História da educaçÃo de goiáS: documentos em rede



Baixar 96.87 Kb.
Encontro29.07.2016
Tamanho96.87 Kb.
HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO DE GOIÁS: DOCUMENTOS EM REDE
BARRA, Valdeniza M. L. da
UFG/FAPEG
dabarra@yahoo.com.br
Eixo temático: Fontes e Métodos em História da Educação
O presente trabalho expõe a pesquisa realizada por um grupo/rede que inclui professores e estudantes da Universidade Federal de Goiás, Universidade Estadual de Goiás e Faculdade Estácio de Sá – GO. Tal grupo se debruça sobre um amplo conjunto documental manuscrito e impresso encontrado no Arquivo Histórico Estadual de Goiás (AHE-GO), Instituto de Pesquisas e Estudos Históricos do Brasil Central (IPEHBC), Gabinete Literário Goiano (Cidade de Goiás) e Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG). O trabalho foi iniciado em 2004 com o levantamento de dados da história da educação em Goiás, havendo ênfase para o período de 1830 a 1930. A pesquisa implica a realização de leitura, seleção e transcrição de dados relativos à educação. Como finalidade última, visa a formação de um banco de dados de acesso público ilimitado. Em setembro de 2008 esta pesquisa flertou-se com o Museu Virtual da Educação de Goiás (Faculdade de Educação - UFG), criado em 2002 e interrompido em 2003. Em ambos os projetos, verifica-se a proposta de recuperação e disponibilização eletrônica de documentos da educação goiana. No momento em que se relata este trabalho, os documentos trabalhados por esta rede de pesquisa estão recebendo os tratamentos de descrição, classificação e arquivamento digital dos dados no software Ica atom, em conformidade com a NOBRADE. Tal trabalho envolve os seguintes documentos: 1) Três periódicos: A Matutyna Meyapontense, 1830 a 1834; Correio Oficial, 1837 a 1900; A Tribuna Livre, 1878 a 1883; 2) Série de relatórios presidenciais: anos de 1835 a 1917; 3) Documentação referente ao Gabinete Literário Goiano: atas de 1864 a 1903; estatuto de 1905, relatórios presidenciais 1880 a 1884; acervo de obras do século XIX que inclui cerca de 280 livros fotografados (capa, contra capa, lombada, sumário e ficha catalográfica; 4) Documentação normativa (leis, regulamentos e programas de ensino): relativos aos anos de 1835, 1846, 1869, 1884, 1886 (dois documentos distintos), 1887, 1893, 1904, 1906, 1928, 1930 (dois documentos distintos), 1937, 1962, 1973, 5) Mapas de frequência escolar, entre outros.. Neste projeto inclui-se também a incorporação de acervo de cerca 400 fotografias de situações escolares goianas do século XX, produto de trabalho desenvolvido por uma professora de História da Educação ao longo dos últimos dez anos em diferentes municípios goianos. A rede de pesquisa, ora denominada Rede de Estudos de História da Educação de Goiás (www.fe.ufg.br/reheg) se pretende repositório eletrônico de documentos da história da educação de Goiás.

Palavras-chave: História da educação; Goiás; Fontes.

A pesquisa investe nos aspectos sócio-históricos e culturais do projeto de educação da sociedade goiana, a partir do século XIX, fundamentando-se na hipótese de que, entre a modernidade (século XIX) e a “pós-modernidade” (transição do século XX para XXI), houve um deslocamento estruturante das competências atribuídas à escola, cuja principal especificidade, é o trato com conhecimento. Tanto a escola como os processos educativos institucionalizados ou não, constituem espaço privilegiado da produção e transmissão do conhecimento, premissa básica para a emancipação e construção da qualidade de vida em escala individual e planetária. A escola ou os processos educativos destinados à população mais ampla da sociedade teve início em Goiás no século XIX, período histórico que mais deu visibilidade às fundações da modernidade. Levando-se em conta, que a modernidade se estruturava em dois pilares: a regulação e a emancipação (Santos, 2003; Gallo: 2002; Silva:2005), sendo que o pilar da regulação previa o papel do Estado, do Mercado e da Sociedade Civil na definição dos marcos reguladores da vida política econômica e social. Por sua vez, o pilar da emancipação se constituía na definição dos princípios da formação plena dos sujeitos, o que supunha as dimensões da formação ética, estética e educacional (científica). Os pilares da regulação e da emancipação relacionavam entre si em maior ou menor grau. No curso do século XIX, este “projeto educacional” teria se traduzido na atualização cotidiana das necessárias condições para o exercício do magistério, de tal modo que, no período do século XIX, teriam sido geradas as promessas do projeto educacional a serem cumpridas pelo período histórico vindouro, o século XX. (SOUZA, 1998, VEIGA, 2007).

