Herculano Pires e Júlio Abreu Filho o verbo e a Carne



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Os Dez Mandamentos


A apoteose da obra de Roustaing não é a Ressurreição mas o Decálogo. O ciclo obsessivo dos retornos periódicos tinha de fechar-se no retorno bíblico. Os Quatro Evangelhos são uma constante mistura de comentários que vão e vêm, como num redemoinho, entre o Velho e o Novo Testamento. É essa também uma técnica de fascinação. O leitor se sente aturdido, mas atraído para o torvelinho. Quanto mais se aturde, mais se afunda no báratro das idéias em conflito, das explicações mil vezes repetidas. Há mesmo um leit-motiv exasperante, no estilo do Bolero de Ravel, girando em parafuso para levar o leitor ao fundo de um poço. Mas lá não se encontra a Verdade em sua nudez lendária e sim o dragão24 de boca chamejante.

Toda a força obsessiva de Roustaing, que primeiro o tragou para depois tragar os outros, está nesse processo alucinador. Veja-se este slogan repetido do primeiro ao quarto volume: “segundo a letra, sob a capa do mistério, sob o prestígio do milagre”. O leitor o lê e ouve pela primeira vez no prefácio. E dali por diante não deixa mais de vê-lo e ouvi-lo. É a técnica umbralina da obsessão, segundo o método hipnótico. Repetir, repetir e rodar sem parar. A mente adormece e o espírito se entrega.

Isso explica a recomendação dos pregoeiros do Roustainguismo: voltar à posição zero antes de iniciar a leitura da obra, desprevenir a mente, abandonar-se ao relax consciencial, abdicar do julgamento. Só assim o leitor se porá em condições de abrir o terceiro olho que enriqueceu Lobsang Rampa. E ao abrir esse olho demoníaco fechará para sempre os dois que Deus lhe deu para ver com clareza e precisão.

O tom místico da obra, não do Misticismo elevado25 que leva ao êxtase, mas do misticismo fanático que arrasta à fascinação, pode ser facilmente exemplificado por este breve trecho em que a humildade e a arrogância, a ingenuidade e a esperteza, a reverência e a malícia se revezam na movimentação do circuito obsessivo. Roustaing, o Revelador, o novo Messias, conta primeiro o que recebeu:

“Em maio de 1865 todos os materiais estavam preparados, tanto a respeito dos Evangelhos como dos Mandamentos. O aviso de dar a conhecer aos homens, de publicar a obra da revelação me foi espontânea e mediunicamente transmitido em termos precisos”.

E a seguir desencadeia as forças emocionais do caos, que vão num crescendo da humildade até à onipotência. Atrás dele estão Moisés, os evangelistas e os apóstolos:

“Mero instrumento, cumpri meu dever executando tal ordem, entregando à publicidade esta obra, que põe em foco a essência de tudo o que há de sublime na bondade e na paternidade de Deus; tudo o que há de devotamento, de abnegação e de sentimentos fraternais em Jesus, chamado o Cristo, que tão bem mereceu o título de salvador do mundo, de protetor da Terra”.

“A meus irmãos, quaisquer que eles sejam, quaisquer que sejam suas crenças, o culto exterior que professem, corre o dever de não se pronunciarem sobre esta obra senão depois de a terem lido integralmente e de terem seriamente meditado na explicação dos Evangelhos e dos Mandamentos. Indivisível no conjunto, suas diversas partes são solidárias e mutuamente se apóiam”.

Temos a impressão de ouvir, nesse ritmo solene, o próprio Moisés advertindo o povo ou Maomé proclamando a supremacia do Alcorão. Qual o espírito ingênuo e ansioso de superação de si mesmo, quem não se emocionará com esse tom de súplica e de ordenação ao mesmo tempo? As cabeças se curvam ante a vontade do Eterno. Os corações batem descompassados. É a hora em que as correntes de fluidos estrondam como trovões e arrebentam em raios no alto do Sinai, segundo a explicação final do livro. A hora em que a tábua das leis vai cair sobre Israel. A liberdade cristã é uma promessa distante, mas os espíritos crédulos a esperarão através de duas mil páginas, equivalentes aos dois milênios do Cristianismo deformado pela dogmática dos clérigos.26

No final da obra, esgotados os recursos da “nova revelação” os caminhantes exaustos encontrarão a montanha e Os Dez Mandamentos. Voltamos então ao panorama bíblico dos morticínios, das matanças a fio de espada27 e das justificações divinas para todas as atrocidades. Para cada absurdo haverá uma explicação. Para cada crime a sua justificação. Para cada genocídio a sua razão secreta, oculta na mente divina mas arrancada do seu mistério pela vara mágica de Moisés.

Vejamos esta “obra prima” de raciocínio justificativo, que faz do Espiritismo um endosso a todos os genocídios, de Moisés a Hitler e a Truman.

O trecho bíblico escolhido é o do Êxodo; 32: 26 a 29. Transcrevemos apenas o trecho principal:

“Filhos de Levi, disse-lhes ele (Moisés): Eis o que diz o Senhor, o Deus de Israel. Ponha cada homem na cintura a sua espada; passai e repassai através do campo, de uma porta a outra, e que cada um mate seu irmão, seu amigo e aquele que lhe for mais chegado. Os filhos de Levi fizeram o que Moisés lhes ordenara e houve cerca de três mil mortos nesse dia. Então, Moisés lhes disse: Tendes, cada um de vós, consagrado vossas mãos ao Senhor, mesma matando vosso filho e vosso irmão, a fim de que a bênção de Deus vos seja dada”.

Agora a explicação piedosa dos “ministros de Deus”:

“Entre os encarnados da geração a que nos estamos referindo havia também uma categoria de Espíritos que tinham de expiar assassínios por eles cometidos (nessa época grosseira se praticavam tantos!) e que pediram aquela expiação para conseguirem, pela aplicação da lei de talião, depurar-se, reparar e progredir. Os que tombaram mortos aos golpes dos levitas tiveram uma sorte prevista e por eles pedida, porquanto uns pertenciam à categoria dos que haviam tomado por missão manter na Terra e popularizar a idéia da unidade de Deus e rogado que o curso da existência terrena lhes fosse detido, caso, faltassem aos seus compromissos. Pertencendo os outros à dos que, tendo de expiar assassínios por eles cometidos anteriormente, pediram aquela expiação e a enfrentaram. Foi assim que nenhum golpe se perdeu, porque, em circunstâncias tais, como deveis compreender, os Espíritos protetores, prepostos a vigiar as provas e expiações de cada um, para que elas se cumprissem, impelindo os culpados ou dirigindo as espadas dos que acutilavam, faziam que aqueles recebessem os golpes que os prostrariam”.

Os mandamentos, assim, explicados, tornam-se humanamente aceitáveis e a revelação espírita se engrandece na perícia com que os Espíritos protetores dirigiam os golpes assassinos. Entretanto, na tábua das leis estava gravado o mandamento: “Não matarás”.28 Essa explicação está assinada por Moisés, Elias, João, Mateus, Marcos, Lucas, João, assistidos pelos apóstolos. O primeiro João é o Batista, o segundo o Evangelista. Todos eles se reuniram no endosso ao morticínio fratricida, certamente por solidariedade a Moisés. O que não deixa de ser um gesto de fraternidade...

A explicação do “Não matarás” é outra jóia de compreensão cristã das atrocidades antigas. Dizem os “ministros de Deus”:

“Este mandamento, muito vago em seu enunciado, tem um alcance maior do que o supondes e ultrapassa de muito os limites de vosso ser. Em cada uma das fases do seu passado a humanidade o interpretou segundo as suas necessidades. Em cada uma das fases do seu futuro o interpretará de maneira a lhe ampliar a inteligência e a aplicação”.

Pelo que vimos no caso de Moisés, é possível que no futuro esse mandamento possa ser aplicado num sentido mais amplo: “não matarás à espada nem a tiros, mas a bombas de hidrogênio”. Sim, porque é possível que a morte coletiva de milhões de pessoas se torne uma exigência cármica. E então os Espíritos protetores não terão o trabalho minucioso de dirigir as espadas, mas obterão o máximo resultado com o mínimo esforço, dirigindo apenas o lançamento da bomba.

Chegados a esta apoteose, que nos lembra os deuses homéricos participando da destruição de Tróia, parece-nos que o caso Roustaing não precisa de mais nenhuma tentativa de análise. Tivemos num flash a fotografia de corpo inteiro da “revelação da revelação”. Essa é a obra que vem sendo divulgada como complementação da obra de Kardec. Nova edição dos quatro alentados volumes de Roustaing está sendo anunciado para todo o Brasil. Artigos veementes são publicados em defesa e louvor dessa “última palavra” da Doutrina Espírita. E isso numa fase em que o Espiritismo entra, em nosso país, em perfeita conexão com o desenvolvimento nacional, num período de intenso crescimento cultural.

As novas gerações, particularmente as de estudantes universitários, que já podem fazer os seus cursos em Faculdades que prenunciam o breve aparecimento das Universidades Espíritas, pois fundadas e mantidas por instituições doutrinárias, poderão inteirar-se agora dos “novos ensinos” que nos chegam das esferas superiores. Moisés, os evangelistas e os apóstolos supriram com grande antecedência as nossas necessidades no campo da cultura.

Devemos estar, nesta hora do mundo, sob a ação de um pesado carma* coletivo para termos assim de voltar ao exame de livros dessa natureza, editados e reeditados como espíritas. Paciência. Os “ministros de Deus” já nos explicaram como tudo acontece para o bem dos homens e a alegria dos anjos.



* * *

* [Carma – Este termo não deve ser utilizado dentro do Espiritismo, por não se encontrar em nenhuma das Obras de Allan Kardec. A palavra carma foi “introduzida” recentemente no Espiritismo através das chamadas obras subsidiárias, ou seja, os livros psicografados “escritos por espíritos através de um médium”, mas não é utilizado em nenhum momento nas obras de Kardec. A palavra carma (em sânscrito karma ou karman e em pali kamma) utilizada na Índia e por muitas correntes filosóficas religiosas, significa em primeira instância “ação”, “trabalho” ou “efeito”. No sentido secundário, o efeito de uma ação, ou se preferirmos, a soma dos efeitos de ações (vidas) passadas se refletindo no presente.29 Na concepção hindu, carma quer dizer “destino” (canga) determinado ou fixo, ou seja, aqueles cujos atos foram corretos, depois de mortos renascerão através de uma mulher brâmane (virtuosa), ao passo que aqueles cujos atos foram maus, renascerão de uma mulher pária (castas inferiores) e sofrerão muitas desgraças, acabando como simples escravos.30 Inclusive uma pessoa nascida numa casta impura (um varredor de ruas, um auxiliar de crematório, por exemplo) deve permanecer na profissão herdada. Cumprindo o melhor possível e de maneira ordenada a sua função, tornar-se-á um perfeito e virtuoso membro da sociedade. Por outro lado, ao interferir nas tarefas de outras pessoas, ele será culpado de perturbar a ordem sagrada. (...), mesmo a prostituta, que dentro da hierarquia da sociedade está aquém da virtuosa dona de casa, pode participar – caso cumpra com perfeição o código de sua desprezível profissão – do supra-humano e transindividual Poder Sagrado que se manifesta no cosmo. Ela pode até fazer milagres que desconsertam reis e santos.31

Sabemos, por orientação dos Espíritos, que quando reencarnamos não escolhemos um destino e sim um gênero de prova que cabe a cada um enfrentar ou recuar.32 Desta forma, não devemos usar a palavra Carma dentro do Espiritismo e sim Causa e Efeito, porque os detalhes dos acontecimentos da vida estão na dependência das circunstâncias que o homem provoca, com os seus atos.33 Se encararmos o carma como um fim total e irredutível, teremos um problema sério quando falamos de existência e sofrimento.34 O carma foi “inventado” pelos arianos, quando estes invadiram a Índia pelo rio Indo, trazendo consigo sua religiosidade e “criando” as castas para se diferenciarem dos párias e rebaixá-los a posições subalternas. Se pensarmos no carma como um fim último estagnamos o homem, da mesma forma quando aprovamos ou aceitamos a salvação apenas pela justificação da fé ou através da predestinação. O carma na época surgiu para os indianos como uma possibilidade de explicar e entender o mundo, o homem e sua existência. Se realmente existe os deuses ou um Deus bom, por que algumas pessoas nascem gênios e outras idiotas? Como os deuses julgarão em um suposto juízo final os homens que não tiveram oportunidade de conhecê-los? Se Deus é onisciente e onipresente, então não possuímos livre-arbítrio, estamos encurralados em uma predestinação ou carma. Se não utiliza sua onisciência não pode ser Deus. Estas são perguntas simples que qualquer senso laico já se fez, ou ainda faz, de sua existência.

Foram estas e muitas outras perguntas muito mais elaboradas que o sistema carma veio “resolver” ou tentar explicar. Explicar o mal e encontrar o meio de fazer que os homens o aceitem, se não com alegria, pelo menos com paz de espírito, têm sido a tarefa da maior parte das religiões.35 Para os ocidentais a palavra carma não deve ser levada ao pé da letra, mas de forma a entender que o indivíduo passa por situações difíceis e seu futuro é de sua responsabilidade. No Brasil poucas correntes filosóficas ou religiosas utilizam a palavra carma como os indianos, ou seja, um fim em si mesmo. Os esotéricos e os místicos, neste ponto, não se enquadram nos pensamentos esotéricos e místicos judeus, cristãos ou islâmicos, apesar de alguns filósofos destes pensamentos aceitarem ou discutirem a possibilidade da reencarnação. Os pensamentos cármicos estão mais próximos dos ensinos esotéricos e místicos por seguirem e utilizarem boa parte dos ensinos e da filosofia indiana, como é o caso do Shankya, do Vedanta, do Yoga e alguns outros, ou similares como é o caso dos pensamentos de Blavatsky que possui grande influência no meio esotérico e teosófico].

* * *

Criticando recentemente o livro Eram os deuses astronautas?, de Daniken, best-seller mundial, com grande venda no Brasil, o Prof. Anathol Rosenfeld assinalava o ridículo de todas as tentativas de combater as tolices dessa obra. Não obstante, escrevia ele, convinha expor-se ao riso das pessoas de bom senso para tentar esclarecer o assunto. O ridículo de certas concepções é às vezes tão grande que só merece o silêncio. O simples fato de querermos chamar a atenção das criaturas de exagerada boa fé para o ridículo do Roustainguismo é também uma atitude risível. A esse ridículo nos expomos conscientemente neste trabalho. Vale a pena enfrentar essa posição quixotesca pela só esperança de que alguém acorde do sono hipnótico ou alguém consiga evitar de cair nele.



Os Quatro Evangelhos é o cavalo de Tróia do Espiritismo. Nada mais ridículo do que os troianos recolhendo o engenho grego em sua cidadela, encantados apenas com a grandeza da obra. Ridículo também, por sua inutilidade, o vaticínio de Cassandra, pois o deus Apoio já o havia previamente anulado. Mas Cassandra tinha de fazê-lo por um dever moral. Os que não a ouviram pereceram e levaram o seu próprio reino à destruição total. Temos de enfrentar o ridículo com a coragem moral da profetisa troiana. Mormente agora, que o Cavalo de Tróia, trazendo no bojo os inimigos ferozes, está sendo de novo exibido aos basbaques do Espiritismo.

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