canoas e outros parquinhos, tudo era girado na força do braço. Tinha gente, criança, adulto, tudo, que ficava o dia todo se balançando nos balanços (FARIAS, 2008).
Entre os principais motivos apontados para a migração, em massa, de pessoas de outras localidades até à cidade de Nossa Senhora do Bom Sucesso do Piancó [Pombal] para prestigiar a festa, estão principalmente os ritos profanos. Mas, sem dúvida, a devoção a Santa do Rosário também atraia muitos fiéis àquela urbe durante a festa dos Pretos, que se inicia em setembro e termina no primeiro domingo de outubro.

É pertinente afirmar que todos os depoimentos colhidos sobre a “tradicional” festa do Rosário, apontam primeiro que a tradição foi inventada e reinventada constantemente, de acordo com as peculiaridades e necessidades daquele espaço. Depois, destacamos que de forma alguma a participação da elite na organização dos festejos, pode ser entendida como simples “manipulação” dos homens negros, até porque havia também na organização a forte participação dos negros da Irmandade do Rosário. A questão está para além dessa lógica. Configura-se talvez como uma manobra, ou tática do “fraco” para tirar proveito do forte14. Certamente, ao se aliar aos segmentos mais abastados, o grupo passava a gozar de algumas regalias, tais como: poder circular livremente pela cidade, beber, cantar e praticar seus credos sem a interferência doutrinadora dos brancos. Assim, entendemos que não havia uma submissão dos segmentos populares, mas uma negociação. Negociação onde não havia ganhadores ou perdedores, pois, estavam todos, ricos e pobres, sob a proteção da Virgem do Rosário.


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TÔRRES, Francisca Trigueiro. Entrevista concedida a autora. Pombal. 20. junho de 2004.



UGULINO. Arlindo. Entrevista concedida a Maria das Graças F. Formiga Wanderley. Pombal. 01. agosto de 2008. Transcrita por Helmara Giccelli Formiga Wanderley Junqueira. 02. agosto de 2008.



 A autora é Mestra em História pelo PPGH-UFCG; professora da Universidade Federal de Campina Grande- Campus Sousa e professora da Faculdade Santa Maria – Cajazeiras-PB.


1 Os Pontões, ou “negrinhos dos pontões”, é o maior grupo cultural de Pombal, de caráter militar o grupo é formado por homens e crianças do sexo masculino, os membros desse grupo pertenciam às camadas pobres, sendo a maioria moradores da zona rural . Durante a Festa do Rosário o grupo sai às ruas da cidade dançando, cantando, bebendo e pedindo dinheiro para a igreja. O grupo é formado por dois cordões, o azul e o vermelho, e sua característica principal é a existência de uma banda cabaçal, constituída de “adufe, caixa, tambor, prato, fole e pífano, além dos maracás das lanças” (BENJAMIN, S/D, p 97).


2 Os Congos constituem o grupo cultural de negros católicos mais antigos de Pombal. Esse grupo é formado por 18 membros, todos pertencentes aos segmentos menos favorecidos, a maioria deles provenientes da zona rural ou de áreas periféricas da cidade. Durante as festividades do Rosário o grupo sai em duas alas. Assim como os Pontões, usam maracás. Nesse grupo, o destaque é a figura do rei, que é escolhido e coroado pelos membros do grupo, numa referência aos reis Congos, afirma Marcos Ayala (1996, p. 204). Já Roberto Benjamin, diz que embora existam outras tradições de Congos espalhadas pelo Brasil, e ainda que existam entre eles características gerais que os identificam como Congadas, o grupo cultural de Pombal criou uma versão local que lhe é peculiar, tendo possivelmente re-elaborado ou reinventado a versão olindense, tradição com a qual a clientela católica de Pombal mantinha grande proximidade (BENJAMIN, S/D). Diferente das congadas baianas, por exemplo, o grupo criado em Pombal não fazia nenhuma referência aos cultos ancestrais.


3 De acordo com Roberto Benjamin (S/D) a festa do Rosário era financiada pelos negros que durante o ano trabalhavam para juntar dinheiro para os festejos.


