História da leitura em mato grosso no século XIX



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HISTÓRIA DA LEITURA EM MATO GROSSO NO SÉCULO XIX

Eni Neves da Silva Rodrigues (UNICAMP – UFMT/R)


A história do livro e da leitura tem apresentado nos últimos anos grande progresso. Há intensa e variada produção acadêmica de pesquisadores nacionais e internacionais, provenientes de diferentes áreas do saber, que buscam analisar, com atenção e minúcia, as relações estabelecidas pelos homens com os livros e a leitura ao longo dos tempos e nas mais diversas condições sócio-culturais. O I Congresso da História do Livro e da Leitura no Brasil e o Projeto Memória de Leitura podem ser vistos como bons exemplos dessa produção.

Esse Congresso, ocorrido em 1998, na Universidade Estadual de Campinas, contou com a participação de duas das maiores autoridades do assunto, Roger Chartier e Jean Hébrard, e, segundo uma de suas organizadoras, Márcia Abreu (2000, CD – ROM), tinha como objetivo fazer um balanço dos trabalhos já realizados, oferecer aos pesquisadores de diferentes áreas a oportunidade de debater métodos e resultados de pesquisa, além de permitir-lhes a identificação e a superação das especificidades temporais e espaciais que marcam a história do livro no Brasil. Conforme sintetizou a organizadora, “com este Congresso, almeja-se traçar um panorama da história do livro no Brasil, fomentar trocas entre pesquisadores de diferentes campos do conhecimento e estimular a realização de trabalhos interdisciplinares em futuro próximo” (Abreu, CD – ROM, 2000). Transcorridos quase cinco anos após a realização do Congresso, podemos dizer que ele conseguiu atingir os objetivos a que se propôs, haja vista o aumento de estudos, de pesquisadores e de produção de material impresso nessa área nas mais diversas regiões brasileiras.

Em seu ensaio, “Projeto Memória de Leitura: pressupostos e itinerários”, pertencente ao livro Leitura, história e história da leitura, Marisa Lajolo (2000, p. 80-1) faz um histórico detalhado da trajetória do PML, descrevendo-o como:

...fruto de uma pesquisa desenvolvida a partir de 1992 no Instituto de Estudos da Linguagem. Veiculado desde abril de 1997 em um site (http://www.unicamp.br/iel/memória) e, portanto, formatado como hipertexto, o projeto convive constantemente com os desafios da reflexão sobre as conseqüências, para o conceito de leitura, tanto da superação da linearidade da escrita, quanto da simultaneidade e da superposição de códigos viabilizada pelo suporte eletrônico da linguagem. (Lajolo, 2000, p. 80 – 1)


Ambos os eventos podem ser vistos como fontes sugestivas para a escrita de uma história social da leitura no Brasil. Assim sendo, esses acontecimentos, entre outros, acabaram motivando a formação de um grupo de pesquisa sobre a história cultural da leitura na região Centro-Oeste, mais especificamente na UFMT - Campus de Rondonópolis, no Departamento de Letras, com o tema HISTÓRIA DA LEITURA NO SÉCULO XX EM MATO GROSSO. Como desdobramento desta pesquisa maior, estamos desenvolvendo uma outra, particular e focada no século XIX, cujo título provisório é HISTÓRIA DA LEITURA NO MATO GROSSO DO SÉCULO XIX.

Não poderíamos deixar de citar também, como fonte de inspiração e motivação dos estudos sobre a história da leitura em Mato Grosso, a publicação do livro A formação da leitura no Brasil, de Marisa Lajolo e Regina Zilberman. Ao longo de tantas páginas, as autoras traçam um perfil da história cultural da leitura tendo como foco, motivadas talvez por suas próprias origens, o Sul e o Sudeste. Durante toda leitura, mantivemos diálogo permanente entre as informações trazidas/oferecidas pelas autoras e as, ainda incipientes, informações mato-grossenses pesquisadas por nós. Seria muito interessante se pudéssemos ter a colaboração de todos os estados para podermos formar um painel completo da história da leitura no Brasil, idéia já veiculada pelo projeto “A leitura no Brasil em construção”, do Pró-ler.


Dentre a vasta bibliografia existente sobre o assunto, muitos autores, alguns já considerados clássicos nessa área de conhecimento, foram consultados e lidos. Entre estas leituras, relacionadas na bibliografia, optamos por considerar inicialmente as idéias do historiador Robert Darnton. Segundo o autor, em a “História da leitura”, “os historiadores do livro sempre exibiram uma grande quantidade de informação sobre a história externa da leitura” (Darnton, 1992, 203). Nosso propósito é desenvolver um estudo da leitura como fenômeno histórico, cultural e social. Darnton sugere, como caminho, a busca de respostas às perguntas “quem”, “o que”, “onde” e “quando” se lê, por serem elas de grande valia na abordagem das respostas mais difíceis, como os “porquês” e os “comos” se lê. Estudos, ainda no dizer de Darnton, que se preocupam com “o que” se lê, em diferentes épocas, podem traçar, pela via macroanalítica, tendências sobre a evolução dos hábitos de leitura desde os séculos mais remotos até os dias atuais e, além disso, a construção de referências estatísticas e de padrões sobre certos materiais de leitura em circulação. Como fonte de pesquisa, o autor aventa a possibilidade de se recorrer a registros de direitos autorais, publicações anuais de bibliografias, catálogos de feiras de livros, entre outras. Estudos microanalíticos podem ser utilizados como ferramentas de trabalho pelos pesquisadores que têm preocupação maior com os detalhes, com a exatidão. Conforme propõe Dranton, esses estudos microanalíticos podem conseguir estabelecer uma união entre “o que” se lê com o “quem” lê e isto poderá ser demonstrado por estudos de bibliotecas particulares, de inventários, de registros das bibliotecas de empréstimos etc.

Historiadores mato-grossenses, como Lenine Póvoas, Rubens de Mendonça, Carlos e Neuza Rosa, Elizabeth Madureira Siqueira, entre outros, também devem ser chamados a servir de suporte para nossas investigações. Os dois primeiros, por serem considerados os pioneiros, os mais importantes e consagrados historiadores mato-grossenses. A historiadora Elizabeth Madureira Siqueira, por se encontrar ainda em intensa atividade e por seu envolvimento com questões relativas à história do Mato Grosso. No entanto, o principal motivo que nos levou inicialmente à escolha de Luzes e sombras (Siqueira, 2000), sua mais recente publicação, foi a existência de um capítulo intitulado “O universo da leitura”. Nele nos interessa sobremaneira as considerações feitas pela autora sobre a fundação do primeiro Gabinete de leitura de Mato Grosso, os primeiros passos do livro didático com suas implicações, bem como as políticas educacionais da província de Mato Grosso relativas à leitura. Percebemos que a abordagem feita pela autora pode ser aprofundada, pois o propósito dela não foi o de fazer um levantamento da história do livro e da leitura, mas o de tratar dos problemas da educação no Mato Grosso. Enfim, o nosso tema será o mesmo mas com objetivos diferentes.

Merecem destaque especial também os historiadores Carlos e Neuza Rosa, com o livro Do indivíduo ao grupo: para uma história do livro em Cuiabá, escrito, conforme os próprios autores, para comemorar a “oportuna realização, em Cuiabá, da primeira feira de livros especificamente universitários, decidimos considerar a variável livro dentro de um hipotético sistema cultural especificamente cuiabano” (Rosa, 1975, p. 5). A preocupação dos autores se mostra semelhante à nossa. A segunda parte do livro é dedicada à história do livro no século XIX e pode ser vista como uma semente que deverá se multiplicar ao longo de nossa pesquisa. Um balanço da pesquisa bibliográfica relativa à história do livro e da leitura em Mato Grosso, realizada até o presente momento, leva-nos a apenas estes dois títulos - Do indivíduo ao grupo: para uma história do livro em Cuiabá e Luzes e sombras: modernidade e educação pública em Mato Grosso (1870 – 1889).

Alguns questionamentos se nos impõem quando pensamos na opção por uma pesquisa sobre história da leitura em Mato Grosso do século XIX. Por que essa preocupação com o passado? Por que, em especial, essa atenção voltada para a história da leitura do século XIX no Mato Grosso? Não seria muito periférico, específico de uma determinada região brasileira? Objetivamente, poderíamos dizer que a construção e o maior entendimento da história da leitura no Brasil do século XXI, com a possibilidade/realidade dos ineditismos dos livros eletrônicos e similares, depende muito de uma história de longa duração que permita maior compreensão do que está por acontecer. Pela recuperação do passado, sabemos poder ter maior clareza do presente e condições de traçarmos um caminho mais sensato para o futuro. Ou, nas palavras de Chartier:


A tarefa do historiador não é profetizar a história. (...) O olhar voltado para trás tem outra função: ajudar a compreender quais são os significados e os efeitos das rupturas que implicam os usos, ainda minoritários e desiguais, mas a cada dia mais vencedores, de novas modalidades de composição, de difusão e de apropriação do escrito. Entre as lamentações nostálgicas e os entusiasmos ingênuos suscitados pelas novas tecnologias, a perspectiva histórica pode traçar um caminho mais sensato, por ser mais bem informado. (CHARTIER, 2002, p. 9)
O fato de esta pesquisa estar voltada para a singularidade da região de Mato Grosso e este ser um Estado distante do eixo Rio - São Paulo em nada a desabona o nosso fazer; pelo contrário, é por meio dela que poderemos ter uma visão mais completa do todo. Ela pretende prestar uma importante contribuição analítica à História da leitura no Brasil no período imperial - período esse de grande efervescência na cultura mato-grossense - , bem como contribuir para este tipo de estudo da região, enfoque ainda inexistente. A recuperação e seleção de fontes documentais sobre a história da leitura no estado de Mato Grosso, no período imperial/séc. XIX, também se coloca como questão fundamental desse trabalho, que ainda poderá contribuir para o avanço da reflexão teórica sobre a leitura, e para o enriquecimento do conhecimento de seu percurso histórico no Brasil.

A esses objetivos podemos acrescentar um outro de caráter mais geral e aprofundado, que contempla o indivíduo como cidadão e é pertencente a todos os estudos que se debruçam sobre a história da leitura, como nos lembra Marisa Lajolo:


(o PML) além de contribuir para o avanço da reflexão teórica sobre leitura, bem como para o conhecimento de seu percurso histórico no Brasil, ele tem também uma dimensão política: pretende contribuir para formação profissional dos parceiros e atores de uma política cultural e educacional comprometida com a democratização da leitura como condição essencial para a qualificação do processo educacional brasileiro como um todo e, a partir de tal qualificação, de melhora sensível na qualidade da cidadania a ser desfrutada na sociedade nacional. (Lajolo, 1999, p. 95)
Com a finalidade de encaminhar uma investigação melhor sobre o tema proposto, achamos oportuna a colocação de algumas questões. São elas:

  • Quem era o leitor do século XIX? Sexo, escolaridade, classe social...

  • Como eram adquiridos os livros? Nas livrarias? Por reembolso? Por encomendas?

  • Quais meios de transportes eram utilizados na locomoção dos livros que chegavam em Cuiabá?

  • Como os leitores tinham acesso aos livros? Era por meio de empréstimos de bibliotecas? Que tipo de bibliotecas? De indivíduos/particulares? Públicas? De instituições?

  • Que tipo de políticas educacionais relativas à leitura foram empreendidas no Mato Grosso do século XIX?

  • O que os leitores liam? Que tipo, que gênero era mais vendido/lido?

  • Há registros dos leitores do Gabinete de Leitura e dos títulos dos livros consultados por eles?

  • O preço dos livros adquiridos em Cuiabá era muito diferente do praticado no Rio de Janeiro?

Para fornecermos respostas adequadas à solução dessas primeiras questões, que certamente serão ampliadas e aprofundadas ao longo do trabalho, valer-nos-emos de fontes primárias e secundárias. As primárias serão os jornais, romances-folhetim, catálogos de livreiros e de bibliotecas, inventários e documentos oficiais relativos à educação; todos pertencentes ao século XIX e disponíveis no APMT – Arquivo Público de Mato Grosso. Num segundo momento, provavelmente para estabelecermos comparações e tirar conclusões mais acertadas, poderemos recorrer ao acervo da Biblioteca Nacional procurando documentos similares/semelhantes do Rio de Janeiro. Todavia essas conjeturas só poderão ser confirmadas após o término da pesquisa local, daí a certeza da necessidade de complementação do trabalho já iniciado. Como fontes secundárias, teremos grande variedade de livros, artigos e pesquisas na internet, escritos sobre o assunto estudado, além de variados textos teóricos de interesse da pesquisa. De posse de todas estas informações, das fontes primárias e secundárias, esperamos ter condições de desenvolver, a contento, o tema escolhido por nós.



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CD – ROM I Congresso da História do Livro e da Leitura no Brasil / 12 Congresso de Leitura do Brasil, Campinas, ALB, 2000.




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