História da formação de professores de Anápolis e a organização política enquanto categoria profissional1



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História da formação de professores de Anápolis e a organização política enquanto categoria profissional1

Mirza Seabra Toschi- UEG

Eliane Gonçalves Costa Anderi- UEG


Este texto é fruto de um trabalho de pesquisa, Museu Virtual da Educação de Anápolis, desenvolvido no período de 2005 a 2007. O projeto objetivou construir conhecimento sobre a história da educação da cidade e depois divulgar esse saber em forma de textos e na forma virtual, disponibilizando as descobertas na Internet.


Anápolis é a terceira maior cidade, em termos populacionais, do Estado de Goiás e conta atualmente com uma universidade, a Universidade Estadual de Goiás com duas unidades universitárias. Possui também um Centro Universitário e duas faculdades privadas que oferecem curso de formação de professores, o que vem justificar a importância da pesquisa.

Evidenciou-se a ausência de produção acadêmica sobre a história da educação na cidade o que motivou a fazer um estudo que valorizasse cada dado coletado. Os materiais obtidos foram digitalizados e tornaram-se imagens no Museu Virtual da Educação de Anápolis no endereço: www.museuvirtual.ueg.br .

Videogravar os relatos orais de pessoas idosos foi também uma opção metodológica bem como entrevistar ex-professores que tiveram experiência na educação básica e no ensino superior e também com membros do sindicalismo da categoria. Esse universo de sujeitos foi denominado de “Memória Viva”. A decupagem das fitas constitui-se numa grande riqueza, uma vez que, além de assegurar acesso à história viva da cidade, criou-se material considerado fonte primária para outras pesquisas históricas.

Este texto descreverá a história da formação dos professores desde o surgimento da primeira escola normal, em 1925, até os dias atuais e a trajetória da criação e organização do sindicato dos professores na cidade.



A Formação dos Professores


Antes de surgimento da primeira escola normal os professores que aqui trabalhavam recebiam sua formação na Cidade de Goiás (antiga capital do Estado), na cidade de Bonfim (hoje Silvânia) ou ainda em outros estados.

Mas, pelos relatos de Ferreira (1981) e Borges (1975), um bom número de professores que lecionaram nas escolas da cidade não possuíam formação para ser professores, alguns dominavam pouco mais que as primeiras letras. Em um dos documentos encontrados, ao se referir a uma sala noturna que o Professor Joaquim Sebastião de Bastos assumiria, se lê que ele irá ensinar “todas as matérias próprias de seu magistério”, quer dizer, o professor ensinaria tudo que sabia. Ao concluir isso, o professor iria para outra localidade ensinar tudo que sabia. Também atuavam como professor alguns comerciantes, farmacêuticos, médicos e advogados, ou seja, na visão da sociedade daquela época para ser professor bastava dominar o conteúdo daquilo que seria ensinado às crianças.

A primeira escola destinada a formar professores em Anápolis surgiu em 1925. Foi o Instituto de Ciências e Letras que oferecia o curso primário, o complementar e o normal Curso Normal para formação de professores. Esse Curso Normal é equiparado ao oferecido pelo Estado, em 1927, pela Lei 830 de 23 de julho.

A Escola Normal de Anápolis é fundada em 1931, com oferta de formação em nível secundário. Com a criação da Escola Normal, o Instituto de Ciências e Letras é fechado. O Instituto não tinha prédio próprio e funcionava na casa da professora Maria Elisa Crispim, primeira professora da cidade.

Destaque-se a importância da criação de escolas de nível secundário na cidade, uma vez que, embora o curso primário fosse elitista, o secundário o era muito mais, visto que, por não ser oferecido na cidade, fazia com que apenas as famílias mais ricas pudessem enviar seus filhos para estudar em outras cidades que tinham internato, como a cidade de Bonfim, atualmente Silvânia, que já foi considerada a Atenas do Estado de Goiás, uma vez que para lá se dirigiam alunos de várias partes de Goiás, em virtude da existência na cidade de Bonfim, de escolas das Irmãs Salesianas e de padres Maristas (FERREIRA, 1982).

A Escola Normal de Anápolis (antecessora do Colégio Auxilium) formou professores durante poucos anos, de 1931 a 1937. Os formandos eram cerca de três ou quatro a cada ano. Em 1935, teve apenas um formando. Por pressão dos pais, que não queriam escola mista para suas filhas, como era a Escola Normal2, os dirigentes da Escola entregaram sua gestão à Congregação Salesiana, a fim de que as alunas pudessem ter formação religiosa. Vale acrescentar que o Manifesto dos Pioneiros de 1932 propunha justamente o inverso disso, que era a desvinculação da educação pública da Igreja. Propunha que o ensino fosse laico, não-religioso, e que se implementasse a co-educação, isto é, a educação mista. Em Anápolis, a tendência era o inverso ao que ocorria em nível nacional.

Movido por esse desejo, um grupo de cidadãos anapolinos, em reunião no dia 28 de fevereiro de 1937, decidiram então entregar a Escola Normal à Congregação Salesiana. Antes de essa decisão ser tomada, houve um trabalho de convencimento liderado por Ana Costa de Velasco (D. Anica) e Graciano Antonio da Silva.

Em virtude do apreço que o Sr. Graciano tinha pelos métodos empregados pelo Colégio Nossa Senhora Auxiliadora da cidade de Bonfim, onde ele teve uma filha que lá estudou em regime de internato, contribui para que defendesse a idéia de ter em Anápolis uma escola que também atendesse somente as meninas.

Já no caso de D. Anica, ela acreditava que “esse negócio de moças misturadas com rapazes não dá certo, só serve para aprender o que não presta...” (FERREIRA, 1979, p. 148), crença que fez com que lutasse para criar em Anápolis uma escola só para as moças.

Após um trabalho de convencimento de outros membros da sociedade anapolina para apoiar a idéia, eles conseguem que, no dia 31 de maio de 1937, chegasse à Anápolis as Filhas de Maria Auxiliadora, as Irmãs Tereza Quadrus e Zita Lanna, que receberam do então diretor Luiz Caiado de Godoy, a Escola Normal de Anápolis. Ela funcionou com o mesmo nome até completar o ano letivo de 1937.

Em 1938, teve continuidade já não mais como Escola Normal de Anápolis, mas como Escola Normal Nossa Senhora Auxiliadora, sob a direção da Irmã Virgínia Miraca.

Na década de 1950, é criada a Escola Normal Professor Faustino3. Essa escola foi, durante aproximadamente 45 anos, responsável pela formação dos professores primários de Anápolis e, segundo Freitas (2006), ela também contribuiu para a formação dos professores que atuariam em Brasília, na época da construção da capital federal e com o norte de Goiás, quando ainda não havia ocorrido a separação do Estado do Tocantins do Estado de Goiás.

A Escola Normal Professor Faustino abrigou em sua estrutura uma escola laboratório, ou seja, uma Escola de Aplicação que serviria como campo de estágio de suas estudantes. A criação do “Grupinho” como foi conhecido, sofreu forte influência das idéias divulgadas pelo Programa de Assistência Brasileiro-Americano ao Ensino Elementar (PABAEE)4 que era um programa do Governo Federal resultante de acordo assinado entre o Brasil e os Estados Unidos, em junho de 1956, que tinha como objetivo central a melhoria do ensino fundamental”. A proposta pedagógica do programa continha forte influência dos ideais tecnicistas.

Segundo Freitas (2006), a idéia do Grupinho surgiu por influência dos conhecimentos obtidos nos cursos de aperfeiçoamento que fazia em Belo Horizonte. Assim se expressa:

É uma história muito interessante. Uma coisa inovadora. O grupo foi uma conseqüência lá da minha DAP5, lá de Belo Horizonte porque nós precisávamos de um laboratório humano. Para ver se o que a gente tinha aprendido realmente pudesse surtir o resultado. Se era produtivo. (...) Quando eu voltei conversei com Dona Carmem Xavier, que era então diretora da Escola Normal e pedi a ela que me ajudasse a falar com o governador para nós pedirmos um laboratório. E ela disse assim: _ pois não, eu te dou carta branca, se você quiser marcar audiência com o governador. O governador era Leonino Caiado...” (Memória Viva, 2006).

Imediatamente, a diretora marca uma audiência com o então Governador Leonino Caiado e também se prontificou a acompanhar a professora Maria Geralda. Ela reuniu um grupo de professoras da Escola Normal Prof. Faustino e disse:

Olha gente, nós vamos pedir um laboratório humano. Cheguei e falei com ele, dei por escrito, pedi que ele colocasse que já havia até o terreno, eu não sabia que aquilo nem era da escola, ou se era também. E eu já tinha o local que era ao lado da Escola Normal (...). E realmente mandaram. Eu inspecionava a obra. (FREITAS, Memória Viva, 2006).

Iniciaram-se as obras de construção do “Laboratório Humano” sem que houvesse qualquer projeto arquitetônico elaborado. Como a ordem é para construir um laboratório começou a chegar uma pia para cada sala, pois, no entendimento das pessoas, esse laboratório seria idêntico a um laboratório de ciências naturais ou de anatomia. Freitas (2006) relata que alguém foi chamá-la, quando chegou um caminhão com material para a construção:

_ Ah! Geralda, chegou um caminhão de coisa aí.

Eu ia lá e tinha uma quantidade enorme de pias, porque eles achavam que era laboratório de anatomia (...) Eu falei assim:

_ Nossa! Onde vão colocar tantas pias?

_ Quantas a senhora quer colocar aqui nessa sala?

_ Não moço, é para criança. Então eles vão passar o dia inteirinho lavando a mão. O senhor pode colocar uma só. Uma só é suficiente. (FREITAS, 2006, Memória Viva).

Enquanto funcionou, o Grupinho podia-se observar uma pia com torneira em cada sala de aula. Elas só foram retiradas quando deixou de existir e o prédio passou a ser ocupado pela Sub-Secretária Estadual de Educação de Anápolis.

Até 1969, as alunas do Curso Normal faziam os estágios nas escolas da comunidade, porém em número reduzido de horas. Sem controle, é possível que muitas alunas tivessem a conclusão do curso mesmo sem o estágio. No entanto, a necessidade de professores na cidade, não permitia que escapasse aluna da Escola Normal, sem a responsabilidade de educar as crianças anapolinas.

Em 1975, a professora Merentina de Castro foi convidada, pela diretora Maria Carmem Xavier Nunes, para assumir a coordenação administrativa do “Grupinho6” enquanto Maria Geralda Teixeira assumia a coordenação pedagógica.

Maria Geralda Teixeira foi responsável pelo estágio acompanhando e orientando as alunas da Escola Normal, a partir do 1º ano do curso. Para que ocorresse essa orientação foi necessário o Estado contratar mais professores.

A convite do Ministério da Educação, em 1976, um grupo de professoras formado pelas professoras: Merentina Francisca de Castro, Maria Geralda Teixeira, Maria Aparecida Alcântara, Éster Mendes, Ernesta de Paula e a estagiária Cibele dos Santos foram levadas a Belo Horizonte e lá permanecerem por uma semana, para que pudessem relatar como ocorria o desenvolvimento e o acompanhamento do estágio.

A organização do estágio praticada pela Escola Normal no Grupinho serviu de referência para alguns estados brasileiros e municípios goianos pois além dos relatos de experiências feitos em eventos, como o relato no parágrafo anterior, a escola também recebia correspondência de outros locais tais como: do Acre, de Minas de Gerais, de Goiânia e de outras cidades do Estado de Goiás solicitando esclarecimentos e orientações acerca do funcionamento do estágio.

O estágio praticado pelos professores da Escola Normal estava assim organizado: no 1º ano do curso as alunas só observavam; no 2º ano auxiliavam a professora regente produzindo material didático dentro da Escola Laboratório; no 3º ano saiam para o estágio nas escolas da cidade. (Texto elaborado pela Prof. Waltra Teodora7, 2006).



As duas últimas de turmas de Magistério concluíram o curso em 2006 que, segundo nos informa Rocha (2006), era composta por sessenta estudantes. A extinção do Curso Normal, de nível médio, em Anápolis se deve à reforma educacional que o Brasil viveu no final se século XX e que teve como instrumento para sua concretização o marco regulatório a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional nº. 9394, de 20 de dezembro de 1996. No capítulo IV, título VI, que trata dos profissionais da educação, o Art. 62 determina que a formação mínima dos professores para atuarem na Educação Básica8 deve ocorrer em nível superior, em curso de licenciatura, em universidades e institutos superiores de educação, admitindo também a formação em nível médio para aqueles que vão atuar na educação infantil e nos anos iniciais do ensino fundamental. O Curso Normal acaba em Anápolis porque a cidade já possuía no período, uma faculdade, um centro universitário e uma universidade que ofereciam curso superior para formação de professores.