4 Também nos relatos de memória do Sr. Raimundo Formiga de Sousa e das Sras. Maria Adélia Felinto, Maria do Bom Sucesso Medeiros Nóbrega; Zulmira Ferreira Viana, entre outras, fica evidenciado esta separação entre pessoas dos segmentos populares e os membros da elite.

5 Sobre isso Ver: SOUZA. Antonio Clarindo Barbosa de. Do Pecado ao perdão: A procissão da “Sexta-feira Santa”. In. Lazeres Permitidos, Prazeres Proibidos: Sociedade, Cultura e Lazer em Campina Grande (1945 – 1965). 2002. Tese (DOUTORADO EM História do Brasil) – UFPE, Recife.


6 Expressão usada pela Sra. Rita Dantas em entrevista concedida a Helmara Giccelli Formiga Wandeley em 05.07.2008.

7 O nome do homem foi omitido a pedido do depoente.

8 Não estamos afirmando que os versos acima de autoria dos senhores Lourival Batista Patriota e Dimas Guedes Batista Patriota foram cantados nos momentos das celebrações religiosas, sua utilização aqui é meramente ilustrativa, indicando ao leitor que havia um grande consumo daquela bebida na cidade durante as homenagens feitas a Nossa Senhora do Rosário. Também é preciso afirmar que, segundo os nossos colaboradores, ainda que os populares consumissem aguardente, os homens e até mesmo algumas mulheres da elite consumiam grande quantidade de bebidas alcoólicas, sendo a mais freqüente naquela festa a cerveja Antarctica que na ocasião era servida geladinha. Disponível em http://www.sescp.org.br/sesc/hotsites/missa0/cd02_frameset.html consultado em 12.01.2009.



9 De acordo com Roberto Benjamin, as Irmandades negras surgiram no Brasil desde o século XVII e “embora a princípio fosse uma comunidade religiosa exclusivamente de escravos (só depois surgiram os forros), a irmandade recebia do estado e da Igreja já um status igual ao das Irmandades dos brancos e dos livres” (BENJAMIN, S/D, p. 28-29). Em Pombal a Irmandade dos negros foi criada tardiamente, já após a abolição da escravidão, se colocando como uma das principais formas de afirmação dos negros naquela comunidade.


10 De acordo com Benjamin, “a devoção religiosa estava sempre ligada ao lazer. Ao crescer a dedicação a um santo ou uma invocação de Maria ou de Jesus, a data passava a ser santificada, isto é, dia de lazer e de festejos profanos” (BENJAMIN, S/D, p. 33). Sobre a relação trabalho e lazer ver: DUMAZEDIER, Joffre. Lazer e Cultura Popular. São Paulo, Perspectiva, 1976.


11 Segundo o Dicionário Digital Aurélio Buarque de Holanda Ferreira – Século XXI, o termo popular significa: 1.do, ou próprio do povo: hábitos populares; 2.feito para o povo; 3.agradável ao povo; que tem as simpatias dele; 4. democrático; 5.vulgar, trivial, ordinário; plebeu. Já o vocábulo povo é entendido como: 1.conjunto de indivíduos que falam a mesma língua, têm costumes e hábitos idênticos, afinidade de interesses, uma história e tradições comuns; 2.os habitantes de uma localidade ou região; 3. povoado; 4.aglomeração de gente; multidão; 5. o conjunto das pessoas que constituem o corpo de uma nação, que se submetem às mesmas leis; 6.o conjunto das pessoas pertencentes às classes menos favorecidas. É importante notar que somente na quinta acepção é que o termo é compreendido como a totalidade dos habitantes de um território, elite e pobres.



12 Conforme Wilson Seixas, o maior empecilho à criação da Irmandade no final do século XIX foi o pároco local, que se mostrava demasiadamente racista (SEIXAS, Wilson. O velho Arraial de Piranhas. João Pessoa: Garfset, 2005)

13 De acordo com Arrais. “a cultura das camadas pobres na primeira década do século XX será objeto de perseguição e tentativas de controle por parte das autoridades republicanas, e, por outro lado, suas manifestações serão alvos sistemáticos das intervenções da polícia” (1998, p. 93).

14 Sobre as táticas ver CERTEAU. Michel de. A Invenção do Cotidiano I: Artes de fazer. 6ª edição. Petrópolis: Vozes, 2001.




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