Herculano Pires Arigó vida, mediunidade e martírio



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Herculano Pires
Arigó

vida, mediunidade e martírio



José Pedro de Freitas - (Zé Arigó)
(18.10.1921 - 11.01.1971)

Apresentação da obra


Para se entender a mediunidade é preciso vê-la com isenção de ânimo, isto é, sem preconceitos. Mas, também, sem medos. Como Herculano Pires apresenta neste livro, onde estudou o fenômeno mediúnico que por muitos anos fizeram movimentar a imprensa brasileira e a mundial e que se convergiram para Congonhas do Campo, em Minas Gerais, onde nasceu e viveu o médium José Arigó, responsável pela mediunidade curadora.
Sumário

Arigó: Um Desafio / 04

Primeira Parte - O Impacto Arigó

I - A Vida de Arigó / 12

II - A mediunidade de Arigó / 28

III - A Martírio de Arigó / 44

Segunda Parte - Arigó e o Paranormal

I - Do Aleijadinho ao Arigó / 58

II - Da benzedura à cirurgia / 65

III - O homem e o meio / 72

IV - Perfil social de Arigó / 82

V - Situação social de Arigó / 92

VI - Mitologia de Arigó / 99

VII - Arigó perante a Ciência / 106

VIII - Exames à ponta de faca / 115

IX - Reconhecimento do Paranormal / 126

Terceira parte - Depoimentos Médicos

I - Relato de um especialista / 137

II - Um professor de cirurgia / 146

III - Cura de um caso de câncer / 151

IV - Cicatrização Imediata / 157

V - Telediagnose e cura à distância / 163

VI - Arigó: indivíduo metergético / 170

VII - Telecinesia cirúrgica / 178

VIII - Balanço do caso Arigó / 185

A - Balanço dos fenômenos

B - Balanço das operações

C - Casos de cura

D - Observações finais

Bibliografia sumária / 196

Arigó: Um Desafio

É preciso deixar bem claro para o leitor, seja ele espírita, católico, protestante, livre-pensador, materialista ou de qualquer outra posição ideológica, que o caso Arigó não é religioso. Tem, naturalmente, o seu aspecto religioso, mas o seu ponto central, o seu interesse fundamental é o desafio que ele lança aos meios científicos. Não se pode resolver o problema Arigó no quadro dos conflitos religiosos, onde, aliás, ele já se situou espontaneamente como espírita. Não se pode resolvê-lo também no quadro das disputas filosóficas. Mas no quadro das investigações científicas ele pode e deve ser resolvido. Vários motivos se opõem a essa solução entre nós: os preconceitos culturais que afastam os homens de ciência das investigações dessa natureza; os preconceitos religiosos que criam barreiras ao interesse de alguns cientistas mais arejados, ameaçando-os surdamente com perigosas conseqüências sociais; a mentalidade estreita que preside às atividades de nossas incipientes organizações científicas e, naquelas em que há maior arejamento, a pobreza, a falta de recursos financeiros e técnicos para um empreendimento de vulto, como seria o exame aprofundado do caso Arigó.

Por essas mesmas razões, outro grande desafio permanece até hoje em suspenso: o caso Chico Xavier. Desde 1932, quando foi publicado o Parnaso de Além Túmulo, Francisco Cândido Xavier vem desenvolvendo uma atordoante atividade psicográfica. Romances, contos, poesias, ensaios, volumes de interesse histórico, filosófico, científico e religioso, atingindo mais de cem livros foram por ele psicografados, lançados por várias editoras, traduzidos para diversas línguas e vendidos em edições sucessivas. O máximo que se fez, até agora, foi acusar o médium de pasticheiro ou ignorá-lo. A prova máxima de indiferença temos neste fato quando o professor A. da Silva Mello quis combater todas as formas de espiritualidade existentes no país, lançando-se também contra as ocorrências mediúnicas, publicou o vasto volume de "Mistérios e Realidades Deste e do Outro Mundo", em que Chico Xavier não foi sequer mencionado.