Neste suposto projeto em andamento, devem ser levadas em conta as condições materiais de funcionamento escolar, as práticas de registro dos alunos e o princípio homogeneizador herdado pela concepção racionalista em vigência. Juntos, estes aspectos podem contribuir para se verificar nos processos de constituição da especificidade escolar, a produção de um perfil profissional de atuação no magistério.

Os procedimentos metodológicos consistem no levantamento de dados (fontes primárias) da educação em Goiás no século XIX em três instituições: AEG (Arquivo Estadual de Goiás) e o IPEHBC (Instituto de Pesquisas Históricas do Brasil Central) e Gabinete Literário Goiano (Cidade de Goiás). Este conjunto documental se apresenta nas formas manuscrita (mapas, relatórios, tabelas, livros de matrícula, livros de controle do pagamento de professores, livros de pagamento do aluguel das casas-escola, entre outros.) e impressa (jornais, livros, regulamentos).Uma leitura prévia seleciona os documentos que serão fotografados. As imagens captadas dos documentos são gravadas em cd’s que se tornam suportes dos documentos, sobre os quais serão procedidas a leitura e a transcrição de dados.i Abaixo, segue o balanço do trabalho de leitura, captação de imagens, transcrição e sistematização.


1 - Periódicos:


  • A Matutina Meyapontense (1830-1834).

Trata-se do primeiro jornal goiano, de iniciativa do comendador Joaquim Alves de Oliveira, na cidade de Meia Ponte, hoje Pirenópolis. Joaquim Alves de Oliveira era goiano e teria adquirido uma tipografia na Côrte no ano de 1829. O jornal era impresso com tipos de madeira, em papel de linho, com duas colunas por página. Circulavam-se quinze números por ano, sendo redigido pelo Padre Luiz Gonzaga de Camargo Fleury. (LÔBO, 1949). Recentemente a Agência Goiana de (AGEPEL) digitalizou este jornal, o que constitui a base para este trabalho e outros como a dissertação de Mestrado de Wilson Rocha Assis, intitulada Os moderados e as representações de Goiás n’A Matutina Meiapontense (1830 – 1834). Parte dos originais deste periódico podem ser encontrados no Instituto Histórico e Geográfico do Estado de Goiás, Gabinete Literário Goiano ou Instituto de pesquisas e Estudos Históricos do Brasil Central.

Entre os temas contemplados, destaca-se o conteúdo liberal e o apelo por um governo constitucionalista, a liberdade da imprensa e o papel da imprensa na formação da opinião pública, a instrução dos cidadãos como meio de construção da nação. Segue abaixo, para efeito de ilustração, dois trechos transcritos do respectivo periódico:


Quadro I – Excertos do periódico A Matutyna Meyapontense



Data

Trecho da transcrição

20/04/1830



“Assim como a instrucçao individual he que ennobrese o homem, e o distingue de ignorantes, como o dia se distingue da noite, tão bem a Instrucçao Nacional ennobrese as Naçoens, e honra os governos, que as dirigem. O homem ignorante não é capaz de coisa nenhuma, e apenas, e apenas pode exercer grosseiramente a quellas funçoens phisicas, que são communs á todos os animaes; e de resto como terra inculta, não só não cria, nem produz coisas proveitozas, màs a ter, as vezes gera fructos perigozos”. Conselho Geral da Província de Goyas 12 de dezembro de 1829. pág.04

02/01/1833



“De 74 Aulas de primeiras letras creadas,apenas existem providas 31, faltando 38 de meninos, e 5 de meninas. As de grammatica Latina sendo 10, faltao 5. Nas primeiras frequentao 1:134 meninos, e 197 meninas, segundo os mappas que forao presentes, faltando das .freguezias da Conceição, e Santa Izabel, e da Villa de Taubaté. Nas segundas frequentao 63 alunnos, faltando de Itu, e Taubaté, não obstante ter se exigido as necessárias informações d’uma e d’outra.

