História da química no brasil: as dificuldades para o ensino da química nas escolas superiores no século XIX nelson Lage da Costa* e Teresa Cristina de Carvalho Piva



Baixar 38.05 Kb.
Encontro30.07.2016
Tamanho38.05 Kb.
HISTÓRIA DA QUÍMICA NO BRASIL: AS DIFICULDADES PARA O ENSINO DA QUÍMICA NAS ESCOLAS SUPERIORES NO SÉCULO XIX

Nelson Lage da Costa* e Teresa Cristina de Carvalho Piva**
* Mestre em Ensino de Ciências – Prof. do Programa de Pós-Graduação em Educação Matemática da Universidade Castelo Branco, UCB e Participante do Grupo de Pesquisa em História das Instituições Científicas Brasileiras da UFRJ - email: nelsonlage@ig.com.br
**Doutor em História das Ciências – Prof. do Centro Universitário Celso Lisboa- UCL; Pesq. do Grupo de Pesquisa em História das Instituições Científicas Brasileiras da UFRJ.

RESUMO

Nesta pesquisa fez-se uma reflexão sobre as deficiências e dificuldades do ensino da Química na época da Corte Portuguesa no Brasil. Os livros adotados nas escolas, na maioria escritos em francês, em parte foi um obstáculo e certamente contribuiu para a carência nos ensinamentos da Química no Brasil. Muitas cópias de manuscritos sobre o ensino da Química no Brasil fazem parte do acervo da Biblioteca de Obras Raras da UFRJ. É importante ressaltar algumas publicações de brasileiros que contribuíram para o avanço do ensino da Química no Brasil.



Palavras-chave: Ensino da Química no Brasil, Livros de Química, Ciência em Brasil do Século XIX.

INTRODUÇÃO

O presente estudo teve motivação nas pesquisas iniciadas pelo saudoso Dr. Paulo Cesar Strauch e tem como objetivo evidenciar as deficiências do ensino da Química nas escolas superiores da Corte, no Rio e Janeiro e na Escola de Medicina da Bahia.

A pesquisa aponta as dificuldades, para a manutenção do único curso regular de Química no Brasil da época implantado no Laboratório Químico do Museu, em 1824 que também era na época o único laboratório de análise do Brasil. O trabalho tem ainda como objetivo apontar alguns avanços ocorridos no ensino da Química, no primeiro quarto do século XIX, no sentido de estabelecer um arcabouço teórico e prático alicerçado em determinações quantitativas, fruto de muitas pesquisas e discussões científicas. Conhecimentos que estavam contidos em diversos compêndios de Química, em grande parte na língua francesa, que foram adotados pela Academia Real Militar e nas escolas de medicina da época.

Mesmo após os 35 anos da edição do livro Traité Elémentaire de Chimie escrito em 1789 por Antoine Laurent Lavoisier (1743-1794), que na época inaugurava a Química Moderna, nenhum desenvolvimento chegava aos cursos de Química do Brasil.



Declaração contundente a respeito da Química - nos idos de 1824

A história se inicia com a figura de João da Silveira Caldeira (1800-1854), lente de Química da Academia Imperial Militar e diretor do Museu Nacional no período de 1823 a 1827, local onde foi criado o Laboratório de Química. Em seu livro intitulado “Nova Nomenclatura Química Portuguesa e Latina e Francesa”, publicado em 1825, João Caldeira afirmou o leitor que “o ensino de química nas escolas superiores da Corte, no Rio de Janeiro e na Escola de Medicina da Bahia eram bastante deficientes”. Esta declaração foi de grande impacto para a época, tendo em vista o cargo que ocupava na Academia Imperial Militar, afinal já haviam se passado vários anos da primeira edição do livro do químico francês Lavoisier intitulado Traité Élémentaire de Chimie e não houve novidade alguma acrescentada no ensino da Química da época, no Brasil.

Todos os avanços ocorridos na Química, no primeiro quarto do século XIX no sentido de estabelecer um arcabouço teórico e prático calcado em determinações quantitativas, fruto de intensas pesquisas e discussões científicas travadas principalmente entre Lavoisier e o inglês Joseph Priestley (1733-1804) eram totalmente desconhecidas na Língua Portuguesa no Brasil da época. Tais conhecimentos eram exclusivos de obras publicadas na Língua Francesa, adotados pela então Academia Real Militar e, em algumas poucas obras adotadas pelas escolas de Medicina.

A título de exemplo, a própria Carta Régia de 4 de dezembro de 1810 que determinou a criação da Academia Real Militar, estabeleceu o Regimento daquela instituição totalmente calcado na École Polytechnique que fornecia em seu Título II o rol de livros adotados para o ensino da Química da época. Adotavam-se todos os Métodos Docimásticos (métodos de análise química de minérios) para o conhecimento de minas, baseados nas obras de Lavoisier, Vauquelin, Jauveroy, La Grange e Chaptal.

É importante ressaltar que o primeiro texto de Química utilizado no Brasil, na Academia Real Militar foi o texto traduzido por Manoel Joaquim Henriques de Paiva (1752-1829) publicado em Lisboa em 1801. Uma cópia deste trabalho encontra-se atualmente no acervo da Biblioteca de Obras Raras do Centro de Tecnologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRJ. Fazem parte do acervo da biblioteca outras obras que estavam disponíveis na época e que possivelmente poderiam ter sido usadas, acredita-se que a dificuldade do idioma (francês) não tenha permitido a utilização por completo.

Verifica-se que o ensino sistemático de Química no Brasil na Academia Imperial Militar (como passou a ser chamada a Academia após a Independência do Brasil) tinha a disposição os principais compêndios franceses e estrangeiros sobre o assunto, existente na época. No entanto no ano de 1830, muito embora a importância da Química fosse realmente reconhecida na Medicina, na Indústria e na Engenharia como, por exemplo, as obras do engenheiro militar português José Fernandes Pinto Alpoim (1700-1765).

A revista Semanário de Saúde Pública editada pela Sociedade Médica do Rio de Janeiro traçou em perfil dramático do ensino de ciências naturais na Corte do Rio de Janeiro como segue no trecho extraído do semanário: “(...) porém em ciências, e sobretudo em ciências naturais, que são as que mais nos importam, porque muito aproveitaríamos com elas, o nosso atraso é incrível, e só uma administração estúpida poderia tê-las dispensado a ponto de não termos na capital do Brasil um curso regular de química, um de física, um de mineralogia, um de botânica. Não se diga que algumas dessas cadeiras existem criadas por lei, e preenchidas porque não havendo estímulos nem para os que se poderiam ensinar, nem para os que as cultivassem, é como se não existissem (SEMANÁRIO DE SAÚDE PÚBLICA, 1831).

É interessante mostrar que o autor da publicação ressaltou que o professor não teria motivação para ensinar com um ordenado de apenas 800$000 réis. Com o ordenado citado no semanário, o autor afirmou não seria possível ao professor instruir-se, muito menos procurar todos os materiais para o ensino da Química. O pesquisador Paulo Strauch acrescentou ainda que “não é só com palavras e livros que se aprendem estas ciências”. (STRAUCH, 2010, p.181)



ALGUNS LIVROS DE QUÍMICA ESCRITOS POR BRASILEIROS

No dia 6 de maio de 1834, a Congregação da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro aprovou a criação de uma comissão constituída pelos professores Manoel de Valladão Pimentel (1812-1882), Francisco Julio Xavier (1808-1851) e José Martins da Cruz Jobim (1802-1878) com a missão de listar os livros a serem adquiridos na França. Os livros de Química que foram relacionados foram: Élémens de Chimie Médicale





Figura 1- Frontispício do livro Élémens de Chimie Médicale, de autoria de, Mathieu-Joseph Bonaventure Orfila (1787-1853), editado em 1817. Fonte: Gallica - Bibliothèque nationale de France, disponível em: gallica.bnf.fr/

Traité de Chimie- Elémentaire, Théorique et Pratique


Figura 2- Frontispício do livro Traité de Chimie- Elémentaire, Théorique et Pratique , de autoria de Louis Jacques Thénard , editado em 1824.Fonte: Europeana, disponível em: www.europeana.eu


Traité de Chimie, Appliquée Aux Arts



Figura 3- Frontispício do livro, Traité de Chimie, Appliquée Aux Arts, de autoria de Jean-Baptiste Dumas, editado em 1828. Fonte: Openlibrary, disponível em: http://openlibrary.org/
Traité de Minéralogie



Figura 4 - Frontispício do livro Traité de Minéralogie, de autoria de René Just Haüy (1743-1822), editado em 1801. Fonte: Mineralogical Society of America, disponível em: www.minsocam.org

Abrégé élémentaire Chimie



Figura 5- Frontispício do livro Abrégé élémentaire Chimie, de autoria de Jean Louis Lassaigne (1800-1859), editado em 1829. Fonte: Europeana, disponível em: www.europeana.eu

Nouveau Système de Chimie Organique



Figura 6 - Frontispício do livro Nouveau Système de Chimie Organique, de autoria de François Vincent Raspail (1794-1878), editado em 1838. Fonte: Fonte: Europeana, disponível em: www.europeana.eu

Infelizmente nem todos os títulos foram adquiridos devido às restrições orçamentárias da época. Devido a essas dificuldades, alguns dos professores dedicaram-se a escrever livros-textos para ajudar os alunos em seu aprendizado.

O primeiro livro de Química escrito e publicado no Brasil pela Imprensa Régia, ocorreu em 1810, autoria do médico Daniel Gardner, intitulado Syllabus ou Compendio das Lições de Chymica. (SANTOS e FILGUEIRAS, 2011)



Figura 7 - Frontispício do livro Syllabus ou Compendio das Lições de Chymica, de autoria de Daniel Gardner, editado em 1810.

Outra obra importante para o ensino da Química foi o livro Lições de Chimica e Mineralogia publicado em 1833 de autoria do Frei Custódio Alves Serrão (1799-1873), o seu conteúdo abordava novos conceitos em Química estabelecidos no inicio do século XIX por John Dalton (1766 - 1844) e Jöns Jacob Berzelius (1779 - 1848). O livro contém várias informações sobre a Teoria Atômica de Dalton, a Lei de Gay-Lussac, bem como a notação química proposta por Berzelius, com o uso de fórmulas, inclusive a notação dualística (em sua teoria dualística, Berzelius considerava que todas as moléculas eram compostas de uma parte positiva e de uma negativa). A obra apresentava ainda a hipótese do químico italiano Amedeo Avogadro (1776-1856).

O trabalho mais utilizado tanto na Escola de Medicina do Rio de Janeiro como na Faculdade de Medicina da Bahia foi escrito pelo Dr. João Vicente Torres Homem e publicado em 1837 com o título Compendio para o Curso de Chimica da Escola de Medicina do Rio de Janeiro.

Torres Homem teve o seu trabalho baseado nos trabalhos de Berzelius, Dumas, Arago e Gay-Lussac. No entanto o compendio continha poucas informações sobre a teoria química restringindo-se apenas a uma lista de elementos químicos conhecidos à época; e alguns detalhes sobre a Teoria da Combustão de Lavoisier. O seu melhor texto químico detalhava as propriedades físicas e métodos de preparação dos principais produtos químicos predominantes na época, com a nomenclatura vigente, porém sem nenhum número ou fórmulas. Curiosamente, a única referência quantitativa é que “a água é um corpo composto de 88,9 partes de oxigênio e de 11,1 de hidrogênio em peso, ou de 2 volumes de hidrogênio, e de 1 de oxigênio”. Esta proporção em massa é exatamente a que se admite nos dias atuais. (TORRES HOMEM, 1837, p.89)

Outros surgiram outros livros de Química escritos por personagens brasileiros. São exemplos desses trabalhos: Elementos de Pharmacia, Chymica e Botânica de autoria do cirurgião Antônio de Sousa Pinto e o Compendio de Mecânica Elementar e Elementos de Chimica para Uso da Escola de Architectos Mediadores da Província do Rio de Janeiro (1839) de autoria de Pedro de Alcantara Bellegrade (1807-1864). No entanto, como no trabalho de Torres Homem, nenhum deles fazia citações às leis ponderais, a símbolos, a fórmulas ou a equações.



Figuras 8 e 9 – Frontispícios do livro Elementos de Pharmacia, Chymica e Botânica, de autoria de Antonio José de Sousa Pinto, a primeira edição de 1805, publicado em Lisboa e a edição publicada no Brasil em 1837. Fonte: Fonte: Europeana, disponível em: www.europeana.eu

CONCLUSÃO

Durante várias décadas após a publicação da obra de Lavoisier, o mundo presenciou um grande desenvolvimento da química, maior até do que havia se conseguido ao longo dos séculos. Esta escalada que seguiu tanto o desenvolvimento teórico como o prático foi realizado principalmente por químicos europeus. Este desenvolvimento permitiu a produção, em bases industriais, de produtos químicos demandados em escala ascendente pela ampliação dos seus mercados.

Independentemente das discussões que tenha havido nas academias militares e medicas da época, a elite brasileira conscientizava-se cada vez mais da necessidade de criação de indústrias no Brasil, dentre elas as indústrias químicas. A prova disso é a própria implantação em 1840, no Laboratório Químico do Museu Nacional de uma exposição de química industrial que ficou na época a cargo de Agostinho Rodrigues Cunha, um brasileiro que estudou na École Polytechnique. Na época a fabricação de produtos químicos restringia-se a boticas e pequenas farmácias que já começavam a surgir.

A demanda nacional de produtos era pequena e totalmente atendida por importação, inexistindo produção brasileira de produtos químicos em escala industrial, principalmente a fabricação de produtos de grande demanda como os da indústria têxtil.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANÔNIMO. Observações sobre o ensino de sciencias naturaes. Semanário de Saúde Pública, 54, Rio de Janeiro: Sociedade Médica do Rio de Janeiro, 1831.

ARAUJO, C. da S. Fatos e personagens da história da medicina e da farmácia no Brasil. v. I e v.II. Rio de Janeiro: Revista Continente Editora Ltda,1979.

BELLEGARDE, P. de A. Compendio de Mecânica Elementar e Elementos de Chimica para Uso da Escola de Architectos Medidores da Província do Rio de Janeiro, 1839.

BENSAUDE, Vicent, B.; STENGERS, I. Histoire de la chimie .Paris: Éditions La Découverte & Syros, 2001.

CALDEIRA, J. S. Nova nomenclatura química portuguesa, latina e francesa Rio de Janeiro: Typ. Imperial e Nacional, 1825.

CARRARA Jr. E; MEIRELLES, H. A indústria química e o desenvolvimento do Brasil Tomo I (1500 – 1844) e II (1844 – 1889).São Paulo: Metalivros, 1996.

DUMAS, J. B. Traité de Chimie appliquée aux Arts .8 v. + Atlas. Paris: Chez Béchet Jeune, 1828-1846.

FILGUEIRAS, C. A. L. – Origens da ciência no Brasil – Química Nova, 13 N° 3,1990, p. 222-229.

LISBOA, Ap. de. Equivalentes chimicos. O auxiliador da Indústria Nacional, I, 1, p.9 – 14, 1846.


SANTOS, Nadja P. e FILGUEIRAS, C.A.L. O Primeiro Curso Regular de Química no Brasil. Quím. Nova, vol.34, no.2, São Paulo,  2011.


STRAUCH, Paulo Cesar. A École Centrale de Paris e a sua influência do desenvolvimento técnico do Brasil. Tese de Doutorado em História das Ciências e das Técnicas e Epistemologia (HCTE), Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ,2010.




Compartilhe com seus amigos:


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal