História da áfrica nas escolas: entre limites e possibilidades introduçÃO



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4.3 QUAL A MELHOR FASE DO ENSINO PARA LECIONAR HISTÓRIA DA ÁFRICA?


Em qualquer fase do ensino pode ser ensinado as relações humanas e sociais brasileiras, a história e a cultura do povo e suas origens. Mas durante as primeiras fases da Educação infantil a criança já começa a se relacionar com outras crianças e a se socializar. Desde pequena a criança já está apta a aprender, e os professores já podem trabalhar a questão da discriminação e da diversidade entre os alunos. Como afirma Lima (2005)


É na Educação Infantil que são formados os primeiros embriões dos valores humanos, costumes e princípios éticos, então ali, com certeza as manifestações racistas e discriminatórias poderão ser amplamente combatidas. É preciso trabalhar a discussão da diversidade já na infância. Se a criança não for preparada desde cedo, dificilmente romperá com os preconceitos possivelmente presentes em seu meio e tenderá a repetir os padrões de discriminação que aprender.
O Brasil, a partir da sua história de colonização, nunca obteve uma identidade autêntica, uma pluralidade de identidades construídas por diferentes grupos sociais em diferentes momentos históricos (ORTIZ, 2003). Nesse sentido, é com certeza um desafio desenvolver na escola, novos espaços pedagógicos que propiciem a valorização das múltiplas identidades que integram a identidade do povo brasileiro (MOURA 2005).

Mas mesmo existindo estas dificuldades, pode-se perceber nas escolas algumas mudanças básicas, nos currículos e nos relacionamentos escolares e em sala de aula. Percebe-se que desde a educação infantil aos cursos superiores, a educação, enquanto espaço de socialização e de instrução e de aquisição de conhecimentos, vem sendo cada vez mais democratizada e universalizada (PEREIRA, 2005).

Nos documentos do Ministério da Educação e Desporto/Secretaria da Educação Fundamental (BRASIL, 1998), a escola deverá contribuir para que princípios constitucionais de igualdade sejam viabilizados, principalmente no que se refere às questões da diversidade cultural. Nesse sentido, Ribeiro (2002, p. 150) afirma:

"Crianças brasileiras de todas as origens étnicorraciais têm direito ao conhecimento da beleza, riqueza e dignidade das culturas negro-africanas. Jovens e adultos têm o mesmo direito. Nas universidades brasileiras, procure, nos departamentos as disciplinas que informam sobre a África. Que silêncio lamentável é esse, que torna invisível parte tão importante da construção histórica e social de nosso povo, e de nós mesmos?".


Assim como podemos observar as conclusões de Oriá Fernandes:

Somente o conhecimento da história da África e do negro poderá contribuir para se desfazer os preconceitos e estereótipos ligados ao segmento afro-brasileiro, além de contribuir para o resgate da autoestima de milhares de crianças e jovens que se veem marginalizados por uma escola de padrões eurocêntricos, que nega a pluralidade étnico-cultural de nossa formação.



4.4 COMO TRABALHAR

Educação Infantil

O essencial: Apresentar a diversidade
Durante o período em que frequentam a creche ou a pré-escola, as crianças estão construindo suas identidades. Por isso, desde os primeiros anos de escolaridade, os alunos já precisam entender que são diferentes uns dos outros e que essa diversidade decorre de uma ideia de complementaridade. "É função do educador ajudar as crianças a lidar com elas mesmas e fortalecer a formação de suas próprias identidades", explica Clélia Cortez, Coordenadora do Programa Formar em Rede do Instituto Avisa Lá e selecionadora do Prêmio Victor Civita, em entrevista a revista Nova Escola. "Ele deve atuar como um verdadeiro agente de promoção da diversidade", diz.

Para que isso aconteça, a creche precisa ser transformada em um ambiente de aprendizagem da diversidade étnicorracial, que estimule os pequenos a buscar suas próprias histórias e a conhecer as origens dos colegas. "Estimular a participação das crianças em atividades que envolvam brincadeiras, jogos e canções que remetam às tradições culturais de suas comunidades e de outros grupos são boas estratégias", diz Clélia.

Segundo a educadora, a organização os espaços também deve valorizar a diversidade. Ações simples como pendurar imagens de personagens negros nas paredes, adquirir alguns livros com personagens de origens africanas, ter bonecos negros na brinquedoteca e passar filmes infantis com personagens negros para as crianças podem ajudar na formação de cidadãos mais conscientes e agentes no combate ao preconceito.

Do 1º ao 5º ano
O essencial: valorizar as culturas indígena e africana

No Ensino Fundamental 1, os professores já podem levar para a sala de aula algumas noções do que vem a ser a cultura afro-brasileira, com base na realidade dos alunos. É o momento de falar sobre a colonização portuguesa no país e traçar um paralelo com a realidade social dos negros hoje. Se o aluno entender o processo histórico que desencadeou a desigualdade entre negros e brancos, ele não vai reforçar preconceitos. . 

Propor projetos e atividades permanentes que valorizem as culturas indígena e africana - como apresentações teatrais de histórias da literatura africana ou lendas indígenas, trabalhar os elementos de ritmos como o samba e o maracatu nas aulas de Música; ou explorar alguns elementos da capoeira nas aulas de Educação Física são boas formas de abordar os conteúdos no decorrer do ano.

Apesar da inclusão do ensino da cultura afro-brasileira e indígena ter sido imposta por uma legislação, não é preciso forçar a barra para incluí-los nas aulas. Esses elementos sempre fizeram parte da cultura brasileira e não podem ser ensinados como se fossem conteúdos à parte, descontextualizado da realidade do nosso país.




Do 6º ao 9º ano


O essencial: discutir o preconceito
O Ensino Fundamental 2 é o período ideal para o professor explicar aos alunos que o Brasil foi um país escravocrata e que a abolição da escravidão não veio acompanhada de um processo de inclusão dos negros na sociedade brasileira.

No Brasil, a escravidão foi abolida em 1888, porém, mantivemos o estigma da cor", afirma Clélia . Por isso, promover debates sobre as causas do preconceito contra os negros é fundamental, bem como ensinar os alunos a buscar respostas no processo histórico brasileiro.

Os estudantes precisam conhecer os motivos pelos quais os negros ainda lutam pela igualdade de direitos e oportunidades. Nas aulas de Ciências, os professores podem trabalhar as teorias raciais do século 19, que queriam acabar com a miscigenação e pregavam a necessidade do branqueamento da população. A ideia errônea da existência de uma raça pura permitiu a legitimação do preconceito com relação à diversidade de raças e a crença em uma suposta superioridade da raça branca.

Ensino Médio


O essencial: debater o preconceito de raça
Nesta etapa os professores de Sociologia podem trabalhar o próprio conceito de "raça", sempre com o objetivo de discutir a valorização das diferentes manifestações culturais com base nas representações do outro. A existência de cotas raciais nas universidades públicas e os motivos pelos quais elas se fazem necessárias no Brasil também podem gerar debates interessantes com a turma.

É uma boa oportunidade para esclarecer aos estudantes que as cotas, por exemplo, fazem parte de um longo plano de ações que visa incluir os negros dignamente na sociedade. Muito mais do que leis que incentivem o combate ao preconceito racial, é fundamental que as mudanças da forma de ensinar a História e a Cultura afro-brasileira e indígena partam do engajamento, do aprendizado e do comprometimento pessoal dos educadores, professores e gestores escolares, que devem estar preocupados em construir uma política educacional igualitária, que prepare crianças e jovens para valorizar a diversidade e construir uma sociedade em que a democracia racial, de fato, se torne uma realidade.

OS LIMITES DA IMAGINAÇÃO

O ENSINO DA HISTÓRIA AFRICANA

Segundo o professor de história Henrique Cunha Júnior, em entrevista ao site História.net.com, aprender história é um exercício por vezes difícil, onde contracenam o real e o imaginário. Os trabalhos de ensino de História Africana aparecem inicialmente como uma sistemática descrença nas possibilidades civilizatórias. Acompanhando a descrença um bloqueio à imaginação.

O principal problema encontrado no processo de ensino e aprendizado da História Africana não é relativo à história e à sua complexidade, mas é com relação aos preconceitos adquiridos num processo de informação desinformada sobre a África. Estas informações de caráter racistas, produtoras de um imaginário pobre e preconceituoso, brutalmente erradas, extremamente alienantes e fortemente restritivas. Para Cunha Júnior,

Seu efeito é tão forte que as pessoas quando colocadas em frente a uma nova informação sobre a África tem dificuldade em articular novos raciocínios sobre a história deste continente, sobretudo de imaginar diferente do raciocínio habitual. A imagem do Africano na nossa sociedade é a do selvagem acorrentado à miséria. Imagem construída pela insistência e persistência das representações africanas como a terra dos macacos, dos leões, dos homens nus e dos escravos. Quanto aos povos asiáticos e europeus as plateias imaginam, castelos, guerreiros e contextos históricos diversos.


