História do ensino superior no município de concórdia: o processo de criaçÃo da unC (1980 – 1990) Tiago Pansera Marcos Antônio Mior universidade do contestado – UnC



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HISTÓRIA DO ENSINO SUPERIOR NO MUNICÍPIO DE CONCÓRDIA: O PROCESSO DE CRIAÇÃO DA UnC (1980 – 1990)
Tiago Pansera

Marcos Antônio Mior

UNIVERSIDADE DO CONTESTADO – UnC

A partir da década de 1980, o município de Concórdia/SC havia adquirido projeção nacional, devido, principalmente, a três fatores:

- Era a maior e mais importante cidade da microrregião do Alto Uruguai Catarinense, a qual se caracterizava pela unidade cultural e predominância da agricultura como atividade econômica;

- Encaixava-se na política econômica federal, por apresentar potencial industrial para criação de aves e suínos destinados à exportação, além de mão-de-obra farta barata e disposta a vender sua força de trabalho por baixos salários;

- A iniciativa privada, em franco desenvolvimento, necessitava de apoio político e econômico do governo federal.

Nesse período o Brasil vivenciava a disseminação das instituições de ensino superior como forma de resolver todos os problemas socioeconômicos. No estado de Santa Catarina a criação das instituições fundacionais municipais comunitárias caracterizou bem essa nova política de massificação do ensino sem investimentos estatais.

No ano de 1974 foi criada a Associação Catarinense das Fundações Educacionais – ACAFE, com o objetivo de normatizar e organizar a expansão do ensino superior no estado.

Em 1976 foi criada a Fundação Educacional do Alto Uruguai Catarinense - FEAUC, através da lei municipal 1.392/76. O ato foi apoiado por autoridades locais e empresários, como Attílio Fontana, fundador do frigorífico Sadia S.A..

Nos primeiros anos de funcionamento a instituição trabalhou intensivamente no campo burocrático, adaptando-se às exigências governamentais, constituindo seu patrimônio e ambiente de trabalho, e ajustando seu “relacionamento” com o poder público e privado.




Figura 1: Fila para inscrição do concurso vestibular na FEAUC

No início dos anos 1980 as prefeituras de Concórdia, Ipira, Ipumirim, Piratuba, e a Amauc, emitiram Declarações de Utilidade Pública para a FEAUC. Objetivavam, em última instância, contribuir para a instituição obter certificado de fins filantrópicos, isentando-a do pagamento de determinados impostos, e incluindo-a em programas sociais governamentais.

Nesse período, os municípios de Caçador, Concórdia, Joaçaba e Videira formaram a Federação das Faculdades do Médio Oeste Catarinense - FEMOC

Em 1981 o curso de Ciências Contábeis iniciou suas atividades com o objetivo de suprir a demanda do mercado de trabalho local, e substituir a mão-de-obra defasada dos técnicos em contabilidade formados no ensino médio.

O Processo 476/79 do Conselho Estadual de Educação – CEE deixa explícita essa necessidade burguesa-liberal: “[...] as organizações Sadia promovem a abertura de um mercado de trabalho bastante significativo e promissor para os jovens que egressarem do curso”. (PROCESSO 476/79 - CEE, 1979, P.02).

Porém, com apenas dois anos o curso foi alvo de críticas pela comunidade acadêmica, juntamente coma própria instituição. Foram questionados os reajustes aplicados às mensalidades, a omissão e distância da direção da FEAUC e do DEAC em relação aos estudantes, e a qualificação de alguns docentes.

O DAEC (Diretório Acadêmico Estudantil de Concórdia) também foi alvo de críticas por não se mostrar combativo face à causa estudantil. Nas palavras de uma aluna, “você não tem exatamente a quem recorrer”. (O JORNAL, Ed. 275, p. 7, 26/03/1983)

Também foi reconhecido pelo Conselho Federal de Educação (CFE) o curso de enfermagem, após três anos de funcionamento. Conforme o Parecer 846/81 do Ministério da Educação e Cultura, as condições físicas da instituição estavam adequadas às exigências.

Entretanto, quanto ao corpo docente, o mesmo “[...] pedia algumas informações e substituições de professores, não julgados em condições de atender a lei e as necessidades de ensino. Havia professores indicados que não satisfaziam por deficiência de titulação ou por excessivos encargos em disciplinas”. (PARECER 846/81 – MEC - CEE, 1981, P.01).

Ainda em 1981 os alunos da turma de Ciências – Habilitação em Biologia realizaram uma viagem de estudos ao Estreito do Rio Uruguai, atualmente submerso no lago da usina hidrelétrica de Ita – SC. Estavam presentes dois professores da Universidade do Vale dos Sinos – UNISINOS. Foi o primeiro estudo científico sobre a região, realizado pela FEAUC.

No mesmo ano foi iniciado um debate sobre a possível instalação de um curso de educação física na FEAUC, visto que no oeste de Santa Catarina o mesmo não era oferecido. “Na região de abrangência de Joaçaba, 57% dos professores não eram habilitados [...]”. (O JORNAL, Ed. 193, p.03, 15/08/1981).

A partir de 1982 a direção da FEAUC solicitou para uso dos acadêmicos: as piscinas da ABC Piscina Clube; a biblioteca da Associação dos Professores de Educação Física do Oeste; e o Estádio Municipal Domingos Machado de Lima à Prefeitura Municipal de Concórdia. Havia uma sincronia entre os diretores da Fundação, os professores da região e o poder público, no sentido de viabilizar o curso no município.

Conforme O Jornal (Ed. 238, 10/07/1982, p.06) a saída encontrada foi instituir uma extensão da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), visto que o Ministério da Educação e Cultura (MEC) havia proibido a criação de novos cursos de ensino superior.

Por outro lado, a Fundação enfrentava dificuldades financeiras e de infra-estrutura, levando o Diretório Acadêmico Estudantil de Concórdia (DAEC) a elaborar um manifesto reivindicando melhorias nas instalações e nos equipamentos.

“Há problemas no telhado do prédio, carteiras estragadas e microscópios em precárias condições de uso”. (O JORNAL, p. 12, 12/11/1983). Também foram solicitados a agilização da escolha do novo campus e a pavimentação da rua em frente ao prédio da Faculdade.

Ainda conforme a edição 241 de O Jornal (p.06, 29/07/1982), com exceção de Concórdia, os municípios da região não estavam repassando o valor que lhes era incumbido.

Havia, também, altos índices de desistência no curso de Ciências – Habilitação em Biologia, pois a região oferecia poucas oportunidades de emprego nesta área, e os atrativos financeiros pouco interessantes.

Seguem abaixo três demonstrativos da quantidade de vagas oferecidas, e motivos das desistências dos alunos, retirado de um relatório do Conselho Estadual de Educação, de 26/03/1984.




Figura 2: Demonstrativo das causas de evasão dos acadêmicos da FEAUC



Figura 3: Demonstrativo das causas de evasão dos acadêmicos da FEAUC



Figura 4: Demonstrativo das causas de evasão dos acadêmicos da FEAUC


O corpo administrativo da faculdade em exercício no ano de 1981 é quase unânime em afirmar que as desistências de Ciências – Habilitação em Biologia eram motivadas pelo “desencontro vocacional”. Ou seja, nos primeiros anos os acadêmicos não encontravam o que desejavam, mas não havia outra opção, além de Enfermagem. (CAUSAS DAS DESISTÊNCIAS DOS UNIVERSITÁRIOS DA FEAUC NO PERÍODO DE 1978 A 1980, p. 20, 1981).

É importante destacar a iniciativa de lutar por uma universidade federal na região, através de projeto de lei do deputado João V. Paganella. Ele propõe a criação da Universidade Federal do Oeste Catarinense, a qual incorporaria a Fundação Educacional do Oeste (FUNDESTE), de Chapecó, SC.

O projeto previa o remanejamento dos cursos de agronomia, nutrição, tecnologia em alimentos e veterinária, da UFSC para a nova universidade, pois seriam compatíveis com a economia da região. Mais de 100 municípios, entre o sul e sudeste do Paraná, norte do Rio Grande do Sul, e planalto e oeste de Santa Catarina, seriam beneficiados.

Além disso, o deputado considera a existência de apenas uma instituição federal no estado como discriminação, visto que no território sul-rio-grandense existiam três.

Ainda em 1982 as fundações educacionais dos municípios de Caçador (FEARPE), Concórdia (FEAUC), Joaçaba (FUOC) e Videira (FEMARP) se uniram em uma associação denominada Federação das Fundações Educacionais do Meio-Oeste Catarinense – FEMOC.

Essa união, entretanto, não era unânime entre as direções das fundações, e os alunos. Era considerada autoritária, e marcada pela exclusão da comunidade e dos acadêmicos, na elaboração da nova política de ensino superior.

Seu principal objetivo era integrar os respectivos Centros de Ensino, no que diz respeito às políticas acadêmicas. Em contrapartida, cada campus matinha autonomia em relação à administração das finanças, de meios e materiais, e à didática escolhida, conforme com seus respectivos estatutos.

A hierarquia gerencial da FEMOC era composta pelo Conselho Curador, Conselho de Administração Superior (integrado por todos os diretores das faculdades), e pela Diretoria Geral. Em seguida havia os Conselhos Pedagógicos de cada fundação, e suas respectivas Diretorias.

Conforme podemos verificar, foi criada uma grande estrutura, contendo serviços de apoio aos estudantes, políticas de pesquisa, pós-graduação e extensão, Colégio de Aplicação, entre outros. Em síntese, traços organizativos semelhantes à futura Universidade do Contestado.

Em 1983 a direção da FEAUC manteve contato com o governo estadual, com objetivo de viabilizar o novo campus, na época uma necessidade. Num primeiro momento foi proposta a utilização de parte do terreno da Escola Básica João Batista de La Salle, localizado no bairro Itaíba.

Em troca, a Fundação cederia parte do espaço físico construído. É importante ressaltar que o contrato de comodato para utilização das instalações do Colégio São José, firmado com a Secretaria de Educação de Santa Catarina, estava próximo do vencimento.

No ano de 1985 a Faculdade recebeu o certificado de fins filantrópicos, expedido pelo governo federal. Além de influenciar no abatimento de impostos, e favorecimento em políticas públicas, o status filantrópico confere à instituição um elevado grau de importância no âmbito da sociedade.

Posteriormente, com o objetivo de oferecer o curso de Pedagogia no município de Concórdia, a FEAUC firmou convênio com a Fundação Educacional do Oeste Catarinense – FUOC, de Joaçaba. Seriam utilizadas suas dependências, entretanto, o planejamento e programação do curso obedeceriam aos critérios da Faculdade joaçabense.

Em 1987, através do Parecer 444/87, foi aprovado o funcionamento do curso de Educação Física, anos de reivindicações. Conforme citado anteriormente, o novo curso obteve amplo apoio, tanto do poder público, quanto da sociedade civil.

Em 1988 foi aprovado o curso de Educação Física, através do decreto 97.148, de 30/11/1988. Deste modo, a FEAUC passou a oferecer os cursos de Enfermagem e Obstetrícia, Ciências Contábeis, Educação Física, Pedagogia, e Ciências – Habilitação em Biologia.



A transição para universidade: a criação da UnC
No início dos anos 1990 o país ingressava em uma nova fase, permeada pelo discurso democrático e de renovação administrativa do aparelho estatal, infectado pela burocracia.

O discurso liberal, que havia apoiado vigorosamente o governo militar, a presença marcante do Estado na economia, e seu rígido controle social, transfigurou-se numa crítica total ao mesmo.

A partir do primeiro governo de Fernando Henrique Cardoso, iniciou-se um processo de roubo do patrimônio público, através de privatizações irresponsáveis a preços módicos. Mesmo empresas de alta lucratividade, como a mineradora Vale do Rio Doce, foram entregues ao domínio estrangeiro.

Ao contrário do discurso burguês, essa venda de parte do Estado não teve contrapartida “em investimentos sociais e produtivos”. Os recursos obtidos foram utilizados “[...] para pagamentos a credores externos”. (COSTA, 2004, P. 50).

De acordo com Pedro Borges, essa política privatista atestou sua ineficiência ao não promover a competitividade da economia brasileira, nem estabilizar o Estado com os “cortes de custos”. (COSTA, 2004, P. 50). Ao contrário, intensificou o controle de capitais externos no país em detrimento das condições de vida da massa trabalhadora.

A educação atravessava um período de adaptação à nova realidade, caracterizada principalmente pela abertura total dos mercados à “concorrência” estrangeira, e pelo auge da globalização da exploração capitalista a nível mundial.

As universidades foram obrigadas a se adequar a nova realidade, e responder de forma contínua às contínuas mudanças tecnológicas, de mercado, entre outras. Os cursos voltados às ciências humanas, predominantes nas instituições públicas, entraram em crise.

Foram abandonados pelas políticas de financiamento de pesquisas científicas, e reduzidos à marginalidade nas universidades. O mercado de trabalho se tornou cada vez mais hostil para os egressos dessa área

Nesse período, o estado de Santa Catarina, que possuía duas instituições de ensino superior públicas (UFSC e UDESC) e 17 fundacionais municipais, realizou uma reforma administrativa baseada na descentralização das decisões, em favor do interior.

Objetivava-se a criação de um plano de desenvolvimento integrado. Referente à educação superior, destacou-se a constituição de um Sistema Catarinense de Ensino Superior.

Em 1992 foi criado um fórum de discussão no intuito de atualizar a educação para a nova realidade socioeconômica. Os objetivos, métodos e cursos disponibilizados pelas IES deveriam ser revistos.

Conforme o documento do Fórum de Educação Superior de Santa Catarina (1992), esse sistema tinha por base:

- Atitude de interdependência das faculdades isoladas quanto às políticas e projetos educacionais, visto que elas foram criadas para atender demandas locais e microrregionais;

- planejamento estadual integrado, no que se refere às decisões comuns de todo o sistema educacional;

- desenvolvimento de um projeto para aperfeiçoamento e manutenção dos recursos humanos, objetivando a melhora da educação e preparação para demandas futuras.

O processo educativo, teoricamente, foi modernizado. Foram introduzidas novas tecnologias, representadas, principalmente, pelos cursos técnicos, e modelos pedagógicos alternativos, como os cursos à distância.

Acrescente-se ainda, a implementação de políticas de pesquisa, extensão e pós-graduação, baseada na cooperação entre as faculdades, com recursos provenientes das prefeituras e iniciativa privada.

No oeste os integrantes da FEMOC trabalhavam no sentido de concretizar o projeto da Universidade do Meio Oeste Catarinense (UNIMOC).


“Assim sendo, a UNIMOC constitui-se em Centros de Ensino, Pesquisa e Extensão, com funções deliberativas e executivas, cuja Mantenedora da Unidade agregada continua no exercício de sua autonomia administrativa, financeira e patrimonial.” (PROJETO DE CARTA-CONSULTA PARA CRIAÇÃO DA UNIVERSIDADE REGIONAL DO MEIO-OESTE CATARINENSE – UNIMOC, 1990, p. 78).
Em outras palavras, cada campus manteria sua autonomia administrativa, financeira e patrimonial. Ficariam submetidos apenas às políticas gerais de ensino, pesquisa e extensão.

Entretanto, no mesmo ano, o projeto da UNIMOC, foi paralisado e extinto devido a um impasse político. Joaçaba e Videira não aceitaram “[...] a votação que deu a Caçador a sede da Unimoc. Os dirigentes das referidas Fundações [...] resolveram entrar com uma Carta-Consulta própria para a criação de uma universidade regional junto ao Conselho Federal de Educação”. (O VALE, 10/04/1990).

De tal modo, tentavam viabilizar a implantação da Universidade do Vale do Rio do Peixe (UNIVARP), o qual contava com apoio político do Partido da Frente Liberal (PFL) no estado.

Neste ímpeto de inovação e reestruturação do sistema educacional, iniciou-se o projeto muti-campi da Universidade do Contestado – UnC. Cinco instituições fundacionais municipais se uniram “[...] numa única instituição denominada Federação das Fundações Educacionais do Contestado – FENIC, mantenedora da União os Centros de Ensino Superior do Contestado – futura Universidade do Contestado – UnC [...]”. (UNIVERSIDADE DO CONTESTADO – UNC – PROJETO, p. 16)

A FENIC foi criada em 28 de março de 1990, através da associação das faculdades isoladas de: Caçador (FEARPE), Canoinhas (FUNPLOC), Concórdia (FEAUC), Curitibanos (FEPLAC) e Mafra (FUNORTE).

Sua estrutura jurídica e organização hierárquica eram semelhantes à UNIMOC, conforme o trecho do Regimento Acadêmico Unificado da FENIC (1991, p. 3): “Art. 5º - Os Centros de Ensino Superior da FENIC gozam de autonomia administrativa, didático-científica e disciplinar [...]”.

Desde o início de seu projeto, a instituição caracterizou-se pelo caráter regional. Sua organização, distribuição dos campus, e filosofia acadêmica estavam direcionados para o meio-oeste de Santa Catarina. “[...] será uma universidade da região e para região.” (A REGIÃO DO CONTESTADO RUMO À UNIVERSIDADE, 1990, p. 04)

É importante destacar a importância da universidade. Segundo o jornal A Notícia (31/03/1990, p.8), significa a “[...] concretização de um dos maiores sonhos da sociedade do Meio-oeste catarinense”.

O nome Universidade do Contestado é oriundo da história da região, em alusão à Guerra do Contestado, Pois todos os campus encontram-se nas áreas limítrofes onde se deflagrou o conflito.

Seu objetivo não é ser apenas uma instituição ligada a uma região geográfica. Mas a uma realidade histórica e humana. Baseada na realidade que a circunda, “seus fins são públicos porque sua origem é comunitária e todos os seus serviços voltam-se para a coletividade.” (UNIVERSIDADE DO CONTESTADO – UNC – PROJETO, p. 1,2).

A criação da UnC justificou-se pela distância das universidades mais próximas (em média 250 km), pela ausência de cursos que atendam agroindustrial, predominante na região, e carência de profissionais especializados em diversas áreas. Ao mesmo tempo, busca criar um sentimento coletivo regional de unidade cultural e econômica.

Situada no meio do estado de Santa Catarina, entre o oeste e o litoral, a universidade engloba as microrregiões do Alto Vale do Rio do Peixe, Alto Uruguai, Meio-Oeste, Vale do Canoinhas, Planalto Norte e parte da Serra e Alto Irani.

Em 1990 essa área abrangia 49 municípios, num total de 31.716 km2 (33% do total do estado), onde residiam 800.819 habitantes (17% do total estadual). Seguem abaixo mapa e tabela demonstrativos (A REGIÃO DO CONTESTADO RUMO À UNIVERSIDADE, 1990, p. 06, 08).

:

Figura 5: Mapa de abrangência da Universidade do Contestado

Figura 6: Tabela demonstrativa de abrangência da Universidade do Contestado

O campus do Alto Uruguai envolvia os municípios de Concórdia (sede), Seara, Xavantina, Ipumirim, Arabutã, Itá, Irani, Lindóia do Sul, Presidente Castello Branco, Peritiba, Alto Bela Vista, Arvoredo, e Paial. Segue mapa demonstrativo abaixo:

Figura 7: Mapa demonstrativo do Alto Uruguai Catarinense


Sua forma de gerenciamento manteve a proposta original da UNIMOC, a qual previa uma instituição multi-campi com políticas gerais de ensino, pesquisa e extensão. Em contrapartida, propiciava liberdade de atuação administrativa e financeira e patrimonial para cada campus. Diferente do sistema filial-matriz, esta possibilita a participação de segmentos da comunidade local nas decisões institucionais.

Conforme o Projeto da UnC (1991), a universidade tem o compromisso de resgatar a história da região, e desenvolver sua cultura, economia e bem-estar. Para isso, parte do princípio de “vocação econômica”, ou seja: cada campus deveria desenvolver suas atividades de ensino, pesquisa e extensão considerando as necessidades e particularidades da economia local.

Entretanto, dispensará maior atenção para as atividades dos setores primário e secundário de intensidade e extensão relevantes, como é o caso dos sistemas produtivo integrados envolvendo a agroindústria.

Segue abaixo “demonstrativo do potencial externo e interno [...]” de cada campus e sua área de abrangência (UNIVERSIDADE DO CONTESTADO – UNC – PROJETO, p. 17):




Denominação

Vocacionamento externo e interno

Campus I - Caçador

- Destaque para a cultura florestal e industrialização de madeira, móveis, celulose, couro, calçados, fruticultura, olericultura e metal-mecânica.
- Ênfase nas Ciências Humanas, Sociais e Administrativas, na Informática e Processos Industriais

Campus II - Concórdia

- Destaque para a pesquisa e indústria em aves e suínos e equipamentos agroindustriais.
- Ênfase nas Ciências Biológicas, Saúde, e Pesquisa em Genética Animal.

Campus III - Canoinhas

- Destaque para cultura de floresta, celulose e laminados, erva-mate e cereais.
- Ênfase nas Ciências Administrativas e Agro-Florestais.

Campus IV - Mafra

- Destaque para o comércio, equipamentos agrícolas, cultura do fumo, agricultura e móveis.
- Ênfase nas Ciências Exatas e História.

Campus V - Curitibanos

- Destaque para cultura de alho, industrialização de madeira, fruticultura, bovinocultura.
- Ênfase nas Ciências Administrativas e Rurais.

A partir de 1992 a UnC iniciou a implementação de seis novos cursos, com o objetivo de cumprir duas exigências básicas referente a um centro universitário.

A primeira diz respeito ao mínimo de quatro cursos na área fundamental do conhecimento humano. Visto que havia somente três, decidiu-se implantar a faculdade de História.

A segunda exigência referia-se à demanda econômica da região. Entre 1992 e 1993 foram previstas as implantações dos cursos de medicina veterinária, engenharia florestal, tecnologia em fruticultura, tecnologia em processamento de dados e tecnologia em industria de madeira.

Posteriormente, em outra etapa, seriam contempladas as áreas do direito, agronomia, engenharia mecânica, economia, pedagogia – séries iniciais, entre outros.

No mesmo período foram criados os programas de pós-graduação, em parceria com empresas privadas e públicas, e outros centros educacionais. Dessa forma, institucionalizar-se-ia a pesquisa com a finalidade de promover a qualificação permanente do quadro docente.

“Se não chegar à pesquisa, a universidade não ultrapassará o nível de 2º grau melhorado. Se a universidade não criar ciência, será dispensável”. (UNIVERSIDADE DO CONTESTADO – UNC – PROJETO, p. 113). Acrescentamos que, sem pesquisa não há docência no seu sentido pleno. Apenas troca de informações recicladas.

Entre 1992 e 1996 foram instituídas duas linhas de pesquisa, as quais refletem a preocupação com a história e cultura da região, e seu desenvolvimento econômico:

- História cultural e regional: tem como problemática central os aspectos culturais, políticos e sociológicos. Desde sua criação esteve ligada ao Instituto Histórico e Antropológico do Contestado, e ao sistema municipal de ensino de primeiro e segundo graus.

Foram oferecidos os seguintes cursos: história social, política e econômica do contestado; educação popular; serviço social comunitário;


A era Pacheco: decadência e crise
Em 1993 foi realizada uma eleição interna para o cargo de Diretor-Presidente da Universidade do Contestado – campus Concórdia, através de uma assembléia restrita aos órgãos representantes dos alunos, professores e sociedade civil.

Com o apoio do Então prefeito integrante do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), Moacir Sopelsa, o advogado José Plínio Garcia Pacheco, também do PMDB foi eleito para o mandato de três anos.

O antecessor de Pacheco, Neivor Canton, era membro do Partido Democrático Social (PDS), assim como o ex-prefeito da gestão anterior a Sopelsa, Odacir Zonta. Conforme O Jornal (1993, Ed. 795), “a saída de Canton era esperada. Com a troca partidária no governo municipal, a influência do Diretor dentro da prefeitura praticamente acabou”.

Ainda conforme O Jornal (1993, Ed. 795), “Como o campus local é basicamente mantido pela prefeitura, tem sido comum nos últimos anos colocar na direção administrativa alguém fiel politicamente ao partido que governa o município”.

Em outras palavras, a eleição para o cargo mais importante na hierarquia do campus local, não obedecia nenhum critério ligado à educação. Era apenas mais uma “trincheira política” conquistada, na disputa partidária pelo poder, e pelo dinheiro. O conhecimento como produto final, os acadêmicos, o esforço do professorado, a própria instituição, ficavam relegados ao segundo plano.

É importante destacar que o Diretório Central dos Estudantes (DCE) também manifestou apoio ao novo diretor-presidente por meio de sua direção. Entretanto, a massa acadêmica, demonstrou descontentamento com a atitude.

De acordo com O Jornal (1993, Ed. 796), Zanir Duarte, então presidente, era “[...] funcionário da UnC [...]”, deixando –o “[...] numa situação contraditória para a defesa dos interesses dos estudantes”.

Após a promulgação da Lei de Diretrizes e Bases (LDB) de 1996 – Lei nº. 9394/96, “o conjuntos das relações sociais de produção estão, desta forma, dentro da universidade e se transformam gradativamente em padrões de comportamento”. (BOGONI, 2002, p. 52).

O papel da universidade ficou indefinido, refletindo a situação da própria UnC.
Ela “não sabe se faz ensino de graduação, ensino de pós-graduação, pesquisa, extensão ou outros serviços [...], não tem condições de desenvolver todos esses papéis [...], pratica-se de tudo um pouco. Há que se atribuir papéis específicos aos diversos tipos de instituições”. (BOGONI, 2002, p. 61).

Este artigo, produto inicial da pesquisa que objetiva a construção da história da FEAUC/UnC, sem dúvida provocou-nos muito mais perguntas do que propriamente resposta. São estas perguntas que nos instigam a continuidade da pesquisa.

O estudo foi desenvolvido através de pesquisa bibliográfica e documental. Foram coletados documentos oficiais da criação da FEAUC na secretaria da UnC e em arquivos particulares, bem como buscou-se informações nos jornais da época.

Essa proposta é, também, uma tentativa de criar um elo entre o passado, o presente e o futuro, na busca de compreender melhor o caminho a seguir. Isso porque em nenhum momento o historiador pode estar de costas para a atualidade, no sentido de olhar só para o passado. A ele cabe olhar para o tempo, mas a partir do seu tempo. As perguntas que nós fazemos sempre têm uma relação com o presente e o futuro. Nesse sentido, ressaltamos que o projeto tem especial significado para nós, futuros historiadores e profissionais da educação.



CONCLUSÃO
Existem dois tipos de instituições de ensino superior no Brasil: Públicas (federais, estaduais ou municipais); e privadas ou comunitárias (como as universidades do sistema fundacional catarinense)

As primeiras, geralmente recebem vultosos investimentos para qualificação dos docentes, e realização de pesquisa científica. Seu ingresso, através do vestibular, exige um nível de conhecimento que os ensinos fundamental e médio, públicos, não proporcionam. Logo, exclui as camadas populares.

Em síntese, são universidades e centros de pesquisa que formam o pensamento da elite política e econômica do país, e legitimam sua dominação de sobre a classe trabalhadora.

Os rumos da economia, a organização dos sistemas tributário e jurídico, as diretrizes da educação, a política externa, entre outros, são pensados pela, e para a burguesia.

No outro extremo, estão as universidades para pobres, e classe média-baixa. São instituições criadas com o intuito de formar mão-de-obra qualificada para suprir as necessidades imediatas do capital, e explorar outro nicho de mercado.

Suas políticas de pesquisa, extensão e qualificação de professores são uma mescla de retórica e assistencialismo burguês, sem um objetivo claro. Rosa Bogoni (2002, p. 61), afirma que tais estabelecimentos não sabem se fazem “[...] ensino de graduação, ensino de pós-graduação, pesquisa, extensão ou outros serviços [...], pratica-se de tudo um pouco [...]”.

Seus acadêmicos, ao formar-se, possuem a ilusão de ascensão social, enquanto foram apenas dilapidados para serem a elite produtiva. Geralmente, assumirão os postos de chefia dos assalariados semi-alfabetizados, mas sempre nos limites impostos pela classe burguesa.

Nesse contexto, a contribuição da FEAUC e UnC para o desenvolvimento socioeconômico do Alto Uruguai Catarinense é inegável. Houve o aumento e diversificação das atividades econômicas, assim como o aumento da qualificação profissional de uma parcela da população.

Entretanto, devemos nos atentar para o fato de a UnC ter sido criada para satisfazer as necessidades das elites do oeste catarinense. Foi edificada pelo, e para o capital. Suas políticas e diretrizes não apresentam uma contestação, ou reflexão a respeito do modo de produção, da organização das forças produtivas, ou das relações entre os indivíduos.

REFERÊNCIAS
A NOTÍCIA, Florianópolis, 1990, p.8.

A REGIÃO do contestado rumo à universidade, 1990, p. 04.

BOGONI, Rosa Tereza Hentz. Universidade e Estado: os estratégicos limites da pesquisa. Caçador: Universidade do Contestado, 2002.

BRUNETTO, Élio João. O Jornal, Concórdia, 15/08/1981, Edição 193, p.3.

BRUNETTO, Élio João. O Jornal, Concórdia, 10/07/1982, Edição 238, p.6.

BRUNETTO, Élio João. O Jornal, Concórdia, 29/07/1982, Edição 239, p.6.

BRUNETTO, Élio João. O Jornal, Concórdia, 26/03/1983, Edição 275, p.7.

BRUNETTO, Élio João. O Jornal, Concórdia, 12/11/1983, p.12.

BRUNETTO, Élio João. O Jornal, Concórdia, 2603/1993, Edição 796.

CAUSAS das Desistências dos Universitários da FEAUC no Período de 1978 a 1980, Concórdia, 1981, p. 20.

COSTA, Silvio (org.). Concepções e Formação do Estado brasileiro. São Paulo: Anita Garibaldi, 2004.

O VALE, Joaçaba, 1990.

PARECER 846/81. Conselho Estadual de Educação – Ministério da Educação e Cultura, Florianópolis, 1981.

PROCESSO 476/79. Conselho Estadual de Educação, Florianópolis, 1979.



PROJETO de Carta-Consulta para criação da universidade regional do meio-oeste catarinense - unimoc, 1990, p. 78.

UNIVERSIDADE do Contestado – UnC - Projeto, 1990, p. 16.
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