História da editora ftd sa (1902-2002)



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HISTÓRIA DA EDITORA FTD SA (1902-2002)

Maurilo Sampaio


A 23 de março de 2002 a Editora FTD completou 100 anos de existência. Foram 100 anos ininterruptos de produção de livros, principalmente didáticos, para as escolas do Brasil.

Só para citarmos um exemplo, se compararmos o primeiro livro produzido pela FTD – Exercícios de Cálculo sobre as Quatro Operações – com os livros atuais de Matemática, nasce espontânea a pergunta: Que modificações foram sendo introduzidas nesses 100 anos? Qual a história desses livros? Como e por que mudaram?

Nesse raciocínio a justificativa da apresentação deste trabalho num Congresso de História do Livro e da Leitura.

Antes de mais nada cremos que precisamos satisfazer a uma curiosidade. Qual o significado da sigla FTD? É preciso lembrar que os fundadores e proprietários da editora são os Irmãos Maristas, congregação religiosa católica especializada em trabalhos com a educação. Talvez muitos daqui conheçam colégios dirigidos pelos Maristas em várias cidades do Brasil. Como a maioria de associações religiosas católicas, os Irmãos Maristas têm um coordenador internacional com sede em Roma. No fim do século XIX e começo do século XX, esse superior geral era o Irmão Teofânio Durand, em francês, Frère Théophane Durand. Como ele se distinguiu muito no empenho e sustento do trabalho editorial, a editora assumiu as iniciais de seu nome francês como razão social.

Em 1897 vieram 6 Irmãos Maristas franceses para assumir a direção e o ensino num colégio de Congonhas do Campo, MG. Já em 1899, um grupo de Irmãos se fixou em São Paulo, fundando o Colégio do Carmo. Para facilitar o trabalho pedagógico puseram-se a traduzir livros didáticos que utilizavam em seu magistério na França. O primeiro a ser lançado, em 1902, foi o já citado – Exercícios de Cálculo sobre as Quatro Operações – traduzido pelo Irmão Andrônico, primeiro autor da coleção de livros FTD. O Irmão Andrônico veio a falecer em 1903, vítima da febre amarela no Rio de Janeiro. Já em 1902 tinha chegado ao Brasil o Irmão Isidoro Dumont, que assumiu o legado do Irmão Andrônico e o levou à frente até sua morte em 1941.

Em 1917, vinte anos após a chegada dos primeiros Irmãos Maristas ao Brasil, a coleção de livros FTD já contava com um rol de 100 livros publicados.

Nas próximas páginas, um quadro cronológico com a evolução da FTD, em breves pinceladas









Vamos destacar as seguintes datas como marcantes para a história da editora FTD:


1902 – Lançamento do primeiro livro.
1963 – Fundação da editora propriamente dita, como empresa. O que havia antes era a tradução ou redação de textos didáticos, produzidos graficamente, no começo, na França (Imprimérie Emanuel Vitte), depois, também pela Francisco Alves e Gráfica Siqueira.
1964 – Primeiros autores não Maristas. Anteriormente, todos os compêndios eram escritos por Irmãos Maristas. Na história do livro didático, essa mudança pode ser considerada bastante significativa.
1966 – Inauguração da primeira sede, no Cambuci, São Paulo.
1984 – Nova sede na Bela Vista, São Paulo.
1988 – Instalação de gráfica própria.
2002 – Presença da FTD em todos os estados do Brasil, como se pode ver em mapa do

resumo histórico apresentado.


No ano do centenário, a editora FTD publicou um relato de suas origens e de suas atividades, o livro – FTD – 100 anos – Fazendo o amanhã -. Alguns exemplares estarão à disposição em lugar a ser indicado pela comissão organizadora.

A história do livro não se esgota na análise simplesmente técnica e tecnológica da produção gráfica. Evidentemente há marcas de evolução tecnológica nos diversos períodos. É até interessante ouvir pessoas, um pouco mais avançadas em idade, falar de livros da FTD. “Ah, eram aqueles livros (didáticos) de capa dura”. A capa, o formato dos livros, modelos de encadernação, ilustrações, muita coisa mudou. Pensar que o autor de um livro de Geografia, o Irmão Marista Marie-Nicet, ilustrou o livro com desenhos a bico-de-pena, de própria autoria. Hoje, na produção de um livro, há equipes e profissionais especializados para cada parte do livro.