Vós conheceis as causas que influem para retardar o ensino primário: este objecto mereceu particular attenção do Conselho Geral.Agora que não tardaraõ a vir sanccionada do mesmo Conselho, poderemos preencher as disposições do nosso Código funamental.” Artigos de officio.



Fonte: A Matutyna Meyapontense.


  • Correio Oficial (1837 a 1900).

A delimitação temporal descrita acima traduz o recorte estabelecido pela pesquisa. Trata-se do segundo jornal editado em Goiás. Seus primeiros números foram impressos na tipografia que o presidente da província de Goiás, José Rodrigues Jardim teria adquirido de Joaquim Alves de Oliveira, proprietário de A Matutyna Meyapontense (1829-1834). O primeiro número foi publicado no dia 3 de junho de 1837. A direção efetiva do Correio Oficial era do monsenhor Joaquim Vicente Azevedo, a partir de 11 de agosto de 1837. A criação do jornal oficial do governo da província de Goiás era definida em lei específica:

Nesta folha serão transcritos todos os atos oficiais que não exigirem segredo do govêrno, Assembléia Legislativa Provincial, das Câmaras Municipais, dos jurados, as decisões das Juntas de Paz, as leis e os atos do Govêrno Geral que disserem respeito a esta Província e isto por inteiro ou um extrato segundo a importância da matéria. (Lei no. 16, de 16/03/1836, art. 3º. apud LÔBO, 1949: 15).


Segue no quadro abaixo uma síntese possível da trajetória do Correio Oficial no curso do século XIX.

Quadro 2 - Correio Oficial: anos 1837 a 1900.



Período

Publicação/Denominação

Propriedade

1837 a 1850

(aproximadamente)




Correio Oficial

Governo de Goiás



1850 (aproximadamente) a

1854.


Tocantins

Coronel Felipe Antonio

Cardoso de Santa Cruz


1855 a 1863 (aproximadamente)



Gazeta Oficial do Estado de Goiás

Periodicidade: semanal



Governo de Goiás

Direção: João Luiz Xavier Brandão



1864 a 1890



Correio Oficial de Goiás

2 colunas por página

Periodicidade: 2 vezes por semana

Governo de Goiás



1890 a 1894





Goiás

Propriedade:

Dr. Antonio Félix de

Bulhões (redação) e José Leopoldo de Bulhões.

Tipografia de propriedade: Major

Inácio Soares de Bulhões.


04/10/1894 a 15 de fevereiro de

1900



Semanário Oficial

Governo de Goiás



Fonte: LÔBO, 1949.
O trabalho da pesquisa possui hoje cerca de duzentas e trinta páginas de transcrição digitadas de temas diversos da educação neste periódico.


  • A Tribuna Livre (1878 -1884)

Circulou de 20 de fevereiro de 1878 a 24 de dezembro de 1884. Foram seus redatores sucessivos: Dr. António Félix de Bulhões Jardim, Coronel Bernardo Antonio de Faria Albernaz e Dr. José Leopoldo de Bullhões Jardim. Era editado por J. do P. Marques Tocantins e circulava uma vez por semana.ii

Quadro 3 – Excertos do periódico A Tribuna Livre



Período

Trecho da transcrição

Anno I – n° 27 – 24/08/1878


“Educação e industrias, elevação moral e abastança material, -eis o que nos falta, eis o que deve ser a occupação exclusiva e constante de uma politica honrada e conscienciosa, que vize lealmente à felicidade publica e a pratica das doutrinas, que por antecipação do futuro andarão gravando em nossas leis, antes que gravassem no coração do povo e nos costumes nacionaes.” ( Seção “A Tribuna Livre” – pg. 2).