Com o fim do Curso Normal, o Colégio Normal Professor Faustino passa a ser Colégio Estadual Professor Faustino e oferece Ensino fundamental do 6º ao 9º ano, turma de aceleração e Educação de Jovens e Adultos, deixando para trás 48 anos de história de formação de professores dos anos primeiros anos de escolaridade das crianças de Anápolis e da região, pois a Escola Normal Professor Faustino contribuiu com a formação do quadro docente dos primeiros anos de Brasília, da região em que se insere e ainda para o norte do Estado de Goiás.

O Colégio Estadual Polivalente Frei João Batista também ofereceu, durante um curto período, o curso de formação de professor em nível médio, deixando também de oferecer por influência da LDB nº 9394/96. O fechamento dos cursos Normais pode ser considerado um equívoco na interpretação da LDB, pois é admitido, pela mesma lei, a formação em nível médio para a educação infantil e para as séries iniciais do ensino fundamental. Como a educação infantil, posteriormente à LDB, passa à responsabilidade dos municípios, Anápolis vive a carência de professores para esse nível de ensino.

A formação de professores em nível superior vai acontecer em 1960, quando a Associação Educativa Evangélica cria a Faculdade de Filosofia Bernardo Sayão, com os cursos de Pedagogia, Letras, Matemática, História e Geografia. O mentor dessa idéia, Richard Edward Senn, em recente visita que fez ao Brasil9, informou que pensou em criar um curso superior em Anápolis devido à carência de professores que havia na região. Além disso, a construção de Brasília, futura capital do país, requeria isso. Ele observou que o futuro de um país está nas vidas da mocidade e o professor é a base da formação futura. Segundo Senn (2007), as maiores dificuldades que enfrentou para esse intento foi atender todas as exigências do Conselho Federal de Educação (CFE) que, à época, se localizava no Rio de Janeiro. Junto a essa dificuldade havia também a carência de professores credenciados pelo CFE para ministrar aulas no ensino superior. Para isso, fez seleção com os professores do Colégio Couto Magalhães, trouxe professores do Norte de Mato Grosso e de São Paulo, além de professores da cidade.

Senn destacou ainda que o entusiasmo para instalação dos cursos superiores na cidade era grande e que os professores selecionados aceitaram lecionar durante um ano sem qualquer salário, na perspectiva de terem os cursos aprovados e de se tornarem professores universitários, o que era uma grande honra à época.

No âmbito público, a Faculdade de Ciências Econômicas de Anápolis (FACEA) cria seus primeiros cursos de formação de professores em 1986, com a instalação dos cursos de licenciatura Plena em História, Geografia e Letras e o de Licenciatura curta10 em Ciências. Em 1990, criou-se o curso de Pedagogia que também contava com um colégio de Aplicação - Colégio de Aplicação Dr. César Toledo - criado em 1991 e que também servia de campo de estágio aos estudantes dos cursos de licenciatura da antiga UNIANA.

O Colégio César Toledo funcionava em parceria com a Secretaria de Educação do Estado de Goiás, sendo atribuição do Estado assegurar os professores e os funcionários, e a escolha da direção do colégio era feita pelo reitor da universidade.

Um grande número de concluintes do ensino médio dessa escola conseguiu aprovação no vestibular da UNIANA sem que tivessem que passar pelos cursinhos pré-vestibulares. Em 1997, o primeiro lugar do processo seletivo da Universidade foi de um estudante deste Colégio. Da data de sua criação, 1993, até o ano de 2000, o Colégio foi dirigido pela Professora da Universidade, Virgínia Maria Pereira Melo.

Em 2000, o Colégio deixa de ser de Aplicação, pois o então reitor da UEG, José Izecias de Oliveira, entrega sua gestão à Secretária Estadual de Educação abrindo mão do Colégio enquanto campo de estágio dos cursos de licenciatura da UEG Anápolis.

