Herculano, Alexandre. O monge de Cister



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HERCULANO, Alexandre. O Monge de Cister. Rio de Janeiro: Ediouro, s. d. 231p.

[9] De vários livros, pergaminhos, e papéis ajuntei algumas cousas antigas, que estavam já postas de parte, conjeturando, que ordenadas e vestidas de novas cores, podiam tornar à praça, e não parecer mal, como árvores de outono com seu renovo.

G. Estaço, Var. Ant. Prol

Como debaixo dos pés de cada geração que passa na terra dormem as cinzas de muitas gerações que a precederam, assim debaixo dos funda­mentos de cada cidade grande e populosa das velhas nações da Europa jazem alastrados os ossos da cidade que precedeu a que existe. Como de pais a filhos as diversas gerações se continuam e entretecem sem divisão, semelhantes à túnica inconsútil do Cristo, assim a cidade antiga se transmuda imperceptivelmente na nova cidade; e como o octogenário, na vizi­nhança do túmulo, não vê à roda de si, nem pai, nem irmãos, nem amigos da infância, mas filhos, mas netos, mas existências todas virentes, todas cheias de vida, e sente com amargura que o seu século já repousa em paz e espera por ele que tarda, assim o último edil ido da cidade que passou, quando pendido ameaça desabar, olhando à roda de si não vê nenhum daqueles que, aí perto, campeavam senhoris e formosos no tempo em que ele também o era. Então, quando a noite de inverno ruge tempestuosa, e a chuva sussurra nas árvores e estrepita nas torrentes, ouve-se um ruído súbito, semelhante ao bater no chão de homem de guerra que morre. É o edifício que solta o seu último arranco e vai ajuntar mais uma ossada a milhares delas que jazem sob os pés da povoação recente. A obra do homem é como o homem; com a diferença, porém, de que o período da renovação do gênero humano conta-se por anos e o da cidade por séculos; mas os anos e os séculos confundem-se e igualam-se diante da vida perpétua do Universo, vigoroso e belo, hoje, amanhã, daqui, talvez, a milhares de eras, como no dia da criação.

Entre todas as cidades herdeiras do nome das suas antepassadas é a nossa Lisboa uma daquelas cujo tronco é mais antigo e cujas renovações têm sido mais freqüentes. Além das mudanças que nela devia produzir a sucessão dos tempos, os terremotos, os incêndios e as guerras visita­ram-na tantas vezes, que apenas lhe restam raros e quase apagados vestí­gios dessas existências de larga vida, desses edifícios monumentais que nas outras cidades da Europa contam o passado ao presente. Se quereis saber as convulsões violentas, as agonias de trances mortais em que se tem debatido a filha dos fenícios, embrenhai-vos no vetustíssimo bairro de Alfama; afrontai-vos com os seus becos tortuosos, sombrios, lodacentos; extraviai-vos no seu labirinto de terreirinhos, escadas, pátios, arcos, passa­gens, indelineáveis e enredados como meada a que se perdeu o fio. O aspecto daquele grande vulto de casas, que parecem atiradas para aí cegamente em luta de gigantes, far-vos-á crer que lá, nas vísceras dessa espécie de povoação estranha embebida no âmago de Lisboa, há uma vida antiga, um monumento de cada época, de cada era, de cada década. Enganar-vos-eis, toda via. Apenas sobre um portal lereis alguma inscrição mutilada em caracteres monacais e em português do século XIV; apenas vereis uma lápida partida onde a custo descortinareis algumas letras inclusas [10] e disformes dos séculos XII e XIII, e dificultoso será que as belas formas dos caracteres assentados dos latinos venham lembrar-vos que o solo que pisais é o de um município romano. Se, ao cabo de muita lida, a boa ventura vos deparar, um arco pontiagudo do puro gótico, um verga florida do Renascimento, uma volta de ferradura árabe, achá-la-eis metida e aproveitada ou desaproveitada em edifício de ontem ou vê-la-eis prestes a desabar em pardieiro velho. Tudo o que haveis de encontrar são folhas rasgadas de um livro precioso e único. Depois, ajudando-vos a imaginação de artista e o faro de antiquário, muito fareis se, como os comendatores da literatura clássica, ajuntardes com essas palavras solta um capítulo do livro perdido. Comprazer-vos-eis então na vossa obra; mas, cuidando que reconstruís um pedaço de história da arte ou dos homens, não fareis, porventura, senão compor um fragmento de novela.