Anno II – n° 49 – 2.../01/1879


“Deve ser portanto programma do partido liberal a diffusão da instrucção, porque com ella, a face de cousas mudar-se-hão, e mais solidamente firmar-se-ha no governo do paiz.

É necessario que todos comprehendão o que é – autor [...] –; é necessario que cada qual saiba usar dos direitos que a constituição lhe (...); e para chegarmos a esse desi[...] compete-nos lançar mão d’esse elemento, tanto mais forte, quanto d’elle depende a felicidade dos povos.” (Seção “A Tribuna Livre” – pg. 2).



Fonte: A Tribuna Livre. IPEHBC.

Os anos de 1878 e 1879 (período trabalhado até o momento) de publicação de A Tribuna Livre foram bastante expressivos na publicação de temas da educação. Haja vista o montante de transcrições digitadas, cerca de duzentos e trinta páginas. Os temas são bastante variados, desde a aquisição de livros, artigos de papelaria, anúncios de professores particulares, discursos políticos, jornais e revistas oriundos de outras províncias ou países, formaturas, entre outros.


2 – Relatórios dos presidentes e governadores de Goiás (1835 a 1917).
Entre os anos de 1824 a 1889, portanto sessenta e cinco anos do período imperial, a província de Goiás teve quarenta e um presidentes. De 1889 a 1917, período de recorte da pesquisa, houve um total de 41 presidentes e 17 governadores (república), conforme Ferreira (1980). Em 1986, a Universidade Católica de Goiás (UCG) e o Centro de Cultura Goiana iniciaram o trabalho de reunir os relatórios dos presidentes de Goiás, publicando-os na Coleção Memórias Goianas. Esta coleção constitui a base documental que dá base ao trabalho desta pesquisa: ler e selecionar (transcrição) da seção de Instrucção Pública, temas elucidativos para a história da educação em Goiás inscritos na seção do relatório denominada Instrucção Pública
Quadro 4 – Síntese ilustrativa de excertos dos discursos presidenciais da província goiana

Presidente/Ano

Trecho da transcrição

José de Assiz Mascarenhas

1845


“a instrução he o ponto de partida, e a base, em que deve assentar o edifício social, não fallo só da instrucção, que se costuma á dar nas escolas, ler, escrever, contar, doutrina Christã; demais alguma cousa se precisa, he necessário inspirar aos meninos os princípios de Moral, o amor ao trabalho, o horror á preguiça, para a qual tanto nos atrahe a espantosa fecundidade deste solo abençoado. Quem não há de pronuciar com respeito, e gratidão os nomes illustres, e inmortaes de Pestalozzi, Fellemberg, Bell e Lancaster!! Hum povo illustrado facilmente se governa, e he bem difícil, senão impossível opprimilo”. Col. Memórias Goianas, nº 4. p. 16-17.

Antonio Candido da Cruz Machado

1855


“Das 36 cadeiras creadas para sexo masculino estão providas de professores vitalícios, além das 2 da capital, as 12, da cidade de meiaponte, e das villas de Corumbá, S.José de Tocantins, Bomfim, S.Luzia, Formosa,Cavalcante, Conceição do Norte de Taguatinga, S. Rita, e Anicuns; e provida interinamente as 10 das villas de Natividade, Pilar, S. Cruz, Arraias, Jaraguá, Catalão, Flores, Porto Imperial, Boavista do Tocantins, e a da freguezia de Morrinhos. Destas 24 aulas não se tem recebido mappas de 4, e segundo os últimos remettidos”. Col. Memórias Goianas, nº. 06 p. 227-230.

João Bonifácio Gomes de Siqueira

1864


“Não é satisfactório o estado da instrucção publica, nem me parece fácil melhoral-o suficientemente. Differentes causas concorrem para esse estado, sendo a principal a falta de pessoal habilitado para o magistério. Para bem desempenhar tão importante emprego não basta saber as matérias que se tem de ensinar: é necessário, alem da moralidade, ter outros conhecimentos, e sobre tudo ter vocação para o magistério. As pessoas, porém que se achão n’estas circunstâncias, não se querem sujeitar por módicas restrições a tão árdua tarefa, e julgão-se, com razão, habilitadas para outros empregos de menos peso, e mais retribuídos. Forçoso é, pois acceitar para o magistério pessoas menos habilitado, pois parece-me isso menos mão do que deixar sem meio algum de instrucção a mocidade”. Col. Memórias Goianas, nº. 10 p. 53-54.