Apesar de perder o colégio, a UEG permanece com a posse da estrutura física do colégio e, no ano de 2005, o mesmo reitor, sem ouvir os colegiados dos cursos da UEG Anápolis, entrega todo o patrimônio à Polícia Militar para que lá passasse a funcionar uma escola militar, ficando assim a UEG de Anápolis sem o Colégio de Aplicação e sem o patrimônio físico.

Atualmente, como Universidade Estadual de Goiás, com sede na cidade de Anápolis, a UEG possui duas unidades universitárias na cidade, a de Ciências Exatas e Tecnológicas e a de Ciências Sócio-Econômicas e Humanas. Esta última foi a sede inicial da FACEA e da Universidade Estadual de Anápolis (UNIANA), antecessora da UEG e que possui oito cursos de formação de professores para a educação básica: Pedagogia, Letras, História, Geografia, Biologia, Química, Matemática e Física, além dos bacharelados.
A luta política dos professores - a organização do sindicalismo docente na cidade

Os sindicatos são organizações criadas pelos trabalhadores para garantir e melhorar suas condições de vida. Os sindicatos adquirem um caráter político quando organizam os trabalhadores em torno dos interesses da categoria.

Lendo os relatos de três importantes sindicalistas anapolinos, percebe-se o aspecto político de suas ações. As entrevistas com Ibrantina Pinheiro de Souza, Nadia Maria Vaz e Paulo Maia Brasil11 dão mostras do que significou a luta de classe desses professores para o reconhecimento da categoria. Fazer sindicalismo numa cidade de médio porte e pertencer a sindicatos de professores torna a tarefa mais árdua ainda. Primeiro, porque numa cidade menor as relações de poder são mais visíveis e diretas e também porque se tem ainda uma concepção idealizada de professor, como se a profissão fosse apenas vocação, dedicação, ficando mais difícil identificar a profissão professor, ou seja, compreender o professor como um trabalhador, apesar das especificidades da profissão.

A história da criação dos sindicatos dos professores em Anápolis é marcada por muitas lutas, perseguições políticas, abuso de autoridade, traições e principalmente por muita coragem e ousadia.

O Sindicato dos Professores em Anápolis surge como uma subseção do Sindicato dos Professores de Goiás. Sua criação ocorre na década de 1960, quando os professores ainda se organizavam em associações. Em Anápolis havia uma delegacia do Centro dos Professores de Goiás (CPG) que, mais tarde, dá origem ao Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Goiás (SINTEGO). A legislação, antes da Constituição Federal de 1988, proibia os funcionários públicos de se organizarem em sindicatos. Assim, os professores em todo o Brasil se organizavam em centros. Em Goiás não foi diferente, segundo Brasil (2006).

O Centro de Professores de Goiás (CPG) foi criado pelos professores. Eu acho que houve, no Brasil toda uma movimentação nesse sentido. Foi criado centros do Estado. Centro de Professores do Estado de Goiás. E assim por diante... Naquela época nós não podíamos criar sindicato. (Memória Viva)

Primeiramente, o SINTEGO surge em Goiânia, capital do Estado de Goiás, para, em seguida, implantar as sessões sindicais nos municípios. Esse sindicato representava tão somente os professores que atuavam na rede estadual de educação.

O início foi muito difícil, pois era necessário um trabalho de conscientização da categoria o que implicava em percorrer as escolas da cidade para convencer os professores da importância do sindicato como um instrumento de luta da categoria, convencê-los a integrar-se ao movimento por meio da filiação.

Até ocorrer a institucionalização do sindicato, os professores que estavam liderando o movimento encontraram muitas dificuldades. Uma delas era a falta de recursos financeiros que financiasse os deslocamentos de uma escola para outra ou de uma cidade para outra. Todas as despesas ocorriam por conta das próprias lideranças.

O mais difícil que a gente achava é que nós não tínhamos meios econômicos para fazer o trabalho, então, era feito com nosso dinheiro mesmo, nós mesmos financiávamos o nosso movimento. Então, se fazia campanhas nos colégios, os outros professores ajudavam (BRASIL, 2006, Memória Viva).

