História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar



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História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar

Texto 1


O Ovo da Gaivota

O gato grande, preto e gordo estava a apanhar sol na varanda, ronronando e meditando acerca de como se estava bem ali, recebendo os cálidos raios pela barriga acima, com as quatro patas muito encolhidas e o rabo estendido.

No preciso momento em que rodava preguiçosamente o corpo para que o sol lhe aquecesse o lombo, ouviu o zumbido provocado por um objecto voador que não foi capaz de identificar e que se aproximava a grande velocidade. Atento, deu um salto, pôs-se de pé nas quatro patas e mal conseguiu atirar-se para um lado para se esquivar à gaivota que caiu na varanda.

Era uma ave muito suja. Tinha todo o corpo impregnado de uma substância escura e malcheirosa.

Zorbas aproximou-se e a gaivota tentou pôr-se de pé arrastando as asas.

- Não foi uma aterragem muito elegante - miou.

- Desculpa. Não pude evitar - reconheceu a gaivota.

- Olha lá, tens um aspecto desgraçado. Que é isso que tens no corpo? E que mal que cheiras! - miou Zorbas.

- Fui apanhada por uma maré negra. A peste negra. A maldição dos mares. Vou morrer - grasnou a gaivota num queixume.

- Morrer? Não digas isso. Estás cansada e suja. Só isso. Porque é que não voas até ao jardim zoológico? Não é longe daqui e lá há veterinários que te poderão ajudar - miou Zorbas.

- Não posso. Foi o meu voo final - grasnou a gaivota numa voz quase inaudível, e fechou os olhos.

- Não morras! Descansa um bocado e verás que recuperas. Tens fome? Trago-te um pouco da minha comida, mas não morras - pediu Zorbas, aproximando-se da desfalecida gaivota.

Vencendo a repugnância, o gato lambeu-lhe a cabeça. Aquela substância que a cobria, além do mais, sabia horrivelmente. Ao passar-lhe a língua pelo pescoço notou que a respiração da ave se tornava cada vez mais fraca.

- Olha, amiga, quero ajudar-te mas não sei como. Procura descansar enquanto eu vou pedir conselho sobre o que se deve fazer com uma gaivota doente - miou Zorbas preparando-se para trepar ao telhado.

Zorbas pensou que a pobre gaivota estava a delirar e que com um pássaro em estado tão lastimoso ninguém podia deixar de ser generoso.

- Prometo-te o que quiseres. Mas agora descansa - miou ele compassivo.

- Não tenho tempo para descansar. Promete-me que não comes o ovo - grasnou ela abrindo os olhos.

- Prometo que não te como o ovo - repetiu Zorbas.

- Promete-me que cuidas dele até que nasça a gaivotinha.

- Prometo que cuido do ovo até nascer a gaivotinha.

- E promete-me que a ensinas a voar - grasnou ela fitando o gato nos olhos.

Então Zorbas achou que aquela infeliz gaivota não só estava a delirar, como estava completamente louca.

- Prometo ensiná-la a voar. E agora descansa, que vou em busca de auxílio - miou Zorbas trepando de um salto para o telhado.

Kengah olhou para o céu, agradeceu a todos os bons ventos que a haviam acompanhado e, justamente ao exalar o último suspiro, um ovito branco com pintinhas azuis rolou junto do seu corpo impregnado de petróleo.

Luis Sepúlveda, História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar,

tradução de Pedro Tamen, Edições Asa


Ia a afastar-se na direcção do castanheiro quando ouviu a gaivota a chamá-lo.

- Queres que te deixe um pouco da minha comida? - sugeriu ele algo aliviado.

- Vou pôr um ovo. Com as últimas forças que me restam vou pôr um ovo. Amigo gato, vê-se que és um animal bom e de nobres sentimentos. Por isso, vou pedir-te que me faças três promessas. Fazes? - grasnou ela, sacudindo desajeitadamente as patas numa tentativa falhada de se pôr de pé.”
1. O excerto aqui apresentado foi propositadamente retirado do texto «O ovo da gaivota».

De acordo com a ordenação dos acontecimentos no texto, onde o deverás inserir?


2. Depois de a leres na íntegra, apresenta a acção da narrativa.

3. Delimita os momentos da narrativa, indicando os que correspondem à situação inicial, às peripécias e ponto culminante, ao desenlace.

3.1 Redige uma frase que registe o essencial de cada um dos momentos que delimitaste.
4. O LIVRO DOS LIVROS

«O Ovo da Gaivota» é um excerto do romance de Luis Sepúlveda, História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar.



  • Depois de leres o texto, qual a primeira pergunta cuja resposta gostarias de conhecer?

  • O título do livro dá-te alguma sugestão?

  • Propomos-te a leitura desta obra que seduz o leitor de qualquer idade.

UM EXEMPLO PARA OS HOMENS?

Tenho um grande carinho pelos animais, mas não escrevi o livro (História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar) na perspectiva das sociedades protectoras dos animais. A fábula segue a velha escola grega: o seu objectivo é transmitir a prática da tolerância, o respeito pela diversidade. Sobretudo aprender a respeitar a diferença e aquilo que nos rodeia.

Luis Sepúlveda, in «Forum Ambiente»


“Plural, Lisboa Editora”
Texto 2

O primeiro voo

Deram uma volta e entraram por uma pequena porta lateral que o humano abriu com a ajuda de uma navalha. De um bolso tirou uma lanterna e, iluminados pelo seu delgado raio de luz, começaram a subir uma escada de caracol que parecia interminável.

- Tenho medo - grasnou Ditosa.

- Mas queres voar, não queres? - miou Zorbas.

Do campanário de São Miguel via-se toda a cidade. A chuva envolvia a torre da televisão e, no porto, as gruas pareciam animais em repouso.

- Olha, ali vê-se o bazar do Harry. Estão ali os nossos amigos - miou Zorbas.

- Tenho medo! Mamã! - grasnou Ditosa.

Zorbas saltou para o varandim que protegia o campanário. Lá em baixo os automóveis moviam-se como insectos de olhos brilhantes. O humano pegou na gaivota nas mãos.

- Não! Tenho medo! Zorbas! Zorbas! - grasnou ela dando bicadas nas mãos do humano.

- Espera! Deixa-a no varandim - miou Zorbas.

- Não estava a pensar atirá-la - disse o humano.

- Vais voar, Ditosa. Respira. Sente a chuva. É água. Na tua vida terás muitos motivos para ser feliz, um deles chama-se água, outro chama-se vento, outro chama-se sol e chega sempre como recompensa depois da chuva. Sente a chuva. Abre as asas - miou Zorbas.

A gaivota estendeu as asas. Os projectores banhavam-na de luz e a chuva salpicava-lhe as penas de pérolas. O humano e o gato viram-na erguer a cabeça de olhos fechados.

- A chuva, a água. Gosto! - grasnou.

- Vais voar - miou Zorbas.

- Gosto de ti. És um gato muito bom - grasnou ela aproximando-se da beira do varandim.

- Vais voar. Todo o céu será teu - miou Zorbas.

- Nunca te esquecerei. Nem aos outros gatos - grasnou já com metade das patas de fora do varandim, porque, como diziam os versos de Atxaga, o seu pequeno coração era o dos equilibristas.

- Voa! - miou Zorbas estendendo uma pata e tocando-lhe ao de leve.

Ditosa desapareceu da sua vista, e o humano e o gato temeram o pior. Caíra como uma pedra. Com a respiração em suspenso assomaram as cabeças por cima do varandim, e viram-na, então, batendo as asas, sobrevoando o parque de estacionamento, e depois seguiram-lhe o voo até às alturas, até mais para além do cata-vento de ouro que coroava a singular beleza de São Miguel.

Ditosa voava solitária na noite de Hamburgo. Afastava-se batendo as asas energicamente até se elevar sobre as gruas do porto, sobre os mastros dos barcos, e depois regressava planando, rodando uma e outra vez em torno do campanário da igreja.

- Estou a voar! Zorbas! Sei voar! - grasnava ela, eufórica, lá da vastidão do céu cinzento.

O humano acariciou o lombo do gato.

- Bem, gato, conseguimos - disse ele suspirando.

- Sim, à beira do vazio compreendeu o mais importante - miou Zorbas.

- Ah, sim? E o que é que ela compreendeu? - perguntou o humano.

- Que só voa quem se atreve a fazê-lo - miou Zorbas.

- Suponho que agora te estorva a minha companhia. Espero-te lá em baixo - despediu-se o humano.

Zorbas permaneceu ali a contemplá-la, até que não soube se foram as gotas de chuva ou as lágrimas que lhe embaciaram os olhos amarelos de gato grande, preto e gordo, de gato bom, de gato nobre, de gato de porto.

Luis Sepúlveda, História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar

Edições ASA

1 Identifica o espaço geográfico e o espaço físico em que se encontram as personagens.

2 Que motivo levou as personagens a deslocarem-se até esse espaço?

3 Que sentimentos dominam a gaivota nesse momento?

4 Que função assume o gato Zorbas relativamente à gaivota?

5 A intervenção do gato terá surtido efeito? Justifica.

6 Explica os sentimentos de cada uma das personagens, depois de alcançado o objectivo que pretendiam.

7 "Do campanário de S. Miguel via-se toda cidade."

7.1 Identifica os elementos do espaço visíveis a partir desse ponto de observação.

7.2 Mostra que esse ponto de observação transfigura a realidade observada, transcrevendo e comentando as comparações mais significativas.

7.3 Quais as sensações que predominam na observação do espaço? Exemplifica com expressões do texto.



Manual “Confluência”, Edições ASA


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