Dr. Antero

Cícero de Assis

1875


“Fallando- vos ainda deste assumpto da maior transcedencia, posso diser-vos, senhores, felizmente e cheio de satisfação que estas provincia não tem sido indifferente ao grande movimento social que se esperimenta e executa por toda parte, para, educando o povo, em todas as suas diversas camadas sociaes, abrir mais vastos horizontes ao aperfeiçoamento humano em todas as suas relações de vida, quer physicas quer moraes. Nem era possível sel-o porque não há presentemente quem desconheça que em taes princípios, na sua propagação consiste esssencialmente a felicidade publica”. Col. Memórias goianas, n. 12 p. 28-29.

Fonte: Coleção Memórias Goianas, nos. 3 ao 17, anos de 1986 a 2004. IPEHBC.
3 - Gabinete Literário Goiano
O Gabinete Literário Goiano é reconhecido por Genesco Bretas (1991) como a primeira biblioteca pública de Goiásiii. Foi criado em 1864, na capital da província (Vila Boa de Goiás), por iniciativa de um cidadão chamado Raymundo Sardinha da Costa e cerca de trinta e seis homens.

Até o presente momento a pesquisa incidiu sobre os seguintes documentos:



  • Relatórios de presidência do Gabinete Literário Goiano (1880-1884);

  • Estatuto do Gabinete Literário (1905);

  • Atas (1864 a 1903);

  • Obras do século XIX: acervo do Gabinete Literário.

Quadro 5 – Síntese ilustrativa de excertos de documentos variados relativos ao Gabinete Literário Goiano.



Documentos/data

Trechos das transcrições

Relatório do presidente do

GLG de 1882


“O que ha ainda de mais triste, lastimavel e doloroso é, que apar do progresso rapido e espantoso

das luzes do seculo 19 os horrorosos effeitos da intoxicação alcoolica não se limita sómente a devastar os individuos, mas a propria raça!? Na primeira geração parece assim como o comprova o Dr. Morel, predominar a immoralidades na depravação dos excessos alcoolicos, d´ahi o embrutecimento moral; na segunda apparece a embriaguez hereditaria, os eccessos maniacos, e a paralysia geral; na terceira as tendências hypocondriacas, as hypemanias, e ao homicidio; na quarta, enfim, a degenerencia é completa: o menino nasce imbecil ou idiota, não passa d´adolescencia, ou a velhice torna-se muitas vezes prematura. E´ em vista de oppor-se uma grande barreira ao maior dos males, ao flagello o mais constante, que em diversos paizes, notavelmente na America, tem-se promovido sociedade de temperança, estabelecidos casa de correcção a esses vagabundos, e augmentando cada vez mais os tributos contra abusos tão abominaveis e funestos.” AHE – GO.



Estatuto do

GLG


1905

“Art.1. ° O Gabinete litterario tem por fim promover a educação scientifica e litteraria de seus socios, por meio de estudo e leituras de obras, e jornaes scientificos e litterarios e tambem por intermedios de conferencias publicas.” (...)

Art. 6.° A bibliothca será franqueada ao publico logo que o Gabinete adquirir um predio, com as necessarias accommodações para o salão de leitura, completamente mobiliado e com livro proprio para assentamentodo livro pedido pelo leitor.” AHE – GO.


Ata do dia

13/05/1864

do GLG


O Presidente fez ver a conveniência da escolha de Jornais e livros para a Biblioteca e assinaram por seis meses os seguintes jornais: A Cruz, Biblioteca Brasileira, Correio Mercantil, Jornal do Comércio, Diário do Rio de Janeiro, Constitucional, Indicador Militar, Revista Médica, Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Le Brezil, Jornal das Famílias, e se mandasse comprar as seguintes obras: A Bíblia (contendo o Novo e Velho Testamento tradução do Padre Antônio Pereira de Figueiredo), Vida dos Santos, Vários dicionários, tudo no valor (importância) de 399$900 réis. IHGG.