Além dos problemas financeiros, os professores também sofriam ameaças e perseguições. Conta Brasil (2006) que

na época do Sr. Niso Prego, que era um grande colaborador, e na época, parece que ele fazia parte do Conselho Federal de Educação, então, foi transferido para o Pará. Entramos na Justiça e ele nem chegou a ir, pois a Justiça mandou que ele ficasse em Goiás. Isso aconteceu e, às vezes, outros professores eram intimidados. _ Olha! Você pare com isso. Porque você vai ser transferido, vai ser demitido. Isso existia naquela época. (...) Teve colegas, inclusive o Prof. Revalino, que puseram ele num camburão da polícia e nós aqui esperando e eles andando num camburão por ai.” (BRASIL, 2006, Memória Viva)

Com a institucionalização do sindicato, enquanto órgão legalmente constituído para representar os professores, é criado também o desconto em folha. Os professores adquiriram o direito de se filiarem e passariam a contribuir com uma importância para financiar as ações do sindicato. Essa contribuição seria descontada em folha e repassada para a conta do sindicato. Segundo Brasil (2006), esse dinheiro veio colaborar muito, com a divulgação das ações do sindicato, pois a partir daí os dirigentes contam com recursos financeiros para cobrir as despesas com transporte, estadias, reprodução de material impresso, contratação de carro de som, etc.

Dentre as conquistas do SINTEGO tem-se a aprovação do Estatuto do Magistério Público de Goiás. Até se chegar a essa aprovação foi necessário muita luta, tais como as greves, as passeatas e as manifestações na porta da Assembléia Legislativa, a distribuição de panfletos, várias reuniões de negociação, entre outras.

Quando o Estatuto entrou na pauta da aprovação da Assembléia, conta Brasil (2006) que os professores da diretoria do sindicato combinaram, em reunião, que iriam passar a noite na Assembléia Legislativa para evitar surpresas desagradáveis, pois era prática recorrente naquela casa a aprovação de matérias polêmicas durante a madrugada, estratégia empregada para reduzir a possibilidade de pressão popular.

Quando os professores chegaram às proximidades da Assembléia Legislativa já avistavam, a alguns quarteirões antes da Assembléia, que ela estava totalmente tomada por policiais que cercaram todo o prédio. Alguém que estava presente na reunião “dedurou” os professores, o que acabou obrigando-os a mudar de estratégia: ao invés de dormir resolveram então fazer uma manifestação na porta da Assembléia.

Foi com a aprovação do Estatuto do Magistério que os professores da rede Estadual de Educação passaram a ter seus vencimentos calculados com base na formação acadêmica; direito à progressão vertical e horizontal e a gratificação por titularidade o que colaborou para minimizar a ingerência político-partidária nessas questões. Antes do Estatuto para os professores se beneficiarem daquilo que era direito tinham que se submeter aos favores políticos que usavam esses direitos trabalhistas dos professores como moeda de troca na busca pelo voto.

Quanto aos professores e os outros trabalhadores em educação que atuavam na rede municipal e na rede privada de educação da cidade de Anápolis havia outra instituição sindical, o Sindicato dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino de Anápolis – SINTEEA. Ele surgiu, segundo depoimento de Souza (2006), a partir de uma delegacia do SINPRO de Goiás trazido por colegas ou parentes de professores de Anápolis que moravam em Goiânia como, por exemplo: o Prof. Silvio Costa irmão da prof. Dinalva Lopes, o Prof. Geraldo Santana e outros.

O SINTEEA surge no período em que o Brasil vivia a ditadura militar. Para os professores discutirem as questões atinentes à organização sindical, tinham que fazê-lo em reuniões secretas, iluminadas somente com a luz de velas, para que não fossem descobertos. Sobre isso, assim fala Souza (2006):

Muito de nós, às vezes, não tínhamos consciência do risco que estávamos correndo. Porque o risco era grande. Vocês podem saber quantas pessoas desapareceram aí misteriosamente? Foram mortas? E hoje não se tem nem notícias, porque enfrentaram o Regime e não podia ter manifestação. Muitas vezes, para nós articularmos esses encontros (...) nos reuníamos em salas escuras que eram fornecidas e a gente deixava, às vezes, uma vela bem fraquinha para nós discutirmos as estratégias para mobilizar a categoria. (SOUZA, 2006, Memória Viva)

O SINTEEA foi bastante atuante em Anápolis, obteve muitas conquistas para os professores tanto da rede pública quanto da rede privada, e representou os professores até o final do ano de 1993 uma vez que, no ano anterior, um grupo de proprietários de escolas e de professores da rede privada de Anápolis criam o Sindicato dos Professores da Rede Particular de Ensino, Fundações, Autarquias e Prefeituras municipais da cidade Anápolis e Região circunvizinha (SINPROR12).

A criação do SINPROR provoca o enfraquecimento do SINTEEA enquanto órgão de representação dos professores, pois passou a não mais defender esse segmento nas questões trabalhistas que estavam na justiça. O argumento empregado era o de que o SINTEEA representava os trabalhadores em educação e as pessoas responsáveis pela questão jurídica entendiam que os professores não eram trabalhadores da educação. Esse fato deixou o SINTEEA impossibilitado de representar os professores em qualquer que fosse a ação judicial e quando finalmente a ação foi solucionada, mais ou menos dez anos depois, o SINTEEA não foi reconhecido como órgão representativo dos professores.

Esse fato trouxe inúmeros problemas aos professores da rede municipal, pois de uma hora para a outra se viram desamparados, sem que houvesse uma instituição que os defendesse. Impedido, o SINTEEA, por ordem judicial, de responder pelos professores da rede municipal, o prefeito que tomou posse descumpre quase que totalmente o Estatuto do Magistério. Os professores com dificuldade de se organizarem, a direção do SINPROR não aceitava a filiação dos professores da rede municipal, passando por sérias dificuldades com atrasos no pagamento (os atrasos chegaram até 5 meses), ausência de condições mínimas de trabalho, além das perseguições políticas, foram as conseqüências da criação do SINPROR para os professores da rede municipal de Anápolis.

Numa tentativa de recuperar a luta por respeito, melhores condições de trabalho um grupo de professores tentam criar um outro sindicato, Sindicatos do Professores de Anápolis - o SINPROANA. Este sindicato teve uma vida curta, pois sem dinheiro, com as perseguições políticas que os professores vinham sofrendo, as poucas lideranças que ainda resistiam não conseguiram comparecer às audiências marcadas para fazerem a defesa de um processo judicial aberto contra o SINPROANA, deixando então que corresse à revelia, acarretando o fechamento do sindicato.

Durante o período de luta pela sobrevivência do SINPROANA, a Prof. Ibrantina de Souza, presidente do sindicato, sofre perseguições por parte do governo municipal que deixou de pagar seus salários durante um ano, numa clara demonstração de autoritarismo e de abuso de poder. Esse fato se mostrou com uma eficiente estratégia de atemorização da categoria fazendo recuar qualquer tentativa de oposição às ordens.

Sem o SINPROANA, os professores da rede municipal estavam novamente sem um órgão que os defendessem, foi então que um grupo de professoras cria outro Sindicato dos Professores Municipais de Anápolis (SINPMA) que, atualmente, os professores da Rede Municipal estão buscando construir enquanto órgão que luta pela valorização dos professores.

Nos seus cem anos, Anápolis tem algumas situações muito diferentes do início da sua história, mas nem por isso pode-se dizer que ela tem o necessário e suficiente para seus habitantes. O mundo se transformou, as necessidades sociais são outras, a sociedade é mais exigente. Isso já justifica a premência de transformar novos sonhos em realidade e, assim, constituir novos desejos e ideais, de forma a avançarmos sempre, cada vez mais.
Referências

ASMAR, João. Entrevista para o Museu Virtual de Anápolis. Anápolis, UEG, viodeogravação, 2006.

BORGES, Humberto Crispim. História de Anápolis. Goiânia: Cerne, 1975

BRASIL. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, 1996.

BRASIL, Paulo Maia. Entrevista para o Museu Virtual de Anápolis. Anápolis, UEG, viodeogravação, 2006.

CASTELLS, Manuel. Internet e sociedade em rede. In: MORAES, Dênis de (org.). Por uma outra comunicação - mídia, mundialização cultural e poder. Rio de Janeiro: Record, 2003.

FERREIRA, Haydée Jayme. Anápolis: sua vida, seu povo. Brasília: Senado Federal, 1981.

