História da Sociologia Pressupostos, origem e desenvolvimento



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SOCIOLOGIA DO TOMAZI

História da Sociologia

Pressupostos, origem e desenvolvimento.



Introdução

Para se compreender como a Sociologia nasceu e se desenvolveu é necessário voltar um pouco no tempo e analisarmos as transformações que ocorreram a partir do século XIV, quando se iniciou uma grande transformação: a passagem da sociedade feudal para a sociedade capitalista, ou a passagem da sociedade medieval para a sociedade moderna. Isso significa que vamos fazer uma pequena viagem histórica para entendermos como e porque a Sociologia surge.

Na história das sociedades humanas sempre ocorreram explicações para o que acontecia no mundo, mas não uma ciência específica para isso. Isso só vai acontecer no século XIX. Para se compreender isso é necessário que se conheçam os antecedentes que permitiram que só no século XIX emergiu a sociologia como uma ciência da sociedade.

Como você percebeu ao longo deste livro, pensar do ponto de vista das ciências sociais ou pensar sociologicamente é pensar historicamente a sociedade em que vivemos, o que significa não pensar estaticamente.

Neste processo aparecem autores que se sobressaem entre outros tantos. Por isso, ao analisarmos alguns deles estamos apenas destacando-os em função de nossos objetivos que é demonstrar como o pensamento social foi se estruturando historicamente e como desde início do século XIX, aparece a Sociologia como uma nova estruturação do saber sobre a sociedade humana.

O que procuramos enfatizar é que para se entender as idéias de um autor e de uma determinada época é fundamental contextualizar historicamente para que sejam compreendidas como parte de um período. Pode-se dizer que os indivíduos e grupos pensam a sociedade em que vivem através de categorias do pensamento que emergem das tradições, do universo religioso, das raízes filosóficas e do conhecimento científico existente até então.

Vou procurar abordar uma série de assuntos que possam dar uma visão do processo histórico que fundamentou e contribuiu para o surgimento da sociologia. Espero que vocês estejam dispostos a me acompanhar nesta viagem, que espero seja uma aventura histórico-sociológica.
2. As transformações no Ocidente e as novas formas de pensar a sociedade.
A Sociologia, no contexto do conhecimento científico, surge como um corpo de idéias que se preocupou, e ainda se preocupa, com o processo de constituição, consolidação e desenvolvimento da sociedade moderna. Ela é fruto da Revolução Industrial e, nesse sentido, é denominada “ciência da crise”, porque procurou dar respostas às questões sociais colocadas por esta revolução que, num primeiro momento, alterou toda a sociedade européia e, depois, o mundo todo.

A Sociologia como “ciência da sociedade” não surgiu de repente, ou da reflexão de algum autor iluminado; ela é fruto de todo um conhecimento sobre a natureza e a sociedade, que se desenvolveu a partir do século XV, quando ocorreram transformações significativas que tiveram como resultado a desagregação da sociedade feudal e a constituição da sociedade capitalista. Essas transformações — a expansão marítima, as reformas protestantes, a formação dos Estados nacionais, as grandes navegações e o comércio ultramarino, bem como o desenvolvimento científico e tecnológico — estão todas vinculadas entre si e não podem ser entendidas de forma isolada e serão o pano de fundo que permitirá entender melhor um movimento intelectual de grande envergadura que alterará profundamente as formas de explicar a natureza e a sociedade daí para frente.

A expansão marítima, ou as grandes navegações, tem um papel importante nesse processo, pois, com a circunavegação da África, o descobrimento da rota para as Índias e para a América, foi consideravelmente ampliada a concepção de mundo dos povos europeus. A definição de um mundo territorialmente muito mais amplo, com novos povos, novas culturas, novos modos de explicar as coisas, vai exigir a reformulação do modo de ver e de pensar dos europeus.

Ao mesmo tempo em que se conheciam novos povos e novas culturas, instalavam-se colônias na África Negra, na Ásia e na América, ocorrendo com isso a expansão do comércio de novas mercadorias (sedas, especiarias, produtos tropicais como açúcar, milho, tabaco e café) entre as metrópoles e as colônias, bem como entre os países europeus. Nascia então a possibilidade de um mercado muito mais amplo e com características mundiais.

A exploração de metais preciosos, principalmente na América, e o tráfico de escravos para suprir a mão-de-obra nas colônias, deram grande impulso ao comércio, que não mais ficou restrito aos mercadores das cidades-repúblicas (Veneza, Florença ou Flandres), passando também para as mãos de grandes comerciantes e de soberanos dos grandes Estados nacionais em formação na Europa.

Toda essa expansão territorial e comercial acelerou o desenvolvimento da economia monetária, com a acumulação de capitais pela burguesia comercial, que, mais tarde, terá uma importância decisiva na gestação do processo de industrialização da Europa.

As mudanças que se operavam nas formas de se produzir a riqueza só pode­riam funcionar se ocorressem modificações na estruturação política. Assim, pouco a pouco vai se desenvolvendo uma estruturação estatal que tinha por base a centralização da justiça, com um novo sistema jurídico baseado no Direito Romano. Houve também a centralização da força armada, com a formação de um exército permanente, e a centralização administrativa, com um aparato burocrático ordenado hierarquicamente, com um sistema de cobrança de imposto que permitiu uma arrecadação constante para manter todo esse aparato jurídico-burocrático-militar sob um único comando. Nascia, dessa forma, o Estado moderno, que veio favorecer a expansão das atividades vinculadas ao desenvolvimento da produção têxtil, à mineração e à siderurgia, bem como ao comércio interno e externo.

No século XVI, desenvolveu-se um outro movimento, o da Reforma Protestante. Ao entrar em conflito com a autoridade papal e a estrutura da Igreja, este movimento criou uma tendência que valorizava o indivíduo ao permitir a livre leitura das Escrituras Sagradas e, dessa forma, o confronto com o monopólio do clero na interpretação baseada na fé e nos dogmas. Passou-se então, em vários lugares do mundo ocidental, não só a interpretar as Escrituras Sagradas como também se relacionar com Deus individualmente, sem a intermediação dos ministros da Igreja.

Se há uma nova maneira de se relacionar com as coisas sagradas, há também um outro movimento no sentido de se analisar o universo de outra forma. A razão passa a ser soberana e é colocada como elemento essencial para se conhecer o mundo; isto é, os homens devem ser livres para julgar, avaliar, pensar e emitir opiniões sem se submeter a nenhuma autoridade transcendente ou divina, que tinha na Igreja a sua maior defensora e guardiã.

Do século XV ao XVII o conhecimento racional do universo e da vida em sociedade começa a ser uma regra seguida por alguns pensadores; é uma mudança lenta, sempre enfrentando embates contra o dogmatismo e a autoridade da Igreja, a exemplo do Concílio de Trento e dos processos da Inquisição, que procuraram impedir toda e qualquer manifestação que pudesse pôr em dúvida a autoridade eclesiástica, seja no campo da fé, seja no das explicações que se propunham para a sociedade e a natureza.

Essa nova forma de conhecer a natureza e a sociedade, em que a experimentação e a observação são fundamentais, aparecem nesse momento representada pelo pensamento e pelas obras de diversos autores, entre eles Nicolau Maquiavel (1469-1527), Nicolau Copérnico (1473-1543), Galileu Galilei (1564-1642), Thomas Hobbes (1588-1679), Francis Bacon (1561-1626) e René Descartes (1596-1650). Além desses pensadores, existem dois outros que fizeram a ponte entre esses novos conhecimentos e os que se desenvolveram no século seguinte: John Locke (1632-1704) e Isaac Newton (1642-1727). Enquanto o primeiro propõe novos princípios para a compreensão da razão humana, o segundo estabelece um novo fundamento para o estudo da natureza.

No final do século XVII, na maioria dos países europeus a burguesia comercial, formada basicamente por comerciantes e banqueiros, tornou-se uma classe com muito poder, devido, na maior parte das vezes, às ligações econômicas que mantinha com os monarcas. Essa classe, além de sustentar ativo o comércio entre os países europeus, estendia a todos os pontos do mundo, até onde pudesse chegar, os seus tentáculos, comprando e vendendo mercadorias, tornando o mundo cada dia mais europeizado.

O capital mercantil se estendia também a outro ramo de atividade: gradativamente se organizava a produção manufatureira. A compra de matérias-primas e a organização da produção, seja, através do trabalho domiciliar, ou do trabalho em oficinas, levavam ao desenvolvimento de um novo processo produtivo em contraposição ao das corporações de ofício.

Ao se desenvolver a manufatura, os organizadores da produção passaram a se interessar cada vez mais pelo aperfeiçoamento das técnicas de produção, visando produzir mais com menos gente, aumentando significativamente os lucros. Para tanto, procuraram investir nos “inventos”, isto é, financiar a criação de máquinas que pudessem ter aplicação no processo produtivo. Apareceram, desse modo, as máquinas de tecer, a máquina de descaroçar algodão, bem como iniciou-se a aplicação industrial da máquina a vapor e de outros tantos inventos destinados a aumentar a produtividade do trabalho. Desenvolve-se então o fenômeno que veio a ser chamado de maquinofatura. O trabalho que os homens realizavam com as mãos ou com ferramentas passava, a partir de então, a ser feito por meio de máquinas, elevando muito o volume da produção de mercadorias.

A presença da máquina a vapor, que podia mover outras tantas máquinas, incentivou o surgimento da indústria construtora de máquinas, que, por sua vez, incentivou toda a indústria voltada para a produção de ferro e, posteriormente, de aço. É interessante lembrar que já no final do século XVIII produziam-se ferro e aço, com a utilização do carvão mineral.

Nesse mesmo contexto de profundas alterações no processo produtivo encontra-se também a utilização cada vez mais crescente do trabalho mecânico convivendo com o trabalho artesanal. A maquinofatura se completava com o trabalho assalariado, aí se incluindo a utilização, numa escala crescente, da mão-de-obra feminina e da infantil.

Ao mesmo tempo, longe da Europa, há a exploração do ouro no Brasil, da prata no México e do algodão na América e na Índia. Todas essas atividades eram desenvolvidas com a utilização do trabalho escravo ou servil. Esses elementos, conjugados, asseguravam as bases do processo de acumulação necessária para a expansão da indústria na Europa.

Todas essas mudanças, somadas à herança cultural e intelectual do século XVII, irão definir o século XVIII como um século explosivo. Se no século anterior a Revolução Inglesa determina novas formas de organização política, é no século XVIII que se vê tanto a Revolução Americana como a Francesa alterando todo o quadro político mundial, bem como servindo de exemplo e parâmetro para as revoluções políticas posteriores.

As transformações na esfera da produção, a emergência de novas formas de organização política e a exigência da representação popular dão características muito específicas a esse século, em que pensadores como Montesquieu (1689-1755), David Hume (1711-1776), Jean-Jaques Rousseau (1712-1778), Adam Smith (1723-1790) e Immanuel Kant (1724-1804), entre outros, procurarão, por caminhos às vezes divergentes, refletir sobre a realidade, na tentativa de explicá-la.
3. A consolidação da sociedade capitalista e o surgimento de uma “ciência da sociedade”.
O século XIX foi também o de novas transformações que passam pela emergência de novas fontes energéticas (eletricidade e petróleo), por novos ramos industriais, pela alteração profunda nos processos produtivos, com a introdução de novas máquinas e equipamentos

No início deste século depois de trezentos amos de exploração colonialista, por parte das nações européias, inicia-se, principalmente nas nações latino-americanas um processo intenso de lutas pela independência.

Mesmo no continente europeu vamos encontrar ainda resquícios da atividade monárquica ainda não republicana, ou seja, os Estados ainda não estavam unificados em torno de uma única autoridade, este é o caso Ada Alemanha e da Itália.

É no século XIX, já com a consolidação do sistema capitalista na Europa, que se encontra a herança intelectual mais próxima da qual surgirá a Sociologia como ciência particular. No início desse século, o pensamento de Saint-Simon (1760-1825), de G. W. E. Hegel (1770-1830), de David Ricardo (1772-1823) e de Charles Darwin (1809-1882) entre outros, será o elo para que Aléxis de Tocqueville (1805-1859), Auguste Comte (1798-1857), Karl Marx (1818-1883) e Herbert Spencer (1820-1903) desenvolvam suas reflexões sobre a sociedade de seu tempo.

Agora vamos analisar um pouco mais demoradamente alguns autores, entre outros, que lançaram as bases de uma “ciência da sociedade” no Século XIX
3.1. Saint Simon (1760-1825) e a nova ciência “da sociedade”.
Claude-Henri de Rouvroy - Conde de Saint Simon, nasceu em 17de outubro de 1760. Descendente de uma família aristocrática muito antiga na França, e por isso teve uma excelente educação parta sua época, inclusive tendo como professor o então célebre d´Alembert, um dos autores da Enciclopédia. Por ser aristocrata teve que ir para o exército onde chegou a se tornar um coronel. Devido a esta situação vai participar da luta pela libertação dos EUA, viaja para a Espanha, para a Holanda, sempre sendo um profundo observador do que via e do que estavas acontecendo.

A revolução francesa modificou a sua situação. Mesmo como aristocratas, estava convencido que o antigo regime estava corrompido e corrompia e não podia durar muito mais, mas não aceitava a violência e a destruição que o movimento revolucionário proporcionava. Entretanto, os novos ventos da revolução o atingem e renuncia ao título de conde, passando a se chamar Claude Henri Bonhomme, nome plebeu.

A partir de então se envolve em negócios comprometedores, sendo inclusive preso por isso. Mais tarde é solto e inicia uma nova fase da vida ao viajar novamente para outros lugares da Europa - Suíça, Inglaterra e Alemanha – mas já com uma idéia muito ampla: formulação de uma filosofia da ciência capaz de unificar todos os fenômenos naturais e sociais. Além disso, Saint-Simon tinha um objetivo que nunca deixou de lado: reorganizar as sociedades européias tendo por fundamento a ciência e a indústria.

As suas idéias influenciou as idéias tanto de Auguste Comte e depois de E. Durkheim quanto de Karl Marx. Mas que idéias são estas que puderam influenciar dois autores antagônicos em sua forma de ver e analisar o mundo em que viviam?


Concepção de história: Entendia que a história marcha através de uma série de afirmações e negações que darão lugar a momentos mais altos. Há uma regra geral que ele defendia: o opogeu de um sistema coincide com o início de sua decadência. Para ele existiam três grandes momentos na história ocidental. A primeira época orgânica é a antiguidade greco-romana e a primeira época crítica, a das invasões bárbaras. A segunda orgânica é a da Idade Média e a sua crítica vai do Renascimento à Revolução Francesa. A terceira época orgânica era aquela que ele vislumbrava: a do industrialismo.
As classes sociais: em todas as épocas sempre houve uma estrutura de classes dividida entre dominantes e dominados e a história da humanidade se explicaria pelas contradições entre elas, mas não pensava em uma superação delas por uma outra sociedade, pois imaginava haver a possibilidade de uma harmonização entre as classes com uma justiça policlassista.

No tempo em que vivia e na sociedade francesa em particular, afirmava que existiam duas grandes classes: a dos ociosos ( a realeza, a aristocracia e o clero, os militares e a burocracia que administrava a estrutura destes que nada produziam) ) e a dos produtores ou industriais (cientistas, engenheiros, médicos, banqueiros, comerciantes, industriais, artesãos, lavradores trabalhadores braçais enfim todos os cidadãos úteis para o desenvolvimento da França)



Novos dirigentes: Para que a sociedade pós-revolucionária na França se firmasse era necessário que a ciência tomasse o lugar da autoridade religiosa da Igreja, formando-se assim uma nova elite, agora científica. A ciência deveria substituir a religião como força de coesão. Os cientistas substituiriam os clérigos e os industriais os senhores feudais. A aliança dos cientistas com os industriais conformaria a nova classe dirigente. Mas quem deveria estar na direção seriam apenas os mais capazes em cada campo. E seriam chamados porque sabem mais da sociedade: os cientistas porque a estudam e os industriais porque pela prática sabem o que funciona melhor.

Desde 1803 escreve sem parar uma série de livros que demonstram uma confiança no futuro da ciência e que buscam uma lei única que permita guiar a investigação dos fenômenos sociais com a lei da gravitação universal de Newton. A principal tarefa desta nova ciência seria a de descobrir as leis do desenvolvimento social, pois elas indicariam o caminho que se deveria tomar para que a sociedade pudesse seguir no progresso continuado.

No final da vida procurará desenvolver uma espécie de religião, um novo cristianismo mais dinâmico, que teria por objetivo fundamental a elevação física e moral da classe mais numerosa e pobre da sociedade. Morre em 19 de maio de 1825

As obras mais importantes de Saint Simon do ponto de vista sociológico são as seguintes:


1814 - Reorganização da sociedade européia. (com Agustín Thierry)

1816-17- A indústria ou discussões políticas, morais e filosóficas no interesse de todos os homens livres e trabalhadores úteis e independentes.

1819 – O organizador.

1821-23 – O sistema industrial

1822-24 – O catecismo dos industriais

1824 – O novo cristianismo.
3.2. Auguste Comte (1798-1857) e o positivismo
Desde cedo A.Comte procurou fazer uma reflexão sobre a sociedade de sua época. Toda a sua obra está permeada pelos acontecimentos que ocorreram na França pós-revolucionária; ele defende parte do espírito de 1789 e critica a restauração da monarquia, preocupando-se fundamentalmente em como organizar a nova sociedade que, no seu entender, estava em ebulição e em total caos. Para Comte, a desordem e a anarquia imperavam devido à confusão de princípios (metafísicos e teológicos) que não podiam mais se adequar à sociedade industrial em expansão. Era, portanto, necessário superar esse estado de coisas, usando a razão como fundamento da nova sociedade.

Auguste Comte, assim, propôs uma completa reforma da sociedade em que vivia, através de uma reforma intelectual plena do homem. Ao se modificar a forma de pensamento dos homens, através dos métodos das ciências de seu tempo, que ele chamou de “filosofia positiva”, conseqüentemente haveria uma reforma das instituições. Nesse ponto é que aparece a Sociologia, ou a “física social”, que, ao estudar a sociedade através da análise de seus processos e estruturas, proporia uma reforma prática das instituições.

A Sociologia representava, para Comte, o coroamento da evolução do conhecimento, usando os mesmos métodos de outras ciências, pois todas elas buscavam conhecer os fenômenos constantes e repetitivos da natureza. A Sociologia, como as ciências naturais, devia sempre procurar a reconciliação entre os aspectos estáticos e os dinâmicos do mundo natural ou, em termos da sociedade humana, entre a ordem e o progresso, de modo que este deveria estar subordinado àquela. A ciência deveria ser um instrumento para a análise da sociedade no sentido de torná-la melhor através do lema: Conhecer para prever, prever para prover, o que significava que o conhecimento deve existir para fazer previsões do acontecerá e também para dar a solução dos possíveis problemas que viessem existir.

Outro postulado comtiano era combinação da ordem com o progresso, pois acreditava que isso superaria tanto a teologia quanto a revolução, ou seja, propunha que o progresso deveria ser o alvo a se atingir, mas sempre sob o manto das ordem, para que não ocorressem distúrbios e abalos no sistema.

A influência de Comte no desenvolvimento da sociologia foi marcante, sobretudo na escola francesa, através de Émile Durkheim e de todos os seus contemporâneos e seguidores. Seu pensamento esteve presente em muitas das tentativas de se criarem determinadas tipologias para explicar a sociedade. Suas principais obras foram:
- Sistema de política positiva – 1824.

- Curso de filosofia positiva – 1830-1842.

- Discurso sobre o espírito positivo – 1844.

- Catecismo positivista – 1852.
3.3. Karl Marx (1818-1883) e a crítica à economia política.
Karl Marx nasceu em 5 de maio de 1818. Filho de uma família judaica, de uma linhagem de rabinos, rompida pelo seu pai que era advogado e havia abraçado a religião protestante. Marx estudou Direito mas pouco a pouco foi deslizando para a Filosofia onde defendeu em 1841 a tese de doutorado: A diferença da filosofia da natureza em Demócrito e Epicuro. Neste período universitário teve uma vida em que se misturam a boemia e a poesia, mas também o debate político principalmente aquele fundamentado no pensamento de G.W. Friedrich Hegel, que conhece neste período e não se separará mais, mesmo criticando-o. A partir de então sua vida é cheia de tribulações. Torna-se jornalista e escreve (depois torna-se editor-chefe) para um jornal crítico do poder prussiano, A Gazeta Renana. O jornal logo é fechado e ele se vê desempregado.

Em 1842 conhece em Colônia na Alemanha um jovem industrial, Friedrich Engels que se tornará seu parceiro intelectual e amigo nas horas de infortúnio durante toda a vida. Foi através dele que Marx passou a conhecer a situação econômica e social da Inglaterra através do livro de Engels: A situação da classe trabalhadora na Inglaterra. Saindo da Alemanha passa a viajar pela Europa. Na França fica de 1843 a 1845 onde escreve os famosos Manuscritos econômicos e filosóficos (só publicados em 1932), Entre 1845 e 1847 exila-se em Bruxelas-Bélgica, onde escreve em conjunto com F. Engels o livro A Ideologia Alemã e mais tarde o livro Miséria da Filosofia criticando P.J. Proudhon.

No bojo dos movimentos revolucionários de 1847 e 1848, Marx é expulso da Bélgica, volta à França, mas não pode ficar lá, retorna à Alemanha sempre pensando nas possibilidades de uma mudança estrutural em sua terra natal. Entretanto isso não acontece e emigra para a Inglaterra e se fixa em Londres, onde se ficará até o final de sua vida. Na Inglaterra, como exilado, desenvolveu suas pesquisas e seu maior trabalho. Há quem diga que sem Londres não haveria esta obra que revolucionou a maneira de pensar o sistema capitalista, pois foi nesta cidade que passava no Museu Britânico das 9 às 19 horas a maior parte de seus dias pesquisando, o que lhe permitiu escrever O Capital- Crítica da Economia Política, que só conseguiu publicar o primeiro volume. Os outros dois volumes foram publicados após a sua morte por F. Engels. Karl Marx faleceu em sua mesa de trabalho em 14 de março de 1883.

Para se entender a obra de Marx é necessário entender um pouco do que estava acontecendo em meados do século XIX. Com as transformações que estavam ocorrendo no mundo ocidental, mas principalmente nas esferas da produção industrial, houve um crescimento expressivo do número de trabalhadores industriais urbanos com as conseqüências inevitáveis: precariedade da vida nas cidades deste segmento da sociedade de então. Estas condições eram péssimas em todos os sentidos, desde as condições de trabalho no interior das fábricas, que empregavam homens, mulheres e crianças super-explorados, alimentação deficiente, insalubridade dos ambientes externos, até as condições de vida nas casas em que viviam. Esta situação gerou a organização dos trabalhadores em associações e sindicatos, e movimentos que visavam a transformação das condições da vida em que viviam. Essas mudanças exigiram o desenvolvimento de um pensamento explicativo das condições sociais, políticas e econômicas para se definirem as possibilidades de intervenção nessa realidade.

Muitos pensadores procuraram desde o início do século XIX discutir a sociedade que estava emergindo e demonstrando, desde uma perspectiva socialista as questões sociais envolvidas. Na Inglaterra podem ser citados entre outros: William Godwin (1756-1836), Thomas Spence (1750-1814), Thomas Paine (1737-1809), Robert Owen (1771-1858), Thomas Hodgkin (1787-1869). Na França, Etienne Cabet (1788-1856), Flora Tristan (1803-1844), Charles Fourier(1772-1837) Pierre Joseph Proudhon (1809-1865).

Levando em conta estes pensadores, debatendo com alguns que foram seus contemporâneos e até criticando-os, Marx incorporou também a tradição da economia clássica inglesa presente principalmente em Adam Smith e David Ricardo e a filosofia alemã de F. Hegel, sempre com um viés analítico e crítico.

Assim a tradição socialista nascida da luta dos trabalhadores, muitos anos antes e em situações diferentes, tem como expressão intelectual o pensamento de Karl Marx que, entre outros, procurou estudar criticamente a sociedade capitalista a partir de seus princípios constitutivos e em seu desenvolvimento, tendo como objetivo dotar a classe trabalhadora de uma análise política da sociedade de seu tempo.

Quanto à questão da ciência da sociedade, não há, para Marx, nenhuma preocupação em definir uma ciência específica para se estudar a sociedade (como a Sociologia, para A. Comte) e em situar o seu trabalho em algum campo científico particular. Talvez seja a ciência da história a que mais se aproxime das preocupações dele, não no sentido da história como uma ciência separada das outras ciências humanas, mas naquele que entende a História como a única ciência social, por abarcar as múltiplas dimensões da sociedade. Essa, para ele, deve ser analisada na sua totalidade, não havendo uma separação rígida entre os aspectos sociais, econômicos, políticos, ideológicos, religiosos, etc.

Para entender o fundamental do pensamento de Marx é necessário fazer a conexão entre os interesses da classe trabalhadora, suas aspirações e as idéias revolucionárias que estavam presentes no século XIX na Europa. Para ele, o conhecimento científico da realidade só tem sentido quando visa à transformação dessa mesma realidade. A separação entre teoria e prática não é colocada por ambos, pois a “verdade histórica” não é algo abstrato e que se define teoricamente; a sua verificação estaria na prática.

Marx escreveu muito e em várias ocasiões teve como seu companheiro F. Engels. Apesar de haver algumas diferenças em seus escritos, os elementos essenciais do pensamento destes autores podem ser situados, de um modo extremamente resumido, nas seguintes questões abaixo, deixando claro que posteriormente abordaremos estas e outras questões nos vários capítulos deste livro:




  • Historicidade das ações humanas – crítica ao idealismo alemão.

  • Divisão social do trabalho e o surgimento das classes sociais. A luta de classes.

  • O fetichismo da mercadoria e o processo de alienação.

  • Crítica à economia política e ao capitalismo.

  • Transformação social e revolução

  • Utopia – sociedade comunista.

A obra desses dois autores é muito vasta, mas podem ser destacados alguns livros e escritos:


F. Engels. A situação da classe trabalhadora na Inglaterra. 1845.

K. Marx. Manuscritos econômico-filosóficos. 1844.


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