Acervo:


obras do século XIX

Compendio para ensino de surdos–mudos. Barão Homem de Mello. Typograpel Universal de H. e Laemmert & C. 1881;

Diccionario universal de educação e ensino – vol 1, E. M. Campagne. Trad. por Camillo Castello Branco. Livraria Internacional.s/d;

Dictionnaire de pédagogie et d'instruction primaire - II° Partier - Tome Second

F. Buisson. Librairie Hachette et Cia.1882;



Educação das maes de familias - ou a civilisação do genero humano pelas mulheres - tomo I. Mr. I. Aimé Martins (Trad. de Joaquim Maria da Silva). Editor, Francisco Gomes da Fonseca. s/d.;

Felicidade pela instrucção. Antonio Feliciano de Castilho. Typographia da Academia R. das Sciencias, 1854. GLG.

Fonte: Gabinete Literário Goiano, Arquivo Histórico Estadual de Goiás e Instituto Histórico e Geográfico do

Estado de Goiás.


Os diferentes documentos trabalhados até este momento permitem identificar na trajetória desta instituição um papel importante na difusão de uma mentalidade ilustrada, articulada com as idéias que estavam em voga na Europa e nos Estados Unidos. As preocupações contempladas no discurso de seu presidente mais destacado, o médico Francisco Antonio de Azeredo (1872 a 1884), que alertava os sócios da instituição para novos códigos de sociabilidade, novos hábitos de alimentação (comida, bebida), ações de higienismo e um certo ecletismo liberal nas discussões de cunho político ou econômico. A constatação de nomes ilustres como sócios honorários (Garnier, Taunay, Veiga Valle). A aquisição de obras (periódicos e livros) cujo teor traduzia o ecletismo e também a atmosfera de uma engrenagem que poderia se mover por meio das idéias. “Se o livro que está em jogo é um livro capital, cuja apropriação se acompanha da apropriação de uma autoridade ao mesmo tempo política, intelectual, etc.” (Bourdieu, 2001: 242). Verifica-se, no entanto que, as diferentes composições de sócios do GLG mantiveram o caráter endógeno de suas práticas pretensamente intelectualizadas.

4– Legislação/documentos normativos
Quadro 6 – Documentos normativos da educação em Goiás (1835-1930)iv

Ano

Documento

Número de artigos

Fonte/Instituição

1835

Primeira Lei Goiana de Instrução Publica

Vinte e seis.

Bretas, 1991.

1846

Lei de criação do Lyceu

Onze.

Bretas, 1991.

1869

Regulamento da Insctrução Pública e Particular da

Provincia de Goiaz



Sessenta e cinco.

AHE – GO

1884

Regulamento da instrucção publica

Cento e onze (xecar).

AHE – GO

1886

Regulamento para a catechese na provincia de Goyaz

Onze.

AHE – GO

1886

Regulamento da instrucção publica Primaria e

seccundaria da provincia de Goyaz



Trinta e seis.

AHE – GO

1887

Regulamento para a instrucção primaria da província de Goyaz

Cento e quatro.

AHE – GO

1893

Regulamento para a instrucção primaria da Provincia de Goyaz

Quarenta e sete.

AHE – GO

1904

Regulamento Aulas avulsas de instrucção secundaria pelo estado em diversos municipios de Goyaz.

Quinze.

AHE – GO

1906

Regulamento do Lyceu e da Escola Normal

Duzentos e quinze.

AHE – GO

1928

Regulamento e Programa do Jardim de Infância

Oito.

AHE – GO

1930

Regulamento do Ensino Primario do Estado de Goyaz

Quatrocentos.

AHE – GO

Fontes: Bretas, 1991; AHE – GO.
Outros:

Ano

Documento

Número de artigos/páginas.

Instituição

1886

Regulamento da Typographia Provincial de

Goyaz


Cinquenta e três.

AHE – GO

1930

Programma de Ensino Primário

Sessenta páginas.

