Hipertexto de Cristologia



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Hipertexto de Cristologia





Antônio Mesquita Galvão

E-mail: kerygma@terra.com.br




Sumário



INTRODUÇÃO/4



  1. O HOMEM – páginas 8 a 31

    1. A Encarnação/8

    2. Jesus e sua família/13

    3. Limites humanos/18

    4. Uma missão/22

    5. O que disseram os profetas/27



  1. O MESSIAS-FILHO DE DEUS – páginas 32 a 97

    1. Ele tinha a natureza divina .../32

    2. O Messias esperado/39

    3. Os “sinais do Reino”/48

      1. O vinho de Caná/49

      2. A cura do filho do oficial do rei/56

      3. A multiplicação dos pães/60

      4. O perdão à adúltera/63

      5. Lázaro torna a viver/65

      6. O lava-pés/68

      7. A ressurreição/71




    1. Encontros temáticos/76

      1. Encontro com a samaritana/78

      2. Na casa de Zaqueu/86

      3. O encontro com Nicodemos/88

      4. Jesus diante de Pilatos/90




    1. No tempo “oportuno”/91

    2. Os que duvidam da divindade de Cristo/94



  1. O PREGADOR – páginas 98 a 135

    1. Os grandes discursos de Jesus/98

      1. As bem-aventuranças/98

      2. O pão da vida/106

      3. O Reino dos céus/109

      4. A misericórdia/112

      5. A mudança da lei/115

      6. Invectivas aos fariseus/119

      7. O discurso escatológico/120




    1. A prática cristã/121

    2. Levando todos ao Pai/125

    3. Uma questão de opção/130



  1. O REDENTOR páginas 136 a 159

    1. O mistério da cruz/136

    2. O Messias veio para os humildes/141

    3. O caminho da Verdade/145

    4. Ele é o nosso libertador/147

    5. Em Jesus, Deus salva/154


INTRODUÇÃO

À medida que o tempo passa, ao contrário das coisas materiais, que cansam, experimentam um enfraquecimento ou simplesmente passam, o amor das pessoas por Cristo vai crescendo e se enraizando cada vez mais. Para os que diziam que o novo século seria impregnado de um racionalismo pragmático, de uma new age esotérica capaz de banir crenças particulares, conduzindo tudo ao universalismo holístico de uma religião sem templos, dogmas ou ministros, o cristianismo responde com um reavivamento cada vez maior da fé no Senhor Jesus Cristo.
Se de um lado, as correntes deístas vaticinavam como que um fim para o cristianismo, onde, na simbologia do zodíaco, a Era de Aquário iria suplantar o Peixe, símbolo do cristianismo primevo, o andamento dos fatos nos leva a crer em um novo século de firmes convicções místicas. Nesse particular, é notável a aproximação que as famílias, homens e mulheres, também os jovens, as crianças e os idosos, vêm mantendo com o Sagrado. É entusiasmante a visão de todos se engajando na Igreja, atuando em movimentos leigos, círculos bíblicos, atividades litúrgicas, catequéticas e de aprofundamento. Igualmente as vocações, sacerdotais, religiosas e para agentes de pastoral vêm aumentando sensivelmente, revelando que as pessoas, depois da ressaca do materialismo de algumas décadas do século XX, reconheceu – como o fez Santo Agostinho – que só em Deus nosso coração é capaz de se alegrar.
Os teólogos, místicos e pensadores do século XX falavam no grande salto ecumênico que a humanidade haveria de dar no novo milênio que ora estamos. Alguns viram o ecumenismo como uma conseqüência de uma maturação psíquica das pessoas, que iria se desenvolvendo gradativamente. Dessa busca ecumênica, portanto, emerge vigorosamente a pessoa de Jesus Cristo, personagem mítico-histórico que, nesses vinte séculos de cristianismo, muita gente ainda não conhece, ou, se pensa conhecer, ainda não articulou uma resposta satisfatória
O objetivo deste livro é trazer aos especialistas, estudiosos e também ao grande público, a pessoa de Cristo, tanto a humana como a divina, o judeu histórico que prega e se coloca a serviço, assim como o Deus-encarnado, que salva e conduz ao Reino, na expectativa de criar um espaço para reflexão e acolhida do Deus que se humanizou para que o humano se divinizasse. Não se trata de mais uma, entre tantas, “vida de Jesus”, assim como também não é uma pesquisa histórico-especulativa sobre o que ele fez ou deixou de fazer, no rastro da aufklarung (o iluminismo racionalista alemão), eterna tentação de biblistas, teólogos e outras pessoas fora do ramo. Muito menos se trata daquele pietismo latino, que busca uma visão estritamente espiritualizada (melosa, dizem os críticos) das práticas de Jesus. Igualmente, seria simplificar demais se reduzíssemos as múltiplas facetas da vida de Jesus, Deus e homem, a um mero aspecto mítico, onde a visão nostálgica dos milagres, da pregação e da crucifixão, impede o avanço do estudo crítico e histórico, bloqueando  em muitos casos  uma visão mais clara da ressurreição e de suas múltiplas implicações com a vida do ser humano de todos os tempos.
A questão, portanto, volta-e-meia é colocada: cristologia, o que é? Para que serve? Por que estudá-la? É fundamental conhecer o Jesus humano para adorar o Cristo divino, sem dissociar um do outro. Conhecer melhor para amar mais... É importante definir Jesus como o fruto da especulação cristológica, é certo, mas é preciso também procurar estabelecer conceitos a partir do que ele mesmo afirmou a seu respeito. Teoricamente, cristologia é um ramo da teologia que trata de Cristo e suas relações na interioridade trinitária. Mas, o mais importante, e que a faz útil e acessível a todos, é o estabelecimento da relação de Jesus com o homem. A cristologia prática centra sua atenção na resposta humana ao fenômeno Jesus, e na importância deste para a felicidade de todas as pessoas.
A rigor, cada escola cristológica  a partir do Concílio de Calcedônia (451 d.C.) estabelece seus padrões didáticos, dividindo a disciplina em estágios ou padrões de pensamento. Aqui, preferi dar uma feição mais didática, a mesma que utilizo nos cursos que ministro pelo Brasil afora. Para tanto, o curso vem dividido em quatro assuntos, a saber: 1) o homem; 2) o messias; 3) o pregador; 4) o redentor.
O terceiro milênio é um tempo de mística. Essa mística, porém, precisa ser encarnada, concreta e atuante. Tal é a proposta deste trabalho: ser um estudo bíblico-dogmático, mas também eminentemente pastoral, casado com a vida do povo e as necessidades evangelizadoras das Províncias Maristas. A realidade presente acabou com aquele triunfalismo angelista, do tipo deus-dará. Hoje, é necessário que se esvazie aquela imagem melíflua do galileu meigo, para se penetrar em uma esfera de fidelidade ao evangelho, autêntica boa notícia, fidelidade à Igreja enquanto comunidade e  sobretudo  às grandes questões existenciais do homem moderno. Jesus esvaziou-se (eautón ekénossem), ou seja, preferiu fazer sobressair sua obediência ao poder do Pai (cf. Fl 2, 7), poder que se manifesta a partir da fraqueza humana (cf. 2Cor 12, 9).
O presente curso, através da teleconferência do EAD da Pucrs talvez não traga novidades (apesar de Cristo sempre ser uma novidade, uma boa notícia), mas espera sistematizar a vida do Homem Jesus, comparando-a com a atividade messiânica do Filho de Deus para que, atentos à prática do Pregador, se possa aderir, de forma radical e consciente, à oferta de sua salvação redentora.
Na verdade, um processo de investigação sobre Jesus, isto é, o exercício da cristologia, não pode desenvolver-se a não ser sob um prisma da vida de fé que cada um adere e professa. Antes que a filosofia moderna acenasse com a grande novidade do princípio da imanência, a questão de Jesus Cristo já se apresentava a todos com as mesmas características. Para muitos, referir-se a Deus, e em especial a seu Filho, homem e ao mesmo tempo Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, desperta uma sensação de algo inexplicável, intangível. O homem moderno tem muita maneiras de se relacionar com Jesus, que são capazes de evidenciar mais ou menos eficácia dos processos de kérigma e catequese. Em geral, vêm nele uma gama de significados capazes de ir, do ser pessoal e transcendente, ao mito criado pela fantasia. A cristologia precisa ser, mais do que doutrina sobre a natureza divina de Cristo (como nos ensinaram), um anúncio, uma interpelação da fé que convida o cristão, seja ele um teólogo, um estudante ou uma simples pessoa do povo, não só a crer, mas a tomar a sua cruz, representada pela decisão da conversão, para assim participar da vida do Ressuscitado. A cristologia seria um estudo oco se servisse apenas como um meio intelectual de se amealhar teorias acadêmicas sobre Jesus Cristo.
Hoje muitas pessoas estão estudando teologia. E não se diga que são apenas os seminaristas, candidatos ao sacerdócio, que o fazem. Também leigos e religiosos, agentes de pastoral e mães-de-família vêm buscando nos cursos de teologia um suporte instrumental para o ser-cristão, como professor, evangelizador, anunciador  enfim  da boa notícia da salvação. Aí, no entanto, há uma certa diferenciação que precisa ser feita entre o “formado em teologia” e o teólogo propriamente dito. O primeiro é o “bacharel” (ou licenciado) em teologia em uma escola regular, aprovado mediante uma bateria de provas, oriundas de um currículo preestabelecido. Praticam uma teologia rotineira, profissional, mais ou menos estática. Já o teólogo cria teorias, defende teses, elabora pesquisas e estabelece formas de debate da teologia, desde o trato acadêmico até o ambiente popular mais modesto. Para um mundo em que a fé se mostra cada dia mais sob constantes provas e desafios, é salutar o surgimento de pessoas formadas em teologia, e mais ainda de verdadeiros teólogos, especialistas capazes de traduzir o sagrado, fazendo uma leitura do místico à luz das expectativas do povo.
Deste modo, antes das escolas teológicas regulamentares, a teologia tem gênese no coração da fé cristã e de sua constante iluminação pelas Sagradas Escrituras. A fé  e sem ela nada tem valor absoluto  vem antes da teologia, e dará a palavra última quando as ciências houverem desaparecido.
O teólogo não pode se refugiar nas sacristias, na calma da pastoral desencarnada ou  pior  nas nuvens. Seu conhecimento e seu acesso à tribuna deve impulsioná-lo a uma situação de interação com a sociedade, como um formador de opinião. Só que opinião cristã. É substancial um trânsito, desde as humildes camadas da população, onde se observa uma religiosidade às vezes vista como incipiente, até aos meios mais intelectualizados. Cabe ao teólogo estabelecer a síntese. Os textos e as notações/denotações da cristologia precisam estar ligados com a vida e com a fé da comunidade. Seu discurso, volens nolens, sintetiza situações concretas, estrutura esperanças e estabelece mediações históricas entre o transcendente e o social, entre o divino e o humano. Entre o céu e a terra.
À inquietante questão, levantada pelo próprio Jesus Cristo: “Quem dizem os homens que eu sou?”, durante séculos escutou-se muitas e desencontradas respostas. Se dez pessoas forem ouvidas, teremos, por certo, dez construções, que somadas ainda não formarão o conceito perfeito. Neste livro, mesmo procurando responder à pergunta acima, vamos buscar elaborar outra questão, desta vez direta: E tu, Jesus, quem és?”. Como quem sintoniza um rádio ou um aparelho de tevê em um programa interessante, vamos nos fixar nos evangelhos, com olhos de busca e espírito de fé.
Sem fantasiar, deixando de lado o Jesus essencialmente místico dos angelistas, o Cristo cósmico dos esotéricos, o messias das pseudo-revelações, vamos escavar, garimpar na jazida autêntica dos evangelhos. Talvez não se diga nada de novo, nada diferente do que já foi dito... Mesmo assim, vamos procurar escutar o que ele nos disse e fez, organizar e sistematizar um estudo e, por fim, deixar o coração  cheio da unção do Espírito Santo  tirar suas conclusões e estabelecer seus propósitos. Cabe recordar as palavras do salmista: “Hoje se escutares a voz de Deus, não feches o teu coração...”.

Antônio Mesquita Galvão

Professor-âncora


1. O HOMEM

A Encarnação

A Escritura nos diz que “na plenitude dos tempos, Jesus nasceu, encarnou-se...” por obra do Espírito Santo, conforme o projeto de Deus, no seio da Virgem Maria. Tinha início aí, um dos maiores mistérios da humanidade, quando Deus decide tornar-se homem, fazer-se carne, vir ao mundo e viver as realidades dos humanos. Através da humanidade de Jesus encarnado, o ser humano, em face dessa eleição, e pela fé naquele que se encarnou, toca o Sagrado, que irá resgatá-lo. Por plenitude, os biblistas reconhecem a existência de um “tempo oportuno”, do tipo “não dá mais para esperar”.


Jesus nasce dentro de uma realidade dramática, em um país dividido cultural, política e religiosamente, dominado pelos romanos e carente de uma série de fatores, como cidadania, personalidade social, unidade de crença e sobretudo com a auto-estima nacional significativamente abalada. O anúncio que os anjos fazem aos pastores dos arredores de Belém, tem elementos religiosos mas também políticos:
Hoje nasceu para vocês, na cidade real de Davi, um Salvador, que é o Cristo Senhor (Lc 2, 11).
Na verdade, historicamente, o salvador expectado pelos judeus era mais um libertador político que um líder religioso. Assim como reis e profetas eram ungidos para grandes obras, igualmente esperava-se que o mešihā fosse alguém muito especial, capaz de livrar Israel do sufoco que se encontrava 1. Pois foi justamente em um “tempo oportuno” que Jesus se faz homem, e os anjos anunciam tal portento aos pastores. Inicialmente, cabe uma questão: quem são esses pastores? Que importância eles têm no contexto cristológico da encarnação e do nascimento de Jesus? Eles são representantes da classe dos pobres de todos os tempos, dos assalariados, subempregados quem sabe, que têm que trabalhar à noite, ao relento do frio, enfrentar perigos, para ganhar o sustento.
A história no-lo revela, que os donos do rebanho executavam o pastoreio durante o dia, delegando-o a empregados nos turnos da noite. Sintomaticamente, e este é um traço da humanidade de Jesus, ele nasce homem para conhecer a miséria dos homens, faz-se pobre para sentir a exclusão da pobreza. E é justamente a esses pobres que é anunciada, em primeira mão, a boa notícia. Para os fracos é que Deus ungiu seu Messias (cf. Lc 4, 18). A esses pobres, quase excluídos, tipo de gente existente em todas as sociedades, Deus comunica, através de seus mensageiros, privilegiadamente, o anúncio de um tempo novo. Jesus, hoje visto por nós cristãos como um nome sagrado, em Israel era um nome próprio relativamente comum. Jesus vem de Ye(o)šuah (), com os derivados Iošua e Josué, que quer dizer Deus (Javé) salva. No nome de Jesus vem explícito o amor do Pai, e a missão salvadora para a qual o Filho foi ungido.
Mesmo hoje em dia, em pleno Terceiro Milênio, com todo o avanço das ciências acessórias, a teologia ainda manifesta dificuldade em estabelecer uma cristologia adequada, capaz de unir e separar as naturezas humana e divina em Jesus. É mais fácil compreendê-lo divino do que aceitá-lo humano. Na verdade, tais entraves de entendimento, a respeito da condição humana de Jesus, ocorre a partir da dificuldade que temos em definir nossa própria situação. Desde os filósofos do século V a.C. que nos perguntamos: quem é o homem? para onde vai? de onde veio? qual sua finalidade de vida? quantos anos vai durar?
Tais questões, apesar do progresso das ciências do pensamento, do comportamento e da vida social, ainda não foram suficientemente equacionadas e, pior, agravadas com o surgimento de outras perguntas, mais intrigantes: para que vivemos? por que morremos? há algum tipo de vida depois da morte?
Fica patente a incerteza existencial que assola o ser humano, evidenciadas a partir do levantamento de tantas questões. Embora alguns tenham certos argumentos que mais ou menos atendem a essas indagações, na verdade, constata-se que para a maioria das pessoas, tais questões, de orientação nitidamente ontológicas, ainda são a grande incógnita da vida. Ora, se eu não conheço nem a mim, se desconheço minhas mais elementares origens, características do meu ser, como querer que eu conheça a Deus, cuja grandeza e mistério transcende qualquer entendimento? Se eu tenho problemas em responder perguntas sobre minhas origens e meu destino final, como querer penetrar na equação divina, se ainda desconheço minhas formulações ônticas?
Conheço a Deus na medida em que conheço a mim mesmo, e vice-versa. São dois conhecimentos concêntricos, convergentes, concorrentes e simultâneos. É preciso conhecer a Deus, a mim e ao outro. É fácil comentar que Jesus se encarnou, fez-se carne, tornou-se homem... O difícil é imaginar a grandeza de Deus assumindo a miséria da carne humana. Não basta afirmar que Deus desceu e se fez homem, mas é preciso compreender que, ao fazer-se homem ele comprometeu toda a humanidade, tornando-a partícipe do projeto de amor do Pai. Não basta confirmar a descida de Jesus, implica, isso sim, em reconhecer sua estada no meio dos homens, seus anseios de justiça, para a libertação para todos.
Nessa perspectiva, vemos que desde as primeiras fontes cristãs, Deus assume a matéria ao fazer-se carne no lógos 2.Exatamente naquele ponto de unidade, onde a matéria chega a si mesma e o espírito assume sua essência, na natureza humana, com vistas ao transcendente. A autocomunicação de Deus, através de Jesus Cristo, não teria sentido se não expressasse o evento salvífico inserto na história do ser humano. Palavra de Deus, o Cristo-lógos não só existe desde o princípio (cf. Jo 1,1) como também salva, liberta e conduz à verdade os que a vivem (cf. 6, 56; 8, 31).
Em Jesus Cristo o lógos traz consigo o elemento material, formando, por assim dizer, um conjunto indissociável, de espírito e corpo. É por isso que em Jesus há uma essência (divina) em duas naturezas (divina e humana),. afirmando-se que ele é verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Como Deus ele revela uma realidade pneumática, e sendo homem, assume uma realidade sárquica 3. Assim, vemos o Jesus histórico, terreno, que existe segundo a carne (, katá sarxa) em paralelo com o Cristo glorioso, querigmático, celeste, existente segundo o espírito (, katá pnêuma). É peculiar  é bom que não se perca de vista esta assertiva  ao lógos de Deus produzir essa corporeidade criacional.
O dogma cristão da encarnação deverá, portanto, expressar o seguinte: Jesus é verdadeiramente homem com tudo que isto comporta, com sua finitude, mundanidade, materialidade e com sua participação na história desse nosso cosmos da dimensão do espírito e da liberdade, na história que atravessa a porta estreita da morte 4.
Em Jesus Cristo ocorre uma comunicação, gratuita e sobrenatural, com Deus, não só enquanto oferta existencial do seu ser, mas também como oferta acolhida. Esse mistério de entrega e comunicação é conhecido como “fenômeno da graça”. Embora as referências explícitas à graça sejam, nos evangelhos, um tanto parcimoniosas, o mesmo não se pode dizer da produção paulina, onde o apóstolo discorre com profundidade sobre a graça de Deus. Vale conferir alguns tópicos importantes sobre a matéria (Rm 3, 24s; 5,15; 2Cor 8,9; 13,11; Gl 1,6; Fl 1,29; Ef 3,8s entre outros).
Há trechos marcantes na Bíblia, que revelam a encarnação miraculosa de Jesus, a partir de
uma virgem conceberá e dará à luz... (Is
indo até a informação do anjo,
o santo que nascer de ti será (chamado) filho do Deus Altíssimo... (Lc 1,32.35).
Pela encarnação, Jesus assume a obra da salvação, objeto do plano de Deus. A idéia-limite deste portador de salvação, traz consigo, implícito, o conceito da união hipostática de Deus e do homem, que constitui, em última análise, o fundamento teológico do mistério encarnação-redenção. O teólogo Karl Rahner define a encarnação como a auto-expressão imanente de Deus em sua eterna plenitude, como a condição de comunicação e expressão de Deus para fora de si, ad extra, onde uma revela a identidade da outra 5. A partir dessa compreensão é que se torna possível compreender a faculdade do lógos de Deus tonar-se homem.
Rompido com Deus desde a metáfora do paraíso terrestre, o ser humano, inflado por uma inexplicável auto-suficiência, decidiu escrever sua história sem a participação do Absoluto. Talvez por isso que todos os projetos humanos deságüem no relativo... O rompimento do homem, seu afastamento de Deus, está retratado em diversos trechos do Antigo Testamento. Como o Pai sabe que os filhos não têm futuro sem ele, estabelece um projeto para resgatá-los. Inserido nesse plano está o mistério do Deus que se faz homem. Vamos primeiro aos textos antigos:
Quando Israel era um menino, eu o amei e do Egito chamei meu filho. Mas quanto mais eu os chamava, mais eles se afastavam de mim (Os 11, 1);
Eu curarei sua apostasia e os amarei com generosidade, pois a minha ira de afastou deles (Is 14,5).
No auge dos tempos messiânicos, Jesus conta a parábola dos vinhateiros homicidas (cf. Mc 12, 1-8), onde um proprietário construiu uma chácara com todo o conforto e a entregou a arrendatários para que ali vivessem e fossem felizes. Estes, não contentes em não pagar o combinado, ainda mataram alguns mensageiros, bem como próprio filho do dono do imóvel. Pois, apesar de a humanidade haver crucificado o Filho de Deus  e o Pai tinha ciência antecipada desse crime  a encarnação aconteceu, como um gesto da misteriosa e incomensurável misericórdia divina.
Nos primeiros séculos, a piedade popular, ainda pouco iluminada por uma teologia pastoral incipiente, as formulações dos gnósticos, bem como os desvios dos hereges, tudo serviu para que idealizassem demais a figura de Jesus Cristo, obscurecendo o homem, em prol da figura divina. Tal visão, muito mística e pouco prática, conduziu alguns a heresias que passaram a negar-lhe a natureza humana. É como as narrativas biográficas dos grandes homens, heróis da história, como Buda, Maomé, Alexandre, Napoleão, enriquecidos pelo mito que os revelou sem defeitos, praticantes de atitudes fantásticas. Também o chamados evangelhos apócrifos (a partir do século II) revestiram a pessoa de Jesus de muitos atributos fantásticos, milagres incríveis, atos mais voltados ao exibicionismo do que aos efetivos sinais que Jesus realizou. Enquanto nos apócrifos, o menino-Jesus dava vida a bichinhos feitos de barro, o Cristo real (dos evangelhos) orava ao Pai pedindo (e agradecendo) a realização do milagre. Os evangelhos mostram um Jesus real e não fantasticamente idealizado.
É interessante confrontar o nascimento de Buda6 e o de Jesus (cf. Lc 2, 6s). A mitologia hinduísta narra o nascimento de do príncipe Sidarta (Buda) de forma fantástica: ele nasce em uma floresta encantada; após o parto sai falando e caminhando. No lugar onde ele pisa, crescem lírios e lótus. Jesus nasce forma natural, numa gruta (não havia lugar para eles...), como uma simples criança, indefesa, protegida apenas por seus pais. Que diferença! O certo é que Jesus foi encontrado em figura de homem (cf. Fl 2,7).
As heresias dos primeiros tempos do cristianismo revelam que os homens sempre tiveram  como já foi dito  mais dificuldade em reconhecer a humanidade de Jesus do que sua divindade. Apesar da afirmação paulina
Deus mandou o próprio Filho numa carne semelhante à do pecado (Rm 8,3b)
que tipifica o resgate, não mais como algo vindo de fora, “do alto”, mas de dentro, da própria essência do humano (a qual Jesus assumiu), a humanidade custa a entender (e a aceitar) a encarnação. Quem sabe por falta de conhecimento, de ensinamentos adequados, de buscar luzes. Talvez por intuir que na medida em que se reconhece Cristo como homem e Deus, deve-se adoração à divindade e  o mais difícil  um amor solidário ao outro. Pode situar-se aí a chave do problema. Referindo-se a Jesus, os evangelistas narram que
(ele) crescia em sabedoria, em estatura e graça, diante de Deus e dos homens (Lc 2, 52),
o que nos leva a crer que Jesus menino experimenta em si aquele crescimento físico, moral, espiritual e psicológico que em todas as crianças ocorre. O saber de Jesus (enquanto homem) era limitado à sua condição e progredia com o passar do tempo, através do aprendizado e de novas experiências. O lógos de Deus se fez carne (cf. Jo 1,14) para conhecer (e resgatar) de perto toda a miséria, fragilidade, ambigüidade e mesquinhez do ser humano. Jesus divino tornou-se humano para que o humano se divinizasse.




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