A posição dos nossos homens de ciência é muito cômoda. Alegam que Pierre Janet explicou a existência da escrita-automática e que a chamada psicologia profunda revelou a ação do inconsciente nessas produções escritas. A verdade é bem outra. Pierre Janet teve o mérito de iniciar a investigação da escrita-automática, mas nem ele, nem a psicologia profunda chegou a uma solução do problema. Chico Xavier é um desafio, precisamente, a esse ponto morto da investigação científica.

E é só. Quando um sabichão, como dizia Charles Richet, é interpelado a respeito do caso num programa de televisão ou num auditório de debates culturais, responde sempre a mesma coisa, a mesma auto-suficiência de outros sabichões de trinta anos atrás, como se a ciência tivesse parado no mundo, semelhante ao sol bíblico que parou no céu por ordem de Josué: "É escrita-automática, pastiche inconsciente".

Não se sabe de nenhuma organização científica do Brasil que houvesse tomado uma atitude científica em face do caso Chico Xavier. Não é pois de admirar que o mesmo esteja ocorrendo com o caso Arigó. Mas a verdade é que Arigó se apresenta muito mais agressivo. Não escreveu a série de "romances romanos" do Chico - suficiente, por si só, para levantar uma querela histórico literária em qualquer meio cultural menos acomodatício - mas empunhou a faca, o canivete, a tesoura e se pôs a realizar intervenções cirúrgicas arrepiantes, sem anestesia nem assepsia e sem causar dores nem infecções. Apesar dessa agressividade, dessa forma insólita de provocação, só teve uma resposta dos nossos meios culturais: uma querela jurídica nos tribunais e a condenação à cadeia, por uma sentença tão iníqua que o Próprio Supremo Tribunal Federal teve de anulá-la, fazendo-o por unanimidade. As manifestações de interesse do exterior foram sufocadas facilmente: cientistas norte-americanos consultaram o Itamarati sobre a possibilidade de virem examinar Arigó ou de o médium viajar para os Estados Unidos, mas Arigó estava entre as grades. Parapsicólogos argentinos vieram a Congonhas, enviaram protesto ao nosso Governo para forma de tratamento dispensado ao sensitivo, mas tudo ficou na mesma. Um renomado cientista norte-americano abalou-se a descer no Rio, voar para São Paulo e seguir até Congonhas: foi operado por Arigó, a operação foi filmada, exibida em meios científicos, e só provocou entre nós sorrisos de suspeição e alegações idiotas, como esta que nos foi feita numa Faculdade de Medicina: "Trata-se de uma operação banal".

Sim senhores: "uma operação banal"! Arigó tomou o canivete de um caipira, sujo de fumo e outras misérias, e sem anestesia nem assepsia cortou o braço do cientista e apertou o lipoma, fazendo-o saltar como caroço de ameixa. Não houve dor, nem infecção posterior. O cientista fez declarações a respeito, que foram gravadas, e posteriormente, em reunião científica nos Estados Unidos, relatou o fato em minúcias, encarecendo a necessidade de investigação séria do caso Arigó. Um psiquiatra famoso, diretor do Hospital Roosevelt, de New York, tomando conhecimento desse e de outros fatos, emitiu grave parecer a respeito e reafirmou o desejo dos médicos americanos de estudarem o caso. Mas quem se importou com isso? Para a ciência brasileira, para as nossas academias de Medicina, para as nossas Universidades, para as nossas associações médicas, o caso Arigó está resolvido. Foi encaminhado à Justiça e era tudo o que se tinha a fazer. O rotulo de curandeiro é o seu epitáfio.

A documentação médica apresentada neste volume demonstra que, felizmente, o nosso meio médico não é assim tão opaco como oficialmente faz questão de parecer. Há alguns loucos, alguns lunáticos, alguns retrógrados que, por conta própria, se atrevem a ir a Congonhas, observar os fatos; registrar ocorrências espantosas, e depois não se pejam de declarar em público o que viram. São livres atiradores, vozes isoladas, certamente sem significação. Seus diplomas deviam ser anulados, seus registros profissionais cancelados. Porque esses exemplos são perigosos. Podem levar a nossa ciência, esta ciência brasileira tão auto-suficiente que chega a torcer o nariz diante das experiências de Rhine e Soal, de Vassíliev e Carington, aos descaminhos da superstição espiritualista. Imagine-se o que aconteceria se amanhã ou depois o academicismo professor Silva Mello, que se confessa exemplar do homem tropical superior (réplica brasileira ao racismo nazista) se visse obrigado a renunciar à superioridade intelectual do seu ateísmo e do seu materialismo congênito! Preferível, mil vozes, o espiritualismo brejeiro do padre Quevedo ou de frei Albino Garibaldi, apoiados nas sólidas bases científicas do ilusionismo e na argumentação romântica dos sofismas. Desse alegre espiritualismo nada se tem a temer: a grave ciência acadêmica pode continuar incólume através de todos os desafios.

A verdade, porém, é que os desafios não cedem, não recuam, não desaparecem. Continuam ali, em Uberaba e Congonhas, com ramificações teimosas pelo resto do país. E por mais que se queira reduzi-los ao silêncio ou ao ridículo, eles nem se calam nem se desmoralizam. Tomemos o caso Arigó para exemplo: nem processos, nem calúnias divulgadas com ares de coisa séria, pela imprensa, pelo rádio e pela televisão, nem mesmo a prisão do médium conseguiram abafar o caso ou diminuir o interesse público a respeito. E podemos afirmar ainda mais: todos os esforços feitos para a redução do fenômeno às suas mais simples expressões, com as tentativas de explicação hipnótica e quejanda, não foram suficientes para diminuir-lhe a importância e a grandeza. Arigó, mesmo reduzido a charlatão, continuaria inexplicável. Porque aonde já se viu um charlatão que não recua diante dos maiores especialistas no campo de suas próprias especialidades? Tratar-se-ia, pelo menos, de um charlatão genial. Tanto mais que um charlatão sem aparatos, sem ajudantes ou comparsas, de mangas curtas, camisa aberta ao peito, manipulando suas charlatanices em plena luz e bem perto do nariz de todos os investigadores.

A segunda e a terceira partes deste livro, aumentadas neste volume, constituíram o lançamento da Livraria Francisco Alves em 1963, intitulado: Arigó, um caso de fenomenologia paranormal. Foram ambas traduzidas nos Estados Unidos pelo sr. S. J. Haddad, a pedido do dr. William Belk, presidente da Belk Foundation Research. A primeira parte é nova, escrita especialmente para a segunda edição da obra. Entendemos conveniente acentuar os aspectos da vida, da mediunidade e do martírio de Arigó para que os leitores tenham uma visão mais completa do caso e para que este livro possa pesar um pouco mais na consciência dos nossos meios culturais. Relegar um caso como o de Arigó exclusivamente ao âmbito de um movimento religioso, e por outro lado insistir em arquivá-lo no documentário jurídico-criminal, é cometer a frio um monstruoso crime contra o progresso das Ciências. Que este livro, pelo menos, marque a fogo esse crime em nossa bibliografia.

Há mais de vinte anos Arigó permanece em Congonhas, entre as estátuas bíblicas do Aleijadinho, como um desafio sem resposta. Nossos meios científicos esperam o momento em que ele também se transforme em estátua. Um Arigó talhado em pedra-sabão será tão inofensivo quanto o profeta Daniel com o leão domesticado a lamber-lhe as mãos, no adro do mosteiro de São Bom Jesus de Matozinhos. Mas a dinâmica da mediunidade não é facilmente abafada pela indiferença. Ela continua a explodir e o seu desafio já vai aos poucos se estendendo por outras áreas do território nacional, como veremos neste livro. Arigó não é apenas um desafio: é também um sinal dos tempos.

Uma palavra final sobre o Instituto Paulista de Parapsicologia, instituição que já devia ter tomado posição no caso Arigó. Como um dos diretores dessa entidade, cabe-me explicar que ela não tem contado, até hoje, com os recursos necessários para enfrentar essa urgente e melindrosa tarefa. Faltam-lhe recursos financeiros e técnicos. Não se pode fazer ciência apenas com boa-vontade. Quando o IPP conseguir os meios necessários para a sua completa organização, equipando-se à altura, poderá enfrentar os desafios acima referidos.

As últimas visitas que fiz a Congonhas comprovaram-me a continuidade dos trabalhos mediúnicos de Arigó e o interesse mundial em torno do caso. Os cientistas norte-americanos da equipe do Dr. Andrija Puhariche continuam a visitar Congonhas - vindo um ou dois de cada vez e ali permanecendo uma semana ou mais para continuarem suas pesquisas. Uma equipe de quinze elementos da televisão de Tóquio (Nipon Television Network Corporation) acompanhando o professor e escritor Toshyia Nakaoka, de Chiba - duas vezes operado pelo médium - fez ampla reportagem sobre as atividades de Arigó e combinou a vinda a Congonhas de uma equipe de cientistas japoneses para investigar o caso.

Outro fato notável: o dr. M. G. Kappemberger, de Lugano-Masagno, Suíça, diretor de um laboratório internacional - operado pelo médium - solicitou licença para voltar com uma equipe de pesquisadores. Arigó, como sempre, concordou e facilitou a hospedagem da equipe, que deverá chegar ao Brasil nos meses próximos.

Observei Arigó durante quinze dias de permanência em Congonhas. Anotei, nos períodos da manhã (das 7 às 11 horas) e da tarde (das 16 às 18 horas) todas as ocorrências significativas que pude testemunhar. Num período anterior de cinco dias submeti-me a uma experiência pessoal, sendo operado pelo Dr. Fritz por um processo de cirurgia simpatética raramente praticada em Congonhas. Trata-se de um tipo de operação a que aludi no capítulo segundo, Da Benzedura à Cirurgia, da Parte II deste volume, referindo-me à médium Bernarda Torrubio.

Todos esses elementos serão utilizados em novo trabalho que lançarei em breve. Não posso fazê-lo neste volume, que já atingiu a sua forma definitiva, tornando-se básico para o conhecimento do caso Arigó. Sua estrutura deve ser mantida nas futuras edições, conservando a pureza das primeiras verificações e interpretações do caso.

Primeira Parte - O Impacto Arigó
I

A Vida de Arigó

José Pedro de Freitas, vulgo Arigó, é um homem simples. Nasceu, cresceu, viveu e sofre em Congonhas do Campo (hoje apenas Congonhas), próximo a Belo Horizonte, em Minas Gerais. Sua vida não apresenta lances de heroísmo nem realizações sociais, políticas ou intelectuais que o pudessem destacar entre os seus concidadãos. Homem comum, vive o dia-a-dia da cidade em que todos o conheceram desde a mais tenra idade, pois pertence a uma família tradicional. Mas José Pedro de Freitas é médium. E trouxe para a atual existência uma das mais árduas missões que uma criatura humana pode enfrentar na terra: a de provar a natureza espiritual do homem, que a Ciência e a Filosofia procuram negar por todos os meios possíveis e impossíveis, enquanto as religiões se esforçam para conservá-la oculta nos véus arcaicos dos seus mistérios. Bastaria isso para que a sua vida humilde se transformasse em martírio, como realmente se transformou.

A mediunidade, faculdade humana de ligação com o mundo espiritual, é considerada pelo Espiritismo como uma das constantes da condição do homem, desde todos os tempos. Num livro intitulado O Espírito e o Tempo propondo-nos a fazer uma introdução histórica ao Espiritismo, tentamos esboçar um ensaio de antropologia mediúnica. Investigamos nesse livro o processo de desenvolvimento da faculdade mediúnica através do tempo, desde as fases primitivas da vida humana na Terra, demonstrando a sua importância para a compreensão do processo cultural em cuja crista nos encontramos no momento. Vemos então a maneira por que essa faculdade se desenvolve em dois planos: no individual e no coletivo. No plano individual temos a eclosão da individualidade profética que marca um momento de transição da vida terrena para a fase das grandes civilizações. O médium propriamente dito é a individualidade que se destaca da mediunidade generalizada, definindo-se como um missionário a serviço da evolução humana. Esse o caso de Arigó, em nosso tempo.

A tese espírita da mediunidade, largamente ridicularizada pelos sabichões do passado e do presente, está hoje cientificamente confirmada. A investigação das chamadas funções psi pela Parapsicologia (reencarnação científica da Metapsíquica de Richet) demonstrou, através de rigorosas experiências de laboratório, a absoluta validade da tese espírita nos seus dois aspectos: o coletivo e o individual. A Parapsicologia reconhece a generalidade das funções psi e ao mesmo tempo a sua especificidade nas manifestações individuais, através de sensitivos ou sujets paranormais que numerosos parapsicólogos não temem chamar acertadamente de médiuns. Graças a isso, pela primeira vez na História podemos tratar da vida, da mediunidade e do martírio de um médium, encarando-os ao mesmo tempo na perspectiva espírita e na científica, dentro dos próprios quadros da ciência acadêmica.

A vida do médium Arigó se apresenta, assim, como a primeira a se projetar, ao mesmo tempo, no plano do interesse espirítico e no plano do interesse científico, da mesma maneira: como a de um homem dotado de faculdades paranormais. Todos os médiuns anteriores só foram encarados assim pelo Espiritismo. No plano científico foram estudados como anormais e no plano religioso foram considerados endemoninhados ou santos, o que vale dizer que eram dotados de dons sobrenaturais. A posição espírita saiu vitoriosa. É hoje a única reconhecida pela Ciência. Isso nos permite tratar da vida de Arigó, neste livro, nas duas perspectivas, sem que possamos ser acoimados de sectaristas, a não ser pelos que, sendo realmente sectaristas, não podem encarar com isenção de ânimo os problemas desta natureza.

Desde criança Arigó revelou sua mediunidade, embora, como é natural, não fosse compreendido. Quantas vezes sofreu castigos injustos dos próprios pais, acusações infundadas dos próprios irmãos sem que pudesse defender-se. Posto desde cedo na faina do campo, revelou-se submisso e trabalhador, mas dotado de uma sensibilidade exagerada que o distanciava dos outros meninos. Contou nos que, na fazenda do pai, quando mandado a vigiar o mato, em que mulheres pobres furtavam lenha, ajudava-as a escapar com seus feixes ao ombro. Enquanto os irmãos furavam os depósitos de farinha ou de fubá para fazerem vendas furtivas, ele os furava para distribuir auxílio aos necessitados. Tivemos ocasião de participar de agradável palestra a respeito desses fatos na casa de Arigó. O assunto não fora provocado por nós, mas pelos próprios irmãos do médium, que riam ao se lembrarem de vários episódios. O repórter José Franco, de Belo Horizonte, o cel. Genésio Nitrini e os comerciantes Vicente Zanoni (pai e filho), de São Paulo, testemunharam essas conversas. Arigó contou-nos ainda, confirmando o que o espírito do Dr. Fritz já nos havia dito, que, ao procurar animais no campo ouvia vozes que o mandavam seguir nesta ou naquela direção. Não querendo aceitar essas interferências em seu trabalho, seguia em rumo contrário, mas depois tinha de voltar para a direção indicada, que era sempre a certa. Fritz nos disse que Arigó se mostrava "um cabeça-dura" e que muito trabalho lhe deu para controlar a sua mediunidade.

Quando moço, começando a integrar-se na sociedade, viu-se em dificuldades com os hábitos da juventude. "Eu estava numa roda de esquina, conversando - contou-nos ele, sempre confirmado por testemunhas, companheiros do tempo - e de repente começavam a contar anedotas pesados ou a falar de assuntos maliciosos e era a conta: a voz me dizia para sair dali". Nessa fase a cabeça-dura de Arigó já havia melhorado e ele obedecia a voz. Quando ia a Belo Horizonte a serviço, e quando lá esteve trabalhando por algum tempo, foi várias vezes atraído para aventuras amorosas, como acontece, a todos os jovens. Mas a voz estava alerta e se ele se recusava a obedece-la, sofria duras conseqüências.

- "Uma vez - contou-nos - subi num dos últimos andares de um prédio, a serviço, num sábado. Estava com a cabeça virada, pensando numas malandragens que combinara para a noite. Já no fim do expediente senti necessidade de ir ao mictório. Quando quis sair, não consegui. A porta estava fechada e não havia maçaneta no trinco, por dentro. O pessoal do andar já havia descido. O prédio se fechara. Fiquei ali até segunda-feira de manhã. Sábado e domingo preso num cubículo, com sede e fome. Quando saí e me encontrei sozinho no quarto, a voz me perguntou se me havia divertido muito. Nunca mais quis saber de me meter em bagunças".

Com estórias dessa espécie Arigó ao mesmo tempo nos revela a constância da sua mediunidade e desculpa as suas virtudes. "Eu não podia fazer coisas malfeitas - assegura - porque os espíritos não me deixavam em paz". Na verdade, se o deixassem, ele se arrependeria mais tarde. Porque é evidente que a sua evolução espiritual o predispunha ao cumprimento de uma missão mediúnica. Mas o meio exerce influência inegável no espírito reencarnado. Vidas como a de Santo Agostinho e a de Francisco de Assis nos mostram a que descaminhos iniciais um missionário pode ser levado, por força do ambiente. Às vezes esses descaminhos favorecem a integração social do espírito em sua nova existência, para que ele passa melhor desincumbir-se de seus trabalhos. De outras vezes, de acordo com a natureza da missão, como no caso Arigó, esses descaminhos podem ser perigosos e então as forças espirituais intervêm. Estes são problemas espíritas que a Parassociologia estudará amanhã, como a Parapsicologia estada hoje os de sua alçada.

Depois de casado Arigó sentiu que as suas faculdades começavam a aguçar-se de maneira assustadora. Sua esposa e prima, d. Aríete, contou-nos as dificuldades que teve de enfrentar com o marido. Acordava às vezes assustado, vendo vultos no quarto. Fritz lhe causava pavor, Quando o percebia, com seu corpo volumoso e sua "cara de alemão", como ele diz, "um carão avermelhado", e além do mais com enorme calva, gritava e fugia. Certa noite saltou pela janela e saiu correndo pelas ruas, alucinado, em trajes menores. Como geralmente acontece no desenvolvimento de mediunidades complexas, Arigó sofreu durante anos essas provas difíceis, mas enfrentou-as com a naturalidade de quem traz no íntimo, no mais profundo da memória inconsciente, aquilo que poderíamos chamar a cripto-consciência do seu destino, da sua missão.

Católico, de família tradicionalmente católica, Arigó nunca atribuiu os fatos estranhos que ocorriam com ele a influências espíritas. Freqüentava a Igreja, praticava a religião em que fora criado e confiava em Deus. Contou-nos, aprovado pelos familiares, numa reunião em sua casa, que os hábitos da casa paterna eram rigorosamente pautados pelos princípios religiosos. E acrescentou este episódio pitoresco, mas comum nas antigas zonas sertanejas: "À noite, no tempo da colheita, meu pai nos reunia para rezar e debulhar milho. Ficávamos em roda do monte de espigas e era só "Padre nosso", "Ave-Maria", até à hora de dormir, rezando e debulhando milho". O céu e a terra se fundiam nesses serões familiares da roça em que César e Deus eram servidos ao mesmo tempo. O espírito ingênuo dos roceiros não podia atinar com as distinções sutis do Evangelho, ou talvez as interpretasse de maneira mais certa, pois fundindo prece e trabalho dava a César o que lhe pertencia e a Deus o que só a Ele podia ser dado.

Mais tarde Arigó iria fazer a distinção de maneira mais rigorosa. Começou a exercer a sua mediunidade curados sem jamais pedira menor recompensa nem aceitar o menor presente pelas curas obtidas. "Isso é com Deus", dizia ele. Para viver, trabalhava. A esposa, "esta santa", como ele se refere a d. Aríete, ajudava-o a sustentar a casa. Pobres, numa terra de imensas riquezas, pertenciam a uma família abastada e continuavam na pobreza. Só muito depois que a fama de Arigó correu pelo Brasil e expandiu-se pelo exterior o médium conseguiu, graças à ajuda dos familiares ricos, deixar a casinha humilde em que vivia e passar para uma residência melhor. Então, as más línguas começaram a cortar: "Vejam só, que palacete! De onde ele tirou tanto dinheiro?". Arigó nos disse, de olhos úmidos: "Quando eu estava na lona essa gente dizia: maldita doutrina, que faz um homem viver nessa miséria! Agora que Deus me permitiu melhorar, diz: "É isso, está vivendo da religião". Mas baixou os olhos e acrescentou: "Tem de ser assim, pois quem usa, cuida".




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