5.0 MATERIAL DIDÁTICO

A lei estabelece que os professores tratem da questão africana de maneira positiva, para que dessa forma contribua na formação de opinião dos alunos em sala de aula, principalmente para que os negros descendentes possam se sentir representados de uma boa forma na contribuição da construção da sociedade e mire-se positivamente. Conforme a resolução de 2006 do Conselho Estadual de Educação (CEE).

Para verificar se isso realmente ocorre, o fórum tem uma equipe que avalia o material adotado pelas escolas. Os livros são o melhor amigo do professor e dos alunos em qualquer temática, e nesse caso não ocorre de forma diferente, os livros ao longo dos anos vêm procurando se adequar, mas ainda existe uma cultura muito forte de caráter discriminatório, e que pode passar despercebido por quem elabora o material didático.

Os livros didáticos, sobretudo os de história, ainda estão permeados por uma concepção positivista da historiografia brasileira, que primou pelo relato dos grandes fatos e feitos dos chamados “heróis nacionais”, geralmente brancos, escamoteando, assim, a participação de outros segmentos sociais no processo histórico do país.

Na maioria deles, despreza-se a participação das minorias étnicas, especialmente índios e negros. Quando aparecem nos didáticos, seja através de textos ou de ilustrações, índios e negros são tratados de forma pejorativa, preconceituosa ou estereotipados. (Oriá, 1996).

Apesar da renovação teórico-metodológica da História nos últimos anos, o conteúdo programático dessa disciplina na escola fundamental tem primado por uma visão monocultural e eurocêntrica de nosso passado. Inicia-se o estudo da chamada “História do Brasil” a partir da chegada dos portugueses, ignorando-se a presença indígena anterior ao processo de conquista e colonização.

Exalta-se o papel do colonizador português como desbravador e único responsável pela ocupação de nosso território. Oculta-se, no entanto, o genocídio e etnocídio praticados contra as populações indígenas no Brasil: eram cerca de 5 milhões à época do chamado “descobrimento”, hoje não passam de 350 mil índios. Oriá Fernandes (1996) ainda afirma:

“Os africanos, que aportaram em nosso território na condição de escravos, são vistos como mercadoria e objeto nas mãos de seus proprietários. Nega-se ao negro a participação na construção da história e da cultura brasileiras, embora tenha sido ele a mão-de-obra predominante na produção da riqueza nacional, trabalhando na cultura canavieira, na extração aurífera, no desenvolvimento da pecuária e no cultivo do café, em diferentes momentos de nosso processo histórico.”




5.1 O uso da literatura - As aventuras de Ngunga

O uso do livro “As aventuras de Ngunga” como artifício didático é aqui mencionado não sendo apenas ilustrativo, mas contextualizado de modo que os discentes possam conhecer as singularidades africanas, rompendo com os estereótipos e propondo novas leituras e múltiplas visões de mundo.

O objetivo não é ficar restrito apenas as questões estéticas literárias, sendo assim o uso do romance terá um papel importante para nos revelar os anseios, que circundavam as pessoas naquele período. A expressão de alguns desses desejos será verbalizada pelo autor Pepetela, a escolha desse relaciona-se com a sua presença marcante no cenário angolano, como um sujeito histórico ativo.

Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos (Pepetela) nasceu em Benguela em 29 de outubro de 1941. É na sua cidade natal que Pepetela faz o ensino primário, depois parte para o Lubango, onde era possível prosseguir os estudos e foi no Liceu Diogo Cão que Pepetela completou o ensino secundário.

Em 1958, parte para Lisboa, para cursar o ensino superior no Instituto Superior Técnico que o autor frequentou até 1960 quando ingressa no curso de engenharia, tendo participado nesse momento da Casa dos Estudantes do Império. Muda de curso, iniciando os estudos de Letras durante um ano, em 1961, Pepetela faz a opção política que viria a mudar o rumo da sua vida e marcar toda a sua obra, tornando-o um narrador de uma história de Angola que conhece, porque a viveu.

