História da leitura e história de vida – significados da leitura bíblica



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História da leitura e história de vida – significados da leitura bíblica
Libório Cassiano Milleo (IC-Voluntária), Hélio Sochodolak (Orientador), e-mail: sochodo@irati.unicentro.br
Palavras-chave: História da Leitura, História de vida, Nego Côco, Bíblia
Resumo:
Esta pesquisa pretendeu investigar historicamente a trajetória de vida de Nego Côco, que carrega em sua história mudanças significativas relacionadas ao seu encontro paulatino com a leitura da Bíblia. Para tanto, contamos com o suporte de algumas questões pontuadas pela História da Leitura.
Introdução
Chartier afirma que, freqüentemente, existe uma distância considerável entre o contexto da produção de um texto e a recepção dele. “Há sempre um espaço entre o que o texto se propõe e o que o leitor faz dele.”1

Talvez a leitura mais comum da Bíblia, principalmente na sociedade ocidental, tenha as marcas dos protocolos de leitura estipulados pelo Cristianismo. O Brasil, sendo uma nação cristã é grande o número de bíblias existentes nos lares. É de se presumir que muitas sejam as modalides de leitura deste livro, e não nos cabe aqui aborda-los, nem mesmo mapeá-los, o que em si já seria um trabalho homérico. Consideremos apenas, atendendo a nossos objetivos específicos, que sua leituranão seja feita apenas por leitores especializadosdecifrando os códigos alfabéticos e teológicos da Bíblia. Muitos chegam ao conhecimento da Bíblia ouvindo os sacerdotes, leitores especializados, ministrarem a leitura bíblica durante os cultos religiosos, nas mais variadas vertentes do Cristianismo.

É notória a importância da Bíblia para o ocidente cristão, e achamos inoportuno discorrer sobre esse truísmo, porém, o que interessa-nos neste trabalho são as apropriações e os sentidos produzidos pelos leitores da Bíblia Sagrada , especificamente de um leitor em particular: Demétrio de Castro.

O trabalho de pesquisa pretendeu verificar as apropriações e representações que Demétrio deu às suas leituras bíblicas, fazendo, paralelamente, um relato de sua vida, que se mostra interessante não só pelo fato de ser ele um homem comum, sem algum feito histórico extraordinário, ou ato que merecesse homenagens, como os grandes vultos da história tradicional receberam.


Materiais e Métodos
A história oral , mais especificamente, a metodologia da história de vida, ofereceu o subsídio documental para este trabalho. Foram realizadas uma série de entrevistas com o Senhor Demétrio de Castro, na cidade de Rebouças-PR, no final de 2007 e inícios de 2008. As entrevistas foram gravadas e encontram-se disponíveis para consulta no Centro de Documentação da Unicentro-Irati. Sobre a metodologia da história oral reflete Verena Alberti: “se quiséssemos fazer um filme reproduzindo passo a passo nossa vida, tal qual ela foi, sem deixar de lado os detalhes, gastaríamos ainda uma vida inteira para assisti-lo: repetir-se-iam, na tela, os anos, os dias, as horas de nossa vida. Ou seja, é impossível assistir ao que se passou, seguindo a continuidade do vivido, dos eventos e das emoções.”2 É impossível resgatar o passado “tal como ele aconteceu” como pretendiam os rankeanos, mas é possível verificar que “representações são tão reais quanto meios de transporte ou técnicas agrícolas, por exemplo”.(Ibidem, p. 9) Alberti ainda pontua uma espécie de retorno ao fato, onde devemos tentar “aperfeiçoar nossas análises para a descoberta de acontecimentos (em sentido amplo) capazes de gerar mudanças, para a descoberta daquilo que engendra novos sentidos (...)” (Ibidem p.10) Portanto, o que se espera da história oral não são fatos concretos, mesmo porque isso não é possível, mas se espera subsídios para referenciar as apropriações e os sentidos e as que os sujeitos, no caso Demétrio, deu e dá às suas leituras
Resultados e Discussão
Não é possível encaixar Demétrio em nenhum padrão. Como ele mesmo afirmou, conta sempre soube fazer, porém a leitura não havia. Perguntado sobre o porquê não havia freqüentado a escola, respondeu que era o seu contexto, “o ambiente familiar” que não favorecia esta prática, pois sua avó e sua mãe eram analfabetas, as pessoas ao seu redor também. Portanto, não havia porque estudar e alfabetizar-se. Mesmo porque a sociedade já traçara o seu destino, que era o do trabalho pesado, o tipo de trabalho para as pessoas que não conseguem bom rendimento na escola. O contexto se encarregara de fazê-lo analfabeto. “ Nasci numa família sem instrução(...) eles achavam que o mundo acabava ali, preferiam que você trabalhasse. A classe social também conta(...), a minha cor é morena e até hoje existe o tal preconceito e eu morava no morro, até existia escola no morro(...) eu não quero culpar o governo, mas minha família mesmo(...) quando você é grande tem vergonha de ir.”

Demétrio relata a sua ausência da escola, quando criança, devido a sua estrutura familiar. A sua mãe e as pessoas próximas a ele não davam o devido valor a leitura, ou ao fato de freqüentar a escola.

Outro fato relatado era a diferença social. O preconceito foi sentido na pele. O fato de ser negro o marcava diante da sociedade. Escolas haviam, porém não eram para ele; eram para quem tinha condições de comprar um lápis, uma borracha e o material como um todo. Apesar de pública, a escola possuía requisitos financeiros básicos para ser freqüentada. Não apenas requisitos de classe, também requisitos de cor. “Alguns lugares você não podia freqüentar, porque você era o pioiento, porque você era da favela”.

O constrangimento por não saber ler revelou-se claro quando ele começou a freqüentar a Igreja com assiduidade. Como o próprio afirmou, houve até uma pequena depressão.


Conclusões (Arial 12, Negrito, alinhado à esquerda)
Demétrio tem certeza absoluta de que as suas leituras bíblicas são, literalmente, verdade. A sua vida, hoje, está baseada no que está escrito na Bíblia Sagrada. Isso se trata de uma utopia vivida diariamente, a esperança da vida eterna que ofereceu um sentido de vida, um caminho seguro, feliz, de estabilidade com a eternidade. Também o desejo de que outros compartilhem desse mesmo sentimento, foi uma das principais motivações e que ele carrega fortemente consigo. Este sentimento é a própria esperança do Cristianismo; é uma esperança temporal, a do tempo teleológico e linear. 3

A crença numa vida futura também oferece uma fuga para os problemas sociais vigentes, faz com que apareça uma força, um ânimo para prosseguir e para crer que as situações são barreiras a serem superadas, pois a vitória é certa para o “cristão verdadeiro”. É uma espécie de evasão, de reação contra a corrupção temporal, contra a própria estrutura de homem: -“pois és pó, e ao pó tornarás.” (Gênesis 3:19).

Outro questão levantada por Demétrio é a ascensão social. Esta não está necessariamente relacionada com o domínio da leitura, porque ele já possuiu, em determinados momentos de sua trajetória, boas condições financeiras, e, por conseqüência, reconhecimento social. Só que ele não era um profissional reconhecido.

Demétrio nasceu em uma favela, cercado de violência, maus tratos, impedido de ir à escola pelas circunstâncias de sua vida, obrigado desde cedo a exercer trabalhos nada condizentes com a sua idade. Quando tornou-se pastou reverteu completamente sua situação inicial.O Nego Côco, “o pioiento (...) o da favela”, passou a ser chamado Pastor Demétrio de Castro, exercendo uma função de destaque na sociedade.

A leitura não proporcionou apenas o entendimento dos textos bíblicos, mas deu a ele uma esperança utópica e uma posição nova dentro da sociedade, ainda que não tenha sido diretamente a leitura a responsável por esta posição, mas sim pela sua consolidação.

Demétrio teria encontrado seu “eu” no texto bíblico, ele teria se completado, se auto-conhecido? Chartier coloca que “Ler é entendido como uma “apropriação” do texto, tanto por concretizar o potencial semântico do mesmo quanto por criar uma mediação para o conhecimento do eu através da compreensão do texto.”4

Ainda “(...) o ato de ler não pode anular-se no próprio texto, assim como as significações não podem também ser aniquiladas mediante significados impostos”.5 Não é porque a interpretação da Bíblia é colocada por um grupo que ela é aceita em sua totalidade por uma pessoa. Demétrio aceitou a interpretação da Igreja Evangélica. Só que uma questão pode ser levantada: - a sua saída da Igreja Universal do Reino de Deus, por motivos não revelados, não teria sido causada por alguma desavença em relação às interpretações dos textos bíblicos divergentes das interpretações da instituição?
Referências
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ALMEIDA, João Ferreira de. Bíblia Sagrada. Segunda impressão. Deerfield, Flórida, 1994, Editora Vida.

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CAVICHIOLO, Norma Luiza Lau. Apostila da Igreja do Evangelho Quadrangular. 2002. ITQ. Curso fundamental de teologia.

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CHARTIER, Roger. Textos, Impressão, Leituras. In: HUNT, Lynn. A Nova História Cultural. 3ª edição. Martins Fontes, São Paulo, 2006, p.211.

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FERNANDES, F. Dicionário de sinônimos e antônimos da língua portuguesa. 11ª edição. Porto Alegre: Globo, 1957. Verbete analfabetismo, p.?.

FREIRE, P. Ação cultural para a prática da liberdade e outros escritos. 9ª edição. São Paulo: Paz e Terra, 2001.

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GINZBURG, Carlo. O queijo e os vermes: O cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela Inquisição. Tradução: Maria Betânia Amoroso, 3ª edição, São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

GOULEMOT, Jean Marie. Da leitura como produção de sentidos. In: Práticas da Leitura. Tradução: Cristiane Nascimento, 2ª edição, São Paulo: Estação Liberdade, 2001.

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REIS, José Carlos. Escola dos Annales: a inovação em história. 2ª edição, São Paulo: Paz e Terra, 2004.


1 CHARTIER, Roger. O Mundo como representação. In Estudos históricos, Rio de Janeiro, vol. 8, n.16, 1995, p.186.

2 ALBERTI, Verena. Ouvir Contar: textos em história oral. 1ª edição, Rio de Janeiro, Fundação Getúlio Vargas, 2004, p.13.

3 FREITAS NETO, José Alves. Sobre os regimes de historicidade e suas operações: reflexões sobre a noção de tempo e a prática historiográfica. In: Anais da II semana de história de Irati: A Escrita da História: questões de teoria e método, UNICENTRO, Departamento de História, 2005.

4 Idem, p.215.

5 Ibidem, p.234.



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