AHE – GO

Fontes: AHE – GO.
A cronologia dos documentos normativos acima não está completa, mas é suficiente para se verificar o quanto o dispositivo da regulação recebeu reforço na constituição do campo das práticas educativas escolares em Goiás no século XIX. Destaque especial para os anos 80, onde se verifica a produção de quatro documentos distintos em quatro anos, num indício que remete para os movimentos de reação da monarquia em face do avenço das idéias liberalizantes que difundiam o pensamento republicano.
5- Mapas de freqüência escolar:


  • Mapas de freqüência escolar

Trata-se de documentos manuscritos cuja produção se encontra prevista nos regulamentos da instrução pública. Os mapas de responsabilidade do professor atendiam a, pelo menos, duas finalidades: 1) circunstanciar o estado da escola (número de alunos, idades, “estado de adiantamento” no ato da matrícula e no andamento do trabalho, filiação, naturalidade, moralidade, freqüência/infrequência e justificativas); 2) atestado de cumprimento dos deveres do trabalho docente, condição para o recebimento da remuneração. A periodicidade dos mapas variava segundo o texto normatizador da instrução pública, havendo mapas mensais, trimensais, semestrais e anuais de responsabilidade de professores. Uma das importantes contribuições desta fonte histórica é a possibilidade de subsidiar uma estatística escolar com vistas à produção do movimento de alunos e alunas nas diferentes escolas da província de Goiás. A pesquisa se encontra na fase inicial com esta fonte histórica, detendo-se sobre os mapas de freqüência escolar de Meya Ponte (hoje Pirenópolis). Os procedimentos com este documento implicam a exploração da série existente, em conformidade com a organização cronológica e as escolas existentes na localidade.
Atualmente, o trabalho transcrito do corpus documental acima referido se encontra em processo de revisão para posterior descrição arquivística. O primeiro procedimento consiste no retorno às fontes originais consultadas e à certificação do rigor na transcrição. O segundo procedimento implica a orientação de tratamento de arquivo concedida pelo CIDARQ (Centro de Informação e Documentação Arquivística da UFG) por meio da NOBRADE - Norma Brasileira de Descrição Arquivística (CONARQ, 2006) documento de orientações “compatíveis com as normas internacionais em vigor ISAD(G) e ISAAR(CPF), e tem em vista facilitar o acesso e o intercâmbio de informações em âmbito nacional e internacional.” (2006:9). A partir daí, os textos de transcrição, em certos casos os documentos digitalizados com suas respectivas descrições serão inseridos na base de dados do software ICA-ATOM.

O conjunto dos dados trabalhados pelo grupo, até este momento, ilustra as condições materiais de trabalho dos professores, a normatização do exercício da profissão, as obras de relevância que circulavam entre a elite intelectual do período, a circulação das idéias movidas pela filosofia positivista, pelo racionalismo científico, o liberalismo econômico, o higienismo, entre outras. Trata-se de um conjunto discursivo que fertiliza a hipótese de se pensar que, na esteira da chamada modernidade, um projeto educacional estava em andamento e, neste, a escola ocupa um papel encarecido pelas suas promessas.



i O trabalho é realizado por um grupo que inclui professores e alunos de diferentes instituições (Universidade Federal de Goiás, Universidade Estadual de Goiás, Faculdade Estágio de Sá-GO). Desde o ano de 2004, quando o projeto foi criado até os dias de hoje, houve várias formações do grupo, sendo mantido o propósito. Alunas de Iniciação Científica que deixaram sua contribuição: Samantha Guarany Borges, Ivanete José dos Santos, Dilma Santana de Faria, Joyce Moraes Santana, Analine Mariê Gomes Silva, Kályta Flávia dos Santos, Kamilla da Silva Rodrigues. Professoras atuantes no projeto: Marlene Borges de Freitas Reis, Yara Oliveira e Silva. Alunos de Iniciação Científica atuantes: Tatiana Sasse Fabiano, Samara Charaf de Oliveira Edine, Patrícia Ferreira de Abreu e Cláudia Rodrigues da Silva. Desde que o projeto foi criado por mim no ano de 2004, assumo a função de coordenadora das atividades de pesquisa de arquivo e dos encontros mensais de estudo do grupo. Cabe destacar as participações mais recentes das professoras Diane Valdez, Cristiane Maria Ribeiro, Maria das Graças Prudente e Tereza Raquel Albuquerque (aluna).