Pepetela tornou-se militante do MPLA (Movimento Para Libertação de Angola) em 1963. Em 1969, Pepetela, vai para a região de Cabinda onde participa diretamente da luta armada, como guerrilheiro e responsável pelo setor de educação. Adotou o nome de guerra de Pepetela, que significa pestana na língua Umbundo, e que mais tarde viria a utilizar como pseudônimo literário.

Em 1972 é transferido para Frente Leste, região da província do Moxico, desempenhando as mesmas funções até 1974. Integrou a primeira delegação do MPLA que chegou a Luanda em Novembro de 1974. Quando abandona a vida política, opta pela carreira de docente na faculdade de arquitetura em Luanda ministrando a disciplina de sociologia. Nunca deixa de dar aulas embora se mantenha como escritor o tempo inteiro, até ter vindo para Lisboa.

A escolha desse autor se deu devido sua presença marcante no cenário angolano, a escrita de Pepetela nos traz uma noção de constante vivência e luta pela libertação de sua pátria, trazendo-a em vários aspectos do livro “As aventuras de Ngunga”. Essa é produzida na Frente Leste, situada na provincia do Moxico, durante o processo de luta pela independência de Angola em 1972. Sua obra realiza a tomada de posição refletida e sua consciência de escritor de pertencer ao mundo e sua vontade de mudá-lo. Essa obra de Pepetela tinha a proposta de ser um instrumento de aprendizado para os “pioneros” e guerrilheiros na área em que se encontrava.

O autor enquanto sujeito histórico ativo e no exercício da docência dedicou-se ao ensino da língua portuguesa e a compreensão da língua mbunda. Desempenhando o cargo de responsável pela Educação, ele percebe a ineficácia do material didático, e decide escrever em língua portuguesa um texto de apoio à alfabetização, que depois seria traduzido para mbunda, língua falada naquela localidade. A obra, além disso, é um passeio pela história, onde ele descreve os ideais políticos do MPLA, as tradições e a geografia local.

Sua escrita remete fundamentalmente a oralidade, em África, a palavra verbalizada possui um valor vinculado às tradições locais; sendo assim, sua narrativa é construída em 28 pequenos capítulos. A história relata a aventura de um pioneiro pelas trilhas da sua terra para iniciar-se na arte de ser guerrilheiro.

“Ngunga personagem-símbolo da luta pela independência angolana – em suas peripécias pelos kimbos2 e em seu caminho rumo à consciência de si mesmo e do papel natural de Angola no embate que se entrava com a metrópole portuguesa”. (CAETANO, 2006. p.43)
A história das peripecias de Ngunga, órfão de 13 anos que se encontra imerso no contexto da guerrilha. O jovem objetivando a conquista da integridade, do autoconhecimento e da consciência política traça um caminho de aprendizagem para tornar-se um guerrilheiro modelo. Por viver habituado as viagens, ele não enxergava a necessidade de frequentar a escola. Seu maior interesse era torna-se guerrilheiro como Nossa Luta, personagem que o acolhe depois da morte de seus pais narrada no primeiro capitulo.

A inovação pedagógica advém do incentivo a educação que o personagem central recebe dos seus “camaradas” o professor União e do comandante Mavinga. O diálogo de Ngunga e Mavinga nos traz a tona a visão do autor acerca da vivência de crianças na Seção3. A cena retrata o encontro dos dois personagens em que Mavinga questiona a presença de Ngunga naquele ambiente, já que o mesmo deveria estar na escola. Ngunga caracteriza-se, então, como o herói que não deseja riqueza, honra, poder ou imortalidade, mas que aspira à integridade, ao conhecimento e à sabedoria.

Pepetela constroi através de seu discurso uma provocação à ordem vigente. A sua proposta é a instauração de uma nova ordem. A pedagogia da esperança consiste em interromper a pedagogia impositiva colonial, que homogeinizava o cenário retratado. União transmite através das suas conversas com Ngunga a importância naquele contexto do ensino e apesar da sua inquietude em permanecer em um só local, Ngunga é instigado a vivenciar a experiência escolar.

O oficio do docente ao longo do livro caracteriza-se por seu engajamento político e educacional. É nesse aspecto que o autor evidencia a (re)construção de uma identidade nacional tendo como desafio para alterar a realidade social profundamente desigual, Ngunga representa o próprio nível de consciência que se deve alcançar. Na criação de um mundo menos marcado pela dualidade e contrastes sociais.

Utilizando a interdisciplinaridade, a proposta é tornar mais próximo á realidade da criança e do adolescente a compreensão das questões que motivaram a luta pela independência de Angola e bem mais que isso conhecer parte da história do continente a partir dos olhos de uma criança, neste caso, o Ngunga. Sendo assim, situando-se o presente para projetar o futuro, em uma espécie de espiral como ponto de partida, tem a História disciplina, voltada para uma compreensão e correlativamente uma interpretação dos fatos e da busca de sentido para eles, passando então para a literatura no intuito de sedimentar todos os conceitos mencionados pela História, mas no cotidiano do aluno, assim os acontecimentos poderiam ser tornar mais próximos e mais simples de serem compreendidos.

Sabendo do caráter cientifico da História e do seu compromisso com a verdade, o docente deixará evidente aos seus alunos essa separação para que assim não haja uma mistura nos conceitos de cada uma das disciplinas, fortalecendo o objetivo e a função que cada uma possui na relação com seu público.

É a passagem do mundo da leitura para a leitura do mundo”.

(HELD, 1980:180)

A forma de espiral serve para ilustrar a citação acima, esse movimento constante entre a leitura do mundo e o mundo da leitura. A cultura informa através de seus arranjos simbólicos, valores e crenças que orientam as percepções de mundo, a problematização nesse sentido é essencial para que ocorra um amadurecimento saudável do conteúdo e das especificidades que competem a cada disciplina.

5.2 COM MÚSICA TAMBÉM PODEMOS ESTUDAR

Outro aspecto cultural que poderá incrementar as aulas sobre a História da África diz respeito a musicalidade, ou seja, as influências que as músicas brasileiras tiveram a partir do contato com os africanos vindos durante a escravidão para nosso país. É importante ressaltar que a cultura dos afrodescendentes aqui residentes foi constantemente reelaborada e recriada, sendo assim devemos escapar daquelas visões que buscam constatar um cenário intocável e ilusório do continente africano.

Cabe a nós docentes, mostrar o quanto fomos influenciados pela musicalidade, sons e ritmos africanos, mas, sobretudo, como o cenário brasileiro possibilitou novas criações para o que aqui haviam chegado. Atualmente é possível enumerarmos inúmeras heranças que mantemos viva entre nós através das letras e ritmos de músicas.

Tal fato se revela com muita riqueza e perspectivas para que os discentes conheçam essas influências e possa dessa forma reconhecer o quanto os africanos e afrodescendentes contribuíram para a cultura brasileira. Quando sabemos as origens e os motivos pelos quais nosso dia a dia se constrói o estudo fica mais palpável e presente, afasta-se, portanto, aquela ideia de que só é possível aprender lendo um livro didático; a sala de aula é um local em que devemos diariamente experimentar novos sabores e saberes.

A primeira proposta que foi por nós pensada trata-se da descoberta dos sons, neste caso os discentes poderão desenvolver uma pesquisa que permitirá a identificação e a compreensão da influência africana em vários gêneros que compõem a música brasileira. Para tanto, o docente poderá iniciar essa atividade a partir de uma breve avaliação diagnóstica sobre o conhecimento prévio dos discentes acerca desse assunto.

As questões poderão partir da seguinte problematização:

- É possível localizarmos as influências dos africanos e afrodescendentes na música brasileira?

- Quais os elementos permitem afirmarmos que houve essa influência?

- Qual período da música brasileira foi mais influenciado?

Esse rápido debate permitirá o docente observar o que os discentes sabem a respeito do tema, bem como suas impressões sobre o assunto proposto. Sugerimos que se possível essa pesquisa seja feita no laboratório de informática da escola, pois, haverá dessa forma o uso de músicas, letras, vídeos e textos.

Caso não haja um laboratório de informática na escola, o docente poderá improvisar essa atividade, sugerindo que os alunos em grupo façam anotações a respeito de músicas brasileiras que possuem como tema a África, os africanos ou mesmo trate das contribuições dos afrodescendentes. A partir dessas anotações os discentes ficarão instigados a pesquisar a origem dessas influências. E assim terá como atividade para casa a busca de músicas, letras, vídeos e textos com a temática proposta.

A partir desse levantamento de músicas e performances para análise, iniciará uma investigação mais aprofundada com o objetivo de compreender a influência africana; ao longo da atividade os discentes também poderão compartilhar com os colegas, os vídeos utilizados para fazer o trabalho e assim haverá uma integração maior entre a turma.


5.3 – SONS, RITMOS E LETRAS

A fim de inspirar os docentes a desenvolver mais atividades lúdicas em sala de aula, temos que objetivo aqui a partir da análise de algumas letras de músicas evidenciar o quanto é possível aprender história, geografia, interpretação de texto; os discentes irão se divertir muito e o mais importante aprender a refletir sobre as canções que talvez até muito conhecidas, porém, pouco contextualizadas.

Acreditamos que o saber é plural e deve sempre buscar espaço nos mais variados locais e com diversas formas, sendo assim, o uso de letras de música em sala, nos parece uma ótima forma de estimular e tornar o conhecimento mais presente dos discentes. Sugerimos algumas letras, mas essa atividade poderá ser feita a partir da realidade local dos discentes; o docente inclusive poderá pedir que os discentes escolham as músicas a serem analisadas desde que essas tenham como tema o assunto trabalhado.
Mama África – Chico César

Mama África
A minha mãe
É mãe solteira
E tem que
Fazer mamadeira
Todo dia
Além de trabalhar
Como empacotadeira
Nas Casas Bahia…(2x)

Mama África, tem


Tanto o que fazer
Além de cuidar neném
Além de fazer denguim
Filhinho tem que entender
Mama África vai e vem
Mas não se afasta de você…

Mama África


A minha mãe
É mãe solteira
E tem que
Fazer mamadeira
Todo dia
Além de trabalhar
Como empacotadeira
Nas Casas Bahia…

Quando Mama sai de casa


Seus filhos de olodunzam
Rola o maior jazz
Mama tem calo nos pés
Mama precisa de paz…

Mama não quer brincar mais


Filhinho dá um tempo
É tanto contratempo
No ritmo de vida de mama…


Mama África
A minha mãe
É mãe solteira
E tem que
Fazer mamadeira
Todo dia
Além de trabalhar
Como empacotadeira
Nas Casas Bahia…(2x)

É do Senegal


Ser negão, Senegal…

Deve ser legal


Ser negão, Senegal…(3x)

Mama África


A minha mãe
É mãe solteira
E tem que
Fazer mamadeira
Todo o dia
Além de trabalhar
Como empacotadeira
Nas Casas Bahia…(2x)

Mama África


A minha mãe
Mama África
A minha mãe
Mama África.

Nesta canção, é possível explorarmos um contexto que não pertence exclusivamente ao continente africano, mas, sobretudo, ao brasileiro. Aqui é possível identificarmos uma mistura de heranças africanas com a realidade do Brasil; quantas mães solteiras não estão presentes no cotidiano dos discentes? As longas jornadas de trabalho que devem ser divididas com os afazeres domésticos. Os papéis que se misturam durante o dia entre ser mulher, mãe e trabalhadora.

A África é nossa mãe, o continente africano já foi cientificamente comprovado como o berço da humanidade. Sabemos que lá partiram os primeiros hominídeos em direção a outros lugares do mundo. Essa mãe África, tão importante, porém nem sempre valorizada como deveria. Aqui o Chico César, brinca com alguns trocadilhos que podem ser analisados em sala; ao utilizar “MAMA” refere-se à ideia de maternidade, a África como a mãe de todos nós, e também ao verbo “mamar”, ou seja, dela devemos nos alimentar.

O jogo de palavras feito pelo Chico César mostra-nos também uma boa oportunidade para aos discentes a beleza da poesia, ao mencionar no título “Mama África” gera nos ouvintes uma dubiedade de sentidos entre a Mãe África e África como mãe, é possível nesse caso referenciar a ancestralidade de nossas raízes culturais, afinal todos nós recebemos muita influência dos traços culturais presentes na letra acima; a música alterna entre a labuta diária e os bons sabores e sons que herdamos do continente; o autor conta essa história pelo lado da cultura, da alegria e da música dos negros, sem esquecer a questão do trabalho formal na escravidão.

As longas jornadas também podem ser confundidas com o nosso cenário atual, já que o trabalho da mulher não se restringe apenas ao cargo de empacotadeira nas Casas Bahia, para além dessa função, cabe a Mama, fazer mamadeira e ainda brincar com seus filhos. Sensibilizar os discentes para esses amplos papéis que a figura feminina assume na nossa sociedade também é um aspecto essencial; é notório que a arte não tem limites e tampouco sua leitura e interpretação, desse modo buscamos apenas enumerar alguns pontos que podem ser trabalhados, mas sabemos que cada docente poderá encontrar outros aspectos também relevantes.

Cabelo duro – Chiclete com banana

Ah eu tou maluco!...
Meu cabelo duro é assim, cabelo duro, de pixaim (bis)
Nega não precisa nem falar, nega não precisa nem dizer
Que meu cabelo duro se parece é com você
Belezaaaaa, uh!! É Festaaaa, uh!!
Chiclete com Banana, uh uh !! (bis)
Meu cabelo duro é assim, cabelo duro, de pixaim
(Refrão) 

Lelele le ôôôô Lelele le ôôôô


Quem me ligou, não disse alô

Tou no chuveiro tou com calor


Tou resolvendo, pra onde eu vou

O segurança toca o agogô
Eu tou ligado no meu cabelo duro, que é de pixaim
É de pixaim, é de pixaim
Oi oi 
- E a mão pra cima batendo palma, ah eu tou maluco
(Refrão)
Meu cabelo duro é assim, cabelo duro, de pixaim (bis)
Nega não precisa nem falar, nega não precisa nem dizer
Que meu cabelo duro se parece é com você 
(bis)



Já foi dito em outro momento da importância de se aventurar e explorar novas formas de aprendizado, a partir do momento que ampliamos nossa visão de mundo, iniciamos um processo irreversível e muito interessante de tornar o saber mais suave e cheio de sentido. As letras de músicas possuem inúmeros significados e essa diversidade de sentidos torna seu uso muito proveitoso na sala de aula.

Apesar da função de entretenimento que a música possui, nós estamos aqui propondo usá-la também como ferramenta para o ensino, refletir sobre as canções, questionar a visão que cada autor pretende passar com a sua composição também é uma forma de aprender história, geografia e, sobretudo, interpretação de texto. Não obstante, os saberes mencionados acreditamos também que ao refletirmos sobre os significados e intenções dos autores e compositores estamos desenvolvendo nosso olhar crítico sobre o mundo.

É sabido por nós que a letra acima foi muito divulgada no período em que o grupo a lançou no cenário musical brasileiro. Essa e outras músicas brasileiras ainda fazem parte do cotidiano de vários brasileiros. Daí evidenciarmos mais uma vez a importância de partir da realidade do discente para atraí-lo ainda mais a participar do assunto proposto. Não há dúvida de que alguns veem a letra acima como uma “brincadeira”, apenas uma alegoria para distrair e entreter o grande público nas festas de carnaval.

Mas nós docentes, temos um papel a ser cumprido, e não podemos reforçar essa ideia de intencionalidade, o teor preconceituoso e pejorativo dos versos acima não soam nada divertido para crianças negras que crescem acreditando ter um cabelo de “pixaim”; ao contrário a letra contribui e reforça o sentimento de negação e rejeição da identidade africana e afro-brasileira, afinal quem quer ter um cabelo de pixaim na infância? Assumir os cachos passa a ser um desafio assustador logo cedo, e muitas crianças com medo de ser motivo de chacota exigem dos pais que os cabelos sejam alisados ou mesmo presos.

Ressaltamos aqui que não há nenhum problema em alisar, cachear, descolorir, cortar o cabelo, compartilhamos a ideia de que as pessoas são livres e tem o direito de usufruir dessa liberdade também com o corpo e cabelo. No entanto, desvalorizar as diferenças e buscar com que todos enquadrem num padrão hegemônico de beleza é no mínimo um ato de extrema violência, sobretudo, na infância, quando ainda não possuímos maturidade para refletir acerca desses jogos de poder e manipulação. A ideia de trabalhar essa letra em sala, é, portanto, trazer a tona uma discussão que se inicia muito cedo na vida de milhares que meninas e meninos africanos e afrodescendentes.

O papel do docente é auxiliar os discentes na busca de sua autonomia e construção do seu espaço no mundo, sem dúvida, para isso faz necessário compreender e conhecer a si mesmo; não é de estranhar que muitas mulheres negras escolhem alisar o cabelo em busca de enquadramento no padrão de beleza divulgado na grande mídia. O ser humano não sabe lidar com a rejeição social e a invisibilidade.

Em busca de aceitação muitos negam suas raízes, e isso contribui para a baixa estima de crianças, jovens e adultos negros no Brasil. Além de reconhecer sua história nos livros didáticos que quase sempre trazem a África apenas no processo de escravidão, esse público também não tem referências positiva na mídia. Logo, quem quer ser excluído? Aquele(a) que apanhou no pelourinho? O que possui o cabelo pixaim ou de Bombril?

Questões como essas nem sempre vem à tona devido ao caráter de naturalidade já imbricado na nossa sociedade, no entanto, quando se trata do processo educativo, não podemos em hipótese alguma fazer vistas grossas. O discente poderá se divertir com essa e outras letras que estão a disposição no cenário musical, mas acima disso ele deverá saber que sua vida, seu corpo, seus desejos, não podem pautar em nenhum padrão estabelecido pela mídia. Aceitar-se enquanto sujeito histórico e pertencente de sua cultura é o primeiro passo para buscar e entender o conhecimento científico.

Todo camburão tem um pouco de navio negreiro – O rappa

Tudo começou quando a gente conversava
Naquela esquina ali
De frente àquela praça
Veio os homens
E nos pararam
Documento, por favor,
Então a gente apresentou
Mas eles não paravam
Qual é negão? Qual é negão?
O que que tá pegando?
Qual é negão? Qual é negão?

É mole de ver


Que em qualquer dura
O tempo passa mais lento pro negão
Quem segurava com força a chibata
Agora usa farda
Engatilha a macaca
Escolhe sempre o primeiro
Negro pra passar na revista
Pra passar na revista


Todo camburão tem um pouco de navio negreiro
Todo camburão tem um pouco de navio negreiro

É mole de ver


Que para o negro
Mesmo a aids possui hierarquia
Na África a doença corre solta
E a imprensa mundial
Dispensa poucas linhas
Comparado, comparado
Ao que faz com qualquer
Figurinha do cinema
Comparado, comparado
Ao que faz com qualquer
Figurinha do cinema
Ou das colunas sociais

Todo camburão tem um pouco de navio negreiro


Todo camburão tem um pouco de navio negreiro

O exemplo a seguir faz parte de outra perspectiva, mas também possui muitos elementos a serem trabalhados em sala, a letra a ser analisada faz menção a uma visão negativa e preconceituosa a respeito dos negros no Brasil na atualidade. O rappa é um grupo muito conhecido entre os jovens brasileiros, suas letras sempre trazem boas reflexões e questionamentos. No caso acima, fica a constatação que apesar do tráfico de escravos ter finalizado os resquícios e as distorcidas visões sobre os negros permaneceram, principalmente, quando olhamos para o camburão.

A nossa atual conjuntura não permite mais pensar numa escravidão à moda colonial, não obstante, a letra revela outros tipos escravidão as quais os negros são submetidos cotidianamente. A reflexão pode ser iniciada com a visão que temos sobre os negros no Brasil, ou melhor, qual a possibilidade de termos uma visão diferenciada da difundida nos grandes meios midiáticos? Como é ser negro no Brasil? O preconceito tem origem e cor definida e ainda assim preferimos acreditar que vivemos numa democracia racial.

Na música o escravo transfigura-se no bandido, ao assumir esse papel, o negro é sempre taxado como o culpado e o mais propício a cometer crimes. Essa visão distorcida sobre os jovens negros no Brasil tornam ainda mais difícil a realidade daqueles que buscam assim como nós seu lugar ao sol. A “revista” mencionada na canção possui um duplo sentido é em primeiro lugar a dolorosa e humilhante revista que os policiais sempre submetem os negros, aliás esses são como diz a música “os primeiros a passar na revista”, por outro lado a revista também são as notícias as quais somos diariamente bombardeados com imagens reforçando estereótipos dos negros.

Associar sua imagem ao crime se tornou algo comum na história do Brasil contemporâneo, se antes o desafio era superar as amarras dos navios negreiros, agora cabe aos jovens negros romper com essa visão enviesada a seu respeito. Como deixar esse assunto afastado dos debates escolares? Negligenciar essas questões é também uma forma de contribuir para que elas nunca saiam do seu lugar de destaque.

As letras por mais despretensiosas que soam ser, auxiliam na formação da identidade das crianças, jovens e adultos, sendo assim, é de suma importância refletir sobre o conteúdo dessas letras, questionar se o discurso está coerente com a realidade e além disso, problematizar qual público aquela letra pretende atingir.

O caminho nem sempre está direcionado com flores, mas nosso dever é identificar os espinhos e vê-los como desafios a serem superados. Só é possível almejar uma sociedade democrática e justa quando todos tiverem acesso a uma educação libertadora, na qual os conteúdos sejam vivos, cheios de práticas sociais e que tenham como principal objetivo transformar e modificar a realidade dos discentes.

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