Todos sabemos como o século XX foi pródigo em movimentos e teorias nos setores pedagógico, psicológico, didático, educacional. Assim como a história de livros de literatura não pode prescindir da influência das diversas correntes literárias, assim também livros didáticos não podem absolutamente passar ao lado da influência de novas exigências trazidas por teorias e mesmo técnicas de ensino.

Parece-nos que não se tem dado muita importância, na história do livro, a correntes e movimentos no setor didático-pedagógico. Fica aqui a sugestão para o trabalho de pesquisadores.

Voltando à FTD, desde o começo os livros da FTD se preocupam em se adequar ao programa nacional, conforme o modelo do Colégio Pedro II do Rio. Este exemplo serve para demonstrar o cuidado com o atendimento à realidade brasileira. É emblemática uma observação que se encontra no arquivo da norma expressa a respeito da produção dos livros FTD no Brasil. Exigia-se muito cuidado para adaptar os livros (traduzidos do francês) à realidade da língua e da cultura brasileira.

Vamos nos deter em alguns fatos mais recentes.

No período 70-90 cresceu a exigência e a consciência dos direitos da mulher, das minorias, dos negros. Uma dissertação, publicada depois em livro que marcou época foi – As mais belas mentiras –. Analisava textos de livros didáticos que carregavam idéias da ideologia dominante. A preocupação se alastrou. Posso testemunhar que, nos livros da FTD, evitavam-se textos e ilustrações que pudessem veicular idéias ligadas àquela ideologia. Evitavam-se imagens que colocassem a mulher ou o negro em situação de inferioridade. Era até excluída a ilustração de um pássaro na gaiola, de um animal sendo maltratado.

Os livros de História e Geografia sentiram muito o impacto de teorias e movimentos de revisão do ensino dessas disciplinas. Questionava-se o ensino factual, descompromissado e atomizado da história, que partia da visão do vencedor e da ideologia dominante.

Os livros de alfabetização procuravam acolher novas visões do processo.

As correntes construtivista e sócio-construtivista deixaram sua marca em muitos livros didáticos.

Houve fatores que podemos chamar de externos que também tiveram sua parte de influência na característica dos livros didáticos.

Um fator preponderante tem sido o nível de formação dos professores. Nem é preciso lembrar o número de professores considerados leigos nas escolas do Brasil, até em estados mais desenvolvidos. A remuneração dos professores não tem sido aquela que consegue despertar maior interesse na busca de formação. Esta constatação não significa que o setor está estagnado. Mas a realidade ainda é meio sombria.

Quem vemos examinando o processo usado pelo PNLD (Programa Nacional do Livro Didático) para indicar os livros que podem ser escolhidos para uso dos alunos nas escolas públicas? Antes da escolha dos professores, o MEC promove uma análise dos mesmos por especialistas. Basta dizer que, algumas vezes, são reprovados livros que tinham grande adoção pela escolha direta dos professores.

Um efeito positivo desse fator é que os chamados Livros do Mestre têm recebido desenvolvimento maior e mais consistente.

Abrindo um parêntese, a produção do Livro do Mestre tem sido marca registrada do Coleção FTD desde o início.

Um outro fator extrínseco que tem influenciado os livros didáticos é a análise promovida pelo PNLD, bem como a publicação de orientações através dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs). Estes exigem uma atenção maior não só ao conteúdo das disciplinas mas também ao conteúdo formativo-educacional de atitudes e procedimentos, bem como à interdisciplinariedade e aos temas transversais, presentes em qualquer disciplina.

Recordando um pouco o fator externo da ação do governo, cremos que ainda não se estudou (pelo menos não temos notícia) a influência dos célebres acordos MEC-USAID, na década de 60.

Podemos também só mencionar de passagem a censura prévia pela Comissão de Moral e Civismo dos livros de EPB, OSPB e EMC. Não impedia a publicação mas era um freio para a adoção uma vez que o professor dessas matérias era cargo de confiança. Em todo o caso, a FTD publicou sua coleção de OSPB e de EMC, apesar do juízo negativo da Comissão. Este parecer é um retrato bastante fiel da ideologia vivida naquela época.

Vamos citar de relance a reforma Capanema (1942), as LDBs com suas respectivas modificações de currículos.

É curioso, além, de tudo isso, constatar a influência que o atual sistema de exame vestibular tem tido sobre os livros didáticos. Não vamos citar a produção paralela das apostilas e dos diversos cursinhos. Houve época em que até livros da pré-escola traziam testes de múltipla escolha sob a capa de preparação para os vestibulares.





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