História do Brasil (1932) I – o movimento Literário e a Antropofagia



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História do Brasil (1932)

I – O Movimento Literário e a Antropofagia

  • Obra que ainda está fortemente ligada às idéias modernistas da primeira fase, que é chamada de Fase de Busca: relação de igualdade real da cultura brasileira com as demais.

  • Aproveitar o que há de bom na arte estrangeira.

  • Devorar o que mereça ser digerido culturalmente.

  • Antropofagia seria “a única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz.”

  • Tupi or not Tupi That is the question.

  • Contra todas as catequeses.(...)

  • Foi porque nunca tivemos gramáticas, nem coleções de velhos vegetais. E nunca soubemos o que era urbano, suburbano, fronteiriço e continental. Preguiçosos no mapa-múndi do Brasil.

  • Contra todos os importadores de consciência enlatada.(...)

  • Nunca fomos catequisados. Fizemos foi Carnaval. O índio vestido de senador do Império. Fingindo de Pitt. Ou figurando nas óperas de Alencar cheio de bons sentimentos portugueses.

  • Antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade.

  • Contra o índio de tocheiro. O índio filho de Maria, afilhado de Catarina de Médicis e genro de D. Antônio de Mariz.”


II – O Autor e a obra

  • Obra que revela o débito do autor para com o modernismo humorístico, irreverente e iconoclasta da fase heróica.

  • Espírito de demolição contra a colonização física e cultural do país.

  • Obra que revela um posicionamento ao mesmo tempo satírico e laudatório dos fatos do Brasil, com o estilo intencionalmente chocante de uma linguagem coloquial e que não dispensa a retórica ufanista.

  • São os poemas-piadas e poemas-minuto, criados anos antes por Mário e Oswald de Andrade, pequenos versos que se constituem em um lema nacional, como em Homo brasiliensis: "O homem/ É o único animal que joga no bicho."

  • A História do Brasil trata de um espaço de subversão, de transgressão, de uma face brasileira típica de sua picardia

  • A crítica literária acredita que o poeta contribuiu para a estética da malandragem brasileira.

  • A obra é composta por sessenta poemas, com aspecto formal variado: versos livres, redondilhas, alexandrinos, etc.

III – Análise de Poemas

Prefácio de Pinzón


“Quem descobriu a fazenda,

Por San Tiago, fomos nós.

Não pensem que sou garganta.

Se quiserem calo a boca,

Mando o Amazonas falar.

Mas como sempre acontece

Nós tomamos na cabeça,

Pois não tínhamos jornal.

A colônia portuguesa

Mandou para o jornalista

Um saquinho de cruzados.

Ele botou no jornal

Que o Arquimedes da terra

Foi um grande português.”



  • Alusão à antiga discussão sobre se o Brasil foi descoberto por Cabral ou por Vicente Yáñez Pinzón

  • Arquimedes: “Heureca! Heureca!” – sinônimo de descoberta



O Farrista


“Quando o almirante Cabral

Pôs as patas no Brasil

O anjo da guarda dos índios

Estava passeando em Paris.

Quando ele voltou da viagem

O holandês já está aqui.

O anjo respira alegre:

“Não faz mal, isto é boa gente,

Vou arejar outra vez.”

O anjo transpôs a barra,

Diz adeus a pernambuco,

Faz barulho, vuco vuco,

Tal e qual o zepelim

Mas deu um vento no anjo,

Ele perdeu a memória...

E não voltou nunca mais.”



  • Atribuição de um anjo da guarda aos índios, porém farrista.

  • Zepelim–dirigível alemão com carcaça metálica, criado em 1900.



Carta de Pero Vaz de Caminha

“A terra é mui graciosa, // Tão fértil eu nunca vi.

A gente vai passear, // No chão espeta um caniço,

No dia seguinte nasce // Bengala de castão de oiro.

Tem goiabas, melancias.

Banana que nem chuchu.

Quanto aos bichos, tem-nos muitos.

De plumagens mui vistosas.

Tem macaco até demais.

Diamantes tem à vontade,

Esmeralda é para os trouxas.

Reforçai, Senhor, a arca.

Cruzados não faltarão,

Vossa perna encanareis,

Salvo o devido respeito.

Ficarei muito saudoso

Se for embora d´aqui.”


  • Alusão à carta em que o Brasil aparece como o Éden.

  • Crítica à exploração da natureza e à ganância do português.



Pena de Anchieta


“O padre era mesmo bom, // Não era padre, era santo.

Mandava na tempestade; // Um morto ressuscitou,

Um dia, pra batizar. // O índio levanta as armas

Para matar um cristão. // O padre está longe dele,

O vento vem lhe avisar, // O padre se concentrou,

Pensa com força no índio, // As armas dele caíram.##

O padre era mesmo bom, // Deu a mão a muita gente,

Deu a luz a muita gente, // Muitos colégios fundou.

Escreveu poema na areia, // Não ligou para os leitores;

Só a Virgem pôde ler.##


Tenho uma pena bem grande // De saber que ele ensinou


Somente aos índios espertos; // Que não estendeu o ensino

À colônia portuguesa.##

Fizeram mal de botar // Este padre tão notável

Servindo de manequim // Na estátua positivista!”



  • Alusão ao monumento do Marechal Floriano Peixoto localizada na Cinelândia.(Os escravos,I-Juca Pirama,Caramuru e Anchieta)

  • Crítica à cristianização da cultura indígena.



Cantiga dos Palmares


“Seu branco, dê o fora, // deixe o nego em páis.

Nóis tem cachacinha, // Tem coco de sobra,

Nóis tem iáiá preta, // Nóis dança de noite;

Nóis reza com fé. // Seu Branco é demais.

Praquê que vancêis // Foi rúim pros escravo,

Jogou no porão // Pra gente morre // Com falta de ar?##

Seu branco dê o fora, // Sinão toma pau

Aqui no quilombo // Quem manda primeiro

Deus nosso sinhô, // Depois é São Cosme

Mais São Damião, // A Virge Maria,

Depois semo nóis. // Ezerço de branco

Não vale um real, // Zumbi aparece,

Mostrou o penacho, // Vai branco sumiu

Crúiz credo no inferno. // Seu branco, dê o fora, // Não volte mais não.”



  • Uso da língua coloquial utilizada pelo negro.

  • Visão do negro sobre a sua realidade.



O Alferes na cadeira


“Antes eu fosse Dirceu, // Vivesse aos pés da mulata

Desfiando o lundu do amor, // Fazendo crochet de noite,

Do que estar como estou: // Os dentes me arrancaram,

Incendeiam meu chalet; // Não pude livrar ninguém

Da escravidão atual; // Arranjei foi mais um escravo,

Eu mesmo, entrei na cadeia; // Tirei retrato de herói,

Mostrei a mestre Silvério // Os planos dessa revolta;

Pareço com aviador // Que faz viagem no pólo.

Queria mesmo morrer; // Sentei na cadeira elétrica,

Morro, inda mesmo que tarde // A morte que sempre sonhei,

Não essa morte vulgar, // Apagada, clandestina:

Eu quero morrer de herói, // Eu amo a posteridade;

Comecei me lamentando // De não ser como Dirceu,

Mas é só pra tapear; // Acabei me convencendo

Que não há nada melhor // Do que a gente ser herói;

Eu amo a posteridade, // Quero nome no jornal,

Estátua na praça pública, // Vejam a minha vocação!...

Vamos, apertem o botão.”



  • Irônica visão da Inconfidência Mineira, em que protagonizam Tiradentes e Tomás Antônio Gonzaga.



O Brasileiro D.Pedro II ou no Brasil não há pressa


“Uma vasta sonolência // Invade toda a fazenda.

Sucedem-se os ministérios, // As guerrilhas se sucedem

Pro povo se divertir. // A Corte faz pic-nics,

Ou organiza quadrilhas // Nos bailaricos reais.

à Inglaterra intervém // No mercado das finanças,

Todos acham muito bom. // Houve entrudos famosíssimos...

O imperador, de pijama, // Lê o Larousse na rede.

O fato é que com essa calma // Cinqüenta anos se agüentou.”



  • Retrato-relâmpago do reinado de Pedro II(1825-1891)

  • Poema-piada,em que fica claro o gosto do imperador pelas letras

  • Internamente em paz, o país enfrentava a Guerra do Paraguai.



Marcha em retirada


“Os homens caminham no escuro do mato,

Os homens caminham debaixo do fogo,

Ninguém sabe ao certo de onde ele vem.

Nem ao menos conhecem otrilho do mato;

Facão vai cortando os cipós, samambaias,

Os homens não enxergam no escuro do mato,

Mas o fogo enxerga, os homens persegue. //

Mergulham, coitados, nos pântanos largos,

Comendo ervas podres, já nus, sem ação.(...)

O cólera-morbus é amigo de López.

Enquanto ele ataca, o amigo descansa,

- O cólera-morbus piedade não tem -,(...)

Depois a coluna pra casa voltou.”


  • Poema em dodecassílabos sobre a Retirada da Laguna

  • Dramático episódio da Guerra do Paraguai, ocorrido em 1867



Teorema das Compensações


“O bicheiro é vereador. // Depende do presidente

Da Câmara Municipal. // O presidente é meio pobre,

Arrisca sempre na sorte, // Ai! Depende do bicheiro.

O bicheiro ganha sempre // Na eleição pra vereador.

E “seu” presidente acerta // Muitas vezes na centena.”


  • As relações perigosas e corruptas entre o Jogo do Bicho e a política nacional.

Marcha final do Guarani


“Ninguém mais vive quieto na terra.// Outros deuses povoam o país”.

Ando agora vestido de fraque, // Pus no prego a gentil açoiaba. ##

O tacape enferruja num canto, // A bengala não largo da mão.

Sons agudos de inúbia não ouço, // Na vitrola só tangos escuto. ##

Já não tarda o final dessa raça. // Manitôs abandonam as tabas.

Meus irmãos, azulemos pra Europa: // O inimigo já chega bufando,

Na maloca já fogo tocaram... // Ó desgraça! Ó ruína! Ó Rondon!”


  • Alusão à música de Carlos Gomes, compositor campineiro.

  • Alusão ao marechal Rondon, grande defensor dos índios.

  • Intertextualidade com famoso poema de Gonçalves Dias: “O canto do Piaga”



Linhas paralelas


“Um presidente resolve // Construir uma boa escola

Numa vila bem distante, // Mas ninguém vai nessa escola:

Não tem estrada pra lá. // Depois ele resolveu

Construir uma estrada boa // Numa outra vila do estado.

Ninguém se muda pra lá // Porque lá não tem escola”


  • Ironia a problemas bastante comuns no país: educação e estradas, resultado de más administrações.


Fuga

“Lampião fugiu, Lampião. // Quem é que prende Lampião?


Aviador tem dinamite // Não liquida lampião.

Nem polícia nem marinha, // nem os “secretas” de Deus,

Ninguém segura Lampião. // quem te viu e quem te vê?

Lampião corre que corre, // lampião nunca que morre


-Nem ao menos no jornal.- // lampião rouba tesouros

Oferece aos jejuadores // Lá na ponta do sertão. ##


Lampião faz aliança // Com bispos e generais.

Lampião pega toda virgem // E solta as velhas que vê.

Lampião clareou, sumiu, // Relampejou, estourou,

Lampião virou é cometa, // Só volta daqui três anos

Com o rabo do seu cavalo // Zunindo que nem o vento.

Eu sei, Lampião não é home, // nem demônio, lobisome,

Nem mesmo ele é Lampião, // Corre, gira, salta, pula,

Lampião é isto, é pião.”



  • Alusão a Virgolino Ferreira, o Lampião.

  • No ritmo heptassílabo, o autor busca imitar os movimentos da fuga do herói.

  • Forte relação com a literatura de cordel.

IV – Conclusão


  • A obra é um enorme passeio pela História do Brasil, fato que requer conhecimento prévio da mesma, o que facilitará seu entendimento e maior aproveitamento.

  • Como é possível perceber, a história vai sendo lida a partir da literatura, com a possibilidade de uma liberdade maior no trato com questões esquecidas pela história tradicional.

  • O escritor assume a tarefa do cronista e, além de trabalhar com a informação, trabalha com a possibilidade de reconstruir o imaginário.

  • A vantagem deste tipo de discurso é exatamente a possibilidade de desestabilizar a história oficial, seja através da utilização do ponto de vista descentralizado, seja através da apresentação de questões não abordadas por aquele tipo de história.

  • Em História do Brasil e Desmundo, por exemplo, são apreensíveis as relações intertextuais com o discurso histórico, do início ao fim da obra.

  • No caso do livro em análise, todos os poemas são questionadores da verdade histórica, buscando o tempo todo a desmistificação dos fatos.

  • O livro aborda fatos históricos desde a colonização, passando pela Independência, além do Dia do Fico, Proclamação da República, Guerra de Canudos, Revolta da Chibata, Coluna Prestes, Governo Getúlio, Jeca Tatu, até a observação irônica sobre o Carnaval.

  • O último poema “O Avô Princês” é um apólogo-parábola, que apresenta como herói coletivo do presente e do futuro a típica família de um Brasil “país do carnaval”.

  • Em três dias de loucura, este núcleo familiar esquece as tristezas de um ano de pobreza e de constrangimento.

  • O autor com esse final deixa clara sua intenção de satirizar a alienação do homem brasileiro, incapaz, muitas vezes, de escrever sua própria história.


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