Mas seja história ou novela o fruto dos trabalhos daquele que conversa o passado, que se apresse! Com a rapidez da cólera ou da peste corre por todos os ângulos de Portugal e encasa-se em todos os povoados uma causa hedionda e torpe que, inimiga do passado e do futuro, se chama ilustração; que, tendo por lógica o escárnio e por silogismo o comar­tela, se chama filosofia. Deus a mandou ao mundo como mandou Átila ou a Inquisição, como um verbo de morte. Seu mister é apagar todos os santos afetos da alma e encarnar no coração, em lugar deles, um cancro, para o qual nossos avós não tinham nome e que estranhos designa­ram pela palavra egoísmo. Que se apresse aquele que quiser guardar alguns fragmentos do passado para as saudades do futuro; porque a ilustra­ção do vapor e do ateísmo social aí vai livelando o que foi pelo que é, a glória pela infâmia, a fraternidade do amor da pátria pela fraternidade dos bandos civis, as memórias da história gigante do velho Portugal pelo areal plano e pálido da nossa história presente, a obra artística pelos algaris­mos do orçamento, o templo do Cristo pela espelunca do rebatedor. Que se apresse; porque esses rastos de antepassados que o tempo e os incêndios e os terremotos nos deixaram não no-los deixará o descrer brutal deste século, que a história distinguirá pelo epíteto de bota-abaixo e cujo legado monumental para os séculos que virão após ele será um cemitério imenso; mas cemitério sobre o qual não se elevará sequer a humilde distinção de uma cruz.

É por isso, é porque vejo o marco assentado no fim do caminho por onde esta geração se escoa que muitas vezes passo horas largas diante de um portal de capelinha carcomida como velha enrugada; diante de uma ombreira partida, onde apenas se divisam cansados e gastos lavares da arte da Idade Média. Se eu fosse rico, iria comprar a capelinha, iria comprar o pardieiro onde houvesse a ombreira gótica: os homens do progresso vender-me-iam isso tudo, porque havia de enganá-los; porque havia de prometer-lhes que converteria aquela em lupanar, este em casa de câmbio. Depois, eu, que já não tenho pai para afagar nos tédios e dores da decrepidez, tomaria a meu cargo essas pobres ruínas, ampará­-las-ia como um filho, livrá-las-ia dos olhos dos que hoje tudo podem e tudo ousam, e como os cristãos primitivos só a seus irmãos revelavam a existência do altar das catacumbas, assim, neste quinto império de mente­captos dissertadores e mexediços, só aos poetas, aos que ainda crêem na Arte e em Deus revelaria a existência do meu tesouro escondido.

Mas eu não sou abastado, que posso fazer? Ajuntar uma assinatura desconhecida ao protesto lavrado pelos homens de entendimento e virtude contra a barbária do século, para que os meus restos esquecidos não sejam inquietados pelas maldições dos vindouros.

Foi uma dessas meditações artísticas que gerou o pensamento deste livro, o transmitir aos vindouros alguns fragmentos do passado. Um dia [11] em que atravessava da Lisboa árabe para a Lisboa romana, da Alfama para o Castelo, não sei como passei pelo sítio onde existiu o Convento dos Bons Homens de Vilar ou Cônegos do Evangelista, e parei a examind-lo. O meu exame foi demorado e consciencioso, como se costuma dizer nos dois lugares onde raro entra a consciência — nas câmaras legislativas e na imprensa política. Todas as indagações que fiz para descobrir algum vestígio do edifício primitivo, cuja origem o leitor verá no primeiro capítulo desta história, foram, porém, baldadas: os loios (assim lhes chamava o povo) tinham transformado o antigo Colégio do Bispo D. Domingos Jardo em suntuoso convento, de cuja grandeza se pode formar cabal idéia lançando os olhos para a estampa de Lisboa publicada na Viagem a Portugal de Filipe II, escrita pelo cronista Lavanha. Veio depois o terremoto e converteu tudo em ruínas. Nestas se aninhou, passado meio século, a Guarda Real da Polícia e, por morte desta, a sua sucessora e herdei a Guarda Municipal.

Triste por ter perdido assim inutilmente o tempo e o trabalho, ia seguir meu caminho, quando me lembrei de um velho manuscrito que lera, e que falava miudamente de certo sucesso que Fernão Lopes transmitiu à posteridade na Crônica de D. João I. Este sucesso terrível, cujo desfecho apenas narra o cronista e que vinha explicado naquela escritura inédita com todas as suas causas e circunstâncias, está ligado com a história desse Colégio do Bispo de Lisboa. Passou-me então pela mente fazer uma desfeita aos loios e ao terremoto e dar de novo vida àquele que hoje é só um nome. Procurei coligir as minhas recordações e quando voltei a casa tinha pouco mais ou menos delineado e disposto os materiais que constituem o âmago e substância da narração seguinte.

É o que resta a quem é pobre. — Não pode tirar os monumentos das garras dos políticos; mas tem liberdade plena de reconstituir em imaginação e povoar aqueles que já não existem.

Dos políticos e de nós se condoa o Senhor; porque tanto nós como eles disso havemos mister.

[13]

I

O Colégio de São Paulo
Ora vede que door sena para o triste du pay.

Dr João de Barros — Espelho de Casados.


“Vamos, Fr. Vasco, em que cismas? Há mais de meia hora que levas os olhos pregados na corrente do rio. Ergue-os para o Céu. Olha como é formoso! Imagem do Empíreo, onde mora aquele que só te pode dar, que só te há dado consolação e esperança. Vamos, filho; é necessário que por uma vez acabem essas tristezas, que denotam estar ainda muito enraizada na tua alma uma paixão mundana.”

“O meu segundo pai, ó meu mestre, ó vás que mil vezes me tendes salvado de mim mesmo, perdoai-me. Má idéia era a que me passava agora pela cabeça. Afigurava-se-me neste momento que D. Leonor estava junto de mim; via-a, aqui mesmo ao meu lado; via-lhe o sorrir suave; ouvia-lhe o respirar sereno; sentia o brando cheiro dos perfumes dos seus cabelos dourados. Ai! e sabeis qual era a minha idéia? Em apertá-la ainda entre estes braços, de que fugiu como uma vã sombra, e então... atirar-me com ela a esse rio, que vai rápido como o envelhecer desta alma, fundo como a amargura do meu coração! Depois, — prosseguiu ele com a voz atada — depois... que viesse o Inferno.”

“Jesus, Vasco! Estás doudo? Blasfemas? Assassinares uma fraca mu­lher, assassinar-te a ti próprio e renegares da vida eterna?”

“Uma fraca mulher, dizeis vós, Reverendo Nono? Uma fraca mu­lher?!... Fraqueza de víbora, que vos toma atraiçoadamente quando dormis e vos morde e vos envenena sem remédio a essência da vida. Essa fraca mulher teve força para me calcar aos pés este pobre coração, que era bom, que nascera para amar quantos o rodeavam! Homem de Deus, não sabeis o que é ver cerrar diante de nós o mundo no primeiro quartel da vida, quando a imaginação povoa esse mundo de gozos, de glória, de felicidade! Vós não sabeis que mistério infernal se passa cá dentro, quando a uma risada de mulher que supúnhamos um anjo e que era um Demônio, a vemos tomar nas mãos o nosso futuro e esmigalhá-lo em terra! Assassinar uma fraca mulher!? E ela não me assassinou a mim? Que sou eu debaixo desta estamenha? Um morto que fala e anda e geme, e contudo não vive, porque o viver nada disso é... Padre, Padre, Deus me livre de mim mesmo!... Mas vós chorais? Oh não, não!... O pobre Vasco está louco. Dissestes bem... Esquecei-vos dos seus desvarios. Prometo à Virgem jejuar três dias a pão e água, coberto de cillcios, logo que cheguemos ao nosso mosteiro, para que Deus me perdoe as blasfêmias que tenho dito. Vós também me perdoareis. Não é assim, bom Fr. Lourenço?”

“Sim, sim, meu irmão, perdôo-te o escândalo que me deste. Também eu cobrirei a minha cabeça de vaso; cingirei os meus rins de cilício e ajudar-te-ei a implorar a misericórdia do Senhor, para que te alumie e [14] afaste do teu espírito as tentações de Satanás.”

“Oh, como sois bom, meu Nono!” — disse entre soluços o outro interlocutor, lançando-se a seus pés e beijando-lhe a fímbria do grosseiro hábito.

Depois ergueu-se e assentou-se-lhe ao lado, apertando-lhe uma das mãos entre as suas e derramando sobre elas lágrimas como punhos, que calam a espaços, quentes qual lume, porque do intimo vinham elas.

Mas quem eram estes dous homens? — Onde estavam? — Donde vinham? — Para onde iam? — Em que tempo era isto? — Natural éque o leitor faça tais perguntas, às quais temos obrigação de responder.

Os dous personagens entre os quais se travara o diálogo com que começamos esta mui verídica história eram dois monges de Cister ou de São Bernardo. O mais moço, de cuja boca saíam as expressões de desesperação que acima ficam transcritas, era mancebo de vinte e dous a vinte e cinco anos, bem proporcionado e robusto, tez morena e cabelo negro, basto e crespo, feições talvez não formosas, mas, sem dúvida, atrativas. Os seus olhos eram portugueses; isto é, reflexo perene dos íntimos pensamentos; tempestuosos com as procelas do coração, seremos com a calma dele. No rosto do mancebo estava escrito o nome da sua terra natal: era um filho das Espanhas: a cor, o gesto, o olhar, tudo dizia que aí dentro havia o espírito de um godo e ao mesmo tempo que nessas veias corria o sangue de um árabe.

O outro monge era homem de idade robusta. Tinha os cabelos espes­sos e grisalhos, testa espaçosa, nariz aquilino, os olhos fundos, vivos e pequenos. Jejuns e meditações lhe haviam emarelecido e encovado as faces. O todo do seu aspecto era severo e triste, mas quem lho observasse atento lá enxergaria, por baixo superficial tristeza, a alegria que gera uma boa consciência. Quando o velho erguia os olhos ao céu, crer-se-ia que, através da abóbada azul, divisava a pátria do repouso, que ele ia conquis­tando com vigílias e sofrimento sob o peso da cruz. Tumulto ou inquietação, angústias ou gozos da vida eram para ele o mesmo que para o peregrino o fumozinho da aldeia do vale, onde apenas dormiu uma noite, visto da cumeada da serra que lho vai esconder para sempre; eram uma lembran­ça, uma saudade duvidosa da juventude; porque o mundo ia lá muito longe dele, movendo-se orgulhoso e senhoril em suas misérias ou grande­zas. Das paixões que este ou alimenta ou gera só uma restava a Fr. Lourenço: era a paixão que ensina o Evangelho, era o amor do gênero humano.

Fr. Lourenço, chamado o Bacharel por ter estudado Degredos ou Cânones na Universidade de Lisboa, entrara na Ordem de Cister já homem feito e aí fora recebido com os braços abertos, não só pela reputação de sabedor e letrado de que gozava, mas também por ser pessoa de virtude e bondoso. O Abade de Alcobaça, D. João d’ Ornelas, tinha-o nomeado procurador daquele célebre mosteiro, que já gozava de certa supremacia sobre os outros da mesma ordem, apesar de, na sua origem, todos serem independentes uns dos outros. Os negócios fradescos obriga­vam, portanto, Fr. Lourenço a viver na corte; e como então residissem cisterdenses no Colégio ou Estudaria de S. Paulo e Santo Elói (depois Convento dos Bons Homens de Vilar), que fora fundado pelo bispo D. Domingos Jardo em tempo de D. Dinis, e por isso fossem obrigados a ter aí lentes ou ledores de diversas matérias, Fr. Lourenço, quando se via desapressado de negócios, ora ensinava ali as doutrinas das Decretais, ciência tão séria, tão útil, tão profunda e tão cultivada nesses tempos como a política, o magnetismo animal ou a Homeopatia nestes nossos, ora lia aos escolares, que muitos lá andavam, a Santa Teologia, no que também o bom do bernardo era poço sem fundo.

[15] Chamamos bom a Fr. Lourenço, e com razão assim o qualificamos. Apesar das emburilhadas e demandas em que freqüentes vezes o metia o despótico, violento, cobiçoso e ao mesmo tempo perdulário D. João d’Ornelas; apesar dos trabalhos escolásticos, que não pouco lhe quebravam a cabeça, Fr. Lourenço Bacharel ainda sabia achar tempo para gastar em obras de caridade. Onde havia um desgraçado que socorrer ou conso­lar, lá estava o nossos cisterciense: rico de sua casa e abastado de sollayros ou ordenados, que recebia como ledor da Estudaria (e não eram maus os que deixara D. Domingos Jardo pera sustenta çom dos proves escolas­ticos) todos os haveres gastava com os necessitados, e nenhum se afastava dele com as mãos vazias, — “juxta illud — dizia Fr. Lourenço — que lemos na Escritura, demerge ta orelha ó prove, sem nem uma acidia, e dá-lhe sa divida.” — O povo tinha-o em conta de santo; a corte respeita­va-o, até, quando o seu cargo de procurador o obrigava a fulminar perante os juízes os adversários da sua ordem, sabia-o fazer com tal modéstia, que o tom das suas palavras ainda lhe dava maior realce à eloqüência do que a força da sua dialética vigorosa. Enfim era, como todos diziam então dele na linguagem garrafal daquele tempo, baron triguosamente endereçante sa carreira per mui veituosas vertudes a perduravil einxalçamento em vida eternal.

No momento em que esta história começa dava ele uma prova mais do seu ardente amor do próximo. Nesse dia pela manhã recebera um recado, em que se lhe pedia fosse ouvir de confissão uma pobre mulher quase moribunda que vivia na aldeia de Restelo, uma légua de Lisboa para a banda do mar à beira do Tejo. Como era dia de S. Filipe e S. Tiago e não havia escola, Fr. Lourenço não hesitou um momento: disse missa, chamou o escolar seu predileto, Fr. Vasco, partiu com ele do colégio, velo pela Rua Nova abaixo e, passada a fonte de Sancho II, saiu pela porta da Oura, chegou à praia, afretou uma barca, e ei-lo correndo ao longo da margem, caminho da aldeia de Restelo.

Fora dentro dessa barca que se travara o misterioso diálogo que acima fica transcrito sem mudar uma palavra, pospor ou antepor uma vírgula.

Agora cumpre voltar um pouco atrás para sabermos quem era o companheiro do Mestre de Teologia.

Haveria seis meses, depois que Fr. Lourenço residia na Estudaria de S. Paulo, quando certo dia um cavaleiro moço e gentil-homem chegou sozinho à porta da crasta e perguntou por Fr. Lourenço. Levado por ordem do Reverendo à sua estreita cela, demorou-se a sós com ele por horas largas. O que aí se passou ninguém soube; mas notou o porteiro que, quando o mancebo saiu, o velho veio acompanhá-lo, e que tanto o desconhecido como Fr. Lourenço tinha as faces banhadas em lágrimas. Abraçaram-se à despedida, e apenas o frade disse ao cavaleiro quando partia: — “Filho, constância em teu santo propósito!” — Depois ninguém mais tornou a ver o mancebo; mas todos pensaram que era algum desgra­çado pecador que, não podendo sofrer o peso das suas culpas, viera depositar no seio do virtuoso monge a confissão de passados erros e aquietar remordimentos da consciência pedindo perdão ao Céu.

Passou mais um ano: certo dia pela volta da tarde, o converso Fr. Julião, que desempenhava havia bem um quarto, de século as funções de porteiro da Estudaria, veio correndo à cela do Mestre de Teologia e disse da parte de fora:

Benedicite, pater doctor.”

“Entrai, Fr. Julião.”

O converso ou barbato, como então chamavam aos leigos, ergueu a aldrava e com as mãos cruzadas sobre o peito esperou que o Padre [16] Mestre o mandasse falar..

“Que me quereis, irmão?”

“Uma carta do Domno de Alcobaça.” — Dizendo estas palavras, o converso punha nas mãos do monge um papel fechado e selado com o selo do Abade de Alcobaça, a quem por seu cargo competia, segundo a regra de S. Bento, seguida pelos cistercienses, o título de dominus, ou no romance daquele tempo domno.

“Quem traz esta carta?”

“Um monge do hábito do nosso Padre S. Bernardo. E voto a Cristo, que me parece o mesmo mancebo que vos aqui procurou ha um ano...

