História da Psicologia Econômica



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História da Psicologia Econômica


Primeiros autores
Embora tenha havido tentativas de combinar Economia e Psicologia durante o século XIX, o conceito de Psicologia Econômica foi provavelmente usado pela primeira vez em 1881, pelo cientista social francês Gabriel Tarde (1843-1904). Em 1902, Tarde escreveu um livro em dois volumes La Psychologie Economique. Para Tarde, Psicologia Econômica não é uma ciência separada, mas voltada para as suposições da Economia. O homem é um ser social, e as interações entre as pessoas deveriam ser a base para a Economia. Tarde se tornou conhecido por seu livro As leis da imitação (1890), onde descreve a influência da referência social, também sobre consumo e estilo de vida (HUGHES, 1960).
Um outro cientista social, nascido na Noruega e vivendo nos EUA, Thorstein Veblen (1857-1929), publicou A Teoria da Classe Ociosa em 1899. Nesse livro, critica o estilo de vida exuberante dos milionários magnatas americanos, como J. Pierpont Morgan e Cornelius Vanderbilt. O livro é um ensaio sobre o comportamento exibicionista e perdulário dos abastados novos ricos, que é um tópico psicológico-econômico. O trabalho de Tarde e Veblen poderia ser chamado a primeira onda na Psicologia Econômica.
Veblen versus Knight
Thorstein Veblen também poderia ser considerado um psicólogo econômico da segunda onda. Ele e outros tentaram introduzir ciências comportamentais no mainstream econômico nos anos 20 (VEBLEN, 1919). A Psicologia havia se consolidado como uma ciência respeitável, e eles tentaram introduzir uma fundamentação psicológica melhor para a Economia. Economistas em geral não estavam dispostos a fazer isso. Eles preferiam começar com suposições a priori sobre o comportamento humano, tal como racionalidade, preferências estáveis, conhecimento completo e maximização de utilidade. Para muitos economistas, isso não era um dogma, mas o ponto de partida para teorizar.
Se as previsões feitas a partir das teorias baseadas nessas suposições fossem refutadas, as suposições poderiam ser relaxadas (COATS, 1976; VAN RAAIJ, 1985). Dessa forma, a teoria econômica poderia se basear numa simplificação do comportamento humano. Isso certamente não descrevia o comportamento na vida real, mas desde que fornecesse previsões viáveis, tornava-se aceitável provisoriamente. O modelo do comportamento humano deveria ser mais complexo apenas se isso se fizesse necessário. Esta evolução do simples para o mais complexo é semelhante à abordagem utilizada pela Física e outras ciências.
Knight (1921), como oponente de Veblen, sustentava que Economia não trata de comportamento humano, mas de relações universais entre conceitos. A análise da curva de indiferença de Slutzky-Hicks-Allen e o desenvolvimento de econometria marcaram o fracasso da introdução da Psicologia na Economia nesse período. Lakatos (1968) sustentava que os defensores do paradigma neoclássico na Economia sobreviveram a esse ataque, e saíram dele ainda mais fortalecidos.
George Katona
Uma terceira onda na Psicologia Econômica ocorreu no final dos anos 30 e 40. George Katona (1901-81) foi seu principal expoente (WÄRRNERYD, 1982). Um resumo de seu trabalho mais importante pode ser encontrado em Katona (1975); ver também a referência a Katona em outras partes deste livro. Os sucessores de Katona no Centro de Pesquisa da Universidade de Michigan foram Burkhard Strümpel (1935-90) (VAN RAAIJ, 1991) e Richard Curtin.
Psicologia Econômica na Europa
Uma quarta onda na Psicologia Econômica se desenvolveu na Europa nos anos 60 e 70. Na Universidade Louis Pasteur, em Estrasburgo, França, Pierre-Louis Reynaud (1908-81) (ALBOU, 1982) ensinava na cadeira de Economia Política desde 1946. Ele se interessava pelos aspectos psico-econômicos do desenvolvimento econômico, em especial na área do Mediterrâneo. Ele escreveu manuais sobre Psicologia Econômica (REYNAUD, 1954, 1974/81). O sucessor de Reynaud foi Paul Albou na Universidade René Descartes, em Paris (ALBOU, 1984).
Em 1957, Karl-Erik Wärneryd foi indicado professor associado de Psicologia Econômica na Escola de Economia de Estocolmo, Suécia. Sua pesquisa focalizava a psicologia do consumidor, sobretudo em relação a poupança, comunicação de massa e estudos experimentais sobre as reações de consumidores frente a preços e comunicação de massa. Ele publicou o primeiro manual sueco de Psicologia Econômica em 1958, e uma edição revisada do mesmo em 1967. Um de seus colegas era Folke Ölander, que se tornou professor de Psicologia Econômica na Escola de Administração de Aarhus, Dinamarca, em 1974. Sua pesquisa focalizava políticas de consumo e preocupação com o meio ambiente.
Na Holanda a Psicologia Econômica teve início em 1972, no departamento de Psicologia da Universidade de Tilburg, onde Gery Van Veldhoven se tornou professor de Psicologia Econômica. As áreas de pesquisa eram comportamento de poupar, personalidade e comportamento do consumidor. Um de seus colegas era Fred Van Raaij, que se tornou professor de Psicologia Econômica na Universidade Erasmus, Rotterdam, em 1979. Suas principais linhas de pesquisa eram comportamento do consumidor, confiança do consumidor, comunicação de massa e preocupação com o meio ambiente.
Outras universidades européias seguiram esse caminho, e cadeiras de Psicologia Econômica foram estabelecidas na Universidade de Exeter, Reino Unido – Stephen Lea; cadeira de Psicologia com ênfase em Psicologia Econômica –, e Universidade Johannes Kepler de Linz, Áustria – Hermann Brandstätter; pesquisa sobre tomada de decisão na família. Psicologia Econômica é agora também ensinada, por exemplo, em Bath – Reino Unido –, Bergen – Noruega –, Bruxelas – Bélgica –, Reims – França –, Valencia – Espanha –, Viena – Áustria – e Varsóvia – Polônia.
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Em 1976, o primeiro colóquio sobre Psicologia Econômica aconteceu em Tilburg, Holanda. Doze pessoas compareceram a esse encontro. A sociedade internacional foi denominada European research in Economic Psychology – Pesquisa européia em Psicologia Econômica. Mais tarde essa organização se tornou The international association for research in Economic Psychology – IAREP – Associação internacional para pesquisa em Psicologia Econômica. Embora pesquisadores de fora da Europa participem dos colóquios da IAREP, a associação ainda é em sua maior parte uma organização européia, com conferências organizadas na Europa, exceto a de 1986, que foi em Israel. Alguns colóquios foram feitos em conjunto com outras organizações, como a SABE – Society for the advancement of Behavioral Economics - Sociedade para o avanço da Economia Comportamental – e SASE – Society for the advancement of Socio-Economics - Sociedade para o avanço da Sócio-Economia. Em 1998 o encontro da IAREP foi em São Francisco, EUA, em conjunto com a IAAP, The international association for Applied PsychologyAssociação internacional de Psicologia Aplicada. Foi a primeira vez que um colóquio da IAREP teve lugar na América do Norte.
 Diversos livros e manuais sobre Psicologia Econômica têm sido escritos ou editados por Lewis (1982), Furnham e Lewis (1986), Lea, Tarpy e Webley (!987), Van Raaij, Van Veldhoven e Wärneryd (1988), Lea, Webley e Young (1992), Antonides, Van Raaij e Maital (1997), e Furnham e Argyle (1998).
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Além da Europa
Tem havido pesquisa econômico-psicológica interessante nos E.U.A., realizada por Herbert Simon (1963), Richard Thaler (1985), Jack Knetsch, Daniel Kahneman e Amos Tversky (Kahneman e Knetsch, 1992; Kahneman, Slovic e Tversky, 1982; Van Raaij, 1998), David Alhadeff (1982), Harvey Leibenstein (1976), Thomas Schelling (1978) e outros, embora eles não se chamassem psicólogos econômicos. Outras contribuições significativas foram feitas por Scitovsky (1976), MacFayden e MacFayden (1986), Albanese (1988) e Earl (1988, 1990). Tibor Scitovsky juntou Economia e Psicologia – fisiológica – em seu livro The Joyless Economy A Economia Sem Alegria. Os MacFaydens compilaram uma série de trabalhos sobre a teoria e aplicações da Psicologia Econômica. O livro de Paul Albanese surgiu a partir de uma conferência internacional realizada no outono de 1985, no Middlebury College, Vermont, E.U.A. Peter Earl – 1988 –, que estava na Tasmânia nessa época, editou um livro chamado Psychological Economics – Economia Psicológica – enfatizando o uso da Psicologia em modelos econômicos de tomada de decisão. Trabalhos sobre teoria prospectiva, heurística em tomada de decisão, ilusão do dinheiro e probabilística para seguro são também relevantes para Psicologia Econômica.