ii A pesquisa trabalha, até o momento com as edições de 1878, 1881, 1882 e 1882. Trata-se dos números de A Tribuna Livre existentes no Instituto de pesquisas e Estudos Históricos do Brasil Central, os mesmos encontram-se microfilmados e as séries anuais existentes nesta instituição não estão completas.

iii O projeto Livros e leituras em circulação em Goiás no século XIX, autoria de Valdeniza Maria Lopes da Barra, revela que esta denominação não encontra ressonância na trajetória desta instituição, haja vista, as menções em diferentes documentos sobre a restrição de uso do acervo aos sócios do Gabinete Literário Goiano.

iv A lista dos documentos inscritos no quadro representa os documentos que foram localizados nas fontes ou instituições identificadas na terceira coluna.

Bibliografia
BARRA, Valdeniza M. L. da. Condições materiais para o exercício docente: sinais de de um projeto educacional oitocentista. Cadernos de História da Educação, n. 7. Uberlândia, MG: Editora da UFU, 2008.

______ 2008. Livros e leituras do Gabinete Literário Goiano na sociedade oitocentista de Goiás. Revista Educativa, vol. 11, n.1. Goiânia: UCG, 2008.

BOURDIEU, P. E CHARTIER, R. A leitura uma prática cultural: um debate entre Bourdieu e Chartier. In: CHARTIER, R. (org.). Práticas de leitura. São Paulo: Estação Liberdade, 2001.

Brasil. Conselho Nacional de Arquivos. NOBRADE: Norma Brasileira de Descrição Arquivística. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2006.

BRETAS, G. História da Instrução Pública em Goiás. Goiânia: Editora da UFG: 1991.

FERREIRA, J. C. Presidentes e governadores de Goiás. Coleção Documentos Goianos. N. 5. Goiânia: Editora da UFG, 1980.

LÔBO, José. 1949. Contribuição à história da imprensa goiana. 1949. Obra encontrada no Arquivo Histórico Estadual de Goiás.

VEIGA, Cinthia G. História da Educação. São Paulo: Ática, 2007.

GALLO, Silvio. A educação integral numa perspectiva anarquista. In: COIMBRA, L. M. e CAVALIÉRE, A. M. Educação brasileira e(m) tempo integral. Rio de Janeiro, Petrópolis, Vozes, 2002.

SANTOS, Boaventura S. Pela mão de Alice: o social e o político na pós-modernidade. São Paulo: Cortez, 2003.



SILVA, Marco. Educar em nosso tempo: desafios da teoria social pós-moderna. In: MAFRA e TURA (orgs.). Sociologia para educadores 2: o debate sociológico da educação no século XX e as perspectivas atuais. Rio de Janeiro, Quartet, 2005.



Catálogo: novo -> congressos -> cbhe6 -> anais vi cbhe -> conteudo -> file
file -> O setecentista acerca do ensino de linguas: o caso da lingua portuguesa no brasil
file -> Os ginásios vocacionais do estado de são paulo: a atualidade de um projeto ceifado pelo regime militar
file -> Manual didático história do brasil curso superior de joão ribeiro: uma análise sob a perspectiva da organizaçÃo do trabalho didático
file -> Os capuchinhos italianos na formaçÃo do povo no nordeste brasileiro
file -> Categorias conceituais de bakhtin para a pesquisa histórica: a polifonia e o dialogismo
file -> Ofenísia soares freire: profesorra, escritora e jornalista sergipana- uma intelectual da educaçÃO (1941-1966)
file -> História das ideias pedagógicas: contribuiçÕES DA PSICOLOGIA históRICO-CULTURAL E DA PEDAGOGIA histórico-crítica para o ensino de crianças pequenas
file -> O ensino de história da educaçÃo no curso de pedagogia da universidade estadual de londrina
file -> Ligas de combate ao analfabetismo no brasil: a contribuiçÃo do município de barbalha para a educaçÃo brasileira
file -> Missões rurais de educaçÃO


Compartilhe com seus amigos:


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal