História Cultural e suas Contribuições para a Nova História Política – a mídia e a construção da cultura política introduçÃO



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História Cultural e suas Contribuições para a Nova História Política – A mídia e a construção da cultura política

INTRODUÇÃO
O presente trabalho objetiva discutir a respeito da contribuição da História Cultural para a História Política e outros campos da história, considerando suas transformações ao longo do tempo. Além disso, buscamos destacar como vem sendo construída a cultura política dos indivíduos, levando em consideração a relevância da mídia como canal de informação. É notório que no decorrer dos anos a História e suas abordagens, sua escrita, conceitos, metodologias e fontes de pesquisa sofreram mudanças, fazendo com que emergisse uma “Nova História”. Esta viria romper com o paradigma tradicional. Assim, ela foi fragmentada em diversos novos campos: história social, cultural, política, econômica, etc.

Hebe Castro [1] afirma que o movimento da Escola dos Annales, em 1929, na França, tendo como fundadores Marc Bloch e Lucien Febvre, é considerado o grande marco real ou simbólico do surgimento da Nova História. Esse movimento teria “a interdisciplinaridade como base para formulação de novos problemas, métodos e abordagens da pesquisa histórica”. Ele surge em oposição ao modelo positivista, que predominava até as primeiras décadas do século XIX, baseado em uma historiografia factualista e centrada na história dos grandes homens e do Estado (CASTRO [1], p. 76).

Dessa forma, de acordo com a citada autora, a tradicional História Política é também uma parte da atuação da história-problema, herança dos Annales, já que passou a ser vista enquanto dimensão específica da vida. Ainda, segundo Hebe Castro [1], a História Social é mais que um campo historiográfico, uma perspectiva de análise, levando em consideração que é no campo social que as demais abordagens se interligam.

A Escola dos Annales, em sua segunda geração, tendo como marco os trabalhos de Fernand Braudel, representou um passo decisivo em uma perspectiva mais madura das relações da História com outras grandes áreas, tais como a economia e a política. E, esse diálogo, muito contribuiu para alargar os campos de estudo da História (BURKE [2]).

A Nova História trouxe uma pluralização de novas temáticas e, nesse sentido, uma atenção especial seria dada às formas de perceber a sociedade através da cultura. A história das classes subalternas, dos marginas ou daqueles “vistos de baixo” passaram a ter um diálogo frutífero no campo da cultura.

Ainda, de acordo com Pesavento [3], “foi dentro da vertente marxista inglesa e da história francesa dos Annales que veio o impulso da renovação” (p.14), ou seja, foram essas grandes escolas que atuaram como precursoras da História Cultural ou da Nova História Cultural na segunda metade do século XX. Segundo a autora,


Por vezes, se utiliza a expressão Nova História Cultural, a lembrar que antes teria havido uma velha, antiga ou tradicional História Cultural. Foram deixadas de lado concepções de viés marxista, que entendiam a cultura como integrante da superestrutura, como manifestação superior do espírito humano e, portanto, como domínio das elites. Também foram deixadas para trás concepções que opunham a cultura erudita à cultura popular (PESAVENTO [3], p. 14).
No que se refere à história social inglesa, nomes como Thompson, Eric Hobsbawm e Christopher Hill propiciaram uma abrangente articulação entre História Cultura, História Política e História Social, assim, o mundo da cultura passou a integrar o modo de produção. Ademais, a Escola dos Annales contribuiu de forma decisiva na História Cultural, a qual buscava avaliar modos de vida e valores culturais (BARROS [4]).

Pesavento [3] assevera que alguns conceitos se tornaram indispensáveis para compreender o modelo da Nova História Cultural e, nessa perspectiva, cita autores relevantes como Carlo Ginzburg, o qual utiliza do conceito de circularidade em sua obra, O queijo e os vermes; também Roger Chartier, com seu conceito de Representação e, ainda, o de Imaginário, proposto por Baczko.



Materiais e Métodos
Neste estudo, adotamos como procedimentos metodológicos a pesquisa bibliográfica com abordagem qualitativa, tendo como embasamento teórico as proposições de autores como Pesavento [3], Hebe Castro [1], Serge Berstein [5], entre outros que corroboram as conjeturas aqui empreendidas. Considerando os procedimentos desta discussão aferimos a importância dos métodos e abordagem das fontes. Para tanto, discutir-se-á sobre as perspectivas metodológicas adotadas na historiografia no final do século XX, observando que os documentos oficiais, antes analisados como únicos detentores da informação, foram preteridos, abrindo espaço para abordagens mais profundas. Nesse sentido, Pesavento [3] pondera ser “necessário ir além daquilo que é dito, ver além daquilo que é mostrado” (p.62), potencializando a interpretação do historiador.

O método proposto por Carlo Ginzburg [6], o paradigma indiciário, se amolda às proposições de Pesavento [3]. Assim, podemos perceber no texto de Ginzburg [6] , Sinais, raízes de um paradigma indiciário, novo método de análise das fontes, o qual mostra, através das “miudezas, pistas e sintomas”, aquelas que não estão visíveis claramente, que se pode chegar a uma realidade mais profunda.

Na obra de Ginzburg [6] também constatamos a importância das fontes involuntárias e informais. Segundo o autor, fontes marginais podem oferecer mais informações que as oficiais. Esse novo método de abordagens contribuiu, sobremaneira, para o rompimento com a história factualista.

Assim, a revolução de análise das fontes propiciou que vários pesquisadores passassem a usar o método indiciário, como Sidney Chaulhoub [8], que no texto, Visões da Liberdade, baseia-se em processos criminais da cidade do Rio de Janeiro para relatar a escravidão na corte sob a perspectiva do personagem Zadig.
Contribuições da História Cultural
Com a Nova História e a consequente pluralização de suas temáticas, ocorreu o alargamento de seus campos. De tal modo, nas últimas décadas, a História Cultural trouxe vários estudos com um diálogo intenso e produtivo com áreas das ciências humanas e sociais, percebe-se, pois, uma clara evolução e inovação das perspectivas da produção historiográfica.

Nesse contexto, destacamos a releitura do político pelo cultural, sendo que a Nova História Política “bebeu” na História Cultural em vários aspectos de sua renovação. Pesavento [3] afirma que “não seria demais falar em uma verdadeira renovação do político, trazida pela História Cultural” (p. 75). Serge Berstein1 [5], no seu texto A Cultura Política, afirma que “falar de cultura política é colocar-se num campo de componentes antagônicas” (p. 349). Esse antagonismo se dá pelo fato de que a História Cultural surgiu a partir da renovação proposta pela Escola dos Annales. Sobre essa relação, Bernstein [5] esclarece:
Com efeito, é no quadro da investigação, pelos historiadores do político, da explicação dos comportamentos políticos no decorrer da historia, que o fenômeno da cultura política surgiu como oferecendo uma resposta mais satisfatória do que qualquer das propostas ate então, quer se tratasse da tese marxista de uma explicação determinista pela sociologia, da tese idealista pela adesão a uma doutrina política, ou de múltiplas teses avançadas pelos sociólogos do comportamento e mesmo pelos psicanalistas. (...) E se a cultura política responde melhor à sua expectativa é porque ela é, precisamente não uma chave universal que abre todas as portas, mas um fenômeno de múltiplos parâmetros, que não leva a uma explicação unívoca, mas permite adaptar-se à complexidade dos comportamentos humanos (p. 349-350).
Berstein [5] utiliza a definição de Cultura Política apresentada por Jean-François Sirinelli, a qual se trata de “uma espécie de código e de um conjunto de referentes formalizados no seio de um partido ou, mais largamente, difundidos no seio de uma família ou de uma tradição políticas2(p. 350). Tal definição clarifica a importância do papel das representações para o conceito de cultura política.

Além disso, o autor cita a importante participação dos meios midiáticos como construção da cultura dos indivíduos. Nesse ponto, salientamos o progresso da tecnologia e dos meios de informação nos últimos anos para a construção da cultura política dos cidadãos. Portanto, as TICs - Tecnologias de Informação e Comunicação têm tido um papel preponderante nesse processo.

Ainda que o Estado seja o centro das discussões sobre política, quando se refere ao estudo de cultura política, os aspectos levados em consideração não são mais os mesmos, diferem da história política “tradicional”, a Nova História Política envolve elementos relacionados ao Estado e instituições de poder. Agora, está presente a discussão sobre partidos políticos, ideologias políticas, disputas eleitorais e a ação dos homens nesse campo.

Assim, percebemos mudanças significativas na forma de abordagem da História Política. Não se tem mais uma História Política factualista, voltada para os grandes homens e o Estado, mas uma Nova História Política em que as relações e formações dos mecanismos de poder são consideradas. Além disso, os seus canais de difusão: a família, a escola, a igreja, os partidos, as mídias, enfim, as organizações da sociedade civil ganharam força e espaço.


Considerações Finais
Conclui-se, pois, que a História Cultural é, na atualidade, um dos maiores campos da historiografia brasileira, e, nas últimas décadas, passou por grandes transformações. Ademais, contribuiu para a renovação de outros campos da História como da História Política. Esta, através da cultura política, compartilhou de conceitos da História Cultural, trazendo-os para suas novas abordagens e discussões. Quanto à cultura política de cada individuo, devemos destacar as TICs e seus canais de formação, evidenciando a importância desses para os estudos nos últimos anos.

REFERÊNCIAS


  1. CARDOSO, Ciro Flamarion; VAINFAS, Ronaldo. Domínios da história. In: ______. História social. Rio de Janeiro: Campus, 1997.




  1. BURKE, Peter. A Escola dos Annales. São Paulo: Unesp, 1997.



  1. PASAVENTO, Sandra Jatahy. História e História Cultural. Belo Horizonte: Autêntica, 2003.



  1. BARROS, José D’Assunção. O Campo da História. Petrópolis: Vozes, 2004.



  1. BERSTEIN, Serge. A Cultura Política. In: RIOUX, Jean-Pierre; SIRINELLI, Jean- François (ORG). Para uma História Cultural. Lisboa: Editorial Estampa, 1999.



  1. GINZBURG, Carlo. Sinais: raízes de um paradigma indiciário. In: Mitos, emblemas, sinais: morfologia e história. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.



  1. CHALHOUB, Sidney. Visões da Liberdade: Uma história das ultimas décadas de escravidão na corte. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.



1Serge Berstein: Nasceu em 1934 e é um historiador francês referencia para a História Política, principalmente sobre Cultura Política.

2Definição proposta por Jean-François Sirinelli in Jean-François Sirinelli dir., Histoire dèstroites ,Cultures, Paris, Gallimard, 1992.


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