Hermes Magalhães Tavares



Baixar 274.6 Kb.
Página1/2
Encontro23.07.2016
Tamanho274.6 Kb.
  1   2

____­­­­­­ Hermes Magalhães Tavares, Ciência, Tecnologia E Inovação Na Metrópole Do Rio De Janeiro___ ___

CIÊNCIA, TECNOLOGIA E INOVAÇÃO NA METRÓPOLE DO RIO DE JANEIRO
Hermes Magalhães Tavares

E-mail: smtavares@uol.com.br

Universidad Federal De Río De Janeiro, Brasil

RESUMO

A industrialização no Brasil em seu momento inicial, de cerca de três décadas, teve no Rio de Janeiro, antiga capital do país, o seu locus privilegiado. De fato, em 1920, a metrópole carioca chegou a participar com 28% da produção industrial do país, posição que rapidamente foi perdendo para o Estado de São Paulo, no qual se destacava a capital, que iria assumir a posição de principal centro manufatureiro nacional.

A forte concorrência da indústria paulista  que ocupava fatias cada vez maiores do mercado nacional  e mais suas próprias dificuldades internas ( entre elas, o pagamento de elevados salários e a inexistência de uma base agrícola adequada) empurraram a indústria carioca para o declínio. Com o passar do tempo, outros fatores vieram agravar a economia da metrópole do Rio, entre os quais, inequivocamente, a mudança da capital do país, em 1960, para o Planalto Central (Brasília).

O parque industrial localizado na metrópole do Rio de Janeiro é o segundo do país; é uma indústria diversificada, mas com fraco grau de integração de seus componentes. Serviços modernos como o financeiro, informática, a engenharia, o “marketing”, declinam relativamente a São Paulo. Mesmo a atividade turística  notória vocação da metrópole  vem perdendo posição para outras áreas do país. A palavra crise, de longa data tornou-se corriqueira em todos os meios : crise industrial, crise econômica, crise urbana, crise social, etc. “Rio de todas as crises” foi o tema de um seminário realizado no final da década passada – o que reflete um clima psicológico pouco animador.

Esse quadro sombrio da segunda metrópole brasileira esconde, entretanto, o reverso, isto é, as suas potencialidades. Mencionemos apenas as mais relevantes. O PIB do Rio, em 1991 foi estimado em 46,7 bilhões de dólares, acima de muitos países. Sua renda “per capita” naquele ano era de US$ 5.850,00, contra US$ 2.800,00 da média nacional. Com uma população de 9,8 milhões de habitantes e elevado poder aquisitivo, o Rio de Janeiro constitui o segundo mercado regional do país. Por sua vez, a cidade destaca-se por suas atividades culturais e artísticas, o que lhe confere a primazia nacional nesse domínio. O Rio ocupa lugar privilegiado no “ranking” mundial de promoção de eventos científicos culturais e artísticos. Finalmente, a metrópole distingue-se pelo seu papel nos campos do ensino superior , da pesquisa e da inovação.

Nossa proposta de trabalho volta-se para esse último ponto. Trata-se, portanto, de olhar não apenas aqueles que são os pontos críticos do Rio de Janeiro, mas sim de dirigir o foco de atenção para o conjunto atividades geradores do saber e, no limite da inovação, que se constitui em uma importante “vantagem comparativa” da metrópole carioca.

Nesse espaço, estão localizadas as sedes de empresas estatais algumas das quais mantêm ali os seus centros de pesquisa. (Embora muitas dessas empresas tenham passado por processos de privatização bastante radicais, espera-se que os seus centros de pesquisa não sejam inteiramente desativados). Cinco grandes Universidades públicas – entre as quais, a maior universidade federal, a UFRJ – situam-se na área metropolitana. Incluindo as Universidades particulares, cerca de 200.000 estudantes de nível superior encontram-se matriculados nos diversos cursos. Caberia assinalar ainda: a existência de um grande teleporto, no centro da cidade; incubadoras de empresas nas universidades; e um projeto de parque tecnológico em começo de implantação na Universidade Federal do Rio de Janeiro. A Cidade Universitária da UFRJ, na Ilha do Fundão, graças ao seu conjunto de entidades e funções, mais de 30.000 estudantes e 3.000 professores, pode ser considerada como um dos complexos territoriais de ciência e tecnologia existentes no Brasil.

O trabalho trata, pois, das atividades para a produção de ciência e tecnologia no Rio de Janeiro, analisando: sua evolução, nas últimas duas décadas, seu estado atual e seu papel na produção de C&T no Brasil. Com este fim, e numa perspectiva geral, fazemos uso do enfoque institucional, centrado nos agentes da área (método desenvolvido por Rémi BARRÉ e Pierre PAPON, do Observatoire des Sciences et des Techniques–OST). Ao mesmo tempo, trabalhamos com indicadores de C&T (número de doutores, Mestres e trabalhos publicados), com o fito de: a) diagnosticar a dinâmica de C&T no espaço metropolitano do Rio de Janeiro; b) relacionar o Rio no contexto do Brasil.



  1. Introdução

As grandes metrópoles mundiais tiveram o seu crescimento associado à industrialização. Desde o último pós-guerra a indústria foi dando lugar a atividades terciárias, cujo dinamismo é oriundo do chamado terciário superior (ou seja, serviços financeiros, consultoria, planejamento, marketing, etc.). Incluem-se entre essas as atividades de ciência e tecnologia.


O Rio de Janeiro, como metrópole moderna, tem sido estudado sob diferentes aspectos. Face ao agravamento das condições sociais – causadas pela crise econômica do país e da própria crise metropolitana – os problemas que daí decorrem têm ocupado a maior parte dos estudos mais recentes. Nossa atenção volta-se para um ângulo da existência dessa metrópole ainda pouco estudado: o sistema de CT.
Capital do Brasil, desde o século XVIII até 1960, o Rio de Janeiro foi berço das primeiras instituições de pesquisa e ensino universitário. Até a década de 1930, foi o centro responsável pelo desenvolvimento da ciência no Brasil. Atualmente, abriga um expressivo complexo científico-universitário voltado para a pesquisa básica, tecnológica e de divulgação da ciência. A metrópole fluminense ocupa o segundo lugar no país como pólo econômico e gerador de ciência e tecnologia do país.
Este texto está dividido em duas partes principais. Numa primeira parte, apresentamos, de forma sucinta, a evolução econômica da metrópole do Rio de Janeiro, isto é, a dinâmica cíclica metropolitana - contextualização necessária a uma melhor compreensão do sistema de CT nesse espaço metropolitano. Na segunda parte do texto, tratamos da ciência e da tecnologia, fazendo uso de uma abordagem centrada em indicadores e, sobretudo, nas instituições de CT.


  1. Traços da evolução econômica do Rio de Janeiro

Nos primeiros momentos da industrialização do país, o Rio de Janeiro distinguiu-se como o mais importante centro industrial. A cidade destaca-se, de longa data como importante centro comercial e financeiro, apoiado na cafeicultura e no comércio de exportação-importação. Em meados do século XIX, ali se instalou uma parcela significativa da indústria têxtil (Tabela 1). Na última década daquele século, quando se deu o primeiro surto da industrialização brasileira, assistiu-se à instalação, no Rio de Janeiro, de uma série de empreendimentos industriais e correlatos: fábricas, bancos, companhias de comércio, estaleiros, etc. Com a crise financeira (o chamado “encilhamento”) que se seguiu a esse primeiro “boom”, observa-se um retrocesso da indústria carioca, que se recupera durante a Primeira Guerra Mundial, quando a indústria brasileira vive um novo surto.


Tabela 1

Estimativa da distribuição geográfica das fábricas de tecidos de algodão brasileiras. Anos selecionados.

Província

1866

1875

1885

Maranhão




1

1

Pernambuco




1

1

Alagoas

1

1

1

Bahia

5

11

12

Rio (Cid. e Prov.)

2

5

11

São Paulo




6

9

Minas Gerais

1

5

13

Total

9

30

48

Fonte: Stanley J. Stein. Origens e Evolução da Indústria Têxtil no Brasil – 1850/1950, Rio de Janeiro, Campus, 1979, p.36.


Novas indústrias de bens de consumo não-duráveis contaram com capitais oriundos sobretudo do comércio de exportações/importações. Indícios da expansão econômica do período foram a geração de energia elétrica e a construção do moderno porto da cidade.
Em 1907, o Rio de Janeiro (Distrito Federal) aparecia como o principal centro industrial do país, com uma produção equivalente a 30% do total, 26% do operariado e 20% do número de estabelecimentos. São Paulo ocupava o segundo lugar quanto à produção, seguido do Rio Grande do Sul (7%) e Minas Gerais (4%) (Simonsen, 1972). De acordo com os dados censitários de 1920, o parque industrial paulista já ultrapassa o do Rio de Janeiro (Distrito Federal) naquele ano, mas, segundo Simonsen, a ascensão de São Paulo à primeira posição já teria se dado em 1910.

Tabela 2

Brasil – Indústrias manufatureiras em Estados selecionados – 1907 e 1920.





1907

1920

Estados

Estabeleci-mentos

Valor da produção

(mil contos)



Número de operários

Estabeleci-mentos

Valor da produção

(mil contos)



Número de operários

Distrito Federal*

652

222

35.104

1.541

666

56.229

São Paulo

314

111

22.355

4.145

986

83.998

Minas Gerais

528

32

9.307

1.243

172

18.522

Rio G. do Sul

314

100

15.426

1.773

354

24.661

Rio de Janeiro

126

45

11.900

454

184

16.794

Bahia

70

22

8.753

491

72

14.784

Pernambuco

72

27

7.155

442

136

15.761

Fonte Recenseamento do Brasil, 1920.

* Corresponde grosso modo à Região Metropolitana do Rio de Janeiro.

Um fato importante é que a indústria desse período é uma indústria nascente e está estreitamente associada à acumulação na economia do café e ao componente desta, o setor exportador. Por outro lado, essa indústria tem no Rio de Janeiro e em São Paulo o seu “pólo” dinâmico. Como observa Sérgio Silva (1977): “Para analisar corretamente a importância da indústria nascente no Brasil, é necessário relacioná-la com as transformações econômicas e sociais por que passa o país e, em particular, a região formada fundamentalmente pelos atuais Estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais, e, principalmente, o Estado de São Paulo. A indústria se desenvolve muito desigualmente nas diferentes regiões do Brasil; desde o começo ela tende a concentrar-se na região do café. Na região acima delimitada (que inclui o antigo Distrito Federal) concentram-se 61% dos valores da produção industrial em 1907 e 65% em 1920. É sobretudo, no antigo Distrito Federal (a cidade do Rio de Janeiro e sua periferia) e no Estado de São Paulo que encontramos a indústria nascente brasileira”.


Os dados para 1920 permitem observar algumas características da indústria carioca. As indústrias que se instalaram na cidade até 1920 eram novas e de porte relativamente grande. “A metade dos estabelecimentos industriais do Distrito Federal (Rio de Janeiro) foram fundados entre 1915 e 1919; 43% tinham de 6 a 30 anos em 1920 e só 9% existiam antes de 1889.” (Cardoso e Araújo, 1992). Os bens de consumo não-duráveis (têxteis, alimentos, vestuários e similares) constituíam 45% da produção e o setor metalúrgico, 25%. Essa estrutura produtiva mantém-se até meados de 1950.
Desde os anos 20, a indústria do Rio de Janeiro passa a sofrer a concorrência da indústria de São Paulo, impacto esse que se acentuará na década de 1950, quando se aprofunda a industrialização substitutiva de importações no Brasil. A transferência da capital do país para Brasília, em 1960, iria resultar em um novo baque para a economia do Rio de Janeiro. A expressão “esvaziamento” econômico passaria a ser aplicada com freqüência à antiga capital. Do final da década de 60 ao final da década seguinte, os investimentos públicos federais atenuaram o impacto da crise sobre a economia da metrópole carioca. Nesse sentido, a presença das empresas estatais no Rio de Janeiro foi crucial, como veremos a seguir.


    1. Os dados de população

A época do Censo Demográfico de 1972, a população da cidade do Rio de Janeiro era de 275.000 habitantes, evoluindo posteriormente da seguinte forma: 811.443 habitantes em 1906; 1.157.000, em 1920; 1.746.100, em 1940; e 2.377.400, em 1950. Entre 1872 e 1920 a população das principais cidades brasileiras teve a seguinte evolução:


Tabela 3

População de cidades brasileiras – 1872/1940.


Anos

Rio de Janeiro

São Paulo

Salvador

Recife

1872

275.000

32.000

129.000

116.000

1890

523.000

65.000

174.000

112.000

1900

811.000

240.000

206.000

113.000

1920

1.158.000

579.000

280.000

240.000

1940

1.764.000

1.330.000

290.000

348.000

Fonte: Censos Demográficos (FIBGE). Apud, Cano, 1977.

Quanto à imigração, se bem que em uma proporção menor do que essa representou para São Paulo, sua importância para o desenvolvimento do Rio de Janeiro foi também assinalada na historiografia. Geiger (1963) observa: “Em 1890, a população total (do Rio de Janeiro) era de 522.000 habitantes, dos quais, 124.000 estrangeiros. Esse contingente de imigrantes deve ter pesado positivamente no desenvolvimento da cidade, se bem que grande parte tenham assumido as atividades comerciais.”
Em 1950, para uma população de 2,4 milhões de habitantes, 929.000 eram imigrantes (provenientes de outras partes do país e do estrangeiro). Os naturalizados perfaziam 211.000. A imigração (interna e estrangeira) teve, assim um papel destacado no crescimento da cidade (Geiger, 1963).



    1. Um importante setor público produtivo

Para compensar as perdas que adviriam da mudança da capital para o Planalto Central, em 1960, a União manteve na cidade as sedes das grandes empresas estatais, universidades e instituições de pesquisa, assim como órgãos como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico. A prática de sustentação da economia fluminense, diga-se de passagem, não era nova. Desde a década de 1940, o Governo procurou localizar ali empreendimentos de grande porte, com o intuito de equilibrar a distribuição de recursos no espaço econômico mais desenvolvido do país, isto é, o triângulo São Paulo-Rio de Janeiro-Belo Horizonte. A respeito das macro-decisões do Estado Novo varguista (1930-45) relacionadas com a região sudeste do Brasil, Ribeiro e Almeida (1993) observam: “Todas as empresas estatais de grande porte não foram implantadas em São Paulo e sim no Rio de Janeiro e em Minas Gerais. Tal procedimento revela um objetivo de organizar um macro-espaço de complementaridades industriais onde Minas Gerais forneceria inicialmente a matéria-prima mineral, o Rio de Janeiro garantiria o processo da metalurgia pesada e o da química de base, e forneceriam para São Paulo, que possuía todas as condições de operação de um parque industrial voltado para a produção de bens finais.”


Essa mesma estratégia que visava equilibrar os pólos do centro dinâmico do país, como vimos, foi mantida após a inauguração de Brasília. Esse pacto foi respeitado por sucessivos governos, desde Juscelino Kubitshek, inclusive os governos militares. Isso parece alterar-se com o neoliberalismo do governo Fernando Henrique Cardoso e o seu programa de privatizações.
Os dados estatísticos evidenciam a evolução da economia do Rio de Janeiro em relação às demais unidades do país, no período do último pós-guerra até 1980, podendo-se observar uma queda relativa de modo continuado. (Tabela 4)


Tabela 4

Brasil – Distribuição relativa do PIB – 1949/1980.

Estados selecionados e regiões


Regiões e Estados

1949

1959

1970

1975

1980

Sudeste

67,5

65,0

65,2

64,5

62,2

São Paulo

36,4

37,8

39,5

40,2

37,8

Minas Gerais e Esp. Santo

11,6

8,7

9,6

9,8

11,1

Rio de Janeiro

19,5

18,5

16,1

14,5

13,2

Sul

15,2

16,2

17,0

18,1

17,3

Nordeste

13,9

14,4

11,9

11,3

12,2

Norte

1,7

2,0

2,2

2,2

3,3

Centro-Oeste

1,7

2,4

3,6

4,0

5,0

Brasil

100,0

100,0

100,0

100,0

100,0

Fonte: PIMES (1984,V.1), FIBGE. Apud, Pacheco, 1998.

O ritmo de crescimento populacional é também cadente, como se pode observar pelos dados da Tabela 5. Até a década de 1970, a região metropolitana (sobretudo a sua periferia) cresce mais rapidamente do que os demais municípios do Estado do Rio. Na década de 1980, cai acentuadamente a taxa de crescimento populacional da região metropolitana, enquanto a queda da periferia e do “interior” é menor (Tabelas 5 e 6). Em termos absolutos a região metropolitana do Rio aumentou 208%, entre 1950 e 1980, mas o “interior” cresceu 439% no mesmo período (Martins, 1998).

  1   2


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal