História da Imperatriz Porcina, mulher do Imperador Lodônio, de Roma, na qual se trata como esse Imperador mandou matar a sua mulher por um falso testemunho que lhe levantou o irmão



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História da Imperatriz Porcina, mulher do Imperador Lodônio, de Roma, na qual se trata como esse Imperador mandou matar a sua mulher por um falso testemunho que lhe levantou o irmão, e como esta escapou da morte e muitos trabalhos e torturas por que passou e como por sua bondade e muita honestidade tornou a recobrar seu estado, com mais honra do que antes.”





DOCENTE: DOUTOR PAULO TEIXEIRA IUMATTI

DISCIPLINA:História,Cultura Popular e Folhetos de

Cordel

Aluno: Paulo Costa

plopescosta@uol.com.br

Junho/2011




IMPERATRIZ PORCINA - 1813

A Genealogia e História Literária criam a ilusão de uma só história, de uma única tradição. Este mito é reforçado continuamente em cada descrição genealógica, e em cada versão da história literária.

*Ria Lemaire
Algumas histórias mais que outras continuam persistentes, nomeadamente aquelas que cuidam da conduta humana no exercício da vida. Aqui não se trata de um embate entre o bem e o mal, embora presentes. As circunstâncias que a cercam demonstram claramente que da liberdade ao desejo incontido é um átimo, sentimento incrustado na origem do ser que revela incompletude. Daí a dinâmica que nos prende em perseguir nossos intentos e muitas vezes sem a conveniente reflexão.

O cordel repositório popular de múltiplos assuntos e sabenças registrou bem lá trás, a epopéica aventura de uma mulher em defesa de sua honra.

As origens históricas desse embaraço lendário, consignado em abundantes estudos, distingo dois: o primeiro de Axel Wallensköld, cujo texto a seguir transcrevo, tomado de “Cinco Livros do Povo”, de Luís da Câmara Cascudo (p.299/300).

Wallensköld comparando várias versões orientais... “Um homem, querendo viajar, confia sua mulher à guarda de seu irmão. Êste apaixona-se pela cunhada e, repelido, acusa-a de adultério diante do juiz local que, ouvindo falsos depoimentos de testemunhas subornadas, condena a mulher a ser lapidada. Deixada semimorta depois do suplicio, ela foi recolhida por um transeunte piedoso que a levou para casa, confiando-lhe um filho para criar. Um escravo da casa toma-se de amôres pela mulher e é igualmente repelido por esta. Por vingança, o escravo mata a criança e mancha de sangue o vestido da adormecida, escondendo a faca nas proximidades da pobre mulher. Pela manhã, descoberto o crime, o escravo acusa a estrangeira, e o dono da casa, não aceitando plenamente a autoria, despede-a, dando-lhe algum dinheiro para a viagem. Com êsse dinheiro a mulher resgata a vida de um rapaz que ia ser enforcado por dívidas. O rapaz, por gratidão, acompanha-a mas acaba também apaixonado e não obtendo o amor da mulher, vende-a como escrava a um capitão de navio que a conduz a bordo. Querendo violar a escrava, esta ora fervorosamente e uma brusca tempestade faz o navio naufragar. Salvam-se a mulher e o capitão, cada um para o seu lado. A mulher encontra abrigo num convento. Graças à santidade de sua vida e a fôrça de suas orações, a mulher cura tôdas as moléstias e sua fama espalha-se pelo mundo. Durante êste tempo os quatro perseguidores tinham adoecido gravemente de vários males. O marido, voltando da viagem, soubera pelo irmão da conduta irregular da espôsa. Sabendo que uma santa mulher dava saúde a quem a procurava, o marido levou o irmão para o convento, na esperança de curá-lo. Na estrada foram sucessivamente reunindo-se os outros três culpados, o homem que hospedara a mulher conduzindo seu escravo (assassino da criança), o rapaz que ela resgatara e a vendera como escrava, e o capitão do navio que quisera fazer-lhe violência.


*Lemaire, Ria, “Repensando a história literária”, apud in Márcia Abreu, Histórias de Cordéis e Folhetos, Mercado de Letras, Campinas-SP/Brasil, 2008, p.126.


Chegados ao convento, na presença da mulher, coberta por um véu, esta ordenou que todos confessassem completamente as culpas cometidas sob pena de não haver tratamento. O marido contou sua história e seguiram-se os outros. A mulher fêz-se reconhecer, perdoou aos criminosos, curou-os e voltou para casa com o marido, vivendo em perfeita felicidade”.

Dessa estória nascem todas as outras, com suas variantes e modificações, substituições e pormenores. Essencialmente o tema é êste que Wallensköld restabeleceu.

O segundo, matéria inscrita em: “História da Poesia Popular Portugueza”, de Theophilo Braga, Livro Segundo (p.189/191), atribui... As origens históricas d’este romance encontram-se nas Lendas Allemãs de Jacob Grimm, (t. II, p. 120) sob o titulo de Hildegarda: “O imperador Carlos partira para a guerra, deixando em casa a bella Hildegarda sua mulher. Durante este tempo, Taland, cunhado de Carlos, esperou que Ella acedesse a seus desejos. Mas a virtuosa princeza antes queria morrer, do que ser infiel ao esposo; dissimulou comtudo, e prometteu ao infame de consentir, logo que construísse de propósito uma linda camera nupcial. Immediatamente Taland mandou construir a todo custo um magnífico quarto de mulher, fechado por tres portas, depois pediu á rainha que o acompanhasse até ali. Hildegarda fingiu que o seguia, e obrigou-o a entrar primeiro. Quando transpoz os umbraes da terceira porta, Ella a fechou de subito e correu um pezado ferrolho. Taland permaneceu fechado na prisão até á volta de Carlos, depois da victoria sobre os Saxões. Então, commiserando-se d’elle, e cedendo a hypocritas supplicas, o poz em liberdade pensando que fora assaz punido. Mas logo que Carlos o viu perguntou porque estava assun tão magro e pallido. “Culpa de vossa esposa ímpia e impudica, respondeu Taland; quando Ella descobriu a sollicitude com que eu a vigiava, e se viu impossibilitada de commetter faltas, mandou construir uma nova torres, e ali me teve preso”. O rei ficou vivamente commovido com aquella nova, e n’um momento de cólera ordenou á sua gente de afogarem Hildegarda. Ella fugiu, e foi occultar-se em segredo em casa de uma de suas amigas; mas logo que o rei descobriu o refugio, deu novamente ordem para a conduzirem a uma floresta, de lhe vazarem os olhos, e de a banirem em seguida do território. O que succedeu? Quando a gente do rei a levava, encontraram no caminho um cavalleiro da casa de Freudemberg, que a condessa Adelgemd, sua irmã enviara encarregado de uma mensagem para Hildegarda. Logo que viiu que perigo corria a rainha, arrancou-a das mãos dos algozes, e lhes deu o cão que o havia seguido. Tiraram os olhos ao cão e os levaram ao rei como prova de haverem cumprido as suas ordens. Salva d’este modo Hildegarda pelo socorro de Deos, veiu a Roma em companhia de uma nobre dama, chamada Rosina, e exerceu ali com tanta felicidade e successo a medicina, que aprendera e praticara durante a vida,que em breve alcançou uma grande nomeada. No entretanto Deos puniu a impiedade de Taland tornando-o leproso e cego. Ninguem o podia curar; alfim ouviu dizer que em Roma uma mulher celebre pelos seus conhecimentos médicos, curava muito bem aquella doença. Quando Carlos veiu a Roma, Taland o caompanhou, indagou a morada da tal mulher, disse-lhe o nome, e pediu para a sua doença os socorros da arte, sem saber que estava falando á rainha. Hildegarda ordenou que confessasse os seus peccados a um padre, fizesse penitencia, e que depois experimentaria n’elle a virtude da sua arte. Taland seguiu o conselho, confessou-se, veiu procural-a, e Ella lhe restituiu a saúde. O papa e o rei ficaram tam maravilhados da cura, que desejaram vêr a mulher que a praticára e a mandaram chamar. Ella obedeceu, mas com a condição de no dia seguinte entrar para o convento de Sam Pedro. Foi ao passo e contou ao rei seu senhor como fora trahida. Carlos reconheceu-a com alegria, e a tornou a tomar como mulher; mas condemnou á morte seu cunhado. Comtudo a rainha, a poder de rogos, obteve que lhe poupassem a vida, e assim ficou sómente abandonado á miséria”.

As duas versões acima reproduzidas arriscam reconhecer a nascença do assunto versado pelo cego Baltazar Dias em sitios do oriente e ocidente. Por outro lado, a variante que aqui conhecemos parece ter sido fundada na versão espanhola do DE L’EMPERERI QUI GUARDA SA CHASTÉÉ PAR MOULT TEMPTACIONS, OU DE L’AMPERERIZ DE ROME QUI FU CHACIE DE ROME POUR SON SERORGE, peça integrante do MIRACLES DE NOTRE DAME, conjunto de escritos coligidos e produzidos pelo monge Gautier de Coinci, 1177-1236. Este por sua vez, supõe-se, buscou-os na coletânea de manuscritos titulada MIRACLE DE LA VIERGE, que reúne sermões, hinos, cantos, poesias, contos e histórias dos séculos XII e XIII, de caráter apologético.

Registre-se ainda, que outras coleções abrigaram tal literatura, produzindo histórias com protagonistas diversas, mas na Europa, constrangidas pelo imaginário medievo, era habitada por nobres e princesas que, de acordo com o domínio eram conhecidas por Imperatriz Flávia, Hildegarde, Crescência, etc.

Personagem do século XVI, Baltazar Dias, respirava ainda os ares insulares da primeira fase da Idade Média, conflitado e agarrado pelos antigos ideais cristãos de humildade e aniquilamento do eu. Pudera! Lá estavam os visitadores eclesiásticos a compor o Index Expurgatório, dado que, o Auto do Nascimento foi proibido e desaparecido.

Reforça esse ambiente ecumênico, o dizer de Theophilo Braga: “a multidão divagava pelas ruas depois da meia noite, rezando o terço pelas almas dos finados, seguida de archotes e campainha, entre lamentos de embuçados e tropelias de vagabundos”.1

Esse fervor cristão foi efeito das provações que passaram as gentes do século XI, que sob o domínio da cultura oficial da igreja, se propagaram na cultuação da Virgem Mãe, exaltando suas intervenções e milagres ante seu Divino Filho. Câmara Cascudo expõe (id.p.290): “Foram muitos escritos nos séculos XII e XIII e naturalmente reúnem, ao lado da exaltação mariana, enredos de estórias, de contos, de tradições populares européias e muitíssimas de origem oriental, árabes, persas, hindus.

Parodiando T.Braga: D’onde viria esta tradição ao conhecimento de Balthazar Dias? Seria talvez dos exemplos que se usavam então nos sermões?

Márcia Abreu nos responde: “Apesar de ser contemporâneo do Renascimento, suas ideias estavam ainda presas à tradição medieval:

os grandes personagens de seu teatro defendem que a razão de se estar no
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mundo é passar por provações, buscando encontrar o caminho da salvação. Dessa perspectiva, a morte não é vista como um problema e sim como o fim de um suplício – estar vivo. Pregam a penitência como via salvação da alma – desde as peregrinações aos Lugares Santos até os martírios voluntários – sendo a castidade o valor mais alto. Baltasar Dias é fiel aos dogmas religiosos da Idade Média: a vida humana não passa de um conjunto de provações (que nada mais são do que testemunho do amor de Deus por seus filhos) cujo final é a eternidade quando se receberá a recompensa ou castigo pelas atitudes tomadas na Terra” ².

Interessante seria conhecer como um cego conseguiu tanto tino teológico. Márcia Abreu (id. p.22) citando Alberto Figueira Gomes arrola a suposição deste... de que B. Dias tivesse vivido no âmbito da Igreja, tendo recebido ensinamentos de religião de algum sacerdote, pároco ou religioso. Vem sustentar esta ideia o fato de que alguém teria de ler para ele os textos de doutrina e história e depois passar por escrito o que o poeta ditasse para ser impresso.

Portanto, é aceitável dizer que a história da Imperatriz Porcina, antes de tudo, foi naturalmente produzida de forma oral, para depois ser vestida tipograficamente. Tal colocação sufraga o que os especialistas anuem e corteja por vizinhança ao que diz Câmara Cascudo: “Com ou sem fixação tipográfica essa matéria pertence à literatura oral. Foi feita para o canto, para a declamação, para a leitura em voz alta” ³.

Contribuiu muito, à época, para o sucesso popular desta sofrida narrativa versificada, a própria condição do poeta: a cegueira, que movia o sentimento do povo a servir-se dos seus lavores, exemplo demófilo de identidade.

A construção poética de Porcina, em forma de romance, octossilábico, com a predominante rimaria em ia, segundo C. Cascudo 4 conflita com a de M.Abreu, que afirma ser setessilábica 5.

Assim sendo, creio que o recorte até aqui chegado, contemplou de forma miúda duas das origens atribuídas ao tema; o coletor monacal que através de seus manuscritos versificados ensejou o cego da ilha a compor seu prodigioso relato; a imperativa presença da igreja aterrorizando o povo; a religiosidade, a veneração da Virgem Mãe que tudo somado reflete um recinto medievo.

Tal cometimento aqui não vivenciamos, mas... “A novelinha tradicional resistiu e atravessou vento e maré, ganhando os nossos dias. Ao redor tudo se transformara, e difícil seria fixar o elemento vital que lhes garantiu tão prodigiosa existência. Traziam elas para o povo os sentimentos vivos de sua predileção espiritual. Reviam nas páginas pobres o encanto da virtude e o castigo dos vícios detestados. Não havia outra literatura rival para disputar o monopólio. Ficaram sozinhas, exteriorizando o pensamento literário, informe e natural, do humilde público para o qual viviam” 6.


²Abreu, Márcia, “Cordel Portugues/Folhetos Nordestinos: Confrontos”, Tese de Doutoramento, IEL, Unicamp, 1993, p. 21.

³Cascudo, Luis da Camara, “Literatura Oral no Brasil”, Editora Itatiaia-Editora USP, Belo Horizonte, MG/Brasil, 1984, p.24.

4,6Cascudo, Luis da Camara, “Cinco Livros do Povo”, José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1953, p.286; 30.

5Abreu, Márcia, “Histórias de Cordéis e Folhetos”, Mercado de Letras, Campinas, SP-Brasil, 2008, p.133.



Assim sendo, consumado o envio regular ao Brasil dessas publicações, chamadas de cordéis ou folhas volantes, conhecemos, entre muitas outras, a História da Imperatriz Porcina na interpretação de Balthazar Dias.

O êxito dessas estórias de confecção barata fomentou o comércio tipográfico e livreiro, permitindo que as camadas mais humildes da sociedade - constituída maiormente por iletrados - tivessem acesso a essas narrações edificantes. Paradoxo notado por Antônio Cândido, que os denominou como um público de auditores.

A esse tempo, final dos oitocentos, aliviando etapas de ordem histórica e política, na trilha dos cantadores do nordeste surgem os poetas-populares de bancada que, além de coligir aqui e acolá sabedorias do povo, engenham com muita arte novas arrumações para as tramas contidas nos velhos livrinhos portugueses.

Fantástico pode se dizer do arranjo versificado, pois formatam as estrofes a sextilhas, a rimaria atende a um processo mnemônico, a sintaxe e o vocabulário - aclimatados ao feitio nordestino de ser e compreender.

Manoel de Almeida depõe: A forma é fundamental: não importa que o jornal e o folheto divulguem a mesma notícia, ela só será acessível se for “rimada e versada”, ou seja, se for veiculada de acordo com o código aceito e compreendido pela comunidade (in M.Abreu).

Conta-nos Cascudo que, Silvino Pirauá Lima, 1848-1913, foi o primeiro a escrever os romances em versos, isto é, levando-os da prosa citadina para as sextilhas sertanejas na fórmula usual do ABCBDB.

Tal ação foi fundamental para a difusão do cordel, visto que as produções lusitanas são por demais prolixas e besuntadas de rapapés que incomodam pela repetência, dificultando a memorização.

Colecionei no presente trabalho, alguns exemplares da História da Imperatriz Porcina. Três deles nomeiam Balthazar Dias como autor; os dois outros variantes ou adaptações do mesmo enredo, cuja criação é consignada aos poetas-cordelistas Francisco das Chagas Batista (1885-1929) e João Martins de Athayde (1880-1959).

Diante de tantas avenças e contestações na questão de autoria, declino de pontuar a respeito. Contudo, observei que os versos imputados a Chagas Batista pela M.Abreu (in História de Cordéis e Folhetos, p.133) contraria ao indicado pela Ruth B.L. Terra (in A literatura de folhetos nos Fundos Villa-Lobos, p.47). Não obstante, e a titulo de cotejo, dada a linha da abordagem, transcrevo uma estrofe de cada um:

Fundos Villa-Lobos Histórias de Cordéis e Folhetos

Com este imperador Morava também na côrte

morava um seu irmão um irmão do imperador,

que se chamava Albano se chamava ele Albano

um homem falso e vilão perverso e conquistador

capaz de qualquer infâmia Ledonio mui lhe estimava

perverso de coração dele não se separava,

pois lhe tinha grande amor
Apoia a colocação da Ruth, o assentamento de Cascudo: No Brasil, um poeta popular Francisco das Chagas Batista, 1885-1929, deu nova redação poética em sextilhas, ABCBDB, em princípios deste século. Foi muito cantado no sertão pelos cantadores profissionais (in Cinco Livros do Povo, p.289). Afora a diferença de esquema, de sextilha para setilha, as rimações tomam a forma ABCBDDB. O texto de Chagas Batista é conciso, as ações se encadeiam em sequência direta. É omitida a referência à quase nudez de Porcina quando é surpreendida na alcova por Albano. No texto de Athayde, mais prolixo, este detalhe é realçado e o sedutor beija a Imperatriz na boca; em B.D. beija-lhe a mão (in Villa-Lobos, p.17).

Por outro lado, os versos estampados pela M.Abreu, edição 1916, de Chagas Batista são exatamente os mesmos publicados por João Martins de Athayde, cujo volume encontra-se arquivado na Fundação Casa Rui Barbosa.

Em “O canto e a memória”, Silvano Peloso (p.84/85) concerta: “As versões existentes se inspiram num modelo único, que circula sob diversas paternidades, segundo o regime característico da literatura de cordel, destinado, através do regime das variantes, a uma contínua revisitação dos textos. Uma delas, composta no início do século por Francisco das Chagas Batista (1885-1929), cantador por sua vez lendário, é citada por Câmara Cascudo. Uma outra versão ainda, realizada por João Martins de Ataíde, é conservada no Rio de Janeiro. Trata-se do folheto nº 665 da coleção Fundação Casa Rui Barbosa, que tem como lugar e data de composição Recife, 3 de dezembro de 1946. O texto é composto por 1722 heptassílabos mais ou menos regulares, organizados em estrofes de sete versos destinados a serem cantados com acompanhamento musical”.

De qualquer maneira, a entropia reina no legado do cordel. O que surpreende é a capacidade imaginativa do poeta popular em elaborar novas configurações para situações tão conhecidas, muitas vezes com pitadas de ironia, pasmo, comicidade e muita criatividade.

Percorre a História de Porcina os ensinamentos cristãos capitulados pelas provações, sacrifícios, respeito, honra, fé e temor a Deus, monarca de todo Universo.

Finalmente, o acolhimento glorioso que estes relatos lendários ou não, tiveram junto ao público em variada cronologia, foi nas palavras de Câmara Cascudo... negado pelo letrado, esquecido pelo professor, ironizado pelo viajante que encontrava nessa leitura um índice pejorativo de gôsto e de atraso cultural (id. p.33).

DE COMO PORCINA FOI REPRESENTADA NA PÓVOA EM 1950
Freguesia da Póvoa é uma aldeia situada ao norte de Portugal, mais precisamente em Miranda do Douro. Dá-nos conta do evento a Nota Introdutória do CEAMM – Centro de Estudos Antonio Maria Mourinho*, em cujos arquivos encontra-se um casco do auto de “A vida de Santa Imperatriz Porcina”em anexo, transposta da obra de Baltazar Dias para representação teatral.

De autoria anônima, foi organizado por António Bárbolo Alves.

Procedida as competentes adaptações, nota-se que em alguns diálogos os versos de B. Dias entremeiam e por vezes encabeçam as falas dos personagens; precaução, suponho, tomada para preservar certos humores encafifados pelo cego no quarto escuro e não ferir a dignidade estabelecida por mais de trezentos anos.

A carpintaria levada a efeito estabeleceu a introdução de novas figuras, além daquelas que se encontram na origem do enredo.

A estrutura de apresentação nos brinda com duas profecias segmentadas, fixadas em quadras e rimadas em abcb, como se fosse um proêmio dos acontecimentos que vão se desenrolar.

O elenco com suas pronuncias desenvolve um ritmo muito vivo, bastante presencial, importando o espectador ou leitor á uma atmosfera de intrigas, de irrefreados arrebatamentos á compulsão extrema que causam dor, sofrimento, desespero à protagonista que, circundada por tantas adversidades goza ainda da malévola e sinistra presença de Lusbel, que com muita hipocrisia assanha seus algozes em seus intentos até então inconfessáveis. A Fé inconteste de Porcina revela a presença salvadora da Virgem Mãe que a alivia de tantos infortúnios concedendo-lhe a graça de curar os enfermos, que estiverem em agonia. O pascácio comportamento do Imperador mais atenuado no Conde, aceita a falácia de Albano, seu irmão, á exemplo de outras histórias do gênero. A trama é muito enriquecida pelo comparecimento de aias, pagens, marinheiros, criados, soldados, vassalos e cortesãos.

A representação dinamiza a história, aliciando o público.

Fim do espetáculo!

Paulo Costa

Junho/2011

*Padre Antônio Maria Mourinho, uma autoridade como estudioso e defensor dos autos e bailados tradicionais em Portugal, Câmara Cascudo, in Cinco Livros do Povo, p. 289.

APRECIAÇÃO DO DOCENTE:

Em / /
Paulo Teixeira Iumatti

1

1993, p.22.





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