SABE e SASE são também iniciativas americanas. SABE – economia comportamental – é uma organização de economistas que introduzem fatores comportamentais na Economia e em modelos econômicos. SASE – sócio-economia – é uma organização para incluir sobretudo fatores sociológicos e de ciência política na Economia e nos modelos econômicos. Em contraste com a IAREP, essas iniciativas foram iniciadas principalmente por economistas e sociólogos. Alguns livros que deveriam ser mencionados nesse contexto são Gilad e Kaish (1986), Maital (1982) e Maital e Maital (1984).
Linhas de pesquisa
As linhas de pesquisa da Psicologia Econômica se situam na interface de Economia e Psicologia. Em princípio, todos os comportamentos relacionados a recursos escassos, como dinheiro, tempo e esforço, são parte da Psicologia Econômica. Psicologia Econômica pode conceitualizada tanto como o efeito da Economia sobre os indivíduos, como o efeito agregado dos indivíduos sobre a Economia, e pode ter como modelo um ciclo de influenciar e ser influenciado (Van Raaij, 1981). Também estão incluídos comportamentos organizacionais, empresariais, e outros comportamentos econômicos. Não estão incluídos comportamentos cobertos pela Psicologia Organizacional, embora falte ainda uma distinção clara entre Psicologia Organizacional e Econômica.
A Psicologia Econômica inclui o estudo do comportamento do consumidor. A pesquisa sobre consumidor focaliza como as pessoas escolhem produtos, serviços e marcas, como gastam seu dinheiro e satisfazem seus desejos (Antonides e Van Raaij, 1998).
Metodologia própria
A Psicologia Econômica se caracteriza principalmente como o campo dos comportamentos econômicos. A metodologia da Psicologia Econômica é em grande parte semelhante à da Psicologia Social: pesquisa de campo, experimentação e observação. Pesquisa de panel e análise de dados secundários são típicos, mas não exclusivos da Psicologia Econômica. Panels são usados para medir gastos do consumidor e confiança do consumidor. Análise de dados secundários sobre gastos do consumidor, confiança do consumidor, opiniões e atitudes são comuns na Psicologia Econômica.
Variáveis econômico-psicológicas freqüentemente incluem modelos econômicos como variáveis intervenientes ou suplementares. Por exemplo, se o desemprego afeta a confiança, e a confiança afeta os gastos, a abordagem econômica padrão é deixar de lado o fator da confiança, e examinar o efeito direto do desemprego sobre o consumo. Outra abordagem é ter variáveis psicológicas para explicar a variação adicional em relação ao que é explicado pelas variáveis econômicas. Se a renda afeta os gastos, qual é a variação extra explicada se usarmos tanto renda como confiança para explicar o consumo? A metodologia é portanto às vezes uma abordagem econômica, ou uma abordagem econômica com variáveis psicológicas intervenientes ou suplementares.
Metas e objetivos
 As metas e objetivos dos primeiros psicólogos econômicos eram reestruturar completamente os fundamentos da Economia. O retrato satírico que Veblen (1919) fazia da concepção hedonística do homem que responde passivamente aos estímulos externos era persuasivo quando contrastado com o modelo ativamente inteligente do Homem em Psicologia. Essa meta ambiciosa fracassou. Obviamente o paradigma econômico não é fácil de refutar.
Uma segunda opção – de recuo – é incluir fatores comportamentais e psicológicos nos modelos econômicos (EARL, 1988). Se as variáveis psicológicas provarem ser acréscimos úteis ao modelo econômico, algum reconhecimento da contribuição econômico-psicológica estará assegurado.
As metas e objetivos atuais dos psicólogos econômicos são mais modestos. A meta é estabelecer um campo separado da Psicologia Econômica, adjacente a ele, mas distinto. As duas áreas terão desenvolvimento separado, mas, espera-se, que influenciem um ao outro de maneira frutífera.
Uma quarta opção é considerar a Psicologia Econômica como um campo da Psicologia Social aplicada e cognitiva. Esta opção tem alguma validade, mas não reconhece a relação especial da Psicolologia Econômica com a Economia.
Para concluir, a observação de que a Psicologia Econômica tem relações bem sucedidas e impacto sobre pesquisa sobre o consumidor, marketing, publicidade, políticas do consumidor, Economia financeira e experimental.   
Fonte

RAAIJ, FRED VAN. História da Psicologia Econômica: The Elgar Companion to Consumer Research and Economic Psychology. [S.l.: s.n], 1999





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