História do brasil: Império Introdução



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HISTÓRIA DO BRASIL: Império

Introdução


Este livro propõe releituras de artigos sobre os temas alfabetização e letramento publicados ao longo de um período de 13 anos — de 1985 a 1998. Com o neologismo releituras, pretende-se sugerir não leituras repetidas desses artigos já anteriormente publicados, mas leituras renovadas — renovadas para a autora que os escreveu, e agora os relê, e também renovadas, espera-se, para os leitores que agora os lêem, ou relêem. Autora e leitores revisitando, com os olhos do presente, textos publicados em anos anteriores. Mas por que esses artigos podem pretender leituras renovadas e não repetidas? Artigos são, em princípio, efêmeros; a própria denominação do suporte em que são publicados — periódicos — expressa bem a natureza efêmera do gênero: periódicos aparecem em intervalos, cada número é atual apenas por um período; conseqüentemente, os textos de que se constituem raramente pretendem uma atualidade para muito além do intervalo.

Quando se escreve um artigo, a interlocução é fundamentalmente com aqueles que compartilham o período — o intervalo, o momento; em um artigo, geralmente não se espera ultrapassar o presente e atingir o futuro, o objetivo é divulgar com agilidade e rapidez pesquisas recém-concluídas ou ainda em desenvolvimento, socializar reflexões sobre problemas em evidência, em debate, em demanda de solução. O livro, ao contrário, é um portador de gêneros textuais mais duradouros, arquivo e memória de um conhecimento que já adquiriu alguma permanência, no qual se pode supor uma sobrevivência para além do momento da produção e da imediata divulgação. Em outras palavras, artigos são, fundamentalmente, da categoria do estar; livros são, fundamentalmente, da categoria do ser.

Por que, então, reunir artigos, esses textos de um gênero em princípio efêmero, sob a forma duradoura de um livro? A hipótese que justifica essa pretensão é que a efemeridade de um artigo não é inerente a ele, é a posteriori que ela se afirma ou se nega: o transcorrer do tempo é que definirá se um artigo foi efêmero ou se sobreviveu aos intervalos e permaneceu atual. Como foi dito no parágrafo anterior, quando se escreve e se publica um artigo pretende-se estar apresentando e submetendo à reflexão temas, problemas do presente, do momento; entretanto, o futuro pode mostrar que o momento se prolonga; temas, problemas perduram, e o que se julgava efêmero, transitório, passageiro, revela-se duradouro, persiste para além do intervalo e, portanto, continua atual. Revelam essa persistência e atualidade alguns indicadores: o tema do artigo continua presente nos periódicos, assim como em congressos, seminários, conferências; o problema discutido no artigo persiste, mantém-se tema de debates, polêmicas, controvérsias; o artigo é com certa freqüência citado e referenciado; é comum a busca pelo artigo em bibliotecas e é corrente a sua circulação em fotocópias.

Reunir em um livro artigos que adquirem essas características torna-se conveniente e até necessário: socializam-se de forma mais ampla reflexões sobre temas ainda pertinentes, facilita-se o acesso a textos dispersos ao longo do tempo em vários periódicos, submete-se novamente à crítica idéias e propostas que parecem ainda merecedoras de debates e confrontos.  Do que se diz neste parágrafo infere-se a resposta à pergunta com que ele se inicia, inferem-se as razões e os objetivos desta coletânea e os critérios que orientaram a seleção dos artigos que a compõem.

Estes artigos, como já foi mencionado anteriormente, foram publicados em periódicos ao longo dos 13 anos transcorridos de 1985 a 1998. Por que não foram incluídos artigos publicados nos últimos cinco anos, textos que talvez complementariam ou refinariam as reflexões feitas naqueles que aqui foram incluídos? Também do que acima foi dito inferem-se as razões: são artigos cuja efemeridade ou permanência ainda não podem ser avaliados, textos que ainda não têm o benefício da decantação que se vai produzindo ao longo do tempo e que, portanto, ainda devem permanecer em estado de artigos, até que se possa decidir se merecem, ou não, ser alçados ao estado de livro.

Como os artigos selecionados para compor esta coletânea foram publicados em vários e diversos periódicos, orientados por objetivos específicos e direcionados a diferentes leitores, o estilo e a configuração textuais não são homogêneos: há textos tipicamente acadêmicos, com significativo número de referências bibliográficas, citações, notas de rodapé, e há, no extremo oposto, textos que, por terem sido produzidos para situações de interação oral (palestras, mesas-redondas), trazem, em seu estilo e configuração, a marca dessa interação. Sendo assim, para esclarecer o leitor e orientar a leitura, as condições de produção de cada texto — contexto e situação em que foi produzido, objetivos que tentou atingir, interlocutores a que se dirigiu — são esclarecidas em uma nota que o precede e introduz.

A despeito, porém, dessas diferenças de estilo e configuração textuais, unificam os textos não só o tema central para o qual todos se voltam — alfabetização e letramento —, mas também algumas idéias nucleares sobre esse tema, idéias que aparecem e reaparecem ao longo dos textos, às vezes repetindo-se, é preciso reconhecer, mas a cada vez apresentadas sob perspectivas diferentes e em contextos específicos. Optou-se por estruturar a apresentação dos textos tomando por critério o agrupamento dessas idéias nucleares em três principais subtemas, que direcionam as três partes que constituem a coletânea:

 

• A primeira parte é composta de textos que pretendem basicamente apresentar e discutir concepções de alfabetização e letramento;



• A segunda parte reúne textos voltados para uma reflexão sobre práticas escolares de alfabetização e letramento;

• A terceira parte pretende articular e integrar as duas partes anteriores, com o objetivo de evitar o risco de que a distinção entre concepções e práticas, feita exclusivamente para fins de organização estrutural da coletânea, leve à falsa inferência de que é possível separar o inseparável, isto é, que concepções de alfabetização, letramento e práticas de alfabetização e letramento possam ser consideradas como autônomas e independentes.

 

Apesar de o critério para a seleção dos artigos desta coletânea ter sido, como já dito anteriormente, a constatação de sua não efemeridade, pela persistência das questões para as quais se voltam e, conseqüentemente, pela pertinência que ainda têm as reflexões que apresentam, um paratexto foi construído ao lado de cada texto — comentários que acompanham o texto e que revelam a releitura que a autora faz dele hoje e que propõe ao leitor:



 

• Uma nota introdutória, já anteriormente mencionada, informa quando e onde foi publicado originalmente o texto, esclarece suas condições de produção, aponta suas relações com outros textos da coletânea, sugerindo ao leitor uma leitura intertextual;

• Pequenos textos, como links ou janelas de um hipertexto, são introduzidos em quadros à margem, acrescentando comentários da autora, contextualizando ou esclarecendo menções a fatos, conceitos ou pessoas, indicando referências bibliográficas posteriores à produção do texto, explicitando a atualidade de problemas e situações — em síntese, uma releitura que a própria autora faz de seu texto e propõe ao leitor que agora o lê ou relê.

 

Releituras — o neologismo expressa bem o que se pretende com esta coletânea. Mas releituras não estão apenas nestas páginas impressas que sugerem leituras renovadas daquelas que, no passado, apresentaram, originalmente, estes textos; releituras estão também na própria origem desses textos do passado e também desta nova publicação: até chegar ao estado de página impressa, quantas releituras das idéias e reflexões, estimuladas por inúmeras situações de troca com alunos e colegas, com professores do ensino básico, com alfabetizadoras! Aulas, discussões, seminários, participação em pesquisas, primeiras versões submetidas a reformulações sugeridas por interlocutores atentos...



Se o trabalho de escritura é feito no isolamento e no silêncio, e recebe a marca da autoria, o processo de gestação das idéias, de sua progressiva configuração e refinamento se faz na coletividade e no soar das vozes: é uma construção conjunta pela vivência na atividade docente, nos grupos de pesquisa, nos auditórios e nos corredores de congressos e seminários, construção em que se deveria reconhecer uma co-autoria que, no entanto, se perde, porque é realizada na interação oral, na qual as autorias se apagam — o conceito de autoria é inerente à escrita. Mas pelo menos isso se pode e se deve fazer: reconhecer que muitas vozes estão presentes na voz que fala nesta coletânea, e agradecer a parceria, enriquecedoramente feita de concordâncias e discordâncias, de aprovações e de censuras. Sem poder nomear essas vozes, numerosas que são, faço-as representadas nas vozes daqueles com quem tenho tido o privilégio de mais estreitamente conviver: meus companheiros do CEALE — Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita da Faculdade de Educação da UFMG, interlocutores sempre presentes e disponíveis, sempre atentos, sempre críticos e sempre amigos.


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