“Basta! não jureis em vão o santo nome de Deus. Ide e guiai para esta cela o recém-chegado.”

Quando este entrou no aposento de Fr. Lourenço, logo ele viu que o converso se não enganara. O bom do monge correu a abraçá-lo:

“Parabéns, parabéns! — exclamou Fr. Lourenço cheio de júbilo. —Este santo hábito que trazeis, Senhor cavaleiro.., não digo bem... irmão Fr. Vasco, me diz que Deus vos fez triunfar dos três grandes inimigos da humanal geração, mundo, Diabo e carne. Socorrestes-vos ao Senhor no dia da vossa aflição, e o Senhor vos abriu o porto bonançoso onde podeis rir-vos das procelas da vida. Sois monge de Cister e agora...

“Sou monge de Cister!” — repetiu o moço frade, escondendo a cabeça no seio de Fr. Lourenço, que breve sentiu as suas lágrimas ardentes e abundantes transpassarem-lhe a grosseira estamenha do escapulário e da túnica e umedecerem-lhe o peito. O acento com que o mancebo proferiu aquelas palavras fazia que elas significassem exatamente o contrá­rio do que soavam. De monge havia nele, é verdade, o hábito e a cogula, mas o coração?! No coração de Fr. Vasco estavam ainda todas as paixões do século, tumultuosas, férvidas, corrosivas, como quando, em vez de trajar essa tela grosseira, cobria os membros robustos com o arnês de cavaleiro. Se aí havia alguma diferença, era que essas paixões violentís­simas, comprimidas por um ano de noviciado, por um ano de abjeção, de silêncio, de contradições, de sujeição, enfim, a todos os atos exteriores de humildade, de doçura e de resignação, se tinham tornado mais ásperas e azedado mais aquela alma lacerada por dores fundas e talvez eternas. Fr. Lourenço, a quem ele buscara havia um ano, em dia no qual a desespe­ração passara a meta do sofrimento, lhe aconselhara o claustro, como remédio único ao mal que o rola. O pobre frade, pouco entendido nas tempestades do mundo, cria que havia outro ádito cerrado ao tumultuar das paixões que não fosse a lousa da sepultura; cria que esse ádito milagroso era a portaria de um convento! Se quereis saber se ele errava ou acertava, perguntai-o a qualquer desses que aí viveram, se ainda algum há a quem a fome deixe contar histórias dos tempos que já lá vão.

“Mas, filho, — dizia Fr. Lourenço, levantando brandamente a cabeça de Fr. Vasco e encostando-a outra vez sobre o ombro, de modo que o hálito ardente do mancebo quase que lhe crestava a face — cria eu que a misericórdia divina e a virtude do nosso santo hábito vos houvessem arredado do espírito essas negras imaginações. Mas, enfim, com o tempo; com o tempo! Fiai-vos de mim: de mim em quem achareis um irmão: mais que um irmão, um amigo!”

“Oh sim! foi por isso: foi para vos ouvir, para dar alguns instantes de frescor a este espírito requeimado, que, apenas fiz meus votos, pedi ao Dom no de Alcobaça me mandasse para Lisboa estudar. Estudar!... Que posso eu aprender? ou que me importa? É falar com o homem indulgente que eu quero: é pedir-vos palavras de consolação e de espe­rança; que me apagueis esta chama que me consome a alma; que me deis triaga contra a peçonha que me lavra no coração. Homem de Deus, [17] o mundo chama-vos santo! Paz e esquecimento! paz e esquecimento!...”

Mais se confirmou Fr. Lourenço por este desalinhado discurso que a virtude mirífica do santo hábito nada aproveitara em Fr. Vasco; mas, por um movimento de orgulho involuntário, lembrou-se de que com deses­perados como este a força da sua eloqüência tinha suprimido a pouca eficácia da graça divina. Fez então assentar o moço e obrigou-o a tomar alguma refeição enquanto descansava; depois, pondo-lhe a mão no ombro, disse-lhe:

“Vamos, irmão Vasco, conta-me outra vez a vossa história. Chora­remos ambos! As lágrimas da piedade consolam quando é um amigo que as derrama. Se bem me lembra, dissestes-me há um ano...



O frade pensou avisadamente que, falando repefldas vezes a Fr. Vasco nos dolorosos sucessos da sua vida, lhe chegaria a embotar na memória o sentimento deles. E, em verdade, assim é feito o coração humano. A dor, como a matéria bruta, gasta-se com o uso. São mistérios metafísico-fisiológico-morais desta espécie de animal chamado homem, a que eu e tu, leitor, temos a honra de pertencer.

“Disse-vos, — prosseguiu o mancebo, tomando a mão imediatamente — disse-vos que, filho de um cavaleiro nobre e honrado, segui as armas mui moço. Há três anos, não longe da morada de meu velho pai, em Aljubarrota, pelejava eu na Ala dos Namorados por livrá-lo a ele e a terra da pátria do estranho domínio: pelejava na ala de Mem Rodrigues, porque amava a nobre donzela Leonor; e vós sabeis que Mem Rodrigues só dava entrada naquela ala aos que tinham uma dama dos seus pensa­mentos. Vencemos essa memorável peleja. Segui, depois, o pendão do Condestável. Passados alguns meses de recontros e pelejas, voltei à terra onde nasci. Pulava-me o coração ao ver ao longe o campanário da nossa abadia. Ia ainda ver o meu pobre pai, rezar um pater junto à lousa de minha mãe, abraçar Beatriz, minha irmã, tão linda! tão meiga! e que eu amava quase como Leonor. Oh! e também ia vê-la a ela, que, por certo, nem um só dia deixara de se lembrar de mim: ia contar-lhe, não os feitos d’armas, mas as saudades do seu cavaleiro! Ribeiros, fazia-os galgar de um pulo ao meu ginete; veigas, fazia-lhas desaparecer debaixo dos pés; outeiros, obrigava-o a transpô-los como se fossem piamos. O último tinha-o descido quando o Sol, envolto na sua vermelhidão da tarde, entestava com a terra lá no horizonte. Sente-se, mas não se diz o que eu então sentia. Cheguei. A entrada da povoação era a abadia: a igreja estava fechada e o sacristão à porta com as chaves na mão. Já não era o do meu tempo: fez-me isso tristeza. Perguntei sem saber porque: — “O Abade vela ou jaz?” — “Em trintário cerrado i dentro é com outros clérigos.” — “Por quem é o trintário?” — prossegui eu inquieto. — “Por um bom fidalgo da vizinhança que morreu, segundo dizem, de pena, porque uma filha que tinha e muito amava fugiu com um cavaleiro a quem, passando por aqui, ele dera gasalhado por algum tempo. Nunca mais comeu nem bebeu, e como era velho finou-se.” —“Fazendo assim, fora moço e se finara” — disse eu sorrindo descuidado, enquanto procurava na memória quem seria o fidalgo. Nenhum que eu soubesse nos arredores tinha filha donzela, senão meu pai e o de Leonor; mas que fosse algum deles claro estava que era impossível. Ia a apertar ainda uma vez os acicates ao ginete para chegar antes da noite à ponte levadiça dos meus paços acastelados, mas por demais perguntei ao sacristão o nome do morto que jazia em trintário... Era o de meu pai!... Uma faísca de lume me centelhou diante dos olhos: de um pulo eu estava pegado com a porta da igreja: as escamas das minhas manoplas bateram nela como um vaivém e, com um som que se prolongou pelas naves, via-a aberta e lá no meio uma tumba cercada de brandões acesos e [18] ao redor padres que rezavam latim. Logo me achei ao pé deles: abri a tumba: era meu velho pai... era ele!... Com os olhos fechados, não me viu... com os lábios cerrados, não me sorriu... com as mãos cruzadas sobre o peito, não me abençoou!... Arrojei-me sobre ele: beijei-o: era como uma pedra gelada! Um dos que aí estavam disse não sei o que, chegou-se a mim e quis arrancar-me dali. Estendi com fúria o braço: a minha manopla tornou a encontrar o que quer que foi. Ouvi um grito rouco e como um corpo de homem que caía desamparado sobre as lajens do pavimento. Não percebi mais nada; porque neste momento perdi os sentidos.”

Aqui Fr. Vasco fez uma larga pausa, correndo a mão pela testa, como quem afastava uma idéia dolorosa. Tinha os lábios brancos, e nos olhos bailavam-lhe duas lágrimas. Pelas faces de Fr. Lourenço já outras duas tinha escorregado


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