FREITAS, Maria Geralda Teixeira. Entrevista para o Museu Virtual de Anápolis. Anápolis, UEG, viodeogravação, 2006.

PAIVA, Edil Vasconcelos e PAIXÃO, Lea Pinheiro. PABAEE. (1956 a 1960): a americanização do ensino elementar? Revista Brasileira de Educação. Resenha, nº. 24, set-dez, 2003.

SENN, Richard. Entrevista para o Museu Virtual de Anápolis. Anápolis, UEG, videogravação, 2007.

SOUZA, Ibrantina Pinheiro de. Entrevista para o Museu Virtual de Anápolis. Anápolis, UEG, videogravação, 2006.

VAZ, Nadia Maria. Entrevista para o Museu Virtual de Anápolis. Anápolis, UEG, videogravação, 2006.




1 Esse estudo teve a coordenação de Mirza Seabra Toschi e Eliane Gonçalves Costa Anderi. Compuseram a equipe duas estudantes do curso de Pedagogia, as acadêmicas Mayara Marce Guimarães (PIBIC/ CNPq) e Fernanda Vasconcelos Silva Sousa (PBIC/ UEG e PIBIC CNPq). Teve ainda como voluntárias ao trabalho três acadêmicas do curso de Pedagogia, selecionadas pelo interesse e disposição de tempo para participar dos trabalhos: Marlene Santos, Midevone Aparecida de O. Borges, Lenir de Jesus Barcelos Coelho. Cynthya Pires Monteiro de Mesquita, mesmo formada, desejou atuar junto à equipe.O grupo teve ainda a colaboração de técnicos, como Sidney Cardoso Campos e Ana Catarina Leonardo da Costa Anastácio que videogravaram, escanearam, fotografaram, digitalizaram, fizeram tratamento em imagens, organizaram e alimentaram o site onde o Museu foi construído. O site do Museu foi elaborado por Hugo Wantuil, do curso de Sistemas de Informação da UEG.


2 O relato completo pode ser encontrado site do Museu Virtual da Educação de Anápolis www.museuvirtual.ueg.br

3 A história dessa escola encontra-se disponível no site do Museu Virtual. www.museuvirtual.ueg.br

4 O PABAEE, segundo Paiva e Paixão (2002), “no projeto de desenvolvimento das propostas de melhoria e da qualificação do corpo docente do ensino primário, as escolas normais foram naturalmente identificadas como lócus privilegiado de implantação das ações para a melhoria do ensino primário”.

5 Sigla utilizada para o Departamento de Assistência aos professores da Fundação João Pinheiro de Minas Gerais.

6 Forma como as pessoas se referiam à Escola de Aplicação da Escola Normal.

7 Professora Waltra foi durante muitos anos professora da Escola Normal e vivenciou as experiências no Grupinho. Ela também é professora da UEG onde foi Coordenadora do Departamento de Estágio dos cursos de Licenciatura da antiga UNIANA e, atualmente, é coordenadora do programa de Licenciatura Plena parcelada.

8 A partir da LDB nº 9394, aprovada em dezembro de 1996, a educação brasileira passou a ser organizada em Educação Básica e Educação Superior, sendo que a Educação Básica compreende a Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio.

9 Richard Senn retornou ao Brasil em julho de 2007, segundo ele, para rever os amigos, e no vigor dos seus oitenta anos, recebeu homenagens dos amigos e ex-alunos da Associação Educativa Evangélica, e concedeu entrevista à coordenadora da Pesquisa Museu Virtual da Educação em Anápolis. Parte do vídeo está no Museu Virtual, como ainda sua entrevista já transcrita.

10 Licenciatura curta era uma modalidade de curso de formação de professor que existiu na década de 1970 e 1980 como uma alternativa para resolver o problema do grande número de professor leigo no país e também para atender as necessidades de mais professores, devido à reforma de 1º e 2º graus (Lei nº 5691/1971), que dobrou de quatro para oito anos a escolaridade obrigatória no país, necessitando de muitos mais professores e era interesse formá-los mais rapidamente, em cursos de menor duração. O egresso de licenciatura curta só podia atuar no ensino fundamental.

11 Ver transcrição das entrevistas no site do Museu Virtual da Educação.

12 Ver Ata de criação do SINPROR no site do Museu Virtual da Educação.


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